"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

sábado, junho 29, 2013

Irresponsabilidade Eleitoreira

A ausência da atuação policial para proteger o patrimônio público e privado dos vândalos que atuam nos diversos pontos do país começa a mostrar sinais sérios dessa estupidez.

Com vistas as eleições do próximo ano, prefeitos e governadores simplesmente determinaram às polícias que não atuassem de forma mais enérgica contra as depredaçoes, afinal de contas, ninguém que no ano anterior a eleição ser visto como “repressor” dos movimentos sociais.

Para termos uma ideia dos riscos que essa equivocada posição idiota dos nossos líderes pode vir a causar, vou citar dois exemplos nessa semana: 1º- na Arena da Baixada no dia 23 de junho (apesar da quase não repercussão do fato) um grupo pertencente a uma torcida organizada do Atlético Paranaense entrou em confronto com os manifestantes no intuito de defender o estádio e arredores de depredação; 2º – aqui em Porto Alegre, na Cidade Baixa, depois das seguidas depredações do patrimônio privado (carros destruídos e lojas saqueadas) moradores da João Alfredo se armaram para defender e partir para o conflito contra os vândalos no intuito de defender seu patrimônio.

MORADORES ENFRENTAM VANDALISMO

moradores enfrentam vândalos

E aí eu pergunto, se morre algum manifestação ou resistente, quem vai assumir a culpa? O Prefeito, o Governador, ou será creditada na conta dos que morreram? Tá na hora de para de pensar em eleição e atuar de verdade na segurança pública.

terça-feira, junho 25, 2013

O que esperar dos serviços secretos?

darussia.blogspot - Segunda-feira, Junho 24, 2013

 
 
A novela em torno da fuga de Eduard Snowden, ex-consultor da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, vem colocar numerosas questões no que respeita aos sistemas de segurança dos países e ao seu funcionamento.
Se, antes do aparecimento dos computadores e da Internet, um agente secreto podia desviar dezenas ou até algumas centenas de documentos, hoje, ele pode dar a conhecer ao mundo muitos milhares.
Por um lado, isso poderá obrigar os próprios serviços secretos a atuarem com mais cuidado e respeito, em maior conformidade com os direitos dos cidadãos. Através de Snowden, soubemos, por exemplo, que as autoridades norte-americanas têm acesso aos dados pessoais de milhões de pessoas que utilizam as redes sociais ou outros serviços na Internet, o que não é nada agradável.
Soubemos também, que os serviços secretos norte-americanos escutaram as conversas dos dirigentes mundiais durante uma das cimeiras dos G-8, o que também nada tem de agradável.
Porém, mesmo sem estas revelações, a maioria das pessoas com o mínimo de inteligência desconfiava, tinha quase a certeza de que os serviços secretos faziam essas e outras atividades ilegais.  A história desse tipo de instituições mostra que ela, muitas vezes, atua à margem da lei, mesmo nas sociedades mais democráticas, com um forte controlo dos serviços secretos por parte dos governos.
Às vezes, são apanhadas “com as mãos na massa” e muitos cidadãos ficam indignados com algumas dessas ações. O caso de Eduard Snowden é um exemplo claro disso.
Todavia, sem querer justificar alguns dos métodos utilizados pelos serviços secretos para resolver certos problemas, gostaria de chamar a atenção para o facto de todos nós, incluindo os que criticam os serviços secretos, exigirmos que eles nos garantem a segurança, pois para isso foram criados.
Ora, numa época em que o terrorismo e o crime organizado assumiram proporções nunca vistas, talvez seja demasiado pedir aos agentes para atuarem sempre de forma mais limpa, pois trata-se de um combate, à priori, sujo e sem regras definidas.
Se observam estritamente a lei e, depois, os atentados terroristas acontecem, os serviços secretos são acusados de negligência. Mas, quando são apanhados em situações menos legais, também ninguém lhes perdoa.
Tarefa ingrata, pois “levam por ter cão e levam por não o ter”. O ideal seria puderem atuar no mais restrito respeito da lei, mas será isso possível?


P.S. Este texto é discutível apenas entre aqueles que não acreditam que os serviços secretos são os próprios organizadores de todos os males do mundo. 

