"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, julho 15, 2013

As forças por trás deste ambientalismo centrado no carbono

resistir info - 14 jul 2013


por James F. Tracy [*]
Em 25 de Junho de 2013 o presidente Obama apresentou a sua agenda a longo prazo para reduzir "emissões com efeito estufa" da indústria e de consumidores dos EUA. Em 11 de Julho o Departamento da Energia advertiu que eventos relacionados com a "alteração climática" estarão a ameaçar fontes tradicionais de produção de energia e a provocar mais interrupções no seu abastecimento. Ao mesmo tempo, a noção de que eventos atmosféricos (weather) inabituais ou extremos são devidos primariamente a um excesso de CO2 atmosférico e ao consequente "efeito estufa" baseia-se comprovadamente muito mais em desígnios económicos e políticos a longo prazo do que em ciência sã.

Como resposta aos apelos urgentes que acompanham a investigação alegadamente
completa e isenta de cientistas, inclusive do IPCC das Nações Unidas, que procuram ligar alterações climáticas à actividade humana e industrial, um conjunto de programas está a ser propostos e implementado por decreto tanto na Europa como nos EUA. Tais programas mudarão drasticamente o padrão de vida da maior parte de cada indivíduo no mundo desenvolvido. Na verdade, uma vez que temperaturas globais não se correlacionam facilmente com a ascensão imediata no dióxido de carbono atmosférico, tem havido uma assinalável mudança no interior da máquina de relações públicas do CO2 do conceito de "aquecimento global" para a expressão mais amorfa e genérica da "alteração climática".

O plano real por trás desta agenda internacional e da promoção de uma ideologia quase religiosa é estabelecer a lógica para uma regulamentação maciça e um sistema de tributação para remodelar o comportamento humano e o estilo de vida, além de criar uma
área totalmente nova para despesas tecnológicas e especulações financeiras utilizando títulos e derivativos relacionados ao carbono

Ostensivamente um empreendimento não lucrativo, a pregação do credo das alterações climáticas tornou-se também um esforço lucrativo, com imensos recursos financeiros proporcionados para o seu proselitismo continuado. Na verdade, a isenção fiscal 501C3 de organizações relativas ao clima constitui
uma máquina de relações públicas de muitos milhares de milhões de dólares destinada a convencer de um tema central: os humanos são culpados por todo o desastre relacionado com o tempo (weather) apresentado graficamente em todos os media electrónicos. Tal ambientalismo falso envolve esforços vigorosos para transformar a política pública com base numa ciência dúbia enquanto ignora ameaças ambientais verdadeiras.

Enquanto se encontram disposições como a da 501C3 a encorajar doações do público em geral, a escala doa activos e receitas anuais de muitas destas organizações sugere a dependência para com muitos indivíduos e instituições com bolsos fundos que pretendem vender a responsáveis do governo e a um público mais vasto a noção de que quase todo acontecimento anormal com o tempo é o resultado de emissões com efeito estufa.


A lista a seguir de organizações não lucrativas destinadas a promover o ponto de vista da alteração climática e da sustentabilidade – de modo algum completa – foi coligida a partir dos formulários fiscais 990 relativos a 2010. Naquele ano a tal 501C3 fez entrar mais de 1,7 mil mihões em receitas (US$1.742.350.656), com a Nature Conservancy, liderada por Marck Tercek, antigo administrador da Goldman Sachs, representando mais da metade daquela quantia. Os dados na quarta coluna demonstram a extensão da presença pública de tais entidades; algumas obtêm maior atenção jornalística ao passo que outras operam sob anonimato quase total.


Nome na 501C3
Rendimento em 2010
Activos líquidos
Nº de menções nas principais publicações mundiais, 01/Jul/2012-30/Jun/2013 (LexisNexis)
Sierra Club $97.757.78 $52.209.573 726
World Wildlife Fund $267.993.426 $182.067.246 993
Friends of the Earth $5.495.897 $3.407.984 1.831
United Nations Intergovernmental Panel on Climate Change Não disponível Não disponível 697
United Nations Environmental Program Não disponível Não disponível 115
United Nations Foundation $197.737.803 $231.213.165 101
Nature Conservancy Inc. $997.037.663 $5.180.558.726 242
Greenpeace Inc. $27.465.948 $824.056 2.879
Climate Works Foundation $83.026.313 $215.248.816 1
World Resources Institute $50.079.176 $59.901.847 125
Center for Biological Diversity $7.181.472 $10.734.072 115
Defenders of Wildlife $30.229.512 $23.839.354 35
International Institute for Environment and Development $30.335.978 $5.121.919 1
Natural Resources Defense Council $97.957.964 $197.413.060 484
National Council for Science and the Environment $3.526.925 $562.386 8
Global Green USA $4.633.587 $4.372.965 8
Pew Center on Global Climate Change $6.424.365 $4.666.874 2
Institute for Sustainable Communities $15.007.337 $6.207.761 0
Sustainable Markets Foundation $4.347.579 $1.660.940 0
US Climate Action Network $2.414.999 $1.067.116 1
350 Org $3.013.995 $2.250.300 109
Association for the Advancement of Sustainability in Higher Education $2.362.495 $736.159 0
The Alliance for Climate Protection $19.150.215 $12.052.979 5
Climate Solutions $2.642.682 $907.901 29
Alliance for Climate Education $2.749.291 $369.251 2
Climate Central Inc. $3.273.478 -$808.414 49
Climate Group Inc. $2.746.784 $465.685 0
Por exemplo: o Climate Project financiado por Al Gore foi o primeiro a estabelecer-se para "propósitos educativos", principalmente para ter a mensagem de Uma verdade inconveniente levada às salas de aula dos EUA. Uma outra organização, Association for the Advancement of Sustainability in Higher Education, analogamente realiza o trabalho menos destacado de promover a agenda verde no interior de faculdades e universidades. Em linhas gerais, tais recursos são utilizados para enfatizar os alegados perigos das emissões de gás com efeito de estufa para a própria existência da civilização e até mesmo da vida. O montante de tais recursos é comparável aos gastos anuais com publicidade de muitas corporações transnacionais .

OGMs, Golfo do México, DU e Fukushima ignorados


Enquanto Obama e o conjunto de organizações ambientais bem financiadas fazem campanha sobre os alegados perigos de emissões gasosas, eles estão totalmente silenciosos sobre aquilo que são ameaças verdadeiramente graves ao ambiente e à humanidade – nomeadamente a contaminação em escala vasta do abastecimento alimentar a partir de organismos geneticamente modificados (OGMs), o conjunto de modificações clandestinas do tempo e os programas de geo-engenharia, a destruição do Golfo do México e a grave poluição de regiões inteiras do globo com urânio empobrecido
(depleted uranium, DU) e a radiação de Fukushima que perdurará durante muitos períodos de vida humana.

À luz destas catástrofes em curso e dos poderosos interesses financeiros por trás da advocacia ambiental centrada no carbono, a postura de Obama sobre alterações climáticas de origem antropogénica, assim como as propostas de ambientalistas bem financiados, podem ser encarados como o que realmente são – os componentes visíveis de um complexo programa de engenharia social avançado em alto grau para o convencimento do público de que o seu retorno a uma existência pré-feudal não só seria agradável como absolutamente imperativa para o maior bem de todos.

12/Julho/2013
Ver também:
  • Aquecimento global: uma impostura científica , de Marcel Leroux
  • Mitos climáticos , blog de Rui Moura (1931-2010)
  • Acerca da impostura global , de Jorge Figueiredo

    [*] Editor da revista Democratic Communiqué

    O original encontra-se em memoryholeblog.com/... e em www.globalresearch.ca/...

    Uma decisão moral

    resistir info - 14 jul 2013

    por Edward Snowden [*]
    Cartoon de Fernão Campos. Boa-tarde. Meu nome é Ed Snowden. Há pouco mais de um mês, eu tinha família, um lar no paraíso, e vivia com grande conforto. Tinha também meios para, sem qualquer ordem judicial, procurar, avaliar e ler as comunicações de vocês todos. Comunicações de qualquer pessoa, a qualquer momento. É o poder para mudar o destino das pessoas.

    E também é grave violação da lei. As 4ª e 5ª Emendas da Constituição do meu país, artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e inúmeros estatutos e tratados proíbem tais sistemas de vigilância generalizada massiva. Enquanto a Constituição dos EUA define esses programas como ilegais, o meu governo argumenta que decisões tomadas por tribunais secretos, que o mundo não tem permissão para ver, legitimam, de algum modo aquele procedimento ilegal. Essas decisões de tribunais secretos corrompem, simplesmente, as noções mais básicas da Justiça – que a Justiça, para ser feita, tem de trabalhar às claras. O imoral não pode ser transformado em moral por força de lei secreta.


    Acredito no princípio declarado em Nuremberg em 1945: "Os indivíduos têm deveres internacionais que transcendem as obrigações nacionais de obediência. Portanto, cidadãos, indivíduos, têm o dever de violar leis domésticas para impedir que se cometam crimes contra a paz e a humanidade."


    Assim, fiz o que acreditei ser certo e comecei uma campanha para corrigir essas malfeitorias. Não procurei riqueza para mim. Não procurei vender segredos dos EUA. Não colaborei com qualquer governo estrangeiro para garantir minha segurança. Em vez disso, revelei o que sabia à opinião pública, para que o que nos afeta a todos possa ser discutido por todos à luz do dia e pedi justiça ao mundo.


    Essa decisão moral de contar à opinião pública sobre a espionagem que nos afeta a todos foi difícil e custosa, mas foi a coisa certa a fazer, e não tenho nenhum arrependimento. Desde aquele momento, o governo e os serviços de inteligência dos EUA vêm tentando converter-me em exemplo, um alerta a todos os outros que possam decidir falar, como eu decidi. Já me converteram em apátrida e estou sendo caçado por meu ato de expressão política. O governo dos EUA pôs meu nome em listas de pessoas proibidas de voar no mundo. Exigiu que Hong Kong me entregasse, em ato contrário às próprias leis, em violação direta do princípio da não devolução – o Direito das Nações. Ameaçou com sanções os países que decidiram defender meus direitos humanos e o sistema de asilo da ONU. O governo dos EUA tomou até a medida, sem precedentes, de ordenar a seu aliados militares que forçassem o pouso de um avião presidencial no qual viajava o presidente de um país latino-americano, para revistá-lo à procura de um refugiado político. Essa perigosa escalada representa uma ameaça não só à dignidade da América Latina, assim como aos direitos básicos de todos os seres humanos, de todas as nações, de viverem livres de perseguição e de buscar asilo e de asilar-se.


    Contudo, mesmo perante essa agressão historicamente desproporcional, países em todo o mundo ofereceram-me apoio e asilo. Essas nações, entre as quais Rússia, Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador, têm minha gratidão e meu respeito, por terem sido as primeiras a erguer-se contra as violações de direitos humanos cometidas pelos poderosos, mais do que pelos sem poder. Ao se recusarem a ceder os próprios princípios ante a violência da intimidação, todos esses países se fazem credores do respeito do mundo. Tenho intenção de viajar a cada um desses países, para apresentar meus agradecimentos, pessoalmente, aos governos e aos cidadãos.


    Anuncio hoje minha aceitação formal de todas as ofertas de apoio ou de asilo que recebi e todas as que venham a ser-me oferecidas no futuro. Com, por exemplo, a garantia de asilo que me deu o presidente Maduro da Venezuela, meu estatuto de asilado é hoje formal – e nenhum estado tem base legal para limitar ou interferir no meu direito de usufruir aquele asilo. Mas, como vimos, alguns governos da Europa Ocidental e estados da América do Norte demonstraram já a sua disposição para agir à margem da lei e esse comportamento persiste ainda hoje. Essa ameaça ilegal torna impossível para mim viajar para a América Latina e ali usufruir o asilo concedido de acordo com os nossos direitos comuns.


    A intenção manifesta de estados poderosos de agirem contra a lei é uma ameaça contra todos nós e não se pode deixar que se concretize. Assim, peço que me ajudem a obter o direito de livre passagem pelo espaço aéreo das nações necessárias para que se complete em segurança a minha viagem para a América Latina. Também peço asilo à Rússia, até que aqueles estados aceitem obedecer à lei e permitam que eu viaje em segurança. Hoje apresentarei à Rússia o meu pedido de asilo. Espero que seja aceite.


    Se tiverem perguntas, responderei as que eu puder. Obrigado.
    Ver também:
  • A NSA e os seus prestativos ajudantes
  • Um apelo às armas da codificação
  • The Search for Snowden: Assaults on Sovereignty and Diplomatic Immunity

    [*] Declaração a organizações de direitos humanos feita no aeroporto de Sheremetyevo, em Moscovo, 12/07/2013. Estiveram presentes a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch. A representante desta última informou na ocasião que, a caminho do aeroporto recebera um telefonema do embaixador dos EUA na Rússia a pedir-lhe para dizer ao Sr. Snowden que o governo dos EUA não o classifica como "denunciante" ("whistleblower") e que infringiu as leis do seu país.

    O original encontra-se em http://wlcentral.org/node/2849 . Tradução de Vila Vudu (com pequenas alterações).

    A GATA ASSANHADA TEM RAZÃO

    aijesus.blogspt - 12 jul 2013

     
    Há uma coisa em que a presidenta da assembleia da república tem razão quando, feita gata assanhada, histericamente manda evacuar as galerias da sala. Considerando que a democracia é o governo do povo para o povo, a assembleia da república não é o local da democracia. Por isso, o povo deve vir para a rua: é lá que ele faz a democracia...

    ...apesar de tudo.

    A assembleia, essa que fique para os deputados fazerem, à sua vontade, a merda que entenderem.


    Acho que não estamos muito distante desse tratamento. Só não ocupamos o plenário, mas dada as respostas pós-manifestações por parte do Congresso, era exatamente asssim que ele pensava.

    O fator Mantega


    Autor: 
    Coluna Econômica
    Desde o pós-Guerra, as políticas econômicas nas economias de mercado tem se pautado por duas orientações distintas (aliás, seguindo a mesma dicotomia que a marcou no século 19): o chamado liberalismo ou ortodoxia econômica, e o keynesianismo, ou heterodoxia.
    ***
    O primeiro modelo custou caro ao país. Implementado a partir da gestão Marcílio Marques Moreira, na Fazenda, consistia em trabalhar as despesas do Estado de maneira linear (contingenciando os gastos sem nenhuma preocupação com as consequências), uma política monetária extraordinariamente irresponsável (os mais altos juros do mundo, criando uma dívida pública monumental) e um câmbio em permanente desajuste. A cada crise externa respondia-se com um novo aperto fiscal, interrompendo obras pela metade, só para ostentar um superávit de caixa no final do ano.
    ***
    Apenas em 2008 rompeu-se com essa ortodoxia, quando a crise global obrigou o governo a se mexer. Passou-se a se valer, então das ferramentas keynesianas (de John Maynard Keynes, economista inglês que reformou o sistema monetário mundial), segundo o qual, quando a demanda privada é insuficiente para reativar a economia, cabe ao gasto público comandar o processo.
    Bem sucedida em 2008, a política falhou a partir de 2011, fortalecendo o discurso dos chamados “mercadistas”.
    Esta semana, no jornal “Valor”, dois dos mais expressivos representantes da escola keynesiana no Brasil – Luiz Fernando de Paula e André de Melo Modenesi -apressaram-se a afirmar, em um artigo esclarecedor, que a culpa não é de Keynes, mas de Guido Mantega.
    ***
    Por que razão, mesmo com a redução da taxa Selic e com a melhoria do câmbio, a economia não se recuperou?, indagam eles.
    A fórmula preconizada por Keynes consiste em conferir previsibilidade à econômica, através da ação de governo e, através da redução da volatilidade, estimular o investimento privado. “Keynes e os economistas keynesianos defendem a transparência e não o segredo como uma condição para o sucesso da política econômica”, explicam eles.
    ***
    Na crise de 2008, apesar da ampla falta de sintonia com o Banco Central de Henrique Meirelles, a Fazenda logrou uma ação racional, coordenada e amplamente vitoriosa – ajudada, em parte, pela manutenção do crescimento chinês e das cotações elevadas de commodities.
    Em 2011, quando percebeu que a economia patinava e que o quadro internacional se complicava, Mantega demorou a adotar medidas anticíclicas.
    Quando resolveu agir, foi na direção errada. Comprometeu o superávit com uma série desconexa de isenções fiscais para consumo. Os empresários se encolheram, em parte devido aos receios advindos dos desdobramentos da crise internacional. Mas Mantega teve papel central ao maquiar os dados fiscais e sair desonerando setores indistintamente, sem um plano de voo.
    Com o câmbio defasado, a insistência em aumentar o crédito resultou em aumento desmedido das importações. Quando o endividamento das famílias bateu no limite, o consumo interno começou a baquear.
    ***
    Haverá, agora, um longo trabalho de reconstrução, que passa pela volta da transparência fiscal, pelo fim das isenções indiscriminadas e pelo sucesso nas próximas rodadas de concessão pública.

    Newton Lima: Microsoft tem de esclarecer ajuda à espionagem dos EUA

    publicado em 14 de julho de 2013 às 11:48
    Documentos fornecidos por Snowden revelam a estreita colaboração da Microsoft com os órgãos de segurança e espionagem dos Estados Unidos
    O jornal inglês The Guardian reportou, nesta sexta-feira (12), que Edward Snowden, ex-agente da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), forneceu documentos que revelam a estreita colaboração da Microsoft com os órgãos de segurança e espionagem dos Estados Unidos.
    De acordo com as informações disponibilizadas por Snowden, a gigante mundial do setor de softwares teria, inclusive, quebrado o seu próprio sistema de criptografia de e-mails, usado para proteger correspondência eletrônica no programa Outlook e nas contas do serviço Hotmail.
    O software de conversação em áudio e vídeo Skype, adquirido pela Microsoft em 2011 e com cerca de 660 milhões de usuários no mundo, também foi usado para cooperação com as agências governamentais, permitindo a coleta de videochamadas para o sistema Prism, uma das principais ferramentas do esquema de espionagem revelado por Snowden.
    Para o deputado Jorge Bittar (PT-RJ), integrante da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara, as denúncias são “gravíssimas” e demandam a elaboração de legislações específicas.
    “A cada dia que passa, as revelações feitas demonstram a enorme gravidade das denúncias. A Câmara, o Senado e a Presidência da República têm se manifestado em repúdio a estas práticas, mas precisamos acelerar a votação do Marco Civil, para proteger com mais rigor os direitos dos cidadãos, assim como é necessária uma legislação específica que garanta a privacidade das empresas”, propôs Bittar.
    O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que desde fevereiro de 2012 vinha alertando sobre os perigos iminentes diante a nova política de privacidade adotada pela empresa Google nos seus diversos serviços, avalia que os “global players” da Internet e das telecomunicações, especialmente dos Estados Unidos, não têm nenhum pudor em desrespeitar os direitos civis dos usuários da rede mundial de computadores.
    “Graças a um ex-espião que conhece muito bem a máquina de espionagem dos Estados Unidos, estamos comprovando cada vez mais algumas práticas das quais já suspeitávamos e já vínhamos denunciando em parte. A internet e as redes de telecomunicações não podem estar a serviço de uma polícia global e muito menos dos interesses políticos e comerciais de um único país”, protestou o parlamentar gaúcho.
    O deputado Newton Lima (PT-SP), também integrante da CCTCI, informou que vai apresentar requerimento para reforçar o convite à Microsoft para que esta compareça à audiência pública que a comissão realizará sobre o assunto, em data a ser confirmada. “Com estas novas revelações, é absolutamente imprescindível que a Microsoft compareça à Câmara dos Deputados para prestar esclarecimentos acerca das denúncias nas quais está envolvida”, argumentou Lima.
    Software livre e nacional – Para Jorge Bittar, a colaboração da Microsoft e de outras empresas com o aparelho de espionagem dos EUA reforça a necessidade de ampliação de softwares não proprietários e produzidos por empresas nacionais, especialmente pela gestão pública.
    “Os softwares não-proprietários, pela sua natureza, são mais imunes à inserção de dispositivos que violem a privacidade e a segurança dos usuários. Somado a isso, devemos reforçar o princípio de preferência aos softwares nacionais. Havendo produtos similares produzidos por empresas brasileiras, estes devem prevalecer sobre aqueles produzidos no exterior nas contratações do poder público”, defendeu Bittar.

    Não vai dar em nada. Vão fazer o quê, obrigar a microsoft a alterar a situação, ou o povo a trocar o programa pelo linux? Fala sério. 
    alguns investimentos na soberania nacional que se estão relatados em post anterior e poderia permitir uma melhor condição de segurança interna, não deixaram o Lula fazer. 
    Bom, mas enquanto esse tipo de investimento no setor militar for mal visto, devido ao excesso de propaganda contra o setor, a coisa não vai adiante, e aí companheiro, não adianta reclamar depois, ou fazer de conta que se vai dar dura em potência ou multinacional.  

    Paulo Moreira Leite: “Novo”, “velho”? Não vale fazer papel de bobo

    viomundo - publicado em 14 de julho de 2013 às 11:18


    por Paulo Moreira Leite, em seu blog
    Procura-se minimizar o Dia Nacional de Luta convocado pelas centrais sindicais a partir de uma comparação cinematográfica com os protestos de caráter político ocorridos em junho. É uma comparação indevida. A nova moda ideológica é falar em “velho” e “novo.”
    Aquelas mobilizações tiveram clara natureza política, apontando, difusamente, para autoridades constituídas – fosse o prefeito, o vereador, o guarda da esquina, o governador, a presidente da República e assim por diante. Eram formadas por uma massa de jovens, em sua maioria estudantes, com ideias diversas e até antagônicas.
    Sua direção era semi-secreta, movimentando-se por sites, vídeos e blogs da internet. Havia anarquistas, libertários e fascistas, que chegaram a carregar faixas pedindo a volta dos militares ao poder. Vídeos com audiência nos milhões de pessoas pediram boicote a Copa e até a suspensão de investimentos no país. Interessada em manter Dilma Rousseff sob pressão, os grandes grupos de mídia adoraram. Divulgaram datas e locais dos protestos como se prestassem um serviço para shows e peças de teatro.
    Os protestos trouxeram benefícios palpáveis, como redução nas tarifas. Também obrigaram as instituições políticas a responder a demandas há muito tempo ansiadas pela população. Mas também deram curso a atos de demagogia e grande oportunismo.
    O Congresso Nacional transformou-se numa usina de projetos aprovados a toque de caixa, apenas para agradar a multidão. Uma das principais questões colocadas pelas ruas – uma reforma de fundo em nosso sistema político – pode ser destruída, ponto a ponto, em negociações destinadas a bloquear a participação popular nas decisões. Velho? Novo?
    O Dia Nacional de Luta foi um ato das lideranças de trabalhadores, que, como apontou o jornal espanhol El País, pela primeira vez em 22 anos foram às ruas numa mobilização nacional para defender seus interesses e cobrar providências do governo. Não foi um grande espetáculo nem um ato de ruptura com o governo Dilma, como gostaria a oposição.
    Mas foi um aviso definido numa situação bem específica.
    Em vários pontos de São Paulo, viveu-se um clima de feriado – ainda mais notável porque as linhas de ônibus e o metrô funcionaram normalmente. Os protestos em grandes empresas, no Paraná, em Goiás, foram vigorosos entre categorias importantes.
    Um ato reuniu 15 000 pessoas no Recife e 10 000 em Belo Horizonte. Ocorreram marchas em Cuiabá e em Brasília mas também em São Luís e Fortaleza. Quatro mil trabalhadores de São Bernardo do Campo desfilaram pela Via Anchieta. Se cabe registrar a denúncia de pagamento de ajuda de custo cachê recebido por manifestantes da avenida Paulista, convém não tomar a árvore pela floresta. A 25 de março, maior centro de comércio do país, foi paralisada, evento nada desprezível. O Rio de Janeiro assistiu a um protesto de 20 000 pessoas.
    É preciso muito esforço para não enxergar sua importância – apesar da desvantagem numérica e da falta daquele glamour midiático de uma ação comandada por pessoas com menos de 24 anos.
    No Brasil de 2013, os juros estão em alta, o crescimento econômico encontra-se em queda e os trabalhadores estão preocupados com o futuro de suas famílias. Ninguém sabe até quando o desemprego permanecerá baixo. Nem até quando os salários poderão subir sempre um pouco acima da inflação. Coisas “velhas”, com certeza. Mas imagine o “novo” que pode estar a caminho.
    Antes de acreditar nos ideólogos que em menos de 24 horas descobriram a nova divisão do mundo e das pessoas, é bom lembrar que o trabalho assalariado não foi abolido, apesar do desemprego estrutural crescer em vários países e versões inesperadas de trabalho escravo terem surgido.
    Ter um bom emprego continua sendo a principal referência de existência e conforto para a imensa maioria da população, ao menos enquanto o mundo viver sob regras da economia atual e não for possível criar uma sociedade do lazer ampla e irrestrita.
    As questões deste universo, do trabalho foram colocadas pela manifestação de ontem. Nada “novo,” é verdade. Mas dolorosamente real.
    Os sindicatos pedem atenção às aposentadorias, questão essencial num país em processo acelerado de envelhecimento. Também denunciam as políticas de terceirização, que ameaçam progressos históricos obtidos a partir da CLT. Não querem o “novo”, se isso significa criar um mundo pior que o “velho.”
    Enfraquecer as organizações do movimento sindical de todas as maneiras constitui um objetivo estratégico do conservadorismo brasileiro desde 1954, quando Getúlio Vargas foi arrancado do Catete pelo tiro do suicídio. Essa meta alimentou o golpe de 1964, e, com todas as nuances e correções, encontra-se por trás de campanhas permanentes contra o sindicalismo brasileiro nos dias de hoje. Como a CLT foi assinada em 1944, é vista como símbolo do “velho.” Mas era o “novo” em relação a 1930, quando a questão social era “caso de polícia.”
    Novo, velho? Não vale fazer papel de bobo.
    Convém não esquecer que o atual governo não foi gerado em gabinetes da FIESP nem em piqueniques acadêmicos mas tem raízes nas greves de trabalhadores dos anos 70.
    E é evidente que dividir e enfraquecer o movimento sindical será um objetivo essencial da oposição para 2014, quando se joga a sucessão presidencial de Dilma Rousseff, desde já a mais difícil disputa política para os trabalhadores desde 2002.
    A principal crítica que se faz aos protestos foi ter, supostamente, um caráter governista, de quem teria sido cooptado pelo governo em troca de favores e presentinhos. Em tom de lamúria, lamenta-se que o sindicalismo tenha perdido a vocação “autêntica” para assumir velhas práticas de conciliação e submissão.
    Numa versão verde-amarela da estratégia thatcherista de deixar as entidades sindicais sem recursos, estrangulando sua atividade com a falta de dinheiro, volta-se a criticar o imposto sindical, que todo trabalhador pode se recusar a pagar, sendo devidamente estimulado a fazer por funcionários de RH de grandes empresas.
    Falar em “acomodação” e “peleguismo” é uma ação de fundo eleitoral, para ajudar aquele “novo” que ninguém sabe quem será. Tenta-se, com ela, esconder benefícios reais conseguidos nos últimos anos.
    A maioria dos trabalhadores votou na eleição de Dilma em 2010, assim como assegurou as duas eleições de Lula. Obteve conquistas importantes, ainda que o país não tenha, obviamente, chegado ao paraíso.
    A renda média do cidadão brasileiro continua muito baixa. O salário médio não permite à maioria dos brasileiros ter acesso a bens e confortos que são padrão neste início de século XXI.
    A falta de qualidade nos serviços públicos atinge um padrão vergonhoso.
    Apesar disso, na última década os trabalhadores conseguiram melhorias importantes, muitas inéditas. O desemprego caiu a um nível nunca visto. O salario mínimo não parou de subir. O emprego formal cresceu e a desigualdade regional diminuiu.
    Apresentado como filantropia de fins eleitorais, o Bolsa Família nada mais é do que uma resposta dos poderes públicos à condição de miséria na qual sobrevivem milhões de famílias de trabalhadores sem emprego decente, sem estudo formal e sem qualificação profissional, a que todos deveriam ter direito.
    O problema real é outro. Entregue aos solavancos e misérias do mercado, o mundo encontra-se em sua pior crise desde 1929. Em toda parte, conquistas históricas da se encontram sob ameaça – quando não foram simplesmente revogadas.
    A regressão é geral e muita gente repete que não há outra saída. É o novo conformismo. Novo?
    Este é o mal que ronda a Terra, como assinalou Tony Judt, um dos principais historiadores de nosso tempo.
    O debate realmente novo é impedir este processo de chegar ao País.
    A oposição, em suas várias faces e muitas máscaras, está pronta para cumprir seu papel. Recebe estímulos, favores e até carinhos. Fala através de eufemismos e encontra-se bem protegida.
    Por trás dela encontra-se o rumo das conquista arrancadas depois de 2002 – e o que será feito com elas no pós-2014.
    Este é o debate que o Dia Nacional de Luta colocou. Convém não desprezá-lo.

    Não concordo com Paulo Moreira ao elogiar o Dial Nacional de Luta, principalmente pelo fato de que esse só ocorreu na esteira dos manifestos. Antes dessas gigantescas manifestações ou do grupo na rede ter sugerido uma paralisação nacional no dia 01 de julho não havia essa Greve Geral orquestrada. O medo de uma paralisação desse nível não partindo dos sindicatos os fez se mobilizar, então nada tem de "real" o Dia Nacional de Luta. 
    Faz-se necessário ficar atento aos novos movimentos. A pressão neoliberal deve vir forte e com bons argumentos. Tomemos cuidado para não deslizarmos. Não é o momento de polarização e sim de diálogo. 

    Dilma vai ao Obama ou à Boeing ?


    conversa afiada - Publicado em 15/07/2013

    O Brasil vai criar outra singularidade: o “Capitalismo de Estado Dependente”
    O Ataulfo Merval de Paiva (*), como se sabe, mantém relações para-normais com a Embaixada americana.

    Nos bons tempos do Dr Roberto eram normalíssimas, conspícuas.

    A propósito da notável descoberta do Fantástico – o Fantástico descobriu a CIA ! -, o Ataulfo “anotou” na colona (**) de sábado (insista na leitura, leia duas, três vezes, até entender – o rapaz escreve mal, mesmo – clique aqui para ler sobre as lambanças do Ataulfo) :

    “Foi ‘anotada’ – grifo meu -  pela diplomacia dos EUA a não adesão do Governo brasileiro a sugestões drásticas feitas no calor da descoberta do esquema de espionagem, como dar asilo a Snowden ou cancelar a viagem de Estado que a presidente Dilma fará aos EUA brevemente”.

    “O Governo americano está ‘ciente’ – grifo meu – de que será necessário dar um tratamento especial a Brasil nesses gestos de boa (sic) vontade …”

    “O fato é que o Governo brasileiro soube enfrentar as denuncias com uma atitude firme (sic), mas sem transformá-las em crise institucional que impedisse a continuidade (sic) das relações com os Estados Unidos em bom nível, como hoje.”

    O amigo navegante entendeu !

    O Bernardo plim-plim expõe a posição do embaixador americano com mais clareza que o próprio embaixador.

    E o chanceler Patriota – que precisa, urgente, de uma fonoaudióloga, para engrossar a voz ! – anuncia, com firmeza e altivez que vai levar o assunto à ONU.

    Onde a questão andará mais rápido do que a da Palestina.

    O que se esconde embaixo desse angu, amigo navegante ?

    Uma decisão estratégica central para o futuro do Brasil.

    A questão do acesso à tecnologia nuclear.

    E ao controle do pré-sal.

    A embaixada americana e seus porta-vozes nativos devem ter “anotado” esses últimos movimentos do Governo Dilma como atomicamente promissores.

    O Nunca Dantes optou pelos caças franceses da Dassault.

    A Eliane Catanhêde, especialista em AR, foi contra.

    Mas, o Lula conseguiu enfrentá-la com galhardia.

    Mas, aparentemente, Lula perdeu a batalha para o Governo Dilma.

    Seria interessante entender por que o Nunca Dantes preferia os caças franceses.

    (E porque vai tanto à África.)

    O Lula queria tecnologia de ponta nas áreas nuclear, militar e de telecomunicações.

    Telecomunicações associada a segurança e inteligência.

    O Lula pensava no Brasil que, um dia, terá força para fazer com a embaixada americana o que a embaixada americana faz com o Palácio do Planalto.

    O Nunca Dantes vê longe.

    Ele e seu excelente chanceler Celso Amorim, com a ajuda do Samuel Pinheiro Guimarães, no Itamaraty.

    Por que a França ?

    Porque a França do De Gaulle conseguiu, nos interstícios da Guerra Fria, construir tecnologia própria de telecomunicações, nuclear e militar.

    A França gaullista se tornou uma potencia média.

    Com muito potencial e poucos resultados.

    A França não tem escala.

    O Brasil tem.

    O Brasil tem acesso à América do Sul, Central – o México não conta … – e à África.

    E entre o Brasil Leste e a África do Oeste existe, lá no fundo, uma bobagem, um tal de pré-sal !

    O que está em jogo nessa questão de “anota”e “ciente” ?

    O controle do Atlântico Sul e, portanto, da maior reserva petrolífera encontrada nos últimos tempos.

    E, aí, a pergunta, amigo navegante:

    A Dilma vai a Washington ou a Seattle ?

    Vai a Obama ou à Boeing ?

    Quem sabe está em gestação um modelo singular.

    O Brasil é um país singular: tem até corrida espontânea a banco.

    Uma das singularidades do Brasil pode ser a criação de um novo modelo de desenvolvimento: “Capitalismo de Estado Dependente”.

    “Capitalismo de Estado Dependente” dos Estados Unidos !

    Já tivemos o neolibelismo (***) dependente, que tirava o sapato, do FHC.

    Agora teríamos uma Dependência com Estado Forte !

    Uma espécie de “China Frouxa”.

    Sim, porque comprar os caças da Boeing significa que a transferência de tecnologia será … digamos … singular.

    Por exemplo: os caças brasileiros não poderão voar em direção a Angola, para não atrapalhar as atividades da Frota americana estacionada em cima do pré-sal.

    Em matéria nuclear, a Boeing cederia ao Brasil a tecnologia para abrir aqueles saquinhos de amendoim sem derramar um amendoim no colo do passageiro.

    Os caças da Boeing cederiam a inteligência de comunicação ao Brigadeiro Juniti Saito ?

    Ou o amigo navegante acha que os caças da Boeing poderiam participar dos exercícios do Prosub, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha, com tecnologia francesa ?

    Os Boeings, certamente, significariam transformar Itaguaí numa Disney à beira mar.

    O Brasil tem uma das maiores reservas de urânio do mundo.

    O Brasil sabe beneficiar o urânio.

    Por causa do Collor e do Fernando Henrique, o Brasil renunciou à bomba e renunciou a pedaço substantivo de sua soberania.

    Agora, pode afundar o submarino nuclear de tecnologia francesa .

    Dentro, outra parte da soberania.

    O Ataulfo, amigo navegante, tem antenas atômicas.


    Paulo Henrique Amorim


    (*) Ataulfo de Paiva foi o mais medíocre – até certa altura – dos membros da Academia. A tal ponto que seu sucessor, o romancista José Lins do Rego quebrou a tradição e espinafrou o antecessor, no discurso de posse. Daí, Merval merecer aqui o epíteto honroso de “Ataulfo Merval de Paiva”, por seus notórios méritos jornalísticos,  estilísticos, e acadêmicos, em suma. Registre-se, em sua homenagem, que os filhos de Roberto Marinho perceberam isso e não o fizeram diretor de redação nem do Globo nem da TV Globo. Ofereceram-lhe à Academia.E ao Mino Carta, já que Merval é, provavelmente, o personagem principal de seu romance “O Brasil”.

    sexta-feira, julho 12, 2013

    Bob Fernandes: FHC diz não saber de espionagem da CIA; fatos desmentem

    viomundo - publicado em 12 de julho de 2013 às 11:57

    por Bob Fernandes, no Jornal da Gazeta, sugestão Julio Cesar Macedo Amorim

    SANTAYANA E O MÉDICO: DAR UM POUCO DE SI AO OUTRO

    conversa afiada - Publicado em 12/07/2013

     

    Os dois anos de SUS e o depoimento de Jatene, um exemplo.

    Tolentino: "aos pobres não cobramos nada"

    O Conversa Afiada reproduz artigo de Mauro Santayana no JB online:

    O MÉDICO E SUA ÉTICA


    por Mauro Santayana
    Em 1956, conheci, na cidade do Serro, em Minas, o médico Antonio Tolentino, que era o profissional mais idoso ainda em atividade no Brasil. Ele chamava a atenção por dois motivos: coubera-lhe assistir ao parto de Juscelino, em 1902, e não alterara o valor da consulta, que equivalia,  então, a cinco cruzeiros. Entrevistei-o, então, para a Revista Alterosa, editada em Minas e já desaparecida.
    Em razão da matéria, o deputado federal Vasconcelos Costa obteve, da Câmara, uma pensão vitalícia da União para o médico, que morreu logo depois. Ele tinha, na época, 94 anos – e setenta de atividade. Seus descendentes criaram um museu, em sua casa e consultório. Uma das peças é o anúncio que fez, logo no início da carreira: “aos pobres, não cobramos a consulta”.
    Confesso o meu constrangimento. Estou em  idade em que dependo, e a cada dia mais, de médicos, e de bons médicos, é claro. Tenho, entre eles, bons e velhos amigos. O que me consola é que os meus amigos estão mais próximos da filosofia de vida do médico Antonio Tolentino, do que dos que saíram em passeata, em nome de seus direitos, digamos, humanos.
    Mais do que outros profissionais, os médicos lidam com o único e absoluto bem dos seres, que é a vida. Os enfermos a eles levam as suas dores e a sua esperança. É da razão comum que eles estejam onde se encontram os pacientes – e não que eles tenham que viver onde os  médicos prefiram estar.
    De todos os que trataram do assunto, a opinião que me pareceu mais justa foi a de Adib Jatene. Um dos profissionais mais respeitados do Brasil, Jatene acresce à sua autoridade o fato de ter sido, por duas vezes, Ministro da Saúde. Ele está preocupado, acima de tudo, com a qualidade do ensino médico no Brasil. Se houvesse para os médicos exames de avaliação, como o dos bacharéis em direito, exigido pela OAB para o exercício profissional, o resultado seria catastrófico.
    Jatene recomenda a formação de bons clínicos e, só a partir disso, a especialização médica. Os médicos de hoje estão dependentes, e a cada dia mais, dos instrumentos tecnológicos sofisticados de diagnóstico, e  cada vez menos de seu próprio saber. O vínculo humano entre médico e paciente – salvo onde a medicina é estatizada – é a cada dia menor. Assim, Jatene defende o sistema do médico de família. Esse sistema permite o acompanhamento dos mesmos pacientes ao longo do tempo, e a prática de medidas preventivas, o que traz mais benefícios para todos.
    Entre outras distorções da visão humanística do Ocidente, provocadas pela avassaladora influência do capitalismo norte-americano, está a de certo exercício da medicina e da terapêutica. A indústria farmacêutica passou a ditar a ciência médica, a escolher as patologias em que concentrar as pesquisas e a produção de medicamentos. A orientação do capitalismo, baseada no maior lucro, é a de que se deve investir em produtos de grande procura, ou, seja, para o tratamento de doenças que atinjam o maior número de compradores. Dentro desse espírito, a medicina, em grande parte,  passou a ser especulação estatística e probabilística.
    Os médicos protestam contra a contratação de profissionais estrangeiros, pelo prazo de três anos, para servir em cidades do interior, onde há carência absoluta de profissionais. Não seriam necessários, se os médicos brasileiros fossem bem distribuídos no território nacional, mesmo considerando a má preparação dos formados em escolas privadas de péssima qualidade, que funcionam em todo o país.
    Ora, o governo oferece condições excepcionais para os que queiram trabalhar no interior. O salário é elevado, de dez mil reais, mais moradia para a família, e alimentação. É muitíssimo mais elevado do que o salário oferecido aos engenheiros e outros profissionais no início de carreira. Ainda assim, não os atraem. E quando o governo acrescenta ao currículo dois anos de prática no SUS, no interior e na periferia das grandes cidades, vem a grita geral.
    Formar-se em uma universidade é, ainda hoje, um privilégio de poucos. Os ricos são privilegiados pelo nascimento; os pais podem oferecer-lhe os melhores colégios e os cursos privados de excelência, mas quase sempre vão para as melhores universidades públicas,  bem preparados que se encontram para vencer a seleção dos vestibulares. Os pobres, com a ilusão do crescimento pessoal, sacrificam os pais e pagam caro a fim de obter um diploma universitário que pouco lhes serve na dura competição do mercado de trabalho.
    Um médico sugeriu que a profissão se tornasse uma “carreira de estado”, como o Ministério Público e o Poder Judiciário. Não é má a idéia, mas só exeqüível com a total estatização da medicina. Estariam todos os seus colegas de acordo? Nesse caso não poderiam recusar-se a servir onde fossem necessários.
    Temos, no Brasil, o serviço civil alternativo que substitui o serviço militar obrigatório, e é prestado pelos que se negam a portar armas. Embora a objeção possa ser respeitada em tempos de paz, ela não deve ser aceita na eventualidade da guerra: a defesa da nação deve prevalecer. Mas seria justo que não só os pacifistas fossem obrigados, pela lei,depois de formados pelos esforços da sociedade como um todo, a dar um ou dois anos de seu trabalho à comunidade nacional, ali e onde sejam necessários. Nós tivemos uma boa experiência, com o Projeto Rondon, que deveria ser mais extenso e permanente como instituição no Brasil.
    As manifestações recentes mostram que todos, em seus conjuntos de interesses, querem mais do Estado em seu favor. Não seria o caso de oferecerem alguma coisa de si mesmos à sociedade nacional? Dois anos dos jovens médicos trabalhando no SUS – remunerados modestamente e com os gastos pagos pelo Erário – seriam um bom começo para esse costume. E a oportunidade de aprenderem, com os desafios de cada hora, a arte e o humanismo que as más escolas de medicina lhes negaram.

    LEANDRO: GLOBO VIVE DIAS DE VIDRAÇA

    conversa afiada - publicado em 12/07/2013

     

    E o Bernardo se ajoelha na Veja …

    O Conversa Afiada reproduz artigo de Leandro Fortes, do Blog do Miro:

    GLOBO VIVE DIAS DE VIDRAÇA

    Por Leandro Fortes, na revista CartaCapital:

    O POVO NÃO É BOBO


    Acuadas pela blogosfera, embora protegidas pelas empresas de comunicação coirmãs, as Organizações Globo, quem diria, vivem dias de vidraça
    Enquanto ainda alimenta a fantasia das “manifestações pacíficas” que cobriu, covardemente, do alto dos prédios das cidades, com repórteres postados como atiradores de(a) elite, a Rede Globo se vê, finalmente, diante de uma circunstância que não consegue dominar, manipular e, ao que parece, nem mesmo entender. Aliás, que jamais irá entender, porque se tornou uma instituição não apenas descolada da realidade, mas também do tempo em que vive. Ela e a maior parte dos profissionais que nela trabalham, estes que acreditam ter chegado ao topo da profissão de jornalista quando, na verdade, estão, desde muito tempo, vinculados ao que há de mais obsoleto, atrasado e cafona dentro do jornalismo nacional.
    O poder da blogosfera progressista e de esquerda, que tanto incomoda, portanto, a conservadores e direitistas (partindo do pressuposto otimista de que há eventual separação entre eles), lançou-se numa organizada empreitada de apuração jornalística que fez a gigante platinada do Jardim Botânico tremer nas bases e, mais de uma vez, colocar pelo menos um dos joelhos no chão.
    A partir de um superfuro do jornalista Miguel do Rosário, do site O Cafezinho, estabeleceu-se na blogosfera uma correia de transmissão informal, mas visceralmente interconectada, sobre o megaesquema de sonegação fiscal montado pelas Organizações Globo que resultou, em 2006, numa cobrança superior a 600 milhões de reais — 183 milhões de imposto devido, 157 milhões de juros e 274 milhões de multa. Foi resultado do Processo Administrativo Fiscal de número 18471.000858/2006-97, sob responsabilidade do auditor Alberto Sodré Zile. Como o auditor constatou crime contra a ordem tributária, abriu a Representação Fiscal para Fins Penais sob o número 18471.001126/2006-14.
    Na sequência, outros três dos mais ativos blogueiros do País, os jornalistas Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna e Fernando Brito, respectivamente, do Viomundo, O Escrevinhador e do Tijolaço, estabeleceram uma sequência formidável de fatos que deram um corpo sólido à história levantada por O Cafezinho:
    1) A multa da Receita, de mais de 600 milhões de reais (1 bilhão de reais, em valores atualizados), de 2006, é referente a sonegação fiscal praticada na compra, pela TV Globo, dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Envolve, ainda, ligações com dois criminosos internacionalmente conhecidos: João Havelange, ex-presidente da FIFA, e Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF.
    2) Em 2007, uma funcionária da Receita Federal, Cristina Maris Meinick Ribeiro, foi denunciada pelo Ministério Público Federal por ter dado sumiço no processo contra a Globopar, controladora das Organizações Globo, por sonegação fiscal.
    3) Como não poderia deixar de ser nesses casos, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, deu sua contribuição às trevas: foi ele que relatou o habeas corpus que soltou a funcionária da Receita, depois da ação de CINCO advogados junto ao STF.
    Sempre tão poderosa e segura de seus privilégios, as Organizações Globo entraram nessa briga mais ou menos como Anderson Silva diante de Chris Weidman, no octógono de Las Vegas. Acharam que estavam diante de adversários menores e insignificantes, mas, como se sabe, a soberba é o sentimento imediatamente anterior à queda.
    Em apenas três semanas de contínua e criteriosa apuração da blogosfera, a Globo se perdeu em versões sem sentido e recuos de informação, admitiu a culpa da sonegação e justificou-se com um pagamento alegado, mas nunca provado. Teve, pela primeira vez desde que foi criada no ventre da ditadura militar, que se pronunciar publicamente sobre uma denúncia contra si, desgostosa de que isso tenha acontecido fora de seu espectro de dominação, a velha e reacionária mídia nacional, da qual é líder e paradigma. A poderosa vênus platinada teve que responder, primeiro, ao O Cafezinho, de Miguel do Rosário, e depois às redes sociais, ao País, enfim.
    Soubemos, assim, que as Organizações Globo, que vivem de concessões públicas e verbas oficiais, ao serem confrontadas com a informação sobre o roubo do processo pela funcionária da Receita Federal, divulgaram uma nota dizendo terem tido uma “grande surpresa” ao saberem da ação criminosa perpetrada por Cristina Maris Meinick Ribeiro.
    Então, está combinado assim:
    1) Cristina, funcionária de carreira da Receita, enlouqueceu em uma manhã de 2006 e, do nada, apenas movida pela índole de anjo e pela vontade de ajudar a pobre Rede Globo, decidiu por conta própria roubar e desaparecer com o processo de sonegação fiscal de 600 milhões de reais da família Marinho. Depois, conseguiu pagar, sozinha, cinco advogados para arranjar um habeas corpus com o inefável Gilmar Mendes;
    2) Em seguida, o Ministério Público Federal, então comandado pelo procurador-geral da República Antonio Fernando Souza, denunciou Cristina Ribeiro pelo sumiço da papelada, que resultou na condenação da referida servidora a 4 anos e 11 meses de cadeia, segundo sentença da Justiça Federal do Rio de Janeiro. Isso em 2007, tudo na surdina, sem que um único procurador da República tenha se preocupado a vazar um fato grave desse para a imprensa ou, no limite, para jornalistas com atuação independente na blogosfera. Nada comparável à fúria e à disposição do mesmo Antonio Fernando ao dar publicidade à denúncia do “mensalão”, notícia, desde então, incorporada à grade de programação da Globo como um coringa usado tanto em época de eleição como nos espasmos de epilepsia antipetista, aliás, recorrentes na emissora.
    Talvez, de tanto viver na dimensão onírica de suas telenovelas, ou na falsa percepção que alguns dos seus sorridentes jornalistas têm do mundo real, a Rede Globo ache, de fato, que é possível fazer o contribuinte acreditar de que ela nada tem a ver com o roubo do processo da Receita Federal. Afinal, somos todos uma nação de idiotas plugados no Caldeirão do Huck, certos de que, ao morrermos, teremos nossas almas levadas ao céu pela nave espacial da Xuxa.
    Ou seja, os de lá não aprenderam nada com o debate Lula x Collor, em 1989, nem com a bolinha de papel de José Serra, em 2010, duas farsas desmascaradas, cada qual a seu tempo, pela História. Não perceberam que a internet acabou com a era das fraudes de comunicação no Brasil e no mundo.
    Apostam as últimas fichas na manada que reuniram em cinco décadas de monopólio de um império movido a entretenimento e alienação. Mas esse gado que foi alegremente tangido por vinhetas e macacas de auditório ganhou, com o fenômeno da rede mundial de computadores, novas porteiras e, com elas, uma perspectiva real de liberdade.
    O silêncio envergonhado e vergonhoso dos tristonhos oligopólios de mídia brasileiros sobre uma notícia tão grave é, antes de tudo, revelador das nossas necessidades.
    Fico imaginando qual seria a capa dos jornalões e das revistas coirmãs se fosse Lula a dever mil réis de mel coado à Receita Federal. E se descobrissem, no curso da apuração, que um militante aloprado havia lhe feito o favor de roubar o processo judicial a respeito. As massas seriam, no mínimo, conclamadas a linchar o ex-presidente e pedir as Forças Armadas nas ruas.
    Por essa razão, enquanto o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, se dispõe a ir às páginas amarelas da Veja se colocar – e ao governo do PT – de joelhos perante quadrilhas ligadas a bicheiros e a esquemas de sonegação fiscal, a ação periférica da blogosfera rouba o protagonismo que antes era dessa autointitulada “grande imprensa”.
    E, para tal, faz apenas o que tem que ser feito: jornalismo.

    quinta-feira, julho 11, 2013

    Um apelo às armas da codificação (introdução)

    resistir info - 11 jul 2013

    – Um livro que precisa ser editado também em português

    por Julian Assange
    Este livro não é um manifesto. Não há tempo para isso. Este livro é uma advertência.

    O mundo não está a deslizar, mas sim a galopar para uma nova distopia transnacional. Esta evolução não foi adequadamente reconhecida fora de círculos da segurança nacional. Ela tem sido escondida pelo segredo, complexidade e escala. A Internet, nossa maior ferramenta de emancipação, foi transformada no mais perigoso facilitador de totalitarismo que alguma vez já vimos. A Internet é uma ameaça à civilização humana.

    Estas transformações ocorreram silenciosamente, porque aqueles que sabem o que está em curso na indústria da vigilância global não têm incentivos para falar abertamente. Abandonada na sua própria trajectória, dentro poucos anos a civilização global será uma distopia de vigilância pós-moderna, da qual, excepto para indivíduos mais hábeis, será impossível escapar. De facto, já podemos aí estar.

    Se bem que muitos escritores tenham considerado o que significa a Internet para a civilização global, eles estão errados. Estão errados porque não têm o senso de perspectiva que traz a experiência directa. Estão errados porque nunca se depararam com o inimigo.

    Nenhuma descrição do mundo sobrevive ao primeiro contacto com o inimigo.

    Nós nos deparámos com o inimigo.

    Ao longo dos últimos seis anos a WikiLeaks teve conflitos com quase todos os estados poderosos. Conhecemos o novo estado de vigilância a partir de uma perspectiva de dentro, porque medimos os seus segredos. Conhecemo-lo a partir de uma perspectiva combatente, porque dele tivemos de proteger as nossas pessoas, nossas finanças e nossas fontes. Nós o conhecemos a partir de uma perspectiva global, porque temos pessoas, activos e informação em quase todo país. Nós o conhecemos da perspectiva do tempo, porque temos estado a combater este fenómeno durante anos e o vimos duplicar e propagar-se, cada vez mais. É um parasita invasivo, a engordar junto a sociedades que se fundem com a Internet. Ele movimenta-se através do planeta, infectando todos os estados e pessoas diante de si.

    O que se pode fazer?

    Era uma vez, num lugar que não era nem aqui nem ali, nós, os construtores e cidadãos da jovem Internet, discutíamos o futuro do nosso novo mundo.

    Vimos que os relacionamentos entre toda a gente seriam mediados pelo nosso novo mundo e que a natureza dos estados – os quais são definidos pelo modo como as pessoas intercambiam informação, valor económico e força – também mudaria.

    Vimos que a fusão entre estruturas de estado existentes e a Internet criava uma abertura para mudar a natureza dos estados.

    Em primeiro lugar, é de recordar que estados são sistemas através dos quais fluem forças coercivas. Facções dentro de um estado podem competir por apoio, conduzindo a fenómenos democráticos superficiais, mas os fundamentos dos estados são a aplicação sistemática, e a evitação, da violência. A propriedade da terra, a propriedade, as rendas, dividendos, tributação, multas dos tribunais, censura, direitos autorais e marcas comerciais são todos impostos pela ameaça de aplicação da violência do estado.

    A maior parte do tempo nós nem mesmo estamos conscientes de quão próximos estamos da violência, porque dispomos de concessões privilegiadas para evitá-la. Tal como marinheiros a cheirarem a brisa, raramente contemplamos como a superfície do nosso mundo é apoiada de baixo pela escuridão.

    No novo espaço da Internet o que seria o mediador da força coerciva?

    Faz sentido apresentar esta questão? Neste espaço do outro mundo, este fluxo aparentemente platónico de ideias e informação, poderia ali caber uma noção de força coerciva? Uma força que poderia modificar registos históricos, escutar telefones, separar pessoas, transformar complexidade em entulho e erguer muralhas, como um exército de ocupação? A natureza platónica da Internet, dos fluxos de ideias e informação, é degradada pelas suas origens físicas. Seus fundamentos são cabos de fibra óptica estendidos através dos fundos dos oceanos, satélites a girarem acima das nossas cabeças, computadores servidores abrigados em edifícios em cidades desde Nova York até Nairobi. Tal como o soldado que matou Arquimedes com uma simples espada, do mesmo modo uma milícia armada poderia ganhar o controle do desenvolvimento do auge da civilização ocidental, nosso reino platónico.

    O novo mundo da Internet, abstraído do velho mundo de átomos brutos, sente saudades da independência. Mas estados e seus amigos movimentaram-se para controlar o nosso novo mundo – através do controle das suas fundações físicas. O estado, tal como um exército em torno de um furo petrolífero, ou um agente alfandegário a extrair subornos na fronteira, em breve aprenderia a alavancar o seu controle do espaço físico para ganhar o controle sobre o nosso reino platónico. Isto impediria a independência que sonhámos e, então, intrometendo-se nas linhas de fibras ópticas e junto às estações terrestres de satélites, avançaria na intercepção em massa do fluxo de informação do nosso novo mundo – a sua própria essência – apesar de toda a comunidade humana, económica e política o ter abraçado. O estado agarrar-se-ia como sanguessuga às veias e artérias das nossas novas sociedades, a devorar todos os relacionamentos expressos ou comunicados, toda página web lida, toda mensagem enviada e toda ideia pesquisa no Google, e a seguir armazena este conhecimento, milhares de milhões de intercepções por dia, um poder nunca sonhado, em vastos armazéns ultra secretos, para sempre. Ele avançaria para minar e minar este tesouro, a produção intelectual colectiva e privada da humanidade, enriquecendo o tesouro e maximizando o desequilíbrio de poder entre interceptores e o mundo dos interceptados. E então o estado reflectiria o que havia aprendido de volta no mundo físico, para começar guerras, visar drones, manipular comités da ONU e acordos comerciais e fazer favores para a sua vasta rede de indústrias conectadas, iniciados e cúmplices.

    Mas nós descobrimos algo. A nossa única esperança contra a dominação total. Uma esperança que com coragem, discernimento e solidariedade podíamos utilizar para resistir. Uma estranha propriedade do universo físico em que vivemos.

    O universo acredita em codificação (encryption).

    É mais fácil codificar informação do que descodificá-la.

    Vimos que podíamos utilizar esta estranha propriedade para criar as leis de um novo mundo. Para abstrair o nosso novo reino platónico da sua base fundamental de satélites, cabos submarinos e seus controladores. Para fortalecer nosso espaço por trás de um véu criptográfico. Para criar novas terras proibidas àqueles que controlam a realidade física, porque para nos seguirem eles precisariam de recursos infinitos.

    E, desta maneira, declarar independência.

    Cientistas do Projecto Manhattan descobriram que o universo permitia a construção de uma bomba nuclear. Isto não era uma conclusão óbvia. Talvez as armas nucleares não estivessem dentro das leis da física. Entretanto, o universo acredita em bombas atómicas e reactores nucleares. Eles são um fenómeno que o universo abençoa, como o sal, o mar ou as estrelas.

    Analogamente, o universo, nosso universo físico, tem aquela propriedade que torna possível para um indivíduo ou um grupo de indivíduos codificar alguma coisa de maneira confiável e automática, mesmo sem saber, de modo a que todos os recursos e toda a vontade política das mais fortes super-potências da terra não a possam descodificar. E os caminhos de codificação entre pessoas podem unir-se em rede para criar regiões livres da força coerciva do estado externo. Livres da intercepção em massa. Livres do controle do estado.

    Deste modo, o povo pode opor a sua vontade àquela de super-potência plenamente mobilizada e vencer. A codificação é uma encarnação das leis da física e atende à arrogância dos estados, nem mesmo às distopias da vigilância transnacional.

    Não é óbvio que o mundo tenha de funcionar deste modo. Mas de certo modo o universo sorri à codificação.

    A codificação é a forma final de acção directa não violenta.

    Se bem que estados com armas nucleares possam exercer violência ilimitada até sobre milhões de indivíduos, a codificação forte significa que um estado, mesmo exercendo violência ilimitada, não pode violar a intenção de indivíduos manterem segredos em relação a eles.

    A codificação forte pode resistir a uma aplicação ilimitada de violência. Nenhuma quantidade de força coerciva alguma vez resolverá um problema de matemática.

    Mas poderíamos nós tomar este estranho facto acerca do mundo e sobre ele construir o que virá a ser um elemento emancipatório fundamental para a independência da espécie humana no reino platónico da Internet? E quando sociedades fundidas com a Internet tivessem essa liberdade ela então seria reflectida na realidade física para redefinir o estado?

    Recordar que estados são sistemas, os quais determinam onde e como a força coerciva é aplicada sistematicamente.

    A questão de quanta força coerciva pode penetrar no reino platónico da Internet a partir do mundo físico é respondida pela codificação e pelos ideais cypherpunks.

    Quando estados fundem-se com a Internet e o futuro da nossa civilização se torna o futuro da Internet, devemos redefinir relações de força.

    Se não o fizermos, a universalidade da Internet fundirá a humanidade global numa grelha gigante de vigilância em massa e controle de massa. Devemos tocar o alarme. Este livro é o grito de uma sentinela na noite.

    Em 20 de Março de 2012, enquanto sob prisão domiciliar no Reino Unido a aguardar extradição, acordei com três amigos e companheiros no princípio de que talvez em uníssono as nossas vozes pudessem despertar a cidade. Devemos comunicar o que aprendemos enquanto ainda há uma possibilidade para si, o leitor, de entender e actuar sobre o que está a acontecer.

    É tempo de empunhar as armas do nosso novo mundo, para combater por nós próprios e por aqueles que amamos.

    A nossa tarefa é assegurar auto-determinação onde pudermos, conter a vinda da distopia onde não pudermos e, se tudo o mais falhar, acelerar a sua auto-destruição.

    Julian Assange, Londres, Outubro de 2012
    Conteúdo do livro
    • Introdução: Um apelo às armas da codificação
    • Participantes da discussão
    • Nota do editor
    • Nota sobre as variadas tentativas de perseguir a WikiLeaks e pessoas a ela associadas
    • Comunicação acrescida versus vigilância acrescida
    • A militarização do ciberespaço
    • Combater a vigilância total com as leis humanas
    • Espionagem do sector privado
    • Combater a vigilância total com as leis da física
    • A Internet e a política
    • A Internet e a teoria económica
    • Censura
    • Privacidade para o fraco, transparência para o poderoso
    • Ratos no edifício da opera
    • Notas finais

    Ver também:

  • A NSA e os seus prestativos ajudantes

    O original em inglês, com 197 pgs. e 3,34 MB, pode ser descarregado aqui (clique com o botão direito do rato e faça "Guardar como...")        
  • O uso do sorteio na política

    Enviado por luisnassif, qui, 11/07/2013 - 14:30

    Por IV Avatar da Bacia do Parnaíba
    Da Revista Fórum
    A ideia da volta do sorteio na política vem ganhando fôlego e surpreendendo muitos daqueles que num primeiro momento desconfiam desse saber profano
    Por André Rubião
    As recentes manifestações deixaram claro que os cidadãos não confiam mais no modelo político atual. Reivindica-se uma democracia radical, com uma política de baixo para cima e novos espaços institucionais. Nesse contexto, é interessante retomar uma afirmação de Aristóteles que identifica o uso do sorteio na política com a democracia e a eleição com a oligarquia. Essa frase nos parece estranha: primeiro porque a modernidade transformou os políticos, indicados pelo voto, no paroxismo do regime democrático; segundo porque poucas sabem o que significou o uso do sorteio na antiguidade e o que essa ideia traz de novo no mundo contemporâneo. Seria uma alternativa para a crise de confiança no modelo político atual?
    Na Grécia Antiga, havia três formas de se ingressar no poder: por eleição, por indicação e por sorteio. Isso mesmo, os cidadãos podiam ser escolhidos, de forma aleatória, para exercer cargos transversais ao que hoje chamamos de Legislativo, Executivo e Judiciário. Para Aristóteles, o sorteio era a forma mais democrática, já que qualquer cidadão podia exercer um cargo no poder. Mais tarde, os fundadores das repúblicas modernas rejeitaram esse mecanismo. A tese mais famosa é de que eles não queriam a volta da “verdadeira democracia” grega e sim uma nova aristocracia eletiva.
    Mas eis que o sorteio está de volta. A partir da segunda metade do século XX, alguns intelectuais, descrentes com os rumos da democracia, criaram novos mecanismos, reintroduzindo o método aleatório. De forma resumida, a ideia é constituir uma amostra representativa da sociedade – ou seja, como é feito nas pesquisas de opinião, sendo a amostra mais reduzida – e fazer com que esses cidadãos selecionados possam se reunir e deliberar sobre determinado assunto. Esse é o principio básico dos júris de cidadãos, das pesquisas deliberativas e das conferências de consenso, que já foram feitas sobre temas como planejamento urbano (Alemanha), saúde (Inglaterra), ciência (Dinamarca), identidade nacional (na Austrália) etc.
    O grande mérito dessas iniciativas, que não pretendem substituir as instituições tradicionais, é trazer para os espaços de decisão o cidadão comum, não contaminado pelas redes de interesse. Além disso, o método da amostra representativa – respeitando critérios de gênero, idade, raça, classe social – traz um fundamento de legitimidade suplementar. Num júri de cidadãos clássico, cerca de cinquenta pessoas são sorteadas (nada impede que se exija um grau de escolaridade mínima para questões mais complexas) e, após analisarem diferentes propostas e interrogarem os especialistas, esse grupo decide a respeito de determinada questão. Apesar de esses mecanismos ainda serem experimentais, a ideia da volta do sorteio na política vem ganhando fôlego e surpreendendo muitos daqueles que num primeiro momento desconfiam desse saber profano. Na crise islandesa de 2008, duas assembleias cidadãs de cerca de mil pessoas sorteadas foram convocadas para decidir os valores sobre os quais o país deveria ser reformulado. O documento extraído dessas experiências serviu de base para um Conselho constituinte, eleito pela população, responsável por redigir um novo texto constitucional, que depois foi referendado à população.
    Já o Canadá teve uma experiência com a reforma política da província da Colúmbia Britânica em 2004.  Uma Assembleia cidadã de cerca de duzentos e cinquenta pessoas sorteadas debateu com especialistas no assunto (acadêmicos, políticos, membros da sociedade civil organizada etc.), durante nove fins de semana, em sessões abertas, com ampla cobertura televisiva, e depois deliberou a respeito de uma proposta de lei. Essa ainda precisava ser referendada, mas acabou obtendo 57% e não 60%, percentual exigido para a aprovação. De toda forma, a experiência canadense foi muito elogiada, surpreendendo até mesmo os analistas mais céticos que acompanharam o processo. Ela revelou o potencial do uso do sorteio, sobretudo no caso de uma reforma política, para evitar que os parlamentares legislem em causa própria. Pensando no caso do Brasil, não seria uma alternativa muito mais ousada e com efetiva participação popular do que as hipóteses de referendo ou o plebiscito que vêm sendo discutidas? Além disso, diante de um statu quo insatisfatório, alguém pode negar que a experimentação democrática seja necessária?
    Num dos livros mais completos sobre o uso do sorteio, o teórico Yves Sintomer faz alusão ao “método de Morelli”. No século XIX, depois de seguir carreira médica, Giovanni Morelli aventurou-se na scienza dell’arte. Com base nos seus conhecimentos fisiológicos, ele propôs uma técnica original, chamada de indiciária, para identificar falsificações ou quadros de atribuição incerta. Para Morelli, ao avaliar uma obra de arte, era preciso observar os detalhes, os fatos marginais, os traços imperceptíveis. Não se tratava de encontrar a solução no sorriso de um Da Vinci, mas na forma da orelha de um Botticelli. Seria o sorteio, nos pergunta Sintomer, o lóbulo da orelha da aventura democrática?
    André Rubião, Doutor em Ciência Política (Universidade Paris 8), é membro do Centro de Estudos Sociais da América Latina (CES-AL/UFMG) e professor da Faculdade de Direito Milton Campos (FDMC). Traduziu para o português O poder ao povo: júris de cidadãos, sorteio e democracia participativa, de Yves Sintomer, Editora UFMG, 2010. 

    Ideia bem interessante essa do sorteio. Se não ficar limitada a temas específicos como citado no artigo, e sim em questões mais amplas como no caso da Islândia. É um avanço em relação ao que temos hoje e se gosta de chamar de democracia.