"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

terça-feira, março 25, 2014

Fortune: O golpe dos empresários visto dos Estados Unidos, em 64

viomundo - publicado em 25 de março de 2014 às 1:07


Foto de Julio de Mesquita Neto entre os conspiradores, publicada na Fortune
Quando executivos se tornaram revolucionários
Da revista norte-americana Fortune, setembro de 1964
por Philip Siekman
“Deus é brasileiro”, diz um ditado popular no Brasil. Analisando acontecimentos recentes, qualquer um fica tentado a concluir que o Brasil realmente foi favorecido pela providência divina. No começo deste ano o país parecia ter apenas dois caminhos à sua frente.
Um que levaria a um estado totalitário de domínio comunista como a Cuba dos Castro, e o outro que levaria a uma guerra civil total tão sangrenta quanto a que devastou a Espanha nos anos trinta. Qualquer uma das duas possibilidades teria deflagrado uma onda que reverberaria pelo restante da América Latina e faria com que os Estados Unidos enfrentassem seu maior fracasso na política externa desde a queda da China.
Em março, a economia brasileira, ameaçada pela inflação e por greves políticas, estava à beira do colapso. O governo do presidente João Goulart estava lotado de comunistas e simpatizantes que fomentavam o caos e se preparando para capitalizá-lo.
E opositores do regime, assustados e desesperados, estavam se armando para lutar nas ruas.
Então, de repente e quase miraculosamente, tudo terminou. Em uma revolta que começou nas primeiras horas do dia 31 de março e terminou dois dias depois, as Forças Armadas brasileiras se levantaram para exercitar seus batalhões de homens, mulheres e tanques, Goulart fugiu para o exílio e seus principais aliados foram cercados e presos.
No dia em que o governo caiu, o distrito da praia de Copacabana explodiu em uma celebração que se compara às alegres comemorações do carnaval.
São Paulo teve outro tumulto alegre. Um empresário local diz que só viu a cidade reagir assim em outras três ocasiões: quando a guerra na Europa acabou, em maio de 1945, e em 1958 e em 1962 quando a seleção brasileira ganhou a Copa do Mundo.
Agora, um capaz governo civil, que tem nas Forças Armadas uma babá cuidadosa, está tentando criar ordem e estabilidade a partir da bagunça que herdou. Gilberto Freyre, o conhecido sociólogo brasileiro, diz que o atual gabinete “pode ser o mais competente da história da república”.
Mas o otimismo, encorajado pelo talento e pelas atitudes dos homens no poder, deve ser dosado pela magnitude dos problemas políticos, sociais e econômicos que eles enfrentam.
Ainda assim, algumas empresas estrangeiras (Willys-Overland, Philips’ Lamp, ASEA) que esperaram um longo tempo por um governo brasileiro que tentaria honestamente governar ficaram tão animadas que já estão aumentando seus investimentos no Brasil.
A maioria dos investidores norte-americanos, condicionados a esperar que as promessas brasileiras se evaporem como a neblina da manhã estão cautelosamente esperando para ver. Seu ceticismo é em parte justificado pelo fato de que a história da revolução brasileira, com todos os seus aspectos encorajadores, não foi completamente contada na mídia norte-americana.
Em estilo tipicamente sarcástico, um brasileiro afirmou a respeito do golpe de março: “Agora que resultou em algo tão bonito, todo mundo quer ser pai da criança”. Os generais do exército forneceram a demonstração de força crítica que provocou o confronto. Mas este não foi apenas mais um golpe militar na América Latina.
Significativamente, boa parte da inspiração e do planejamento foi providenciado por empresários executivos e profissionais despertados pelo desvio do Brasil para a esquerda. Eles não apenas despertaram como se organizaram para fazer algo. A maior parte desses líderes era do estado de São Paulo e o levante de 31 de março pode muito bem ser chamado de “a revolta dos Paulistas”.
São Paulo é o mais próspero e politicamente mais poderoso dos vinte e dois estados brasileiros. Ele tem um dos portos mais importantes da América Latina, Santos, e a maior metrópole do Brasil, a cidade de São Paulo (população: quatro milhões).
Sua riqueza e seu poder já foram baseados no café mas hoje ele tem a maior concentração industrial da América Latina. Nos subúrbios industriais que se espalham pela suaves colinas fora da cidade de São Paulo, os paulistas fabricam a grande maioria dos automóveis, plásticos equipamentos eletrônicos, têxteis, químicos e máquinas do Brasil.
Entre esses paulistas existe um executivo da indústria farmacêutica de voz mansa, Paulo Ayres Filho. Hoje com 45 anos, Ayres sucedeu o pai, em 1965, como presidente do Instituto Pinheiros, empresa batizada com o nome do distrito no qual está localizada. Sua família tem 25% da companhia que ele administra de um pequeno escritório dentro da fábrica.
O antídoto e um fabricante de remédios
No começo dos anos 50 Ayres estava cada vez mais preocupado com a demagogia e as atividades esquerdistas que infectavam a política brasileira. Naquele momento ele tomou conhecimento do trabalho da Fundação para Educação Econômica em Irvington-no-Hudson, Nova York.
Principalmente através de folhetos e panfletos, a fundação norte-americana defende a causa do governo mínimo e da livre iniciativa como antídoto ao que chama de filosofia do “algo por nada”. O Ayres leu várias publicações da fundação (p.ex. “Economics in One Lesson”, de Henry Hazlitt) e começou a circular os panfletos e traduções de trechos de outros trabalhos entre seus amigos.
Relembrando as atividades daqueles anos Ayres diz: “Nós estávamos perdendo a luta”.
Em 1955, Juscelino Kubitschek foi eleito presidente do Brasil como candidato do partido da Social Democracia e com o apoio do Partido Trabalhista, dominado pelos esquerdistas. Kubitschek empurrou o Brasil para um frenesi de desenvolvimento e de gastos governamentais. Indústrias totalmente novas foram construídas, São Paulo explodiu e Brasília, a nova capital, apareceu como uma miragem de concreto lançada no deserto.
Milhões e milhões de cruzeiros foram gastos, desperdiçados e roubados. A inflação brasileira crônica inflamou. E, ao menos de acordo com a visão de Ayres e de outros, “os comunistas começaram a aparecer em grupos de estudantes, organizações sindicais e até mesmo em associações de profissionais e administradores e câmaras de comércio”.
Ayres tem a tendência de usar a palavra comunismo para descrever um amplo espectro do pensamento político que engloba não apenas os que dão apoio ao partido como também os socialdemocratas, estudantes e intelectuais que usam a linguagem do marxismo como forma de protesto e, talvez mais importante, oportunistas sem princípio.
Durante o fim dos anos cinquenta essas influências estavam, sem dúvidas, ganhando terreno. Os ataques aos Estados Unidos e ao capitalismo em geral aumentaram em fúria; as reivindicações de nacionalização ampla das indústrias se tornaram mais estridentes; e um número cada vez maior de políticos começou a falar sobre a luta de classes e pregar a violência como caminho para o poder.
Poucos dias antes do fim do mandato do Kubitschek, em janeiro de 1961, Ayres recebeu um telefonema interestadual de um estranho que dividia com ele os mesmos medos. O homem que telefonou era Gilbert Huber Jr., um jovem empresário do Rio que tinha erguido um bem sucedido empreendimento depois da guerra, Listas Telefônicas Brasileiras. Ele publicava a lista telefônica brasileira, as páginas amarelas.
Huber disse a Ayres que ele tinha ouvido falar da campanha solitária de educação dele e sugeriu que se encontrassem.
Os dois homens passaram a se encontrar regularmente, em geral no Rio, onde Ayres estava começando um breve período como diretor do Banco do Brasil. O cabeça do banco era outro empresário paulista, João Baptista Figueiredo. Ele e um grupo de amigos de Ayres e de Huber foram rapidamente atraídos para a discussão a respeito de como responder à propaganda esquerdista que ecoava pelo Brasil.
O resultado foi a decisão de criar o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – IPES. Alguns dos participantes do grupo argumentaram que o IPES deveria ser um movimento clandestino. Mas os fundadores finalmente concordaram que operariam abertamente – publicando panfletos, promovendo palestras, financiando viagens de estudantes aos Estados Unidos, e dando apoio a associações democráticas de estudantes e de trabalhadores.
“A destruição das nossas esperanças”
Logo antes do IPES começar a funcionar, Jânio Quadros foi empossado como presidente do Brasil. Ele demonstrou uma determinação encorajadora de enfrentar a inflação e a corrupção governamental e barrar a tendência que tanto alarmava os empresários de São Paulo. Mas após passar apenas sete meses no cargo Quadros renunciou de uma hora para outra e foi substituído pelo Vice Presidente, João Goulart.
Para Ayres, a ascensão de Jango Goulart significou “a destruição de todas as nossas esperanças”. Protegido do ex-ditador Getúlio Vargas, Goulart transformou o Partido Trabalhista em uma máquina política poderosa cultivando cuidadosamente amizades com a clientela governamental e prometendo salários mais e mais altos aos trabalhadores. Sob seu olhar benevolente, líderes trabalhistas influenciados pelo comunismo assumiram o controle da maioria dos sindicatos do país.
Assustados com a ideia do que Goulart poderia fazer agora que tinha poder presidencial, o IPES incrementou seus esforços para influenciar a opinião pública. Como Ayres relembra, “alguns não contribuíam porque achavam que estávamos errados; outros porque tinham medo de que estivéssemos certos e não queriam se envolver”.
O apoio do IPES à reforma agrária criou inimigos entre os latifundiários, os grandes donos de terras. Seu conceito de uma economia livre e aberta não era bem visto por industriais ineficientes que já estavam incomodados com o grande número de empresas estrangeiras que traziam tecnologia avançada e marketing agressivo para o Brasil. Ao todo, apenas cerca de 400 empresas, a grande maioria no Rio e em São Paulo, contribuíram com a organização; o volume anual de dinheiro nunca passou dos US$ 500.000,00.
Com fundo limitado e sem uma ideia real a respeito de como executar a tarefa que se impôs, o IPES tentou ir longe demais. “Nós tentamos salvar o país”, diz Ayres. “E erramos por não pensar com a profundidade adequada. Mas as sementes que lançamos ajudaram muitas iniciativas isoladas”.
A organização produziu panfletos e livretos que entregou a qualquer pessoa que pudesse fazer algum uso deles. (Suas publicações incluem “Inflação, suas Causas e Consequências”, “A Verdade sobre a Revolução Industrial” e uma série, “Economia para Todos”).
Ela ajudou a financiar o programa de treinamento de lideranças democráticas para empresários, estudantes e trabalhadores que educou 2.600 pessoas. E incentivou grupos de mulheres, de estudantes e outras organizações, contribuindo com fundos, literatura, espaço de escritório barato, equipamento de escritório gratuito e ajuda subsidiada para trabalhos de escritório.
Perto do fim de 1962 o comportamento de vários membros do IPES começou a mudar. “No começo”, conta Ayres, “a ideia era resistir e não atacar. Todos nós queríamos que o Jango terminasse o mandato. Sabíamos que todos, em outras partes do mundo, ficariam contra nós se o derrubássemos”. Mas na medida em que o governo do Goulart se tornou mais e mais imprudente, ficou claro que a resistência intelectual não funcionaria rápido o suficiente.
Enquanto o IPES continuou com sua propaganda e trabalho de educação, membros individuais da organização começaram a procurar formas mais diretas de fazer valer suas posições.
Uma sopa de letras de organizações anticomunistas explodiu na cena brasileira. Algumas organizavam protestos; outras pichavam os muros; uma outra tentou comprar políticos. Um industrial de São Paulo que pertence ao IPES decidiu que já era hora de adotar “os métodos deles”.
Ele organizou células de vigilantes para enfrentar esquerdistas impertinentes em encontros comunistas com “métodos intelectuais – como um chute na cabeça”. Mais tarde os vigilantes se armaram com armas leves, montaram uma fábrica clandestina de granadas e escolheram um local de onde lançar operações guerrilheiras na guerra civil que consideravam inevitável e iminente.
O que se tornou o importante movimento de ativistas contra Goulart começou com três membros do IPES que são todos advogados de São Paulo: Flavio Galvão, Luiz Werneck e João-Adelino Prado Neto. (Galvão é também editor do Estado de São Paulo, o jornal conservador da cidade).
Eles decidiram, segundo as palavras de Werneck, “que precisávamos fazer algo. Se isso significava uma revolução, nós estávamos preparados. Nós tínhamos que mudar toda a situação”.
Logo eles estavam se reunindo com um número crescente de profissionais e homens de negócios de São Paulo de dentro e de fora da turma do IPES. Um dos recrutados mais proeminentes era Júlio de Mesquita Filho, que se tornou o cabeça do grupo. (A família Mesquita é dona de O Estado de São Paulo).
Outro era Adhemar de Barros, governador do estado de São Paulo. Sua adesão ao grupo de empresários revolucionários foi especialmente importante porque ele tinha uma milícia bem treinada e bem armada no estado, com mais de 40.000 homens.
Barros abriu canais de comunicação com outros governadores simpatizantes, notadamente Carlos Lacerda, da Guanabara, o estado que contém o Rio de Janeiro. Com uma oferta voraz de ataques venenosos, Lacerda era o inimigo público mais agressivo de Goulart.
“Não se pode mais aguentar”
No fim de 1963 o Brasil parecia estar perigosamente próximo de se desfazer. A inflação persistente não estava apenas sugando a força produtiva do país mas também deprimia ainda mais o nível de vida da maioria dos brasileiros (o produto interno bruto per capita caiu no ano passado). No Nordeste, abandonados, camponeses analfabetos estavam se organizando com dinheiro da China Vermelha e armas contrabandeadas por Cuba. No sul, Leonel Brizola, um congressista fanático que é cunhado de Goulart, estava incrementando seus ataques aos negócios nacionais e estrangeiros.
Naquele momento, homens abertamente simpáticos ao comunismo e a Castro tinham assumido postos-chave no governo e em suas agências. E uma direção sindical dominada pelos comunistas estava abertamente usando as greves como arma política. Em outubro, algo como trinta grandes greves estavam em andamento ou ameaçavam começar.
Goulart trocou ministros (ele teve 54 ministros diferentes em dois anos e meio), montou um plano de estabilização econômica e depois o abandonou, falou de reformas e não fez nada. Ele parecia simplesmente incapaz de governar mas a interpretação dos paulistas era mais sinistra.
Eles acreditavam que Goulart estava promovendo crises para demandar mais poder. A teoria deles foi confirmada em outubro quando o presidente pediu ao Congresso que declarasse estado de sítio sob o qual o governo federal teria amplos poderes. (O Congresso, naquele momento, recusou).
Em São Paulo, Adhemar de Barros falava em um processo de impeachment contra Goulart e ameaçava abertamente com uma revolta: “São Paulo está pronto para lutar… Não se pode mais suportar essa crise de autoridade, essa falta de disciplina”.
Mas uma revolta declarada exigiria a ajuda do Exército brasileiro.
Informalmente, os membros do IPES vinham cultivando há tempos amizades com os serviços militares, convidaram oficias para visitas ostensivas às fábricas de São Paulo, e em cafés e jantares contaram a eles o que temiam. Mas o encontro de maior consequência teve lugar no começo de 1963 quando Werneck, Galvão e outros conheceram um jovem coronel, Rubens Resstel, então estacionado no quartel general do Segundo Exército do Brasil, em São Paulo.
Paulista de nascimento e formado na academia militar, Resstel participou de ações (e ganhou a Estrela de Prata norte-americana) com a Força Expedicionária brasileira, que lutou como parte do Quinto Exército norte-americano na Itália na Segunda Guerra Mundial. Como o IPES se tornou a célula mãe da resistência civil ao Goulart, os veteranos da FEB se tornaram a força motriz entre os militares. Desde a guerra, explica Resstel, “passamos a ter horror de qualquer regime como os que enfrentamos, sejam eles fascistas ou comunistas”. Incentivado pelo grupo Mesquita, Resstel e alguns de seus colegas oficiais começaram a circular pelo Brasil sondando outros militares. Um grupo de jovens oficiais concordou que já era hora de agir, mas muitos oficiais mais graúdos não achavam.
O Exército desempenhou um papel central na política brasileira desde que ele derrubou o império há setenta e cinco anos. Mas ele tem sido, em geral, um papel cauteloso – de protetor da Constituição e árbitro de debates civis que parecem ameaçar a República. Como John J. Johson ressaltou (“The Military and Society in Latin America”), “… neste século, as forças armadas brasileiras tentaram, conscientemente, evitar qualquer gesto que pudesse provocar amarga resistência popular. Nem sempre elas conseguiram, mas têm um bom histórico…”
Um grande número de oficiais se recusou, em princípio, a participar da conspiração porque acreditava que Goulart não tinha ainda desrespeitado os limites constitucionais ou porque achava que ele representava a vontade do povo. Coube aos eventos – e às ações do próprio Goulart – mudar a mentalidade do Exército.
No começo de 1964 os jovens militares no grupo de Mesquita começaram a juntar provas que indicavam que os comunistas em torno de Goulart estavam planejando seu próprio golpe – com ou sem a ajuda de Goulart. Havia um racha no movimento comunista brasileiro entre a chamada ala russa, que aconselhava moderação e gradualismo, e a ala chino-cubana, identificada com Brizola, que pregava a violência.
O último grupo parecia ter a maior influência sobre governo. Os Paulistas temiam um tentativa da noite para o dia de criação de um estado totalitário, com uma onda de violência e assassinatos, ações guerrilheiras, greves em indústrias chave e uma revolta de militares alistados.
De acordo com a visão de alguns civis, a escolha agora era entre morrer em defesa da liberdade ou ser preso e morto mais tarde porque tinham fracassado em defendê-la. Eles começaram a se armar. Com o tempo, o grupo de Mesquita, sozinho, gastou cerca de US$ 10.000,00 em armas, incluindo algumas automáticas. Grupos de áreas residenciais de São Paulo conseguiram armas, munição, suprimentos e começaram, cuidadosamente, a traçar planos de defesa de seus quarteirões.
Resstel e outros oficiais militares concluíram que com alguns elementos do Exército, milícias estaduais e civis eles podiam aguentar noventa dias. Antes que esse prazo se esgotasse, o grupo de Mesquita tinha esperanças de obter apoio de fora. Eles enviaram um emissário para perguntar ao Embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, qual seria a posição dos Estados Unidos se estourasse uma guerra civil e ele reportou de volta que Gordon foi cauteloso e diplomático, mas deixou a impressão de que se os Paulistas conseguissem se segurar por quarenta e oito horas, eles teriam o reconhecimento e a ajuda dos Estados Unidos.
As Garotas de Ipanema
Na sexta-feira, dia 13 de março, Goulart presidiu uma manifestação na Praça da República, no Rio, da qual participaram cerca de 100.000 trabalhadores e camponeses trazidos de todas as partes do Brasil de caminhão, ônibus e trem.
Apresentada como uma grande demonstração a favor de reformas, o protesto foi uma sonora plataforma para a demagogia. Como parte dos acontecimentos, Goulart anunciou a expropriação de cinco refinarias de petróleo de propriedade particular no Brasil e assinou o decreto da reforma agrária que declarava todas as propriedades rurais de grande médio porte, além de terras federais – ferrovias, estradas e reservatórios – como expropriáveis.
O discurso mais nefasto foi o de Brizola que, abertamente, avisou Goulart que ou ele se mexia rapidamente ou seria deixado para trás. Ele exigiu que “o presidente pare com as conciliações e forme um governo popular e nacional” que ele definiu como um congresso de trabalhadores, camponeses, estudantes, sargentos e oficiais nacionalistas.
Algumas das pessoas que ouviram o discurso ficaram imaginando se Goulart havia se tornado refém de seu cunhado. Um dos Paulistas observou mais tarde que Goulart o fazia pensar no aprendiz de feiticeiro que coloca a vassoura e o balde de água para trabalhar e corre o risco de morrer afogado porque não sabe como pará-los.
No frenesi da manifestação Goulart cometeu um erro que se mostrou crucial. Ele comentou de improviso que “mulheres com contas nas mãos” não seriam empecilho para ele. Alguns dos ouvintes ficaram imaginando o que provocou essa referência insultante ao terço, o rosário católico. Mas um grande grupo de mulheres brasileiras sabia exatamente o que estava incomodando Goulart. Elas estavam.
As mulheres no Brasil tradicionalmente deixam a política por conta de seus maridos. Mas no meio do ano de 1962 um pequeno grupo de esposas de classe média do Rio organizaram a Campanha das Mulheres pela Democracia (CAMDE) para esclarecer as mulheres a respeito dos perigos do comunismo.
Operando em um espaço emprestado dos padres franciscanos em Ipanema, um bairro do Rio, a CAMDE rapidamente somou ação ao discurso, encorajou mulheres do restante do Brasil a se organizarem e começou a pressionar os políticos com telegramas, cartas e visitas de suas delegações.
Em uma viagem a Brasília, em agosto de 1962, CAMDE e um grupo semelhante de São Paulo, União Cívica Feminina, entregaram 17.000 cartas de protesto ao Congresso. Logo em seguida a organização já era acusada regularmente pelos jornais de esquerda como “as guerrilheiras perfumadas” e “gangsters de saias”. Depois de cada ataque, a lista de adesões da CAMDE aumentava.
A declaração de Goular foi provocada por um incidente em fevereiro, em Belo Horizonte. Um grupo de mulheres invadiu um auditório onde Brizola faria um discurso. Enquanto esperavam em meio ao público de seguidores de Brizola, um padre sugeriu que elas começassem a rezar o terço. Enquanto faziam isso, algumas mulheres foram até o palco.
Quando um seguidor de Brizola subiu na mesa para protestar, uma mulher virou a mesa. Quando Brizola chegou encontrou um tumulto em andamento e deu meia volta quando a multidão explodiu para fora do auditório, invadiu uma loja da frutas e jogou melões e abóboras contra ele.
No dia deste encontro do dia 13 de março, a CAMDE no Rio ligou para lembrar aos amigos os eventos de Belo Horizonte e sugerir que rezassem o terço em suas casas e acendessem uma vela em suas janelas como sinal de desafio. Quando Goulart passou de carro em direção à manifestação, milhares de velas brilhavam em seu caminho.
A irmã Ana de Lourdes, uma freira da Igreja Católica de uma ordem de enfermeiras, ouviu a calúnia a respeito das “contas” na televisão, em São Paulo. Na tarde deste dia ela sugeriu a um pequeno grupo dos Paulistas que as mulheres da cidade deveriam organizar uma demonstração religiosa para protestar contra a blasfêmia. No grupo estava presente Antonio Cunha Bueno, um congressista ligado à conspiração Paulista que percebeu que o protesto das freiras poderia se transformar em uma demonstração de massa contra o governo.
O que se tornou conhecido como “A Marcha da Família Com Deus pela Liberdade” foi marcado para a quinta-feira seguinte, 19 de março. Ninguém sabia muito bem o que esperar.
William Max Pearce, um norte-americano que lidera a Willys-Overland do Brasil, lembra que sua esposa brasileira “veio para mim e disse, ‘Eu não sei o que vai acontecer e tenho medo de ir. Mas ainda assim quero ir. Você iria comigo?’ Eu disse, vamos. E me senti muito orgulhoso de estar lá”. Quando Pearce e sua mulher saíram do carro a algumas quadras do começo da manifestação eles descobriram que faziam parte da maior manifestação de massa da história do Brasil.
Quando os notáveis da linha de frente chegaram à Catedral de São Paulo, onde a passeata deveria terminar, ao menos 500.000 pessoas estavam atrás deles.
David Beaty III, um norte-americano que mora no Brasil há muitos anos e hoje dirige a operação paulista da Deltec S.A., olhou para os manifestantes que passavam sob a janela de seu escritório e se deu conta de que quase todos os seus amigos brasileiros estavam lá. Ao lado de Beaty estava um refugiado húngaro que observou que em seu país os manifestantes ajudaram muito.
Isso levou Beaty a pensar se estava olhando para “os vencedores ou os perdedores”. Poucos dias depois ele disse a seu escritório de Nova York que Goulart teria poderes absolutos em um ano. “Então”, ele continuou, “nos encontraremos em uma situação semelhante à de Cuba; ou Goulart anunciará que é um líder comunista ou o aparato comunista o afastará e tomará o poder completamente”.
Alimento para guerra
A passeata de São Paulo convenceu os militares de alta patente de que havia uma grande oposição popular a Goulart. Aparentemente o General Humberto Castello Branco, o Chefe de Gabinete do Exército, ficou particularmente impressionado. Amigo de Júlio Mesquita, o general de 63 anos foi oficial de operações da Força Expedicionária Brasileira na Itália.
Ele tinha conhecimento da conspiração dos Paulistas fazia algum tempo mas não quis se juntar a uma revolta contra um governo letal. No dia seguinte a demonstração de São Paulo, entretanto, ele enviou um memorando secreto aos comandos do Exército. Ele dizia em parte: “o objetivo dos recursos militares nacionais não é defender programas de governo, muito menos sua propaganda, mas garantir os poderes constitucionais, sua operação e o cumprimento da lei”.
Os conspiradores sentiram a mudança marcante de atitude de vários outros oficiais do exército; um número cada vez maior deles concordou em aderir à revolta. Decidindo que já estava quase na hora, eles convenceram Castello Brasil a preparar um rascunho de um plano de operações militares.
Suprimento extra de gasolina foi obtido e escondido em parques industriais de São Paulo. Um suprimento de “Comida pela Paz” dos Estados Unidos foi encontrado no porto de Santos e transferido e estocado na capital.
Neste momento a Marinha brasileira foi sacudida por uma revolta de milhares de homens alistados no Rio. Ao invés de punir os rebeldes, Goulart concordou em atender suas demandas, deu apoio ao comandante esquerdista que se recusou a prender os homens e deu anistia a todos os envolvidos.
Da noite para o dia, a disciplina na Marinha foi destruída. Oficiais do exército apavorados se deram conta de que a mesma coisa poderia acontecer em suas unidades a qualquer momento. Se esperassem muito mais tempo para se mexer eles não poderiam fazer mais nada.
Entrincheirado em Três Rios
Tarde da noite na segunda-feira da Páscoa, enquanto Goulart participava de um encontro com sargentos da polícia militar do Rio, a revolta começou. Tropas sob o comando do General Olímpio Mourão Filho, comandante da Quarta Região Militar, parte do Primeiro Exército, deixaram o quartel general em Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, e seguiram para o Rio.
Os conspiradores estavam ansiosos para que Mourão começasse primeiro para mostrar ao resto do país que não era apenas São Paulo que se rebelava. Mas não havia data marcada. Mourão, um oficial cabeça quente e impaciente, simplesmente se cansou de esperar.
Mourão tinha o apoio do governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Enquanto Mourão preparava suas tropas, Magalhães Pinto enviou sua milícia estadual para proteger prontos estratégicos e confiscar depósitos de petróleo e ônibus.
Ao mesmo tempo ele deteve todos os suspeitos de agitação e comunistas na capital, Belo Horizonte, e no restante do estado. Até a tarde da terça-feira Magalhães Pinto já tinha um controle firme do estado e Mourão estava entrincheirado em Três Rios, uma cidade pequena a 104 quilômetros do Rio de Janeiro.
Somente neste momento o governador e o general olharam em volta para ver se alguém mais no Brasil estava com eles. Por algumas horas agonizantes, ninguém estava. Depois de anos de conversa, os conspiradores e o governador foram pegos de surpresa.
Ao longo do dia não houve palavra alguma do quartel general do Segundo Exército em São Paulo. Apesar de estar sob pressão intensa de seus jovens oficiais e dos civis Paulistas, o General Amaury Kruel hesitava.
Kruel tinha sido grande amigo de Jango Goulart e os Paulistas se perguntavam se teriam que removê-lo à força do comando. Mas no fim da tarde Kruel telefonou para Goulart no Rio e pediu para que expulsasse os comunistas de seu governo. Quando Goulart se recusou a dar satisfações a Kruel, ele se juntou aos revolucionários.
Nas primeiras horas da quarta-feira ele tinha tanques nos carros de transporte, suas tropas em caminhões e ônibus e estava a caminho do Rio.
A resistência do governo foi fraca. No Rio, o Comando Comunista do Trabalho convocou uma greve geral e os caminhões da Petrobrás, o monopólio de petróleo do governo, circularam pelas ruas distribuindo armas aos trabalhadores. Mas nada aconteceu; até mesmo a greve fracassou. Enquanto uma unidade atrás da outra se juntava à revolta, Goulart fugiu do Rio para Brasília. Tarde da noite na quarta-feira ele foi para o exílio no Uruguai.
Antes do nascer do sol na quinta-feira, Paschoal Ranieri Mazzili, presidente da Câmara, foi nomeado presidente temporário. Na segunda-feira seguinte o coronel Resstel se reuniu com líderes do Congresso. O comando revolucionário, disse ele, estava decidido a expurgar o congresso dos comunistas, esquerdistas, subversivos e ladrões.
Quando os congressistas se recusaram a passar uma lei permitindo isso Resstel declarou: “Se é assim então não tem outro jeito”.
Três dias depois o comando revolucionário publicou um “ato institucional” que deu ao governo temporário o poder de demitir qualquer funcionário do governo e suspender por dez anos os direitos políticos de qualquer indivíduo acusado de corrupção ou de ser comunista.
No sábado, dia 11 de abril, o General Castello Branco foi eleito presidente pelo Congresso para cumprir os vinte e um meses que restavam do mandato de Goulart. Branco renunciou no Exército e se dedicou aos problemas diante dele.
O aparato de Goulart se dissolveu completamente. Seus principais líderes fugiram para o exílio. Outros foram rapidamente presos.
Nos primeiros dias da revolta milhares de subversivos suspeitos foram rapidamente jogados na cadeia ou em barcos transformados em prisões temporárias (agora, quase todos já foram silenciosamente soltos). Privados de seus líderes fanáticos e sem acesso aos tesouros estaduais e federal a extrema esquerda brasileira se apagou. “Nós os eclipsamos”, disse Resstel.
Com a ameaça comunista anulada, o novo regime se voltou para a limpeza da corrupção. Sob Goulart, governadores, congressistas, oficiais federais e seus amigos estavam afundados nos tesouros governamentais. A folha de pagamentos do governo estava inchada de amigos e parentes que nunca apareciam para trabalhar. E as instituições financeiras federais haviam se tornado reserva privada de oficiais do governo.
Goulart mesmo não era amador. Explorando diligentemente as oportunidades que seu cargo ofereciam ele ergueu uma fortuna considerável e um latifúndio de 7,7 mil quilômetros quadrados.
Nos sessenta dias permitidos pelo ato institucional, o governo cancelou os direitos políticos de 378 pessoas sob a acusação de corrupção e desonestidade ou ações comunistas.
Da lista fazem parte três ex-presidente da república, um senador federal, cinco governadores, cinquenta e um deputados federais; eles não poderão concorrer a cargo público ou votar por dez anos. Talvez o nome mais conhecido da lista negra seja o do ex-presidente Juscelino Kubitschek.
Alguns observadores estrangeiros viram a inclusão do nome dele na lista como uma manobra política grosseira para eliminar o homem que poderia ser um candidato forte para presidente nas próximas eleições. Kubitschek poderia muito bem levar de volta o poder os mesmo elementos do antigo regime que levaram o Brasil ao caos.
Desacelerando o bombeamento
Como muitos de seus antecessores, o novo regime tomou o poder com promessas de arrumar a economia e apresentar reformas amplas. Para a surpresa de muitos brasileiros, ele aparentemente tem a intenção de cumprir as promessas. O talentoso gabinete de Castello Branco inclui como Ministro do Planejamento Econômico, Roberto Campos, o inteligente e economista cosmopolita que serviu como embaixador nos Estados Unidos sob Goulart e que pediu demissão quando se cansou de “ser o tradutor de uma política não existente”.
Os novos ministros apresentaram um programa de reforma agrária; um plano de reforma fiscal que efetivamente dará ao Brasil seu primeiro banco central; e legislação que revê as leis eleitorais e estende o mandato de Castello Branco até março de 1967 para lhe dar tempo de instituir essas mudanças.
Antes que Campos e o resto do gabinete possam voltar toda a atenção às reformas básicas, no entanto, eles precisam fazer algo para combater a inflação. No ano passado a oferta de dinheiro aumentou mais de 60%; e o valor do cruzeiro foi reduzido pela metade. Este ano, imediatamente antes da revolta, a taxa de inflação anualizada do Brasil era de 120%.
A principal bomba da inflação é o enorme déficit do governo. Se o Goulart tivesse permanecido no poder ele provavelmente teria passado de 1,5 trilhão de cruzeiros este ano (aproximadamente U$ 1,3 bilhão em taxas atuais). Campos e o novo Ministro das Finanças, Otávio de Bulhões, já cortaram o déficit pela metade suspendendo os subsídios para importação de petróleo e trigo, o que provavelmente custaria ao governo $ 200 milhões em 1964.
Eles também rascunharam uma lei de reforma do imposto de renda que vai aumentar a receita e estão trabalhando em maneiras de reduzir as perdas multimilionárias sofridas pela empresa ferroviária estatal.
Entretanto o gabinete hesita em fazer cortes na folha de pagamentos do governo. Isso, como diz Bulhões, “causaria uma reação social inconveniente”. Ele pergunta: “como podemos resolver problemas financeiros sem levar em conta as condições humanas”?
Campos e Bulhões estão convencidos, entretanto, que de uma maneira ou de outra eles vão reduzir o déficit em um terço ou mais este ano e desacelerar a inflação para uma taxa de 2 a 3% ao mês até o começo do ano que vem. O objetivo é ter a economia sob controle (e o cruzeiro livre) antes do fim de 1965.
Mas a inflação não será reduzida sem sérias perturbações. No passado, muitos negócios brasileiros dependiam das “compras preventivas” – aquisição de bens e formação de estoque antes do aumento dos preços – e da fuga de bens para dinheiro.
Um grande número de brasileiros, por exemplo, comprou automóveis como uma forma conveniente de proteger seu capital da depreciação (alguns empresários tem vários Volkswagens). Na medida que a necessidade deste tipo de compra desapareça, os carros colecionados serão colocados a venda no mercado e os fabricantes vão esgotar seus estoques de peças e material bruta.
Muitas empresas terão dificuldades de vender qualquer coisa por um tempo. De fato, em junho os galpões de depósito das fábricas de automóveis brasileiras já estavam lotados e a Volkswagen já estava estacionando carros nas calçadas em torno da sua fábrica no subúrbio de São Paulo. Naquele momento as vendas de automóveis já tinham caído pelo menos um terço; as vendas de eletrodomésticos, têxteis e máquinas caíram uns 25%.
“Nós realmente poderíamos ir”
Se o Brasil não morrer na mesa de operações enquanto os novos homens tentam curar seus males, ele vai precisar de grande injeção de ajuda do exterior. A ajuda dos Estados Unidos ao Brasil caiu para $2 milhões nas oito semanas que antecederam a revolta. Imediatamente após, os Estados Unidos deram U$ 93 milhões em commodities agrícolas sob a Lei Pública 480 e U$ 50 milhões mais em empréstimos em empréstimos e subvenções para mais de 35 projetos de desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, Estados Unidos, Japão e outros países da Europa começaram a negociar acordos para reescalonar a gigantesca dívida externa brasileira de U$3 bilhões. Além disso, ajuda adicional europeia e norte-americana com certeza será oferecida ao Brasil este ano para subscrever o déficit do orçamento e financiar as importações.
Quando a falência for evitada, o novo governo deve fazer a economia se mover adiante novamente – sem recorrer novamente à inflação. Com a população do Brasil crescendo mais de 3% ao ano o problema do desemprego e do subemprego vai se tornar ainda mais agudo a não ser que haja crescimento permanente na indústria e grandes melhorias na agricultura. Mas isso também exigirá ajuda estrangeira, especialmente investimentos privados.
Seduzir investores estrangerios a voltar ao Brasil não vai ser fácil. Os negócios norte-americanos sozinhos já têm U$1 bilhão investido no Brasil. Muitas subsidiárias norte-americanas tiveram ótimos resultados nos anos cinquenta. Mas nos últimos anos elas tem sofrido com a inflação e se assustaram com os venenosos ataques ao capitalismo e às empresas estrangeiras.
Desde 1962, quando o governo aprovou uma lei de remessa de lucros que efetivamente proibiu as subsidiárias de enviar dinheiro de volta às suas matrizes, praticamente nenhum investimento estrangeiro foi feito no Brasil.
O governo de Castello Branco reviu a lei de remessa de lucros para abrir as portas a um fluxo normal das subsidiárias para as matrizes. E os estrangeiros têm recebido confirmações repetidas de que serão tratados com justiça no Brasil. Umas poucas empresas responderam aumentando seus investimentos. Mas muitas adotaram a atitude do “esperar para ver”, mesmo em casos em que seus executivos estão quicando de entusiasmo. Como diz um norte-americano, “com um governo apenas razoavelmente bom, nós poderíamos apostar neste país”.
Para os investidores, a distância pode fornecer objetividade mas também pode prejudicar as previsões. Apenas o analista mais duro pode garantir que o Brasil não voltará a ficar sob um governo corrupto que tome medidas econômicas insanas. Mas com uma população tão grande, um enorme território e uma riqueza em matérias primas, o Brasil continua sendo potencialmente uma das nações mais poderosas do mundo.
No ano que vem os executivos das corporações norte-americanas terão a árdua tarefa de explicar a seus acionistas porque investiram no Brasil em 1964. Dentro de dez anos eles podem achar ainda mais difícil explicar porque não investiram.
Um bom motivo para otimismo é o fato de que quase todos os empresários de São Paulo são solidamente a favor do governo – e isso é algo novo no Brasil.
As pessoas que ajudaram a fomentar a revolução sabem que seu trabalho não terminou. Vai levar tempo erradicar os efeitos de anos de propaganda esquerdista. Mas os Paulistas acreditam que o Brasil está finalmente seguindo a direção certa. Como diz Paulo Ayres, “nossa revolução está em andamento”.
PS do Viomundo: Quem primeiro nos chamou a atenção para a reportagem foi o Opera Mundi. Decidimos então pedir à Heloisa Villela, em Nova York, que nos brindasse com uma tradução, o que ela fez com a generosidade de sempre. É óbvio que a reportagem da revista Fortune está repleta de erros, omissões e distorções, que os leitores podem apontar nos comentários. Porém, a ironia é que o barão da mídia que esteve no centro das articulações, depois do golpe dentro do golpe, em 68,– quando os militares liberais foram derrotados pelos desenvolvimentistas –, passou a experimentar do próprio veneno: foi censurado!
PS do Viomundo2: Do ponto-de-vista dos Estados Unidos, qualquer presidente, de qualquer partido, seria crucificado se “perdesse o Brasil”, como anteriormente a China e Cuba haviam sido “perdidas”. Política externa nos Estados Unidos é política doméstica.

quinta-feira, março 20, 2014

Como o padrinho faz as regras, de Canberra a Kiev


Com a sua cartola negra e fato coberto de medalhas, Kerr era a corporificação do império. Ele era o vice-rei australiano da Rainha da Inglaterra num país que ainda a reconhece como chefe de estado. Seus deveres eram cerimoniais, mas Whitlam estava inconsciente, ou preferiu ignorar, os antigos laços de Kerr com a inteligência anglo-americana. 

resistir info - 19 mar 2014

O golpe esquecido
por John Pilger

O papel de Washington no putsch fascista contra um governo eleito na Ucrânia surpreenderá apenas aqueles que vêem os noticiários e ignoram o registo histórico. Desde 1945, dúzias de governos, muitos deles democracia, tiveram um destino semelhante, habitualmente com banhos de sangue.
A Nicarágua é um dos mais pobres países sobre a Terra, com menos população do que Gales, mas na década de 1980, sob os reformistas sandinistas, ela foi considerada em Washington como uma "ameaça estratégica". A lógica era simples; se o mais fraco escorregar, estabelecendo um exemplo, quem mais tentaria a sua sorte? 

O grande jogo da dominância não dá imunidade nem mesmo ao mais leal "aliado" dos EUA. Isto é demonstrado por talvez os menos conhecido dos golpes de Washington – na Austrália. A história deste golpe esquecido é uma lição saudável para aqueles governos que acreditam que uma "Ucrânia" ou um "Chile" não podiam lhes acontecer. 

A deferência da Austrália para com os Estados Unidos faz a Grã-Bretanha, em comparação, parecer um traidor. Durante a invasão americana do Vietname – a qual a Austrália implorou para aderir – um responsável em Canberra divulgou uma queixa rara a Washington: que os britânicos sabiam mais acerca dos objectivos estado-unidenses naquela guerra do que os seus camaradas de armas nos antípodas. A resposta foi suave: "Temos de manter os britânicos informados para mantê-los felizes. Vocês estão connosco aconteça o que for". 

Esta declaração foi brutalmente posta de lado em 1972 com a eleição do governo trabalhista de Gough Whitlam. "Embora não considerado como de esquerda, Whitlam – agora com 98 anos – era um social-democrata independente, orgulhoso, proprietário e de extraordinária imaginação política. Ele acreditava que uma potência estrangeira não deveria controlar os recursos do seu país e ditar a sua política económica e externa. Ele propôs "recuperar o controle" e falar com uma voz independente a Londres e Washington. 

No dia seguinte à sua eleição, Whitlam ordenou que a sua equipe não deveria ser "verificada ou perturbada" pela organização de segurança da australiana, ASIO – então, como agora, devedora de favores à inteligência anglo-americana. Quando seus ministros condenaram publicamente a administração Nixon/Kissinger como "corrupta e bárbara", Frank Snepp, um oficial da CIA naquele tempo estacionado em Saigon, disse posteriormente: "Disseram-nos que os australianos podiam muito bem ser encarados como colaboradores dos norte vietnamitas". 

Whitlam quiz saber se e porque a CIA estava a dirigir uma base de espionagem em Pine Gap, próximo de Alice Springs, ostensivamente uma instalação conjunta australiana/americana. Pine Gap é um aspirador de pós gigante o qual, como revelou recentemente o denunciante Edward Snowden, permite aos EUA espiar sobre tudo. Na década de 1979, a maior parte dos australianos não fazia ideia de que este enclave estrangeiro secreto colocava seu país na linha de frente de uma potencial guerra nuclear com a União Soviética. Whitlam sabia claramente o risco pessoal que estava a assumir – como demonstram as minutas de uma reunião com o embaixador dos EUA. "Tente apertar-nos ou fazer-nos saltar", advertiu ele, "[e Pine Gap] tornar-se-á um pomo de discórdia". 

Victor Marchetti, o oficial a CIA havia ajudado a montar Pine Gap, contou-me depois: "Esta ameaça de fechar Pine Gap provocou apoplexia na Casa Branca. As consequências eram inevitáveis ... uma espécie de Chile foi posto em movimento". 

A CIA havia acabado de ajudar o general Pinochet a esmagar o governo democrático de outro reformador, Salvador Allende, no Chile. 

Em 1974, a Casa Branca enviou Marshall Green para Canberra como embaixador. Green era um arrogante, uma figura muito experiente e sinistra no Departamento de Estado que trabalhava nas sombras do "estado profundo" ("deep state") da América. Conhecido como o "mestre do golpe", ele havia desempenhado um papel central no golpe de 1965 contra o presidente Sukarno na Indonésia – o qual custou um milhão de vidas. Um dos seus primeiros discursos na Austrália foi ao Australian Institute of Directors – descrito por um membro alarmado da audiência como "um incitamento aos líderes de negócios do país a levantarem-se contra o governo". 

As mensagens top-secret de Pine Gap eram descodificadas na Califórnia por um empreiteiro da CIA, a TRW. Um dos descodificadores era o jovem Christopher Boyce, um idealista que, perturbado pelo "engano e traição de um aliado", se tornou um denunciante. Boyce revelou que a CIA havia-se infiltrado na elite política e sindical australiana e referia-se ao governador geral da Austrália, sir John Kerr, como "o nosso homem Kerr". 

O governador-geral era um membro entusiasta da Australian Association for Cultural Freedom, descrita por Jonathan Kwitny do Wall Street Journal, no seu livro, The Crimes of Patriots, como uma elite, um grupo em que se entra só por convite ... revelado no Congresso como sendo fundado, financiado e geralmente dirigido pela CIA". A CIA "pagava a viagem de Kerr, construía seu prestígio ... Kerr continuava a ir à CIA por dinheiro". 

Em 1975, Whitlam descobriu que o MI6 britânico desde há muito estava a operar contra o seu governo. "Os britânicos estavam realmente a descodificar mensagens secretas vindas ao meu gabinete de negócios estrangeiros", disse ele posteriormente. Um dos seus ministros, Clyde Cameron, contou-me: "Sabíamos que o MI6 plantava microfones na reuniões do gabinete para os americanos". Em entrevistas na década de 1980 com o jornalista americano de investigação Joseph Trento, responsáveis executivos da CIA revelaram que o "problema Whitlam" fora discutido "com urgência" pelo director da CIA, William Colby, e o chefe do MI6, sir Maurice Oldfield, que foram feitos "arranjos". Um vice-director a CIA disse a Trento: "Kerr fez o que lhe disseram para fazer". 

Em 1975, Whitlam soube de uma lista secreta de pessoal da CIA na Austrália mantida pelo chefe do Australian Defence Department, sir Arthur Tange – um mandarim profundamente conservador com um poder territorial sem precedentes em Canberra. Whitlam pediu para ver a lista. Sobre ela esta o nome, Richard Stallings que, sob cobertura, havia montado Pine Gap como uma instalação provocadora da CIA. Whitlam agora tinha a prova de que estava à procura. 

Em 10 de Novembro de 1975, foi-lhe mostrada uma mensagem telex top secret enviada pelo ASIO em Washington. Esta provinha de Theodore Shackley, chefe da Divisão da Ásia Oriental da CIA e uma das mais infames figuras desovadas pela Agência. Shackley fora chefe da operação da CIA com base em Miami para assassinar Fidel Castro e chefe de estação no Laos e no Vietname. Ele havia recentemente trabalhado no "problema Allende". 

A mensagem de Shackley foi lida a Whitlam. Incrivelmente, ela dizia que o primeiro-ministro da Austrália era um risco de segurança no seu próprio país. 

No dia anterior Kerr havia visitado a sede do Defence Signalas Directorate, o NSA da Austrália cujos laços com Washington eram, e permanecem, estreitos. Ele foi informado sobre a "crise de segurança". Ele pediu então uma linha segura e passou 20 minutos a conversar em voz baixa. 

Em 11 de Novembro – o dia que Whitlam devia informar o Parlamento acerca da presença secreta da CIA na Austrália – foi convocado por Kerr. Invocando a arcaica "reserva de poderes" do vice-rei, Kerr demitiu o primeiro-ministro democraticamente eleito. O problema estava resolvido. 

17/Março/2014O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/2014/03/17/the-forgotten-coup/

Crimeia – mais uma crise produzida artificialmente

Tlaxcala: 19/03/2014


Neil Clark 
Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

O ministro russo de Relações Exteriores Sergey Lavrov disse que a crise Ucrânia/Crimeia foi “produzida artificialmente, por motivos puramente geoestratégicos”. Acertou.

“Você age à moda do século 19” - MarkusSzy
, Áustria
É importante entender que não se trata de caso único, mas apenas de mais uma numa longa sequência de ‘crises’ ou deliberadamente infladas ou artificialmente criadas pelas potências ocidentais, para promover seus próprios interesses geoestratégicos.

O secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha William Hague disse que a Crimeia é (seria) a “maior crise na Europa no século 21”. Mas não é a primeira vez que políticos ocidentais falaram em tons tão alarmistas em anos recentes.

Há exatamente 15 anos, em março de 1999, foi a ‘crise’ do Kosovo – com líderes ocidentais a ‘declarar’ que, a menos que a OTAN empreendesse ação militar urgente, milhares de albaneses kosovares seriam mortos por forças sérvias, as quais, como estávamos sendo ‘informados’, estavam engajadas em brutal guerra de genocídio.

Dia 23/3/1999, o primeiro-ministro britânico Tony Blair disse, na Câmara dos Comuns: “Temos de agir para salvar de uma catástrofe humanitária milhares de homens, mulheres e crianças inocentes, da morte, da barbárie e da limpeza étnica, praticadas por uma ditadura brutal.”[1]

Também foi ‘crise’ artificialmente criada, porque o que acontecia no Kosovo era conflito de baixa intensidade entre forças iugoslavas e combatentes do Exército de Libertação do Kosovo [Kosovo Liberation Army, KLA] apoiados pelo ocidente.

O serviço do KLA era atacar forças iugoslavas, provocar resposta violenta de Belgrado, que pudesse ser usada como pretexto para a intervenção pela OTAN que destruísse um país socialista independente que resistira contra a globalização. Era indispensável criar uma ‘crise’, para justificar a ação militar da OTAN.

Quatro anos depois, foi a ‘crise’ das Armas de Destruição em Massa do Iraque. Era preciso fazer alguma coisa contra armas mortais de Saddam que nos ‘ameaçariam’ mortalmente, todos nós – disseram os líderes ocidentais. Não podíamos esperar, sequer, que os inspetores de armas da ONU concluíssem sua inspeção.

“Se não agirmos agora, voltaremos ao que já aconteceu antes e, claro, a coisa toda recomeça e ele prossegue no desenvolvimento daquelas armas e são armas perigosas, particularmente se caírem em mãos de terroristas que nós sabemos que querem usar aquelas armas se puserem as mãos nelas” – disse Blair.[2]

Dia 28/4/2003, quando ainda não se viam nem sinal de armas de destruição em massa de Saddam, Blair disse: “Antes de começarem a gritar sobre a ausência de Armas de Destruição em Massa, sugiro que esperem um pouco mais.” Já se passaram 11 anos, e ainda estamos esperando.

Na década passada, foi a ‘crise’ nuclear do Irã. Ouvimos repetidamente a elite ocidental a repetir que a República Islâmica estaria desenvolvendo armas nucleares que seriam clara ameaça não só contra o Oriente Médio, mas para o mundo inteiro. Dar conta da ‘ameaça’ nuclear iraniana seria a nossa mais urgente prioridade. Em janeiro de 2011, o secretário britânico de Defesa Liam Fox alertou que o Irã já teria armas nucleares ao final de 2012.

Mas até 2013 já se foi, e o Irã ainda não tem as tais armas nucleares.

Depois, foi a ‘crise’ da Líbia em 2011. Contaram-nos que forças do coronel Gaddafi estariam massacrando gente inocente e estavam a um passo de lançar ataque genocida contra civis em Benghazi. Mais uma vez, teríamos de lidar com mais essa ‘crise’ urgentíssima.

“Simplesmente não podemos parar e deixar um ditador cujo povo o rejeitou matar o próprio povo indiscriminadamente”[3] – declarou o primeiro-ministro David Cameron, vivendo um dos seus grandes dias de Tony Blair.

“Confrontados com essa repressão brutal e a crescente crise humanitária, ordenei que naves de guerra dirijam-se ao Mediterrâneo. Aliados europeus declararam-se dispostos a enviar recursos para deter a matança” – disse o presidente Barack Obama, dia 28/3/2011.[4] Como no caso da ‘crise’ no Kosovo e da ‘crise’ das armas de destruição em massa no Iraque, a resposta ocidental à ‘crise’ na Líbia foi também um ataque militar.

Em agosto de 2013, mais uma ‘crise’ – o ocidente a declarar que o governo sírio teria usado armas químicas mortais contra o próprio povo. Mais uma vez a conversa foi que teríamos de agir com rapidez e firmeza para enfrentar mais aquela ‘crise’. Só a diplomacia russa e a opinião pública nos países ocidentais conseguiram impedir um ataque militar, pelos EUA ou liderado pelos EUA, contra a Síria.

E agora, em março de 2014, a nova ‘crise’ é a ‘invasão’ de Putin na Ucrânia e a ameaça que a Rússia faz contra uma Ucrânia independente e ‘democrática’, embora governada fascistas. E essa, não esquecer, é “a maior crise na Europa no século 21”.
Sem Saída, por Andy Singer, EUA:“Estudos mostram que Ripoffinol cura o câncer e prolonga a vida”
FALSO
Dick Cheney: “Está provado: Iraque envolvido nos ataques de 11/9”
MENTIRA DESCARADA
De fato, nenhum dos eventos acima foi realmente crise alguma – incluindo a Crimeia. Não havia genocídio no Kosovo. O Iraque jamais teve armas de destruição em massa. O Irã não tem programa algum de produção de armas atômicas: foram, todas essas, “Crises Manufaturadas” [Manufactured Crisis]”, para usar o título do novo livro do jornalista-investigador Gareth Porter.[5]

A forças de Gaddafi não estavam massacrando civis na Líbia – nem Gaddafi algum dia ameaçou massacrar civis em Benghazi. As forças líbias faziam lá exatamente o que forças iugoslavas faziam em 1999: combatiam uma guerra contra insurgentes inflados e pagos pelo ocidente.

Na Síria, todas as provas – além da lógica mais elementar – sugerem que foram os rebeldes, não o governo sírio, que lançaram o ataque químico em Ghouta – para tentar conseguir um ataque de intervenção militar por exércitos ocidentais. E, claro, não há nem houve qualquer “invasão” russa na Ucrânia.

Mas – e aqui está o ponto mais importante – as respostas ocidentais a essas ‘crises’ criadas artificialmente, elas, sim, geraram crises reais. A ‘crise’ do Kosovo foi ‘enfrentada’ com 78 dias de bombardeio brutal na Iugoslávia, que destruiu toda a infraestrutura do país e deixou milhares de mortos e feridos; e, porque a OTAN usou bombas de urânio baixo-enriquecido, levou a um pico no número de casos de câncer. Os direitos humanos, sim, também foram gravemente feridos.

“Em nenhum local [na Europa] há tal nível de medo entre tantas minorias, depois que foram atacadas simplesmente pelo que são” – lia-se no relatório sobre o Kosovo, distribuído pelo Minority Rights Group International em 2006.

A ‘crise’ das armas de destruição em massa do Iraque levou à invasão ilegal, da qual o Iraque ainda não se recuperou, nem dá sinais de conseguir recuperar-se ainda por muito tempo – com mais de 1 milhão de mortos e o país assolado por violento conflito sectário. O ano passado foi o mais mortífero no Iraque desde 2008, com mais de 7 mil mortos. Em 2002-3 os neoconservadores não paravam de falar da ‘crise’ das armas de destruição em massa no Iraque e de como seria necessária ação urgente. Agora, que a crise é real no Iraque, estão calados.

A ‘crise’ nuclear iraniana levou a sanções draconianas impostas ao país – o que levou o povo iraniano a ter de enfrentar dificuldades extremas – (como noticiado por Russia Today) e a aumento acentuado no preço do petróleo também para a Europa, exatamente algo de que não precisávamos em tempos de forte recessão. Milhões de pessoas sofreram desnecessariamente por causa de medidas tomadas para enfrentar uma ‘crise’ que, para começar, nunca existiu.

A ‘crise’ líbia de 2011 levou a um assalto brutal, pela OTAN, contra o país, que provocou milhares de mortes; a agora a Líbia, como o Irã, é país destroçado, ainda afligido por vasto conflito. Também nesse caso, os que não paravam de falar sobre uma “crise humanitária” na Líbia em 2011 mantêm-se hoje estranhamente silenciosos.

A ‘crise’ gerada por um ataque de armas químicas que jamais aconteceu quase levou à eclosão de grande guerra regional e, pode-se supor, teria levado a uma 3ª Guerra Mundial, mas, na sua obsessão por derrubar o governo Baathista, o ocidente e seus aliados regionais ainda apoiam os rebeldes violentos e, assim prolongam o sofrimento da guerra para milhões de sírios.

Agora, outra vez estão em ação os inventores seriais de ‘crises, dessa vez tentando convencer-nos de que um referendo na Crimeia e a possibilidade de que a Crimeia, cuja população é formada de quase 60% de russos étnicos, volte à Rússia, seria uma grave ‘crise’.

E mais uma vez os passos que nos propõem – sanções contra a Rússia – só levarão a mais crises e a crises mais graves que a ‘crise’ inventada: as sanções serão desastrosas para as economias ocidentais, especialmente para as economias europeias.

Ao mesmo tempo em que as elites ocidentais esperam que percamos o sono por causa de crises artificialmente criadas, como a da Crimeia, as verdadeiras crises, as crises reais que afetam a vida de milhões de pessoas comuns no ocidente e por todo o mundo são ignoradas por aquelas mesmas elites. O aquecimento global. O número recorde de desemprego entre os jovens. A distância sempre crescente entre ricos e pobres. A queda rápida no padrão de vida das pessoas comuns em todo o ocidente. Essas são as crises que governos seriamente democráticos deveriam estar enfrentando. Em vez de enfrentá-las, a elite ocidental prefere inventar crises novas.

A história recente ensina que sempre que governos ocidentais e a empresa-imprensa que sempre lhes é servil só fazem falar de uma ‘crise’ internacional e alertar que “algo tem de ser feito”, o melhor a fazer é nada. Absolutamente nada.

Concentremo-nos em enfrentar as crises reais – a destruição do meio ambiente, o crescimento da pobreza, da desigualdade e do desemprego. E não nos deixemos enganar pelas ‘crises’ artificiais, em direção às quais as elites ocidentais tentam desviar nossa atenção.
Notas


(esq) “Verdades desagradáveis”
(dir.) “Mentiras confortadoras”
Scott Chambers, EUA

Neoconservadores atravessaram a tempestade

Tlaxcala: 17/03/2014



Robert Parry 
Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

Em meados da década passada, nuvens de tempestade acumulavam-se sobre os neoconservadores usamericanos: a ‘mudança de regime’ que tentaram n Iraque era um desastre; a “Missão Cumprida” do presidente George W. Bush era piada que se ouvia pelas ruas; a imprensa começava a publicar opiniões sobre o “lado obscuro” da atuação deles na “guerra ao terror”; e o público estava farto de sangue e dinheiro desperdiçados.
Seria de esperar que os neoconservadores tivessem sido banidos para os confins mais distantes da política usamericana, para tão longe que não se ouviria outra vez falar deles. Pois nada disso. Em vez de sumir, os neoconservadores provaram que são capazes de permanecer no poder e, agora, reemergem como arquitetos da estratégia dos EUA para a Ucrânia.

Os neoconservadores trabalharam nas coxias e instigaram o golpe de 22 de fevereiro que derrubou presidente democraticamente eleito, com a ajuda de milícias neofascistas; os neoconservadores arrrastaram a Washington oficial para um frenesi de apoio bipartidário ao governo do golpe; e agora trabalham a favor de uma nova Guerra Fria, caso o povo da Crimeia decida separar-se da Ucrânia e unir-se à Rússia.

Há algumas semanas, a maioria dos usamericanos sequer havia ouvido falar de Ucrânia e muito menos sabia que a Crimeia fosse parte da Ucrânia. Mas, de repente, o Congresso dos EUA, normalmente sempre obcecado com o déficit, já está mandando bilhões de dólares para ajudar o golpe em Kiev, como se o futuro da Ucrânia fosse a questão mais importante que o povo usamericano tivesse de enfrentar.

Até jornalistas e comentaristas que de início resistiram ao estouro da manada comandado pelos neoconservadores já se ‘alinharam’, aparentemente por medo de serem rotulados como “apologistas” do presidente Vladimir Putin da Rússia. De fato, já é quase impossível encontrar político ou ‘especialista’ midiático que não se tenha alinhado ao lado dos neoconservadores em sua posição de beligerância na questão da Ucrânia.

Pois os céus parecem ainda mais abertos para eles. Os neoconservadores podem esperar, que aparecerão ainda mais poderosos, à medida que o presidente Barack Obama vá se tornando ‘pato manco’ e, com ele, também suas iniciativas diplomáticas para a Síria e para o Irã (em parte porque a crise da Síria distanciou muito os presidentes Obama e Putin), e a Democrata (mas com clara tendência neoconservadora) Hillary Clinton já conseguiu espantar, de medo, qualquer oposição de peso à sua indicação como candidata à presidência para 2016, e até seus rivais Republicanos já se beneficiam das bênçãos dos neoconservadores.


Proeminente intelectual neoconservador Robert Kagan, filho de Donald Kagan, um historiador nascido na Lituânia e um dos signatários originais da Declaração de Princípios de 1997 do think tank neoconservador  Projeto pelo Novo Século Americano, irmão de Frederick Kagan, estudioso do American Enterprise Institute, e marido de Victoria Nuland, Secretária de Estado adjunta dos EUA para Assuntos Europeus e da Eurásia. Foto: 
Mariusz Kubik
De fato, essa virada surpreendente dificilmente seria prevista, depois que os neoconservadores arrastaram os EUA para a catastrófica guerra no Iraque e aquele horrível morticínio, que incluiu a morte e a incapacitação de dezenas de milhares de soldados usamericanos e o desperdício de talvez $1 trilhão de dólares dos contribuintes usamericanos.

Na eleição de 2006 para o Congresso, os candidatos do “Velho Grande Partido” [orig. Grand Old Party, GOP (os Republicanos)] levaram uma surra, porque Bush e os Republicanos estavam associados, muitos deles, com os neoconservadores. Na eleição de 2008, a senadora Hillary Clinton, neoconservadorista, que havia votado a favor da Guerra do Iraque, perdeu a indicação como candidata Democrata para o senador Barack Obama, que se opusera à invasão do Iraque. Na sequência, na eleição geral, Obama derrotou o porta-estandarte dos neoconservadores, John McCain, e chegou à Casa Branca.

Naquele momento, parecia que os neoconservadores enfrentavam sérios problemas. De fato, vários deles tiveram de limpar as gavetas de deixar o governo, para procurar emprego em think tanks, institutos ou fundações e em outras organizações não governamentais (ONGs) amigas de neoconservadores.

Ainda mais significativo: a grande estratégia neoconservadora parecia ter caído em descrédito. Muitos usamericanos viam o sonho dos neoconservadores, de mais ‘mudança de regime’ no Oriente Médio – em países que se opunham a Israel, principalmente Síria e Irã –, como nada além de um pesadelo sem fim de morte e destruição.

Depois de assumir o governo, o presidente Obama falou a favor do fim das guerras de Bush e de os usamericanos cuidarem melhor de “construir a nação em casa”. O grande público pareceu concordar. Até alguns Republicanos de direita estavam começando a repensar a defesa que os neoconservadores faziam de um Império usamericano, e a reconhecer o impacto devastador daquele projeto sobre a República usamericana.
O revide
Mas os neoconservadores de modo algum estavam derrotados. Eles se haviam posicionado muito espertamente.

Ainda controlavam as operações pagas pelo governo usamericano, como o Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)]; ainda mantinham posições proeminentes nos think-tanks, institutos e fundações, do Instituto da Empresa usamericana [orig.American Enterprise Institute for Public Policy Research] ao Conselho de Relações Exteriores [orig. Council on Foreign Relations] e à Brookings Institution; tinham aliados poderosos no Congresso, como os senadores McCain, Lindsey Graham e Joe Lieberman; e dominavam todos os programas de entrevistas e ‘análises’ da televisão comercial e as colunas assinadas em jornais da imprensa-empresa, especialmente no Washington Post, o jornal da capital.

Desde o final dos anos 1970s e início dos 1980s, quando pela primeira vez emergiram como força notável em Washington, os neoconservadores tornaram-se “fonte interna”. Eram, simultaneamente, admirados e temidos por sua ferocidade discursiva, mas – mais importante para sua sobrevivência de longo prazo – haviam assegurado livre acesso ao dinheiro do governo, inclusive ao dinheiro grosso do Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)], cujo orçamento passou a ser superior a $100 milhões durante os anos Bush.

O Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)], fundado em 1983, é mais conhecido por investir na “construção da democracia” em outros países (quer dizer: em campanhas de desestabilização estilo CIA, conforme o ponto de vista do leitor), mas grande parte do dinheiro do Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)] vai, na realidade, para ONGs em Washington, o que implica que viraram linha de sobrevivência para operadores neoconservadores que se viram ameaçados de desemprego com a chegada de Obama.

Enquanto defensores ideológicos de outros movimentos fracassados tiveram de voltar para casa ou mudar de profissão, os neoconservadores encontraram meios financeiros de sobrevivência (do Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)] e de outras muitas fontes), e o barco de propaganda ideológica deles pôde atravessar os dias de mau tempo.

E, apesar da oposição de Obama à obsessão dos neoconservadores com guerras sem fim, ele não os excluiu de seu governo. Neoconservadores que se haviam implantado fundo no governo dos EUA como “funcionários civis” ou “oficiais de carreira do serviço diplomático” permaneceram como “força de retaguarda”, procurando novos aliados e aproveitando o tempo.

Obama criou esse problema de “força de retaguarda” com a fatídica decisão, tomada em novembro de 2008, de encampar a tendenciosa ideia de “uma equipe de rivais”, que incluiu manter o agente Republicano (e aliado dos neoconservadores) Robert Gates no Departamento de Defesa, e pôr a Democrata-mas-com-tendências-a-falcão-Republicano Hillary Clinton, também aliada dos neoconservadores, no Departamento de Estado. Os neoconservadores, provavelmente, quase nem acreditaram na própria sorte!
De volta às boas graças do poder
Longe de terem sido marginalizados e afastados – como com certeza mereciam ser, depois do fiasco da Guerra do Iraque – neoconservadores chaves continuaram a ser alvo da mais alta e distinta consideração. Como se lê em suas memórias Duty, Gates deixou que o teórico militarista neoconservador Frederick Kagan o persuadisse a apoiar a “avançada” de mais 30 mil soldados usamericanos, enviados para a Guerra do Afeganistão, em 2009.

Gates escreveu que “uma importante estação do meu ‘pilgrim’s progress’[1] do ceticismo até o apoio a enviar mais soldados para o Afeganistão, foi um ensaio do historiador Fred Kagan, que me enviou um rascunho antes de o ensaio ser publicado.”

O secretário da Defesa, na sequência, colaborou com remanescentes do alto comando de Bush, inclusive com o general favorito dos neoconservadores, David Petraeus, e com a secretária de Estado Clinton, para empurrar Obama para cordas políticas, nas quais ele sentiu que não teria escolha senão acolher a recomendação dos dois para a “avançada”.

Obama, como se sabe, arrependeu-se da decisão quase imediatamente depois de tomá-la. A “avançada” afegã, como, antes, a “avançada” na Guerra do Iraque, custou a vida de mais mil e tantos soldados usamericanos, mas, feitas as contas, nada mudou na direção estratégica da guerra.

No Departamento de Estado de Clinton, outros neoconservadores foram postos em cargos influentes. O irmão de Frederick Kagan, Robert, neoconservador do governo Reagan e cofundador do projeto neoconservador Projeto para um Novo Século Norte-Americano [orig. Project for the New American Century], foi nomeado conselheiro do Foreign Affairs Policy Board. E a secretária Clinton também nomeou a esposa de Robert Kagan, Victoria Nuland, ao cargo de porta-voz do Departamento de Estado.

Embora a tal “equipe de rivais” de Obama tenha na sequência deixado a cena (Gates, em meados de 2011; Petraeus num escândalo sexual no final de 2012; e Clinton no início de 2013), todos esses três garantiram aos conservadores tempo crucialmente importante para respirar, reagrupar-se e se reorganizar. Assim, quando o senador John Kerry substituiu Clinton como secretário de Estado (com a considerável ajuda de seu amigo neoconservador John McCain), os neoconservadores do Departamento de Estado estavam outra vez posicionados para retorno com muito poder.

Nuland foi promovida a secretária de Estado assistente para Assuntos Europeus, e assumiu como missão principal derrubar o governo da Ucrânia, que se tornara alvo preferencial dos neoconservadore porque mantém laços próximos com a Rússia, cujo presidente Putin estava dificultando as estratégias de ‘mudança de regime’ dos neoconservadores na área que eles mais valorizam, o Oriente Médio. Pior ainda: Putin estava ajudando Obama a evitar guerras na Síria e no Irã.

Assim, como o presidente do Fundo Nacional para a Democracia [orig. National Endowment for Democracy (NED)] Carl Gershman escreveu no Washington Post em setembro de 2013,[2] a Ucrânia tornou-se “o maior prêmio”; mas acrescentou que alvo ainda mais sumarento, além da Ucrânia, era Putin, o qual, Gershman acrescentou, “pode descobrir-se no lado perdedor, não na região próxima, mas dentro da própria Rússia.”

Em outras palavras, o objetivo final no jogo da Ucrânia não é só ‘mudança de regime’ em Kiev, mas ‘mudança de regime’ em Moscou. Se conseguir livrar-se de Putin, homem de pensamento independente e vontade firme, os neoconservadores, ao que parece, deliram com conseguir pôr um de seus delegados (talvez uma versão russa de Ahmed Chalabi) no Kremlin.

Isso feito, então os neoconservadores poderão avançar, sem impecilhos, na direção de seu plano original de ‘mudança de regime’ no Oriente Médio, com guerras contra a Síria e o Irã.

Fato tão perigoso – e ensandecido – como essa visão dos neoconservadores (que levanta o espectro de possível confronto nuclear entre EUA e Rússia), os neoconservadores parecem estar claramente de volta ao controle da política exterior dos EUA. E em posição na qual quase não podem perder, se se consideram os seus exclusivos interesses, tome a crise da Ucrânia o rumo que tomar.

Se Putin recuar ante os ‘ultimatos’ dos EUA sobre Ucrânia e Crimeia, os neoconservadores poderão bater no peito e declarar que os mesmos ultimatos devem ser feitos aos outros alvos dos neoconservadores, i.e. Síria e Irã. E se esses países não se submeterem, não haverá escolha, além de deixar que os EUA ponham-se a bombardeá-los, com mais “choque e pavor”.

Por outro lado, se Putin não recuar e a Crimeia decidir separar-se da Ucrânia e voltar a ser parte da Rússia (país com o qual a Crimeia mantém laços antigos, desde os 1700s de Catarina a Grande), nesse caso os neoconservadores surfarão a onda do ultraje da Washingto oficial, e exigirá que Obama extinga qualquer via para qualquer futura cooperação com Putin – o que deixará aberta a via para os EUA escalarem no confronto com Síria e Irã.

Ainda que Obama consiga se manter à tona, e contorne as exigências dos neoconservadores por mais dois anos, sua estratégia conciliatória, de colaboração com Putin para resolver as questões com Síria e Irã estará já morta, ao final de seu mandato. Os neoconservadores bem podem esperar que suas próprias velas voltem a inflar-se, quando, seja uma Hillary Clinton presidente, seja algum outro Republicano (que precisará do apoio dos neoconservadores) chegue à Casa Branca em 2017.

Mas os neoconservadores já podem começar a comemorar. Conseguiram atravessar a tempestade.
NTs
[1] Referência a The Pilgrim's Progress from This World to That Which Is to Come; Delivered under the Similitude of a Dream [O Avanço do Peregrino, desse mundo até o próximo; Apresentado sob a forma de um sonho] é uma alegoria cristã do caminho de vida do cristão, escrita por John Bunyan e publicada em 1678. A teologia protestante explícita de The Pilgrim's Progress tornou-o muito popular. Em 2004 e 2008, um espetáculo musical (letras e músicas de Kenneth Wright), foi apresentado no LifeHouse Theater, em Redlands, California [com informações de wikipedia].

EUA e Rússia concordam em deixar rolar a bola na Ucrânia

Tlaxcala: 17/03/2014

MK Bhadrakumar 
Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

Conforme já escrevi no postado de ontem– e diferente do que a imprensa-empresa está informando (que a reunião de cinco horas entre os ministros de Relações Exteriores da Rússia e dos EUA em Londres na 5ª-feira teria fracassado) – os dois diplomatas, sim, abriram uma via para negociações sérias.
Mural fresco em Sevastopol: Putin salvando o povo da Ucrânia
O entendimento alcançado na reunião de Londres parece ser que o referendo na Crimeia prosseguirá, mas a Rússia adiará a decisão de responder ao resultado do referendo; e que Moscou e Washington manterão as consultas.

Por sua vez, os EUA e seus aliados podem vir a impor sanções contra a Rússia, além das sanções apenas cosméticas anunciadas antes.

Significativamente, foi o secretário de Estado dos EUA John Kerry quem telefonou ao ministro russo de Relações Exteriores Sergey Lavrov, no sábado. Isso apesar de já se saber que o referendo na Crimeia seria, sim, realizado no domingo, e da alta probabilidade de que o povo escolha unir-se à Rússia.

Já estava claro, de fato, desde quando Kerry informou o presidente Obama sobre o andamento dos entendimentos em Londres e retornou para retomar a conversação com Lavrov.

O Ministério de Relações Exteriores em Moscou revelou: “Lavrov e Kerry concordaram em manter os contatos em busca de solução para a situação na Ucrânia, com reforma constitucional a ser feita o mais depressa possível, acompanhada pela comunidade internacional de forma aceitável para todos, com o devido respeito aos interesses de todas as regiões da Ucrânia.”

Sim, é importante passo adiante e bem obviamente foi ideia que Obama já adiantara. De fato, a ideia pode ser que se deve encontrar meio pelo qual as reformas constitucionais na Ucrânia respeitem também os interesses vitais da Rússia.

O pensamento parece ser fixar fundamentos constitucionais que assegurem que o governo em Kiev não poderá impor decisões inaceitáveis para a Crimeia ou outras regiões do campo russo. Significa que nenhum maioritarismo pode prevalecer numa sociedade multicultural como é a Ucrânia.

O Ministério de Relações Exteriores da Rússia falou de um papel a ser desempenhado pela comunidade internacional “de forma aceitável para todos” – o que significa que a Rússia poderia estar diretamente envolvida de algum modo em qualquer processo que leve a mudanças constitucionais na Ucrânia.

A declaração do Ministério de Relações Exteriores da Rússia também dava a impressão de que Washington está sensível à profunda ansiedade que se vê em Moscou, ante a ascensão ao poder de grupos ucranianos ultranacionalistas.

Lavrov procurou a intervenção de Washington junto às autoridades em Kiev para pôr sob controle aqueles grupos radicais; e Kerry, parece, respondeu que os EUA estavam agindo e seus esforços dariam resultado. Lavrov e Kerry concordaram em manter futuros “encontros de trabalho” sobre a Ucrânia.

Notícias de Kiev sugerem que foi aberto o acesso a bases militares ucranianas e a instalações na Crimeia, para reabastecimento de suprimentos ao pessoal, nos dois casos. Deve-se pressupor que os ministros da Defesa de Rússia e Ucrânia estiveram em contato. Se foi assim, é mais um sinal de que as previsões catastrofistas da imprensa-empresa sobre as conversações de Londres e as recriminações retóricas estão comprovadamente erradas. 

quarta-feira, março 19, 2014

Direitos telefônicos bloqueados

Idec - 11 março 2014


Pesquisa do Idec aponta que as empresas ainda não fornecem informações adequadas aos consumidores de celulares pré-pagos e ainda cobram mais de quem prefere validades maiores, apesar do preço por minuto ser muito mais caro do que nos planos pós.
 
Esse levantamento faz parte da mobilização do Idec, em conjunto com a Consumers International, que este ano tem como mote de campanha para o Dia Mundial do Consumidor os direitos dos consumidores na telefonia: “Telefônicas: desbloqueiem nossos direitos”.
 
O número de linhas da telefonia móvel tem aumentado vertiginosamente desde que o celular chegou ao território brasileiro. Em janeiro deste ano, já eram 272.353.241, de acordo com dados da consultoria Teleco. Destas, 212.293.343 (77,95%) são pré-pagas. Considerando a popularidade dessa modalidade e que o tema escolhido pela Consumers International (CI) para o próximo Dia Mundial do Consumidor - comemorado em 15 de março - é “Telefônica: Desbloqueiem nossos direitos”, o Idec fez uma pesquisa para avaliar o serviço prestado aos usuários de chips pré-pagos das quatro maiores operadoras do país: Claro, OI, TIM e Vivo. 
 
Como foi feita a pesquisa
 
A pesquisa, realizada entre janeiro e fevereiro, com recursos do projeto da Fundação Ford, teve como objetivo avaliar o serviço prestado pelas quatro maiores operadoras que atuam no país – Claro, OI, TIM e Vivo – aos usuários de celulares pré-pagos.
 
Os chips foram comprados em postos alternativos (banca de jornal e loja C&A) para avaliar se os funcionários desses estabelecimentos fornecem ao consumidor informações sobre o produto que ele está adquirindo.
 
Numa segunda etapa, avaliamos se as operadoras oferecem créditos com validade de 90 e 180 dias, obrigatórios de acordo com o regulamento do setor. Verificamos ainda o serviço de consulta de saldo; se o prazo para envio do relatório detalhado de chamadas é cumprido, assim como se ele apresenta todas as informações estabelecidas pelo regulamento; e se é possível transferir os créditos não utilizados para outra operadora em caso de portabilidade, assim como receber o dinheiro pago por eles de volta em caso de cancelamento.
 
Também verificamos, no site das empresas, os preços dos minutos nos planos pré-pagos, assim como as mensalidades e tarifas excedentes nos planos pós-pagos mais baratos de cada uma. 
 
Os resultados você confere a seguir:
 
  1. Operadoras não cumprem o direito à informação dos consumidores
  2. Operadoras informam prazos de validade e preços diferentes no SAC e site 
  3. As ligações pré-pagas são mais caras
  4. Nem sempre as empresas informam o saldo disponível para ligações
  5. Relatório de chamadas não chega no prazo estipulado por regulação
  6. Somente a Claro permite a portabilidade de crédito e nenhuma devolve o valor em caso de cancelamento, segundo informações do SAC

Confira a resposta das empresas aos resultados da pesquisa:
Oi -  a empresa não respondeu até o fechamento da matéria

"Mais celulares, mas quantos direitos?" - Artigo da advogada do Idec Veridiana Alimonti, responsável pela pesquisa

 Entrega de contrato na compra do chipInformações do site coincidem com o SACCumprem prazo de 48 horas para o envio de relatório de chamadasPortabilidade de créditosDevolvem o valor dos créditos em caso de cancelamento
Claro
Oi
TIM
Vivo

domingo, março 16, 2014

Ukraine: vers un plébiscite pour l'union de la Crimée à la Russie

Publié le 16-03-2014 Modifié le 16-03-2014 à 21:06

par RFI

mediaDes partisans criméens du rattachement à la Russie. Place centrale de Simferopol, le 16 mars 2014.REUTERS/Thomas Peter

Ils ont été nombreux à voter au référendum sur le rattachement de leur région à la Fédération russe : plus de 80%, selon l'agence de presse russe Interfax. Et c'est un plébiscite, si l'on en croit une autre agence de presse russe, RIA, qui s'appuie sur un sondage de sortie des urnes réalisé par l'institut criméen de recherche politique et sociale. Selon ce sondage, 93% des électeurs de Crimée se sont prononcés pour l'union à la Russie. Le Premier ministre criméen annonce que le rattachement sera officiellement demandé ce lundi.

Plus de 80% de participation, 93% d'électeurs favorables à l'intégration de la Crimée à la Russie. Telles sont les premières estimations du scrutin référendaire tant décrié organisé en Crimée. De quoi ravir les plusieurs milliers de pro-russes, qui s'étaient rassemblés sur la place centrale de Simferopol en début de soirée, devant l'estrade installée depuis une semaine par les autorités séparatistes de la péninsule.

Peu avant l'annonce des premières estimations, sur la scène, des groupes de danse folklorique ont succédé aux orateurs chargés d'annoncer au fil de la soirée les résultats, a relaté notre envoyé spécial sur place, Daniel Vallot. Dans la foule : une véritable forêt de drapeaux russes et criméens étendus sous la statue de Lénine et devant le siège des autorités locales. Mais aussi des slogans favorables à la Fédération russe, à Vladimir Poutine. A l'annonce du premier sondage, les gens se sont mis à faire la fête. Idem à Sébastopol.

→ À (RE)LIRE : « La Crimée a tout à gagner en se tournant vers la Russie »

Vladimir, pro-Russe croisé sur la place Lénine de Simferopol16/03/2014 - par Daniel Vallot

Écouter

Sergueï Axionov, le dirigeant séparatiste qui s'est emparé du pouvoir il y a deux semaines, et qui a mené à son terme ce référendum - qualifié d'illégal par l'Ukraine, par les Etats-Unis et en Europe -, est lui aussi célébré par la foule ce dimanche soir. Après l'annonce des premières estimations, il s'est réjoui du choix « historique » opéré par les habitants de la péninsule. Et d'annoncer que la Crimée demandera officiellement son rattachement à la Russie lundi.

Aux Etat-Unis, la Maison Blanche « rejette » le scrutin et prévient que la Russie devra assumer un « coût accru » pour son intervention militaire, considérée à Washington comme une violation du droit international. Le scrutin s'est déroulé en présence de troupes russes, qui contrôlent la région depuis deux semaines aux côtés de milices séparatistes. Avant même l'annonce des premières tendances, le drapeau de la Russie surplombait déjà les bâtiments officiels de Sébastopol, port d'attache historique de la flotte russe en Crimée.

→ À (RE)LIRE : Chez les Tatars de Simferopol, l'abstention

Natalia, pro-Russe, a voté à Simferopol ce dimanche16/03/2014 - par Daniel Vallot Écouter

La communauté russophone s'est fortement mobilisée. Quant aux adversaires au rattachement à la Russie, qu'il s'agisse des Tatars et des habitants de souche ukrainienne, ils ont fait profil bas. Aucun rassemblement n'a été organisé durant cette journée de vote, qui s'est déroulée sans incident majeur. Les partisans de l'Ukraine avaient appelé au boycott du référendum, le qualifiant d'illégal. A l'avance, ils estimaient que les résultats en seraient falsifiés.

Mais qu'à cela ne tienne, l'issue de ce bras de fer est scrutée avec la plus grande attention dans les autres régions ukrainiennes. A l'issue d'une manifestation en faveur du rattachement à la Russie, tenue ce dimanche 16 mars sous les averses de pluie et de neige, des manifestants pro-russes ont pénétré dans les sièges du parquet et des services spéciaux à Donetsk, une ville russophone de l'est du pays.

→ À (RE)LIRE : L’est de l’Ukraine tourné vers le référendum en Crimée

Comme le rapporte notre envoyé spécial sur place, Laurent Geslin, les pro-Russes de Donetsk entendaient compter leurs forces et réclamer la libération de Pavlo Goubarev, l'homme qui s'est auto-proclamé gouverneur de la région et revendiquait le droit à un vote pour un rattachement à la Russie - avant d'être arrêté le 6 mars dernier. Mais seules quelques milliers de personnes se sont rassemblées place Lénine, dans le centre de la capitale du Donbass, avant de se diriger, dans un premier temps, vers le parquet régional.

Après quelques minutes de face-à-face avec les forces de l'ordre, et sans que la police n'oppose la moindre résistance, les protestataires ont finalement investi le bâtiment et hissé le drapeau russe. Puis le même scénario s'est répété une heure plus tard devant le siège du SBU, les services secrets ukrainiens. Comme les semaines précédentes, les manifestations pro-russes de Donestk sont donc loin de mobiliser les foules, mais les nouvelles autorités nommées par Kiev dans la région semblent totalement incapables de prendre le contrôle des forces de police.

Despojos de guerra e mudança de regime

resistir info – 16 mar 2014

Reservas-ouro da Ucrânia evacuadas secretamente

– Confiscadas pelo New York Federal Reserve?
– Como os ucranianos foram "libertados" do seu ouro pelo governo fantoche
– Um governo de banqueiros, fascistas e oligarcas imposto pelo golpe orquestrado pelos EUA

por Michel Chossudovsky

Patos ucranianos.Um sítio internet russo de notícias, o Iskra (Fagulha)com base em Zaporozhye, na Ucrânia do Leste, informou em 7 de Março que "as reservas de ouro da Ucrânia haviam sido apressadamente transportadas por via aérea para os Estados Unidos a partir do Aeroporto de Borispol, a Leste de Kiev.
Esta alegada remoção aérea e confisco das reservas ouro da Ucrânia pelo New York Federal Reserve não foi confirmada pelos media ocidentais.
Segundo o
Iskra News :

Às 2 horas da manhã [7 de Março] um avião de transporte não identificado estava na pista do Aeroporto de Borispol. Segundo a equipe do aeroporto, antes da vinda do avião chegaram ao local quatro camiões e dois minibuses Volkwagen, todos eles sem matrícula de identificação.
Quinze pessoas com uniformes negros, máscaras e armadura corporal saíram, alguns armados com metralhadoras. Eles carregaram o avião com mais de 40 caixas pesadas.
Depois disso chegou um homem misterioso que entrou no avião.
Todo o carregamento foi feito às pressas.
O avião decolou numa base de emergência (emergency basis).
Aqueles que assistiram esta misteriosa operação especial imediatamente notificaram os responsáveis do aeroporto, os quais lhes disseram para não se meterem nos assuntos dos outros.
Posteriormente um telefonema de resposta de um alto responsável do antigo Ministério das Receitas Fiscais (Ministry of Revenue) informou esta noite que, por ordens de um dos novos líderes da Ucrânia, os Estados Unidos haviam tomado a custódia de todas as reservas ouro na Ucrânia. iskra-news.info. Zaporozhye, Ukraine, March 7, 2014, traduzido do russo pelo
Gold Anti-Trust Action Committee Inc (GATA) , ênfase acrescentada)

A seguir a esta revelação, o secretário tesoureiro do GATA, Chris Powell, requereu ao New Federal Reserve e ao Departamento de Estado dos EUA que indicasse se o NY Fed havia "tomado a custódia" do ouro da Ucrânia.

Um porta-voz do New York Fed disse simplesmente: "Qualquer indagação respeitante a contas ouro deveria ser dirigida ao possuidor da conta. Você pode contactar o Banco Nacional da Ucrânia para discutir esta informação".
Uma indagação semelhante do GATA, na noite passada, ao Departamento de Estado dos EUA ainda não teve qualquer resposta.
Na noite passada o GATA chamou a atenção sobre este assunto a cerca de 30 jornalistas financeiros e redactores de newsletters "de referência" (mainstream) na esperança confessadamente bizarra de que pudessem também colocar a questão.
1) A primeira regra do jornalismo financeiro "de referência" e particularmente do jornalismo financeiro acerca do ouro é nunca apresentar uma pergunta específica acerca do metal monetário a qualquer dos participantes primários no mercado do ouro, os bancos centrais. Ou seja, quase toda a informação sobre o mercado do ouro é, intencionalmente, na melhor das hipóteses distracção irrelevante e na pior desinformação.
2) A verdadeira localização e disposição das reservas ouro nacionais são segredos muito mais sensíveis do que a localização e disposição de armas nucleares. Chris Powell, Secretary/Treasurer
Gold Anti-Trust Action Committee Inc.

Apesar da informação não confirmada respeitante às reservas ouro da Ucrânia não ter sido objecto de cobertura pelos noticiários financeiros "de referência", a história no entanto foi levantada pelo Shanghai Metals Market, em Metal.com , o qual declara, citando uma informação do governo ucraniano, que reservas ouro da Ucrânia haviam sido "removidas num avião ... de Kiev para os Estados Unidos... em 40 caixas seladas" carregadas numa aeronave não identificada.
A fonte não confirmada citada pelo Metal.com diz que a operação de remoção aérea do ouro da Ucrânia foi ordenada pelo primeiro-ministro interino Arseny Yatsenyuk tendo em vista manter seguras no NY Fed as reservas ouro da Ucrânia, prevenindo uma possível invasão russa a qual levaria ao confisco das mesmas.
No dia 10 de Março, o
kingworldnews , um importante blog financeiro online publicou uma entrevista incisiva de William Kaye , administrador do hedge fund Pacific Group Ltd., com sede em Hong Kong, o qual anteriormente trabalhou para a Goldman Sachs em fusões e aquisições.
Os despojos de guerra e a mudança de regime
Acto de vassalagem.É significativa nesta entrevista com William Kaye a analogia entre a Ucrânia, o Iraque e a Líbia. Não se deve esquecer:   tanto o Iraque como a Líbia tiveram as suas reservas ouro confiscadas pelos EUA.

Kaye: Há agora informações vindas da Ucrânia de que todo o ouro ucraniano foi removido por via aérea, às 2 horas da madrugada, a partir do aeroporto principal, Borispil, em Kiev, e está a ser transportado para Nova York – sendo o presumível destino o New York Fed...
Verifica-se que estas 33 toneladas de ouro valem algo entre US$1,5 e US$2,0 mil milhões. Essa quantia seria um pagamento inicial (down payment) muito lindo para os US$5 mil milhões que a secretária de Estado Assistente Victor Nuland gabou-se de os Estados Unidos terem gasto nos seus esforços para desestabilizar a Ucrânia e instalar ali o seu próprio governo não eleito.
Eric King: "Se os Estados Unidos derrubam Saddam Hussein no Iraque ou Muamar Kadafi na Líbia, parece que há sempre ouro no fim do arco-íris, do qual então os EUA apropriam-se".
Kaye: "Essa é uma boa observação, Eric. Os Estados Unidos instalaram um antigo banqueiro na Ucrânia o qual é muito amistoso para com o ocidente. Ele é também um rapaz com experiência de banco central. Esta teria sido a sua primeira grande decisão:   transportar aquele ouro para fora da Ucrânia, para os Estados Unidos.
Você pode recordar que exigências alegadamente logísticas impediram o New York Fed de devolver à Alemanha as 300 toneladas de ouro que os Estados Unidos armazenam. Após um ano de espera, o New York Fed devolveu apenas 5 toneladas de ouro à Alemanha. Só 5 toneladas de ouro foram enviadas do Fed para a Alemanha e não eram as mesmas 5 toneladas que haviam sido originalmente armazenadas no Fed.
Mesmo o Bundesbank admitiu que o ouro que lhes fora enviada pelo New York Fed tinha de ser fundido e testado quanto à pureza porque não eram as barras originais da Alemanha. Se isso é assim, uma vez que exigências logísticas supostamente são uma questão tão grande, como é que num voo, assumindo que esta informação é correcta, todo o ouro que a Ucrânia possuía no seu cofre foi retirado do país e entregue ao New York Fed?
Penso que qualquer um com células cerebrais activas sabe que tal como a Alemanha, a Ucrânia terá de esperar um tempo muito longo e provavelmente nunca verá aquele ouro outra vez . Significa que o ouro se foi". (
KingsWorldNews , March 10, 2014, ênfase acrescentada)

Ver no sítio web oficial do Banco Nacional da Ucrânia a omissão da informação quanto à entrega das suas reservas-ouro:

  • www.bank.gov.ua/control/en/index
    O original encontra-se em www.globalresearch.ca/...
  • EPAL cortou água a quase 12 mil famílias em 2013

    jornal I - publicado em 15 Mar 2014 - 19:32

    Por Filipe Paiva Cardoso

    Água -consumo

     

    Em 2013, ano do "enorme aumento de impostos", interrupções por falta de pagamento cresceram 15%. No ano anterior, tinham subido 2%

    A EPAL cortou o abastecimento de água a 11 836 clientes domésticos ao longo de 2013, um valor que representa uma subida de 15,41% face aos cortes realizados em 2012 pela mesma empresa e de 17,8% em comparação com as interrupções por falta de pagamento realizadas em 2011.

    Os números foram esta semana avançados pelo Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia em resposta ao grupo parlamentar do Partido Comunista Português.

    Segundo os dados avançados pelo ministério, em 2011 a EPAL cortou o fornecimento de água por falta de pagamento a 10 mil famílias, tendo no ano seguinte aumentado as suspensões no abastecimento a 10,2 mil clientes domésticos, uma subida de 2,1% de 2011 para 2012.

    Em 2013, ano do "enorme aumento de impostos" do governo CDS/PSD, a evolução do total de clientes que foram impedidos de ter água em casa cresceu em 15,41%, com mais de 11,8 mil famílias a serem alvo de interrupções de fornecimento por parte da EPAL.

    A Empresa Portuguesa de Águas Livres é responsável pelo abastecimento de água à cidade de Lisboa, contando por isso, segundo os números do ministério, com 300 mil clientes domésticos. Os cortes realizados no ano passado afectaram assim 3,9% dos seus clientes, depois de em 2012 terem afectado 3,4%.

    Ainda segundo a resposta da tutela ao PCP, "as suspensões de fornecimento de água não são necessariamente motivadas por impossibilidade de pagamento justificada por razões de ordem económica". O ministério refere ainda que "nos números relativos a 2013, apenas 0,03% das suspensões diziam respeito a beneficiários da tarifa social".

    CORTES CAEM 4% EM AVEIRO Além da EPAL, o ministério avançou ainda números sobre os cortes por falta de pagamento feitos pela Águas da Região de Aveiro (AdRA), notando-se aqui uma evolução inversa à da EPAL de 2012 para 2013: as suspensões de fornecimento de água passaram de seis mil em 2011 para 5,8 mil no ano seguinte. Já no ano passado, o valor caiu até aos 4,9 mil, o equivalente a 3% dos 152 mil clientes domésticos servidos pela AdRA. Neste caso, assegura a tutela, "apenas 0,01% das suspensões de fornecimento de água diziam respeito a beneficiários da tarifa social".