Constituinte exclusiva, a proposta inoportuna

Autor: 
Independentemente ou não do mérito da reforma política, a proposta do plebiscito para a Constituição exclusiva é inoportuna. Não bastassem as inúmeras sarnas que o governo têm para coçar, joga-se nas ruas um novo tema com conteúdo capaz de incendiar ainda mais os debates públicos.
O histórico dessa proposta é banal.
O Estadão precisava ouvir fontes com análises e propostas para a crise. Com a enorme dificuldade em encontra-las recorre ao velho arsenal dos anos 80, o historiador Carlos Guilherme Motta – que tornou-se alvo do escárnio depois de um artigo no Estadão, em 2010, dizendo que o grande risco da democracia era o povo que estava ganhando direitos civis sem estar preparado.
Motinha – como é conhecido – saca do coldre sua velha Colt 45, consulta seus alfarrábios, esquece que não acredita em povo e vem com a fórmula milagrosa (para os anos 80 pré-Constituinte): uma Constituinte exclusiva. No domingo sai a matéria com Motinha, por falta do que propor, propondo a Constituinte exclusiva. Encontra leitores privilegiados no Planalto que nem para temas jurídicos consultam o Ministro da Justiça, por inócuo, inodoro e incolor.
Ora, a Constituinte de 1988 lançou o país na modernidade dos direitos sociais e das políticas de inclusão. Há um conjunto de direitos que tenta-se derrubar há anos – é só conferir as campanhas sobre o excesso de direitos e a escassez de deveres previstos na Constituição -, e só poderiam ser derrubados por uma nova Constituinte.
É evidente que não é essa a intenção da presidente Dilma Rousseff. Mas ao abrir a caixa de Pandora do plebiscito, todas essas ameaças tornam-se latentes. A Constituinte exclusiva passa a sofrer resistências de juristas, parlamentares, movimentos de direitos humanos. 
Poderia se ter ficado na proposta de reforma política, sem avançar nos instrumentos de implementação, antes do pleno conhecimento de todas as alternativas. Toda a discussão, agora, será sobre plebiscito e não-plebiscito, constituinte exclusiva ou não, deixando para segundo plano o objetivo maior da reforma política.
Nos anos 60, Jango convocou um plebiscito para repor o presidencialismo – já que tivera que aceitar o parlamentarismo como pré-condição para assumir a presidência. Venceu o plebiscito e, pouco depois, perdeu o governo. O alvoroço nas ruas, suscitado pela campanha, foi um dos combustíveis para a exacerbação dos conflitos e para o fortalecimento dos conspiradores.
Há que se ter cautela e encontrar alguém que possa tirar esse bode da sala.

Passe Livre diz ao Planalto que mobilidade urbana é direito, não mercadoria

viomundo - publicado em 24 de junho de 2013 às 10:47

Foto: Marcelo Camargo/ABr
CARTA ABERTA DO MOVIMENTO PASSE LIVRE SÃO PAULO À PRESIDENTA
À Presidenta Dilma Rousseff,
Ficamos surpresos com o convite para esta reunião. Imaginamos que também esteja surpresa com o que vem acontecendo no país nas últimas semanas.
Esse gesto de diálogo que parte do governo federal destoa do tratamento aos movimentos sociais que tem marcado a política desta gestão. Parece que as revoltas que se espalham pelas cidades do Brasil desde o dia seis de junho tem quebrado velhas catracas e aberto novos caminhos.
O Movimento Passe Livre, desde o começo, foi parte desse processo. Somos um movimento social autônomo, horizontal e apartidário, que jamais pretendeu representar o conjunto de manifestantes que tomou as ruas do país. Nossa palavra é mais uma dentre aquelas gritadas nas ruas, erguidas em cartazes, pixadas nos muros. Em São Paulo, convocamos as manifestações com uma reivindicação clara e concreta: revogar o aumento.
Se antes isso parecia impossível, provamos que não era e avançamos na luta por aquela que é e sempre foi a nossa bandeira, um transporte verdadeiramente público. É nesse sentido que viemos até Brasília.
O transporte só pode ser público de verdade se for acessível a todas e todos, ou seja, entendido como um direito universal. A injustiça da tarifa fica mais evidente a cada aumento, a cada vez que mais gente deixa de ter dinheiro para pagar a passagem.
Questionar os aumentos é questionar a própria lógica da política tarifária, que submete o transporte ao lucro dos empresários, e não às necessidades da população.
Pagar pela circulação na cidade significa tratar a mobilidade não como direito, mas como mercadoria. Isso coloca todos os outros direitos em xeque: ir até a escola, até o hospital, até o parque passa a ter um preço que nem todos podem pagar.
O transporte fica limitado ao ir e vir do trabalho, fechando as portas da cidade para seus moradores. É para abri-las que defendemos a tarifa zero.
Nesse sentido gostaríamos de conhecer o posicionamento da presidenta sobre a tarifa zero no transporte público e sobre a PEC 90/11, que inclui o transporte no rol dos direitos sociais do artigo 6o da Constituição Federal.
É por entender que o transporte deveria ser tratado como um direito social, amplo e irrestrito, que acreditamos ser necessário ir além de qualquer política limitada a um determinado segmento da sociedade, como os estudantes, no caso do passe livre estudantil.
Defendemos o passe livre para todas e todos!
Embora priorizar o transporte coletivo esteja no discurso de todos os governos, na prática o Brasil investe onze vezes mais no transporte individual, por meio de obras viárias e políticas de crédito para o consumo de carros (IPEA, 2011). O dinheiro público deve ser investido em transporte público!
Gostaríamos de saber por que a presidenta vetou o inciso V do 16º artigo da Política Nacional de Mobilidade Urbana (lei nº 12.587/12) que responsabilizava a União por dar apoio financeiro aos municípios que adotassem políticas de priorização do transporte público. Como deixa claro seu artigo 9º, esta lei prioriza um modelo de gestão privada baseado na tarifa, adotando o ponto de vista das empresas e não o dos usuários.
O governo federal precisa tomar a frente no processo de construção de um transporte público de verdade. A municipalização da CIDE, e sua destinação integral e exclusiva ao transporte público, representaria um passo nesse caminho em direção à tarifa zero.
A desoneração de impostos, medida historicamente defendida pelas empresas de transporte, vai no sentido oposto. Abrir mão de tributos significa perder o poder sobre o dinheiro público, liberando verbas às cegas para as máfias dos transportes, sem qualquer transparência e controle. Para atender as demandas populares pelo transporte, é necessário construir instrumentos que coloquem no centro da decisão quem realmente deve ter suas necessidades atendidas: os usuários e trabalhadores do sistema.
Essa reunião com a presidenta foi arrancada pela força das ruas, que avançou sobre bombas, balas e prisões. Os movimentos sociais no Brasil sempre sofreram com a repressão e a criminalização. Até agora, 2013 não foi diferente: no Mato Grosso do Sul, vem ocorrendo um massacre de indígenas e a Força Nacional assassinou, no mês passado, uma liderança Terena durante uma reintegração de posse; no Distrito Federal, cinco militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) foram presos há poucas semanas em meio às mobilizações contra os impactos da Copa do Mundo da FIFA. A resposta da polícia aos protestos iniciados em junho não destoa do conjunto: bombas de gás foram jogadas dentro de hospitais e faculdades; manifestantes foram perseguidos e espancados pela Polícia Militar; outros foram baleados; centenas de pessoas foram presas arbitrariamente; algumas estão sendo acusadas de formação de quadrilha e incitação ao crime; um homem perdeu a visão; uma garota foi violentada sexualmente por policiais; uma mulher morreu asfixiada pelo gás lacrimogêneo. A verdadeira violência que assistimos neste junho veio do Estado – em todas as suas esferas.
A desmilitarização da polícia, defendida até pela ONU, e uma política nacional de regulamentação do armamento menos letal, proibido em diversos países e condenado por organismos internacionais, são urgentes.
Ao oferecer a Força Nacional de Segurança para conter as manifestações, o Ministro da Justiça mostrou que o governo federal insiste em tratar os movimentos sociais como assunto de polícia. As notícias sobre o monitoramento de militantes feito pela Polícia Federal e pela ABIN vão na mesma direção: criminalização da luta popular.
Esperamos que essa reunião marque uma mudança de postura do governo federal que se estenda às outras lutas sociais: aos povos indígenas, que, a exemplo dos Kaiowá-Guarani e dos Munduruku, tem sofrido diversos ataques por parte de latifundiários e do poder público; às comunidades atingidas por remoções; aos sem-teto; aos sem-terra e às mães que tiveram os filhos assassinados pela polícia nas periferias.
Que a mesma postura se estenda também a todas as cidades que lutam contra o aumento de tarifas e por outro modelo de transporte: São José dos Campos, Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia, entre muitas outras.
Mais do que sentar à mesa e conversar, o que importa é atender às demandas claras que já estão colocadas pelos movimentos sociais de todo o país. Contra todos os aumentos do transporte público, contra a tarifa, continuaremos nas ruas! Tarifa zero já!
Toda força aos que lutam por uma vida sem catracas!
Movimento Passe Livre São Paulo
24 de junho de 2013

