"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, abril 07, 2014

Começou uma nova Guerra Fria. Que Alívio


Data de publicação em Tlaxcala: 04/04/2014

The Saker El Saqr Балобан الصقر 
Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu


Considerada a relativa calmaria que parece configurar-se na Ucrânia, o momento parece propício para examinar o impacto que os dramáticos desenvolvimentos naquele país tiveram sobre o cenário político interno da Rússia e o que esse impacto, por sua vez, pode significar para a (des)ordem internacional. Para isso, gostaria de começar por um breve resumo de uma tese que já mencionei antes.[1]
Preparando a parte russa do palco
Primeiro, uma lista itemizada dos tópicos que já se discutiram nesse blog:  
1.    Não há real oposição parlamentar na Rússia. Mas, não, não, não porque “Putin é um ditador”, nem porque “a Rússia não é uma democracia”, mas, sim, simplesmente, porque Putin manobrou brilhantemente ou para cooptar ou para cortar as garras de qualquer oposição. Como? Usou bem sua autoridade pessoal e carisma para promover uma agenda à qual os demais partidos não se poderiam opor abertamente. Formalmente, continuam a existir os partidos de oposição, é claro. Mas absolutamente não têm qualquer credibilidade. É situação que pode mudar, com a nova Lei dos Partidos Políticos.
2.    A única oposição “dura” a Putin, na Rússia moderna, são os vários indivíduos abertamente pró-EUA (Nemtov, Novodvorskaia, etc) e movimentos e partidos associados a eles. Representam (no máximo!) 5% da população.
3.    Putin aplicou ‘movimento de judô’ nos reais opositores (adiante, mais sobre isso), usando a “Constituição (fortemente) presidencial” aprovada em 1993, para, basicamente, concentrar todos os poderes na presidência.
4.    A “oposição” *real* a Putin e ao seu projeto só existe *dentro* do Kremlin, no partido “Rússia Unida” e em algumas figuras influentes. Chamo essa oposição real de “Atlanticistas Integracionistas” (AI), porque o objetivo-chave deles é integrar a Rússia à estrutura mundial anglo-sionista de poder.
5.    A base *real* de poder de Putin está no povo russo que o apoia diretamente e pessoalmente, na Frente de Todos os Povos Russos,[2] e no grupo que chamo de “Eurasianos Soberanistas” (ES), cujo objetivo básico é desenvolver uma nova ordem mundial, multipolar, para livrar-se do atual sistema financeiro internacional anglo-sionista; reorientar a maior parte possível da antiga URSS na direção de integrar-se com o Ocidente; e desenvolver o norte da Rússia.

Se quisesse simplificar ainda mais as coisas, poderia dizer que em 1999 os Atlanticistas Integracionistas (AI) e os Eurasianos Soberanistas (ES) uniram-se para levar Putin ao poder, substituindo Ieltsin. Os AI (em termos genéricos, representam os interesses do big money & big business) queriam burocrata mais cinzento e obscuro, como Putin (era o que eles supunham), que assegurasse o continuísmo e não sacudisse demais o bote depois da partida de Ieltsin. Os Eurasianos Soberanistas (em termos gerais, representantes dos interesses de certa elite da antiga KGB, especialmente seu Primeiro Diretorado-Comando[3]) e o próprio Putin, usaram brilhantemente o poder dado a Putin pela Constituição de 1993 (aprovada no governo de Ieltsin e dos Atlanticistas Integracionistas!), para mudar, lenta mais firmemente, a rota da Rússia: de total submissão e colonização ao/pelos EUA, para um processo que Putin e seus apoiadores chamam de“soberanização”, i.e., de libertação nacional.

A partir disso, seguiu-se longa disputa de quebra-de-braço, sobretudo nos bastidores, mas com eclosões de tempos em tempos que se veem do lado de fora, como a trombada entre Putin e Medvedev no caso do Irã e da Líbia ou a demissão de Kudrin por Medvedev (os dois foram empurrados para uma mesma rota de colisão, por Putin, claro). Como derradeira super simplificação, posso dizer que Medvedev representa os Atlanticistas Integracionistas; e Putin, os Eurasianos Soberanistas.

Tudo aqui está muito supersimplificado, para não alongar demais o postado. Todos encontrarão informação um pouco mais detalhada em outros postados indicados nas notas, inclusive os comentários dos leitores do blog.
Preparando a parte ucraniana do palco
Antes desse inverno, a maior diferença entre Rússia e Ucrânia era que na Rússia Putin basicamente destruíra a velha oligarquia que EUA e Israel controlavam, e a substituiu por outra, que ou apoiava o Kremlin ou mantinha-se neutra. A mensagem de Putin para a oligarquia russa foi simples: “podem ser ricos, mas não comprometam o bem-estar da nação russa nem tentem intrometer-se na luta política.” Para os que não entendam por que Putin não eliminou a oligarquia russa como grupo, tenho de repetir que TUDO que Putin fez desde 1999 até agora, sempre foi numa relação de acordos e concessões entre os seus Eurasianos Soberanistas e os ainda muito poderosos Atlanticistas Integracionistas. Putin de modo algum poderia desafiar diretamente esse grupo muito poderoso, muito rico, muito bem relacionado; então, teve de andar devagar e com cuidado, passo a passo.

Na Ucrânia, bem diferente disso, os oligarcas consumaram o que eu chamaria de “Sonho de Khodorkovsky”: compraram basicamente tudo, toda a economia, toda a imprensa-empresa de massa, todo o Parlamento e, claro, também a presidência. Ao longo dos últimos 22 anos, a Ucrânia viveu basicamente escravizada por vários oligarcas que fecharam negócio bem simples com o ocidente: vocês nos apoiam e nós apoiamos vocês.

Resultado disso, os líderes ocidentais e a imprensa-empresa “não perceberam” que todos os políticos ucranianos são corruptos até a medula, inclusive Ianukovich e Tymoshenko; que – diferente da Rússia, e ao contrário do que diz a propaganda anglo-sionista – as desavenças políticas na Ucrânia foram muitas vezes decididas por assassinatos encomendados; que a plutocracia ucraniana estava, literalmente, saqueando toda a riqueza da Ucrânia (“toda”, aí, significa literalmente tudo). Até que a muitíssimo rica Ucrânia ficou miseravelmente pobre e sem recursos e riqueza para pilhar, e a crise tornou-se visível, e todos viram.

Além da pilhagem de recursos e riqueza, outra grande ‘realização’ dos oligarcas ucranianos foi a total subordinação do estado e de seus instrumentos às necessidades dos oligarcas: Para eles, o próprio estado tornou-se instrumento de poder e influência. Por exemplo, o serviço de segurança ucraniano SBU (ex-KGB) passou todo o tempo e consumiu todos os seus recursos, envolvidos nas lutas de poder entre vários oligarcas e suas bases de poder. Resultado disso, o SBU, em 22 anos, não capturou nenhum espião estrangeiro! Para piorar, o SBU foi comandado, de fato, a partir da base local da CIA-EUA. Essa total destruição do próprio aparelho do estado teve, ela mesma, papel chave nos eventos desse inverno e ainda é fator central na situação em campo: para todos os propósitos práticos, não existe “estado ucraniano”.
Os euroburocratas e o Tio Sam entram na dança
Foi nesse quadro de colapso total da Ucrânia como estado e como nação, que a União Europeia decidiu entrar com sua jogada: ofereceu à Ucrânia uma associação com a União Europeia. Tio Sam amou a ideia, especialmente porque incluía um capítulo político para conduzir a política externa e de segurança da Ucrânia pela pauta da União Europeia. Essa ideia de uma Ucrânia comandada pela União Europeia também tinha grande apelo aos olhos dos EUA, que acreditavam que a Ucrânia seria chave para as sempre pressupostas ambições imperiais da Rússia. Além do mais, a Casa Branca sabia que, se a Ucrânia fosse governada pela União Europeia, e a União Europeia governada pelos EUA (como sempre foi), então a Ucrânia seria governada pelos EUA. E o ocidente pôs-se a balançar uma grande cenoura no nariz do povo ucraniano: “façam uma escolha civilizacional”[4] e unam-se à União Europeia e fiquem ricos, saudáveis e felizes. Quanto à Rússia, nada tem a opinar: a Ucrânia é estado soberano”.

Para milhões de ucranianos empobrecidos e explorados, foi como sonho que se realiza: não apenas se tornariam milagrosamente ricos e felizes como supõe-se que os europeus sejam (só na propaganda, mas... xáprálá), como, além disso, afinal se livrariam da maldita gangue de corruptos que estavam no poder. E os oligarcas ucranianos também gostaram muito da ideia: poderiam continuar a explorar a Ucrânia e seu povo, desde que se posicionassem contra a Rússia; para eles nem foi difícil, porque os oligarcas ucranianos têm medo pânico de Putin e muito mais, sim, da ideia de um “Putin ucraniano”.
A grande explosão
Há um ditado que diz que se você está com a cabeça enterrada na areia, está com o traseiro ao vento e, de fato, a realidade voltou para morder o traseiro dos ucranianos numa estranha vingança: o país estava quebrado, arruinado, a apenas duas semanas de ter de declarar um calote, e o único lugar onde poderiam encontrar dinheiro que evitasse o colapso final era a Rússia. Mas os russos impuseram uma condição para ajudá-los: nada de associarem-se com a União Europeia, porque a Rússia não podia ter um livre mercado com a Ucrânia ao mesmo tempo em que a Ucrânia abrisse seu mercado aos bens e serviços da União Europeia (não foi nenhum ‘plano maquiavélico’ urdido por Putin, mas simples e óbvia necessidade, compreensível por qualquer um que tenha tido nota 5 em qualquer curso de “Economia 1”). Nesse ponto, Yanukovich fez seu giro repentino de 180º, que sinceramente confundiu muitos ucranianos e pediu socorro a Moscou. E abriram-se as portas do inferno: ucranianos ultrajados tomaram as ruas, querendo saber por que lhe fora negado seu sonho de prosperidade. Os EUA também  entraram em pânico – se permitissem que a Rússia salvasse a Ucrânia, a Rússia fatalmente controlaria o país: “Se você paga, você manda” – ensina a lógica norte-americana.

Então, os EUA entraram com sua maior arma: os “Talibã ucranianos”, também conhecidos como “Setor Direita”, Partido Liberdade (Svoboda, ex-Partido Social-Nacionalista) e suas falanges de bandidos neonazistas. O surgimento repentino de Banderistas[5] e outros neonazistas assustaram tanto os falantes de russo que, enquanto os doidos do novo regime revolucionários estavam ocupadíssimos proibindo o idioma russo e descriminalizando a propaganda nazista, a Crimeia separou-se do restante da Ucrânia, no momento em que a Ucrânia entrou num período de completo caos e nenhuma lei.

