"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

domingo, abril 19, 2009

Os recursos insuficientes do PAC

Blog do Luis Nassif - 17/04/09

Atualizado

Em cima de estudos sobre as necessidades de investimento em infraestrutura no Brasil, o diretor da Fundação Dom Cabral Paulo Resende - no relatório final do Fórum Econômico Mundial - considerou os recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) insuficientes para bancar o crescimento da economia. No máximo, servirão para manter.

De acordo com matéria do Valor (clique aqui), ele tomou por base plano nacional de logística da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e o estudo dos sistemas de energia dos Estados Unidos, China, Austrália e Canadá, países de grandes dimensões como o Brasil.

Os números são pesados:

• Distribuição de energia, US$ 10 bilhões de investimento até 2010, contra US$ 5,6 bi previstos no PAC

• Rodovias, US$ 25 bilhões até o ano que vem. No PAC, previsão de US$ 14 bilhões.

• Setor portuário, US$ 15 bilhões, contra US$ 5 bi previstos no PAC.

Conclusão: “Se, em cinco anos, o Brasil crescer de 4% a 5%, vai sofrer um apagão logístico”;
Enquanto isto, os cabeções sugerindo aumento de juros e aumento do superávit fiscal. De qualquer modo, o governo terá que acelerar o modelo de captação de investimentos privados e de concessões para complementar os investimentos com recursos privados.

http://www.google.com/notebook/public/03904464067865211657/BDRObSgoQmOW2nosk

Por Alexandre Leite

Nassif,

dê uma olhada na resposta que o especialista em Logística José Augusto Valente deu em seu blog:

PAC é alvo de críticas no relatório da organização - os erros desse relatório

http://logisticaetransportes.blogspot.com/2009/04/pac-e-alvo-de-criticas-no-relatorio-da.html

Nenhum especialista em logística e transportes se baseará no Plano de Logística da CNT e nas analogias com outros países. Quem faz isso é exatamente o não especialista. O verdadeiro especialista procurará estudos científicos do governo ou nas Universidades, feitos com base em dados objetivos.

O fator China

Blog do Luis Nassif - 17/04/09

Não tem jeito. A China do século 21 é a Inglaterra do século 18. Qualquer brecha é aproveitada para aumentar as exportações. Câmbio, subsídio, pirataria, qualquer recurso vale.

De certo modo, a China recorre ao estilo Microsoft, antes de ser enquadrada pela União Européia e pelos sistema anticartel dos Estados Unidos. Sai na frente, recorrendo a toda sorte de práticas proibidas. Depois, aguarda a abertura de processos. Acerta as contas mais tarde, mas nada que não compense o mercado conquistado no período de lambança.

É o que está ocorrendo com as exportações de produtos siderúrgicos – inclusive afetando diretamente as exportações brasileiras para a América Latina

Segundo a matéria de Raquel Landim, no Valor – “Aço chinês toma lugar do brasileiro na AL” -, nos últimos dois anos as exportações chinesas para a América Latina cresceram 90% enquanto as brasileiras caíram 38,5%.

A questão é que, enquanto a crise global derrubava o consumo de produtos siderúrgicos, o governo chinês agiu rapidamente, criou incentivos para exportação e as condições para que a China na reduzisse a produção – que cresceu 2,4% no período contra queda de 23% na produção mundial. Sem considerar a China, a queda teria sido de 48,7%.

Estados Unidos e Brasil – através de Usiminas – estão com ações antidumping contra a China.

http://www.google.com/notebook/public/03904464067865211657/BDRObSgoQmOW2nosk

Alan Patrick

Acabei de ler uma matéria no blogue de um advogado americano que trabalha na China e vai no mesmo sentido do que você está dizendo:

http://www.chinalawblog.com/2009/04/foreign_companies_going_china.html

Ele relata como as empresas estrangeiras são “autorizadas” a competir no mercado local. Se optam apenas pelo extrato superior do público alvo (10 a 20% do total), tudo bem. Se miram o mercado de massas, têm que pagar imposto (!), algo que as autoridades regionais não cobram das empresas nacionais.

Citigroup lucra US$ 1,6 bilhão

Blog do Luis Nassif - 17/04/09

Painel do dia

O Citigroup, banco norte-americano que se sustenta com os US$ 45 bilhões do fundo de ajuda governamental, encerrou uma seqüência de cinco trimestres de perdas ao anunciar um lucro de US$ 1,6 bilhão nos três primeiros meses de 2009, em função de uma regra contábil que ajuda as empresas em dificuldades (as empresas estão autorizadas a registrar as desvalorizações das dívidas a valor de mercado, como se fosse um ganho irrealizado). Os investidores do Citigroup não viam lucro desde que Vikram Pandit assumiu o posto de presidente executivo, em 2007. Embora o banco tenha cortado custos e outras despesas, não pode evitar a subida da inadimplência dos empréstimos imobiliários e com cartões de crédito.

A inflação médica

Blog do Luis Nassif - 17/04/09

Coluna Econômica - 17/04/2009

Um dos temas recorrentes em discussão em políticas de saúde é a chamada “inflação médica”. O avanço da medicina privada, dos planos de saúde, estimulou toda uma cadeia produtiva do setor, que passou a demandar produtos tecnologicamente mais sofisticados, tratamentos cada vez mais complexos e um aumento na frequencia dos pedidos de exame - somado ao envelhecimento da população, acarretando maior incidência de doenças crônicas.

Nos Estados Unidos, um estudo da Kaiser Family Foundation mostrou que, ano a ano, o custo da saúde superava amplamente a variação dos salários e dos índices de preços ao consumidor.

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No Brasil, ainda existem poucos estudos sobre o tema. Um deles é índice de Variação dos Custos Médico-Hospitalares (VCMH), desenvolvido pelo IESS (Instituto de Estudos de Saúde Complementar) - organização sem fins lucrativos, para estudos da saúde, mantida por operadoras de planos de saúde - e calculado pela consultoria Towers-Perrin.

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O estudo foi feito a partir dos dados de sete operadoras, que respondem por 7,3 milhões de beneficiários, ou 17,8% do universo de 48 milhões de usuários de planos de saúde. A pesquisa se restringiu aos planos individuais e familiares, somando 1,15 milhão de beneficiários, ou 14% desse universo.

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Os planos empresariais são reajustados de acordo com o custo medido dos serviços prestados. Não se submetem, portanto, aos reajustes automáticos do setor. Estes valem para planos individuais e familiares.

Para estes, a ANS passou a se basear na variação média das mensalidades efetivamente praticadas pelos planos coletivos com mais de 50 vidas. A idéia seria - dentro de um mercado concorrencial - que os planos individuais fossem beneficiados pelo poder de negociação dos clientes corporativos.