Considero uma grande palhaçada a estória generalizada contada pelos diversos prefeitos sobre a redução do preço da passagem via redução de impostos. A estória de que não existe almoço de graça, e que o Governo vai ter que retirar isso de algum lugar. Bom, pergunta básica. Existe algum empresário do ramo dos transporte disposto a "largar o osso"? Dúvido. Então dá para reduzir as margens de lucro e consequentemente o valor da passagem sem que isso reverbere na arrecadação do Estado. O que temos em falta é uma política de Governo que taxe de forma diferenciada as grandes fortunas e o lucro exorbitante do setor financeiro que nada produz. Tarifa zero? Bom, isso é utopia do mais alto nível. Talvez, para que seja crédulo, no paraíso exista.
Não é uma constituinte que vai dar solução a esses problemas. 
Outra coisa, o Movimento deve também deixar de inocência. Eles estão em uma manifestação, não procissão. Se querem que não ocorra reação da polícia, no mínimo, terão que evitar as ações de depredação que ocorrem na esteira das manifestações. Se essas são praticadas por infiltrados, que o movimento se posicione e os denuncie, pois só assim poderão dissociar suas reivindicações de tais ações.
Para encerrar,  não existe policia desarmada. A ONU é um órgão político, quanto mais cedo vocês enxergarem isso, mais fácil poderão ver o que está por trás das mais variadas boas intenções do da instituição.

Wanderley: Dilma não denunciou a manha Golpista

conversa afiada - Publicado em 23/06/2013



Saiu no IG:

A presidenta Dilma Rousseff falou, mas não disse

Em artigo, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos analisa o pronunciamento desta sexta e afirma que o discurso foi ineficaz e que as manifestações revelam o maior ataque à democracia dos últimos 20 anos

Não se cura tuberculose por decreto ao fim de passeatas. Mas as gangues de ladrões e depredadores que desde terça-feira, dia 18 de junho, receberam de presente a mais legítima carona da sociedade – desfiles pacíficos em nome da democracia – estão pouco se lixando. Os articuladores anônimos dos grupos violentos de direita, neo-nazistas inclusive, e dos radicalóides sociopatas, conhecem muito bem o tempo das políticas, mas não é o que os interessa. Para os atraídos de boa fé para a trapaça reivindicatória, enfim, o discurso da presidente Dilma não trouxe novidade. Investimento em saúde e educação, ensino técnico como nunca visto, transparência na administração, através da lei de acesso à informação, apuração de desvios administrativos, com inédita demissão de ministros, são políticas já em vigor e rotineiras, isto é, não há mais discussão sobre se devem ou não devem ser executadas. São políticas de Estado, compromisso do país. Isso para não enumerar sucessivas inovações na política social que, estupidez que o amanhã julgará, passou a ser impudico mencionar em meios de classe de renda mais elevada.