Todos sabemos o que aconteceu a partir daí e não é preciso repetir. Podemos agora considerar os mesmos eventos do ponto de vista da política interna da Rússia e o seu provável impacto global.
A visão de Moscou
A primeira coisa a dizer aqui é que a popularidade de Putin alcançou novos píncaros: está hoje em 71,6%, e, isso, apesar de ter havido poucos progressos no front anticorrupção, progresso zero na muito necessária reforma do sistema judicial, e com a economia russa entrando em tempos difíceis. Mesmo assim, apesar dos muitos problemas ainda não resolvidos que a Rússia enfrenta – Putin é hoje homem impossível de atacar, dado que se posicionou como o presidente que salvou a Crimeia e, é possível, até a Rússia (adiante, mais sobre isso).

O segundo efeito dramático dos eventos na Ucrânia é que polarizaram ainda mais a sociedade russa. Não estou dizendo que seja justo, mas o fato é que hoje os políticos russos têm de escolher. Têm de se posicionar:

1) ou são verdadeiros patriotas russos que apoiam Putin, a reintegração da Crimeia, a política russa de defender o país contra o ocidente,

2) ou alinham-se com os “liberais” russos, que são russofóbicos, comprados e pagos pelos EUA, nada além de uma “5ª coluna”[6] (expressão que Putin já usou), pró-capitalistas, pró-OTAN e até pró-nazistas (lembrem que, agora, o ocidente já está declaradamente apoiando os nazistas na Ucrânia!).

Desnecessário dizer, todos os políticos russos estão se atropelando uns os outros para mostra que pertencem, firmemente, ao Grupo 1, acima. Até Sergei Mironov, presidente do Partido “Só Rússia” e último líder da oposição “real” que restava no Parlamente, já assumiu a liderança da ajuda à Crimeia (o que lhe valeu aparecer incluído na lista de sanções dos EUA e União Europeia). Os que não fizeram o mesmo são cachorro morto.

O mais confiável de todos, Alexei Navalnyi,[7] o único líder de oposição não associado ao regime de Ieltsin dos anos 1990s, escreveu artigo no NYT intitulado “Como castigar Putin”,[8] no qual chega a oferecer uma lista de nomes que os EUA devem punir. No atual clima político na Rússia é praticamente suicídio político e a carreira política de Navalnyi está acabada. É provável que emigre para Londres ou para os EUA.

Mas o maior resultado da crise na Ucrânia foi ter posto Rússia e EUA em rota aberta de colisão.

Vistos os eventos do ponto de vista da Rússia, eis o que o ocidente fez:

1)   organizou um golpe armado ilegal;
2)   derrubou um governo legítimo (embora corrupto)
3)   apoiou neonazistas
4)   pôs suas políticas anti-Rússia acima dos valores democráticos
5)   pôs suas políticas anti-Rússia acima do direito à autodeterminação
6)   recusou-se a reconhecer o desejo do povo russo na Crimeia
7)   recusou-se a reconhecer o desejo dos falantes de russo na Ucrânia
8)   puniu a Rússia com sanções (só simbólicas, porque não pôde fazer mais)
9)   só não interveio militarmente porque se acovardou ante a força militar russa
10) ativou pesadamente o mundo, na ONU, contra a Rússia.

Nesse quadro – que chance têm os Atlanticistas Integracionistas de obter qualquer apoio para suas políticas? Claramente: nenhuma.

Não só isso, mas, mais que isso, as sanções usadas pelo ocidente permitiram a Putin fazer o que jamais antes conseguira: assustar os russos e espantá-los para bem longe dos bancos ocidentais (ou correm para as off-shores ou para os bancos russos); criar um sistema russo de tipo SWIFT,[9] de pagamento interbancário; facilitar os esforços para exportar mais gás para a China e o resto da Ásia; diminuir a participação dos russos em corpos nos quais os EUA mandam, como o G8 ou a OTAN; forçar a Rússia a deslocar mais capacidades militares, e mais poderosas, para as fronteiras ocidentais (pôr Iskanders[10] em Kaliningrad, Tu-22M3s [11] na Crimeia); reduzir o turismo russo para o exterior e direcioná-lo para dentro da própria Rússia. E afinal, mas não menos importante, reduzir ainda mais o uso do dólar norte-americano pelos russos.[12] Tudo isso é como sonho realizado para economistas como Glazyev[13] ou políticos como Rogozin,[14] que muito trabalharam a favor dessas medidas, há muitos anos, mas cujos conselhos Putin teve de ignorar, para não se expor ao contra-ataque dos Atlanticistas Integracionistas. Agora, há conversas ainda mais sérias que essas, na Rússia, sobre o país retirar-se de muitos tratados militares chaves (estratégicos nucleares, estratégicos convencionais, de supervisão nuclear, etc.) ou até da Organização Mundial do Comércio (pouco provável).

Agora se tornou extremamente fácil para Putin demitir qualquer um, sob o argumento de que alguém não esteja efetivamente implementando as decisões do presidente. Agora, todos sabem que todo e qualquer Atlanticista Integracionista está exposto ao risco de ser sumariamente descartado. Na verdade, é preciso dizer que Barak Obama ajudou Putin imensamente e que, graças à política absolutamente ensandecida dos EUA na Ucrânia, a posição dos Atlanticistas Integracionistas (em geral, pró-EUA) foi destruída e assim permanecerá por muitos e muitos anos.

Piadinha contada pela primeira vez na TV russa, pelo (é quase inacreditável, mas é verdade) porta-voz da Comissão Russa de Investigação (uma espécie de “FBI russo”, pode-se dizer), personagem não conhecido pelo senso de humor, está hoje, já, nas ruas. É a seguinte:

Barack Obama boicotou os Jogos de Sochi e não apareceu – e os russos saímos de lá cobertos de medalhas, nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Obrigado, camarada Obama!

Obama depois apoiou muito os extremistas da Junta em Kiev – e a Crimeia voltou correndo para nós. Obrigado, Camarada Obama!

Obama impôs sanções contra os malditos oligarcas – e o dinheiro deles voltou, do Ocidente, onde estava, para a Rússia. Obrigado, Camarada Obama!

Agora, quer dizer... Se pudermos pedir mais uma coisinha... Camarada Obama! Consiga para nós a Copa do Mundo, aquela, a do Brasil, plízzz...
 [pano rápido]

Piadas à parte, há muita verdade nessa piada: quanto mais os EUA tentam maximizar as apostas para esmagar a Rússia, mais forte a Rússia fica, e mais forte fica Putin, na Rússia.

Quanto aos poucos fracos ativistas pró-EUA deixados na Rússia, a situação deles é desesperadora: ao longo de anos tiveram de reagir contra acusações de terem sido parceiros nos horrores do regime de Ieltsin nos anos 1990s, e agora, a esse legado terrível, têm de somar o peso das acusações de serem “pró-Banderastão”. Sinceramente: que tratem de fazer as malas e partir para o ocidente. Na Rússia, estão acabados.
O que significa isso, para o resto do mundo?
Várias vezes escrevi sobre a luta oculta entre os Atlanticistas Integracionistas e os Eurasianos Soberanistas como luta “interna” ou “por trás das cortinas”, o que era verdade, no geral, até agora.

Os eventos na Ucrânia mudaram isso, e o tipo de questões às quais os Eurasianos Soberanistas até agora só aludiam em termos mais ou menos oblíquos, já são abertamente discutidas pela TV russa: como coexistir com um ocidente histericamente anti-Rússia e abertamente pró-nazistas? Como reduzir a participação russa no – e a dependência russa do – sistema financeiro internacional controlado por anglo-sionistas? Que tipo de medidas tomas para assegurar que EUA e OTAN jamais tenham opção militar viável? Como lidar com a “5a. Coluna interna” dentro da Rússia, para evitar uma “Maidan em Moscou”? Como lidar com o tipo de organizações subversivas patrocinadas pelos EUA (como NED, Carnegie, etc.) que ainda operam na Rússia? Como garantir que nenhum governo pervertidamente anti-Rússia sobreviva economicamente e socialmente em Kiev? Etc.

Pessoalmente, acho que o “parecer Nuland”[15] deva ser aplicado, não à União Europeia, mas aos EUA. E isso significa uma nova Guerra Fria?

Ah, sim. Podem apostar que sim, significa!

Mas é preciso dizer já, imediatamente, que essa nova Guerra Fria é completamente, inteiramente, 100%, invenção dos EUA e o que a Rússia fez foi, apenas, aceitar a nova realidade e operar dentro dela. Nem Putin nem ninguém na Rússia jamais quis essa nova Guerra Fria. Ela lhes foi unilateralmente imposta pelos EUA e suas colônias na União Europeia já há 20 anos ou mais.

Pensem bem: a verdadeira principal razão pela qual EUA e União Europeia não estão impondo nenhuma sanção realmente significa tica à Rússia é que já fizeram isso no passado e, hoje, já não há o que impor além de sanções que ferirão o ocidente, tanto quanto e provavelmente mais, que a Rússia. O mesmo vale para a chamada “imagem internacional da Rússia”. Alguém esqueceu os ditos idiotas e canalhas sistematicamente repetidos e promovidos como mantras pela imprensa-empresa de propaganda ocidental sobre a Rússia antes da crise na Ucrânia? Listei algumas, de meu artigo anterior sobre o tema:

– Berezovsky apresentado como empresário “processado”
– Politkovskaya “assassinada pelos assassinos da KGB”
– Khodorkovsky na cadeia, por amar a “liberdade”
– A “agressão” da Rússia contra a Georgia
– As guerras “genocidas” dos russos contra o povo checheno
– “Pussy Riot” [Agito das Bucetas] como “prisioneiras de consciência”
– Litvinenko “assassinado por Putin”
– Homossexuais russos “perseguidos” e “maltratados” pelo estado
– Magnitsky e, na sequência, a “Lei Magnitsky”
– Snowden como “traidor escondido na Rússia”
– “Eleições roubadas” para a Duma e para a presidência
– A “Revolução Branca” na praça Bolotnaya
– O “novo Sakharov” (Alexei Navalnyi)
– O “apoio da Rússia” a “Assad, o “açougueiro (químico) de Bagdá”
– A constante “intervenção dos russos” em assuntos da Ucrânia
– O “total controle”, pelo Kremlin, sobre a mídia russa

Diria que a lista já está longa que chegue, e que ninguém na Rússia precisa se preocupar, porque nada que o Kremlin venha a fazer doravante poderá ser pior que isso. E em vez de fazerem guerra à Rússia, fizeram guerra ao Iraque, ao Afeganistão, ao Paquistão, à Bósnia, à Croácia, ao Kosovo, à Líbia, à Síria – os EUA inflaram o mais que puderam suas políticas anti-Rússia, e fato é que não obtiveram grande coisa.

Como se diz de pequena porção de mal, insuficiente para realmente ferir você? Nietzsche diria que o que não me destrói me fortalece. A medicina moderna fala de imunização. As palavras não importam aqui, só o fenômeno: EUA e União Europeia infligiram dor considerável à Rússia, sim, mas não suficiente para quebrá-la, e por consequência direta disso, a Rússia recebeu poderosa dose de “imunização anti-anglo-sionista, que a fará mais forte do que antes.

E essa é boa notícia para todos.