Mas existem problemas nesse desenho. O principal deles é que não se leva em conta redesenhos de planos coletivos, para adaptá-los às novas condições financeiras de empresas.

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Para tentar espelhar melhor esses custos, adotou-se a metodologia da ANS (Agência Nacional de Saúde), quando da celebração dos Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) definido pela Lei Lei nº 9.656, de 1998. Nessa lei foram fixados critérios para os cálculos dos custos e dos reajustes dos planos.

O estudo calculou os valores per capita (incluindo quantidade e preço) dos seguintes procedimentos: Consultas, Exames, Terapias. Outros Serviços Ambulatoriais. Internação e Outros.

O período analisado foi de janeiro de 2006 a agosto de 2008. Ao todo, foram calculados 9 índices anualizados mês a mês.

Os dados sugerem que os gastos cresceram sistematicamente acima do IPCA - no primeiro mês medido, de 8,94% contra 4,46% do IPCA; no último mês, de 8,48% contra 6,17% do IPCA.

Dado relevante é que o custo per capita das consultas subiu 14,67% no último período analisado; contra 5,43% do custo de internação e 9,94% do custo dos exames.

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Mesmo nesse universo relativamente homogêneo, o estudo percebeu variações sensíveis nos custos, dependendo das regiões e dos tipos de planos.

Brasil vai usar satélites para vigiar desmatamento de todos os biomas, inclusive o Pampa

Instituto Humanitas Unisinos - 17/04/09

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) anunciou ontem que passará a monitorar por satélite o ritmo do desmatamento em todos os biomas brasileiros. Atualmente, o serviço só existe para a Amazônia, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A reportagem é de Bernardo Mello Franco e publicada pelo jornal O Globo, 17-04-2009.

A promessa é estender o programa para Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa. E a previsão é que o sistema passe a funcionar plenamente no prazo de um ano.

Com base nos dados, o governo pretende acrescentar ao Plano Nacional de Mudanças Climáticas metas específicas para a redução das derrubadas em cada bioma.

Os primeiros resultados, do Cerrado, serão apresentados em setembro. Este bioma foi escolhido pelo avanço da fronteira agrícola, especialmente em estados como Mato Grosso e Goiás. Em novembro, o Ibama promete apresentar o retrato do desmatamento na Caatinga, onde o principal problema é a devastação de árvores nativas para a fabricação ilegal de carvão. Os outros biomas serão incorporados até abril de 2010, quando está prevista a atualização das metas do Plano.

— Durante muitos anos, o Brasil só monitorou a Amazônia. Era um samba de uma nota só. Hoje sabemos que outras áreas têm sido agredidas num ritmo ainda mais acelerado, como o Cerrado e a Caatinga — disse o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.

— Não tenho os números atualizados, mas acredito que o desmatamento na Caatinga já seja proporcionalmente o dobro do registrado na Amazônia.

País já perdeu 39% da cobertura do Cerrado

O ponto de partida do monitoramento são os mapas de áreas florestais remanescentes nos biomas fora da Amazônia produzidos pelo Projeto de Utilização e Conservação da Diversidade Biológica BrasileiraProbio) com base em imagens captadas pelo satélite Landsat em 2002. (

A ideia é usar o novo sistema para atualizar os dados e passar a emitir alertas mensais.

Em 2002, o país já havia perdido 39% da cobertura florestal do Cerrado, segundo imagens do Landsat.

Na Caatinga, a devastação já havia alcançado 36% e é, atualmente, um dos biomas mais pressionados especialmente pelo uso da lenha e do carvão, que respondem por cerca de 40% da energia consumida na região. O Pantanal é o bioma mais preservado, com 87% de sua cobertura nativa intacta.

Os dados do ano de 2002 mostram ainda que a Mata Atlântica é o bioma com a vegetação nativa mais devastad a . Da área total de 1.059.027,85 quilômetros quadrados restavam, há seis anos, apenas 27% com a cobertura vegetal nativa em diferentes graus de conservação.

O segundo bioma mais prejudicado no país é o Pampa, que já perdeu quase a metade da cobertura original da sua área total.

Stiglitz critica ajuda de Obama aos bancos americanos

Instituto Humanitas Unisinos - 17/04/09

O plano do presidente Barack Obama para resgatar os sistema bancário dos EUA deve fracassar porque foi desenhado mais para ajudar Wall Street do que para criar um sistema financeiro viável, disse em entrevista o Nobel de Economia Joseph Stiglitz.

A notícia é do jornal Valor, 17-04-2009.

"Todos os ingredientes que eles têm até agora são frágeis. E há vários ingredientes faltando", disse Stiglitz. Para ele, as pessoas que elaboraram os planos "ou estão no bolso dos grandes bancos ou são incompetentes".

Ainda segundo o economista, o plano para limpar o mercado de ativos podres, conhecido pela sigla em inglês Tarp, não é grande o bastante para recapitalizar o sistema bancário. Stiglitz, 66, ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001 por defender que os mercados são ineficientes quando todas as partes de uma transação não têm o mesmo acesso a informações críticas, o que aconteceria na maioria das vezes.

Governo anuncia socorro de R$ 12,6 bilhões ao agronegócio

Instituto Humanitas Unisinos - 17/04/09

A agroindústria em geral - sobretudo frigoríficos de bovinos, aves e suínos -, as fabricantes de máquinas e implementos agrícolas e as cooperativas agropecuárias foram socorridas pelo governo com a abertura de uma linha de financiamento de capital de giro de R$ 10 bilhões no BNDES.

A reportagem é de Arnaldo Galvão e publicada pelo jornal Valor, 17-04-2009.

O anúncio foi feito na quinta-feira pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, depois de uma reunião extraordinária do Conselho Monetário Nacional (CMN). "Terão crédito com custo baixo. Custa 11,25% ao ano, com tudo incluso", prometeu. Ao todo o CMN aprovou cinco novas medidas de apoio ao setor, num valor total de R$ 12,6 bilhões.

O secretário adjunto da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Gilson Bittencourt, esclareceu que não há limite por empresa tomadora, e o governo procurou irrigar esses segmentos com capital de giro porque haverá uma espécie de "efeito cascata" que deverá beneficiar pequenos produtores de todas as cadeias envolvidas.

O prazo para pagamento é de dois anos, com um ano de carência para a quitação do principal. A data limite para contratação é 31 de dezembro de 2009. O Tesouro entra com a equalização entre os custos de captação e os 11,25% cobrados dos mutuários.