A mensagem da presidente arrisca ser ineficaz, do mesmo modo como são absolutamente vazias as reivindicações marchadeiras: saúde, educação, transparência, ética na política – sem que se indiquem os acusados de objetá-las. Por isso, as provocações tendem a perdurar enquanto os de boa fé não se derem conta de que são equivocadas as manifestações com tanta virulência contra o que de fato já está em execução, obtendo variados graus de sucesso. O cerne da contestação não está nas demandas fragmentadas. Está no ataque à democracia como sistema capaz de prover e operar uma sociedade justa. Em outras palavras: segundo os mentores e comentaristas convertidos os grandes feitos dos últimos governos não seriam tão significativos, antes revelando ser a democracia, pelo menos em sua forma atual, um desastre governativo. Recusa enfática a esse niilismo não constou, mas devia ser crucial, do discurso presidencial.

A mensagem subliminar dos arquitetos da desordem (com exceção do Movimento pelo Passe Livre fora) e dos aproveitadores de todas as idades tem consistido em insinuar que as instituições democráticas – governo representativo, parlamentos, movimentos sociais organizados, partidos políticos – são os obstáculos à construção de uma sociedade mais justa e livre. Golpistas crônicos, anarquistas senis em busca de holofote, muitos jovens anencéfalos e assustados da classe média em geral, formam a retaguarda deste exército do obscurantismo e da violência. A essência desse arremedo intolerante de participação é uma reação à democracia e suas realizações. Faltou ao discurso de Dilma Roussef uma declaração de que reconhecia as manhas dos que se aproveitam das boas intenções para conduzi-las ao inferno. E de que não se submeterá a elas.

Enquanto a empulhação televisa continua a descrever as manifestações “cívicas até aqui pacíficas”, no meio das passeatas, como se as apresentadoras não soubessem o que viria ao fim da encenação, registro que, em minha opinião, se trata do maior cerco reacionário, nacional e internacional, que este país já sofreu nos últimos vinte anos.

Considero Wanderley um dos melhores pensadores da área. Sua análise em Poliarquia em 3D é excelente. Mas, não concordo plenamente com seu texto no tocante ao ataque à democracia, pelo menos no que se entende como democracia de forma geral (não aquela discutida de forma mais profunda como o fez Robert Dahl).
Não consigo dissociar essa democracia da direita por exemplo. Em um retorno de um governo de forte inclinação neoliberal, teríamos vários ingredientes da democracia: voto popular, eleições livres, etc. Mas, teríamos um agravamento das condições sociais. A Suécia (creio que todos são de acordo que o país é uma democracia) por exemplo vem após sucessivos governos neoliberais apresentando aumento nas suas desigualdades internas.
Creio que o grande risco é de surgir do movimento um governo de intensa inclinação neoliberal, que consiga absorver de forma propagandística as bandeiras democráticas de melhoria social.
As políticas de inclusão social realizadas no Governo Lula foram impressionantes. A classe média (não a do imaginário de esquerda, mas a realmente medida) hoje representa mais da metade da população do país.
E como bem disse Juan Arias recentemente em debate sobre as manifestações, a grande diferença entre as manifestações da classe média espanhola e brasileira é que a primeira luta pelo que perdeu, a segunda pelo que ainda não tem.
E isso é algo facilmente manipulado pelas estruturas neoliberais. 
 

segunda-feira, junho 24, 2013

'Vejo esses movimentos como Maios de 68 pós-modernos'

Resenha - Exército Brasileiro - 23 jun 2013


Fernando Eichenberg

PARIS  Com mais de 20 obras publicadas no Brasil  - como "A transfiguração do político" e "A dinâmica da violência" -, o sociólogo Michel Maffesoli vê o país como um "laboratório" no fim dos tempos modernos e diz não ter sido surpreendido com a eclosão das manifestações em diversas cidades brasileiras. Conhecedor do Brasil, para onde viaja há mais de  30 anos para conferências e intercâmbios intelectuais, Maffesoli disse que vai "dar uma passada" na
manifestação de brasileiros que ocorrerá no fim da tarde de hoje, em Paris, em solidariedade ao movimento. Na sua opinião, manifestações como as do Brasil e da Turquia podem ser vistas como "Maios de 68 pós-modernos", de curta duração, mas com marcas indeléveis.
 
Como o senhor analisa estes movimentos no Brasil?
 
É um bom exemplo destas sublevações pós-modernas que se desenvolvem em vários lugares. É uma revolta bastante disseminada, que não se origina de um projeto político preciso e programático, mas, ao contrário, propaga-se como um fogo rápido a partir de um pequeno pretexto, como R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus. É algo que pode ser comparado com o exemplo turco, onde a partir de algo anódino - construir algo ou não num parque - se criou uma sublevação que se alastrou. Vivemos o fim de uma época, e umas das manifestações disso é que algo cotidiano suscita um movimento que questiona o sistema.
 
Para o senhor, é o fim de um modo de se fazer política?
 
É o fim da política moderna. Tive como professor na França o sociólogo Julien Freund (1921-1993), também conhecido no Brasil, que dizia que o político é a ideia de um projeto, de um programa, da dimensão racional, seja de esquerda ou de direita. O objetivo programático é mobilizar energias para alcançar o fim desejado. Era a grande ideia marxista dos sistemas socialistas do século XIX, das políticas conservadoras etc. Vemos que há uma saturação, um tipo de indiferença, esses jovens não se reconhecem mais num programa, num partido ou sindicato. Não é mais programático, mas, sim, emocional. A modernidade é racional, e a pós-modernidade é emocional. Com o que ocorre no Brasil temos uma boa ilustração disso.
 
O senhor se surpreendeu pelo fato de essas manifestações ocorrerem agora no Brasil?
 