Para melhor ou para pior, a Rússia é objetivamente líder incontestável da resistência mundial contra o Império Anglo-sionista. Sim, a economia chinesa é muito maior, mas o exército chinesa não é, e a China depende crucialmente da Rússia para energia, armas e alta tecnologia. Creio firmemente que, inevitavelmente, a China assumirá a liderança na luta contra o Império Anglo-sionista, mas não é para já: a China precisa de mais tempo.

O Irã é, definitivamente, o país que há mais tempo, foi o primeiro, a abertamente desafiar os anglo-sionistas (além de Cuba e da República Popular Democrática da Coreia, mas são países muito fracos), e as ambições do Irã são primariamente regionais (o que, sim, é sinal de sabedoria da liderança iraniana).

Quanto ao Hezbollah, é, na minha avaliação, o líder moral da Resistência mundial, não só por seus feitos militares realmente fenomenais, mas, principalmente, pela disposição para lutar completamente sozinhos, se necessário. Mas ser um farol moral não implica ser capaz de desafiar globalmente o Império. Rússia, China, Irã e o  Hezbollah são o que eu chamaria, parafraseando Dábliu Bush, o “Eixo da Resistência ao Império”, e a Rússia tem o papel chave nessa forte, embora informal, aliança.

A outra parte do mundo onde “isso” está acontecendo é, é claro, a América Latina, mas a recente votação na Assembleia Geral da ONU mostrou que Bolívia, Venezuela, Nicarágua e Cuba são os únicos países latino-americanos que ousaram desafiar abertamente a hegemonia dos EUA (e, na Venezuela, hoje, o regime luta pela própria sobrevivência). Vê-se que, embora a América Latina tenha enorme potencial, ele está longe de realizar-se, pelo menos nesse ponto do tempo. 
Conclusão
Uma Nova Guerra Fria começou a ser construída no minuto em que a Guerra Fria de antes foi oficialmente encerrada. Assim, só se pode receber como bem vinda a nova realidade introduzida pela crise na Ucrânia: agora, a Rússia aceitou abertamente o desafio dos EUA, e todas as encenações de alguma espécie de parceria estratégica EUA-Rússia são passado remoto.

Quanto à União Europeia, teve papel tão vergonhoso e desgraçado, que será tratada pela Rússia como merece ser tratada: como protetorado submisso dos EUA, sem políticas nem ideias próprias. Agora, aquela falsa “parceria” foi afinal desmascarada, e podemos esperar uma Rússia mais assertiva, se não confrontacional, no cenário internacional.

Evidentemente, não estou dizendo que Putin pôr-se-á a bater com o próprio sapato na bancada da ONU, como se diz que Krushchev teria feito, nem Putin ameaça “enterrar” o ocidente. Putin, Lavrov e Churkin são estadistas e diplomatas e manter-se-ão impecavelmente elegantes. Mas podem esperar muitos mais votos “não” na ONU e muitos mais “lamentamos, mas, não” em questões bilaterais.

O grande beneficiário dessa nova Guerra Fria será o Irã, é claro, mas também a China.  Não apenas Irã e China provavelmente obterão as armas de que tanto precisam (S-300 e Su-35 respectivamente). A China também obterá excelentes bons negócios nos preços da energia russa (os chineses são suficientemente espertos para não tentar superexplorar essa nova situação; farão tudo “na medida certa”). Síria e Hezbollah terão mais dinheiro, mais armas e mais apoio político. Países que eventualmente aspirem a tornar-se membros do “Eixo da Resistência contra o Império” terão mais ajuda financeira e política (Cuba, Nicarágua, Bolívia e, especialmente, a Venezuela precisam de toda a ajuda que possam obter); e o mesmo se diga de países mais ou menos pragmáticos que não se venderam completamente aos EUA (os países BRICS, claro, mas também países menores como Argentina, Iraque, Afeganistão, Paquistão e todos os demais que se abstiveram naquela infame votação na ONU, recentemente). Ninguém tampouco deve subestimar a importância da assistência que a China pode dar a esses países ou todos os benefícios que esses países podem obter da cooperação com os demais países BRICS.

Quanto à União Europeia, terá o gás que comprar e pagar, e terá de lidar com as ondas de pós-choque econômico de seu envolvimento na crise ucraniana: terá de manter à tona a economia ucraniana, com o queixo acima d’água, pelo menos, e terá de lidar com o inevitável fluxo de refugiados econômicos; além de caber-lhe o duvidoso prazer de resolver o problema dos “Talibã ucranianos”, hoje soltos sem rédea no Banderastão lá deles. A União Europeia terá de lidar com tudo isso sob o alto patrocínio de EUA que mal consegue disfarçar o desprezo pela Europa, ou que, como no caso Nuland, já nem se dá ao trabalho de disfarçar coisa alguma.

O Tio Sam – que queima sempre tudo em que põe a mão, terá de fazer exatamente isso no seu Banderastão: convertê-lo num Kosovo maior – grande dor para seus vizinhos, e quintal que a máquina militar norte-americana poderá usar a seu bel prazer. Mas, diferente do Kosovo, a Ucrânia fatalmente se partirá em mil pedaços, de um modo ou de outro, embora a ficção de estado funcional possa ser mantida por longo tempo. Especialmente se houver consenso entre as plutocracias que governam o ocidente, de que a forma sempre conta mais que a substância, enquanto se mantiver a aparência de um estado ucraniano unitário, tudo bem.

Francamente, e sem intenção de ofender nenhum ucraniano nacionalista que me leia, o Tio Sam tem peixe muito maior na frigideira, e não se ocupará de problemas de um “Kosovo versão 2” na Europa Central.

As linhas que esbocei acima são, é claro, apenas tendências gerais. Haverá alguns "zigs" e alguns "zags" nesse processo, mas, exceto por algum grande evento imprevisível, esse é, me parece o rumo que as coisas tomarão. Sim, haverá uma eleição presidencial a ser disputada em condições grotescas, um oligarca completamente corrupto como Poroshenko comprará a própria vitória, enquanto os regime de Kiev apoiado pelos EUA e os “Talibã ucranianos” acertam as contas e matam-se entre eles. O mais provável é que a Rússia não intervenha militarmente, a menos que a situação vire loucura absolutamente total. Haverá, mais provavelmente, alguma espécie de acordo EUA-Rússia; e o leste da Ucrânia tentará achar meio de fazer mais dinheiro com a Rússia. A Crimeia viverá um boom econômico sem precedentes, que atrairá muita atenção na falida Ucrânia, que estará desesperada para obter qualquer pequena porção da catarata de financiamentos de que a Crimeia se beneficiará. Como se diz, “dinheiro conversa com dinheiro”.

Quanto a Obama, entrará para a história como o pior presidente dos EUA em todos os tempos. Exceto o seguinte, claro.
 




Poussée de tension dans l’est de l’Ukraine


mediaDes militants pro-russes à l'extérieur du siège de l'administration locale de la région est, Kharkiv, 7 avril 2014.REUTERS/Stringer
    Plusieurs bâtiments officiels sont occupés depuis dimanche par des séparatistes pro-russes dans plusieurs villes de la région russophone du pays, notamment à Donetsk, fief du président déchu Ianoukovitch où des militants pro-russes réclament un référendum d’autodétermination. Après une réponse très mesurée, les autorités de Kiev multiplient les efforts pour tenter de ramener le calme dans cette région, qui semble peu à peu leur échapper.
    Ecoutez le reportage de notre envoyé spécial à Kharkiv, devant le bâtiment de l'administration régionale07/04/2014 - par Sébastien GobertÉcouter
    Les autorités de Kiev semblent avoir été prises de court par ces attaques menées dans cette région orientale, dans laquelle aucun des hauts responsables ukrainiens ne s’était rendu, depuis le renversement de pouvoir à Kiev. A Lougansk, des manifestants se sont emparés d'armes dans l'immeuble des services locaux de la sécurité nationale. A Donetsk, la police n’a quasiment pas résisté, ce dimanche, laissant des jeunes gens encagoulés, en tenue de sport, s’emparer du siège de l’administration locale. Selon l'Agence France Presse les manifestants demandent la tenue un référendum sur la création d'une République de Donetsk d'ici au 11 mai.
    Après plusieurs heures de flottement, les autorités de Kiev tentent ce lundi de reprendre la main, en convoquant en urgence un conseil de sécurité. Mais, leur marge de manœuvre est limitée. L’usage de la force contre les manifestants pourrait facilement se retourner contre le pouvoir, voire fournir un prétexte pour une intervention des troupes russes.
    Le spectre d'une intervention russe
    C’est d’ailleurs ce que dénonce sans détours le Premier ministre ukrainien : « Ces incidents font partie d'un plan pour déstabiliser le pays, pour qu'une armée étrangère passe la frontière et envahisse le territoire ukrainien, ce que nous ne permettrons pas », a affirmé Arseni Iatseniuk. «Je suis persuadé que les habitants de Donetsk, Lougansk et Kharkiv veulent vivre dans un pays uni et dont l'intégrité territoriale est préservée. Tous les appels fantaisistes à une fédéralisation sont une tentative de détruire l'Etat ukrainien. C’est un scénario qui a été écrit en Russie, et dont le seul but est le démembrement, la destruction de l'Ukraine… il s’agit de rendre le territoire ukrainien esclave du diktat de la Fédération de Russie » a ajouté le Premier ministre ukrainienqui pourrait se rendre dans la journée dans les régions troublées.
    Le ministre de l'Intérieur se trouve lui, déjà à Kharkiv. Sur sa page Facebook, Arsen Avakov affirme que le bâtiment de l'administration régionale de la ville a été totalement libéré des séparatistes. Ce qui n’est pas le cas à Donetsk, où a été dépêché le vice-Premier ministre chargé des questions de sécurité, Vitali Iarem et où est attendue la candidate à la présidentielle Ioulia Timochenko.

    sábado, março 29, 2014

    Ukraine: la Russie laisse entrevoir une sortie de crise négociée

    TV 5 Monde

    Moscou (AFP) - 29.03.2014 16:57 - Par Stuart WILLIAMS avec Dmytro GORSHKOV à Kiev

    Vladimir Poutine le 28 mars 2014 au Kremlin à Moscou

    voir le zoom : Vladimir Poutine le 28 mars 2014 au Kremlin à Moscou

    Vladimir Poutine le 28 mars 2014 au Kremlin à Moscou
    afp.com - Alexei Nikolsky

    voir le zoom : Barack Obama le 29 mars 2014 à son départ de Ryad

    Barack Obama le 29 mars 2014 à son départ de Ryad
    afp.com - Saul Loeb

    voir le zoom : Sergueï Lavrov le 28 mars 2014 à Moscou

    Sergueï Lavrov le 28 mars 2014 à Moscou
    afp.com - Yuri Kadbonov

    voir le zoom : Vitali Klitschko le 7 mars 2014 à Paris

    Vitali Klitschko le 7 mars 2014 à Paris
    afp.com - KenzoTribouillard

    La Russie a laissé entrevoir samedi la possibilité d'une sortie de crise négociée avec les Occidentaux en Ukraine, passant par une fédéralisation de l'ex-république soviétique, et a exclu toute nouvelle intervention après la prise de la Crimée.

