"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

domingo, novembro 02, 2008

Autoridades proibem transmissão de canais em línguas estrangeiras e Moscovo ameaça responder

darussia.blogspot.com - 01/11/08



A partir de hoje, os operadores de televisão por cabo da Ucrânia ficam proibidos de transmitir programas que não estejam dobrados em língua ucraniana.
A medida é tomada com vista a proteger a língua ucraniana e, em Junho passado, as autoridades já tinham proibido a exibição de filmes não dobrados em ucraniano nas salas de cinema do país.
Esta proibição, que atinge também quatro canais russos, está a provocar na Rússia uma onda de indignação e alguns políticos pedem que Moscovo recorra ao exemplo da Ossétia do Sul para dar uma lição à Ucrânia.
“Os cidadãos ucranianos russófonos são cidadãos de pleno direito no seu país e têm direito a falar em russo, a ver a televisão em língua russa”, declarou Grigori Karassin, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia.
“Trata-se de um sintoma não muito saudável que deve preocupar não só a Rússia, mas também os cidadãos da Ucrânia”, sublinhou.
Iúri Lujkov, Presidente da Câmara de Moscovo, apelou ao Krelim a tomar medidas contra o que considera ser uma “onda de russofobia”.
“Nos últimos anos, depois da chegada de Iuschenko (Presidente da Ucrânia) ao poder, uma onda de russofobia varreu literalmente a Ucrânia. Precisamos não só de constatar a deterioração colossal da situação, mas tomar medidas, nomeadamente ao nível de Estado”, declarou Lujkov, na Conferência Mundial de cidadãos russos que residem no estrangeiro.
Iúri Lujkov defende também a devolução da península da Crimeia à Rússia, território na costa do Mar Negro que passou para a Ucrânia em 1954.
O dirigente moscovita sublinhou que as acções da Rússia durante a guerra na Ossétia do Sul, em Agosto passado, são “um bom exemplo” de defesa dos interesses dos cidadãos russos.
Serguei Mironov, dirigente do Senado russo, defende posição semelhante: “A Rússia não esquecerá e não abandonará os seus cidadãos no estrangeiro em situações difíceis. O melhor exemplo disso são as acções da Rússia com vista à defesa dos seus cidadãos no conflito entre a Geórgia e a Ossétia do Sul”.
Na cidade de Sebastopol, capital da Crimeia, república autónoma da Ucrânia onde a maioria da população é russófona, o Conselho Municipal anulou a decisão das autoridades de Kiev, considerando que ela é “ilegal” e que o direito dos cidadãos a receber informação em russo é “inabalável”.

Sob a lógica de Maquiavel

Le Monde Diplomatique Brasil - Set 08

GOVERNO BUSH

Um documento do Comando Estratégico do Exército norte-americano recomenda, de modo explícito, que o país evite parecer racional e controlável – e que sugira ser capaz de desatinos. Aparentemente insanas, as sugestões remetem, em pleno século 21, a certos pontos de vista enunciados em O Príncipe

Jacques Derrida

O príncipe, de Maquiavel [1] debate, em seu capítulo XVIII, intitulado “De que modo os príncipes devem manter a fé da palavra dada”, uma questão extremamente atual: o respeito dos soberanos diante dos compromissos perante uma instituição ou de um terceiro qualificado. Por exemplo, o respeito (ou não), por parte dos Estados Unidos ou Israel, às resoluções das Nações Unidas.

Ora, saber “De que modo os príncipes devem manter a fé da palavra dada” ou “Se os príncipes devem ser fiéis aos seus juramentos” parece uma questão inseparável daquela do que é “próprio do homem”. E essa dupla questão, que aparenta ser apenas uma, é tratada de uma maneira interessante. Pode-se ver passar aí não somente o lobo, mas também animais um pouco mais complexos.

A questão do que é “próprio do homem” é, com efeito, colocada no centro de um debate sobre a força da lei, entre a força e a lei. Nesse capítulo, um dos mais maquiavélicos de Maquiavel, este começa por admitir um fato (destaco a palavra fato): de facto, julgamos louvável a fidelidade de um príncipe aos seus juramentos. Depois do que se assemelha a uma concessão, Maquiavel volta, então, ao fato, que efetivamente nunca deixou. Poucos príncipes são fiéis, poucos príncipes respeitam seus juramentos, e a maioria se vale de subterfúgios. Eles agem quase sempre dessa maneira com relação aos seus juramentos, pois são constrangidos a fazê-lo.

Pudemos constatar, diz ele, que os príncipes mais fortes, aqueles que venciam, venciam os que, ao contrário deles, tomavam por regra o respeito ao seu juramento. “Devemos, pois, saber (Maquiavel se dirige tanto a Lorenzo de Médici quanto ao leitor) que existem dois gêneros de combates: um com as leis e outro com a força.”. A partir daí, Maquiavel tira as mais estranhas conclusões, que devemos analisar de perto. Combater com as leis, afirma ele, é “próprio do homem”, um argumento kantiano em seu princípio: não mentir, não dever mentir nem cometer perjúrio, isso é o próprio homem e sua dignidade.

A segunda maneira de combater (combater com a força) é a dos animais. A força e não a lei, a razão do mais forte: é isso que é o “próprio do animal”. Depois desse segundo tempo, Maquiavel faz constar que, de fato, o primeiro modo de combate (com a lei) não é suficiente. Permanece, na verdade, impotente. É preciso, então, na realidade, recorrer ao outro modo. É preciso que o príncipe combata com as duas armas, a lei e a força. É preciso, portanto, que se conduza como homem e como animal. e que um príncipe “saiba empregar convenientemente o animal e o homem”.

O Stratcom recomenda que se intimide o inimigo. Não apenas com a ameaça da guerra nuclear e do bioterrorismo, mas sobretudo com a imagem de um adversário (os Estados Unidos...) que perder as estribeiras e o sangue frio

Quando a ação por meio da lei é fraca ou impotente, torna-se necessário conduzir-se como animal. O príncipe humano deve agir como se fora uma besta. “Isto já foi ensinado aos príncipes, em palavras veladas, pelos escritores antigos. Eles escreveram que Aquiles e muitos outros príncipes antigos haviam sido criados por Quíron, o centauro, que os guardara sob sua disciplina. Ter um preceptor meio animal, meio homem, não quer dizer outra coisa senão que um príncipe deve saber usar ambas as naturezas e que uma sem a outra não é duradoura.”

Não insistamos demais sobre a parte humana desse príncipe-centauro, desse soberano que é aluno e discípulo de centauro. Maquiavel prefere assinalar a necessidade dessa parte animal ser, ela mesma, híbrida, heterogênea, um misto ou um enxerto de dois animais: o leão e a raposa. Não apenas um animal, mas dois em um. “Sendo, portanto, um príncipe obrigado a bem servir-se da natureza do animal, deve dela tirar as qualidades da raposa e do leão. Pois este não tem defesa alguma contra os laços, e a raposa, contra os lobos. Precisa, pois, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Os que se fizerem unicamente de leões não serão bem-sucedidos.”

Aqui, o inimigo jurado é sempre um lobo. O animal a ser caçado, rechaçado, reprimido, combatido, é o lobo. Trata-se de “se defender contra os lobos”. Se o leão sozinho não é suficiente para aterrorizar os lobos, é preciso, ao menos, e graças à habilidade da raposa, aterrorizar os terroristas, como dizia Charles Pasqua, ministro do Interior francês. Isto é, fazer-se crer como potencialmente mais formidável, mais aterrador, mais cruel, mais fora-da-lei do que os lobos, símbolos da violência selvagem.

Sem multiplicar demais as ilustrações contemporâneas e bastante evidentes desses discursos, contento-me em recordar aquilo que constata Noam Chomsky em seu livro sobre os Estados delinqüentes [2]. Para responder às ameaças daquilo que chamamos de “terrorismo internacional” da parte dos estados delinqüentes [3], o Stratcom (Comando Estratégico dos EUA), recomenda que se intimide o inimigo. Não somente com a ameaça da guerra nuclear (que é preciso sempre fazer pesar) e do bioterrorismo, mas sobretudo ao amedrontar o inimigo com a imagem de um adversário (os Estados Unidos, claro) que pode sempre fazer o que quiser, como um animal; que pode perder as estribeiras e o sangue frio; que pode deixar de agir racionalmente, como homem racional, quando seus interesses vi tais estão em jogo.

