"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, abril 09, 2010

A reprise de 2006. Agora, como farsa

Site do Azenha - 6 de abril de 2010 às 8:05

por Luiz Carlos Azenha

Em 2005 e 2006 eu era repórter especial da TV Globo. Tinha salário de executivo de multinacional. Trabalhei na cobertura da crise política envolvendo o governo Lula.

Fui a Goiânia, onde investiguei com uma equipe da emissora o caixa dois do PT no pleito local. Obtivemos as provas necessárias e as reportagens foram ao ar no Jornal Nacional. O assunto morreu mais tarde, quando atingiu o Congresso e descobriu-se que as mesmas fontes financiadoras do PT goiano também tinham irrigado os cofres de outros partidos. Ou seja, a “crise” tornou-se inconveniente.

Mais tarde, já em 2006, houve um pequena revolta de profissionais da Globo paulista contra a cobertura política que atacava o PT mas poupava o PSDB. Mais tarde, alguns dos colegas sairam da emissora, outros ficaram. Na época, como resultado de um encontro interno ficou decidido que deixaríamos de fazer uma cobertura seletiva das capas das revistas semanais.

Funciona assim: a Globo escolhe algumas capas para repercutir, mas esconde outras. Curiosamente e coincidentemente, as capas repercutidas trazem ataques ao governo e ao PT. As capas “esquecidas” podem causar embaraço ao PSDB ou ao DEM. Aquela capa da Caros Amigos sobre o filho que Fernando Henrique Cardoso exilou na Europa, por exemplo, jamais atenderia aos critérios de Ali Kamel, que exerce sobre os profissionais da emissora a mesma vigilância que o cardeal Ratzinger dedicava aos “insubordinados”.

Aquela capa da Caros Amigos, como vimos estava factualmente correta. O filho de FHC só foi “assumido” quando ele estava longe do poder. Já a capa da Veja sobre os dólares de Fidel Castro para a campanha de Lula mereceu cobertura no Jornal Nacional de sábado, ainda que a denúncia nunca tenha sido comprovada.

Como eu dizia, aos sábados, o Jornal Nacional repercute acriticamente as capas da Veja que trazem denúncias contra o governo Lula e aliados. É o que se chama no meio de “dar pernas” a um assunto, garantir que ele continue repercutindo nos dias seguintes.

Pois bem, no episódio que já narrei aqui no blog, eu fui encarregado de fazer uma reportagem sobre as ambulâncias superfaturadas compradas pelo governo quando José Serra era ministro da Saúde no governo FHC. Havia, em todo o texto, um número embaraçoso para Serra, que concorria ao governo paulista: a maioria das ambulâncias superfaturadas foi comprada quando ele era ministro.

Ainda assim, os chefes da Globo paulista garantiram que a reportagem iria ao ar. Sábado, nada. Segunda, nada. Aparentemente, alguém no Rio decidiu engavetar o assunto. E é essa a base do que tenho denunciado continuamente neste blog: alguns escândalos valem mais que outros, algumas denúncias valem mais que outras, os recursos humanos e técnicos da emissora — vastos, aliás — acabam mobilizados em defesa de certos interesses e para atacar outros.

Nesta campanha eleitoral já tem sido assim: a seletividade nas capas repercutidas foi retomada recentemente, quando a revista Veja fez denúncias contra o tesoureiro do PT. Um colega, ex-Globo, me encontrou e disse: “A fórmula é a mesma. Parece reprise”.

Ou seja, podemos esperar mais do mesmo:

– Sob o argumento de que a emissora está concedendo “tempo igual aos candidatos”, se esconde uma armadilha, no conteúdo do que é dito ou no assunto que é escolhido. Frequentemente, em 2006, era assim: repercutindo um assunto determinado pela chefia, a Globo ouvia três candidatos atacando o governo (Geraldo Alckmin, Heloisa Helena e Cristovam Buarque) e Lula ou um assessor defendendo. Ou seja, era um minuto e meio de ataques e 50 segundos de contraditório.

– O Bom Dia Brasil é reservado a tentar definir a agenda do dia, com ampla liberdade aos comentaristas para trazer à tona assuntos que em tese favorecem um candidato em detrimento de outro.

– O Jornal da Globo se volta para alimentar a tropa, recorrendo a um grupo de “especialistas” cuja origem torna os comentários previsíveis.

– Mensagens políticas invadem os programas de entretenimento, como quando Alexandre Garcia foi para o sofá de Ana Maria Braga ou convidados aos quais a emissora paga favores acabam “entrevistados” no programa do Jô.

A diferença é que, graças a ex-profissionais da Globo como Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e outros, hoje milhares de telespectadores e internautas se tornaram fiscais dos métodos que Ali Kamel implantou no jornalismo da emissora. Ele acha que consegue enganar alguém ao distorcer, deturpar e omitir.

É mais do mesmo, com um gostinho de repeteco no ar. A história se repete, agora com gostinho de farsa.

Querem tirar a prova? Busquem no site do Jornal Nacional daquele período quantas capas da Veja ou da Época foram repercutidas no sábado. Copiem as capas das revistas que foram repercutidas. Confiram o conteúdo das capas e das denúncias. Depois, me digam o que vocês encontraram.

''Lula vem da esquerda, mas entende o mundo global''

Instituto Humanitas Unisinos - 09 abr 10

A três dias de completar seu primeiro mês como presidente do Chile, Sebastián PiñeraJosé Serra e visitou a Fiesp. Piñera estima que seu governo licitará em torno de US$ 10 bilhões em obras de reconstrução de casas, hospitais, estradas, aeroportos e escolas destruídos pelo terremoto seguido de maremoto que atingiu o Chile em 27 de fevereiro. desembarcou ontem no Brasil, destino de sua primeira visita de Estado. Antes, fez uma escala "de trabalho" na Argentina. Em São Paulo, ele se encontrou com o candidato à Presidência

A entrevista é de Silvana Arantes e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-04-2010.

Hoje, o mandatário chileno se encontra em Brasília com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a pré-candidata petista Dilma Rousseff.

Eis a entrevista.

Como interpretou o fato de Lula não ter ido à sua posse?

Quando visitei Lula em setembro do ano passado, disse: "Presidente, tenho certeza de que vou ganhar a eleição e quero convidá-lo pessoal e antecipadamente". Ele me disse: "Presidente Piñera, conte comigo. Estarei em sua posse". Estou certo de que essa era a intenção dele e que forças alheias à sua vontade o impediram de estar no Chile.

Acredita na versão de que a diferença ideológica o desanimou?

Não acredito nisso. Estive com Lula em várias oportunidades. Uma vez foi em Londres, na inauguração do estádio de Wembley. Sempre tivemos uma relação franca, direta e fraterna. Em Brasília, conversamos por mais de uma hora. Tenho certeza de que nenhuma diferença [entre nós] está por trás de sua ausência [à posse]. Além do mais, eu acredito na liberdade e aprecio as diferenças.

Acha que Lula fez um governo de esquerda?

Lula é um presidente que tem uma origem de esquerda, no PT, mas que compreendeu muito bem as chaves do mundo moderno e globalizado. Tendo origem de esquerda, governou muito bem o Brasil.

Terá encontros com os candidatos José Serra e Dilma Rousseff. Qual avalia ter mais chances?

Não me meta em problemas! Não quero interferir na eleição democrática. É uma decisão que o povo brasileiro tomará. Acredito no dito "a voz do povo é a voz de Deus". Os povos são muito sábios. Às vezes, muito mais sábios que seus políticos e governantes. Mas posso dizer que estou acompanhando muito de perto essa disputa -a trajetória de Dilma Rousseff e a trajetória de José Serra, que conheci no Chile quanto ele esteve exilado. Serra é casado com uma chilena. Tenho muita simpatia por ele, mas não vou interferir e vou respeitar a decisão democrática do povo brasileiro.

Como avalia a política externa brasileira, sobretudo a aproximação com o Irã?

Temos muito respeito pelo Brasil e pelo Itamaraty. O Brasil se transforma num ator em escala mundial. É uma evolução que vemos com bons olhos e apoiamos com entusiasmo a aspiração brasileira por um assento permanente no Conselho de Segurança. Na semana que vem, Lula e eu participaremos da Cúpula de Segurança Nuclear, nos Estados Unidos. Estou convencido de que o principal risco em matéria nuclear hoje em dia não é tanto em nível de Estados, mas o perigo e o risco de que armas nucleares ou tecnologia para produzi-las caiam nas mãos de grupos terroristas ou anarquistas que as queiram usar de forma irresponsável. Tenho muita alegria de saber que a América Latina é uma região livre de armas nucleares.

A aproximação do Brasil com o Irã o preocupa?

Veja... Tenho muita confiança na sabedoria e na prudência do presidente Lula.

Como vê a chamada "corrida armamentista" na América do Sul? Vê possibilidade de um conflito bélico entre Venezuela e Colômbia?