    Le Kremlin a confirmé l'appel téléphonique de Vladimir Poutine à Barack Obama, annoncé la veille au soir par la Maison Blanche. Le président russe y a appelé son homologue à étudier "les mesures que peut prendre la communauté internationale pour coopérer en vue d'une stabilisation".

    Les deux puissances ont manifestement l'intention d'agir vite. Le secrétaire d'Etat américain John Kerry, de retour d'une visite au Proche-Orient, a annulé son retour à Washington pour prendre la direction de Paris.

    "La rencontre a lieu à Paris demain soir", a déclaré aux journalistes la porte-parole du département d'Etat, Jen Psaki, ce qu'a confirmé quelques minutes plus tard le ministère russe des Affaires étrangères.

    M. Poutine a aussi adressé à M. Obama une mise en garde concernant la situation de la Transdniestrie, région russophone de Moldavie où stationnent des troupes russes. Il a dénoncé un "état de siège de facto" et demandé des pourparlers internationaux.

    Cette ouverture intervient après des semaines d'escalade suivant la destitution du président Viktor Ianoukovitch par des pro-européens et le rattachement de la Crimée à la Russie, entraînant une confrontation inédite depuis la Guerre froide entre Moscou et les Occidentaux et l'application de sanctions américaines et européennes visant de hauts responsables russes.

    Vendredi encore, Barack Obama s'en était pris de manière très dure à Vladimir Poutine, l'accusant de "rancune au sujet de ce qu'il considère comme la perte de l'Union soviétique" et lui enjoignant de retirer ses troupes massées à la frontière ukrainienne.

    - fédéralisation "pas un mot tabou" -

    Kiev craint que la Russie n'en reste pas là et intervienne désormais dans la partie orientale de l'Ukraine, majoritairement russophone et agitée par des manifestations séparatistes ces dernières semaines.

    Samedi, Sergueï Lavrov a fermement démenti tout projet en ce sens et laissé entrevoir "une initiative commune" proposée aux Ukrainiens.

    "Nous n'avons aucune intention ni intérêt à traverser la frontière de l'Ukraine", a indiqué le chef de la diplomatie russe sur la télévision publique russe. Le ministre a demandé en revanche qu'en vue d'une sortie de crise, "le travail soit collectif" et que "les excès cessent" de la part des contestataires qui ont destitué Viktor Ianoukovitch.

    "Nos points de vue se rapprochent", a-t-il insisté.

    Quels seraient les contours d'un règlement international? Sergueï Lavrov a donné une piste en évoquant une "fédéralisation" de l'ex-république soviétique, "exigence des régions du Sud et de l'Est".

    L'idée d'une "décentralisation" a déjà été évoquée par certains diplomates occidentaux et la France s'y est dite favorable afin d'apaiser les tensions qui règnent dans ces régions très proches culturellement et économiquement de la Russie. Elles craignent de pâtir de l'orientation pro-européenne des autorités en place à Kiev depuis la fuite de M. Ianoukovitch fin février.

    - Porochenko favori -

    Mais un tel scénario risque de se heurter à une fin de non recevoir à Kiev après l'humiliation subie en Crimée et au moment où la bataille pour l'élection présidentielle du 25 mai s'accélère.

    Les prétendants ont jusqu'à dimanche soir pour s'enregistrer auprès de la commission électorale et les principaux partis ont investi samedi leur candidat.

    Le favori des sondages, le député et milliardaire Petro Porochenko, a reçu un soutien de poids: celui de l'ex-champion de boxe Vitali Klitschko, qui renonce à être candidat à la présidence pour tenter d'arracher la mairie de Kiev.

    "Le pays se trouve en état de guerre, une partie de son territoire est occupée. Dans une telle situation, l'Ukraine a besoin d'unité et c'est ce que nous avons démontré aujourd'hui", a déclaré M. Porochenko, seul oligarque à avoir ouvertement soutenu le mouvement de contestation pro-européen du Maïdan.

    Il apparaît comme une personnalité de compromis: il a été ministre des Affaires étrangères entre 2009 et 2010 sous le président pro-européen Viktor Iouchtchenko, puis ministre de l'Economie en 2012 sous Viktor Ianoukovitch.

    La campagne s'annonce rude après l'officialisation de la candidature de la redoutable ex-Premier ministre Ioulia Timochenko, qui à 53 ans semble décidée à prendre sa revanche après avoir été battue par M. Ianoukovitch, son ennemi juré depuis la Révolution orange de 2004.

    "Si vous m'accordez votre confiance, en tant que présidente d'Ukraine, je ne donnerai plus la possibilité à l'agresseur de prendre un centimètre de terre ukrainienne sans combat", a martelé la "Dame de fer" ukrainienne, adoubée par son parti Batkivchtchina (Patrie) lors d'un Congrès en plein air, sous un ciel bleu, dans le centre de la capitale.

    Le Parti des régions, majoritaire au Parlement mais désormais laminé dans l'opinion, a apporté son soutien à l'ex-gouverneur pro-russe de Kharkiv, Mikhaïlo Dobkine, qui dispose selon le journal Dzerkalo Tyjnia du soutien de l'homme le plus riche d'Ukraine, l'influent Rinat Akhmetov. Il a exclu au passage le plus célèbre de ses membres: Viktor Ianoukovitch.

    Fièvre hémorragique: la Guinée tente toujours d'enrayer la propagation

    TV 5 monde

    Conakry (AFP) - 29.03.2014 15:32 - Par Mouctar BAH

    L'hôpital Donka de Conakry le 27 mars 2014

    voir le zoom : L'hôpital Donka de Conakry le 27 mars 2014

    L'hôpital Donka de Conakry le 27 mars 2014
    afp.com - Cellou Binani

    voir le zoom : Carte de Guinée où des cas d'Ebola se sont déclarés et des pays voisins

    Carte de Guinée où des cas d'Ebola se sont déclarés et des pays voisins
    afp.com - P.Deré /K.TIan/G.Handyside

    La Guinée et ses partenaires poursuivaient samedi leurs efforts pour enrayer la propagation de l'épidémie de fièvre hémorragique virale, dont des cas d'Ebola, avec l'appui de l'Union européenne qui va donner 500.000 euros pour aider à contenir la maladie.

    La fièvre touche également le Libéria et la Sierra Leone, et, samedi, le Sénégal a décidé de fermer ses frontières avec la Guinée.

    A Conakry, la capitale qui avait été épargnée jusqu'à cette semaine, huit cas de fièvre hémorragique, dont un mortel, ont été déclarés depuis jeudi, tous positifs au test du virus Ebola, selon un rapport du ministère guinée de la Santé et de l'Organisation mondiale de la Santé (OMS).

    Selon les derniers chiffres communiqués vendredi soir par le ministère guinéen de la Santé et l'OMS, au total "111 cas suspects de fièvre hémorragique virale dont 70 décès" ont été enregistrés depuis janvier, "soit un taux de létalité de 63%". Le précédent bilan était de 103 cas dont 66 morts.

    La grande majorité des cas ont été enregistrés dans des villes et régions du sud de la Guinée, considéré comme le foyer de l'épidémie, particulièrement Guéckédou (51 décès sur 73 cas) et Macenta (12 décès sur 22 cas). La fièvre hémorragique est aussi apparue à Dabola (centre), où un cas mortel a été signalé, sans que son origine soit précisée.

    Jusqu'à vendredi, les échantillons prélevés sur 45 des cas suspects avaient été examinés, dont 19 se sont révélés positifs au virus Ebola. L'origine des autres cas n'a pas été précisée.

    A ce bilan guinéen, s'ajoutent huit cas suspects - dont six mortels - de fièvre hémorragique virale au Liberia et six cas suspects - dont cinq mortels - en Sierra Leone, selon l'OMS.

    Samedi, le Sénégal a décidé de fermer ses frontières avec la Guinée "jusqu'à nouvel ordre", en raison de la présence de la fièvre Ebola, selon un communiqué du ministère de l'Intérieur rapporté par l'agence officielle APS.

    La mesure concerne les points de passage dans les régions de Kolda (sud) et Kédougou (sud-est), zones en temps normal très fréquentées par des commerçants et forains, surtout durant un marché hebdomadaire rassemblant des milliers de personnes des deux pays et d'autres Etats voisins.

    - 'Une sérieuse menace' -

    Vendredi, la Communauté économique des Etats d'Afrique de l'Ouest (Cédéao) regroupant quinze pays dont la Guinée, le Liberia et la Sierra Leone, avait appelé la communauté internationale à l'aide, en se disant "fortement préoccupée" par l'épidémie qui représente "une sérieuse menace régionale".

    L'Union européenne (UE) a débloqué vendredi 500.000 euros "pour aider à contenir la propagation du virus, qui peut tuer jusqu'à 90% de personnes atteintes, en Guinée et dans les pays voisins", selon un communiqué transmis à l'AFP par son bureau régional pour l'aide humanitaire et la protection civile (Echo) basé à Dakar.

    Cette aide sera utilisée par Médecins sans frontières (MSF) notamment "pour la gestion clinique, comprenant l'isolement des malades et un soutien psychosocial, la recherche de cas suspects ainsi que la formation et l'approvisionnement d'équipement de protection individuel pour les professionnels de santé".

    Depuis plusieurs semaines, des organisations guinéennes et étrangères dont l'OMS et MSF s'activent sur le terrain pour enrayer la propagation de l'épidémie, particulièrement dans le Sud, son épicentre.

    A Conakry, ville de quelque deux millions d'habitants et en grande partie insalubre, l'inquiétude demeurait au sein de la population face à l'Ebola, d'autant qu'il n'existe aucun vaccin ni remède contre ce virus.

    Une employée de banque a indiqué s'être armée de chlore et d'eau de Javel, qu'elle utilise "chaque fois (qu'elle) serra la main d'un collègue". Elle a aussi demandé temporairement à ses enfants de ne pas aller à l'école.

    Le virus Ebola tire son nom d'une rivière du nord de la République démocratique du Congo où il a été repéré pour la première fois en 1976.

    Il a tué 1.200 personnes pour 1.850 cas avérés au cours des épidémies les plus graves qui ont touché l'Afrique centrale, mais c'est la première fois qu'une épidémie de l'ampleur de celle qui affecte la Guinée a lieu en Afrique de l'Ouest.

    quinta-feira, março 27, 2014

    A Ásia não ‘isolará’ a Rússia

    Tlaxcala: 27/03/2014

    Pepe Escobar

    Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

    Qualquer dúvida (burocrática) sobre a Nova Guerra Fria em curso teria sido apagada pela emissão, pelo Grupo dos 7 de uma pomposa autobatizada “Declaração de Haia”.[1] Abandonem todas as esperanças os que ainda esperassem que Haia se convertesse em Tribunal para julgar os crimes de guerra do governo Cheney.