Não é preciso mostrar-se muito “racional”, diz a diretiva, na determinação daquilo que é o mais precioso para o inimigo. Dito de outra forma, é necessário mostrar-se cego, fazer saber que podemos ser cegos e animais na determinação dos nossos alvos, precisamente para meter medo e fazer crer que agimos não importa como; que enlouquecemos, quando os interesses vitais são tocados. É preciso fingir ser capaz de ficar louco, insano, irracional, logo, animal. É “nocivo”, diz uma das recomendações do Stratcom, nos retratarmos como muito racionais e com sangue frio. “Ao contrário disso, é ‘benéfico’ para nossa estratégia fazer certos elementos parecerem estar ‘fora de controle’.”

O príncipe deve ser uma raposa não somente para ser manhoso como a raposa, mas para fingir ser aquilo que ele não é e não ser aquilo que é. Portanto, deve fingir não ser uma raposa, embora, na verdade, seja uma

Essa capacidade de fingir, esse poder de simulacro – é isso que o príncipe deve adquirir para disfarçar-se com as qualidades da raposa e do leão. A própria metamorfose é um subterfúgio humano, um subterfúgio do homem-raposa, que deve fingir que não se trata de subterfúgio. Aí está a essência da mentira, da fábula ou do simulacro. Apresentar-se como a verdade ou a veracidade, jurar fidelidade, será sempre a condição da infidelidade. O príncipe deve ser uma raposa não somente para ser manhoso como a raposa, mas para fingir ser aquilo que ele não é e não ser aquilo que é. Portanto, deve fingir não ser uma raposa, embora, na verdade, seja uma. É sob a condição de ser uma raposa, ou que se torne uma raposa, ou que aja como uma raposa, que o príncipe poderá ser, ao mesmo tempo, homem e animal – e este, leão e raposa. Só uma raposa pode metamorfosear-se dessa maneira, pode agir de modo a assemelhar-se a um leão. Um leão não pode fazê-lo. A raposa deve ser raposa o bastante para fazer o papel de leão e para chegar a “saber disfarçar bem essa natureza” de raposa. Lendo algumas linhas vocês verão que Maquiavel tem um exemplo em mente. Ele faz o elogio matreiro de um príncipe-raposa do seu tempo:

*g Assim, um príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se torna prejudicial, ou quando deixem de existir as razões que o haviam levado a prometer. Se os homens fossem todos bons, esse preceito não seria bom, mas como são maus e não mantêm sua palavra para contigo, não tens também que cumprir a tua. Tampouco faltam ao príncipe razões legítimas para desculpar sua falta de palavra. Sobre isso poderíamos dar infinitos exemplos modernos e mostrar quantos pactos e quantas promessas se tornaram inúteis e vãs por causa da infidelidade dos príncipes. Quem melhor se sai é quem melhor sabe valer-se das qualidades da raposa. Mas é necessário saber disfarçar bem essa natureza e ser grande simulador e dissimulador, pois os homens são tão simples e obedecem tanto às necessidades presentes que o enganador encontrará sempre quem se deixe enganar”.

É útil lembrar exemplos da nossa modernidade. Hannah Arendt insistia: os Estados soberanos mais poderosos são aqueles que, submetendo aos seus interesses o direito internacional, propõem – e de fato produzem – as limitações de soberania dos estados mais fracos. Às vezes chegam até a violar, ou a não respeitar, o direito internacional para cuja instituição contribuíram. Chegam até a violar as instituições desse direito internacional. Ao fazê-lo, acusam os Estados mais fracos de não os respeitarem e de serem estados-canalhas ou, em inglês, Rogue States – isto é, Estados fora-da-lei, como aqueles animais que chamamos de chamados de “desgarrados” por não se dobrarem nem mesmo à lei de sua própria sociedade animal. Esses Estados poderosos sempre dão e se dão razões para justificarem-se, mas não têm necessariamente razão. Têm a razão menos potente entre todas. Irrompem então como animais cruéis, selvagens ou cheios de raiva.



[1] O Príncipe está disponível, na íntegra, no site Domínio Público

[2] Chomsky, Noam. Rogue States: the rule of force in world affairs. Cambridge, South End Press, 2000.

[3] Lembro que a palavra rogue, utilizada para “canalha” em inglês, pode designar também os animais que não respeitam nem mesmo os hábitos da sociedade animal e se desgarram do grupo

A moral camaleônica

Le Monde Diplomatique Brasil - 13/09/08


É delicioso resgatar os argumentos lançados pela mídia em 1997, em favor da reeleição de FHC. Comparados com a grita contra um terceiro mandato de Lula, eles revelam a tendência a adaptar-se às circunstâncias, típica do camaleão. Mesmo que, confirmando sua essência, ele finja ser outro animal...

Guilherme Scalzilli

(13/09/2008)

Os governos Lula suscitaram extensas discussões sobre a compatibilidade entre discurso ético e pragmatismo político-eleitoral. Talvez para dissociar-se dos defensores do presidente e estigmatizar seu constrangimento relativista sobre o assunto, a imprensa oposicionista lançou-se numa cruzada de ultralegalismo cívico, que logo receberia colorações partidárias.

Um dos aspectos negativos dessa vertente “cidadã” de tolerância zero é, paradoxalmente, sua permissividade conceitual. A abrangência normativa permite a assimilação de uma grande variedade de preceitos, entre os quais aqueles que aspiram a certa superioridade moral, mas não passam de enunciados discutíveis, contraditórios ou apenas tolos, que a ortodoxia acrítica transforma em dogmas sobrenaturais.

O fetichismo da conduta ideal do administrador revela então seu caráter artificial e ideológico, permitindo a deterioração da moralidade (sistema pessoal de valores) em moralismo oportunista, alimentado para enquadrar adversários e isentar aliados em tempos pré-eleitorais. A manipulação da subjetividade “transcendental” dos princípios morais confere imanência atemporal e incontestável a repertórios de condutas engendrados circunstancialmente, sujeitos às conveniências de seus formuladores.

Analisemos, como exemplo, as reações ao suposto terceiro mandato de Lula.

Hoje parece consensual que mudar as regras eleitorais para favorecer governantes em exercício significa uma afronta aos princípios que regem (ou deveriam reger) a conduta do homem público. A simples hipótese de permitir a Lula candidatar-se em 2010 suscitou indignação uníssona. Os precedentes plebiscitários utilizados por Hugo Chávez e Evo Morales rondam as redações como fantasmas hostis arrastando picaretas. Editoriais e colunas horrorizados defendem a alternância de poder e vociferam que nada justifica a perpetuação de governantes.

Mas não foi sempre assim.

Lembremos a fatídica noite de 28 de janeiro de 1997: por volta das nove horas, o presidente da Câmara dos Deputados, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), decretou a primeira vitória da emenda que permitia a reeleição para cargos executivos. Gritos de “Uh, tererê!” soaram no plenário. Luís Eduardo foi abraçado pelo pai, o senador Antônio Carlos Magalhães, em prantos. Meia hora depois, através do porta-voz Sérgio Amaral, o presidente Fernando Henrique Cardoso rejubilava-se por saber que o Congresso votara “em sintonia com a opinião pública”.

Ressalte-se que a decisão dos deputados, depois confirmada pelos senadores, era juridicamente problemática. Segundo certas interpretações, a reeleição de mandatários em pleitos subseqüentes significava alteração de cláusula pétrea da Constituição de 1988 (Direitos e Garantias Fundamentais), que teoricamente só poderia ser realizada por Assembléia Constituinte. Também o artigo 5º da Carta (Isonomia) teria sido aviltado.

O governo FHC desfrutava de amplo apoio midiático. A popularidade do presidente bastava para legitimar uma discutível intervenção legislativa e até o recurso extremo do referendo – expedientes que, naquele momento, soavam “democráticos”

Desde a proposição da mudança, dois anos antes, a imprensa debatia quase diariamente o tema. Alheios à controvérsia legal, todos os grandes veículos defenderam a reeleição, com destaque para o jornal Folha de São Paulo. Editorial de 8 de novembro de 1985 já afirmava “não haver maiores inconvenientes em defender a reeleição.” Depois (5/1/1996), o editorial “Reeleição popular” comemorou pesquisa de opinião sobre o tema: “a população vê com bons olhos a chance de renovar os mandatos dos que vêm a se mostrar bons governantes. (...) Entre a candidatura e a renovação do mandato estará sempre o democrático e o inquestionável veredicto das urnas.”

O Tribunal Superior Eleitoral, presidido pelo ministro Ilmar Galvão, atestou que os ocupantes de cargos executivos não precisariam se desincompatibilizar para disputar suas reeleições. Diversos juristas renomados, como Miguel Reali Júnior, apoiaram a decisão. Os analistas concordaram: “Não é o caso de defender que o presidente também se desincompatibilize”, escreveu Valdo Cruz, entre muitos, na Folha (3/2/97).