A América Latina se destaca por sua capacidade de enfrentar as diferenças sem guerras. É um continente em que houve muito poucas guerras, muito menos do que a Europa, o continente mais culto e desenvolvido do mundo, que no século passado teve duas guerras mundiais. É um patrimônio que temos que defender. É muito importante resolver as controvérsias e diferenças por meios pacíficos e usando o direito internacional. Por isso me inquieta e me preocupa quando vejo em alguns países da América Latina sintomas de debilitamento desses princípios.

O sr. apoia a candidatura do ex-presidente argentino Néstor Kirchner à presidência da Unasul?

Sim. E Hoje [ontem] expressei isso à presidente da Argentina, Cristina Kirchner.

Defina "kirchnerismo".

Há coisas difíceis de definir. Por exemplo, é muito difícil definir o amor, mas sabemos exatamente quando estamos amando ou não. Algo parecido ocorre com o kirchnerismo. É difícil defini-lo, mas todos sabemos o que significa.

Que participação espera do Brasil na reconstrução do Chile, após o recente terremoto?

Estou muito agradecido à ajuda sincera, rápida e eficaz que recebemos do Brasil. Pretendo convidar o governo e o setor privado brasileiros a não só continuar colaborando com sua ajuda mas a participar dos grandes projetos de reconstrução de hospitais, pontes, casas, aeroportos, escolas que vamos licitar.

Qual é o impacto do terremoto na economia chilena?

O custo total chega a US$ 30 bilhões. Descontados os seguros que virão do exterior, o custo bruto estará entre US$ 22 bilhões e US$ 25 bilhões, que serão repartidos entre o setor público e o privado. Por isso estamos nos preparando para o desafio da reconstrução ou reparação de 370 mil casas, 4.000 escolas, 79 hospitais e achamos que o custo extraordinário desse plano de reconstrução alcançará de US$ 8 bilhões a US$ 10 bilhões.

Como viveu o terremoto?

Estava em Casablanca, entre Valparaiso e Santiago, preparando-me para fazer uma grande excursão a cavalo pela cordilheira. Acordei com o terremoto e contatei de imediato os futuros ministros. Fomos ao escritório nacional de emergência. Eu sabia do grave perigo de maremoto. Minha primeira preocupação era salvar vidas das pessoas que residem nas regiões costeiras. Sabia que o escritório de emergência tem um protocolo e um "código vermelho" que determina decretar imediatamente o alerta de maremoto e providenciar a evacuação em casos de terremotos superiores a 8 graus com epicentro próximo da costa. Surpreendeu-me muito que isso não ocorreu.

O sr. classifica como um ato criminoso a falta de alerta de maremoto?

Não foi criminoso. Foi uma negligência tremenda. Uma falta de cumprimento do dever tanto do escritório da Marinha como do Escritório Nacional de Emergência, que não tinha que ter esperado nenhum informe para dar o alerta. Minha segunda preocupação foi com a prevenção de atos de vandalismo que ocorrem nessas ocasiões. Pedi ao governo que decretasse o estado de catástrofe, para que as Forças Armadas pudessem controlar a ordem pública. Mas, desgraçadamente, o governo demorou demais a fazer isso.

O sr. afirma que "cedo ou tarde a China será o mais importante país do mundo". Em quanto tempo avalia que isso acontecerá?

A China está há mais de 20 anos crescendo com uma força e um ímpeto impressionantes. Na média, quase dois dígitos por ano. Se se projeta o crescimento atual da China e o dos EUA, conclui-se que em 25 anos a China se transformará na primeira potência econômica do mundo. Mas é uma projeção. Falta ver se o "gigante adormecido" vai despertar e ter a capacidade de crescimento que a China tem hoje.

Como avalia a Presidência de Obama?

Obama foi um candidato extraordinário. Agora tem que demonstrar que também é um grande presidente.

Ainda não demostrou?
Um ano de governo é muito cedo para uma avaliação profunda e um juízo definitivo.

Uma multidão de sacrifícios no altar da produtividade

Instituto Humanitas Unisinos - 09 abr 10

Republicado pela editora italiana Ponte alle Grazie a 13 anos de distância da sua primeira edição, "O horror econômico", de Viviane Forrester [publicado no Brasil pela Ed. Unesp], não só conserva inalterada a atualidade de uma fotografia do mundo econômico à deriva, mas, à luz dos fatos políticos recentes, sua análise se torna – graças também a uma narração de sabor romanesco – ainda mais precisa, pelo menos com relação a uma sociedade que ainda reconhece no capitalismo o melhor dos mundos possíveis.

E isso apesar de terem se acumulado, sempre mais ameaçadoramente, as aristofânicas nuvens de um império não geográfico, não político e nem econômico, mas sim dominado pela lógica do livre mercado, pela incontrolada e profícua circulação das mercadorias do capital, diante da controladíssima circulação das multidões migrantes como minas errantes.

A análise é de Pino Casamassima, publicada no jornal Il Manifesto, 04-04-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

À multidão "vergonhosa" produzida como escória por todo país europeu, acrescentou-se a dos "sans-papiers" [sem documenos] e "sans-droits" [sem direitos]: uma humanidade que – nas palavras de Forrester – "é preciso, para 'merecer' viver, que se demonstre 'útil' à sociedade, ou pelo menos àquela parte que a governa e domina".

Novas histórias de uma História – a do Ocidente capitalista – cujo passado testemunha sobre migrações ao contrário: melhor dizendo, atos predatórios cometidos em dano daqueles povos aos quais agora ele nega a acolhida. Esse Norte/Ocidente que interpreta excentricamente o conceito de reciprocidade foi dolosamente alimentado por políticos sem escrúpulos, desenvolvendo no fim a ideia – promovida de liberal a liberticida – que não se pode viver impunemente, mas é preciso "merecer" viver.

Além das muitas vidas de rejeitos produzidos pelo descarte "do melhor" em cada país ocidental, existem as vidas da maior parte dos migrantes, desesperados enquanto não funcionais ao sistema capitalista. Não se pense – havia advertido Viviane Forrester em seu tempo – que a multidão dos miseráveis seja numerosa só "além da cortina capitalista", entre os não-ocidentais, os não-pertencentes ao mencionado melhor dos mundos possíveis: porque a contagem iniciou há muito tempo para a "quantidade sempre crescente de seres humanos já não necessária ao pequeno número que, moldando a economia, detém o poder".

Porque, para um indivíduo negro ou branco, católico ou muçulmano, ou protestante ou judeu "sem função, não há lugar, nenhuma possibilidade de acesso evidente à vida, ou pelo menos à sua continuidade". Massas de "excluídos" não por causa da sua confissão, mas por causa da sua "inutilidade", em um sistema cujo fundamento se cimentou sobre os imperativos das finanças.

Os homens (muitos) servem sempre menos aos mesmos (poucos), ainda mais garantidos nos seus privilégios pelo desaparecimento dos partidos operários (diligentemente anulados no altar de uma modernidade que não reconhece mais a classe) e dos sindicatos (aterrorizados pelo seu anunciado desaparecimento e, consequentemente, muito comprometidos para garantir as garantias do trabalho por tempo indeterminado).

Para que criar postos de trabalho – pergunta-se coerentemente o neocapitalismo bolsístico – quando, ao invés, cortando o pessoal (e descarregando sobre a coletividade a amortização social dos "emagrecidos"), os lucros aumentam? Não é talvez verdade que o anúncio de demissões em massa faz com que os títulos acionários aumentem? Eis o horror econômico, o resultado de um sistema que desenvolveu uma economia capaz de produzir riqueza diminuindo os postos de trabalho.

Agora, a multidão é composta por trabalhadores em busca de um trabalho que não irão encontrar: "Para obter uma certa adequação dos salários – lia-se em um relatório da OCDEOrganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 1994 –, será necessário um nível mais alto do desemprego". As calçadas sempre mais cheias de novos "excluídos" são uma das tantas imagens de representação da derrota de um sistema que acredita ter vencido. (

Glifosato: ‘todo veneno deveria ser proibido’. Entrevista especial com Rubens Nodari

Instituto Humanitas Unisinos - 09 abr 10


Um dos herbicidas que mais tem causado danos ao meio ambiente e também para o ser humano é o glifosato. Ele é uma molécula química sintetizada, desenvolvido para matar qualquer tipo de planta, principalmente perenes. É o ingrediente principal do Roundup, herbicida da Monsanto. Assim, muitas plantas culturais geneticamente modificadas são simplesmente alterações genéticas para resistir ao glifosato. “Em relação à saúde humana, ele mimetiza certos hormônios. Por exemplo, ele pode entrar no cordão umbilical durante a gestação e afetar o desenvolvimento do bebê. Além disso, ele é considerado um desruptor endócrino, ou seja, ele vai acionar genes errados, no momento errado, no órgão errado. Então, ele altera a situação de controle dos genes”, relatou o agrônomo Rubens Nodari durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line, por telefone.