Bittencourt alertou que o risco dessas operações é do banco e que, portanto, eventuais perdas com derivativos não impedem a contratação. Disse que, nesses casos, é preciso provar que a empresa é viável e que pode pagar. A Sadia, que perdeu R$ 2,6 bilhões com derivativos cambiais, é uma das que podem se beneficiar com a linha. Não ficou claro se empresas em recuperação judicial têm a mesma sorte.

Otávio Cançado, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Bovina (Abiec), disse que o pacote do governo de apoio à agroindústria "vai ajudar a restaurar a confiança no setor de carne bovina". Ele observou que a crise, que levou vários frigoríficos a pedirem recuperação judicial no país, reduziu a confiança dos pecuaristas em relação à capacidade de pagamento das empresas. O pacote pode reverter esse quadro e evitar que a situação de outros frigoríficos que também estejam em dificuldades se agrave, acredita o executivo.

Outro benefício do pacote, disse, é que permitirá a empresas que já têm todo seu limite de crédito tomado no sistema financeiro ter acesso a capital de giro no BNDES, banco de fomento com regras diferenciadas dos agentes comuns.

Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Suína (Abipecs), mostrou ceticismo. "Ouço notícias de recursos desde dezembro. Espero que desta vez seja para valer", disse. Segundo ele, medidas como a anunciada sempre acabam esbarrando na operacionalização, nas garantias.

Outra decisão anunciada pelo CMN foi a criação de um programa de R$ 2,3 bilhões para o financiamento de estocagem de cinco bilhões de litros de álcool etílico combustível. As beneficiadas são usinas, destilarias, cooperativas ou empresas de comercialização. No BNDES, o valor é de R$ 1,3 bilhão e o restante R$ 1 bilhão no Banco do Brasil, com recursos da poupança rural. Os juros são de 11,25% ao ano, fixos no período do contrato.

Para as empresas das regiões Centro-Sul e Norte, a contratação vai de abril a novembro deste ano, e os quatro pagamentos mensais começam em janeiro de 2010. No caso das empresas do Nordeste, a contratação vai de outubro de 2009 a fevereiro de 2010 e os pagamentos começam em maio. Para o Nordeste, foram reservados 10% dos recursos dessas linhas, proporcionais à produção local.

O CMN também definiu, no âmbito da Lei 11.922, de 13 de abril de 2009, normas sobre os contratos de opção de venda futura como instrumento de política agrícola. Foi regulamentado que é de 10% o adicional sobre o preço mínimo para estimular os mercados de alguns produtos agrícolas. Além disso, foi consolidado o texto da resolução que trata do tema.

No Programa de Desenvolvimento Cooperativo para Agregação de Valor à Produção Agropecuária (Prodecoop), o CMN elevou em R$ 300 milhões os recursos para capital de giro, a partir do remanejamento de outros programas de financiamento de investimento.

Os integrantes do CMN também regulamentaram os prazos para renegociação das operações de crédito rural no âmbito da Lei 11.775 de 17 de setembro de 2008.

Indústrias suspendem acordos de redução de jornada e de salários

Instituto Humanitas Unisinos - 17/04/09

Vinte dos trinta acordos fechados no início deste ano entre indústrias e sindicatos de trabalhadores ligados à Força Sindical para a redução da jornada de trabalho e de salário, a fim de evitar demissões, já foram suspensos. A informação é do próprio presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva.

A reportagem é de Márcia De Chiara e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 17-04-2009.

A resposta positiva nas vendas de automóveis ao corte no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) do produto provocou uma reação em cadeia e melhorou o ritmo de atividade nas fábricas que fornecem peças. Com isso, os trabalhadores retomaram a produção.

O quadro é semelhante no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Segundo o presidente do sindicato, Sérgio Nobre, dos 44 acordos de redução de jornada e de salários, oito foram cancelados no início deste mês.

"Setores ligados ao mercado interno estão tendo recuperação bastante forte. O problema continua nas empresas exportadoras", diz Nobre. Num primeiro momento, observa o presidente da CUT, Artur Henrique, a cadeia automobilística foi a mais afetada. "O que se vê agora é uma recuperação nas metalúrgicas ligadas às montadoras e à construção civil", diz o sindicalista.

REAÇÃO

A Valeo, fabricante de faróis e lanternas para a indústria automobilística, por exemplo, interrompeu na semana passada o acordo de redução de jornada de trabalho e de 15% nos salários iniciado em fevereiro e previsto para durar até o dia 30 deste mês. A empresa decidiu cancelar a jornada reduzida porque tanto a demanda das montadoras em março como a programação de pedidos para este mês aumentaram.

"Dezembro foi trágico. Agora já houve uma reação, e temos um novo patamar de produção", afirma CarlosLuiz Gazola, diretor administrativo e financeiro da Proxyon, que produz peças e conjuntos de aço e alumínio para a indústria automobilística.

Com a queda de 60% no faturamento em dezembro, a empresa decidiu reduzir em um dia por semana a jornada de trabalho dos 220 funcionários, que aceitaram cortar 14% nos salários. Com a melhora nos pedidos, a companhia suspendeu o acordo antes do fim do prazo previsto, que era 28 de março.

"O faturamento não voltou ao nível normal e está 30% abaixo do ano passado", diz o diretor. De toda forma, pelo volume de pedidos já sinalizado pela indústria até agosto, a empresa optou por retomar a produção.

Já a Saint-Globain Sekurit, que produz vidros para veículos, adotou estratégia diferente. Em dezembro, quando a demanda pelo produto foi reduzida para um terço, a empresa demitiu 180 temporários. "Agora, acabamos de contratar 24 trabalhadores" diz o diretor geral, Manuel Corrêa. Segundo ele, a freada nas vendas no fim de 2008 foi brusca. Agora, a retomada é forte.

Muros nas favelas do RJ. Segregação, apartação, divisão? Entrevista especial com Ignácio Cano

Instituto Humanitas Unisinos - 17/04/09

Segregação, apartação, divisão? Ou seria apenas uma forma de conter a expansão das favelas em relação à Mata Atlântica? Os muros que estão sendo construídos em torno das favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro, mais do que gerarem debates, estão levantando dúvidas importantes. O prefeito fala, inclusive, em remoção das favelas, mas o projeto usa como justificativa a preservação ambiental. A questão é que os muros já estão sendo levantados, e os problemas sociais também já estão surgindo. Quem analisa o projeto dos muros e os problemas causados por ele é o sociólogo Ignácio Cano, em entrevista à IHU On-Line. Realizada por telefone, a conversa traz dados relevantes sobre a questão. Ele acredita que, se o projeto é mesmo de contenção de território, isso deveria ser feito de forma menos agressiva e, portanto, defende uma fiscalização rigorosa para conter a expansão urbana para áreas de proteção ambiental.