    O G-7 também cancelou o próximo encontro de verão em Sochi, como ‘castigo’ aplicado a Moscou, por causa da Crimeia. Como se fosse medida que tivesse algum valor prático. O ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergei Lavrov respondeu com classe: se não nos querem, temos coisas mais importantes a fazer.[2] Não há quem não saiba que o G-7 não passa de balcão inócuo, autopromovido, de conversa fiada. O locus no qual as questões geopolíticas e geoeconômicas cruciais ganham tração, muito mais representativo do mundo real chama-se G-20.
    A Declaração de Haia vem completa, incluso o beijo da morte: “O Fundo Monetário Internacional tem papel central no esforço internacional para a poiar a reforma na Ucrânia, reduzir as vulnerabilidades ucranianas, e melhor integração do país como economia de mercado no sistema multilateral”. É linguagem-código para: “esperem só até o ajuste estrutural começar a doer”.
    E também haverá “medidas para estimular o comércio e fortalecer a segurança energética” – linguagem-código para: “vamos destruir a indústria de você” e “não estamos nada, nada, nada animados para pagar as contas-gigantes que vocês devem à Gazprom”.

    http://i2.cdn.turner.com/cnn/dam/assets/140324121253-obama-rembrandt-story-top.jpg

    Tudo isso em torno de um suposto encontro sobre segurança nuclear nos Países Baixos, onde o presidente dos EUA Barack Obama, no Rijksmuseum, em frente ao quadro “Ronda Noturna”,[3] de Rembrandt não se cansou de repetir “o apoio de Washington ao governo da Ucrânia e ao povo ucraniano”. Os mercenários do quadro de Rembrandt nunca viram tal coisa, em toda sua longa gloriosa vida! Afinal, ser nazista pode ser bom negócio: é só o nazista estar no governo certo, contra o governo certo e ser nazista plenamente aprovado pela superpotência.

    http://media.kansascity.com/smedia/2014/03/24/22/52/v7itz.St.81.jpeg

    O rei Willem-Alexander ofereceu suntuoso jantar aos membros da reunião de cúpula da segurança nuclear no Palácio Real Huis ten Bosch, em Haia –, depois que Obama reuniu-se com o presidente chinês Xi Jinping, reunião na qual NÃO conseguiu convencê-lo a “isolar” a Rússia. Mais tarde, confirmado o fracasso na tentativa de ‘seduzir’ Jinping, a Casa Branca acrescentou que, dado que a Rússia continua a violar “flagrantemente” a lei internacional, “não há necessidade de que a Rússia engaje-se com o G-7”. Claro que se a Rússia de repente começar a fazer sua própria guerra dedrones na Ucrânia, sim, sim, com lista-de-matar e tudo, então, sim, estará plenamente qualificada.

    http://pbs.twimg.com/media/Bje-r2PIUAA2YDw.jpg:medium

    Trata-se sempre da OTAN

    O Senado dos EUA – cada dia com números mais soberbos de popularidade – conseguiu a muito custo preparar ao terreno para debater um empréstimo de US$1 bilhão para os mudadores de regime em Kiev, mais $150 milhões em ajuda incluindo “países vizinhos”. Paga 15 dias de contas da Ucrânia.
    Entrementes, no departamento de fatos em campo na vida real, a Crimeia não tardará a florescer – turismo inclusive – e pode vir a tornar-se até “zona econômica especial”.
    [4] Habitantes do Khaganato dos Nulands do agrobusiness-FMI logo verão, com seus próprios olhos, os resultados.
    Prossegue cada dia mais histérica a histeria da OTAN, que teme que a Rússia invada tudo e todos que haja nos arredores, mais tardar amanhã mesmo – não esqueçam: Os Russos estão Chegando!
    [5] – Observadores independentes, entre os quais se inclui esse The Roving Eye, sempre disseram que se trata sempre de OTAN, não da União Europeia.[6]
    Desde os dias de go-go da era Bill Clinton, a OTAN foi sempre expandida na direção das portas da Rússia. Em termos gráficos, é o processo do avanço hegemonista dos EUA sobre a Europa: a OTAN ‘anexou’ a Europa Oriental antes, até da União Europeia. E até alguns dos mais certificados Guerreiros da Guerra Fria pró EUA, como Paul Nitze, sempre disseram que se tratava de desnecessária, perigosa provocação contra a Rússia.
    Pouca gente lembra como “Bubba” Clinton, para assegurar que Boris Yeltsin alcoólatra em fase terminal fosse reeleito em 1996, adiou por um ano a expansão da OTAN. Depois, a expansão foi turbinada, com a OTAN travestida de Robocop global –, dos Bálcãs à intersecção de Ásia Centra e sul da Ásia, e ao Norte da África.
    O bombardeio humanitário da OTAN contra a Iugoslávia – 36 mil ataques; 23 mil bombas e mísseis – cujo 15º aniversário é ‘celebrado’ essa semana, codificou as novas realidades. A OTAN jamais teve algo a ver com defesa: sempre foi cão de ataque (transformer) multiletal. Foi o epítome da guerra limpa; guerra-relâmpago, blitzkrieg, sem baixas. E foi totalmente legitimado por causa dos ‘direitos humanos’ à soberania nacional. Era o imperialismo humanitário em formação, abrindo caminho para a “responsabilidade de proteger” e a destruição da Líbia.
    Moscou sabe muito bem dos alinhamentos do monstro neobárbaro junto às suas portas, no formato de bases da OTAN na Ucrânia – pressupondo que os mudadores de regime em Kiev permaneçam no poder. E a resposta deles nada tem a ver com “agressão por Putin”. Nem com alguma suposta “Doutrina Medvedev”, com a Rússia expandindo para todos os lados, teoricamente, sua proteção militar. Como se a Rússia fosse começar de repente a “ameaçar” seus interesses comerciais no Cazaquistão, Quirguistão, Turcomenistão, Tadjiquestão ou Mongólia. O que a Casa Branca chama de “a comunidade internacional” – mal e mal os G-7, mais alguns sabujos europeus – absolutamente jamais admitiriam tal coisa.
    A Ásia, por outro lado, identifica claramente o movimento. China, Japan e Coreia do Sul, para começar, identificam a Rússia a suprimento estável de petróleo e gás e muitos outros negócios. Mesmo considerando que Japão e Coreia do Sul não passam, essencialmente, de protetorados dos EUA, nada seria mais anacrônico, pelas contas deles, que alguma nova Guerra Fria provocada pelo ocidente.
    A Ásia absolutamente não “isolará” a Rússia – e asiáticos e russos sabem disso, tanto quanto a Casa Branca vive surto de cegueira histérica. A abstenção de Pequim na votação pela “condenação” de Moscou no Conselho de Segurança da ONU – aquele clube de política de bedéis de escola zangadinhos –, é estilo Deng Xiaoping clássico, de “mantenha perfil discreto”. China e Rússia são parceiros estratégicos e ambos trabalham pela emergência de um mundo multipolar. Para nem falar da rejeição total, por Putin, contra as tais ‘revoluções’ coloridas à moda EUA e operações de mudação de regimes –, além daquela operação “pivotear-se-para-cercar” a Ásia.
    Ah, ser uma mosquinha regulada pela União Europeia, bem ali, na parede da sala em Haia onde conversavam Xi, o cool,  e Obama, a pivotear-se em torno de si mesmo.

    Notas

    [1] http://europa.eu/rapid/press-release_STATEMENT-14-82_en.htm?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

    [2] 24/3/2014, “Russia not clinging to G8 if West does not want it - Russian FM”, Rússia Today, http://rt.com/news/lavrov-g8-crimea-kerry-933/

    [3]  O título original do quadro é “O Regimento de Frans Banning Cocq e Willem van Ruytenburch” e nada tem de “ronda ou vigia noturna”: mostra Frans Banning Cocq (milionário dono de milícias mercenárias) e Willem van Ruytenburch, comandante dos mercenários, com todos os soldados mercenários em traje de gala (ou passeio=. Mais sobre o quadro, em http://www.rembrandtpainting.net/rembrandt's_night_watch.htm). Melhor pano de fundo, para Obama, impossível [risos, risos] NTs.

    [4] 24/3/2014, “Crimeia to become Russian special economic zone-Medvedev”, Russia Today,http://rt.com/business/crimea-russia-economic-zone-793/

    [5]http://www.imdb.com/title/tt0060921/

    [6] 24/3/2014, “Por que a União Europeia não anexará a Ucrânia”, Russia Today

    Por que a União Europeia não anexará a Ucrânia

    Tlaxcala: 27/03/2014

    Pepe Escobar

    Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

    A nova Ucrânia de “Yats”, Tyahnybok e Yarosh assinou, na maior correria, os itens políticos de um acordo de associação com a União Europeia (EU) em reunião em Bruxelas, na 6ª-feira passada.

    European Council president Herman Van Rompuy (R) exchanges documents with Ukrainian Prime Minister Arseniy Yatsenyuk during the signing of the political provisions of the Association Agreement with Ukraine at the EU headquarters in Brussels on March 21, 2014 on the second day of a two-day European Council summit. (AFP Photo)

    Nada menos de 30 burocratas (nomeados, não eleitos) da UE também assinaram o documento, entre os quais o presidente do Conselho Europeu Herman Van Rompuy e o presidente da Comissão Europeia (CE) Jose Manuel Barroso.

    É o mesmo negócio que o ex-presidente Viktor Yanukovich decidira rejeitar em novembro passado – rejeição que, na sequência, levou aos protestos na praça Maidan, a um putsch apoiado pelos EUA apesar de recheado de atores fascistas e neonazistas, o que levou Moscou a assumir o controle da Crimeia sem disparar um tiro.
    Assim, em teoria, é o negócio que deu início a tudo. Essa não-entidade sem cara, ao estilo de Magritte, que atende pelo nome Van Rompuy, disse que “reconhece as aspirações do povo da Ucrânia, que quer viver em país governado por valores, por democracia e sob o império da lei.”
    Muita calma nessa hora. Contenham os cavalos (mongóis). Como mostra a história, “democracia” e “império da lei” nada têm a ver com o governo dos mudadores-de-regime, do Setor Direita ou do Partido Svoboda em Kiev.
    Yanukovich rejeitou o negócio com a UE por duas razões essenciais: (1) o negócio destruiria a indústria ucraniana (abrindo a porta à invasão por produtos ocidentais e o saque dos ricos solos agricultáveis da Ucrânia, pelo agronegócio ocidental); e (2) o negócio forçaria a Ucrânia a obedecer aos protocolos militares da OTAN.
    O que foi assinado na 6ª-feira não é o xis da questão; é só uma integração comercial (leia-se: “Agora, podem saquear a Ucrânia”). A UE deixou a parte essencial para depois. Antes, o FMI terá de polir os detalhes mais mortíferos de próximo “ajuste estrutural”. Mas o Conselho Europeu já está prometendo
    [1] um jardim de rosas.