Vejo o Brasil como um laboratório da pós-modernidade. Algo assim não vejo ocorrer na França, onde espírito, clima e intelligentsia permanecem muito racionais. Não vejo surpresa neste tipo de explosão, forte, mesmo brutal, num
país como o Brasil.
 
Não se trata de revolução. Como o senhor definiria este movimento?
 
A palavra "revolução" significa uma ruptura. Etimologicamente significa "revolvere" em latim, voltar a coisas que acreditávamos superadas. Não é uma revolução no sentido moderno do termo, como ruptura. Mas no sentido
etimológico vemos voltar essa ideia de fraternidade, de estar juntos, das tribos. Por isso o Brasil é um país importante, porque vejo que resta essa velha ideia, que vem das culturas ancestrais, de comunidade, de solidariedade de base. Vejo uma espécie de ilustração da minha teoria de tribos urbanas. E, quando há um tal ajuntamento, os políticos ficam perdidos, desamparados, porque ultrapassa suas categorias, que permanecem programáticas. Vemos uma sublevação, um tsunami das tribos urbanas.
 
As redes sociais também têm um papel importante nessas sublevações...
 
Brinco dizendo que neste caso não se deve mais fazer sociologia, mas epidemiologia, pois é algo viral. É a sinergia do arcaico com o desenvolvimento tecnológico. Arcaico são as tribos; desenvolvimento tecnológico, a internet.
Há mobilidade graças às redes sociais. As tribos urbanas se tornam comunidades interativas. Há essa expressão em inglês, "flash mob" (abreviação de flash mobilization , movimentação relâmpago). De repente surge uma mobilização que desampara as instituições. Como não é programático, há o risco de murchar como um suflê, de forma rápida. Mas é algo que deixa marcas.
 
O movimento pode degenerar?
 
Não se faz omelete sem quebrar ovos. Não podemos atuar como moralistas. Mesmo que os participantes se manifestem contra a violência, é algo que não é controlável. Não se pode prever, mas é quase certo que haverá algum dano. Está na natureza humana, quando ocorre algo que quebra a ordem das coisas é certo que haverá desvios.
 
Como compara o que ocorre no Brasil com outros países? Teria alguma relação com Maio de 68?
 
Não se pode comparar com a Primavera Árabe, a não ser pelo uso de tecnologias e redes sociais. Acho que é mais comparável com a Turquia. Vejo esses movimentos como Maios de 68 pós-modernos: emoção coletiva, que provoca o contágio e se alastra de forma incontrolável. Poderá secar, mas com um verdadeiro corte, e o depois não poderá ser como o antes.

O Sonderkommando Blaich - Ataque em Fort Lamy no Chade, na África e no Mediterrâneo, Segunda Guera Mundial

O TUIUTI - nº 69 - Junho 2013
 
Esta é a história de uma missão especial  alemã na beira do deserto do Chade, para trás das linhas do Eixo, destruindo aeródromos e atacar e  tentar impedir as operações do  SAS  (Special Air Service)  britânico LRDG1,  na iminência de uma ofensiva de Rommel. Entre 1940 e 1941, as forças especiais britânicas causaram estragos por realizando tarefas vitais de reconhecimento, o que ajudou os comandantes britânicos a projetar e planejar  suas linhas defensivas  e de  ataques contra as linhas de abastecimento alemãs. A unidade  aérea especial, o Sonderkommando Blaich, foi formada sob o comando do capitão Theo Blaich2 deserto, com o Range Desert Group e com  o SAS. A Bf-108 em primeiro plano e I-111 atrás, para lidar, no Oasis de Hun em 1941 unidade consistia numa pequena esquadrilha de um He-111 e o Bf-108, utilizado por Blaich.
 
Tropas da França Livre ocupavam um posto avançado de Fort Lamy no Chade, a cerca de 2.500 quilômetros de  bases da Luftwaffe localizadas mais ao sul da África. A posição era de grande importância estratégica para os aliados, como o principal enclave , no interior, de abastecimento de portos e campos de petróleo da costa Oeste Africano. Era também uma fonte vital de depósito  das forças especiais dos aliados. Dado que a ofensiva  de Rommel sobre El Agheila  estava prevista para o mês de janeiro, ele decidiu bombardear Fort Lamy e tentar de interromper as operações do LRDG/SAS. Em 21 de janeiro de 1942, a pequena força decolou em direção ao desconhecido. A tripulação a bordo do He-111 era formada pelo tenente Bohnsack,  Sargento Geibler, Cabo Wichmann, e tenente Dettmann, um correspondente de guerra. Blaich pilotava seu próprio aparelho. A primeira parada para reabastecimento foi feito em uma pequena pista italiana no Oásis Hun.
Blaich foi recebido pelo Major italiano Conde  VimercatiSanseverino, que tinha voado até lá em um Savoia  em 20 de janeiro. O oficial italiano tinha trazido combustível para a viagem de retorno dos aviões alemães. Mas  ele  resolveu se juntar à tripulação de Blaich e participar da operação. A pequena força partiu novamente naquela tarde.
Logo, Blaich ordenou à tripulação para ir a postos de combate. Fort Lamy apareceu no horizonte
com a sua pista gigante e tanques de combustível do exército britânico. 16 bombas  de 50 Kg foram lançadas. O He-111 deu a volta para ver o resultado do lançamento, vendo-as explodir nos  armazéns e depósitos. Enormes colunas de fumaça subiam para o céu. Todo o combustível, cerca de 400 mil litros de querosene, foi “consumido”, assim como vários tipos de óleos e lubrificantes. Também foram destruídas dez aeronaves no chão. Um único avião  bombardeiro acabara de obter um grande sucesso. Fort Lamy estava fora de ação por algumas semanas.
 