Nodari explicou o que é o glifosato e como ele age para que possa matar, de forma não seletiva, as plantas, o uso e o efeito desse herbicida, e, ainda, contou como esse veneno age quando os humanos e outros seres vivos entram em contato com ele. “Alguns organismos não são afetados pelo glifosato. Se se aplica muito glifosato, por exemplo, na água, alguns organismos vão ser beneficiados, e outros não, pois ele não se degrada tão rapidamente. Assim, se altera por completo a diversidade biológica que existe nesse ambiente”, afirmou.

Rubens Onofre Nodari é graduado em agronomia pela Universidade de Passo Fundo e mestre em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Realizou o doutorado na University Of California At Davis. Atualmente, é professor na Universidade Federal de Santa Catarina.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é o glifosato?

Rubens Nodari – O glifosato é uma molécula química que foi sintetizada e que tem a capacidade de produzir um caminho alternativo para as plantas que recebem esse produto. E esse caminho alternativo acaba sufocando a planta quando ocorre, portanto, a interrupção da produção de três aminoácidos. Com isso, as proteínas que são formadas são defeituosas, e as plantas acabam morrendo porque não conseguem sintetizar as proteínas adequadas.

IHU On-Line – Qual o uso que é dado a este químico?

Rubens Nodari – O destino do glifosato é para matar plantas que não são desejáveis num certo espaço.

IHU On-Line – Qual é a composição do Roundup e por que ele é considerado um dos agrotóxicos mais prejudiciais?

Rubens Nodari – O glifosato é uma molécula que causa diferentes tipos de problemas para a saúde humana e também para o meio ambiente. Em relação à saúde humana, ele mimetiza certos hormônios. Por exemplo, ele pode entrar no cordão umbilical durante a gestação e afetar o desenvolvimento do bebê. Além disso, ele é considerado um desruptor endócrino, ou seja, ele vai acionar genes errados, no momento errado, no órgão errado. Então, ele altera a situação de controle dos genes. O glifosato também causa, por exemplo, diminuição da produção de espermas, conforme vimos em experimentos feitos em ratos, ou produz espermas anormais. No caso do sistema endócrino, ele pode, por exemplo, inibir algumas enzimas. Ele vai alterar os hormônios que entram na regulação da expressão gênica.

Geralmente, ele atua na regulação de genes e na expressão de certas substâncias. Existem relatos bastante significativos de ocorrências que associam o câncer a pessoas que aplicam o glifosato. Um agricultor, por exemplo, não aparenta de imediato que vai adoecer, ter um câncer, pois o glifosato age dessa forma com exposições repetidas.

A maioria dos agrotóxicos vai envenenando aos poucos as pessoas e o meio ambiente. Às vezes, não são coisas perceptíveis. Obviamente, quando alguém é submetido a uma grande exposição ao glifosato, sente em seguida irritação nos olhos, na pele, algum sintoma no estômago. Quando as doses são pequenas, é impossível perceber que se está sendo intoxicado aos poucos.

No meio ambiente, ele é considerado mortal a alguns anfíbios e répteis. Ele também favorece algumas bactérias de solo e prejudica a outras. Ele altera a dinâmica da vida, da biota do solo.

IHU On-Line – É bastante difundido, especialmente pela indústria, que o glifosato é menos prejudicial que outros herbicidas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o classifica como Classe IV (faixa verde). Como o senhor vê essa questão?

Rubens Nodari – Na verdade, a classificação da Anvisa é muito antiga, e, à luz dos novos resultados, o entendimento que existe é diferente. Hoje, se fosse feita a reavaliação dos resultados do glifosato com os dados que foram obtidos a partir de 2005, talvez a Anvisa mudasse de classificação toxicológica.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a pesquisa feita na Argentina que envolve o glifosato?

Rubens Nodari – A Argentina tem feito alguns estudos, inclusive associando o glifosato a consequências nos anfíbios, sobre o uso desse agrotóxico. Há um estudo no qual se percebeu que o glifosato inibe o desenvolvimento de embriões. O glifosato e outros produtos acabam afetando alguns sistemas do corpo humano, principalmente o cérebro, que deixam as pessoas com maior ansiedade. E é isso que faz com que as pessoas tomem decisões consideradas insensatas. Assim, o que se especula, por enquanto, é que as pessoas têm sua capacidade física limitada.

IHU On-Line – Quando o glifosato contamina o solo ou um rio, o que acontece?

Rubens Nodari – Alguns organismos não são afetados pelo glifosato. Se se aplica muito glifosato, por exemplo, na água, alguns organismos vão ser beneficiados, e outros não, pois ele não se degrada tão rapidamente. Assim, se altera por completo a diversidade biológica que existe nesse ambiente. Em relação à água, há menos estudos, mas, de qualquer maneira, já existem relatos de mortalidade de certos organismos que ali vivem. Quando a fonte de glifosato é aplicada repetidamente, o impacto é muito maior nessas comunidades aquáticas. Já existem muitos dados de mortalidade de certas espécies de anfíbios e répteis em função da aplicação do glifosato.

IHU On-Line – Acredita que deve se proibir o glifosato?

Rubens Nodari – Na verdade, todo veneno deveria ser proibido. Compostos que são desenvolvidos para matar não fazem parte da ética da vida. Quem defende a vida não pode ser favorável ao uso de sustâncias que a comprometem. Então, a humanidade só deveria usar em casos extremos esse tipo de produto, e não de forma corriqueira como hoje é usado. Existem outras formas de fazer agricultura em que não precisamos usar venenos. Temos sistemas agroecológicos que são perfeitamente passíveis de serem utilizados para produzir alimentos, fibras, óleos etc., sem necessidade de usar agrotóxico. Então, um produto como esse deveria ser, naturalmente, proibido em função dos danos e dos impactos que ele causa tanto na saúde humana quanto ao meio ambiente.

A impressão que tenho é que nós deveríamos recomendar aos agrônomos que evitem fazer o receituário desses produtos. E aos agricultores que tomem cuidado e não usem produtos como esse em larga escala porque os primeiros prejudicados serão os próprios agricultores.

quinta-feira, abril 08, 2010

Pulseiras Coloridas

Ouvi na Band News FM um comentário (infelizmente não lembro qual das comentaristas) a respeito do estupro sofrido por uma jovem que usava as tais famosas pulseiras.
A comentarista fez uma relação simplista entre o uso da pulseira e o de roupas. Associou que o uso de trajes considerados vulgares (em certas ocasiões) não poderia servir de desculpa para tal ato de violência, o que é perfeitamente compreensível, uma vez que, em nossa sociedade há a liberdade cultural e até cultuada do uso de pouca roupa por parte das mulheres que exibem seus atributos. Usar de violência contra uma mulher que esteja por exemplo de micro-saia e exuberante decote não é justificável sobre hipótese nenhuma.
Mas no caso da pulseira a situação é diferente. Há um código nas cores. Quem usa "aceita" o que está oferecendo, e quem tenta obter a satisfação do desejo através da quebra da pulseira (por si só já um início de ato violento) está disposto ao uso da força para pelo menos atingir seu objetivo imediato que é a ruptura das tais pulseiras. Bom se há um escalonamento das cores nessa ordem: Amarela –dar um abraço no rapaz; Laranja – significa uma “dentadinha do amor”; Roxa – já dá direito a um beijo com língua; Cor-de-rosa – a menina tem de lhe mostrar os seios; Vermelha – tem de lhe fazer uma lap dance;Azul – fazer sexo oral praticado pela menina; Verdes – são as dos chupões no pescoço; Preta – significa fazer sexo com o rapaz que arrebentar a pulseira; Dourada – fazer todos citados acima. Isso significa que quem usa as pulseiras está de acordo a aceitar desde um abraço até uma festinha apimentada particular. Pelo que li, garotas mortas na Região Norte usavam pulseiras pretas, no Paraná já se parte para a proibição do uso, entre outras situações no país.
Não lembro de nunca ter ouvido falar em se tentar proibir o uso de decotes ou mini-saias devido a mulheres que as usavam terem sofrido agressão sexual, e já aconteceu várias vezes, e foi dado como desculpa pelos agressores tal uso com sendo provocativo.
A reação provocada pelas pulseiras é de outro nível. Exatamente por estar explícito um acordo entre ambas as partes. A que usa e oferece a realização dos mais diversos desejos pela quebra de suas pulseiras, até a que usa o ato violento de partir as pulseiras e então exigir a realização dos seus desejos.
Ao tentar colocar as duas situações no mesmo patamar, se foge da discussão principal que é a quebra de diversos valores sociais, sendo o principal o de não uso da violência nas relações pessoais. Que tipo de jovens estaremos formando ao não coibir o uso de tais pulseiras? Que tipo de relações interpessoais irão surgir de pessoas que aceitam e estimulam o uso da violência para atingir seus objetos do desejo?
Lembro que recentemente li um artigo que comentava ser a violência absurdamente comum nas relações do jovens na atualidade. Se não me engano 7 em cada 10 casais jovens já haviam sofrido algum tipo de agressões nos seus relacionamentos.
Será que é esse tipo de comportamento que estaremos fadados a ver nos futuros casais? E as próximas gerações que terão esses relacionamentos como exemplo, o que farão? Pensar em direitos humanos também não é repensar tais situações?
Creio ser um momento de toda a sociedade ver com mais atenção essa situação do uso das famigeradas pulseiras ao invés de comparar atos agressivos decorrentes do seu uso, com o do reduzido vestuário que já estamos acostumados pela própria brasilidade a ver.