Mas será que aqueles argumentos não corroborariam a tese do terceiro mandato de Lula? No parecer que permitiu aos mandatários continuarem em seus cargos, os ministros do TSE entenderam que a emenda da reeleição pressupunha o direito do eleitor optar pela continuidade administrativa (daí a desincompatibilização ser desnecessária). Ora, seguindo rigorosamente essa abordagem doutrinária, o número de reeleições jamais poderia ser limitado.

A mesma preferência popular pela manutenção do administrador, soberana e legítima, poderia ser estendida para novos mandatos, além do segundo. O eleitor, que possui prerrogativas para instituir (e eventualmente depor) governantes, também é capaz de decidir por quanto tempo ficarão no poder. Seria antidemocrático frustrar o “inquestionável veredicto das urnas” também quanto ao terceiro mandato.

Para dirimir possíveis questionamentos sobre a vontade popular, a Constituição Federal prevê o instrumento do plebiscito, um dos pilares da democracia participativa. Aliás, foi justamente a consulta popular que a Folha e outros veículos defenderam em 97, para evitar o fisiologismo nas decisões do Congresso.

Se há algum vestígio de golpismo ou manobra casuística nesses argumentos, devemos então creditá-los ao egrégio TSE, à Carta Magna e aos apologistas da reeleição. Acontece que, há onze anos, o governo FHC desfrutava de amplo apoio midiático. A execução de seu programa reformista e a sobrevivência do Plano Real pareciam depender da continuidade reeleitoral, ostensivamente defendida por editoriais e colunas políticas. A popularidade do presidente bastava para legitimar uma discutível intervenção legislativa e até o recurso extremo do referendo – expedientes que, naquele momento, soavam “democráticos”.

Mudaram os fundamentos do Estado de Direito ou mudou a imprensa? Pergunta retórica. A permanência dos primeiros independe das conveniências dos grupos momentaneamente hegemônicos. Quanto à flagrante incoerência jornalística, ela apenas evidencia um padrão de comportamento: adaptar-se às circunstâncias define a própria natureza do camaleão. Mesmo que ele, confirmando sua essência, finja ser outro animal.

Leia mais:

“A imprensa escrita na era FHC”, de Rodrigo de Carvalho.

“A agenda da mídia na campanha presidencial de 1998”, de Fernando Antônio Azevedo.

“Reflexões acerca do instituto da reeleição”, de Moacir Mendes Souza.

UM PAPEL PARA OS HUMANISTAS

Site do Azenha - Atualizado e Publicado em 01 de novembro de 2008 às 21:45

Num mundo socialmente construído, somos nós que construímos o mundo.

Immanuel Wallerstein

Defendi no meu recente livro, The End of The World As We Know It: Social Science for the Twenty-first Century, que o sistema-mundo moderno está se aproximando do seu fim e entrando em uma era de transição para algum sistema histórico novo cujos contornos não conhecemos, nem podemos conhecer antecipadamente, mas cuja estrutura podemos ajudar ativamente a moldar.

[...]

Sobre os motivos subjacentes à ruptura:

A primeira decorre da desruralização do mundo, que está muito avançada e que provavelmente estará completa, em grande medida, nos próximos 25 anos. É um processo que aumenta inexoravelmente o custo do trabalho como percentagem do valor total criado. A segunda é a consequência a longo prazo da externalização de custos, que levou a um esgotamente ecológico. Isto está fazendo subir o custo dos materiais como percentagem do valor total criado. E a terceira é a consequência da democratização do mundo, que levou a exigências de despesas públicas cada vez maiores com educação, cuidados de saúde e garantias de renda vitalícia. Isto agrava os custos da tributação como percentagem do valor total criado. A longo prazo, a combinação desses três fatores deprime estruturalmente os lucros da produção e torna o sistema capitalista desvantajoso para os capitalistas.

[...]

Esta é uma questão moral: qual é a sociedade boa? Mas é também uma questão intelectual: que tipo de sociedade é possível construir? Possível? Levando em conta o quê? Uma suposta psicologia humana? Um certo nivel de tecnologia? Todas as grandes questões das ciências sociais nos últimos dois séculos têm por trás essa questão moral: o que é sociedade boa? Não estamos mais perto do consenso do que estávamos em 1989, 1968, 1914-1918, 1848 ou 1789 - para mencionar apenas alguns dos grandes momentos de divisão no sistema-mundo moderno.

[...]

O fascismo era e é, como ideologia, a rejeição das reivindicações intelectuais e morais em nome dos direitos da força. "Sempre que ouço a palavra cultura puxo o revólver", diziam os líderes nazistas. Ainda há quem tenha revólveres e aja desta maneira. As escolhas históricas não são piqueniques no campo.

[...]

Aqueles que desejam manter hierarquia e privilégios no futuro sistema social histórico que iremos criar têm duas grandes vantagens sobre o resto de nós. Primeiro, têm ao seu dispor uma enorme riqueza, o poder existente e a capacidade de comprar a competência de que necessitam. São inteligentes e sofisticados. E conseguem organizar-se de forma mais ou menos centralizada. Os que preferem que o futuro sistema social histórico que iremos criar seja um sistema relativamente democrático e relativamente igualitário estão em desvantagem em ambos os aspectos. Têm menos riqueza e poder. E não podem comandar estruturas centralizadas. Em consequência, sua única hipótese é transformar uma limitação em uma vantagem. Têm de se apoiar na sua diversidade. [...] Não podemos fugir à necessidade de criar uma família mundial de movimentos anti-sistêmicos que não pode ter uma estrutura hierárquica, ou, de qualquer maneira, deve ter uma estrutura apenas muito reduzida. [...]

O resultado da luta é muito incerto. Mas, em eras de transição, ninguém pode dar-se ao luxo de ficar de fora.

SERÁ QUE A GERAÇÃO-INTERNET VAI VENCER A PRIMEIRA?

Site do Azenha - Atualizado em 01 de novembro de 2008 às 17:11 | Publicado em 01 de novembro de 2008 às 16:56

Uma das coisas que mais me divertiram durante os vinte anos em que vivi nos Estados Unidos foi observar os chutes dados por "jornalistas", "analistas" e "comentaristas" brasileiros a respeito de lá. Eu, que conheço 45 dos 50 estados do país, nunca me canso de apreciar como essa gente é capaz de opiniões "definitivas" só de ouvir dizer. Um espetáculo.

Fiquei aguardando uma análise razoável sobre as eleições americanas na Globo, na Folha ou no Estadão. E nada. Por isso me atrevo a dar o meu pitaco.

Começo destacando que os Estados Unidos são um país complexo, com um sistema eleitoral complexo. Tem gente que diz, orgulhosamente, que o sistema eleitoral brasileiro é "moderno" e o americano é "atrasado". Não é bem assim. O sistema eleitoral brasileiro é espelho de nossa organização política eminentemente federativa e centralizadora. O sistema eleitoral americano é estadualizado. Não existe Justiça Eleitoral nos Estados Unidos. As eleições federais são organizadas pelos estados e cabem recursos à Justiça comum.

No sistema eleitoral brasileiro os mesmos órgãos que organizam as eleições decidem sobre os recursos de eleitores e candidatos (TREs e TSE). E a urna eletrônica brasileira não emite um comprovante que permita uma auditoria imediata. São dois defeitos graves que só serão encarados, no Brasil, depois de uma grande fraude. Como sempre, a gente espera arrombar a porta para depois aperfeiçoar o sistema.

Nos Estados Unidos, a complexidade do sistema -- diversas regras, diversas formas de votação -- muitas vezes atrasa a própria eleição e a contagem, mas um sistema estadualizado impede uma fraude em nível nacional. No Oregon 100% dos eleitores votam pelo correio. Já em estados como a Flórida e Ohio houve denúncias fartamente documentadas de fraude nas eleições de 2000 e 2004.

Uma eleição como a dos Estados Unidos, estadualizada, aumenta o peso relativo de populações minoritárias dentro dos estados. A comunidade judaica da Flórida, por exemplo, tem um peso relativo muito maior do que sua presença numérica. E em eleições equilibradas um bloco sólido de eleitores pode ser o fiel da balança.

O bloco de eleitores mais relevante hoje em dia, nos Estados Unidos, é o de hispânicos. Eles representam 31% dos eleitores registrados no Novo México, 13% em Nevada, 11% na Flórida e 8% no Colorado. É óbvio que nem todos os hispânicos votam igual, mas se um candidato consegue ampla maioria entre eles tem uma vantagem considerável.

Apesar da eleição presidencial americana ser estadualizada, o campo de disputa se dá em um território relativamente pequeno. O Sul é republicano. O Texas é republicano. Nova York e Califórnia são majoritariamente democratas.