“Eu acho que é justificável pelo controle da expansão, sem dúvida alguma, quando falamos em áreas de proteção ambiental. Agora, é bom que se saiba que a expansão não acontece só nas favelas da Zona Sul. Acontece, sobretudo, na Zona Oeste. Então, a lógica de controlar a expansão nessas áreas não nos levaria diretamente a construção de muros nas favelas da Zona Sul. Isso introduz mais uma dúvida: qual é a lógica por detrás disso?”, questionou Cano.

Ignácio Cano é sociólogo graduado pela Universidad Complutense de Madrid, na Espanha. Nesta mesma universidade, realizou o doutorado em Sociologia. Fez pós-doutorado pela University of Michigan, pela University of Arizona e pela Lancaster University. Atualmente, é consultor do Observatório das Favelas e do Governo do Estado de Minas Gerais. Coordena pesquisa na Ong Conectas e na Fundação Heinrich Böll. Também é professor do curso de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Socialmente falando, o que explica e implica com a construção dos muros em torno das favelas cariocas?

Ignácio Cano – A proposta dos muros não é recente, já existe há algum tempo e se situa numa certa ambiguidade. Por um lado, há uma agenda ambiental, de proteção de áreas protegidas da Mata Atlântica, e de controle na expansão (até agora descontrolada) de territórios urbanos. Por outro lado, há uma agenda de segurança pública e de controle das populações que moram nesses territórios. No passado, quando a proposta foi lançada, ela gerou uma resistência muito grande em função dessa estigmatização, dessa associação entre moradores de favela e gueto. A ideia dos muros se assemelha, como Saramago já falou, à ideia dos muros de Berlim e da Palestina. Dessa vez, o governo lançou a ideia com base na proteção ambiental, que de fato é urgente.

É preciso regular a situação dos territórios e preservar as áreas de Mata Atlântica. No entanto, há uma suspeita de que a lógica desses muros não é simplesmente uma lógica de proteção ambiental, mas também inclui uma linha de segurança pública. Nós defendemos que o mesmo objetivo de demarcação de território poderia ser conseguido com uma intervenção menos agressiva, que demarcasse de alguma outra forma que não tivesse um custo econômico tão alto, nem um impacto paisagístico tão forte. Além disso, não deveria associar os moradores de favela a essa ideia de gueto. Afinal de contas, o controle da expansão de territórios depende mais da fiscalização do que da construção de limites. Acredito que isso poderia ter sido feito de uma forma mais simples e menos agressiva.

IHU On-Line – A construção dos muros influencia de que forma a violência gerada neste espaço?

Ignácio Cano – Ela pode ser usada como uma estratégia de contenção, por exemplo, quando há uma operação policial nas favelas. É relativamente comum que membros de grupos criminosos fujam para as áreas do mato. Os muros poderiam ser usados para fechar esses acessos. Então, poderiam haver operações, de forma que não pudesse haver uma fuga das comunidades. Mas, se os muro forem usados com esse intuito, sem dúvida alguma sofrerão ataques, desmontando em alguns locais. A manutenção para esse tipo de muro será muito alta e será um plano inviável. Então, acredito, se eles forem usados de fato como uma ferramenta para segurança pública, irão sofrer ataques e acabarão sendo destruídos num prazo relativamente breve.

IHU On-Line – Os muros em torno das favelas cariocas podem ser ambientalmente justificáveis?

Ignácio Cano – Eu acho que é justificável pelo controle da expansão, sem dúvida alguma, quando falamos em áreas de proteção ambiental. Agora, é bom que se saiba que a expansão não acontece só nas favelas da Zona Sul. Acontece, sobretudo, na Zona Oeste. Então, a lógica de controlar a expansão nessas áreas não nos levaria diretamente a construção de muros nas favelas da Zona Sul. Isso introduz mais uma dúvida: qual é a lógica por detrás disso?

Para alguns setores da sociedade, de classe média, a ideia de contenção das favelas, historicamente, era, na verdade, de remoção. Isso foi feito, em parte, pelo regime militar, de uma forma muito autoritária. Hoje em dia, não há uma viabilidade política ou econômica para essa política da remoção, mas a ideia de contenção vai de encontro ao imaginário de parte da população, ao invés de conter as favelas.

Na verdade, trata muito mais de planejamento urbano e, portanto, de evitar a expansão descontrolada em todo o território. Acredito que isso possa ser feito com outras ferramentas, sobretudo com fiscalização, que não exigirão a construção de muros que tenham as desvantagens que apontei inicialmente.

IHU On-Line – A construção dos muros pode ser considerado uma forma de apartação?

Ignácio Cano – Essa é a questão, ou seja, quando você constrói um muro de três metros de concreto está colocando um de um lado e outro do outro. É preciso evitar que a população se expanda, o que, do ponto de vista do planejamento urbano, pode ser razoável. No entanto, há uma outra associação em relação às pessoas que moram lá dentro, o que é muito negativa para elas. O governo está negando, por enquanto, essa associação, mas há suspeita de que, além da agenda ambiental, há essa outra agenda que é negativa para as pessoas dessas comunidades.

IHU On-Line – Por que apenas os jornais cariocas e internacionais estão debatendo essa questão?

Ignácio Cano – Acho que o Brasil tem debatido até certo ponto. Tenho recebido ligações de revistas e jornais de outros estados. É claro que é um problema tipicamente carioca, mas é um problema nacional. O governo está ciente dessa polêmica e das controvérsias. Por isso, está tentando frisar essa lógica ambiental e que os muros não irão cercar totalmente as favelas. Penso que o governo está ciente que as significativas geram uma certa resistência.

IHU On-Line – Conter a expansão das favelas é necessário?

Ignácio Cano – Mais do que conter, existe a questão do planejamento urbano. Pode haver uma certa expansão, mas não pode ser descontrolada. Na favela, a grande vantagem é que podem construir para cima. Isso tem acontecido de forma sistemática, mas é preciso também respeitar normas de segurança para as pessoas que moram lá. Mais do que conter, a ideia é planejar o tecido urbano de forma que a expansão não seja descontrolada. Isso vale para todo o território, pois, como falei antes, a grande expansão hoje não acontece nas favelas da Zona Sul, acontece nas áreas da Zona Oeste.

IHU On-Line – Que problemas sociais esses muros começam a gerar?