quarta-feira, abril 07, 2010

Curtas

Política Externa
Em andante mosso da Carta desta semana há uma pequena nota intitulada Quinta-coluna (Política Externa), em que é comentado as tentativas do PSDB em paralisar a linha de ação da política externa brasileira.
Nada mais esperado do que isso. O alinhamento entre Brasil e EUA foi refeito com grande maestria por Fernando Henrique Cardoso. Lula ao buscar novos acordos e relações comerciais fora do interesse americano mexeu com grandes interesses políticos e econômicos. É claro que a turma do PSDB iria fazer barulho sobre as questões externas. E essa da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional ficar ridiculamente batendo na tecla das relações Brasil-Irã chega a ser uma idiotice. Até parece que outros governos (como a Arábia Saudita) não estão bem longe da democracia, e são mantidos no poder com muito apoio americano.
Então é isso? Devemos não ter opinião própria e só apoiar ou negociar com quem interessa aos EUA?

Veja
Não sei qual a edição (estava em uma clinica e era o que tinha para ler), mas vi uma matéria que comentava a surpresa do autor em relação à homenagem que receberia Ernesto Geisel por parte do Governo Lula com o batismo de uma usina nuclear com o seu nome.
Fazendo um gancho entre esta e o comentário anterior. Só quem não conhece história do Brasil não percebe que existem paralelismos entre o Governo Lula e o de Geisel.
Citando os dois que considero principais: ambos buscaram novos acordos internacionais, desalinhando nossa política externa da americana, e, também buscaram investir em infraestrutura para permitir o crescimento contínuo do país.
Nada mais natural então essa homenagem. Por sinal, não esperem (a esquerda) que Dilma sendo eleita (se Deus quiser) vá incomodar os militares ou vão ter uma grande decepção como a que tiveram com Lula em relação a esse assunto.

Rio de Janeiro
Podemos perceber nesses últimos dois dias o que o Governo do Rio de Janeiro tem feito para melhorar a qualidade de vida da sua população através do uso dos royalties do petróleo.
Não poder controlar condições atmosféricas adversas é uma coisa. Problemas acontecem até nos países ricos. Mas, não ter a menor infraestrutura para suportar tais problemas e esse fato causar o número de mortes, feridos e desabrigados já é um pouco demais.
Para onde foram os bilhões dos royalties? Escoaram pelos esgotos com as águas das chuvas? E querem mais? Pra quê?

Editorial do Mino Carta
Mino fez um editorial abordando a situação de Cesare Battisti em relação à nossa resistência. Não vou mais uma vez discorrer sobre essa ideia de dois pesos e duas medida em relação a atos terroristas. Mas, sim sobre um comentário no editorial sobre o diálogo com certo político petista de projeção nacional que o Mino teve.
Como não foi explicitado o nome do referido político e Mino afirma que o admira a mais de 30 anos, creio estar falando de Olivio Dutra.
Poucos petistas merecem realmente ser admirados como Olivio Dutra. Nunca ouvi falar de envolvimento deste político com desvio de verba, com corrupção, ou qualquer tipo de maracutaia.
Se for o caso, também declaro aqui minha admiração por Olivio Dutra, que considero estar no partido errado (o PT não é um partido à altura desse político).
E minha admiração não decorre do passado militar de Olivio (só o fiquei conhecendo a quatro anos aproximadamente) e sim pela sua retidão. Retidão por sinal que se revela até mesmo quando fala de seu agradecimento ao exército brasileiro, pela continuidade de sua formação ética que consolidou os valores familiares aprendidos, que o estimularam a se tornar a pessoa que hoje é.
Vi em uma video revista do exército (42) a homenagem que Olivio Dutra recebeu em seu antigo quartel o 4º RCB em São Luis Gonzaga. Em seu discurso Olivio afirmou o grande valor que teve a disciplina militar na sua vida, tanto privada, quanto pública.

terça-feira, abril 06, 2010

PEDOFILIA CLERICAL (2)

aijesus.blogspot.com - 06 abr 10

O problema da pedofilia não é só o problema de umas centenas de padres que pecaram contra a moral. Uma confissão teria resolvido tudo, segundo a teologia e a pastoral. E então teriam razão os que, como neste Blog, se desunham por mostrar que a maior parte dos padres não são pedófilos, como se o problema estivesse na quantidade. Há padres e freiras excepcionais. Posso dar fé disso. Um botão de amostra: agora que já não há câmaras de televisão no Haiti, a maior parte dos que continuam a arriscar a vida e a saúde, são padres e freiras. Os caçadores de dividendos políticos saíram do país no avião que levou as últimas câmaras. O meu aplauso para esses religiosos. Mas é uma autêntica canalhada usar esse bom exemplo para enterrar, minimizar ou fazer esquecer o crime hediondo da pedofilia de muitos outros padres.


A arrogância é a catarata do espírito. Quem a padece vê tudo búzio, como se diz na minha aldeia. O problema agrava-se quando o paciente passa a defender com unhas e dentes a opacidade das coisas e a defender como cristalinas as coisas baças.



Os que ainda têm algum pudor e não se atrevem a tapar o céu com a mão, dedicam-se então a tentar defender a honestidade e inocência dos jerarcas eclesiásticos como se deles dependesse a bondade e autenticidade da própria Igreja. Ou seja, é preciso impedir a todo o custo
[e isso implica até o uso da mentira]
que o caso da pedofilia possa beliscar o Papa ou algum dos altos executivos do Vaticano
[porque os casos de jerarcas como o Arcebispo de Boston são atenuados pela distância e não fazem mossa].
Como não se pode sustentar a defesa com a negação dos factos, desvia-se o assunto e afirma-se que um grupo de malvados se organizou para fazer mal ao Santo Padre e à Igreja que ele dirige. Ou seja, que o arcebispo Ratzinger tenha protegido um pedófilo não é nada, comparado com o dano que lhe pode fazer a notícia, portanto: morte ao mensageiro porque mentiroso. Mas quem será realmente o mentiroso, o que deu a notícia ou o que a desmentiu atirando a responsabilidade para as costas de um secretário do então arcebispo? Vejamos: a notícia foi confirmada. No tempo em que Ratzinger era arcebispo, um padre pedófilo da sua Diocese foi enviado para outra paróquia, sem qualquer pena canónica e sem ter sido denunciado à autoridade civil. Duas graves decisões confirmadas, mas logo esvaziadas quando se tenta ilibar o arcebispo, informando que a transferência foi feita sem o seu conhecimento. Quem isto afirma comete dois pecados: mente e abusa da simplicidade dos crentes. A transferência de um padre é da competência do Ordinário do Lugar e a nomeação tem que estar assinada por ele. Ou seja, o padre pedófilo só foi aceite na outra paróquia porque levava uma nomeação assinada pelo arcebispo Ratzinger. Quem conhece os meandros da burocracia diocesana sabe perfeitamente que no caso de um padre pedófilo ninguém daria um passo sem o conhecimento e consentimento do arcebispo. E ninguém acredita que um Ratzinger assinasse de cruz a nomeação de um padre pedófilo.


Sei perfeitamente que no fundo o que estava em causa não era proteger o padre pedófilo, mas sim a Igreja. Só que essa protecção se fez sobre os escombros de dezenas de crianças.


Sirva de corroboração o hediondo caso de um grupo de miúdos cubanos violados no Estado da Florida por um padre também cubano. Essas crianças chegaram à Florida como tendo sido arrebatadas ao comunismo! O pedófilo nunca foi incomodado.


No caso da pedofilia do clero, a entidade mais interessada em pôr tudo em pratos limpos devia ser o próprio Vaticano, se não por um imperativo de compaixão e justiça, pelo menos pelo respeito devido à dignidade desses milhares de padres e freiras que leal e honestamente dão o melhor de si. A sua existência e acção não devem ser usadas para calar ou minimizar as acusações; ao contrário, deveriam ser um incentivo para que toda a verdade saia à luz do dia. A sua coragem de sempre exige a coragem dos seus superiores neste momento.