Por isso a disputa se concentra em alguns estados do Oeste, no Meio Oeste, na Virgínia, Pensilvânia e Flórida. O resto é pura figuração.

No Oeste a briga principal acontece em Nevada e no Colorado. Dois estados com grande presença de eleitores hispânicos. Estados que passaram por grandes mudanças demográficas recentes, com o êxodo de californianos em busca de melhor qualidade de vida em estados vizinhos. A chegada de novos profissionais e indústrias mudou esses estados. Eram mais rurais e conservadores no passado. Podem entrar este ano na coluna do Partido Democrata para ficar.

Em seguida vamos para o Meio Oeste. É onde a briga realmente vai acontecer. É a região mais deprimida economicamente do país. A região agrícola e industrial. Uma região conservadora. Barack Obama, que é de Illinois, vence fácil em seu próprio estado. Mas em Missouri e Ohio a briga vai ser boa. Aqui existe uma clara diferença entre os eleitores da zona rural e os da zona urbana. Os democratas ganham nas cidades maiores, mas perdem nas menores. A conversa mole de que Obama é "socialista" funciona.

No Meio Oeste e na Pensilvânia existe um cinturão de eleitores brancos de classe média baixa enamorados do discurso nacionalista e patriótico de John McCain. São ou foram operários no cinturão industrial decadente dos Estados Unidos.

Na Virgínia, como no Colorado, houve um grande influxo de novos profissionais ligados ao setor terciário da economia. Uma oportunidade para Barack Obama.

Na Flórida, onde muita gente perdeu o imóvel na crise das hipotecas, as dificuldades econômicas também aumentaram a possibilidade de vitória de Obama. E há um novo eleitorado hispânico, para além das múmias anti-castristas que sempre controlaram um bloco sólido de eleitores.

É óbvio que trata-se de um quadro eleitoral complexo, difícil de resumir numa manchete. Mas se vocês quiserem uma definição mais "arredondada" do que está acontecendo nos Estados Unidos eu os autorizo a dizer que Barack Obama, 47 anos de idade, representa o "novo", inclusive no apelo que ele faz aos eleitores da geração milenarista, pós-internet, mensagem de texto e celular. Obama representa a "nova economia" de estados como o Colorado e a Virgínia, corredores de desenvolvimento que provocaram mudanças econômicas, demográficas e políticas. A mensagem de tolerância em relação aos imigrantes ilegais e pós-Fidel Castro também ajudou Obama com os hispânicos.

John McCain, de 72 anos de idade, representa os Estados Unidos cristão, branco, rural e tradicional. Não só, mas principalmente. O que pode acontecer na próxima terça-feira é a transferência de bastão da geração pré-internet para a geração pós-internet, da geração do segregacionismo para aquela que cresceu com brancos, negros, amarelos e azuis na sala-de-aula, da geração das grandes batalhas ideológicas dos anos 60 para a geração pragmática e progressista do novo milênio.

Ai que preguiça dessa velharia: Folha=Estadão=Jabor=Naftalina=Pentes Flamingo=José Serra=Mainardi=Leitão=McCain

Chávez e Correa olham para o Sul

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

Ao anunciarem empreendimentos energéticos conjuntos de empresas estatais de ambos os países na Amazônia equatoriana, os presidentes do Equador e da Venezuela não se esqueceram da crise mundial e destacaram que se torna necessário unir-se pelo desenvolvimento da região.

A reportagem é do jornal argentino Página/12, 29-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os presidentes do Equador, Rafael Correa, e da Venezuela, Hugo Chávez, se reuniram nesta terça-feira, 28, na cidade equatoriana de Puyo para analisar a ampla integração binacional conjunta. Além de analisar os projetos comuns que levam adiante, ambos os mandatários se referiram às conseqüências e às ações a serem implementadas pela atual crise financeira mundial.

Após sua passagem pela capital da província amazônica de Pastaza, Chávez assinalou que os países da região devem atuar com audácia frente a uma crise de conseqüências imprevisíveis. “A crise nos obriga à reflexão e à ação, à tomada de decisões para garantir o futuro de nossos países, o desenvolvimento humano e o desenvolvimento da região”, afirmou o mandatário venezuelano.

Para Correa, a crise pode significar uma oportunidade para os países sul-americanos e criticou os analistas que defendem a globalização e o livre mercado, após o colapso financeiro atual. “Os ganhos são privatizados e as perdas são socializadas”, acrescentou o chefe de Estado equatoriano em referência às medidas que foram empregadas para conter as crises nos países centrais.

Chávez responsabilizou os países desenvolvidos do Norte pela situação atual, que qualificou como “uma grande crise histórica, a catástrofe do século XX”. “Aí está o berço dos nossos males, precisamente no Norte”, disse Chávez repreendendo os governantes europeus e dos Estados Unidos.

O líder boliviano também se referiu às possibilidades de ação que se abrem para os países da América do Sul, já que, em sua opinião, as soluções para a crise não vão chegar de Washington nem da Europa. “Acredito que chegou a hora, a nossa hora, a hora de refletir e atuar com audácia”, opinou o venezuelano, aludindo às nações da América do Sul.

O governo do Equador, por meio de seu ministro coordenador da Política Econômica, Pedro Paez, propor a criação de um sistema de compensação financeira, com a implementação de uma moeda eletrônica que permita que a América do Sul enfrente os possíveis impactos da crise internacional dependendo de sua própria força.

Páez, que foi um dos estimuladores da criação do Banco do Sul e do Fundo do Sul, insistiu que a região deve assumir ações próprias para enfrentar o caos da economia global. “Acredito que seja indispensável, desde agora, avançar com uma agenda do Sul, para definir ações monetárias que evitem uma guerra de desvalorizações, que poderia deixar o Equador em uma situação muito ruim”, assinalou Páez.

Chávez chegou ao aeroporto de Shell Mera, no centro da Amazônia equatoriana, acompanhado por uma comitiva de 180 pessoas que foram recebidas com uma cerimônia oficial de boas-vindas. Após passar em revista as tropas, Correa e seu convidado se deslocaram para uma pousada ecológica da localidade de Puyo, para falar da relação bilateral.

Entre os projetos que avaliam, consta o da prestação de serviços no Campo Sacha, localizado na província equatoriana de Orellana, onde as empresas estatais de cada país, Petroecudor e Petróleos de Venezuela (Pdvsa), constituíram a empresa mista chamada Río Napo. Está previsto que, para janeiro de 2009, possam ser anunciados os primeiros resultados da atividade conjunta em Sacha.

Ambas as empresas estatais exploram conjuntamente no denominado Bloque 4, no golfo de Guayaquil, no sudoeste do Equador.

Política internacional: como será o mundo de Obama e de McCain?

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

Enquanto Barack Obama e John McCain mantinham duros confrontos sobre seus respectivos programas econômicos, o Pentágono dirigiu, no domingo, um ataque no território sírio a oito quilômetros da fronteira com o Iraque, com um saldo de oito mortos. O ataque e as críticas que originaram na Síria foram um lembrete a mais da difícil situação internacional que o próximo presidente irá herdar.

A reportagem é de Ana Baron , do jornal argentino Clarín, 29-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cenário não pode ser mais negativo. Inclui duas guerras que parecem não terminar nunca, a do Iraque e a do Afeganistão, em seu quinto e sétimo ano respectivamente; o desafio nuclear iraniano; a instabilidade no Paquistão; a nova ofensiva da Rússia; e o poder crescente da China. Soma-se a tudo isso a enorme deterioração da imagem dos Estados Unidos no exterior e a maneira pela qual a crise financeira internacional deixou em aberto a emergência de um novo mundo, em que Washington já não é capaz de controlar todas as coordenadas.

Qualquer que seja o candidato que ganhe as eleições, ele se verá obrigado a participar na luta que está se desenvolvendo atualmente atrás da cena para determinar quais são os países que irão participar na concepção de uma nova arquitetura financeira internacional. A globalização colocou em dúvida a capacidade do Grupo dos Sete.

“A natureza dessa crise é internacional e poderá ser resolvido só por meio de uma reforma do sistema financeiro internacional”, escreveu recentemente o editorialista do The Washington Post, Jim Hoagland. “O vencedor dessa eleição necessariamente terá que compartilhar a liderança global como nenhum outro presidente já fez desde a Segunda Guerra Mundial”.

Ambos os candidatos são conscientes desse novo desafio internacional, mas, separados por mais de duas gerações, Obama e McCain vêm de dois universos intelectuais totalmente diferentes.