    Trata-se, sempre, da OTAN

    ‘Especialistas’ acadêmicos e midiáticos em surto histérico repetem, 24 horas por dia, sete dias por semana, que, amanhã cedo, a Ucrânia já estará integrada à União Europeia (já praticamente em bancarrota). Nada disso. O negócio final não passará de um acordo de associação; depois, ainda haverá estrada longa e sinuosa até o país ser admitido na UE (admissão que, por falar dela, a maioria absoluta dos estados-membros da UE não querem).
    O artigo 7.2. do acordo de associação determina que a Ucrânia terá de submeter-se à política externa e de segurança comum (PESC) [orig. common foreign and security policy (CFSP)] e à política europeia de segurança e defesa (PESD) [orig. European security and defense policy (ESPD). As condições podem ser lidas nos próprios documentos.
    [2]
    Essa obscura – inclusive para muitos europeus – PESD é, nada mais nada menos, que o pilar europeu chave da OTAN. Tradução: ali se detalha o modo como a União Europeia é e permanece subordinada aos EUA (que controlam a OTAN). Por exemplo: a UE só pode agir em algum determinado caso DEPOIS de a OTAN decidir não agir. Além disso, o acordo de março de 2003 +Berlim[3] permite que a União Europeia use maquinário e softwares da  OTAN para operações militares, se e somente se a OTAN declinar de usá-los.
    Tudo isso significa, essencialmente, isso sim, que a Ucrânia já está com o pé na estrada na direção de ser legalmente subordinada ao projeto da OTAN. Como outros analistas independentes, também tenho escrito, desde o início, que todo esse drama geopolítico visa, em primeiro lugar e sobretudo, à anexação da Ucrânia pela OTAN, não por alguma União Europeia.


    O pervertido caso de amor entre OTAN e Ucrânia começou no início dos anos 2000s. Depois de muito discutir-a-relação, ficou resolvido que OTAN-sim ou OTAN-não seria algum dia votado em referendo nacional. No encontro de Bucarest em 2008, a OTAN abriu os braços: declarou que a Ucrânia poderia vir e unir-se, no instante em que cumprisse as exigências. Em 2010 Yanukovich anunciou que a Ucrânia mudara de ideia, que perdera o interesse. Mesmo assim, a Ucrânia foi mantida como membro muito forte de uma Parceria para a Paz [orig. Partnership for Peace (PfP)], iniciativa da OTAN.[4]
    Não surpreende que a OTAN esteja agora fazendo horas-extras no serviço de vender ao mundo a noção de que a Ucrânia está(ria) “sob ameaça” – e que deve unir-se “à aliança” o mais rapidamente possível. O secretário-geral da OTAN – aquele espantosamente medíocre poodle dos EUA, Anders Fogh Rasmussen – disse que estaríamos vivendo hoje a mais grave ameaça à segurança da Europa desde o fim da Guerra Fria: “Esse é o toque de despertar. Para a comunidade euro-atlântica. Para a OTAN. E para todos que se sintam comprometidos com uma Europa una, livre e em paz.”
    Esqueceu de acrescentar: uma Europa livre e pacificamente submetida ao Pentágono.
    O principal comandante militar da OTAN – não surpreendentemente, é norte-americano –, o general Philip Breedlove, anda espalhando por aí a ‘notícia’ de que a Rússia teria reunido força militar “muito, muito, muito considerável e muito, muito, muito pronta” nas fronteiras leste da Ucrânia. Moscou nega e repete que todos esses soldados lá estão conforme os exatos termos de acordos internacionais.
    [5]
    Alguém, é claro terá de ceder. O ministro de Defesa da Rússia, general Sergey Shoigu conversou pelo telefone com Chuck Hagel, el supremo do Pentágono. Estão discutindo uma “desescalada das tensões”. Mas parece que burocratas e políticos da União Europeia e empregados da OTAN não foram informados.

    Agora... será a vez da Transdnístria?[6]

    A conversa da imprensa-empresa ocidental e dos ‘especialistas’ midiáticos na UE é que o incansavelmente demonizado presidente Putin deseja(ria) “desestabilizar” a Ucrânia e criar uma esfera de influência russa no sul e leste da Ucrânia até Odessa. Claro. Oh yes. E quer também anexar a Transdnístria.
    Nada disso. De fato, foi o presidente do parlamento da Transdnístria, Mikahil Burla, quem pediu que Moscou incorporasse à Federação Russa a região de língua russa, no oeste da Moldávia. Afinal de contas, já em 2006, 97,2% dos que votaram em referendo então realizado declararam exatamente o mesmo desejo. Qual é o problema?
    O problema é que a Moldávia – exatamente como aconteceu à Ucrânia – está às vésperas de assinar um acordo de associação e livre comércio com a União Europeia. E a Transdnístria (como, há poucos dias, a Criméia) não quer ser incluída no tal acordo.
    Falta agora ver como a UE – essencialmente mediante o FMI – conseguirá ‘salvar’ a monstruosamente falida economia ucraniana. Um acordo de associação só tornará as coisas ainda piores e mais sombrias para os ucranianos médios. Venha o dinheiro que vier para Kiev, virá necessariamente condicionado a fatídicas cláusulas de ‘austeridade’.
    Moscou não precisa “anexar” ou “invadir” coisa alguma. Moscou só precisa recostar-se à poltrona, relaxar e assistir aos movimentos do ocidente que tenta gerir a confusão monstro que o próprio ocidente criou. Exceto a retórica metida a feroz da OTAN e o papel assinado em Bruxelas na 6ª-feira, que não é importante, há poucos sinais de que os EUA (perdidos eles mesmos na confusão de tantos ‘pivôs’ que inventaram, para lá e para cá) e uma depauperada União Europeia terão capacidade, habilidade e disposição para cumprir o difícil trabalho de apoiar sem interrupção o governo dos mudadores-de-regime em Kiev.
    Todos esses 15 anos que transcorreram depois que a OTAN bombardeou
    [7] a ex-Iugoslávia – levaram a surto serial de mudação de regimes; à balcanização do país; e a um “grande prêmio” (Kosovo convertido em Mafialândia; e a principal instalação imobiliária do país, “Camp Bondsteel”, item chave do Império Norte-americano de Bases). Agora, Rasmussen quer na Ucrânia um replayda OTAN na Iugoslávia?! Só imbecis entram correndo onde até os anjos temem tropeçar. A Rússia não é o Kosovo.

    Notas

    [1]http://www.consilium.europa.eu/uedocs/cms_data/docs/pressdata/en/ec/141707.pdf

    [2]http://ec.europa.eu/enlargement/policy/conditions-membership/index_en.htm ehttp://ec.europa.eu/enlargement/policy/conditions-membership/chapters-of-the-acquis/index_en.htm

    [3]http://eeas.europa.eu/csdp/about-csdp/berlin/index_en.htm

    [4] http://www.nato.int/cps/en/natolive/topics_50349.htm

    [5] http://rt.com/news/russia-troops-limit-border-673/

    [6] “Transdnístria”, “região além do rio Dniester” (mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Transn%C3%ADstria) [Nts].

    [7] http://www.counterpunch.org/2014/03/21/ukraine-and-yugoslavia/

    O SCRIPT UCRANIANO NA VENEZUELA BOLIVARIANA

    resistir info

    Três generais da Força Aérea Venezuelana acabam de ser detidos por conspirarem um golpe de estado. Foram entregues a Tribunais Militares, nos termos da lei e da Constituição Bolivariana. Este episódio significa que o imperialismo conseguiu comprar alguns militares de alta patente. Mas significa também que a Revolução Bolivariana e suas Forças Armadas estão vigilantes, pois os conspiradores foram denunciados por outros oficiais. Na Ucrânia o imperialismo gastou (confessadamente) cinco mil milhões de dólares para desestabilizar o país e promover o golpe de estado. Quanto não terá gasto já na Venezuela? O script da desestabilização da Ucrânia está a ser seguido ao pé da letra na Venezuela Bolivariana. Contratação de mercenários, sabotagem económica, destruição de bens públicos, utilização de marginais, grupos fascistas e terrorismo. O assassinato de 35 soldados da Guarda Nacional Bolivariana, 21 deles por armas de fogo, mostra que – tal como na Ucrânia – o imperialismo já recorre a franco-atiradores (snipers). Há uma tentativa clara das agências imperialistas (CIA, NDE, etc) de levar o país à guerra civil. O espectro da intervenção militar directa do imperialismo é uma realidade. A Revolução Bolivariana terá de defender-se com mão dura se não quiser ter o mesmo destino da Ucrânia. A diferença entre a Venezuela e a Ucrânia é que a primeira tem um governo digno, patriota, revolucionário e com apoio do povo, ao passo que a Ucrânia não tinha. Por isso a Venezuela Bolivariana tem condições de vencer.

    Os cabelos na Coreia do Norte e o viral que mereceu Jornal Nacional

    luís nassif - qui, 27/03/2014 - 20:05

    Michel Arbache do Portal Luís Nassif

    Os cabelos da Coréia do Norte e a falência do jornalismo

    Receita prática e rápida de jornalismo barato: pegue uma notícia esdrúxula numa agência de notícias qualquer, adicione uma dose generosa de pimenta sensacionalista, bata tudo no liquidificador e sirva, sem filtrar, para que os desavisados saiam por aí papagaiando para ajudar a mídia a vender mais notícia barata. A última foi o que a mídia nacional noticiou, ou, ecoou: “homens são obrigados a usar o mesmo corte de cabelo na Coréia do Norte”. Quando vi tal notícia no telejornal mais visto do Brasil, eu, escaldado pela gloriosa velha mídia, comentei com quem assistia comigo: quer apostar que essa notícia é falsa? Fui à internet e não deu outra: não há confirmação alguma sobre a veracidade da notícia, que partiu da BBC.

    O curioso é que a senha para o desmonte do factoide está na própria notícia disponível no site da BBC, na base da malandragem da “uma fonte ouvida”; ou: “há relatos conflitantes”. Bom, essa coisa de “fonte”, a vaca sagrada do jornalismo (para o bem ou para o mal), é tão confiável como aquela fofoca que você ouviu a respeito do seu chefe a partir do relato do seu colega, que ouviu do vizinho, que ouviu do amigo de um primo que é muito amigo do irmão do chefe. Tudo fonte fidedigna, claro, não importa que você não tenha entendido bulhufas sobre a engenharia da rede de informação do colega.

    Voltemos aos cabelos da Coréia do Norte. Pesquisando um pouco mais, você descobre que alguns poucos - porém criteriosos -  informativos desconfiam da tal notícia. O jornal israelense Haaretz, por exemplo, lembra que as extravagâncias do líder norte-coreano Kim Jong-un e mais as dificuldades de se verificar a veracidade da notícia num regime fechado como a Coréia do Norte, dá margem a toda sorte de “criatividade jornalística”.  O que existiria de fato – segundo relatos, frise-se – seria uma campanha na Coréia do Norte para que os homens não usem cabelos compridos. E só. Tal informação teria surgido em 2008 quando o jornal japonês (epa!) Mainichi Shimbun, sem citar fontes críveis, teria noticiado que Kim Jong-il (pai de Kim Jong-un), que adorava basquete, teria torcido o nariz ao ver jogadores de um time norte-coreano de cabelos compridos. “Isso é time de homens ou de mulheres?” - teria comentado o ex-líder norte-coreano, falecido em 2011. Logo após aquele jogo de basquete, o governo teria espalhado avisos (ninguém sabe informar se é proibição ou orientação) em locais de trabalho para que homens evitassem usar cabelos compridos. Em seguida, um viral na internet passou a espalhar a “notícia” que a Coréia do Norte havia liberado apenas 28 tipos de cortes de cabelos – 14 para homens e 14 para mulheres; a “Radio Free Ásia”, que é bancada pelos EUA (epa! epa!), fala em 10 cortes para homens e 18 para mulheres. Uma pequena divergência ante um contexto tão idôneo, criterioso e relevante com que o jornalismo ocidental presenteia a humanidade, não?!