''Darwin errou, e a seleção natural não explica tudo''

Instituto Humanitas Unisinos - 05 abr 10

Professor, mas como é possível intitular um livro de "Gli errori di Darwin" [Os erros de Darwin], nos Estados Unidos de hoje, em plena polêmica criacionista? E imagine o que vai acontecer na Itália. O senhor diz que é uma leitura laica e científica. Mas não teme que acabe sendo instrumentalizado?

Olhe, chega dessa história de que dizendo a verdade se faz o jogo da oposição...

Não damos a mínima ao politicamente correto: pode-se dizer isso?

Talvez de um modo um pouquinho mais gentil.

Gentilmente, Massimo Piattelli-Palmarini, físico e biólogo, um dos maiores cognitivistas do mundo, professor da Universidade do Arizona, e Jerry Fodor, o filósofo e estudioso da linguagem, estraçalharam a seleção natural nas 264 páginas de "What Darwin Got Wrong" [Onde Darwin errou], o livro que, da Boston Review ao The Guardian, já é um sucesso mundial. Porque, se a seleção natural desaba, desabam também as traduções culturais do darwinismo.

"Foi justamente isso que nos levou a escrever esse livro. O enorme cansaço sentido durante anos com relação aos neodarwinianos na psicologia, na sociologia, na filosofia da linguagem, da mente: em todos os setores das ciências humanas".

A reportagem é do jornal La Repubblica, 29-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Dê alguns nomes.

A tríade sagrada. Daniel Dennett, filósofo norte-americano, Richard Dawkins, biólogo inglês, Steven Pinker, canadense, psicólogo em Harward. Os três corifeus do neodarwinismo.

O que não está certo na evolução?

Por favor: a evolução é um fato. Não é mais uma hipótese, mas é um dado adquirido. O problema são os neodarwinianos que, com a seleção natural, pensam que podem explicar tudo.

Tentemos de novo: o que não está certo na seleção natural?

Primeiro, os chamados vínculos internos. Como ocorre a evolução biológica? A evo-devo [evolução do desenvolvimento] descobriu que os genes são substancialmente quase sempre os mesmos, há centenas de milhões de anos. Além dos babuínos, dividimos tudo com as moscas e os ratos. Naturalmente, quanto maiores são os vínculos internos, maior é a estrutura genética que condiciona o desenvolvimento. Menor é, portanto, a importância da seleção natural.

Ponto dois.

Física e química nos dizem que os princípios de auto-organização comuns a tantas espécies não têm nada a ver com a seleção natural. A lei da gravidade, por exemplo: é uma lei da física. Existe uma historinha que explica bem a atitude dos neodarwinianos que não se rendem. A criança pergunta ao pai: "Como é possível que, quando soltamos os objetos, eles caiam no chão?". E o pai neodarwiniano: "Porque aqueles que tendiam a voar se perderam na seleção natural".

Ponto três.

Dois grandes evolucionistas como Jay Gould e Richard Lewontin esclareceram há muito templo: traços muito diferentes entre si muitas vezes se desenvolvem juntos. É impossível dizer qual foi selecionado e qual só foi acompanhado.

Então essa seleção natural não explica nada?

Atenção: todos os anos, devemos nos vacinar novamente, porque os vírus mudam, e mudam em sua vantagem, e não em nossa. A seleção natural é uma realidade: mas não é o motor das espécies novas.

Resumindo: a evolução é um dado de fato, a seleção natural existe, mas não é o motor da evolução.

Não é o motor da especiação: da criação de novas espécies. Do aperfeiçoamento das espécies, sim. Da criação de subespécies, sim. Os únicos experimentos de evolução por seleção natural levaram à criação de subespécies. De um tipo de mosca da fruta foi criada a subespécie de mosca da fruta. De um tipo de sapo, um subtipo. Mas sempre se tratam de sapos e de moscas.

Portanto, a seleção natural não explica o princípio último?

Não explica a evolução biológica. Não explica a criação das espécies. Nós usamos uma metáfora: a seleção natural é o afinador do piano, não o compositor de sinfonias.

Então quem seria o compositor?

Muitos. Pela seleção natural, não é que haja só um outro princípio que o substitua: os mecanismos são múltiplos.

E, ao invés, os neodarwinianos continuam aplicando esse conceito onicompreensivo ao resto da ciência.

Tomemos a semântica. Daniel Dennett explica a linguagem com a adaptação, as necessidades essenciais, a reprodução, o alimento. Uma lorota enorme.

Richard Dawkins?

"Deus, um delírio" é um livro infausto. Eu sou ateu, integralmente ateu. Mas zombar da religião em nome de Darwin é algo infame.

E Steven Pinker?

O defensor da psicologia neodarwiniana. Explica tudo com os genes: do homicídio ao ciúme.

Professor, o senhor vive nos EUA e sabe bem que os jornais estão cheios desse tipo de interpretações científicas. Assim, tudo se desmonta.

Mas se eu lhe oferecer uma teoria neodarwiniana, digamos, da homossexualidade, é claro que no dia seguinte eu vou estar na primeira página do New York Times. Se, ao invés, eu lhe disser sabe-se lá o que, fatores múltiplos etc., não vou estar nem na primeira, nem na segunda, nem na 30ª página.

Que pena.

Outro caso famoso: a violência dentro casal, dentro das famílias. A violência dos pais com os filhos adotivos. A história darwiniana explica tudo. Gene contra gene...

E o que muda quando tiramos a seleção natural do pedestal?

As ciências sociais são reintroduzidas: a filosofia, a filosofia do direito, da estética. São reintroduzidos aqueles grandes temas que, por sorte, nunca morreram.

Nunca lhe perdoarão por isso.

Dou-lhe já um nome: Giorgio Bertorelle é o presidente da Sociedade Italiana de Biologia Evolucionista. Há alguns anos, ele tentou fazer com que os cientistas do mundo inteiro assinassem um manifesto. Contra mim. Isso chegou ao meu amigo Richard Lewontin. E ele: "Mas vocês são completamente loucos?".

Imaginemos então se o senhor se deparasse diretamente com Darwin.

Um gênio, por favor, e talvez é um pouquinho desonesto criticá-lo assim depois de 150 anos. Mas, no fundo, ele mesmo dizia que existem muitas coisas que a sua teoria não chegava a explicar.

Está dizendo que Darwin teria gostado do seu livro?

Bem, seguramente ele o entenderia.

Oposição mantém governos e evita a hegemonia de Evo

Instituto Humanitas Unisinos - 05 abr 10

Pesquisas de boca de urna revelam que a oposição ao presidente da Bolívia, Evo Morales, deve conseguir manter o domínio da chamada "meia-lua" nas eleições regionais realizadas ontem em todo o país.

A reportagem é do jornal Folha de S.Paulo, 05-04-2010.

Levantamentos de boca de urna de TVs e jornais bolivianos indicam que o partido de Morales, o Movimento ao Socialismo (MAS), ganhou as eleições para governador em La Paz, Cochabamba, Oruro e Potosí. Já a oposição venceu em Santa Cruz, Beni e Tarija, que, juntamente com Pando, onde as pesquisas mostram uma vantagem menos clara da oposição, formam a "meia-lua", região ocidental do país que se notabilizou por uma forte oposição a Morales em seu primeiro mandato.

O nono departamento do país, Chuquisaca, também não tinha um vencedor claro segundo as bocas de urna. No pior dos cenários, o partido de Morales perderá apenas o controle de Pando - onde um aliado do governo assumiu o poder após conflitos que deixaram 18 mortos em 2008 e geraram a prisão do governador oposicionista Leopoldo Fernández -, já que os demais departamentos já são atualmente governados pela oposição.

Morales, que foi reeleito em dezembro do ano passado com pouco mais de 64% dos votos, tinha a intenção declarada de estender sua hegemonia para as áreas do país controladas pela oposição. Durante a campanha, o presidente chegou a prever o fim da "meia-lua".

Mãos estendidas

Vários líderes da oposição que, segundo as pesquisas, revalidaram seus mandatos nas eleições de ontem, ofereceram a Morales "união" e trabalho conjunto pelo futuro do país. O governador de Santa Cruz, Rubén Costas, afirmou que chegou a hora "de construir e contribuir" para "construir o futuro" da Bolívia. No entanto, ele pediu para que não se confunda "nossa mão estendida com uma mão rendida". "Nossa mão está mais forte, em termos democráticos, do que antes", completou.

O também reeleito prefeito de Potosí, René Joaquino - que foi candidato à Presidência no ano passado -, seguiu a mesma linha. "As autoridades eleitas são autoridades de todos e temos o compromisso de coordenar e trabalhar em uma gestão conjunta [com o governo central] para Potosí", declarou após conhecer os primeiros resultados de boca de urnas.

Já Evo Morales declarou seu partido o vencedor das eleições e pediu à oposição para que evite a confrontação política até o fim de seu mandato, em 2015. "Que os opositores entendam que esse processo de mudança [política, com o MAS] é irreversível, e que é melhor se eles puderem somar. Se não, que pelo menos contribuam com gestão para que o povo saia ganhando", assinalou.