Filho e neto de militares, o ex-veterano da guerra do Vietnã, John McCain, oscila entre os falcões neoconservadores que dominaram os dois governos de George Bush e os republicanos realistas que são mais internacionalistas. Durante a campanha eleitoral, adotou, no entanto, posições mais próximas às dos falcões.

Produto de uma das melhores universidades dos EUA, Harvard, e ativista político desde jovem, Obama propõe uma mudança para uma política que ponha o acento mais na diplomacia do que no poder militar. Mesmo que não descarte o uso da força, acredita na importância do diálogo e das instituições internacionais, como as Nações Unidas, na resolução dos conflitos internacionais.

Assim sendo, McCain considera que se deve terminar a guerra no Iraque com êxito e criticou virulentamente Obama por propor uma retirada dos soldados em 18 meses. Por sua parte, Obama argumento que é necessário concentrar toda a atenção sobre o Afeganistão. Com respeito ao Irã, Obama propõe um diálogo, enquanto McCain insiste em que se deve aplicar duras sanções para que o Teerã abandone o seu problema nuclear.

Com relação à Rússia, McCain insiste em que não quer reiniciar a Guerra Fria, mas defende um enfoque confrontativo que leve Moscou a práticas mais democráticas e menos intimidativas com respeito aos seus vizinhos. Obama disse que apoiará os vizinhos da Rússia, mas esclarecendo que isso será feito em uma frente em união com a Europa, o que significa um enfoque muito menos duro do que o de McCain.

Em nossa região, Obama quer flexibilizar o embargo estabelecido contra Cuba, em nível das viagens e das remessas. Também propôs sentar-se para dialogar com os irmãos Castro, o que provocou uma virulenta reação por parte de McCain. De fato, a política de McCain com Cuba não difere muito da de Bush.

Em nível dos tratados de livre comércio, acontece algo parecido. McCain, um grande defensor do livre comércio, representa a continuidade do que o governo Bush defende. Obama, por sua parte, quer renegociar o Tratado de Livre Comércio (Nafta) com o México para proteger os direitos dos trabalhadores e do meio ambiente.

Obama se opôs a acordos comerciais com a Colômbia e com a Coréia do Sul por questões similares.

Quase 370 acadêmicos pedem ao democrata que se aproxime da América Latina

Antecipando uma vitória democrata nas eleições do dia 04 de novembro, um grupo de 368 acadêmicos especializados em América Latina enviou uma carta pedindo ao candidato Barack Obama que se converta em sócio e não em adversário da região.

Os assinantes pedem-lhe que compreenda o ímpeto atual para a mudança progressiva em muitos países e enfatizam “a rejeição do modelo de crescimento econômico que se impor a vários países desde o início da década de 80, que concentrou a riqueza, apoiou-se de forma falida em forças de mercado irrestritas para resolver problemas sociais profundos e socavou o bem-estar”.

Muitos dos que assinam o documento são membros da influente Associação de Estudos Latino-Americanos. Entre a longa lista, figuram Ariel Dorfman, Eric Hershberg, presidente da Associação, e Jean Franco, professor emérito da Universidade de Columbia.

A carta assinala que “os movimentos pela mudança na América Latina revelam um crescimento significativo da participação de trabalhadores, campesinos, mulheres e descendentes de africanos ou indígenas. Esses movimentos estão chegando ao poder país após país. Não são nem marionetes, nem estão cegos por fanatismos e ideologias, como foram caracterizados algumas vezes. Pelo contrário, merecem nosso respeito, amizade e apoio”.

Os latino-americanos, continua, “viram com freqüência os EUA não como amigos, mas como opressor, garantidor de um sistema econômico que trabalha contra eles e não para eles (...). A administração Bush tornou as coisas muito piores, e o prestígio do país na região está em seu nível histórico mais baixo. A tendência de Washington de lutar contra a esperança e a mudança foi especialmente proeminente em sua recente reação aos governos eleitos democraticamente na Venezuela e na Bolívia”.

O texto agrega que restam muitos desafios na região. “Cuba começou um processo de transição que deve ser apoiado de forma positiva, como por meio do diálogo que o senhor propõe”.

Situação no Congo é 'catastrófica', diz Cruz Vermelha

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

Os conflitos entre forças rebeldes e o exército na República Democrática do CongoComitê Internacional da Cruz Vermelha. Esforços diplomáticos estão sendo feitos para tentar solucionar a crise, que pode se espalhar pelo país vizinho, Ruanda. causaram uma “catástrofe humanitária” no país, afirmou o

A reportagem é da BBC Brasil, 31-10-2008.

Um cessar-fogo foi declarado pelos rebeldes na última quarta-feira na cidade de Goma, no leste do país, de onde dezenas de milhares de congoleses foram obrigados a se deslocar com o avanço das tropas rebeldes. Apesar do cessar-fogo, o general rebelde Laurent Nkunda ameaçou tomar a cidade, a menos que as tropas da ONU garantam a trégua.

Assassinatos e estupros foram reportados na cidade e a ajuda humanitária não está chegando aos desabrigados. Agências de ajuda humanitária como a Oxfam decidiram retirar seus funcionários estrangeiros de Goma.

Michael Khambatta, do Comitê Intenacional da Cruz Vermelha, disse à BBC que a prioridade agora é fornecer comida, remédios, abrigo e alguma forma de segurança aos civis que foram forçados a deixar suas casas.

Cessar-fogo

Na última quarta-feira, depois de dias de combates com as tropas governamentais, o general Nkunda declarou um cessar-fogo e suas tropas ficaram posicionadas a cerca de 15 quilômetros de Goma, capital da província de Kivu do Norte. Ele prometeu abrir um “corredor humanitário” para que a ajuda possa chegar aos refugiados, que estão entre seus soldados e membros das forças de paz da ONU, que estão dando cobertura às tropas governamentais.

A ONU está considerando reposicionar parte de seus 17 mil soldados no país para dar reforço aos 5 mil homens que estão na cidade.

O general rebelde Nkunda disse à BBC que suas forças pretendem proteger a minoria tutsi do país de ataques de rebeldes hutus de Ruanda, acusados de participarem do genocídio de tutsis no país em 1994. As tropas de de Nkunda são acusadas de receber apoio do governo de Ruanda, atualmente governada pelos tutsis, o que o país nega.

Analistas afirmam que além das diferenças étnicas, o conflito também se deve à disputa pelas riquezas minerais da região.

Esforços diplomáticos

Nesta quinta-feira, a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou estar mandando delegados para a República Democrática do Congo e para Ruanda para tentar dar uma solução diplomática para os conflitos que se intensificaram nas últimas semanas. Os dois países se acusam mutuamente de estarem promovendo incursões além de suas fronteiras.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, alertou que a violência está criando uma crise de “dimensões catastróficas” no país.

Um dos porta-vozes de Ban disse que delegados estão sendo enviados para Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, e Kigali, em Ruanda.

O ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, também declarou que a União Européia estuda o envio de soldados e ajuda humanitária ao país. Ele afirmou que o eventual envio de uma força européia pode contar com 1.500 homens, mas eles não participariam dos combates. Kouchner ainda afirmou que o Comitê de Segurança da União Européia vai se encontrar em Bruxelas para discutir a idéia.

Mas, o que quer que aconteça, o final dos conflitos pode não vir tão rápido quanto necessário, diz o correspondente da BBC Peter Greste, na fronteira da República Democrática do CongoRuanda. Nos dois últimos meses, mais de 200 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas no leste do Congo. com

Enquanto muitas procuraram abrigo em Goma, outras se refugiaram nas florestas, onde não podem ser alcançadas pelas milícias. Mas lá, também não podem ser auxiliadas pelas agências humanitárias.

Um dia na vida da Folha de S. Paulo

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

De como um dos maiores diários do país vem se especializando em inverter o sentido dos fatos. O jornal torce os fatos porque está torcendo pelos mesmos, em vez de tentar retratá-los com a maior precisão e contextualização possível. O artigo é de Bernardo Kucinski, jornalista, e publicado pela Agência Carta Maior, 01-11-2008.

Eis o artigo.


O dia é quinta, 30 de Outubro de 2008. Mas podia ser qualquer outro. Nessa quinta, o desprezo da Folha pelos seus leitores superou-se com a reportagem “Luz para Todos não cumpre a meta de dois milhões". Minha mulher, que já vinha se aborrecendo com a Folha, fechou as páginas, irritada: “Esse jornal pensa que somos idiotas”.

Começa pela foto que encima a história, uma cena de escuridão no Congresso Nacional, que não tem nada nadinha a ver com o programa Luz para Todos. Depois vem o título, enorme, em quatro colunas, numa página nobre do jornal, chamando de fracassado um programa que os números da reportagem revelam estar sendo um dos maiores sucessos do governo Lula.