Ignácio Cano – Começam a gerar essa sensação de gueto e de cercamento de comunidades, que já existe, porque de fato vivemos numa sociedade dividida. Até certo ponto é segregada, onde, por exemplo, moradores das áreas novas de classe média não podem ir livremente às favelas e os moradores das favelas não podem ir livremente em outras favelas, muitas vezes. Então, os direitos básicos de locomoção já estão limitados e o grau de segregação urbana é bastante grande. A particularidade do Rio de Janeiro também é que essas áreas segregadas são de uma dimensão muito reduzida, então existem pessoas ganhando um ou dois salários mínimos por mês morando muito perto de pessoas que ganham 20, 30 salários mínimos. Essa microsegregação é muito característica do Rio de Janeiro, mas ela já existe. Os muros vêm contribuir simbolicamente com essa imagem de separação, divisão entre as populações.

IHU On-Line – Todas as favelas que serão cercadas ficam na Zona Sul. O que isso significa?

Ignácio Cano – Isso pode ser interpretado de várias formas. A mais óbvia é que o Poder Público dá atenção basicamente ao que acontece na Zona Dul. A violência, por exemplo, que acontece na Zona Sul tem muita repercussão, gerando política pública, mobilização social, além de muitos artigos e matérias na imprensa. E o que acontece nas favelas, sobretudo da Zona oeste, apenas gera impacto social. Então, isso vale para a violência, para investimento urbano, para tudo. Nossa sociedade é muito desigual do ponto de vista individual, territorial, e o Poder Público presta uma atenção especial ao que acontece, então, na Zona Sul. Essa é a primeira leitura.

A outra leitura é: na medida em que existe essa outra agenda de segurança pública, ela também irá tentar privilegiar a segurança das populações da Zona Sul. Por exemplo, num debate que aconteceu recentemente, o prefeito voltou a colocar o termo remoção, quase banido do debate público, o que gerou um debate que tem provocado bastante controvérsia. O prefeito afirma que preciso mesmo haver debate. Mas, mais uma vez, os argumentos usados foram, por exemplo, que a Lagoa Rodrigo de Freitas, entre outros lugares, tiveram favelas removidas pelo regime militar. Os argumentos são sempre referidos ao que acontece na zona nobre da cidade.

Marechal Boanerges e o ‘Rio Negro’

Por Cel Eng R/1 Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 17 de Abril de 2009

Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

(Quintino Cunha)

Estamos iniciando o planejamento da 2ª fase do Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio-Mar’. Com o objetivo de iniciar uma metódica preparação intelectual sobre nossa próxima jornada, no rio Negro, no final do ano, vamos publicar uma série de artigos que visam apresentar aos leitores um pouco, dos mistérios e encantos dessa jóia de águas negras. A descida do ‘Rio Negro’, de caiaque, é, também, uma homenagem ao importante escritor da literatura brasileira, Euclides da Cunha, no ano do centenário da sua morte. Euclides foi covardemente assassinado em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade.

- Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio Mar’ - 2ª Fase

Percorremos todo o Rio Solimões, de Tabatinga a Manaus, num percurso que superou os 1700 quilômetros, tendo em vista a exploração de afluentes, paranás, furos e lagos ao longo de sua calha. Não atingimos o Mar, como o próprio nome do projeto indica, mas resolvemos que, antes de atingi-lo, devemos percorrer o quarto maior rio brasileiro em vazão: o Rio Negro. Estamos na fase de planejamento e treinamento sem uma data marcada para o início da jornada, tendo em vista que ainda não dispormos dos recursos necessários, da ordem de R$30.000,00 para a execução do projeto.

- Marechal Boanerges Lopes de Souza

Por Heloisa Alberto Torres - Presidente do Conselho Nacional de Proteção aos Índios (Rio de Janeiro, outubro de 1958).

(...) “Nascido em Corumbá em 1881, estava o jovem Boanerges destinado a seguir a carreira paterna, ingressando no funcionalismo público da Alfândega local.

(...) Terminado o curso secundário no Liceu Cuiabano, em 1897, requereu matrícula na Escola Militar. Foi, então, que se apresentou um grande obstáculo, que acabou por ceder em face da vontade firme do futuro oficial: a Campanha de Canudos havia alertado o Exército para o problema da seleção física de seus componentes e o Doutor Malhado, médico da guarnição, hesitava em declarar apto aquele rapaz franzino e de estatura pequena, mas em quem reconhecia qualidades especiais raras que receava contrariar.

Na Capital Federal, todavia, as decisões corriam a favor de Boanerges, e este, no dia 30 de janeiro de 1898, voltou à casa do Doutor Malhado, exibindo o exemplar do ‘Diário Oficial’ em que vinha o despacho favorável do Ministro da Guerra ao seu requerimento. A luta travada na consciência do Doutor Malhado repontou numa frase proferida em resposta às insistências do aspirante a militar. ‘Bem, menino, para você não dizer que não chegou a marechal por minha culpa, vá amanhã, às sete horas, à Enfermaria Militar, para ser inspecionado’. Boanerges assentou praça e embarcou no mesmo dia com destino ao 2° Batalhão de Engenharia, sediado em Porto Alegre.

(...) Servia o Tenente Boanerges no 21° Batalhão de Infantaria, em Corumbá, quando sofreu o primeiro impacto que lhe despertou interesse e entusiasmo pelos trabalhos da Comissão Telegráfica, chefiada pelo então Major Rondon. Representando sua unidade na inauguração da estação telegráfica do lendário forte de Coimbra, a 1° de janeiro de 1905, ficou empolgado com as festas que se realizavam em comemoração à epopéia da construção da linha telegráfica através dos pantanais que se interpunham entre São Lourenço, ao sul de Cuiabá, e o forte de Coimbra. O nome de Rondon ecoara em todo o Estado, como realizador de uma façanha que o imortalizou como benfeitor de sua terra, ligando pelo telégrafo todos os recantos de Mato Grosso. Assim, foi com entusiasmo que o jovem Tenente Boanerges aceitou o convite de Rondon, em setembro desse mesmo ano, para integrar a Comissão encarregada da construção do ramal de Cuiabá à cidade de São Luis de Cáceres.

(...) a turma do Tenente Nicolau Bueno Horta Barbosa, que operava ao norte de Juruena, tinha sido atacada pelos índios Nhambiquaras, ficando gravemente feridos pelas flechas dos índios, o tenente Nicolau e seu auxiliar, Aspirante Tito de Barros.