Afora a dura disputa política, as eleições de ontem foram marcadas pela tranquilidade e pela alta participação, segundo a Corte Nacional Eleitoral (CNE) e a missão de observadores da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Pouco mais de 5 milhões de eleitores estavam inscritos para eleger nove governadores, 337 prefeitos, 1.887 vereadores, 23 autoridades indígenas locais, além de subgovernadores, parlamentares departamentais (estaduais) e corregedores. Segundo o Ministério de Governo, foram registrados apenas incidentes isolados, que não demandaram a intervenção das forças de segurança.

A crise, motor do capitalismo

Instituto Humanitas Unisinos - 05 abr 10

“Os bancos já grandes demais para falir tornaram-se ainda maiores! Nestas condições, desmantelar esses grandes conglomerados, por exemplo, separando-os em bancos de investimento e bancos de depósitos, deveria ser uma prioridade. Um banco grande demais para falir deveria ser igualmente grande demais para existir. Mas essa política implica uma profunda mudança das mentalidades, o que, ao menos por enquanto, parece bastante remota. Globalmente, o G-20 continua a pensar no contexto do capitalismo neoliberal. No entanto, se o nosso diagnóstico estiver correto, a persistência da crise vai exigir uma mudança de paradigma”, escreve André Orléan em artigo publicado no Le Monde, 30-03-2010. A tradução é do Cepat.

André Orléan nasceu em 1950 em Paris. Foi membro do Conselho Científico da Comissão das Operações da Bolsa, que se fundiu, em 2003, com o Conselho de Mercados de Capitais para formar a Autoridade dos Mercados Financeiros (AMF). Desde 2006, é diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Faz parte do comitê executivo da revista Annales. Histoire, Sciences Sociales.

Orléan é autor de vários livros, entre eles Le pouvoir de la finance [O poder das finanças] (Odile Jacob, 1999), A violência da moeda (Brasiliense), escrito em parceria com Michel Aglietta, e Da euforia ao pânico, já comentado em Notícias Diárias.

Eis o artigo.

A história do capitalismo coincide com a história de suas crises. Ao longo do período 1970-2007, podemos contar nada menos que 124 crises bancárias, 208 crises cambiais e 63 crises de dívida soberana! Mesmo que a maioria delas seja limitada a países periféricos, não deixa de ser uma declaração muito impressionante.

Confrontado com estes números, a ideia de auto-regulação dos mercados parece ser insuficiente. Para entender como o capitalismo administra seus excessos, parece que a hipótese alternativa de uma regulamentação pelas crises não carece de argumentos. Para se convencer disso, basta considerar o que se chama de "grandes crises" ou crises estruturais. Uma vez que são períodos de profunda mudança, seu papel no desenvolvimento histórico do capitalismo é crucial. O mais célebre deles é a Grande Depressão (1929-1939).

Trata-se de crises profundas, não só pela sua intensidade quantitativa, mas também qualitativamente pela extensão das transformações institucionais que elas iniciam. Estas crises são causadas pelo esgotamento de um modelo de crescimento que não consegue mais conter seus desequilíbrios. Para recomeçar, o sistema econômico necessita de novas regras, novas instituições e novos compromissos. Esta é a questão das grandes crises: reinventar um novo modelo de crescimento.

Assim, durante o período de 1929-1945, o capitalismo soube se transformar ao propor um projeto original, baseado não mais na concorrência para todos, mas sobre um ajuste permanente, centrado na grande empresa industrial, entre aumentos do salário real, ganhos de produtividade e crescimento. Para descrever este modelo que surge no final da II Guerra Mundial, fala-se de "regulação fordista”, por referência a Henry Ford, que havia compreendido que conseguir vender carros e obter lucros, os seus trabalhadores deveriam receber bons salários.

Após conhecer uma excepcional prosperidade, conhecido como os Trinta Gloriosos (1945-1973), o regime fordista entra, por sua vez, em crise. É a estagflação dos anos 1970 (1973-1982), que mistura de maneira inédita inflação e baixo crescimento. Se esta grande crise difere da de 1929, o seu significado permanece o mesmo: o fim de uma era e o advento de uma nova forma de capitalismo. Assim, após a estagflação dos anos 1980, emerge o capitalismo financeiro, também chamado de "capitalismo patrimonial" ou "capitalismo neoliberal".

A ruptura com o regime anterior é prodigiosa, especialmente pela magnitude experimentada pela desregulamentação financeira. Assistimos ao desmantelamento progressivo do quadro regulatório que, notavelmente, levou à eliminação de qualquer crise bancária durante o período fordista, entre 1945 e 1970. Politicamente, é a chegada ao poder dos governos liberais Margareth Thatcher, no Reino Unido (maio 1979), e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos (janeiro de 1981), que marca o início desta nova fase. Mas, do ponto de vista da regulação econômica, a origem desse novo capitalismo se encontra na transformação revolucionária que a política monetária conhece. Agora, a inflação é o alvo prioritário.

Para combatê-la, Paul Volcker, feito presidente do Federal Reserve (Fed), em 1979, pratica um aumento impressionante das taxas de juros no curto prazo, que chegam a 20% em junho de 1981. Essa política cria uma mudança completa e definitiva do equilíbrio de poder entre devedores e credores em favor dos últimos. De agora em diante, os proprietários de ativos financeiros não correm mais o risco de ver sal sua rentabilidade sendo corroída pela inflação. Eles têm o campo livre. Assim começou um período de 25 anos, que tem por característica central a de colocar a finança de mercado no centro da regulação, bem além da mera questão técnica do financiamento. Para dizê-lo com palavras simples, são os mercados financeiros que controlam de agora em diante os direitos de propriedade, algo nunca visto até então.

Nos capitalismos anteriores, a propriedade do capital era exercida sob a forma do controle majoritário em estruturas específicas fora do mercado, a exemplo do Hausbank alemão (“banco da casa") ou do controle familiar. O representante emblemático do capitalismo patrimonial é o investidor institucional. Ele é portador de uma nova governança corporativa, centrada sobre o “valor acionário".

A crise que começou em agosto de 2007 deve, em nossa opinião, ser entendida como marcando a chegada dos limites do capitalismo patrimonial e sua entrada em grande crise. Assim como os capitalismos precedentes, sucumbe quando o próprio princípio do seu dinamismo está se voltando contra ele para tornar-se uma fonte de desequilíbrios. Neste caso, é a questão financeira que se torna determinante. O capitalismo patrimonial não é mais capaz de controlar a expansão de seu setor financeiro, cujo peso é uma desvantagem ultrapassado um determinado umbral.

Para ver isso, consideraremos a dívida total dos Estados Unidos, no conjunto de todos os setores. Entre 1952 e 1981, durante o período fordista, seu crescimento permanece moderado: entre 126% e 168% do PIB. Durante a fase neoliberal, essa relação explode, chegando a 349% em 2008! O mesmo acontece com o total dos ativos financeiros dos Estados Unidos. Ele permanece estável de 1952-1981, entre 4 e 5 vezes o PIB, para depois aumentar em mais de 10 vezes o PIB em 2007. Em nível mundial, a observação é a mesma: o total dos ativos financeiros, que equivalem a 110% do PIB mundial em 1980, atingem 346% em 2006.

Se, inicialmente, a expansão financeira participou ativamente na formação do crescimento neoliberal, parece que hoje se tornou desproporcional. Acredito que este setor se apropria de 40% dos lucros totais norte-americanos em 2007, contra 10% em 1980, ao passo que representa apenas 5% do emprego. A desproporção é extrema. Ela pesa sobre a economia global, através de muitos canais. Primeiro, através das exigências de rentabilidade. A mundialização financeira dos direitos de propriedade deu aos acionistas substituídos pelos investidores institucionais um poder sem precedentes. Permitiu o surgimento de um padrão de desempenho em cerca de 15% para as empresas cotizadas. Esta exigência de rentabilidade é insustentável no longo prazo. Pouquíssimas atividades industriais oferecem retornos tão elevados.

Por conseguinte, a falta de empregos rentáveis, sob a pressão do valor acionário, as empresas foram obrigadas a fornecer capital aos acionistas através de dividendos ou recompra de ações. Sabemos que nos Estados Unidos a emissão líquida de ações é negativa nos últimos quinze anos. Em outras palavras, o mercado bursátil norte-americano financia os acionistas e não o contrário. Pelo fato de pesar sobre o crescimento dos países desenvolvidos e alimentar as estratégias de deslocalização, esta rentabilidade exigida leva a uma queda significativa do emprego industrial na Europa e nos Estados Unidos.