    Moral da história: com dez minutos de pesquisa na internet, foi fácil para um usuário de computador verificar o contraditório que afronta o factoide. Se a velha mídia – com toda sua estrutura (financeira, humana, estrutural e técnica) – é incapaz, ou melhor, não faz questão alguma de verificar isto, é sinal que, para a indústria da informação, a verdade factual se tornou, há um bom tempo, subproduto descartável ante a facilidade de se inventar, manipular e vender uma notícia turbinada para ficar atraente. E se o jornalismo irresponsável tem tal facilidade é porque sabe que, na outra ponta, a maioria das pessoas acatará como verdade – esmagando a minoria com senso crítico que ainda teima em prezar o bom jornalismo e gritar por ele.

    Fontes:

    Matéria na BBC:

    http://www.bbc.com/news/blogs-news-from-elsewhere-26747649

    Matéria ecoada pelo Jornal Nacional, da Globo:

    http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/03/homens-sao-obri...

    Haaretz questiona a notícia:

    http://www.haaretz.com/news/features/1.582231

    A DIFERENÇA ENTRE AZEREDO E DIRCEU

    conversa afiada - Publicado em 27/03/2014

     

    Se o Azeredo é cidadão comum e o STF não pode julga-lo, por que julgou o Dirceu, que não tinha privilegio de foro ?
    Por que julgou o Duda Mendonça ?
    Por que o Genoino não pode ir pra casa ?
    Por que o Dirceu não pode ir trabalhar.
    Porque o PT ganha eleição e não governa.
    Clique aqui para ver como o PT ajudou a condenar Dirceu, Delubio, Genoino e Joao Paulo .
    Bem feito : quem manda não fazer a Ley de Medios ?

    Navalha

    O presidente Barbosa foi o único voto contra Azeredo.

    Considerou que a renuncia de Azeredo ao mandato de deputado federal não passou de um “ardil”.

    Ardil foi não desmembrar a ação do Mensalão do PT e levar todo mundo para a última instância.

    Além de estabelecer que Dirceu tinha o domínio do fato de uma inexistente quadrilha.

    Ardil foi interromper a carreira de três presidentes do PT e de um presidente da Câmara, do PT.

    Mais do que um ardil o julgamento do PT foi de exceção.

    E, por isso, será revisto na Corte da OEA.

    Paulo Henrique Amorim

     

    Barbosa, apesar de toda a crítica da esquerda “cor de rosa” se manteve coerente. Buscou o mesmo padrão de julgamento para o mensalão tucano, já os demais…

    Esse tipo de situação serve para demonstrar as ideias e ideologias que movem cada um.

    terça-feira, março 25, 2014

    Nestor Makhno: o cossaco anarquista ucraniano e a batalha pela Ucrânia, 1917-1921

    darussia.blogspot - 24 março 2014

    PUBLICADA POR 




    Texto enviado pelo leitor Pippo
    "Das variadas, violentas e por vezes grandiosas figuras revolucionárias ou reaccionárias, dramáticas, heróicas e/ou tirânicas da Guerra Civil Russa de 1917-1921, talvez nenhuma seja tão polémica ou infame como o anarquista-camponês ucraniano tornado revolucionário e senhor da guerra de guerrilha “Batko" ( Pai) Nestor Makhno (1889 - 1934). Makhno é referido como “o cossaco d a Anarquia " e foi chamado de "o bandido que salvou Moscovo" durante a Guerra Civil Russa devido à incansável campanha de actividades insurgentes e de guerrilha que ele perpetrou contra uma diversidade de inimigos entre 1917-1921 .
    A influência e o impacto da grande cultura da guerrilha e dos cavaleiros insurgentes não pode ser menosprezada no que diz respeito à Guerra Civil Russa e aos correspondentes conflitos  de 1917 a 1023. Ainda que essencialmente fossem bandidos , alguns casos houve em que estas unidades faziam parte de forças militares legítimas, fossem elas “Vermelhas”, “Brancas”, revolucionárias ou reacionárias, anarquistas ou nacionalistas, todas eram um produto da cultura russa da turbulência sócio -económica e cultural da queda do velho regime imperial russo.
    Makhno e a sua facção anarquista Makhnovista eram revolucionários por doutrina e contudo também eram contra-revolucionários e anti-reaccionários. Obviamente, também eram anti- monárquicos e anti- imperialistas. Makhno e seus homens acenaram a bandeira negra do anarquismo e os seus exércitos lutavam contra aqueles que oprimiram ou que poderiam vir a oprimir os povos camponeses da Ucrânia. Devido à sua postura militante, semi-colectivista e anarquista, os makhnovistas destacaram-se de entre os vários exércitos, movimentos e facções políticas que se desenvolveram não apenas na Ucrânia a partir de 1917-1920 , mas em todos os cantos da Rússia e da Europa Central e também em partes da Ásia durante o mesmo período .
    O início da vida de Makhno , na Ucrânia , durante e depois da Primeira Guerra Mundial
    Um herói para alguns, hoje, e quase uma espécie de herói popular, Nestor Makhno  nasceu em 1889, permanecendo durante os seus anos de formação nas áreas de Guliai Polye, na Ucrânia, parte do Império Russo, sendo um lavrador e mais tarde operário. Nesta época, a Ucrânia tinha grande importância para a produção económica da Rússia , sendo chamada de " celeiro da Europa Oriental". A Ucrânia tinha sido estabelecida com base no trabalho árduo dos ucranianos que trabalhavam os vastos latifúndios do sul do Império Russo do Tzar .
    Com a idade de 17 anos, Makhno tinha partido para a cidade no auge da Revolução de 1905 , que acabaria por abalar os alicerces do antigo Império Russo. A Rússia tinha perdido a guerra  Russo -Japonesa de 1904-1905, o seu povo exigiu ter uma palavra a dizer no governo e um fim aos seus sofrimentos colectivos. Manifestando-se nas ruas de São Petersburgo , em Janeiro , a classe pobre e média russa foi recebida com balas imperiais e sabres cossacos. Logo depois, aqueles que tinham sobrevivido à guerra voltaria do Extremo Oriente mas entretanto a Revolução findou.
    Depois de ter sido preso em 1908 por ser membro de uma célula revolucionária/anarquista ( o serviço pode ou não pode ter provocado o assassinato de um político local) Makhno passou oito anos numa prisão de Moscovo antes de sua libertação, em 1917, sob o perdão concedido aos prisioneiros políticos sob o novo Governo Provisório de Georgy Lvov e depois Alexander Kerensky. Makhno deixou a Rússia e voltou para a Ucrânia, um revolucionário e anarquista ainda mais endurecido do que o tinha sido em 1905.
    Voltando a Gulia Polye, Makhno ficou surpreendido ao ver que a sua cidade natal tinha se transformado num foco de actividade revolucionária . Mesmo antes do Tratado de Brest- Litovsk de Março de 1918, que permitiu que os exércitos austro-alemãs ocupassem a Ucrânia, Makhno organizou sindicatos para proteger  os camponeses e punir os odiados kulaks (latifundiários). Os kulaks , muitos dos quais eram menonitas alemães leais ao Tzar ou austro-húngaros, foram mais odiados pelos ucranianos por causa de seu estatuto social e , por vezes, o mau tratamento dado aos agricultores ucranianos durante o séc. XVIII e inícios do séc. XIX. Outros latifundiários e colonos menonitas foram alvo de represálias de revolucionários e anti- revolucionários, incluindo as atrocidades cometidas pelo exército de Makhno .
    Imediatamente após Brest- Litovsk , Pavlo Skoropadsky (1873 - 1945) , um ex- oficial de cavalaria tzarista, foi instalado como Hetman, um chefe guerreiro e figura de proa do regime fantoche da Ucrânia ocupada. Alemão por nascimento e um veterano da Guerra Russo -Japonesa e da Grande Guerra, Skoropadsky formou a União Nacional da Ucrânia em Março de 1918, fugindo em Dezembro do mesmo ano após as Potências Centrais terem desabado em Novembro.
    A bandeira negra é hasteada: Makhno e a batalha pela Ucrânia