Fonte: http://www.gehm.es – Grupo de Estudios de Historia Militar – Hugo Cañete.



1Long Range Desert Group - Tropa de Elite
2Blaich tinha sido um fazendeiro rico e aventureiro na África antes da guerra ..

domingo, junho 23, 2013

O PRISM e a ascensão de um novo fascismo

resistir info – 23 jun 2013

por John Pilger

Logo do PRISM.No seu livro, Propaganda, publicado em 1928, Edward Bernays escreveu: "A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo que não se vê da sociedade constituem um governo invisível, o qual é o verdadeiro poder dominante no nosso país".
Bernays, o sobrinho americano de Sigmund Freud, inventou a expressão "relações públicas" como um eufemismo para propaganda de estado. Ele advertiu uma ameaça permanente ao governo invisível era os que dizem a verdade e um público esclarecido.
Em 1971, Daniel Ellsberg trouxe a público os ficheiros do governo estado-unidense conhecidos como "The Pentagon Papers", revelando que a invasão do Vietname fora baseada numa mentira sistemática. Quatro anos depois, Frank Church dirigiu audiências sensacionais no Senado dos EUA: um dos últimos lampejos da democracia americana. Estas puseram a nu a plena extensão do governo invisível: a espionagem e subversão internas e a provocação de guerra pelas agências de inteligência e "segurança", bem como o apoio que recebiam do big business e dos media, tanto conservadores como liberais.
Ao referir-se à Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), o senador Church afirmou: "Sei que a capacidade que há para instaurar tirania na América e devemos verificar que esta agência e todas as agências que possuem esta tecnologia operem dentro da lei... de modo a que nunca cruzemos esse abismo. Trata-se do abismo do qual não há retorno".
Em 11 de Junho de 2013, a seguir às revelações no Guardian de Edward Snowden, contratado pela NSA, Daniel Ellsberg escreveu que os EUA agora caíram dentro "daquele abismo".
A revelação de Snowden, de que Washington utilizou a Google, Facebook, Apple e outros gigantes da tecnologia do consumidor para espionar quase toda a gente, é uma nova evidência da forma moderna de fascismo – esse é o "abismo". Tendo nutrido fascistas tradicionais por todo o mundo – desde a América Latina à África e à Indonésia – o génio libertou-se e voltou para casa. Entender isto é tão importante quanto entender o abuso criminoso da tecnologia.
Fred Branfman, que revelou a destruição "secreta" do pequeno Laos pela US Air Force nas décadas de 1960 e 70, proporciona uma resposta àqueles que ainda se admiram como um presidente afro-americano, um professor de direito constitucional, pode comandar tamanha ilegalidade. "Sob o sr. Obama", escreveu ele, "nenhum presidente fez mais para criar a infraestrutura para um possível futuro estado policial". Por que? Porque Obama, tal como George W. Bush, entende que o seu papel não é satisfazer aqueles que nele votaram mas sim expandir "a mais poderosa instituição da história do mundo, uma instituição que matou, feriu ou privou de lar bem mais de 20 milhões de seres humanos, principalmente civis, desde 1962".
No novo ciber-poder americano, só as portas giratórias mudaram. O director da Google Ideas, Jared Cohen, era conselheiro de Condaleeza Rice, a antiga secretária de Estado na administração Bush que mentiu quando disse que Saddam Hussein podia atacar os EUA com armas nucleares. Cohen e o presidente executivo da Google, Eric Schmidt – eles encontraram-se nas ruínas do Iraque – escreveram um livro em co-autoria, The New Digital Age, apresentado como visionário pelo antigo director da CIA Michael Hayden e pelos criminosos de guerra Henry Kissinger e Tony Blair. Os autores não mencionam o programa de espionagem
Prism , revelado por Edward Snowden, que proporciona à NSA acesso a todos nós que utilizamos o Google.
Controle e domínio são as duas palavras que dão o sentido disto. São exercidos através de planos políticos, económicos e militares, entre os quais a vigilância em massa é uma parte essencial, mas também pela propaganda insinuante na consciência pública. Este era o ponto de Edward Bernay. As suas duas campanhas de RP com mais êxito foram convencer os americanos que deveriam ir à guerra em 1917 e persuadir as mulheres a fumarem em público; os cigarros eram "archotes da liberdade" que acelerariam a libertação da mulher.
É na cultura popular que o "ideal" fraudulento da América como moralmente superior, como "líder do mundo livre", tem sido mais eficaz. Mas, mesmo durante os períodos mais patrioteiros de Hollywood houve filmes excepcionais, como aqueles de Stanley Kubrick no exílio e audaciosos filmes europeus que encontravam distribuidores nos EUA. Nestes dias, não há Kubrick, nem Strangelove e o mercado estado-unidense está quase fechado a filmes estrangeiros.
Quando apresentei meu filme,
"A guerra à democracia" ( "The War on Democracy" ),
a um grande distribuidor dos EUA de mentalidade liberal, recebi uma lista de mudanças exigidas para "assegurar que o filme fosse aceitável". A sua inesquecível cedência para mim foi: "OK, talvez pudéssemos deixar Sean Penn como narrador. Isso o satisfaria?" Ultimamente, o filme de apologia da tortura "Zero Dark Thirty", de Katherine Bigelow, e "We Steal Secrets", um trabalho de machadinha contra Julian Assange, foram feitos com o apoio generoso da Universal Studios, cuja companhia-mãe até recentemente era a General Electric. A GE fabrica armas, componentes para aviões-caça e tecnologia avançada de vigilância. A companhia também tem interesses lucrativos no Iraque "libertado".
O poder dos que contam verdades, como Bradley Manning, Julian Assange e Edward Snowde, é que eles refutam toda uma mitologia construída cuidadosamente pelo cinema corporativo, pela academia corporativo e pelos media corporativos. A WikiLeaks é especialmente perigosa porque proporciona aos que contam a verdade um meio para a por cá fora. Isto foi conseguido em"Collateral Murder", o vídeo filmado a partir da cabina de um helicóptero Apache dos EUA que alegadamente foi revelado por Bradley Manning. O impacto deste único vídeo marcou Manning e Assange para a vingança do estado. Ali estavam pilotos dos EUA a assassinar jornalistas e mutilar crianças numa rua de Bagdad, a divertirem-se claramente com isso e a descrever a sua atrocidade como "linda". Mas, num sentido vital, eles não escaparam sem punição; somos agora testemunhas e o que resta é para nos tramar.