Em face da situação, partiu o Tenente Boanerges rumo ao sertão, acompanhado somente de um guia. Em Salto (rio Sepotuba), uniu-se à comitiva do Tenente Júlio Caetano Horta Barbosa, que partira de Cuiabá com o mesmo destino. A 31 de agosto, chegam os viajantes ao Juruena, encontrando os feridos já fora de perigo. Foi o Tenente Boanerges encarregado da turma de construção da linha, cujos trabalhos tinham sido interrompidos em conseqüência do ataque dos índios. Para a retomada do serviço, - disse o Marechal Boanerges - impunha-se o contado com os Nhambiquaras, senhores absolutos da região. Era necessário um trabalho de aproximação paciente e cuidadoso, a fim de conquistar sua amizade”

(...) Nessa fase de trabalhos da Comissão Rondon, desempenhou o Tenente Boanerges várias funções, quer no serviço de construção e de conservação da linha, quer em outros de natureza administrativa que o retiveram até dezembro de 1922, quando reverteu à tropa.

(...) Em 1927, quando servia no Estado Maior da 1ª Região Militar, atendeu o Capitão Boanerges a novo apelo do General Rondon e retornou ao sertão, desta vez para participar dos trabalhos da ‘Inspeção de Fronteiras’. Iniciaram-se os serviços pela Guiana Francesa, de que nos deu notícia o Autor em seu livro ‘Índios e Explorações Geográficas’, no capítulo ‘Uma viagem ao Oiapoque’. Ainda no mesmo ano, foi o Capitão Boanerges encarregado da inspeção de um setor da fronteira com a Guiana Inglesa, atualmente incorporada ao Território Federal do Rio Branco.

Em 1928, empreendeu-se a segunda campanha pela Comissão, cabendo ao então Major Boanerges chefiar a turma ‘Rio Negro’. Na terceira campanha (1930) coube ao Major Boanerges proceder ao levantamento expedito do rio Paraguai e do seu contribuinte Jauru, desde a foz do rio Apa até o Corixo de San Matias, na Bolívia.

(...) A linguagem do Marechal Boanerges tem a fluência dos veios de água manantes das montanhas e serras daquela vasta região. A sua autoridade de engenheiro geógrafo lhe ditou as técnicas de operação no levantamento dos dados físicos sobre a terra. Daí a segurança e orientação invulgares na interpretação dos fatos; a riqueza das coleções etnográficas, a documentação cinematográfica, entregues ao Museu Nacional, as demais informações de interesse social, atestam a alta significação da sua obra. Ela fica, assim, à disposição dos pesquisadores de ciências sociais como um filão precioso cujo volume e valor bem se pode prever”.

- Início dos trabalhos (03/09/1928)

“Vamos subir o rio Negro, o lendário contribuinte do Amazonas que deu seu nome à antiga Capitania. Devemos, inicialmente, atingir Cucuí, sede de um destacamento militar, para, dali, iniciar o exame da região ocidental do alto rio Negro. Precisamos reconhecer-lhe as vias de acesso, as condições de navegabilidade de seus rios, a natureza de suas margens, o regime de suas águas, a vegetação, etc. Quais os núcleos de povoação existentes seus recursos econômicos, condições de salubridade, seu meio de vida. Mas, como a região é quase exclusivamente povoada por índios, nossa atenção concentra-se no estudo das organizações tribais, de suas instituições culturais, seus hábitos, costumes e tradições.

Para traçar nosso programa de ação e fixar os itinerários a percorrer no âmbito da situação geográfica definida por tratados internacionais, devemos, antes de tudo, tomar por base o Tratado celebrado em Bogotá, a 24 de abril de 1907 entre a Colômbia e o Brasil, posteriormente aprovado por ambos os países ...

(...) organizamos o nosso programa de trabalho da seguinte maneira:

- Subir o rio Negro até Cucuí; retroceder à foz do Xié, subir este rio e identificar o seu afluente Japori ou Tvapori; descer o Negro até São Felipe, na foz do Içana; executar o levantamento deste rio até a boca do seu afluente Cuiari, subir este rio a fim de reconher a foz do rio Pégua e a do sub-afluente do Cuiari, cujos manadeiros contravertem com as do Memachi - águas do Naquieni, na linha divisória; prosseguir no levantamento do rio Içana até a intercessão aproximada do paralelo da foz do Pégua; subir o Aiari e dali passar para o Uaupés, através do varadouro assinalado pela expedição Curt, executando os respectivos levantamentos expeditos; subir o Uaupés, a partir da povoação Iutica até a foz do seu afluente Querari; descer o Uaupés afé a foz. do Papori, subir este rio, atingindo, se possível suas nascentes; descer o Papori para prosseguir no levantamento do Uaupés até a embocadura do rio Tiquié; proceder ao levantamento deste rio e, em seguida, a do baixo curso do Uaupés, fechando em São Felipe, no rio Negro, o circuito ali iniciado”.

- Barcelos (06/09/1928)

“No governo do benemérito estadista Manuel da Gama Lôbo d'Almada, o rio Negro, teve sua mais brilhante fase de progresso. Barcelos guarda os restos mortais desse patriota, ali falecido em 1799. Presentemente, a missão. Salesiana do rio Negro procura reerguê-la, tendo instalado escola e oficinas”.

- Cucuí (24/09/1928)

"Começamos a subir o cerro. Uma formidável rocha granítica de 50° de aclive. Os homens sobem descalços. Mando colocar o cabo (corda de 1/4" com 60 metros) de que me preveni. (...) Às 12 horas, iniciamos a marcha por entre pedras e desvãos do mais difícil e complicado acesso. A todo momento é preciso recorrer ao cabo ou à ajuda dos práticos para se passar de uma pedra para outra. O granito úmido, coberto de musgo, escorrega como sabão! Às 12 horas e 30 minutos, atingimos uma gruta que nos forneceu água fresca e cristalina. Descansamos meia hora, dividindo entre os 11 excursionistas uma lata de goiabada que levávamos.

Prosseguindo, fomos assaltados por dezenas de morcegos que irrompiam da escuridão por onde nos arrastávamos às apalpadelas. Meia hora após estávamos no dorso da montanha, contemplando o belíssimo panorama que de lá se descortina: o rio Negro espalhando-se, para o Sul e para o Norle na planície verde, e indefinida que irmana os três países lindeiros. Para o Sul, as serras de Curicuari e de Dimiti. As de Tunuí no Içana para SE, o serro Caparro para E e para NE, azulando no horizonte, as serras do Cabori e a Tapirapicó, da cordilheira Parima.

Às 14 horas e 20 minutos, iniciamos o regresso, alcançando às 18 horas e 40 minutos, o igarapé onde retomamos as ubás. Às 20 horas e 20 minutos, aportávamos, sem novidade, ao nosso acantonamento de Cucuí”.