    Makhno ergueu as bandeiras negras do seu Exército Revolucionário rebelde na Primavera e no Verão de 1918, quando o Hetman alemão do governo fantoche ainda controlava parte da Ucrânia com o apoio militar parcial do exército alemão. Apesar de ser jovem e de, de alguma forma, ser um comandante militar comprovado, nem sequer num sentido mais modesto, homens armados começaram a afluir para o jovem mas carismático e corajoso Makhno . Numa escaramuça perto da floresta de Dibrivki, Makhno ganhou o título Batko (ucraniano para “pai”: neste sentido, o pai literal do próprio exército rebelde ), devido à sua sua heróica, inspirada e aparentemente improvável vitória sobre uma milícia armada de kulaks de uns 1000 homens, suportada pelos odiados ocupantes austro-alemães. Reunindo a sua pequena força de 30 homens ou pouco mais, eles carregaram sobre o inimigo, abrindo o seu caminho através das linhas inimigas a tiro e à cutilada numa carga feroz.
    Com o seu líder na linha da frente, os makhnovistas mataram talvez centenas de kulaks durante a violenta carga e consequente fuga, escorraçando-os e massacrando-os na debandada, com o combate a terminar no afogamento dos sobreviventes por irritados camponeses locais que se tinham agora juntado à insurreição do Batko Makhno .
    A República Socialista da Ucrânia também havia sido declarado por esta altura, com os russos a preparar unidades da Guarda Vermelha e Exército Vermelho do Norte para uma expedição ao Sul . O seu principal objectivo era derrotar o exército Branco de tenente-general Anton Denikin que ocupava a Ucrânia em 1919.
    Mais tarde, a nova e nacionalista República da Polónia, sob Jozef Pilsuduski, atacou a Ucrânia, capturando Kiev por um breve período, começando inadvertidamente a Guerra polaco- soviética de 1919-1921. Após a sua vitória, a Polónia ocupou a Ucrânia ocidental por um tempo mas seguiu-se um eventual impasse [e uma contra-ofensiva bolchevique], terminando com a impressionante vitória da Polónia no Vístula , em 1920.
    Makhno aproveitou o caos e a intensidade do conflito envolvendo vários actores que estava a ser travada em seu redor para travar a sua própria guerra contra todos aqueles que sentia fazerem oposição aos camponeses da Ucrânia. Os seus Makhnovistas queimavam propriedades, mansões e latifúndios dos ricos kulaks alemães ou dos senhores russos que haviam oprimido os camponeses durante anos, espoliando as casas opulentas das suas provisões e extravagâncias .
    Embora a infundada propaganda soviética tenha  posteriormente atribuído a violência anti-semita aos makhnovistas, é mais provável que tais actos tenham sido cometidos por forças reaccionárias Brancas ou por bandidos apolíticos ou outros grupos reaccionários [tais como, por exemplo, do notório Nikifor Grigoriev] . Makhno nunca tolerou essas mortes , mas tais massacres podem ter ocorrido, secreta ou inconscientemente perpetrados contra os assentamentos judaicos, menonitas, ou outros, na Ucrânia. Contra-revolucionários e especialmente  oficiais Tzaristas (Brancos) quase nunca foram poupados, contudo, e nunca foi concedida ou recebida qualquer misericórdia. Inclusive, Makhno terá morto oficiais tzaristas com o seu próprio sabre .
    Os Makhnovistas efectuavam ataques e emboscadas por todo o lado, capturando armas, munições e mantimentos do Exército Branco, matando e flagelando quaisquer forças do exército czarista -monárquico que pudessem encontrar através de emboscadas e ataques,  enfraquecendo o controlo Branco sobre a Ucrânia antes de seu colapso total no Outono de 1920. O primeiro grande inimigo de Makhno foi o general Branco Anton Denikin o qual estava constantemente em guerra com Makhno, distendendo as suas linhas de abastecimentos e esgotando os seus recursos humanos na luta contra a insurreição dos makhnovistas ao mesmo tempo que tentava lançar uma expedição até Moscovo
    O Tenente-general Denikin , condecorado pelo seu bom serviço durante a Ofensiva Brusilov  de 1916 travada em partes da Ucrânia durante a I Guerra Mundial, entregou o título de Comandante Supremo do " Exército Voluntário " ao General-Barão Pyotr Wrangel  (1878 - 1928) após a sua derrota na Ucrânia. As forças Makhnovista tinham ajudado a destruir a influência dos Brancos na Rússia embora a opressão bolchevique os impedisse de apreciar a derrota dos Brancos. Em Abril-Maio de 1920, os exércitos brancos estavam perdendo terreno , enquanto os nacionalistas de Petliura fugiam para a segurança da Polónia. A 28 de Abril a 14ª Divisão Bolchevique assaltou "Makhnograd " (Guliai Polye) e derrotou 2000 partidários Makhnovistas.
    A guerra Makhnovista
    Por norma de actuação, os Makhnovistas invadiam, queimavam, pilhavam, destruíam e em seguida prosseguiam para a batalha ou escaramuça seguinte. Os ataques a quintas alemãs menonitas eram particularmente brutais, sem dúvida porque o próprio Makhno tinha sofrido crueldades nas mãos desses mesmos proprietários de terras enquanto jovem. Os kulaks, como eram chamados na Rússia e na Ucrânia, também receberam tratamento severo às mãos dos makhnovistas e mais tarde dos bolcheviques. Eles [os Makhnovistas ]frequentemente lutavam na ofensiva, preferindo carregar, retirar  e voltar a carregar, esperando pelo momento certo para carregar ou contra-carregar de forma, ou a quebrar o centro da formação inimiga, ou a retirar-se para atacar novamente mais tarde, ou a compensar a fuga.
    Em muitos aspectos, o Exército Revolucionário de Insurreição era realmente uma força de espírito defensivo, travando uma considerável quantidade de ações de retaguarda contra forças melhores equipadas . Contra os mal equipados exércitos ex-tzaristas e as milícias locais menonitas, no entanto, Makhno triunfou com frequência e obteve uma vantagem notória. Ele venceu em grande estilo e muitas vezes, também com brutalidade. Os oficiais tzaristas derrotados e capturados eram frequentemente executados sumariamente com balas de espingarda e de revólveres ou mortos a golpe de sabre. Makhno também era um mestre da espionagem e disfarçava-se de velha e até mesmo de noiva num casamento de forma a obter informações sobre os seus inimigos.
    Os soviéticos ficaram com o crédito pela vitória Makhnovistas sobre os geralmente desprezados senhores da guerra Brancos na Ucrânia, frequentemente demonizando os makhnovistas por quaisquer crimes e atrocidades, reais ou imaginários, cometidos pelos brancos contra a população. Durante a sua ofensiva em Abril e Maio, eles enforcaram partidários e guerrilheiros e criaram sovietes nas aldeias "libertas" dos Brancos e dos Makhnovistas .
    Contudo, o facto é que os makhnovistas haviam lutado contra a Guarda Branca por muito mais tempo, enquanto o Exército Vermelho mobilizava e organizava uma força saída de dentro de uma sociedade revolucionária ainda à beira do colapso. A maioria do exército Makhnovista lutou a cavalo, cada homem armado com várias pistolas automáticas, uma arma fortemente favorecido dos "oficiais" Makhnovista e pelos cavaleiros irregulares, para além de sabres variados, punhais e armas “camponesas” improvisadas que também foram usadas. Espingardas roubadas ou capturadas também foram muito populares entre os rebeldes, nomeadamente o fiável, preciso [neste campo, as opiniões divergem!] e abundante Mosin-Nagant M1891.
    Os oficiais Makhnovistas gostava de levar o maior número de armas possível como um sinal de posto e valentia em combate. Era também uma solução prática de molde a evitar ter de recarregar a arma a meio de uma carga a cavalo. A escassez  de munições e cartuchos era um problema sério em todas as campanhas Makhnovistas de 1919 a 1921, daí que os ataques a depósitos de mantimentos e às linhas ferroviárias tenham sido essenciais para o reabastecimento. Os insurgentes foram continuamente perseguidos e molestados pela cavalaria do Exército Vermelho, uma arma do novo exército revolucionário de Trotsky que se tornaria a força de combate mais eficaz da Rússia Soviética .
    A ferramenta de guerra mais engenhosa de Makhno foi a tachanka, uma plataforma móvel de armas muito potente e eficaz que os makhnovistas empregaram abundantemente. Basicamente, era um rudimentar mas altamente eficaz sistema de armas pesadas puxada por cavalos, utilizando “uma carroça puxada por dois cavalos tal como a usada pelos camponeses ucranianos, na qual Makhno montou uma metralhadora com dois homens na equipagem, para além do condutor. As tachanki deram a Makhno uma poderosa combinação de mobilidade com poder de fogo, e o dispositivo foi copiado pelo Exército Vermelho " - . Leon Trotsky
    A traição bolchevique: o último raide de Makhno e a sua fuga
    Apesar de aliados aos bolcheviques durante três períodos distintos, Makhno e as suas forças eram fundamentalmente anti-leninistas e anti- bolcheviques , etc. , em conformidade com as ideias próprias do seu líder de uma "sociedade comunista sem Estado", posição essa que Makhno mais ou menos apresentou a Lenine numa viagem a Moscovo, em 1918. Em última análise, o poder militar do Exército Vermelho e a vontade política da nova liderança no Kremlin conseguiu esmagar a resistência Branca na Rússia continental entre 1919 e 1920. Qualquer resistência tzarista bem organizada cessou quando o 'Barão Negro' Pyotr Wrangel (1878 - 1928) fugiu para a península da Crimeia, em Novembro de 1920, após uma ofensiva de Verão falhada na Ucrânia. Makhno tinha cerca de 20.000 a 40.000 homens no exército rebelde no ano de 1919.
    Em meados de Outubro de 1920, no entanto, Makhno poderia por em campo uma força possivelmente na ordem dos 10,000 a 16,000 cavaleiros armados e novamente aliou-se formalmente ao comando do Exército Vermelho na Frente Sul, tentando impedir Wrangel de sair da Ucrânia para encetar nova luta. Ele havia perdido centenas de homens devido a  ferimentos de batalha , tuberculose, prisões e execuções sumárias . Uma segunda frente já tinha sido aberta na Ucrânia, com vários exércitos a atravessar o território para atacar a Polónia e a Ucrânia durante a Guerra Civil Russa e a Guerra Polaco-Soviética de 1919-1921.
    Apenas algumas semanas após a assinatura do tratado, os makhnovistas foram alvo de execuções sumárias pos parte dos bolcheviques e logo se tornou claro que Makhno e o seu exército que eles eram agora a única grande ameaça restante ao poder soviético na região e, portanto, iriam ser tratados em conformidade.
    O fim de Makhno , o seu exílio e triunfo ideológico
    A Ucrânia havia sido praticamente pacificada e os makhnovistas derrotados à excepção de Makhno e os seus indefectíveis remanescentes na ordem dos 6.000-10.000 homens. Ele e as suas forças de cavalaria envolviam-se em lutas diárias com os bolcheviques, alegadamente travando 25 combates em 24 dias, só no mês de Janeiro de 1921. Eles conseguiam suplantar ou pelo menos ficar sempre um passo à frente do Exército Vermelho, mas não foram capazes de fazer quaisquer ganhos estratégicos reais. Makhno e os seus "filhos" estavam a lutar pelas suas vidas por uma causa perdida.
    Em meados do inverno, Makhno e a sua centena de rebeldes remanescente fugiram do território bolchevique em direcção às montanhas e planícies da Roménia. Ferido gravemente, Batko deixou o seu amado país para um exílio permanente em terras estrangeiras. As hipóteses de uma Ucrânia independente haviam sido esmagadas pelo poder em rápida ascensão do vitorioso e totalmente imperialista Congresso Soviético da Rússia e pelo poderio do Exército Vermelho.
    Usando as suas ligações com os académicos, escritores e activistas anarquistas e socialistas, Makhno ficou em Paris, onde se tornou um activo escritor e defensor da causa anarquista. Escrevendo as memórias de uma grande quantidade das suas próprias experiências e compondo outros ensaios sobre anarquismo e outras várias ideologias revolucionárias, Makhno tornou-se um político e historiador. Afligido por antigos ferimentos de guerra e pela sua nunca completamente curada tuberculose adquirida durante os anos passados em prisões tzaristas, Nestor Makhno morreu em Paris , 6 de Julho de 1934.
    Apesar da sua revolução ter fracassado, Batko Makhno manteve erguida a bandeira negra do anarquismo, defendendo o anarquismo para o povo da Ucrânia e da Rússia até à sua morte através dos seus textos e discursos . Um dos seus temas mais frequentes era a corrupção do bolchevismo –comunismo, quer na União Soviética quer noutros lugares onde ele sentia que, mais uma vez , se tinha re-escravizado o proletariado, tal como ocorrera tanto no seu país de nascimento como nos países vizinhos. Ele também escreveu sobre a situação sócio-política na Espanha à época, prevendo um conflito entre as alas direitista e a esquerda socialista que se concretizou com a Guerra Civil Espanhola. Makhno continuou escrevendo sobre a história do movimento Makhnovista e os seus mais elevados ideais durante todo o seu exílio , defendendo-o das críticas , muitas vezes nos seus textos e discursos. Quando, em 1927, ele conheceu o famoso anarquista espanhol  e mártir revolucionário, José Buenaventura Durruti (1896 - 1936), Makhno exortou o jovem anarquista Durruti e os seus companheiros antes de eles deixaram o encontro, dizendo "Makhno nunca se esquivou de uma luta ! Se eu ainda estiver vivo quando vocês começarem a revolução, eu estarei convosco."