O Luz para Todos atingiu até a semana anterior à publicação da matéria, nada menos que 1, 744 milhão de famílias. São famílias, por definição, localizadas em regiões remotas, pequenos vilarejos que as concessionárias não serviam por não ser econômico.

Mesmo se ficasse só nisso, já seria um feito excepcional. Não só pelo número absoluto de famílias e comunidades beneficiadas, mas também pelo fato de quase 90% da meta ter sido alcançada - meta essa que já era bastante ambiciosa.

Foi tão forte o desejo de narrar um fracasso que o repórter excluiu do seu argumento sobre o não cumprimento da meta deste ano o fato relevante de que o ano ainda não terminou. Só lá em baixo, no pé da reportagem, separadas propositalmente do argumento principal da narrativa, está a informação de que já há mais R$ 13 bilhões em contratos fechados, sendo R$ 9,4 bilhões do governo federal, R$ 1,6 bilhão dos governos estaduais e R$ 1,9 bilhão das concessionárias. O sucesso é tanto que o Ministério de Minas e Energia já pensa em ampliar a meta em mais 1,1 milhão de famílias entre 2009 e 2010. (1)

Na mesma edição, a Folha relata outro retumbante “fracasso” do governo Lula. “Gastos do governo com o PAC caem 70%”. O título é de quatro colunas ocupando também o topo de página. Um gráfico de pagamentos do PAC revela investimentos crescentes ao longo do ano, exceto pequena redução em junho, e as quedas que deveriam justificar o título, em setembro e outubro.

De pronto está a desonestidade do título. Gastos só caíram nos últimos dois meses. E mais: caíram de forma brusca. A explicação está lá, escondida, no meio da própria reportagem: as chuvas de setembro e a greve dos servidores do Departamento Nacional de Infra-estrutura (DNIT) que “bloqueou pagamentos e todas as demais fases da gastos durante três semanas...” (2). Um título mais preciso seria na linha de ”greve paralisa obras do PAC”. Mas esse título não serviria ao propósito aparente de retratar um governo inoperante e incompetente.

Manipulação de números repetiu-se no título de página inteira ”Diminuem as vendas em supermercados”. O segundo parágrafo, aliás atropelado, diz que “a queda nas vendas em setembro, além de ser sazonal, ocorreu porque, em agosto, houve queda nos preços de alguns alimentos, o que resultou em alta no consumo daquele mês...”

Afinal, se em agosto os preços caíram, significa que o povo estocou, com isso comprando menos em setembro? Além dessa confusão, o jornal admite que comparou dois meses incomparáveis. Agosto teve 31 dias e cinco finais de semana. Setembro teve apenas 30 dias e quatro fins de semana. Os fins de semana concentram as idas aos supermercados para as compras maiores do mês.

Só o ajuste sazonal do número de dias de cada mês daria uma “diminuição” de 2,2% no faturamento de setembro em relação a agosto. E mais: lá adiante, em outro parágrafo, está escrito que o preço médio de uma cesta com 35 produtos caiu 1,25% em setembro, em relação a agosto. E nem consideramos ainda que setembro teve um fim de semana a menos. Portanto a queda de 5,6% no faturamento foi inferior ao que se deveria esperar pelo menor número de dias, menor número de fins de semana, e preços menores dos alimentos. O oposto do que o titulo dá a entender.

É isso que se chama inversão dos sentidos, truque que vem se tornando especialidade desse jornal. Na história do Luz para Todos o objetivo aparente é passar a idéia de um governo que não cumpre promessas e na reportagem da redução do ritmo do PAC, o objetivo é caracterizar um governo incompetente.

Há uma outra dimensão ainda mais interessante nessas manipulações: as duas reportagens saíram na véspera do evento em que o governo prestaria contas dos programas, quando o correto seria usar as informações para questionar a prestação de contas, não deixar o governo falando sozinho. Isso seria bom jornalismo. Por que o jornal se antecipou?Sua intenção aparente e nada modesta foi a de esvaziar a prestação de contas do governo. Ou seja: o jornal quis pautar a agenda nacional e/ou negar ao governo seu potencial de pautar essa agenda.

O jornal torce os fatos porque está torcendo pelos fatos, em vez de tentar retratá-los com a maior precisão e contextualização possível. A matéria do PAC é mais uma de toda uma torcida do jornal contra o programa, desde o seu início.

Já a reportagem sugerindo falsamente que o povo está comprando menos comida, além de usar como referência um dado (faturamento) que interessas apenas aos proprietários dos supermercados, faz parte de uma nova e preocupante torcida da Folha: a torcida para que a crise dos bancos chegue logo ao Brasil. Esse catastrofismo vem marcando a cobertura de toda a mídia. Mas também nisso a Folha vem se superando.

Notas.

(1) No dia seguinte, a Folha voltou ao assunto em pequena nota na qual a ministra Dilma Rousseff, diz que faltarão apenas 100 mil famílias para a meta deste ano. Ou seja o programa terá cumprido 95% de sua meta. Mesmo assim, o jornal manteve a narrativa do fracasso.

(2) Também nesse caso a Folha voltou ao assunto no dia seguinte com o titulo: “Planalto culpa greves por ritmo menor de obras.” O jornal não contesta o argumento. Ao contrário, reforça-o dizendo que “conforme o jornal informou ontem, a greve de três semanas no DNIT paralisou todas as etapas dos gastos em obras de conservação, manutenção e construção de rodovias, responsáveis pela maior parcela dos investimentos do PAC.”

Marx, o consultor que não foi ouvido

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

O terremoto financeiro deixou muitos jornalistas e editorias de economia sem discurso. Tivessem diversificado a leitura e a perplexidade com a crise seria menor. Bastava uma leitura atenta do livro três, do quinto volume de "O Capital". O artigo é de Gilson Caroni Filho, professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro e publicado pela Agência Carta Maior, 01-11-2008.

Eis o artigo.

Uma das características do jornalismo econômico brasileiro, como bem destacou o analista César Fonseca, em artigo para o Observatório da Imprensa (“Símbolo da desinformação ideológica”, edição de 6/6/2005) é a perspectiva mecanicista adotada. Funciona como uma espécie de manual de proteção contra o pensamento crítico. Simplificadora ao máximo, dá livre curso aos sofismas do observador isento. Positivistas e neoclássicos não escondem a familiaridade que sempre tiveram uns com os outros nas páginas dos grandes jornais.

O movimento da realidade capitalista é concebido tendo como eixo um consumidor abstrato. Assim, não há como não resvalar para uma visão reducionista e cindida do que se pretende explicar. Perdido o ponto de vista das forças produtivas e das relações sociais de produção em seu caráter dual, dialético e interativo, o que sobra é uma economia sem processo histórico, uma petição que se evapora em equações matemáticas duvidosas.

Se uma coisa está bastante clara na crise financeira que se abateu sobre o capitalismo é que o terremoto deixou as editorias de economia sem discurso. E disso, elas ainda não se deram conta plenamente. Continuam a ver como derrapagem operacional o que é constitutivo do próprio modo de produção: as origens dessa crise, como de tantas outras, é uma crise de origem. Não há ponto de equilíbrio na lógica financeira. Nunca houve. Nunca haverá.

A jornalista Miriam Leitão, como tantos outros, é uma repetidora contumaz do que lhe sopram consultores de banco e economistas de formação neoclássica. Apesar de tudo, continua pontificando na grande imprensa, mas não consegue esconder o desconforto com a repentina nudez imposta pelo desmoronamento das falsas crenças que, junto, levaram o suposto conhecimento de causa. Resta o consolo de não estar sozinha, mas a desenvoltura de outrora deu lugar a uma postura reativa.

Prova disso é o aumento da indigência discursiva. Em seu programa de 31/10, na Rádio CBN, dedicou-se a especular sobre quais seriam os prováveis "ganhadores" da crise. E o saldo inicial apontou para o FMI que estava caindo em desuso e sem importância política; os executivos de grandes bancos que ainda embolsarão gordos dividendos, e agências de risco que, apesar dos erros colossais continuam funcionando e influenciando o mercado.

Mas a jornalista se esqueceu de um detalhe e, como sabemos, é nele que mora o diabo. Quem foram os perdedores? Quem apostou todas as fichas na cartilha neoliberal?

Os conselhos de Hayek e Friedman não davam margem a qualquer dúvida. Bastava reduzir o tamanho do Estado e diminuir os gastos públicos. Deixar tudo por conta da iniciativa privada para que o mercado de capitais funcionasse como motor infalível. Era seguro que viveríamos momentos de abundância de capital barato no mundo. E, se por algum motivo, a disponibilidade de recursos fosse afetada, a economia teria atributos insondáveis que nos recolocariam em situação favorável.