A segunda consequência é deduzida imediatamente: uma forte pressão sobre os salários. Ela decorre de uma relação de forças extremamente desigual entre uma representação unificada dos acionistas e uma extrema fragmentação das organizações sindicais. Por conseguinte, enquanto no regime fordista uma parte significativa dos ganhos de produtividade era devolvida aos trabalhadores, o que alimentava o dinamismo da demanda aquecida, isso não mais é verdade no capitalismo patrimonial. Os salários reais estagnaram, o que é um freio permanente para o crescimento econômico. Daí o recurso ao endividamento das famílias com os efeitos que conhecemos.

Terceira consequência: um grande aumento das desigualdades. Com efeito, uma característica central da nova governança corporativa é ter derrubado o alto management do lado dos proprietários. É toda a questão das novas regras de remuneração com vistas a alinhar os interesses dos dirigentes com os dos acionistas. Seguiu-se uma explosão das desigualdades nos países desenvolvidos. A diferença entre o salário médio dos operários e dos dirigentes passou de 40 para 500 nos Estados Unidos.

Ainda mais impressionante: se considerarmos os 90% dos trabalhadores menos ricos e compararmos a sua renda média com o 1% mais rico, no período entre 1973-2006 (33 anos) constataremos que em termos reais a renda média dos primeiros diminui ligeiramente quando é multiplicada por 3,2 para os mais ricos. Lembremos que no período precedente - 1933-1973 - houve uma certa recuperação. Essas desigualdades têm efeitos tanto políticos, como econômicos. Em última análise, é a unidade da sociedade que fica comprometida.

É impressionante constatar o quanto os mercados foram incapazes de influenciar ou mesmo simplesmente atenuar esses desequilíbrios. É uma lição que é preciso manter em mente. Assim, de acordo com a teoria da eficiência financeira, a concorrência teria que aumentar o bem-estar dos consumidores, ou seja, dos devedores de hipotecas, fornecendo produtos de boa qualidade, capazes de gerenciar os riscos que comporta o acesso à propriedade, a custos baixos.

É em nome de um tal resultado que a liberalização dos mercados foi justificada. E não para aumentar os bônus bancários. Isso não aconteceu. Da mesma forma, atraídos pelos altos salários, muitos dos nossos engenheiros mais bem formados migram para o setor financeiro. Será esta uma situação satisfatória quando se consideram todos os desafios técnicos que temos que enfrentar? A entrada em crise corresponde ao momento em que esses desequilíbrios são tão grandes que a coerência global é questionada. Levanta-se então a questão de uma nova regulação.

No entanto, a crise não oferece soluções fáceis. Longe disso, inicialmente, ela só agrava os problemas porque exacerba as tendências próprias ao capitalismo patrimonial. Tomemos a questão financeira, que, como vimos, exerce um papel crucial. Durante os últimos quinze anos, o setor bancário evoluiu para um elevado grau de concentração em torno de um pequeno número de bancos muito grandes. Esta tendência é problemática porque produz gigantes que, devido ao seu tamanho, são portadores de risco sistêmico.

Consequentemente, as autoridades públicas são, de fato, obrigadas a vir em seu auxílio em caso de dificuldades. Todos os economistas concordam em que essa situação não seja aceitável. Ela leva esses atores a assumirem riscos excessivos, posto que os lucros lhes revertem ao passo que as perdas são socializadas. Ora, a crise e as medidas de emergência tomadas pelas autoridades públicas acentuaram ainda mais a concentração do setor bancário. Tendo os bancos Bear Stearns, Lehman Brothers, Merril Lynch, Wachovia e Washington Mutual desaparecido, os demais tornaram-se ainda mais importantes.

Em outras palavras, os bancos já grandes demais para falir tornaram-se ainda maiores! Nestas condições, desmantelar esses grandes conglomerados, por exemplo, separando-os em bancos de investimento e bancos de depósitos, deveria ser uma prioridade. Um banco grande demais para falir deveria ser igualmente grande demais para existir. Mas essa política implica uma profunda mudança das mentalidades, o que, ao menos por enquanto, parece bastante remota. Globalmente, o G-20 continua a pensar no contexto do capitalismo neoliberal. No entanto, se o nosso diagnóstico estiver correto, a persistência da crise vai exigir uma mudança de paradigma.

As próximas dificuldades a serem enfrentadas são de duas ordens: não só a manutenção de um desemprego em massa nos países desenvolvidos, mas também o desenvolvimento de grandes dificuldades monetárias. Note-se que, até agora, a crise foi principalmente de natureza financeira e bancária. As autoridades públicas têm conseguido controlá-la graças à manipulação vigorosa da arma monetária. Para colocá-lo simplesmente, elas afogaram as dificuldades de liquidez com o apoio ativo dos bancos centrais.

Hoje, no entanto, a massa de liquidez assim produzida associada ao crescimento vertiginoso das dívidas públicas marca o início de uma nova fase em que a questão do valor das moedas comparece como central. A este respeito, não faltam os cenários de uma possível ruptura: o que aconteceu com a hegemonia do dólar, a unidade da zona do euro, a paridade do yuan ou a fraqueza da libra esterlina? É a coesão internacional do neoliberalismo que se encontrará então diretamente questionada.

As forças de instabilidade que vieram à tona em agosto de 2007 ainda não terminaram de fazer sentir seus efeitos devastadores.

Lula atraiu pobres de metrópoles, diz analista

Instituto Humanitas Unisinos - 05 abr 10

Candidatos da situação, historicamente, arrebanham mais votos nos grotões, independente da ideologia e do partido político ao qual pertençam. Com base nessa constatação, comprovada por meio de gráficos e cruzamento de dados que revelam o comportamento do eleitor, o cientista político, pesquisador de Yale e professor visitante de Princeton, Cesar Zucco, levanta questionamentos sobre um novo aspecto comportamental observado na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, que certamente trará impactos na sucessão deste ano. "Os eleitores pobres de cidades ricas nunca tinham votado tão maciçamente no candidato do governo como em 2006", afirmou em entrevista à Malu Delgado do jornal Folha de S.Paulo, 05-03-2010.

Zucco não crê na existência de um fenômeno populista, o lulismo: "Não vejo um acúmulo da evolução do PT, de uma ideologia que junta estabilidade fiscal com alívio de pobreza. Acho inclusive que a fidelidade desses votos está para ser determinada. Não há nenhuma base material clara que diga: essas pessoas aqui são petistas hoje e vão continuar sendo amanhã. Acho que não".

Eis a entrevista.

Eleições 2020 e 2006

"O que houve de mais diferente na eleição de 2006 não foi tanto o sucesso do Lula em cidades pobres, e sim o sucesso do Lula entre os eleitores pobres de cidades ricas. Todos os partidos que estiveram no governo tendem a ir melhor em lugares pobres. O que não tinha acontecido antes, aparentemente, e essa análise não é definitiva, é que os eleitores pobres de cidades ricas nunca tinham votado tão maciçamente no candidato do governo como em 2006. O Bolsa Família é uma explicação plausível, o principal suspeito".

Voto da classe média

"Se você não consegue atingir ninguém diretamente nas cidades [mais ricas] por falta de uma rede local, você vai tentar atingir com promessas, ou com bens públicos -oferta de segurança, saúde. Sempre são coisas bem gerais, e não específicas, cujo retorno é incerto. Se o governo consegue o voto do pobre nas cidades grandes e maciçamente o voto nas cidades pobres, sobra a classe média para dividir com a oposição. Acho que a classe média pode sim ser menos relevante. E a oposição vai ter problemas. Ganhar uma eleição sem levar os pobres é muito difícil. Provavelmente a classe média vai se dividir. Dificilmente haverá uma lavada da oposição na classe média. E, pelo jeito, haverá do governo entre as classes pobres".

Cenário para 2010

Acho pouco provável que o governo perca a eleição. Nessas coisas há um certo grau de imprevisibilidade, mas, estruturalmente, tem muito pouca chance de o governo perder, dado o contexto da economia, o contexto social, os resultados de eleições passadas, o retorno do Bolsa Família para o Lula pessoalmente - ainda que ele não transfira todos os votos - e dado que o PT vai ter mais tempo de televisão. Quando você soma tudo isso é um morro acima grande para a oposição.

Bolsa família e voto

O paralelo é a estabilização, com o Plano Real. Parecia que quem resolvesse o problema da inflação seria Deus. E a estabilização rendeu uma reeleição para o Fernando Henrique. E só. Hoje, ninguém mais pensa nisso e diz: "Vou votar no PSDB por causa da estabilização". O outro paralelo é o Vargas. Criou o salário mínimo, sindicatos, o Ministério do Trabalho, uma série de coisas. Até muito recentemente, ao final da ditadura, discutia-se quem seria o herdeiro do legado Vargas. O Bolsa Família encontra qualquer lugar entre uma coisa e outra. Não dá para saber se vai ter um efeito Lula, se vai ter um efeito PT, ou se vão passar para a frente.