20/Junho/2013

O original encontra-se em New Statesman e em www.counterpunch.org/2013/06/21/prism-and-the-rise-of-a-new-fascism/

O CONTORCIONISMO DO PT BRASILEIRO

resistir info – 23 jun 13

O contorcionismo do PT brasileiro diante das manifestações que atravessam o país é visível. Ele tenta cooptar as manifestações, como se estas não fossem também contra o seu governo. Ao mesmo tempo, vai prometendo medidas paliativas mas que não ponham em causa o dogma neoliberal. Isso ficou patente no discurso de 21 de Junho da presidente Dilma Roussef, em cadeia nacional de TV. A presidente nem sequer pôs em causa a privatização selvagem dos transportes públicos de passageiros nas principais cidades brasileiras. O seu "plano nacional de mobilidade" aparentemente não será para reverter essa actividade aos poderes públicos. Os lucros dos capitalistas donos das empresas de "ônibus" têm de ser garantidos, mesmo que para isso o governo do PT tenha de lhes dar alguns subsídios a fim de reduzir tarifas e baixar a tensão social. A presidente, no seu discurso, tão pouco fez qualquer auto-crítica quanto aos gastos monstruosos do seu governo com campeonatos do jogo da bola. Na verdade, entre o PT e o PSDB brasileiros existe tanta diferença como entre o PS e o PSD portugueses — ou seja, pouca ou nenhuma

domingo, junho 09, 2013

Budapest en alerte face à la crue du Danube

franceinter.fr - monde du dimanche 09 Juin à 12H11

budapest en alerte face à la crue du danube © reuters - 2013

BUDAPEST (Reuters) - Le Danube devait atteindre un pic de crue ce dimanche soir à Budapest, où des digues ont été renforcées pour éviter des inondations.

Des dizaines de milliers de personnes ont dû être évacuées dans le bassin du Danube, mais aussi du Rhin, où les inondations ont fait une dizaine de morts la semaine passée.

Avant la Hongrie, l'Allemagne, l'Autriche, la Slovaquie, la Pologne et la République tchèque ont également été frappées par la montée des eaux.

En Hongrie, les autorités sont en alerte depuis vendredi. L'armée et des milliers de volontaires se sont mobilisés le long des berges du Danube, où une trentaine de localités ont été désertées par leurs 1.200 habitants.

"Les inondations approchent du coeur de notre pays, nous pouvons dire que les deux prochains jours seront décisifs", a déclaré le Premier ministre Viktor Orban dimanche lors d'une conférence de presse à Esztergom, au nord de Budapest.

Dans la capitale, le risque de voir des quartiers submergés sous les eaux du Danube se double de menaces sur les égouts. Le système d'évacuation pourrait être saturé, et les eaux usées pourraient refluer à la surface.

On s'attend à ce que la cote du Danube atteigne 8m95 dimanche dans la soirée, une trentaine de centimètres au-dessus du record atteint lors de la crue de 2006.

Krisztina Than; Henri-Pierre André pour le service français

Syrie: l'armée s'apprête à lancer une offensive sur Alep après avoir reconquis Qousseir

RFI - Article publié le : dimanche 09 juin 2013 à 18:55 - Dernière modification le : dimanche 09 juin 2013 à 18:55

 

Un combattant de l’Armée syrienne libre, opposant à Bachar el-Assad, le 7 août dernier à Alep.

Un combattant de l’Armée syrienne libre, opposant à Bachar el-Assad, le 7 août dernier à Alep.

REUTERS/Goran Tomasevic

Par RFI

La bataille d'Alep, est-ce pour bientôt ? Le régime syrien a annoncé ce dimanche 9 juin l'assaut de la grande ville du nord, tenue en grande partie par les rebelles. La semaine dernière, l'armée de Bachar el-Assad, appuyée par le Hezbollah chiite libanais, a repris la région de Qousseir, qui se trouve dans le centre-ouest du pays. Selon les médias officiels, des troupes loyales au pouvoir ont déjà commencé à se déployer dans la province d'Alep.

L'objectif est de reprendre les villes et villages occupés par les rebelles, explique une source gouvernementale. La bataille d'Alep serait alors une question de jours, voire d'heures. Pour l'instant, le régime ne donne pas plus précisions. Mais selon une ONG proche des rebelles, des milliers de soldats sont déjà déployés autour d'Alep, prêts à lancer l'assaut sur l'ancienne capitale économique.