As crises precedentes foram “assimiladas” e as agências internacionais de análise de risco eram confiáveis termômetros a atestar a realidade saudável de uma economia repleta de estatísticas otimistas. Os governos deveriam delegar ao capital todos os investimentos que tivessem condições de oferecer taxas de retorno atraentes e cuidar apenas de construir arcabouços regulatórios que impedissem qualquer restrição ao livre movimento do capital, ao empreendorismo vitorioso.

Só a política podia atrapalhar a economia. E isso devia ser evitado a qualquer custo. Se a “ineficiência" do Estado afugentava o investidor, o ideal era abater o Leviatã a tiros, pois, como informava a cartilha, quem gera renda e emprego não é o setor público, mas a iniciativa privada e era para ela, e seus investimentos, que deveria ser criado um ambiente receptivo, com precarização das relações trabalhistas e supressão de direitos sociais.

Outro axioma era quanto à inserção internacional escolhida. A "boa razão" mandava abandonar a política ”terceiro-mundista” do governo Lula e eleger a Alca como objetivo maior. Afinal ganharíamos em escala com uma associação efetiva aos interesses dos Estados Unidos. Mais sensato do que tentar unir o que assimetrias regionais tornavam demasiadamente custoso. A América Latina- e nisso os plantonistas do neoliberalismo ainda insistem - sempre foi uma impossibilidade histórica.

Tudo era tão cristalino que só a má-fé ideológica poderia contestar. Esse não era o discurso único de consultores e jornalistas? Gente acostumada com números, índices e crenças inabaláveis? Pessoas que não costumavam errar, ”profissionais do mercado”, figuras centrais de um mundo pós-keynesiano em que os agentes alocavam, com perfeição, almas e recursos. Quebrado o encanto, vislumbraram o horror econômico, um pânico nunca imaginado no paraíso de Hayek.

Tivessem diversificado a leitura e a perplexidade com a crise financeira seria menor. Bastava uma leitura atenta ao livro três, do quinto volume de O Capital. Lá, o velho Marx demonstra por que seu pensamento ainda é o de maior relevância explanatória quando se quer entender o capitalismo. Os trechos escolhidos são a evidência da vitalidade teórica. Mostram a atualidade de uma análise vigorosa que, por decreto ideológico, foi relegada ao plano das idéias ultrapassadas.

“Num sistema de produção em que o mecanismo do processo de reprodução repousa sobre o crédito, se este cessa bruscamente admitindo-se apenas pagamento de contado, deve evidentemente sobrevir crise, corrida violenta aos meios de pagamento. Por isso, à primeira vista, toda crise se configura como simples crise de crédito e crise de dinheiro. E na realidade trata-se apenas da conversibilidade das letras em dinheiro. Mas, essas letras representam, na maioria dos casos, compras e vendas reais cuja expansão ultrapassa de longe as exigências da sociedade, o que constitui, em última análise, a razão de toda a crise.”

"Ademais, massa enorme dessas letras representa especulações puras que desmoronam à luz do dia; ou especulações conduzidas com capital alheio, porém, mal sucedidas: finalmente, capitais-mercadorias que se depreciaram ou ficaram mesmo invendáveis, ou retornos irrealizáveis de capital"

"Tudo aqui está às avessas, pois, nesse mundo de papel, não aparecem o preço real e seus elementos efetivos, vendo-se apenas barras, dinheiro, sonantes, bilhetes, letras, valores mobiliários”.

“Representa para o possuidor e para o credor deste (e como garantia de letras e empréstimos), menos capital-dinheiro que ao tempo em que foi adquirido e em que, por ele garantidos, se efetuaram descontos e empréstimos."

Como se vê com pequenas adaptações aos mecanismos criados ao longo do tempo, o “trabalho de consultoria" de Marx supera o de qualquer discípulo de Hayek e Friedman. Se Miriam quer descobrir quem foram os derrotados, deve estar atenta a um dado crucial: o vencedor transpõe dialeticamente o problema. O derrotado dá voltas em torno dele. E esse tem sido o movimento da imprensa nativa e seus economistas mais graduados. Dar voltas em torno de uma cauda que não para de abanar.

Um Banco Central peculiar

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

A todos, exceto os beneficiários de sempre, deve estar ocorrendo perguntar o que nos torna tão particulares a ponto de irmos na contra-mão das decisões dos principais bancos centrais do mundo, cuja atitude, diante da ameaça de uma crise de grande intensidade, tem sido a de reduzir suas taxas de juros básicas. A análise é de Ricardo Carneiro, e publicada pela Agência Carta Maior, 01-11-2008.

Ricardo Carneiro é professor titular do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da UNICAMP.

Eis a análise.

Os brasileiros, que por ofício ou necessidade, acompanham a evolução das economias internacional e brasileira devem estar dando tratos a bolas para entender a recente decisão do Banco Central do Brasil em manter a taxa de juros, no extravagante patamar de 13,75% ao ano. A todos, exceto os beneficiários de sempre, deve estar ocorrendo perguntar o que nos torna tão particulares a ponto de irmos na contra-mão das decisões dos principais bancos centrais do mundo, cuja atitude, diante da ameaça de uma crise de grande intensidade, tem sido a de reduzir suas taxas de juros básicas, algumas das quais já em níveis negativos, como no caso americano.

O caso é grave não só porque o Brasil trilha um caminho oposto ao das principais economias globais, mas, também, porque ao manter a taxa de juros realiza uma política contraditória com o conjunto das medidas postas em prática pelo Governo, após o agravamento da crise. Não custa aqui relembrar a oportunidade e intensidade dessas iniciativas – várias delas emanadas do próprio Banco Central - mormente na área monetária e creditícia: redução dos compulsórios; venda de divisas no mercado à vista e de proteção contra a variação cambial; alimentação das linhas de crédito ao comércio exterior com reservas internacionais; garantia de volume de crédito para várias atividades por meio dos bancos públicos.

O sentido da política é inequívoco: diante de uma manifestação aguda de aversão ao risco detonada pelo aprofundamento da crise, evitar que esta exacerbação da preferência pela liquidez dos agentes e, principalmente, dos bancos, se transforme numa severa contração do crédito. Ora, mas se é isto que se quer evitar, qual o sentido de manter a taxa de juros em patamar tão elevado? Não seria mais lógico e coerente reduzir a taxa de juros e desestimular a corrida dos agentes em direção aos títulos públicos – no caso do Brasil generosamente remunerados e sem riscos?

Custa a crer que o Banco Central a esta altura do campeonato esteja preocupado com o crescimento muito rápido da demanda agregada. Como todos os indicadores estão demonstrando, diante da trajetória do crédito a sua forte desaceleração será praticamente inevitável. O crédito tem ficado escasso e mais caro por conta da instabilidade macroeconômica e a postura dos bancos. No caso do crédito corporativo observa-se ademais uma clara contração acompanhada de desaceleração dos novos empréstimos às famílias.

Certamente também não deve ser objetivo do BC evitar ataques especulativos contra a nossa moeda. Dado o estado de aversão ao risco dos investidores internacionais a tentativa de segurá-los aqui por meio de maiores taxas de juros, será inócua. No caso brasileiro é preciso lembrar que uma parcela desses investidores tem perfil especulativo e foi atraída para cá exatamente por diferenciais elevados de taxas de juros, que agora não os satisfazem mais. Nesse caso, as medidas deveriam se restringir à regulação da volatilidade excessiva e a prevenção da formação de posições especulativas por parte dos investidores nacionais e estrangeiros com perfil de aplicadores de longo prazo.

Diante das evidências discutidas acima a preservação da taxa de juros pelo BC revela-se enigmática. Não é possível acreditar que num momento de crise tão grave, e de riscos de uma forte recessão global, o BC tenha apostado em uma redução ainda maior do crescimento para assegurar que no futuro longínquo a taxa de inflação se mantenha exatamente dentro da meta. Isto sem contar que outro efeito perverso da manutenção das taxas será a preservação dos juros pagos pelo setor público reduzindo a potência de uma eventual ação anticíclica. É necessário reafirmar que se a crise se agravar, a ampliação do gasto público será o nosso principal instrumento para minimizá-la. Logo, a quem interessa a postura do BC?

Gastar é preciso para viver

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

"Quando o setor privado estava gastando, o governo estava economizando. Agora que o setor privado está se retraindo, é hora de o governo gastar", escreve João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor do Instituto de Economia da UFRJ, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 01-11-2008.

Eis o artigo.

Gastar é preciso, viver não é preciso. Fernando Pessoa imortalizou a frase, a ele atribuída, "navegar é preciso, viver não é preciso". Muitos interpretam que o poeta deu à primeira sentença o sentido da razão, já que para navegar é preciso usar instrumentos, é preciso exatidão. A segunda não está relacionada ao desprezo pela vida. Ao contrário, a ênfase está na inexatidão da vida, na riqueza de rotas por onde navegar. Bússolas tornam a navegação exata. Mas a vida não tem bússolas, o que possui são temores, paixões, incertezas e possibilidades diversas.

A frase imortalizada é pura abstração. É ousadia utilizá-la para tratar de economia. Contudo, a crise financeira instituiu um jogo semelhante à conhecida tensão poética: razão "versus" emoção. A crise chegou gerando transtornos. Os governos reagiram socorrendo instituições financeiras.

Mas a sensação de temor permanece.

Ainda que não vejam novas velas sendo rasgadas e governos recosturando-as, os navegantes já estão assustados.

As instituições financeiras foram e serão socorridas, mas empresários, trabalhadores e banqueiros estão temerosos. Eles vão tomar a decisão que consideram mais prudente: cortar gastos. Os bancos vão reduzir as concessões de crédito, os empresários vão arquivar projetos de novos investimentos e os trabalhadores vão fazer poupança por precaução.

O setor privado age segundo a sentença "viver não é preciso", escolhendo a forma mais adequada de sobreviver a algo que não vê com exatidão, mas de cuja gravidade tem percepção.

A racionalidade do setor privado é eivada de emoção -essa é a riqueza da vida. O resultado dessas ações racionais é que, se todos recolhem suas velas, as naus tendem a desacelerar.

Mas as economias não podem estagnar. Para haver reação, alguém deve gritar: "Içar velas, navegar é preciso". É o que o setor público deve gritar e fazer: gastar os seus recursos é preciso. É hora de enfrentar os temores da vida privada com a exatidão das bússolas dos governos.

Se os governos não gastarem, suas economias ficarão à deriva. Em alguns casos, poderão parar. Em outros, podem naufragar. Portanto, como disse o Nobel Paul Krugman, "fica claro agora que resgatar os bancos é apenas o começo: a economia não financeira também precisa desesperadamente de ajuda. (...) No momento, uma elevação nos gastos do governo é o remédio correto...".

A sugestão de Krugman é conhecida, é a saída keynesiana: i) gastos em infra-estrutura, que mobilizam volumes elevados de recursos e empregam vastos contingentes de trabalhadores; e ii) gastos nas diversas formas de transferência de renda aos que têm alta propensão a gastar o que recebem -por exemplo, ampliação de valor e cobertura de programas sociais e aumento real do salário mínimo.

Aviso aos navegantes: as finanças públicas brasileiras estão com apenas 0,58% de déficit nominal/PIB ao longo deste ano. A Comunidade Européia estabelece, para tempos de normalidade, que seus membros podem fazer até 3% de déficit/PIB. Portanto, o governo brasileiro está em "condições européias" de fazer uma política de gastos agressiva.

Em 2008, o governo fez até agora um superávit primário de 5,8% do PIB, muito superior à meta oficial, que é 4,25%. Nos primeiros oito meses do ano, o governo fez 24,3% do PIB em despesas correntes. Em igual período do ano passado, fez 25,3%.

Com pessoal e encargos, gastou 4,37% do PIB de janeiro a agosto. Em igual período de 2007, havia gasto 4,45%.

Em suma, quando o setor privado estava gastando, o governo estava economizando. Agora que o setor privado está se retraindo, é hora de o governo gastar.

Neste momento, se o governo agir com a lógica privada da retração, provocará uma desaceleração econômica. E se assim continuar agindo, poderá provocar uma recessão.

Alguns dirão que não podemos fazer déficits. Mas Krugman já respondeu: "A coisa responsável a fazer, agora, é fornecer à economia o apoio de que ela precisa. Não está na hora de nos preocuparmos com o déficit". O resultado esperado é que o setor privado perceba que as tempestades se dissolveram e icem suas velas.

Portanto, o título deste artigo poderia ter sido "gastar é preciso para viver", um lema keynesiano dos momentos de crise.

A marcha da insensatez

Instituto Humanitas Unisinos - 01/11/08

"Desde 2002, mais de 80% do que recebemos do exterior, na forma de saldo comercial, foi enviado de volta, na forma de remessas de serviços e rendas. O pequeno saldo restante fica longe de explicar o acúmulo de cerca de US$ 200 bilhões em reservas, alardeado como sinal de solidez", constata Cesar Benjamin, editor da Editora Contraponto, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 01-11-2008. Segundo ele, enquanto "o governo comemorava o "fim da dívida externa", formava-se uma nova dívida mais perigosa.

Para Cesar Benjamin, "o Fed deixará conosco US$ 30 bilhões até abril de 2009, para que possamos segurar a oscilação cambial e acalmar os mercados. O capital de curto prazo, com certeza, entendeu o recado: tem seis meses para ir embora sem maiores perdas. Depois, seja o que Deus quiser".

Eis o artigo.

Escrever sobre a vulnerabilidade da economia brasileira era uma heresia há poucas semanas. Agora, quase se tornou desnecessário. Desabam as mistificações sobre as nossas blindagens. A fase aguda da crise mal começou e já tivemos de recorrer a um empréstimo de US$ 30 bilhões do Fed (o banco central dos EUA), que dispensou intermediários e passou a operar como emprestador de última instância a bancos centrais vulneráveis. Uma consulta a alguns números da economia brasileira mostra por que entramos na primeira lista de países socorridos, ao lado de México, Coréia do Sul e Cingapura.

Desde 2002, mais de 80% do que recebemos do exterior, na forma de saldo comercial, foi enviado de volta, na forma de remessas de serviços e rendas. O pequeno saldo restante fica longe de explicar o acúmulo de cerca de US$ 200 bilhões em reservas, alardeado como sinal de solidez.

A maior parte dessas reservas foi formada com capital externo de curto prazo, atraído ao Brasil pelos juros altos e aqui distribuídos em ativos dotados de elevada liquidez. As reservas brasileiras são a contrapartida de um passivo líquido que, ao se mover, pode reduzi-las a pó. Enquanto o governo comemorava o "fim da dívida externa", formava-se uma nova dívida mais perigosa.

Esse capital de curto prazo não planta um pé de alface. Ao contrário: ao entrar, valoriza o câmbio e contribui para fragilizar o sistema produtivo. Não faltaram advertências sobre isso. Mas a valorização cambial tinha aliados poderosos: ajudava o BC a atingir as metas de inflação, aumentava as remessas de lucros das empresas multinacionais e permitia gigantescos ganhos aos especuladores. Passear com recursos pelo Brasil, remunerando-os com a nossa generosa taxa de juros, e remetê-los em seguida para fora, comprando dólar barato, foi o melhor negócio do mundo nos últimos anos.

Enquanto isso, a nossa pauta de exportações se empobrecia, concentrando-se naqueles produtos em que temos grandes vantagens comparativas -as commodities. Todos sabem que, no longo prazo, isso é perigoso. Porém, um dos subprodutos do ciclo especulativo foi justamente o aumento de preços dessas mercadorias de baixo valor agregado. Nossas exportações estagnaram em quantum, mas cresceram em valor, ocultando temporariamente o problema. Em paralelo, para que os exportadores brasileiros compensassem o câmbio ruim, o BC os estimulou a entrar pesadamente na especulação com moedas. A bolha se disseminou. As advertências de que o arranjo tinha pés de barro foram sistematicamente desqualificadas.

Mesmo com a crise internacional se avolumando desde agosto de 2007, não adotamos salvaguardas.
Colheremos os resultados em 2009. As empresas que tiveram grandes perdas cortarão investimentos. Com a queda nos preços das commodities, o saldo comercial ficará perto de zero. As remessas de recursos ao exterior aumentarão, elevando o déficit externo. O BC adotará políticas recessivas, que provavelmente incluirão um novo choque de juros. Os prejuízos serão repassados ao Tesouro Nacional, contabilizados como déficit público, reforçando o coro favorável a mais uma rodada de cortes em gastos essenciais, como se salários de professores e investimentos em infra-estrutura fossem a causa da crise. É a marcha da insensatez.

O Fed deixará conosco US$ 30 bilhões até abril de 2009, para que possamos segurar a oscilação cambial e acalmar os mercados. O capital de curto prazo, com certeza, entendeu o recado: tem seis meses para ir embora sem maiores perdas. Depois, seja o que Deus quiser.