- Rio Içana, Jacaré-Ponta (25/10/1928)

"Mais acima, à margem esquerda, saltamos no sítio Jacaré-ponta do velho Tomás, uma casa em ruínas, escorada na frente e na retaguarda! Em sua pobre morada, o velho índio recebeu-nos com amabilidade e convidou-nos a tomar assento num banco a seu lado. No interior da casa, sua mulher entregava-se ao trabalho de ralar mandioca, enquanto duas moças se encarregavam de torrá-la em um pequeno forno de ferro. Por falta de vasilha para o depósito da massa, esta era depositada no próprio chão, provàvelmente forrado com folhas, porque com folhas estava ela coberta. A velha e as duas moças não se incomodaram com nossa presença; continuaram nos seus serviços e a que estava virando a farinha no forno permaneceu de costas, como estava. No teto, sempre os malditos feixes de adabis”.

Adabi - os índios da tribo Uanana costumam vergastar-se reciprocamente com o adabi nas festas de Jurupari. O sacrifício busca fazer com que se afugentem as iras de ‘Jurupari’, o Moisés Tapuio

- Rio Içana, Aracu-cachoeira (30/10/1928)

“Aliás, o casamento entre os índios da região não se faz por amor. É mesmo difícil saber se há este sentimento por parte dos jovens que se casam. Porque em geral, os casamentos se fazem por combinação dos tuxauas que trocam por conveniência recíproca, rapazes e moças; ou então, mediante verdadeiros assaltos à mão armada, em que os guapos mancebos arrebatam as suas preferidas, violentamente, por entre vozerios, imprecações e pauladas. E o interessante é que passada uma semana, a constituição do novo lar é festejada em animado cachiri, com o infalível comparecimento da família da jovem. Tudo acaba bem, entre um volteio de dança, ao som do carriço e uma boa dose da saborosa bebida fermentada do índio. E não é de fácil solução este problema!

O Índio não se casa com parentes. Um tariana pode casar-se com uma uanana, uma tucana ou uma pira-tapuia. Os tucanos dizem-se parentes dos piratapuios, de modo que entre eles não é permitido enlace matrimonial. Mas um tucano pode, entretanto, casar-se com a filha de uma tucana, mulher de um tariana, ou de uma tariana, por exemplo, porque, o que prevalece no caso é o sangue paterno. A mulher é um ente sem regalias”.

- Rio Uaupés, Iutica (12/11/1928)

“Desde o dia 12 o pessoal de Iutica se movimentava para o preparo das festas. Uma turma de homens partira para a mata para cortar ‘tururi’ de cuja entrecasca se preparam as máscaras de dança. As mulheres ocupavam-se com o fabrico da farinha e do beiju para o preparo do ‘cachiri’. A faina no interior das casas era grande.

As ‘cunhãs’ (mulheres), as ‘cunhamucus’ (moças), e as ‘cunhatãs’ (meninas) despejavam pesados baquitéis carregados de raízes de mandioca, de cará e batata doce. Umas descascavam os preciosos tubérculos, enquanto outras os trituravam nos ‘iuicés’ (ralo de sílex entalhado em madeira) sentadas no chão. Com o apóio das coxas mantinham os artísticos ralos e com as mãos assim libertas se entregam ao vai-e-vem incessante, duplicando os braços. Outras assavam os beijus de mandioca ou tapioca, ou preparavam a massa da batata ou do cará, para o ‘cachiri’. E grande coxos e formidáveis ‘camotis’ se enchiam da preciosa mistura a ser fermentada.

Os toros de ‘tururi’, entravam, por sua vez, em atividade. Primeiramente, eram cuidadosamente raspados. Depois, com uns cacetinhos de madeira especial, nos quais se faziam frisos longitudinais, os índios batiam de encontro à superfície exterior dos toros, girando-os, de modo a desprender a entrecasca. Esta desligava-se inteiramente dos toros. Em seguida, eram levadas ao rio para serem lavadas e se tornarem macias. Feito isto, abria-se bem o tecido para aumentar-lhe as dimensões, sem prejuízo da contestura das malhas.

Outros os vestiam em manequins adrede preparados para receberem a forma do corpo a que se destinavam. Depois de secas, passavam a receber as pinturas em que predominavam as tintas do urucum, do ‘caiuru’ e do jenipapo. O índio não confia na leveza da mão. Em geral, tem molde para tudo e todos os desenhos das suas máscaras como as pinturas do próprio corpo obedecem a modelos que uns passam a outros. Entretanto, sempre há um especialista que é consultado a respeito no remate de uma máscara ou na disposição de um ornato”.

- Rio Uaupés, Iutica (21/11/1928)

“Encontramos os uananas em franca atividade nos preparativos para a festa. As máscaras recebiam as pinturas e os que as tinham prontas, desfiavam a casca de ‘matamatá’ para o preparo das franjas com que se confeccionam as saias. Outros entretinham-se no arranjo dos enfeites para a dança da ‘acangatura’ e as ‘cunhãs’ e as ‘cunhamucus’ davam última de mão no preparo do ‘cachiri’. O tuxaua nos comunicava, constantemente, a marcha dos preparativos. Concluídos estes, foi marcada a festa para a manhã de 21. Às 9 horas, teve ela início, com a dança das máscaras. Nesta, só os homens e alguns ‘curumis’ tomam parte. Metidos na vestimenta feita de entrecasca de ‘tururi’ e casca de ‘matamatá’, levando aquela a pintura e a máscara que representavam os bichos da floresta, marcharam os índios em uma só fila rumo à grande maloca. Ao aproximarem-se desta, correram para ela, e, num vozerio infernal, batiam os paus que empunhavam de encontro ao revestimento de palha da parede, penetrando, em seguida, no vasto salão.

A onça marchava na frente e parecia ser o personagem mais importante. O sapo, o papagaio, a borboleta, o rouxinol, o aracu, o araripirá e o tapuru formavam-Ihe o cortejo. Não consegui interpretar os detalhes dessa interessantíssima dança, em que, ora os papagaios, ora as borboletas, marchavam solenemente, entoando cânticos alusivos às cenas que se desdobravam. O sapo, o rouxinol e os outros bichos revezavam-se nas danças e cânticos; mas, incontestàvelmente, os papagaios e as borboletas, eram as figuras que mais predominavam. A onça, de vez em quando, aparecia e fazia um estardalhaço interessante. Nos intervalos, grupos diversos divertiam-se com a dança do carriço, alegrando a assistência. Ela é assim chamada por que os rapazes, ao mesmo tempo que dançam, arrastando uma mulher, tocam a flauta de pan, composta de 4, 5 ou 6 carriços. Estes são feitos de talos de bambu cujos comprimentos variam de 6 a 20 centímetros, de grossura de ½ a 2 centímetros. Os índios empunham a flauta com duas mãos e correndo o beiço pela escala dos carriços, conseguem emitir desde os mais graves, aos mais agudos sons. A música é pobre: só distingui dois temas que se revezavam. Grupos de 3 ou 4 pares formando fila dançavam incessantemente num canto da maloca ou no pátio; ou então, formavam roda e a dança passava a ter novo tema.

Os rapazes enfeitavam a fronte com um diadema e os quadris com ramos de árvore, um espelho ou outro penderucalho qualquer. As mulheres vestiam somente saia, trazendo algumas os braços e o busto com lindos desenhos feitos de ‘caiauru’ ou urucum.

A assistência no interior da maloca era grande: os homens sentados em uma só fila à direita e as mulheres à sua frente, à esquerda. No centro, dançavam os grupos dos carriços. E o interessante é que as mulheres é que escolhiam os seus pares, quer na dança dos carriços, quer na da ‘acangatara’.

Esta é mais solene. É uma festa guerreira, de um simbolismo impressionante. Nela tomam parte todos os índios e índias formando uma roda enorme. Os homens se paramentam todos: pintam o corpo todo de urucum, colocam na cabeça a ‘acangatara’ (lindo diadema feio de penas de arara, de tucano e de outros pássaros); completam esse ornato com ‘aigraitte’ e pente feito de fibra de piaçaba; no pescoço, penduram o ‘itá’, preso a um colar de sementes (quiquica); no busto - duas ou três voltas de dentes de onça ou de porco do mato - e chocalhos nos tornozelos. Os taxauas empunham a lança e o escudo. As mulheres pintam todo o corpo e as que possuem tangas de miçangas, despem-se inteiramente. Formada a grande roda, tem início a festa, entoando-se por muito tempo uma espécie de ladainha em homenagem ao ‘caapi’. A seguir, começa propriamente a dança. A roda é agora uma cadeia, em que uma mulher fica entre dois homens. Lentamente oscila a cadeia para a direita, para a esquerda, para frente, para a retaguarda, sob cânticos guerreiros que empolgam os assistentes.

De quando em quando, uma mulher - que permanece no centro da roda - caminha soltando um grito estridente e lúgubre que perdura de 30 a 40 segundos. E entre a dança do carriço e a da ‘acangatara’, decorreram os festejos durante toda a noite desse dia, terminando às 9 horas da manhã seguinte. Foram 24 horas seguidas de dança que escoaram dentro da maior ordem e alegria”.

- Rio Tiquié, Floresta (24/12/1928)

“Com o tuxaua Caetano, adquirimos um ‘cuacorô’ (em deçana) e ‘hatô’ (em tucano) - vasilha feita de ‘jamaru’ (espécie de cabaça), com bocal de ‘mirapiranga’ e chupeta de tíbia de jacamin - com que os Índios sorvem o ‘ipadu’. Como se sabe, o ‘ipadu’ é um tônico excitante e poderoso feito de folhas de coca reduzido a pó finíssimo e a que costumam adicionar cinza de folha de embaúba. Depois de torrar as folhas da coca - que chamam ‘ipadu’ ou simplesmente ‘padu’ - levam-nas a um pilão feito do ‘mirapiranga’ - que é uma das melhores madeiras de lei ¬onde são reduzidas a pó.

(...) Observei que o ‘ipadú’ é usado só pelos adultos e de preferência pelos velhos que fazem a roda, passando, de um a um, o ‘hatô’ ou ‘patuga’, como os gaúchos o fazem com o chimarrão”.

- Rio Tiquié, Pari-cachoeira (25/12/1928)

“(...) os índios do Uaupés e afluentes dão grande apreço ao ‘itá’. Consiste este ornato em um penduricalho feito de quartzo leitoso que pode ser de 8 a 10 centímetros de comprimento por 3 de diâmetro - usado pelos homens - ou 3,5 por 1,5, usado pelos curumis. A esta pedra dão a forma cilíndrica, polindo-a de encontro às lajes de granito, o que consome largo tempo. Depois de inteiramente lisa, abrem-lhe um orifício no sentido do eixo maior, de modo a permitir a passagem de um fio no qual costumam enfiar contas (‘quiquica’), improvisando, assim um colar. O seu uso vem desde os mais remotos tempos e é muito generalizado no Tiquié, fazendo parte da ‘toilette’ com que os tucanos recebem as visitas. No Uaupés, vimo-lo entre os uananas, na ocasião das festas de Iutica, e, entre os tarianos, só os vimos nas coleções das quais aliás estão se desfazendo pelos novos hábitos contraídos pela influência dos padres. Pois em Pari-cachoeira, depois de se refazer da surpresa da nossa visita, o tuxaua José apareceu com o colar e o penderucalho (...)”

Mais de sete décadas antes o ornamento já fascinara Alfred Russel Wallace que descreve o adereço, no capítulo X (Subindo o rio Uaupés pela primeira vez), de suas ‘Viagens pelos rios Amazonas e Negro’:

“Viam-se agora diversos índios usando seu mais típico e precioso ornamento, uma pedra branca, opaca e cilíndrica, parecendo mármore, mas que é na realidade um quartzo imperfeitamente cristalizado. Essas pedras têm entre 4 e 8 polegadas de comprimento e mais ou menos uma polegada de diâmetro. Têm base redonda e extremidade superior achatada, sendo esta atravessada por um furo, dentro do qual passam um cordão para poder pendurar o adorno ao pescoço. Deve ser dificílimo confeccionar este ornamento, sendo mesmo incrível que consigam perfurar uma substância tão dura sem qualquer instrumento de ferro adequado para isso. Para fazê-lo, segundo me disseram, usam o broto flexível e pontiagudo da bananeira silvestre, girando-o e atritando o local com areia fina e água. Não duvido disso e nem de que tal trabalho leve anos, conforme também me disseram. Fico pensando, então, no tempo que deve ter sido gasto para furar a pedra que o tuxaua usava como distintivo de sua autoridade, pois era de dimensões bem maiores. Além do mais, o orifício desta era longitudinal, permitindo a seu dono usá-la horizontalmente sobre o peito. Informaram-me que os adornos desse tipo ocupam o trabalho de duas vidas! Essas pedras são trazidas de grandes distâncias rio acima, provavelmente da região das cabeceiras, na base dos Andes. Em virtude disso, são altamente valorizadas, sendo muito raro encontrar-se um proprietário que possa ser induzido a desfazer-se delas. Quanto aos chefes, nem se fala!”

* Fonte: SOUSA, Marechal Boanerges Lopes de - Do Rio Negro ao Orenoco - Brasil - Rio de Janeiro, 1959 - Ministério da Agricultura.