Usineiros buscam candidato da continuidade

Instituto Humanitas Unisinos - 05 abr 10

Os pré-candidatos do PT e do PSDB à Presidência da República, Dilma Rousseff e José Serra, respectivamente, entram na disputa pelo apoio do setor sucroalcooleiro em situação desigual. Beneficiado com refinanciamento de dívidas no Banco do Brasil e com crédito farto no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no governo Luiz Inácio Lula da Silva, o setor da cana-de-açúcar está satisfeito com o presidente, considerado garoto-propaganda do etanol no mundo. De 2002 ao ano passado, a produção de álcool subiu 140% e a exportação do combustível ficou nove vezes maior.

A reportagem é de Ana Paula Grabois e publicado pelo Valor, 05-04-2010.

Parte do setor confia na continuidade da política lulista por Dilma. "Não poderia dizer que tem unidade, mas existe um reconhecimento do governo Lula. Com toda certeza, vai ter uma parte que vai apoiar e outra que não vai apoiar", diz o presidente executivo da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), Antonio Cesar Salibe.

Serra foi cauteloso com o setor ao manter a redução da alíquota de ICMS sobre o etanol de 25% para 12%, adotada no governo anterior. Por outro lado, os produtores não veem com bons olhos as medidas de proteção ambiental adotadas pelo seu governo em São Paulo. O Estado produz 75% do etanol brasileiro, o equivalente a 25% da produção mundial.

Em junho de 2007, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo assinou protocolo com os produtores para diminuir o prazo do fim da queimada da cana-de-açúcar, o que obriga a mecanização na colheita e a recapacitação dos trabalhadores do corte. A chamada "cana verde", que não é queimada, só pode ser colhida por meio de máquinas substituindo a colheita manual.

Em terrenos com declividade, o prazo para a eliminação da queimada da cana foi reduzido de 2017 para 2013, conforme o protocolo do governo estadual. Nas áreas planas, o prazo, previsto por lei estadual para 2021, foi antecipado para 2014. "Em 2017, a prática da queima estará abolida e 90% estarão fazendo a mecanização", afirmou o gerente do projeto "Etanol Verde" e diretor de sustentabilidade da secretaria de Meio Ambiente, Ricardo Viegas.

O diretor da secretaria argumenta que 90% dos canaviais são mecanizáveis. No Estado, 70% das plantações são de propriedade de usineiros de álcool e açúcar. O restante está nas mãos dos fornecedores de cana. "A queima representa prática de cultivo ultrapassada. Os produtores estão ganhando com isso, tem pressão externa para ser ambientalmente correto e não dá mais para admitir essa qualidade de trabalho do corte da cana", afirmou Viegas.

Os resultados do protocolo são positivos, afirma o diretor de sustentabilidade do governo estadual. Em 2007, apenas 30% dos canaviais eram mecanizados em São Paulo. Três anos depois, a participação já é majoritária e saltou para 56%, mesmo com o aumento da área colhida no período. "No início, houve resistência, principalmente em relação aos investimentos necessários, mas hoje os empresários donos de 94% da produção já assinaram o protocolo", disse Viegas.

O documento foi assinado pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) - que representa 119 empresas de açúcar e álcool - e por alguns fornecedores de cana. A maior dificuldade está entre os produtores pequenos, sem capacidade de investimento em máquinas, mas que devem, segundo prevê Viegas, ser incorporadas pelas grandes empresas de etanol nos próximos anos.

Um empresário do setor avalia que a entrada do capital estrangeiro no negócio do etanol produzido no Brasil forçou a modernização da colheita e das relações de trabalho, além do aumento do investimento. Os novos usineiros do exterior, que ainda não enfrentaram uma eleição presidencial brasileira, aguardam sinalização dos candidatos sobre as políticas propostas para o negócio e especialmente em relação aos movimentos sociais no campo, como o MST.

A modernização, no entanto, não resolveu o que fazer com os cortadores de cana, sem qualificação para exercer outras atividades, embora o corte seja considerado trabalho exaustivo. "Botaram muita pressão sobre as condições de trabalho e ambiental. A velocidade foi muito grande e não vamos conseguir recapacitar 1,5 milhão de pessoas no prazo exigido, incluindo os que vem e voltam do Nordeste. Tenho medo de parecer retrógrado, mas não é isso. Teria que ter mais tempo para requalificar e empregar os trabalhadores", afirma um usineiro que não quis ser identificado.

A Unica estima em 500 mil o total de trabalhadores no corte da cana no país, sendo 140 mil no Estado de São Paulo. A entidade iniciou no fim de fevereiro programa de requalificação profissional. O projeto "Renovação" vai investir R$ 2,5 milhões com patrocínio do grupo Case e das empresas John Deere e Syngenta e apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O objetivo é requalificar 7 mil trabalhadores ao ano por meio de cursos profissionalizantes voltados para o próprio segmento, como motoristas canavieiros, operadores de colheitadeira, eletricistas e mecânicos, e para outros segmentos da economia, como avicultura, jardinagem, construção civil, horticultura e costura.

No MS, em três anos 270 mil hectares viram carvão

Instituto Humanitas Unisinos - 05 abr 10

A produção de carvão vegetal para a indústria siderúrgica fez desaparecer nos últimos três anos cerca de 270 mil hectares de matas nativas do Pantanal de Mato Grosso do Sul, o que equivale a duas vezes o território da cidade de São Paulo. A estimativa foi feita pelo Ibama no Estado e levou em conta a demanda utilizada pelas indústrias no período e as informações sobre movimentação de cargas contidas nas guias do DOF (Documento de Origem Florestal).

A reportagem é de Rodrigo Vargas e publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, 05-04-2010.

"O avanço das carvoarias sobre as matas nativas, legalmente ou não, é uma séria ameaça à sobrevivência do Pantanal", afirma o superintendente do Ibama-MS, David Lourenço. Entre 2007 e 2009, segundo o Ibama, Mato Grosso do Sul movimentou 8,6 milhões de metros cúbicos de carvão vegetal -a conta inclui o carvão importado do Paraguai. O auge foi o ano de 2007, com 4,5 milhões de metros cúbicos.

Em 2009, diz o Ibama, houve queda significativa na produção: 1,2 milhão de metros cúbicos. O órgão atribui o resultado à crise internacional e ao aumento na fiscalização. No período, diz Lourenço, a produção derivada de florestas plantadas representou "praticamente nada" em relação à demanda da indústria. "Do produzido, 99% se dá por meio de lenha de floresta nativa. Não temos dúvida em relação a isso."

Cada 80 metros cúbicos de lenha nativa rende, em média, 40 metros de carvão. A maior parte dessa madeira é retirada da região do planalto pantaneiro, afirma o superintendente. Antes a produção se concentrava no oeste do Estado. Mas o enfraquecimento gradativo do cerrado por lá levou a uma migração para o planalto pantaneiro, onde temos 47% de matas nativas preservadas."

Para Luiz Benatti, chefe de proteção ambiental do Ibama no Estado, as indústrias carvoeira e siderúrgica são hoje duas das principais "indutoras do desmatamento" do cerrado. "A carvoarias atuam diretamente. E as siderúrgicas só querem saber de colocar mais carvão para dentro da indústria, sem se importar com a origem e as condições em que foi produzido", afirma.

O ambientalista Alcides Faria, diretor-executivo da ONG sul-mato-grossense EcoaFaria. (Ecologia e Ação), diz que até mesmo as áreas da planície pantaneira já são alvo das carvoarias. "Entre os impactos possíveis estão a erosão e o assoreamento dos rios", diz

Para fazer pasto

De acordo com ele, a transformação de matas nativas em carvão é hoje uma opção rentável para a ampliação de áreas para a pecuária. "Muitos fazendeiros usam as natas nativas de suas propriedades para financiar, por meio da produção de carvão, a abertura de novas pastagens", afirma. O processo segue o mesmo rumo, diz o ambientalista, nas regiões pantaneiras da Bolívia e do Paraguai, que hoje também são grandes produtoras de carvão de origem nativa. "Há uma nítida expansão dessas atividades por todo o bioma."

"Exagero"

O presidente do sindicato do setor metalúrgico no Estado, Irineu Milanesi, diz que considera "exagerada" a estimativa feita pelo Ibama. De acordo com ele, as florestas plantadas "já são uma realidade". "Não conseguiríamos sustentar a indústria só com carvão de origem nativa. Isso é um exagero do Ibama", diz Milanesi.

Para Marcos Brito, do sindicato que representa a indústria carvoeira, a ideia de que matas nativas são derrubadas para a produção de carvão é um "equívoco". "O que existe é o aproveitamento do material resultante de áreas desmatadas legalmente para a agropecuária."

Segundo ele, o setor é o que mais gera empregos no Estado e será autossustentável em "sete a oito anos". "Já temos 307 mil hectares plantados e devemos chegar a 500 mil hectares. Este processo já está bastante adiantado", afirma Brito.

Para ler mais: