"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, julho 17, 2009

Rondon e Cruls no rio Cuminá

Por Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 15 de Julho de 2009

‘Quosque eadem’

“Recebo carta amiga contando a morte de Gastão Cruls (...) Imagino a saudade com que todos estão recordando aqueles convites para a Rua Amado Vervo, na pequena casa decorada com lembranças da viagem ao Amazonas, o sorriso enternecido à lembrança de suas brincadeiras, que tinham um perfume de meninice, de primeiro-de-abril antigo - os presentinhos anônimos, os cartões disparatados que deixavam risonhos e intrigados os seus destinatários”.
(Rachel de Queiroz - Revista O Cruzeiro - 29 de Agosto de 1959)

Luís Ferdinand Cruls

O astrônomo Louis Ferdinand Cruls nasceu na província de Brabante, Bélgica. Após concluir o curso de engenharia, serviu no exército belga como engenheiro militar de 1869 a 1872. Em 1874, participou da viagem inaugural do paquete ‘Orénoque’ rumo ao Brasil e, em 1875, publicou um trabalho sobre métodos de repetição e reiteração para leitura de ângulos. O reconhecimento pela excelência do seu trabalho permitiu que fosse admitido como Adjunto no Imperial Observatório do Rio de Janeiro. Seis anos depois assumiu o cargo de diretor do Observatório.

“No Observatório, de que era Diretor o Dr. Luís Cruls, praticava, a mesma ocasião, meu companheiro na jornada de 15 de novembro, Tasso Fragoso, e ambos fomos trabalhar sob a direção do astrônomo Dr. Morize”. (Alferes Aluno Rondon)


Rondon teve seu primeiro contato com os Cruls, em 1890, quando foi designado, pelo Chefe da ‘Comissão Construtora da Linha Telegráfica de Cuiabá ao Araguaia’, Major Antônio Ernesto Gomes Carneiro, para aperfeiçoar a pratica de observações astronômicas e determinação de coordenadas geográficas no Observatório Nacional, antigo Imperial Observatório que teve sua denominação alterada após a proclamação da república.Em 1892, Cruls chefiou a expedição científica denominada ‘Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil’. A Comissão, conhecida como Missão Cruls, tinha como meta estudar a orologia, condições climáticas e higiênicas, natureza do terreno, qualidade e quantidade de água e uma série de outros quesitos da área do Planalto Central, onde seria construída a futura capital do país, Brasília.- Gastão Luís Cruls

Gastão Cruls, médico sanitarista, geógrafo, astrônomo e romancista, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 4 de maio de 1888, e nela faleceu a 7 de junho de 1959. Formou-se em Medicina em 1910, especializando-se em medicina sanitária. A partir de 1926 dedicou-se exclusivamente à literatura. De 1931 a 1938 dirigiu a revista literária Boletim de Ariel. Suas obras procuravam retratar a vida brasileira, em especial a realidade Amazônica. Seu romance ‘A Amazônia Misteriosa’ (1925), baseado nas mitológicas amazonas, foi transformado em filme em 2005, com o título de ‘Um Lobisomem na Amazônia’. A sua obra embora tenha como cenário a região norte do país, era ainda desconhecida pessoalmente pelo autor. Em 1928, Cruls resolveu conhecê-la pessoalmente acompanhando a expedição do General Rondon, que subiu o rio Cuminá até os campos do Tumucumaque nos anos de 1928 e 1929. A viagem iniciou a 13 de setembro de 1928 e, Cruls retornou após ter chegado aos campos situados ao sul da cordilheira do Tumucumaque, seguindo o conselho de Rondon, enquanto esse e sua equipe continuaram até chegar às próprias cordilheiras. O livro ‘A Amazônia que eu vi’ é fruto sua viagem que Cruls relata na forma de diário de viagem. O relato de Cruls, ao contrário dos demais viajantes que o antecederam, não possuía nenhum interesse econômico, e outros integrantes da equipe, por sua vez, se encarregavam dos objetivos científicos, sua função na expedição era simplesmente de ser o seu ‘cronista’. Cruls demonstra, ao contrário dos pesquisadores europeus, um profundo respeito pela cultura regional reportando as informações colhidas junto aos membros mais humilde da expedição.

- A Nomeação de Rondon

“A 15 de janeiro de 1927, recebia eu o seguinte ofício do General Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra:
N° 36. - Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1927.

Ao Exmo. Snr. General da Divisão, Candido Mariano da Silva Rondon

Do Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra.

Sr. General,

Comunico a V. Excia. que o Sr. Ministro, por Aviso n° 9 de 8 do corrente, declara que vos nomeou para proceder a minuciosa inspeção das fronteiras do país, para estudar as condições de seu povoamento e segurança. Outrossim, declara que ora providencia para que, pelo Estado Maior do Exército, sejam organizadas as respectivas instruções.

Saúde e Fraternidade

(a) Gen. E. Pamplona.

- Início da ‘Campanha

’
“Era desejo do Presidente Washington Luiz que a inspeção ficasse concluída até o fim do seu governo. O Ministro da Guerra, General Nestor Sezefredo dos Passos, daria todo o seu apoio, proporcionar-me-ia todos os recursos e o Estado Maior do Exército baixaria as devidas instruções. Para organizar a Comissão, mobilizei meus antigos companheiros de sertão, os veteranos da Comissão Telegráfica. Só a 1° de junho pude instalar a sede da ‘Inspeção Fronteiras’ em uma sala do Instituto dos Surdos Mudos, e iniciar a campanha. Emprego a palavra ‘campanha’, para destacar as fases do programa a realizar - significa ‘rumo ao campo’, isto é, ao sertão ou à fronteira e se traduz nas expedições organizadas cada ano, de acordo com as Diretorias do Estado Maior do Exército e. com os recursos ou verbas orçamentárias de que podia dispor. E o lema dessas campanhas era sempre: ‘Vencer, até o impossível!’ Tracei o plano de iniciar a inspeção pelo Norte, dividindo o trabalho em dois setores de ação: o das fronteiras do Estado do Pará, com três turmas, e o das fronteiras do Amazonas com cinco.A 17 de agosto, embarcava eu no Prudente de Moraes. A Capitania do Porto permitiu a saída do paquete em péssimas condições e levamos arrastando-nos, porque a maior parte do tempo só funcionava uma das caldeiras. Nos portos, iam elas sendo reparadas e em Belém, onde só chegamos a 3 de setembro, aproveitei nova pausa forçada para visitar a primeira seção da Estrada de Ferro de Bragança. No trem especial de inspeção seguiu conosco, entre outros, o Dr. Gastão Cruls.A 7 de setembro, ancorávamos em Óbidos, onde o Major Polidoro Barbosa e o Tenente Adriano Silveira, da turma da Guiana Holandesa, vieram-me informar sobre os serviços que lhes haviam sido confiados”. (Rondon)


- 13 de Setembro de 1928

“A 13, saíamos de Óbidos para a fronteira holandesa, penetrando no Trombetas pelo furo Maria Teresa. Tomei a penetração pelo Trombetas e seu afluente da margem esquerda, o Cuminá, como eixo principal da exploração, rumo aos afamados Campos Gerais - pela primeira vez descobertos pelo Padre Nicolino e que a exploração de Madame Coudreaux levou até às proximidades da fronteira - cerca de 150 quilômetros aquém da nascente do Cuminá. Era a cordilheira Tumucumaque, divisa com a Guiana Holandesa, considerada inacessível pelo lado brasileiro. Em vista de suas dificuldades, tomei a mim a chefia dessa expedição”. (Rondon)“A partida estava marcada para as treze horas, quando a Amazonina largou da ponte, começando a subir o Amazonas. Daqui até a primeira cachoeira do Erepecurú, teremos o relativo conforto de uma alvarenga, que é rebocada pela lancha. a gasolina. O Amazonas, defronte a Óbidos, experimenta a maior angustia do seu percurso: grossas águas que se afundam a mais de cem metros, mas não abarcam dois quilômetros de largura. Aí, segundo Paul Le Cointe, pode-se calcular que, durante a cheia, passam, por minuto, de quatro a doze milhões de metros cúbicos d’água”. (Cruls)- 14 de Setembro de 1928

“A 14, largou nossa embarcação para o acampamento do Tronco, início das cachoeiras do Cuminá - e dos embaraços que se sucederiam em série ininterrupta”. (Rondon)
“Aí ele se acresce de águas do Jamundá, que lhe envia um braço robusto. Como se vê não devemos andar longe do Reino das Amazonas, pois foi á foz desse último rio que as lendárias guerreiras atacaram a Orellana e os de sua comitiva: ‘Aqui dimos de golpe en la buena tierra y señorio de las Amazonas’, diz Frei Gaspar de Carvajal, o cronista da viajem, que conheceu de perto a força das nossas Icamiabas, recebendo na ilharga um valente flechaço. Seja real ou fictícia a remota existência da decantada gimnocracia pátria, o fato é que é nesta zona que se encontram os famosos amuletos, servindo de insígnia á mesma tribo, e que têm dado motivo a tantas controvérsias. Na verdade, sobretudo á margem setentrional do Amazonas e, principalmente, da costa do Parú às cercanias do Jamundá devem-se quase todas as pedras verdes até hoje conhecidas, conforme assinala Barboza Rodrigues, num dos seus trabalhos sobre o assunto. Ainda em Belém, confirmou-me essa asserção o Dr. Carlos Estevão de Oliveira, autor de memória ainda inédita sobre o mesmo tema e em mãos de quem (com que inveja o escrevo!) pude admirar dois dos mais belos muirakitãs que já tenho visto. São eles duas peças zoomórficas, ambas representando rãs, abertas no mais puro jade, e em tudo iguais a uma que é reproduzida nas páginas de Barboza Rodrigues e eu aproveitei para ilustrar a capa da minha ‘Amazônia Misteriosa’, nas suas primeiras edições”. (Cruls)- 16 de Setembro de 1928

“A 16 de setembro, atingimos a cachoeira do Mel. Era o início da segunda série de grandes tropeços da navegação do Curimá. A largura do rio, de 400m. acima da cachoeira do Inferno, reduzira-se a 200, na do Mel. onde fizemos acampamento”. (Rondon)
“Travei hoje conhecimento direto com as águas do Cuminá. Sendo o primeiro, o banho não podia deixar de ser dos mais cautelosos. É que se não via nada de atemorizante, tinha a cabeça povoada de bichos horrendos: venenosas arraias de ferrão em riste, famélicas piranhas, traiçoeiros candirús, poraquês eletrizantes, e, até qualquer enorme sucurijú que, ao menor descuido, me transformasse em almôndega, no arrocho dos seus anéis. Assim, foi banho quase que de praia, apenas com o tempo bastante para rápidos mergulhos. Também, mesmo que o quisesse, a pedra era muita e não permitiria amplos movimentos natatórios”. (Cruls)- 28 de Setembro de 1928

“O Gertum, ontem à noite, travou conhecimento com uma tocandira, das mais famosas formigas daqui, não só pelo tamanho, como pelos terríveis efeitos de sua picada. Tão depressa ele foi mordido, em um dos dedos, sentiu logo dormência em todo o braço e, pouco depois, tinha o gânglio axilar a reagir.
Com tudo, foi sempre mais benigna essa reação do que aquela sofrida por Spruce que, vítima do mesmo acidente, se sentiu mal por várias horas, com febre alta e vômitos repetidos. É verdade que o naturalista inglês foi atacado por muitas delas. E dizer-se que em muitas tribos indígenas se fazia da picada dessas formigas uma prova de resistência física, exigida aos rapazes que se queriam emancipar. Há mesmo quem afirme ser de uso entre os ritos matrimoniais dos Urucuyanas, fecharem-se hermeticamente os noivos numa rede cheia das mesmas formigas. Assim, os dois jovens, no afã de se livrarem de tão incômodos hóspedes, rápido também se libertavam de qualquer constrangimento ou gesto de pudor que, acaso, os separasse em semelhante conjuntura”. (Cruls)- 30 de Setembro de 1928

“O Sampaio fez hoje importante descoberta... arqueológica. Das suas frequentes excursões botânicas pelos arredores do acampamento, voltou trazendo um salto Luiz XV e uma travessa de celulóide. Espanto de todos nós e muitas conjecturas a respeito. A quem se poderiam atribuir tais pertences da exclusiva indumentária feminina? Afora as índias, desde logo afastadas de qualquer cogitação, ao que nos conste, apenas duas mulheres já se perderam por estas alturas: Madame Coudreau a valente exploradora francesa, e Martinha, a tal preta que acompanhou a expedição Diniz, servindo-lhe de interprete junto aos silvícolas.Ainda que muito saibamos a respeito da faceirice das francesas, não será ao pé de Madame Coudreau que ajustaremos o sapato de salto alto, pela razão muito simples de que ao tempo da sua viajem, ainda não existia o varadouro de que nos vamos servir agora, e ela teve de seguir sempre pelo rio, através das cachoeiras, sem fazer pouso neste ponto. Ademais, retratos seus, como aquele que illustra o livro ‘Voyage au Trombetas’, dão-na masculinizada durante as expedições, quando vestia largas pantalonas e se enfiava em botas reúnas. Resta, portanto, Martinha. E por que não aceitar que a preta do Erepecurú seja em tudo igual às suas irmãs cariocas, que aberinjelam o rosto com camadas de carmim e, acompanhando a moda do ‘ton sur ton’, só usam meias cor de carne?” (Cruls)- 09 de Outubro de 1928

“Verificando a maneira pela qual os nossos homens fazem o transporte da carga, certifico-me mais uma vez de quão funda e de todos os instantes é ainda a influência indígena sobre os hábitos que observo. Nenhum deles carrega à cabeça (o que, de fato, seria um absurdo, na mata); mas, sim, fazendo fardos que ajeitam às costas e tem por ponto de sustentação não só as alças de sarrapilha, corda ou qualquer embira, que passam aos ombros, como também uma larga faixa, ainda da mesma matéria, que lhes cinge a fronte. Como se vê, processo perfeitamente igual ao de que se servem os índios para transportar os seus panacús. Aliás, já na habilidade manual, que é inerente a todos eles e a respeito da qual citei mais atrás o nosso carpinteiro, como poderia ainda citar os que vi trançando esteiras com folhas de palmeiras, em todos, eu dizia, trai-se a próxima ligação com o silvícola, por excelência o nosso ‘homo faber’. Apoio em mais um fato o que venho expondo. Quando em Óbidos, tive oportunidade de adquirir, no Mercado da cidade, uma pequena peneira que era modelo de graça e perfeição, pelo engenho com que fora tecida. Pois bem. Vejo agora, percorrendo as páginas de Crevaux, cujo livro data de 1883, a figura de certa urupema, que ele conseguira dos índios da Guiana e que é exatamente igual àquelas que se vendem hoje em Óbidos e são provavelmente feitas por qualquer caboclo”. (Cruls)
- 21 de Outubro de 1928

“A 21 de outubro partíamos. Depois de grande azáfama, tomou a monção rumo da fronteira, fazendo vanguarda a canoa capitânea. Eram 10 embarcações, conduzindo algumas delas uma tonelada que era preciso, às vezes descarregar completamente, para vencer as corredeiras, de degrau em degrau. Alargou-se o rio atingindo 800m. E o seu leito era uma só pedreira, sobre a qual iam os carregadores pulando, com pesados volumes ao ombro, podendo qualquer descuido dar lugar a irremediável desastre. 5 horas e meia levamos para transpor a corredeira Tracuá!” (Rondon)

“Para que maior nos fosse o dia, almoçamos antes de partir e, ás dez e pouco, as canoas, atopetadas de carga e bagagens, sobre as quais nos encarrapitávamos da melhor maneira possível, ganhavam o largo. Somos ao todo cinquenta e oito pessoas, divididas por dez canoas, entre outras um batelão maior, que vai superlotado e leva muito material. (...) Não há tempo para conhecer o valor dos remadores. Apenas com alguns minutos de percurso, surge o primeiro obstáculo. É a correnteza do Bate-canela, em que uma ou outra canoa, das mais pesadas, precisa ser puxada a cabo. Como o rio é um enorme atravancado de pedras, saltamos sobre algumas destas e vamos aos pulos, de pedrouço em pedrouço, acompanhando o trabalho dos nossos homens, que já estão muitos dentro d’água, e se afainam na propulsão dos barcos. Mas isso é apenas um ensaio para o que nos espera pouco depois, quando chegamos ao Tracuá, a primeira cachoeira. Aí, faz-se preciso baldear toda a carga. Embora sejam muitos os canais, todos são maus, e as canoas só lograrão transpô-los estando vazias. E lá se vai o pessoal, em longa fieira sobre o lagedo, arcando ao peso dos fardos.

O rio tem neste trecho o seu leito totalmente coalhado de blocos de granito, da mais variada forma e dimensão, e só com constantes movimentos de ginástica, aos agachos e espichamentos, se conseguem alguns passos para diante. E já estamos sob o inclemente sol do meio-dia! Felizmente, há bastante vegetação na grande Ilha do Tracúa e, á sua orla, conseguimos sítio sombreiro onde aguardar que as canoas atinjam novo ponto para reembarque. Um propício café com leite, que a todos dessedenta, prepara-nos para os novos transes da tarde, em que, por mais três vezes, temos de abandonar as canoas e andar batendo o pedregal, até que, já ás dezoito e tanto, bastante fatigados, alcançamos, por fim, a Ilha do Santo Sacrifício, onde pousaremos. Nesta ilha, também acampou o Padre Nicolino, e, nas páginas do seu diário, louvou-se o General para dar-lhe aquela designação ...” (Cruls)- 25 de Outubro de 1928

“Ricardo, o nosso piloto, não desdiz a sua fama de bom mateiro e, a cada passo, dá-nos informes sobre as plantas que mais nos interessam. Aqui, é uma manaiara com a copa pintalgada de róseo; ali, uma guaxinguba com ramalhetes dourados á ponta dos ramos; acolá, um tororó de frutinhas miúdas, usadas no anzol, como isca aos tambaquis. Mais adiante, além de um renque de pacovas sororocas, há um catauari, cujo fruto, quando cai n’água, igualmente atrai os peixes. Aprendo também que a carapanaúba, de tronco linheiro, dá bons cabos para machado, que a itaúba é das melhores madeiras para a construção de canoas, e que o marupá e o marrãozeiro são excelentes ripeiras. Graças ás suas licções, vou mesmo a ponto de distinguir o tenteiro da guaxinguba, ambos de floração amarela. É que no último, a inflorescência se reúne num único pedúnculo, ereto, ao passo que no tenteiro este se esgalha em várias ramificações. Mas os conhecimentos do Ricardo não ficam nisso e ele, esquecido, talvez, de que fala a médicos, preconiza: as folhas do tarumazeiro dão um chá muito bom nas icterícias; do suco do jutaí,que é travoso, faz-se xarope contra as catarreiras; o cozimento da casca da manaiara serve para lavar feridas; a casca da carapanaúba, também muito amargos a, é que nem quinino, para as febres”. (Cruls)
- 26 de Outubro de 1928“A 26, transpúnhamos a linha do Equador - dias e noites com a mesma duração, surgindo subitamente, sem crepúsculo”. (Rondon)-

27 de Outubro de 1928

“Devemos ter dormido ontem sob o Equador. Não houve festas. Aliás, ao contrário do banho de que não se livram os neófitos á sua passagem sobre o bojo dos grandes transatlânticos, o ‘tour de force’ aqui seria que os mesmos, se acaso os há, se obstinassem em passar o dia em seco, sem que ao menos, uma só vez, molhassem os pés”. (Cruls)


- 29 de Outubro de 1928

“A 29, nova série de corredeiras. O rio transformara-se em pedreira, o leito era vazio, em degraus sucessivos, até atingir 20 metros sobre o nível que trazíamos. Parecia impossível levar a cabo nossa empresa. Mas não esmorecíamos e íamos alando as canoas a cabo, guindando-as, às vezes, sobre escadas que aí se construíam. É que nos empolgava um grande ideal! Depois de dois dias de luta rio acima, foi preciso reparar as canoas avariadas pelo arrastamento sobre as pedras. E assim prosseguíamos, lutando com as maiores dificuldades. Era uma verdadeira epopéia”. (Rondon)“Logo de saída, mata-se a primeira anta. A nossa canoa retarda-se na colheita de plantas e ainda estamos longe quando se ouvem os tiros que a prostram. Chego, porém, a tempo de ver esquartejar o animal e, no meio da sangueira, aproveito a oportunidade para aumentar de mais alguns exemplares a minha coleção de carrapatos, destinada a um amigo do Rio. Afigurou-se-me enorme o tapir, mas objetaram-me que há maiores, principalmente entres os de pelagem rosilha. Este é preto. O General recomendou que não lhe desprezassem o couro, bom alimento para os cachorros, que vão também passando as suas privações. Soube, depois, que o assobio dessa anta, revelador da sua presença no ponto em que foi abatida, se sucedeu aos gritos de um gavião-pinhé, voando nas adjacências. Contou-me o General ser muito frequente essa coincidência, tida pelos índios como um apelo daquele animal para que o rapineiro lhe venha catar os carrapatos. O tapir responde aos guinchos do gavião, indicando o sítio em que se acha e onde se deita preguiçosamente, à espera que a ave baixe das alturas e a venha libertar dos incômodos parasitas. Saiu-lhe mal, entretanto, a prova de hoje, pois que eu também a despojei dos carrapatos, mas já depois de morta”. (Cruls)- 03 de Novembro de 1928

“Apenas com quarenta minutos de percurso, começamos a fraldejar a penhasqueira do Resplendor e não leva muito estamos defronte das inscrições rupestres que serviram à designação da cachoeira. São quatro desenhos, de dimensões iguais, provavelmente com qualquer significação simbólica, que se repetem de espaço a espaço, sobre um paredão de granito. Como se vê de uma das nossas gravuras, há uma esquematização humana no lineamento dessas figuras, cujas cabeças se encimam de uma serie de raios em semicírculo. Madame Coudreau enxerga em tal diadema ou resplendor a representação de um acangatar indígena e não será para desprezar a sua comparação. O curioso é que, com ligeiras variantes essas figuras aparecem em outros petróglifos da Guiana, conforme me certifico no livro de ‘Im Thurn: Among the Indians of Guiana’. Assim, há no rio ,Corentine, a jusante da Cachoeira Uanitoba, certa pedra lavrada cujo desenho é muito parecido com os que vemos aqui. Apenas, afasta-os a diferença de tamanho. O do território inglês mede mais de quatro metros de comprimento enquanto os nossos não vão além de cinco largos palmos”. (Cruls)
- 10 de Novembro de 1928“Por volta das oito e meia, junto á margem direita, no sopé de uma barranca, que se diria bastante trilhada, foram vistas mais duas ou três ubás. Tudo indicava que estivesse ali a entrada para algum aldeiamento e o General decidiu saltar. Acompanhavam-no o Benjamin e o Maravilha, enquanto nós outros, obedecendo às recomendações do Chefe, ficávamos ainda embarcados, guardando mesmo certa distancia do pequeno porto onde foi abicar a sua canoa. Escoado algum tempo de angustiosa espera, acreditamos fracassado o intento de contato com os índios, porque os nossos companheiros regressaram sem ter visto um só deles, embora não lhes restassem dúvidas de ser ali mesmo uma das malocas, pois que haviam chegado até as suas habitações. Os silvícolas, mais uma vez, deviam ter fugido à aproximação dos visitantes, que em vão chamaram por eles e acabaram deixando-lhes alguns presentes.Quando, já desanimados, reencetávamos a marcha, alguns gritos surpreenderam-nos e, em pouco, dois vultos se entremostravam a medo, protegidos pelos esgalhos da barranca. Tornou atrás a canoa do General e foi então melhor sucedida. Os índios, provavelmente ainda cheios de temor, haviam voltado á maloca, mas aí foram ter de novo o General e o Benjamin, que, finalmente, acabaram por vê-los. Não levou muito que o Benjamin, no intuito de fazer-lhes novas dádivas, viesse até a beira do rio e pedisse a aproximação da canoa que transportava o caixote contendo machados. Como essa era justamente a nossa, o General distinguiu-nos a mim e ao Sampaio, com um convite para que descêssemos por alguns momentos. Seria impossível tornar o oferecimento extensivo a todos. Entre tantos estranhos, os índios ficariam muito assustados.Foi assim que, pela primeira vez, vi alguns dos nossos aborígines, vivendo ainda da maneira a mais primitiva, quase como os devem ter encontrado, quatro séculos atrás, os primeiros navegadores. Infelizmente, eram muito poucos: três homens e uma mulher velha. Sem dúvida, ali mesmo, existiriam outros componentes do grupo, a julgar pelo numero das redes suspensas na casa grande, e esses, que nos apareciam, seriam ape nas os mais resolutos. Aliás, mulheres e crianças, em tais ocasiões, quase sempre são postas ao abrigo do olhar estrangeiro e, por certo, antes do nosso desembarque, houvera tempo bastante para que esses e outros elementos buscassem refúgio na mata. Tive excelente impressão dos tipos que nos rodeavam, sobretudo dos homens. Como já disse, a mulher era velha e algo adiposa. Afora o pequeno retalho de pano que lhes protegia o sexo, todos estavam inteiramente nus e, pintados de urucú, da cabeça aos pés, tinham extraordinária semelhança com figuras egípcias. Para isso contribuíam, além do colorido artificial, bem vermelho da pele, não só os traços fisionômicos, de olhos achinados e malares ligeiramente salientes, como também os cabelos pretos e luzidios, renteados em franja sobre o meio da testa e descendo até os ombros.Os homens, embora não muito altos, eram de bela compleição, com certo entono do porte e musculatura harmoniosamente desenvolvida. Dos três, um acusaria quarenta anos, no máximo, enquanto os outros eram bem mais jovens, talvez rapazes de vinte e poucos. A índia, à guisa de tanga, trazia um trapo encarnado pendente sobre o baixo ventre. Os homens, porém, usavam o calimbé, ou rabo, faixa que, quando aberta, tem a forma de um T, cujo ramo longitudinal volteia o períneo e, já nas costas, de novo vai passar sob a cintura, para pender, por vezes, numa ponta, de onde aquele nome de rabo que lhe dão os habitantes do rio Branco e Oiapoque. Esse traje, se assim me posso exprimir falando de indumentária tão estrita, é peculiar aos índios da Guiana e talvez lhes viesse do contato com os escravos fugidos. André Gide, reportando-se aos negros do Congo, descreve o mesmo encacho.Quando o Sampaio e eu galgamos o talude, foi para cair logo em terreno bem roçado, onde, ladeando uma pista estreita, se viam arvores frutíferas e outras plantas cultivadas. Mais para diante, já em trecho de mato, esse caminho cortava uma grande área circular e bem limpa, talvez um centro de reuniões e festas, e só depois ia ter ao local das habitações, novo pedaço bem ensoalhado. A maloca era constituída por uma casa grande, arredondada, toda coberta de palha, e por dois outros ranchos ou tapiris, de proporções avantajadas. Foi nas suas imediações que nos demoramos mais tempo, distribuindo presentes e recebendo em troca algumas comezainas. O intérprete fez-nos imensa falta e embora déssemos de língua reciprocamente, só a mímica nos tirava de embaraço e permitia ligeiro entendimento com os silvícolas. Achei curiosíssima a maneira por que eles falam, sempre muito apressadamente e emitindo silabas bem escandidas. Essa linguagem picadinha, reunida à fixidez das suas fisionomias, ainda lhes imprime maior caráter ao tipo francamente asiático. Aliás, todos eles pareciam extremamente nervosos com a nossa presença e talvez não os víssemos tais como se apresentam na realidade.(...) O urucú é das matérias corantes mais em voga entre os indígenas, não só do Brasil como de outros pontos da América do Sul, e varias são as hipóteses feitas para explicar o hábito, muito frequente entre eles, de se pintarem, da cabeça aos pés, com a bela tinta vermelha que lhes fornece o invólucro das sementes daquela planta. Como não é raro que à mesma eles associem um óleo vegetal ou gordura animal, e também qualquer substancia aromática, como a resina da almecega, houve quem pensasse que por meio desse revestimento cutâneo eles se precatassem contra a picada de mosquitos e outros insetos. Crevaux, que a respeito interrogou um índio do Japurá, ouviu deste que com tal induto ele visava se conservar quente, isto é, resguardava-se das oscilações da temperatura ambiente. Para o Dr. F. Tripot, viajante da Guiana Francesa em 1907, o urucú, pela sua cor vermelha, deve proteger a pele contra os ardores do sol e destarte os indígenas, por simples intuição, usam o produto corante que, propondo-se a tal fim, lhes seria aconselhado pelos físicos e químicos mais avisados. Diz ainda o mesmo autor que, tendo-se avistado com numerosos indígenas, jamais encontrou algum que apresentasse cicatrizes de varíola e como esta doença é das que mais os atacam após o contacto com o civilizado, ele conjectura que ao induto de urucú, atuando propiciamente como em tais casos acontece com a luz vermelha, talvez se deva a falta de estigmatização por aquela febre eruptiva, uma vez que, sem dúvida, um ou outro dos silvícolas por ele observados, haveria de ter sofrido o seu acometimento. A menos que a doença, por extremamente virulenta, conduzisse sempre a um êxito letal, o que não é para acreditar.

Em abono desse ponto de vista do medico francês, informou-me o Dr. Sinval Lins que em certas localidades do interior de Minas, visando a proteção da pele dos variolosos, há a pratica de se pintarem os mesmos com urucú. Tudo isso, que se mantinha até agora em plenos domínios do empirismo, vem de ser confirmado por curiosíssimas e ainda inéditas pesquisas do Professor Álvaro Ozório de Almeida, que assim se podem resumir:

(...) Em suma: o índio nu, mas pintado de urucú, quando sob a ação dos raios solares, acha-se aproximadamente nas mesmas condições de um homem que, também nu, estivesse á sombra”. (Cruls)


- 15 de Novembro de 1928

“Em comemoração à data de hoje, o General pensava dar descanso ao pessoal. O nosso pouso era, porém, tão acanhado, que ele julgou mais acertado prosseguir a marcha até que se nos deparasse qualquer local para acampamento mais confortável. É seu desejo aproveitar-se dessa parada para reorganizar os serviços. Como o consumo de víveres vem diminuindo dia a dia a nossa carga, já não temos necessidade de tantas canoas e algumas vão voltar ao Breu para serem carregadas de novos gêneros e virem depois ao nosso encontro. Deste modo, não só teremos garantido um suprimento que já se nos antolha indispensável, como, pela supressão de muitas bocas, o que ainda nos resta, e não é muito, poderá prover por maior tempo ao sustento dos que ficam. As decisões do General são sempre prontas e assim que encontramos um pouso mais propício, situado á margem direita, onde desembarcamos ás dez horas ...” (Cruls)
- 21 de Novembro de 1928“

O General considera esses campos de Tumucumaque como o Planalto do Norte ou Planalto Equinoxial, em contraposição ao Planalto Central do Brasil. Como acontece com este último, o seu terreno também não é salitrado, mas isso em nada estorvará a indústria pastoril que aqui se há de desenvolver, em grande escala, mais cedo ou mais tarde. Para tanto, apenas será preciso fácil via de acesso à região, naturalmente uma estrada de rodagem que, partindo do norte de Óbidos, passe pelos campos do Ariramba e do Urucuyana, onde o gado já encontrará bons sítios de repouso. Aliás a necessidade dessa estrada, cujo comprimento total talvez não exceda de quatrocentos quilômetros, já se vem fazendo sentir desde que o Padre Nicolino certificou-se da existência dos campos, e outro não foi o motivo da viajem de Valente do Couto, a quem o Governo do Pará confiara a missão de estudar-lhe o traçado. Uma curiosidade desta região é que nela se reúnem elementos da flora e da fauna tanto dos campos do Sul como dos do rio Branco. Assim, aqui medram o sobro e o catipé, duas arvores frequentes nos chapadões de Mato Grosso, mas que não existem no Norte. Em compensação, as codornizes que aqui se avistam, são as mesmas que voam no rio Branco e campos da Venezuela. Por outro lado, as floras se aproximam e, como em Mato Grosso, vicejam aqui o capotão, a lixeira, a Maria-preta e a semana. Apenas variam as designações que lhes dá o vulgo. A lixeira de lá é o caimbé daqui; a semana do Sul é o merixi do Norte; o merici acaule é a orelha de veado dos campos do rio Branco
”. (Cruls)- 5 e 6 de Dezembro de 1928“Ontem, pela primeira vez, não pude tomar uma só nota. Vou resumir agora o que foi a nossa tormentosa excursão ao Pão de Açúcar, da qual só tornamos hoje, ás dez horas da manhã, cansadíssimos e esfomeados. (...) o General resolvera ficar aqui por mais um dia, a fim de visitar aquele pico, de onde deveria obter excelente vista sobre a cordilheira. Para fugir as tediosas e intermináveis horas de estagnação no acampamento, o Gertum e eu assentamos de fazer o mesmo passeio e, ás sete horas, um pouco antes do General e do Benjamin, que logo a seguir nos vieram alcançar, pusemo-nos em marcha, através dos campos. De tal modo enganam as distancias que o Pão de Açúcar nos parecia, então, a três ou quatro quilômetros, e eu e o meu companheiro seguimos na certeza de que, quando muito, ao meio dia, poderíamos estar de volta. Tanto assim que partimos inteiramente desprevenidos de qualquer provisão de boca e nem mesmo o seu cantil, que nunca o abandona, foi lembrado pelo Gertum. Não tardou, entretanto, que nos apercebessem os de quanto era grande a nossa ilusão. Já havíamos andado umas boas duas horas e o Pão de Açúcar, sempre á nossa frente, ainda não mudara de aspecto e parecia tão longe como quando deixáramos o acampamento.E, assim, lá se foram mais outras duas horas; ainda a passo acelerado, quase sempre por terreno suave e limpo; mas, algumas vezes, atufados nas macegas, rompendo por brocotós e minhocaes, ou ainda transpondo cerros de solo pedregoso e híspido. Se minutos antes do meio-dia tínhamos atingido a falda do bloco de granito ainda nos foi preciso varar o espesso capão de mato que o circunda, e onde baldadamente andamos á procura de qualquer nascente ou veio d’água que nos dessedentasse. Durante todo o percurso não encontráramos uma só cabeceira e há muito já trazíamos a boca grossa e seca. Apenas, á entrada daquele mato, um providencial lagedo escavado guardava, de mistura com folhas mortas e outros detritos orgânicos, uma pouca de água de qualquer chuva recente e sobre ele nos acurvamos sôfregos, mais para refrescar os lábios do que mesmo para mitigar a sede, pois para tanto não dava o que ali se nos oferecia como uma dádiva divina.Agora, restava escalar o alcantil...A rocha, com aclives de 45° a 55°, surgia-nos escalvejada e escorregadia e por todo ponto de apoio nada mais víamos do que mesquinhas touças de ervas esturricadas e uma ou outra piteira, de longas folhas agressivas que, aqui e ali, muito espacejadamente, lhe mordiam a superfície. Contudo, foi a custo dessa vegetação de ramas urticantes e caules espinescentes que, aos agachos e recuanços, ferindo as mãos e rasgando as roupas, logramos gatinhar-lhe a lombada. Muitas vezes, cosidos à pedra e já a certa altura da penhasqueira, tivemos de retroceder caminho, pois diante de nós a escarpa novamente se apresentava desnuda e era preciso ir em busca de outras crostas de capim seco ou esgalhos de sarça bravia onde fincar os dedos, manter um pé ou escorar os joelhos, até que avançássemos mais alguns palmos. O Benjamin, de botinas grampeadas, tinha melhores pegadas sobre o granito resvaladio e assim pode vence-lo por onde o General, o Gertum e eu vimos baldadas algumas tentativas.Eram quasi quatorze horas quando, exaustos e banhados em suor, atingimos o alto do pico, magnífico belveder sobre a cordilheira que estadeava à nossa vista a sua extensa cadeia de montanhas. Com exceção de alguns morros de este, talvez as cabeceiras do Parú de Almeirim, apenas ervecidos, toda a serrania é em floresta, - uma fechada e portentosa floresta que se inicia ainda no plano, não longe da base do Pão de Açúcar e, logo a seguir, ganha os primeiros contrafortes e reveste todos os outros espigões. Ao alto do pico, há uma pequena coroa de vegetação xerófila e foi á sua sombra, bafejados por agradavel brisa, que nos refizemos um pouco da árdua escalada, embora na aridez circunjacente não víssemos amostra de gota d’água com que suavizar a nossa sede cada vez mais ardente. Só nos demoramos por aí o espaço de alguns minutos, mas era de igual modo difícil a descida do respaldo clivoso, do qual não nos livramos antes das quinze e meia e por onde, sempre aos escorregões, andamos novamente em luta com os caules espinhosos e as folhas farpantes”. (Cruls)

- 7 de Dezembro de 1928

“À hora do jantar, o General expõe-nos nova organização, que lhe parece urgente dar ao serviço. Escassos como vêm sendo os recursos de caça e pesca, é impossível pensar em levar até a fronteira um grupo tão numeroso como ainda somos, principalmente porque, daqui por diante, já não se poderá ter mais o auxílio das canoas e tanto o material como as provisões de boca terão de ser levados ás costas dos carregadores. Por outro lado, a marcha na cordilheira vai ser das mais penosas, uma vez que se trata de espessa floresta, exigindo a abertura de uma picada. Por tudo isso, é idéia sua que do Pão de Açúcar para cima, apenas sigam ele, o Benjamin e quatro a cinco homens, - o mínimo indispensável à boa realização do serviço. Deste modo, nós outros, os restantes, deveremos regressar á Base das Colinas, onde ainda temos uma pequena reserva de gêneros e mais facil será a nossa estada.Conforme observou o General, com o alcance do Pão de Açúcar, a bem dizer está concluída a Inspeção de Fronteiras, que visa apenas o estudo das condições locais, sob o ponto de vista militar e nada tem com a demarcação de limites, afeta a outra comissão. Ele, entretanto, não se contenta com o que já foi feito e quer chegar até pontos mais afastados, que lhe permitam conhecer de ‘visu’ não só as cabeceiras do Cuminá, na linha de fronteira propriamente dita, como ainda a leste e a oeste, fazer respectivamente o reconhecimento das cabeceiras do Parú de Almeirim e do Trombetas”. (Cruls)


- 22 de Dezembro de 1928

“Olho para todos esses sítios como quem se despede e faz um derradeiro adeus. Mas quem sabe lá? Se no início deste ano alguém me houvesse vaticinado vir finaliza-lo nos limites da Guiana Holandesa, isso se me afiguraria o maior dos absurdos. E, no entanto, aqui estou. Quando eu decidi esta viajem, não foram poucas as vozes que me clamaram:- ‘Mas que loucura! O que é que você vai fazer no norte? Você não tem medo das febres?’ Era-me difícil responder, mesmo porque muita gente ignora a existência de certas criaturas que já nasceram roídas pelo tédio e em cuja alma se pode ler o ‘Quosque eadem’? de Sêneca”. (Cruls)

Sêneca exprimia, com exatidão, a opinião que grassava entre os entediados pessimistas do seu tempo quando escreveu: “Há-os que, saciados de fazer e de ver sempre as mesmas coisas, tomam à vida não ódio mas tédio (fastidium). É o estado a que nos leva a filosofia, quando dizemos: Quê! Sempre as mesmas coisas? (Quosque eadem) Acordar, dormir, estar saciado, ter fome, sentir frio, ter calor; nenhuma coisa tem fim, antes todas se sucedem eternamente no mundo umas às outras; fogem agora para logo se seguirem. A noite afugenta o dia, o dia a noite; o estio termina no outono, ao outono sucede o inverno, que dá lugar à primavera: tudo passa para voltar de novo (omnia sic transeunt, est revertantur); nada de novo faço, nada de novo vejo. Acontece algumas vezes que se é assaltado por um enjôo de tudo isto. Muitos são os que julgam que, se não é acerbo viver, é pelo menos supérfluo”.

- 11 de Janeiro de" 1929"

Duas cousas nos fazem sa"ltar em Oriximiná: conseguir um pouco de pão, de que andamos saudosíssimos, e visitar a igreja em que jazem os restos do Padre Nicolino. Esta está em ruínas e já não é mais a ermida que, no dizer de Gonçalves Tocantins, ‘se avista de longe como uma bonina’. Contudo, chegamos até os seus escombros e, sob um altar velho, abaixando-nos com grande dificuldade, podemos divisar uma lápide de cuja inscrição só conseguimos ler o Souza.

Quase ás dezenove horas, já em águas do Amazonas, bate-me fortemente o coração, quando vejo, a certa distância, um pontilhado de luzes, que nascem á beira d’água e sobem tremulando pela encosta. É Óbidos, a cidade que ainda há quatro meses me parecia tão humilde e pequenina e agora avulta aos meus olhos como um grande centro de civilização”. (Cruls)

Fontes:

CRULS, Gastão Luís - A Amazônia que eu vi - Brasil - São Paulo - Companhia Editora nacional, 1938.

VIVEIROS, Esther de – Rondon conta sua vida - Brasil, Rio de Janeiro,1958 – Livraria São José.

Por que o Serra não mandou o Rapa à Tânia Bulhões?

Conversa Afiada - 15/julho/2009 17:55

Na foto, o Rapa e a GCM contra os pobres

Na foto, o Rapa e a GCM contra os pobres

Essa pergunta é de uma amiga navegante do Conversa Afiada.

Ela já viu na televisão, várias vezes, a ação implacável e violenta da polícia do poste do Zé Pedágio, Geraldo Kassab, contra os ambulantes – na maioria nordestinos – na rua 25 de Março.

Como gosta de dizer a Folha, “supostamente” os ambulantes nordestinos vendem mercadoria contrabandeada.

Não é o material da Tânia Bulhões nem da Daslu.

É coisa de procedência mais próxima.

Mesmo assim, pergunta a amiga navegante, por que o Rapa do Serra não foi à Tânia Bulhões.

Paulo Henrique Amorim

Em tempo: o Conversa Afiada sabe que o Rapa é da alçada municipal. Mas, como se sabe, quem manda no município, no estado, na ONU e no mundo é o Zé Pedágio.

Serra não deixa pobre

Conversa Afiada - 15/julho/2009 12:00

Na Tania Bulhões deve ser mais barato

Na Tania Bulhões deve ser mais barato

No desespero de fazer caixa para a (inútil) campanha a Presidente, Zé Pedágio não acompanhou o Governo Lula e não reduziu o IPI para os pobres.

Vejam o que nos enviou o amigo navegante Marcelo:

Marcelo
Enviado em 15/07/2009 às 9:27

Redução de IPI da linha branca é anulada em SP por de José Serra

Enquanto o Presidente Lula trabalha duro para reaquecer a economia, manter os postos de emprego nos setores que estão entre os mais afetados pela crise econômica mundial, o governador José Serra, vai na contramão e prejudica as pessoas de baixa renda. Veja mais uma do governador dos ricos:

O impacto nos preços, ocasionado pela redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) nos produtos da chamada linha branca, foi anulado no Estado de São Paulo, devido à substituição tributária de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) promovida pelo governador José Serra .

Como efeito prático, a medida acaba por anular o benefício da diminuição da alíquota do IPI, adotada recentemente pelo governo federal a fim de estimular o consumo, e acaba, aumentando em vez de diminuir preços, conforme mostra tabela a seguir da UOL

Preços no varejo paulista

Produto

Fogão de 4 bocas
R$ 890,00 Preço antes da redução IPI
R$ 830,00 Preço depois da redução do IPI (Lula)
R$ 908,00 Preço com substituição tributária (ICMS) do José Serra

Geladeira com freezer
R$ 1.400,00 – Preço antes da redução IPI
R$ 1.240,00 – Preço depois da redução do IPI (Lula)
R$ 1.350,00 – Preço com substituição tributária (ICMS) de José Serra

Tucanos chamavam Petrobrás de “paquiderme” para poder vendê-la

Conversa Afiada - 15/julho/2009 10:06

Na foto, a Petrobrás que os tucanos queriam (e querem) vender aos que contratam o FHC

Na foto, a Petrobrás que os tucanos queriam (e querem) vender aos que contratam o FHC

Saiu no Globo, pág. 3:

“O paquiderme agora é nosso – Lula ataca a oposição ao defender a Petrobrás… ‘Teve gente que chegou a falar: precisamos nos desfazer do último paquiderme brasileiro que é a Petrobrás. Esse paquiderme agora é nosso e vamos cuidar dele com carinho, como se fosse a coisa mais inteligente do mundo’”, disse o presidente Lula, ao lançar ontem obra do PAC em Alagoas.



Sergio Mota foi o “trator”, o “guru”, aquele que “operou” a reeleição de Fernando Henrique.

Foi ele quem concebeu a privatização da telefonia, que caiu no colo do passador de bola, apanhado no ato de passar bola, Daniel Dantas.

Foi ele quem disse que a Petrobrás era o último esqueleto no armário, um paquiderme.

David Zylbersztajn, o “Davizinho”, era o genro de FHC e presidente da ANP (Agência “Nacional” de Petróleo), quando disse que era preciso desmontar a Petrobrás osso por osso.

O Presidente da Petrobrás de Fernando Henrique, Francisco Gros, disse nos Estados Unidos, logo após assumir, que sua tarefa era privatizar a Petrobrás.

Foi no Governo Fernando Henrique que tentaram rebatizar a Petrobrás e chamá-la de “Petrobrax”, num nome mais global, mais vendável …

Agora, a última trincheira dos tucanos é meter a mão no pré-sal.

E evitar o regime de partilha, aquele dará ao Estado brasileiro a propriedade do pré-sal – em lugar de entregá-lo aos que contratam palestras de FHC por US$ 50 mil (fora o aluguel do jatinho).

A Folha já saiu na frente: um editorial de hoje (pág. 2) espinafra o regime de partilha.

Provavelmente redigido por Roberto Campos.

Paulo Henrique Amorim

A Sabesp e a Globo: Zé Pedágio não faz campanha, faz “esclarecimento”

Conversa Afiada - 15/julho/2009 20:45

O chuveirinho de cocô da rua Brasiluso, Jardim Pery, ainda aflige a Dona Maria

O chuveirinho de cocô da rua Brasiluso, Jardim Pery, ainda aflige a Dona Maria

Zé Pedágio já tem campanha para 2010. Ela se aloja nas propagandas – espalhadas por todo o país – da Sabesp, empresa controlada pelo governo estadual de São Paulo.

Mas é tudo muito discreto, pois, afinal, quem faz campanha é o presidente Lula.

Zé Pedágio “esclarece” a população – especialmente os espectadores da Globo.

Interessante também notar o papel relevante para a Cultura e o Iluminismo no Brasil que a Sabesp desempenha ao financiar maciçamente o IFHC, aquele Instituto que aplicava recursos no Banco Opportunity (segundo a Operação Satiagraha).

Tire suas conclusões, amigo navegante, a partir do material enviado por Rubens Sanches Proença e do vasto material publicado pelo Conversa Afiada sobre a Sabesp e seus “esclarecimentos”:

From: RUBENS SANCHES PROENCA
Date: 14 de julho de 2009 20h34min14s GMT-03:00
To: Paulo Henrique Amorim
Subject: contato

PH,

Falta água na Baixada Santista mas sobra anúncio da Sabesp

A Sabesp tem feito uma campanha publicitária maçiça na Baixada Santista. A Sabesp está patrocinando, diariamente, o Jornal A Tribuna, da Rede Globo local, não com um comercial, mas como patrocinadora fixa! Mas ao mesmo tempo em que investe em propaganda na Globo, falta água nas cidades.

Neste sentido de gastos exagerados, a Sabesp patrocina até corrida da Globo:

Mas em compensação, há denunúncias de distribuição de água contaminada.

Só na Globo do Rio a Sabesp gastou R$ 7,4 milhões.

O Adolfo Lutz atesta que a água fornecida pela Sabesp, no Guarujá, não possui qualidade adequada.

Já outros jornais denunciam que até o asfalto da Sabesp não é de boa qualidade.

Agora o mais grave: Sabesp impede deficiente físico de assumir cargo concursado.

Leia também:

IFHC: A Sabesp é muito generosa. Paga R$ 5,7 milhões por 9 fotos digitalizadas

Sabesp vende esgoto no Acre: vai acabar a farra de Serra com a Globo

Sabesp vai exportar “tecnologia” do esgoto a céu aberto

Presidente da Sabesp reassume chefia da campanha de Serrágio

Leitores do Conversa Afiada denunciam: Serrágio faz propaganda nacional com $$$ de SP

Sabesp de Pedágio inaugura piscinão na Zona Leste de SP

Quem manda na Polícia? Serra é sujeito oculto no editorial do Estadão

Conversa Afiada - 15/julho/2009 16:47

Abadia diz que a rapaziada da foto só tem elogios para o Denarc SP

Abadia diz que a rapaziada da foto só tem elogios para o Denarc SP

Por sugestão do amigo navegante Bruno Amaro, o Conversa Afiada convida seus leitores a fazer um intrigante exercício. Leia o texto abaixo, editorial do Estadão de hoje, e conte quantas vezes aparece o nome do governador José Serra.

Mas veja com atenção, pois o texto em questão pode ser comparado a uma cabeça de bacalhau. Trata-se de uma crítica do Estadão à polícia da Chuíça (*), no qual consta até mesmo citação à célebre frase do traficante Juan Carlos Abadia: “Para acabar com o tráfico de drogas em São Paulo basta fechar o Denarc”.


Corrupção policial em SP

Embora esteja longe de ser o único tipo de ação criminosa que tem contaminado a polícia paulista, o achaque a traficantes tornou-se prática de dimensões impressionantes no organismo de segurança pública deste Estado. Matéria publicada sexta-feira neste jornal dá conta do indiciamento, pela Corregedoria da Polícia Civil, de 14 policiais em 4 inquéritos diferentes, sob a acusação de terem extorquido pelo menos R$ 2,7 milhões dos traficantes colombianos Juan Carlos Ramirez Abadía e Ramón Manoel Yepes Penagos, conhecido como El Negro. Outros três policiais são suspeitos, tendo um deles obtido liminar, do Tribunal de Justiça, livrando-o de ser indiciado no inquérito. Ao todo estão em andamento cinco investigações por extorsão, praticada por policiais contra criminosos colombianos e membros de suas quadrilhas.

O traficante Abadía, que foi extraditado para os Estados Unidos em 2008, era o chefe do cartel do Norte do Vale quando foi preso pela Polícia Federal em 2007, neste Estado. Descobriu-se, logo depois, que ele pagou resgate de três de seus subordinados e da mulher de um deles, pois estes haviam sido sequestrados e achacados por policiais de Diadema, do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) e do Detran. El Negro, bandido que resgatou a fortuna de ? 70 milhões que seu chefe Abadía mantinha no Brasil, era procurado pela Interpol. Pagou ? 400 mil a policiais do Denarc para fazer-se passar por outra pessoa. Os policiais teriam dado a ele uma identidade falsa, como se fosse um meliante que cumpriria discretamente uma pena de 5 anos por venda de pequena quantidade de ecstasy e seria posto em liberdade logo, sem que ninguém se desse conta. Como se vê, não tem faltado criatividade quando o objetivo de maus policiais é obter lucros com os criminosos.

A extensão da cumplicidade criminosa no seio da polícia se comprovou pela morosidade descabida no andamento desses inquéritos. No caso de Abadía, os inquéritos sobre os achaques permaneceram nas gavetas da Corregedoria por dois anos. E, apesar do reconhecimento das vítimas, da apreensão de carro dado para pagar suposta propina e das provas levantadas pela Polícia Federal, nenhum policial civil era indiciado. Esse imobilismo só acabou em abril, quando a nova diretora da Corregedoria pediu ao Ministério Público Estadual cópia da fita em que o traficante fazia várias revelações e afirmações, entre as quais esta: “Para acabar com o tráfico de drogas em São Paulo basta fechar o Denarc.” Em junho o secretário de Segurança, Antonio Ferreira Pinto, também pediu cópias das investigações e constatou que havia indícios suficientes de autoria. E estranhou tanta demora nas investigações, que prejudicava o trabalho de obtenção de provas. A partir daí, em menos de 20 dias o delegado que presidiu os inquéritos indiciou a primeira leva de policiais suspeitos.

Outra matéria publicada pelo jornal na mesma sexta-feira, também sobre investigações em curso na Corregedoria da Polícia Civil de SP, deu conta de que nada menos de 90 policiais são suspeitos de envolvimento com a máfia dos caça-níqueis. E só de janeiro a junho foram apreendidos, na capital e Grande São Paulo, 20.967 equipamentos dessa modalidade de jogatina ilícita. Com tudo isso é de se observar – para dizer o mínimo – que o sistema de correição da Polícia Civil de São Paulo é algo extremamente travado, estando a necessitar de mudanças estruturais. Nesse sentido, parece-nos muito oportuno o plano do secretário de Segurança paulista de trazer para seu gabinete o controle dessa Corregedoria. Isso porque não haverá aperfeiçoamento algum ou modernização de equipamentos, nomeação de profissionais qualificados ou melhorias de treinamento, articulação com as comunidades, fiscalizações do tipo “tolerância zero” ou o que mais se tente para melhorar a segurança pública paulista, sem que antes se realize uma profunda limpeza moral no organismo policial. E a cobrança mais rigorosa – facilitada por ser comandada pela autoridade de maior peso de todo o sistema de correição – sem dúvida poderá se tornar um importante primeiro passo nessa direção.

Veja o que diz o amigo navegante Bruno Amaro:

Enviado em 15/07/2009 às 14:34
Hoje o editorial secundário do Estadão(?) fala sobre a corrupção nas polícias civil e militar paulistas. Cita inclusive a frase sobre fechar o DENARC para acabar com a corrupção no Estado, tão repetida nesse blog.
E qual não é a surpresa ao terminar a leitura?
José Serra não é citado! Parece que estão falando da polícia de Jupter! Nõa existe uma única referência ao governador, só a “boa iniciativa” do secretário de segurança em levar a corregedoria da PM para seu gabinete.
Mais um “esquecimento” do editorial foi citar a PF na prisão de Abadia, falam que ele era procurado pela Interpol, mas depois se “esquecem” de falar que acabou preso pela PF.
Viva o Estadão!

(*) Chuíça é o que o PiG (**) de São Paulo quer que o resto do Brasil ache que São Paulo é: dinâmico como a economia Chinesa e com um IDH da Suíça.

Protógenes na TV: PF o persegue porque prendeu Dantas

Conversa Afiada - 15/julho/2009 9:28

Como é que duas autoridades denunciam um grampo que não tem áudio ?

Como é que duas autoridades denunciam um grampo que não tem áudio ?

O delegado Protógenes Queiroz, que comandou a primeira fase da Operação Satiagraha - e prendeu duas vezes o banqueiro Daniel Dantas – deu entrevista ao jornalista Kennedy Alencar, na Rede TV!, no último domingo, e reafirmou que foi perseguido dentro da PF por investigar Dantas.

Afirma que o delegado Amaro Vieira, responsável pelo inquérito que denuncia suposta conduta irregular de Protógenes, não tem isenção para investigá-lo.

Para Protógenes, Amaro Vieira foi transferido de São Paulo a Brasília para conduzir, a toque de caixa, uma investigação que ouviu centenas de testemunhas e acusou a ele, Protógenes, de quebra de sigilo funcional. “Na semana seguinte ao indiciamento, a defesa de Daniel Dantas usou esse inquérito como argumento para tentar um habeas corpus no Tribunal Regional Federal”, disse.

Protógenes evita dar nomes aos responsáveis pela perseguição. “Não vou dizer que é A ou B, mas tudo isso não é mera coincidência e precisa ser investigado”, afirma.

A denúncia sobre a perseguição foi apresentada por ele ao Ministério Público Federal, completa o delegado.

Grampo sem áudio

Sobre o suposto grampo que teria registrado uma conversa entre o presidente do STF, Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), Protógenes fez críticas a ambos. “Duas autoridades públicas deveriam ter mais cautela ao relatar essa suposta interceptação. Se não tem a captação de voz, não tem áudio, não se tem materialidade para atribuir a alguém a prática de algum crime”, disse.

“A Operação Satiagraha foi auditada em várias instâncias para tentar encontrar alguma interceptação clandestina e não se chegou a nenhum fragmento disso”, pontou.

Protógenes defendeu o trabalho realizado na Satiagraha. Argumentou que as críticas sobre a suposta fragilidade da investigação não se sustentam. Segundo ele, se houvesse inconsistência nas provas, autoridades americanas não teriam bloqueado quase US$ 3 bilhões de Daniel Dantas. “A Justiça americana é mais conservadora que a nossa e não decretaria o bloqueio se não houvesse provas suficientes”, disse.

Para o delegado, a comparação entre as denúncias aceitas pela Justiça contra Daniel Dantas – além da condenação que o banqueiro recebeu por tentativa de suborno de um delegado – comprovam a qualidade da Satiagraha.

“O resultado está ai. Basta comparar o que foi produzido pela Operação Satiagraha com o que foi produzido contra mim”, diz.

A origem de todas as irregularidades apuradas pela Operação Satiagraha veio do governo Fernando Henrique Cardoso – considera Protogenes. A gênese da corrupção nasceu com a proposta do Estado Mínimo, com a política de privatizações do governo tucano.

Assista à íntegra da entrevista de Protógenes ao É Notícia, da Rede TV!

Primeiro bloco

Segundo bloco

Terceiro bloco

Sem regulação pública, Telefônica é um fracasso generalizado

Blog do Luis Nassif - 15/07/09

Hermeneuta

Sem regulação pública, Telefônica é um fracasso generalizado

Escrito por Rodrigo Mendes 09-Jul-2009

Apesar de a empresa não assumir, usuários do Speedy, o serviço de internet de banda larga da gigante Telefônica, já contam quatro panes que derrubaram o sistema somente este ano. A história é antiga: desde sua chegada ao Brasil, a empresa espanhola tem estado entre as primeiras posições – e não raro tem sido a grande campeã – de reclamações em diversos órgãos de defesa do consumidor, causando cada vez mais prejuízos aos seus usuários, especialmente na cidade de São Paulo.

Com a quarta falha, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) proibiu no dia 22 de julho a Telefônica de vender novas assinaturas de seu serviço de banda larga. A empresa, para voltar a operar normalmente, terá que apresentar à Anatel um plano de investimentos de reestruturação em suas atividades.

Dentro deste contexto de sucateamento de mais um serviço público essencial, o Correio da Cidadania entrevistou o jornalista Gustavo Gindre, recentemente indicado para o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Para ele, a ineficiência da multinacional sediada em Madri sintetiza o fracasso das privatizações no país, financiadas com dinheiro público e sem reversão de benefícios aos consumidores.

Também membro do Coletivo Intervozes, grupo que milita pela democratização do acesso à informação no país, Gindre desacredita a Anatel como órgão capaz de regular seriamente o setor, seja por falta de estrutura, seja por sua conexão aos interesses do setor privado. Como superação do atual modelo, aponta o caminho da construção de um novo marco regulatório do setor, menos privatizado e monopolista.

A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

Correio Cidadania: Por que os serviços prestados pela Telefônica chegaram a tal grau de deterioração? Trata-se de incapacidade técnica, insuficiência de recursos, ou outros fatores também concorreram para que se chegasse a tal ponto de insatisfação da população usuária dos serviços da operadora?

Gustavo Gindre: Vamos pela ordem crescente dos problemas: houve uma série de erros no projeto técnico, da rede, no dimensionamento da rede. A Telefônica terceirizou setores que não poderia ter terceirizado. Uma coisa é terceirizar o serviço de instalação, aquele do sujeito que vai instalar o equipamento na casa das pessoas. Outra é terceirizar o técnico que estuda a topografia do lugar, por exemplo. Eles contrataram pessoal que sequer estava no Brasil para fazer esse estudo. E a Telefônica também comprou equipamentos de qualidade, no mínimo, duvidosa, para assim economizar dinheiro.

Aí chegamos ao segundo problema: por que fez isso? Há uma enorme falta de qualificação do corpo técnico da empresa aqui no Brasil. A empresa estava remetendo recursos para a Telefônica Espanha. A Telefônica Brasil sustenta a Telefônica Espanha. Para eles passou a ser mais interessante mandar o dinheiro para a Europa do que investir no Brasil. E assim deixaram do jeito que estava, com uma infra-estrutura absolutamente ultrapassada. Fizeram as coisas de qualquer jeito, comprando um equipamento de qualquer nível e embolsando a diferença.

E o terceiro motivo é o fato de a Anatel ser absolutamente capturada pelos interesses privados, não tendo sido capaz, talvez por não querer, de detectar esses problemas. É claro que eles não surgem do nada, não apareceram agora, de surpresa. Os planos de reestruturação apresentados pela Telefônica são verdadeiras obras de ficção. E só agora a Anatel foi obrigada a fazer algo, quando o problema explodiu na sua cara e porque a cidade de São Paulo ficou muda.

Tudo isso tem afetado a telefonia fixa, pois uma parte dela hoje trafega em redes IP. Ou seja, São Paulo pode estar à beira de um apagão telefônico também.

Curioso é o fato de a Telefônica fixa trafegar em redes IP não ser publicizado, pois essa solução barateia o real custo da telefonia, e mesmo assim os preços só aumentam. As pessoas poderiam começar a se perguntar: se o custo está abaixando, por que eu pago cada vez mais caro pelo meu telefone?

CC: Quanto à regulamentação do setor, a Anatel não tem agido, portanto, com a responsabilidade e efetividade esperadas de uma agência reguladora, de modo a evitar tantas e variadas panes nos serviços de telefonia e internet?

GG: A Anatel é uma agência ineficiente e capturada. Tem apenas uma voz que tem se colocado contra. Mas ela é um órgão obediente, já há até uma tradição de os conselheiros da Anatel, quando acabam seu mandato, serem empregados pela iniciativa privada. O maior exemplo disso é o presidente da própria Telefônica, que era conselheiro da Anatel. Logo, eles não vão trombar de frente com a iniciativa privada, pois estão preocupados com seus próprios postos. Além disso, os conselheiros são indicados políticos. Hoje, há conselheiro indicado pelo Sarney, pelo Hélio Costa, por sua vez conselheiro do PMDB. É preciso até questionar a qualificação técnica dessas pessoas.

A Anatel também não regulamentou pontos da Lei Geral de Telecomunicações (LGT), que tem mais de dez anos. Um deles é o compartilhamento de rede, que parte do pressuposto de que a infra-estrutura é compartilhada. Não dá para cada empresa instalar seus próprios postes, fios etc. Seria como se cada empresa de trem tivesse que ter seus próprios trilhos, caminhos. Há duas soluções para isso. Uma, mais tímida, é o umbundling (ou desagregação, em português), que permite que o moderador tenha a posse da infra-estrutura, mas sendo obrigado a abrir para as outras empresas. Outra solução, mais radical e adotada, por exemplo, pelo Reino Unido, é a separação em camadas. Isso quer dizer que quem detém a posse da infra-estrutura não pode vender o serviço.

Outro problema da Anatel: ela não tem modelo de custo de nada; não faz idéia dos custos reais dos processos das empresas que ela fiscaliza; e não sabe quanto custam as operações das teles. Dessa maneira, como pode fiscalizar? Como pode regular os preços? Uma agência reguladora sem modelo de custos não regula nada.

No geral, a Anatel é incompetente na sua formação e tem uma direção, com raríssimas exceções, que está completamente capturada pelas empresas privadas.

CC: Diante do caos, agora já instalado, que atitudes deveriam tomar as autoridades responsáveis? Multar a empresa, impedir algumas de suas operações ou até mesmo expulsá-la do país são soluções já aventadas. O que pensa disto?

GG: A Anatel é quem deveria intervir. Mas isso é sintoma de um modelo que está fracassando, o modelo de privatização. Ele começou errado pelo procedimento, pois foi uma roubalheira, feito com dinheiro estatal e mantido com dinheiro público. As premissas do processo são equivocadas, a LGT é sempre elogiada, mas incapacita o Estado de promover políticas públicas nas telecomunicações. É um modelo que funciona bem nos nichos pelos quais o mercado se interessa. No Leblon ou nos Jardins, várias empresas ofertam banda larga a preços razoáveis, havendo uma concorrência nos nichos nobres do mercado. Porém, a maior parte da população fica desprotegida.

O que fazer? Agora, emergencialmente, é preciso tomar atitudes rigorosas em relação à Telefônica. Uma delas a Anatel até tomou, a de proibir a venda do serviço, e que foi complementada pelo Ministério Público, acabando com a multa pelo cancelamento do serviço. Agora é preciso aplicar multas severas; a Anatel costuma aplicar um monte de multas que ninguém paga nem questiona, mas agora precisa ser pra valer. Ela precisa também exercer seu papel de agência fiscalizadora e iniciar rigorosos processos de inspeção dentro da Telefônica, entrar lá de verdade e verificar quais são os problemas. E a Telefônica nem tem excelência para lidar com tais problemas - já tinha sido alertada e não fez nada. Isso é o emergencial.

No entanto, é preciso repensar o modelo. É necessário um novo marco regulatório. O atual tem um erro conceitual básico, que é ignorar a convergência tecnológica. Ou melhor, ele é anticonvergência, trata os serviços de comunicação como se fossem estanques. Mas a convergência está tornando a legislação obsoleta. Na verdade, é necessário corrigir problemas ideológicos do neoliberalismo. É preciso fortalecer o Estado como poder fiscalizador e, por que não, gestor dos serviços públicos.

CC: A privatização do setor é aclamada por grande parte da mídia e por especialistas como promotora de enorme avanço nas comunicações, do que seria uma evidência o grande número de novos usuários das novas tecnologias. Trata-se, portanto, de uma tese equivocada.

GG: Colocaram a vaca na sala, pra depois tirar e comemorar como melhoria. A ditadura militar criou um sistema de comunicações que era referência mundial, a Telebrás era uma das maiores empresas do mundo nesse setor, tinha pesquisa de ponta na área de comunicações. Mas esse modelo começou a ser corroído, ainda na própria ditadura. Com a crise do endividamento, com Figueiredo e Sarney, as teles davam lucro, mas o Estado pegava esse dinheiro para pagar a dívida externa. Assim, elas perderam a capacidade de investir. Havia aqueles problemas, de longas filas de espera para se comprar um telefone. Existia conhecimento técnico para um bom serviço, mas não se colocava dinheiro para investir.

A única coisa que pode ser considerada sucesso na privatização é a expansão da telefonia celular, mas ainda assim um sucesso relativo. Temos um dos minutos mais caros do mundo. Compra-se cartão de 3 reais, as pessoas abastecem o celular com o mínimo só para manter a linha, apenas recebendo as ligações. A taxa de uso é baixíssima por causa do preço; 81% dos aparelhos de hoje são pré-pagos e a maior parte das pessoas não consegue ter uma conta. Sendo assim, é um sucesso que se coloca em dúvida.

Já a telefonia fixa é um fracasso. A taxa aumentou muito, o minuto também. A quantidade de linhas vem caindo. Hoje, apenas 40% das residências possuem aparelho fixo, menos que os EUA depois da II Guerra Mundial. E a banda larga, que define as comunicações no século 21, tem uma penetração baixíssima. Portanto, o balanço do processo de privatização das telecomunicações é péssimo. Houve processos de demissão em massa, uma ampla terceirização dos trabalhadores, o que fragilizou a carreira dos telefonistas, que era uma carreira forte. E é claro que isso piorou a qualidade da mão-de-obra, pois o trabalhador precarizado tem muito menos condição de se qualificar.

Quase todas as empresas brasileiras da área de telecomunicações foram fechadas. A Telebrás investia a partir de tecnologia desenvolvida no pólo tecnológico do CPQD, da Unicamp. Isso acabou. As empresas passaram a ter fornecedores mundiais, suas compras não são mais locais. E passa-se a ter que negociar preços com Siemens, NEC, Nokia. Hoje, o Brasil transfere para o exterior cerca de oito bilhões de dólares por ano somente em royalties de chips. Vivemos um dilema, pois, quanto mais o setor crescer, mais divisas vão para fora. Hoje, nada é produzido aqui, a não ser algumas montagens. Mas o conhecimento e as patentes não são produzidos aqui.

CC: A difusão das novas tecnologias de comunicação, tais quais Skype, entre outras, que facilitam a comunicação sem a intermediação dos aparelhos tradicionais, não é prejudicada justamente pelo conluio público/privado em favor das grandes empresas, que atuam como verdadeiros monopólios nas regiões em que operam?

GG: Legalmente, as empresas não podem fazer nada e a rede deveria ser neutra. A rede não poderia ter atributos que permitem ingerência sobre o conteúdo navegado. Na prática, o operador de qualquer rede precisa de algum grau de ingerência, pois alguns tipos de dados que são trafegados precisam de mais espaço. Isso serve para o bom funcionamento da rede. Há uma gestão da rede com critérios técnicos, mas essas empresas se utilizam também de critérios comerciais, por exemplo, prejudicando voz por IP ou o tráfico de torrent. Ele detecta os usuários pesados e os constrange, diminuindo a quantidade de dados que eles conseguem fazer trafegar. É preciso fiscalizar se as empresas estão entregando o que elas se comprometeram a fazer, se elas fornecem a velocidade que prometeram em contrato e se estão transpondo o limite da gestão técnica, utilizando critérios comerciais. Porque isso claramente ofende o princípio da neutralidade da rede.

Rodrigo Mendes é jornalista.

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3492/9/

Eu quero dominar o mundo

Blog do Luis Nassif - 15/07/09

Por Janice Agostinho Barreto Ascari

Conheço inúmeros estudos que analisam - corretamente - a terrível questão das drogas do ponto de vista multidisciplinar (área médica, social, familiar, psicológica, educacional e outras) e não apenas pelo aspecto legal e policial. Dar conhecimento desses estudos aos juizes é diferente de torná-los adesão obrigatória, penso eu. Aliás, o Senador Romeu Tuma deveria dar conhecimento dos estudos também aos membros do Ministério Público, que são os responsáveis pela formalização da acusação perante os juizes e às Polícias, órgãos encarregados da repressão ao crime.

Interferir na atividade judicial e na independência funcional do magistrado é inconcebível e faz tempo que o CNJ vem tentando fazer isso. Obviamente, com os juizes de primeiro grau - já que o controle externo é pífio para os tribunais e inexistente para o STF.

O Procurador-Geral da República ajuizou ação contra a Resolução 59 do CNJ, que trata das interceptações telefônicas, exatamente porque essa norma interfere na chamada atividade-fim, ou seja, invade a esfera do mérito das decisões judiciais.

O CNJ, além de tentar de todas as formas interferir na independência funcional dos juizes, ainda quer atrair para si temas que exorbitam de sua competência, como o recém-criado grupo de magistrados que irá analisar a violência dos estádios de futebol, pois o CNJ está deveras preocupado com a Copa de 2014 - vejam em http://www.nalei.com.br/blog/2009/07/14/cnj-esta-preocupado-com-a-copa-do-mundo-de-2014/.

A idéia é colocar “juizados especiais” nos estádios. A propósito, o que foi feito dos juizados especiais apressadamente instalados pelo CNJ nos aeroportos na época dos apagões, alguém sabe?

Lembrei-me do cartoon Pinky e O Cérebro: “eu quero dominar o mundo”.

Desdobramentos da crise

Blog do Luis Nassif - 15/07/09

A desalavancagem é um processo doloroso e ainda mal começou.

Depois da tempestade

Martin Wolf
15/07/2009

A parte boa

(…) Comecemos, contudo, pelas boas notícias. A crise financeira, como se define estritamente, acabou: os mercados acionários estão em alta; a liquidez volta aos mercados; os bancos conseguem levantar capital; e os spreads extremos vistos em 2008 nos mercados financeiros desapareceram. Quando enfrentado com força, o pânico acaba. O compromisso das autoridades para resgatar o sistema financeiro em frangalhos não teve precedente. E teve os resultados almejados.

O pior da crise econômica também está passando. Como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacou em seu Panorama Econômico mais recente, “pela primeira vez desde junho de 2007, as projeções [...] foram revisadas para cima na região da OCDE como um todo em comparação com a edição anterior”. Da mesma forma, o FMI atesta em seu mais recente Panorama Econômico Mundial que “o crescimento econômico durante 2009/10 agora é projetado em cerca de meio ponto porcentual acima da previsão do FMI em abril, atingindo 2,5% em 2010″.

Tal virada nas previsões é indicador de uma recuperação iminente. Isso se sobressai claramente a cada mês nas previsões gerais para 2010. A melhora das projeções pode ser vista nos Estados Unidos, Japão e Reino Unido, embora, de forma preocupante, não na região do euro. As previsões sobre a China mostram grande resiliência. A confiança na Índia também está em ascensão.

A parte pendente

Precisamos, entretanto, contextualizar essas notícias, ainda que bem-vindas. O pior da crise financeira pode ter ficado para trás, mas o sistema financeiro continua subcapitalizado e sobrecarregado com um fardo, ainda desconhecido, de ativos duvidosos. Também está longe de ser um sistema financeiro verdadeiramente “privado”. Ao contrário, é sustentado por escoras maciças dos contribuintes, implícitas e explícitas. A probabilidade de problemas na estrada mais à frente é próxima a 100%. (…)

As previsões gerais mais recentes de crescimento para os países de alta renda em 2010 estão bem abaixo do potencial. Isso, contudo, também ocorre em um momento no qual as estimativas de “lacunas de produção” (ou capacidade ociosa), reconhecidamente incertas, estão em níveis extremos. Para este ano, a OCDE estima que estão em 4,9% do PIB potencial nos EUA, 5,4% no Reino Unido, 5,5% na região do euro e 6,1% Japão.

Tendo em vista as previsões de crescimento modesto, a capacidade ociosa será maior no fim de 2010 do que no deste ano. Os riscos para a inflação - ou melhor, riscos de deflação - são evidentes. Também o são as chances de maior aumento no desemprego. Alinhado a isso, a “taxa de equilíbrio” da inflação implícita nos bônus do Tesouro dos EUA convencionais e nos indexados pela inflação voltou a cair para perto de 1,5%. A histeria de junho com o aumento do rendimento dos bônus convencionais parece absurda.

Por trás da capacidade ociosa e dos aumentos maciços nos déficits fiscais está o desaparecimento dos consumidores de altos gastos, sobretudo dos EUA. (…)
Em 2007, o setor privado dos EUA gastou 2,4% do PIB além da renda. Em 2009, a OCDE sugere que gastará 7,9% do PIB abaixo da renda. Essa mudança gigantesca em direção à prudência - há muito defendida pelos críticos e tão pouco apreciada agora que realmente chegou - explica em grande parte a passagem para déficits fiscais: entre 2007 e 2009, uma mudança de 10,3% do PIB no equilíbrio do setor privado entre renda e gastos foi compensado por uma piora de 7,3% do PIB fiscal e uma melhora de 3% do PIB no déficit em conta corrente. Mesmo assim, essa compensação fiscal não evitou uma forte recessão.

A prudência do setor privado deverá continuar em um mundo pós-bolha caracterizado por montanhas de dívidas. No quarto trimestre de 2008 e primeiro de 2009, a captação de empréstimos pelos consumidores dos EUA foi ligeiramente negativa. No fim do primeiro trimestre deste ano, no entanto, a taxa de dívidas brutas dos consumidores em relação ao PIB era apenas 2% menor do que no fim de 2007. A desalavancagem é um processo doloroso e ainda mal começou.