Depuis un an, les combats font rage dans la deuxième ville du pays. Pas un jour sans bombardements... Mais les avions et les hélicoptères de Bachar el-Assad n'ont pas réussi à chasser les rebelles qui occupent toujours trois quarts d'Alep. La victoire de Qousseir a visiblement donné un nouvel élan à l'armée syrienne.

Epaulée par le Hezbollah libanais, elle veut non seulement reprendre les positions rebelles mais aussi couper leurs ravitaillements, notamment en armes à partir de la Turquie. D'après des médias proches du régime, les forces gouvernementales se préparent à attaquer d'autres villes tenues en partie par les insurgés, notamment Homs dans le centre du pays.

O que os media corporativos não contam acerca da explosão social na Turquia

resistir info – 09 jun 2013

por LibreRed [*]

O novo sultão, cartoon de Latuff.Um dos argumentos mais utilizados pelos grandes media de comunicação ocidentais quando se trata de interpretar a origem da explosão social nas ruas da Turquia é a deriva islâmica e autoritária do governo de Recep Tayip Erdogan.
Deste modo, os mass media centram toda a atenção na disjuntiva islamismo-laicismo e autoritarismo-democracia, fazendo uma análise simplista e parcial da realidade que vive estes dias o país euro-asiático.
Mas para analisar com maior profundidade a recente revolta popular nas ruas de cidades como Istambul ou Ancara seria preciso adoptar outra perspectiva e por a lupa nas políticas sócio-económicas que o executivo tem desenvolvido nestes últimos anos.
O governo de Erdogan, integrado pelo Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), chega ao poder no ano de 2002 num contexto de crise económica (crise financeira de 2001) onde acorda um programa de medidas de feitio claramente neoliberal com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que passam pela privatização do sector público, reformas laborais e drásticos cortes sociais.
Um ano depois de chegar ao governo, em 2003, é aberto o caminho à privatização da empresa pública de telecomunicações Turk Telekom
[1] . No ano seguinte, 2004, põem-se à venda companhias de bebida, fábricas de aço e a as Linhas Aéreas Turcas [2] .
Desde então, inicia-se um processo que não tem marcha-atrás. Em 2007, dá-se sinal verde à privatização da empresa pública de tabacos da Turquia, Tekel
[3] . Em 2008, é a vez da rede eléctrica, com a venda de duas companhias de distribuição em Ancara e Sakarya-Kocaeli [4] . Além disso, nesse mesmo ano anuncia-se a venda de banco de propriedade estatal Halkbank e a privatização de 15 por cento das acções da Turk Telekom.
Em 2009, o governo aprova legislação para conceder a água dos rios, dos lagos e das albufeiras às corporações privadas. Isto significa que os recursos hídricos podem ser transferidos a corporações, que até então controlavam só os serviços de distribuição
[5] .
Diante disto, a Confederação dos sindicatos camponeses turcos, Çiftçi-Sen, juntamente com mais de 100 outras forças de oposição social que defendem o reconhecimento do direito à água, constituem uma plataforma chamada "Não à comercialização da água" e manifestam-se maciçamente em 15 de Março de 2009 em Istambul no âmbito do Fórum Mundial da Água
[6] .
Em 2011, o governo de Erdogan inicia as negociações para a privatização
[7] de 2.000 quilómetros de auto-estradas e pontes do país. Desta maneira o executivo turco pretende ceder ao capital privado até nove rodovias com portagem e duas pontes sobre o Bósforo, vias de comunicação muito importantes na área de Istambul.
Através da chamada "Administração de Privatizações" (OIB na sua sigla em turco), Erdogan procurar fazer avançar um pacote de privatizações no país que inclui o têxtil, a mineração, o petróleo, a alimentação e o transporte marítimo, dentre outros sectores
[8] .
Em Fevereiro desse mesmo ano, 10 mil pessoas manifestam-se no centro de Ancara em repúdio à reforma laboral do governo que, entre outras medidas, inclui a redução do salário mínimo para os jovens, a possibilidade de transferência dos funcionários e permite a contratação de empregados sem seguro social
[9] .
Muitos dos presentes à manifestação gritam em coro: "Isto é Ancara, não o Cairo", "Tayyip, chegou a sua vez" e "Tayyip, te desejamos um final [tão] feliz como o de Mubarak".
As directrizes neoliberais aplicadas durante estes últimos anos geraram um aumento da desigualdade social no país. Segundo a revista Forbes, em Istambul, capital financeira da Turquia, havia um total de 35 multi-milionários em Março de 2008 (em comparação com 25 em 2007), situando-se em 4º lugar no mundo. Um relatório para empresários interessados em investir na Turquia elaborado pelo banco espanhol Banesto assegura que "o país está marcado pela existência de fortes desigualdades de rendimento"
[10] . Muitos empregados na Turquia não ganham mais que o salário mínimo de 570 dólares e o rendimento per capita é quase a metade dos rendimentos médios europeus.
Talvez este conjunto de factores ajude a explicar o mal-estar social que deu origem aos distúrbios hoje vividos na Turquia, para além do enfoque liberal que a imprensa do Ocidente pretende dar dos mesmos.

Referências:
[1]
elpais.com/diario/2003/11/12/economia/1068591610_850215.html
[2] spanish.peopledaily.com.cn/spanish/200402/12/sp20040212_72471.html
[3] www.icex.es/...
[4] www.hispanatolia.com/...
[5] www.tni.org/
[6] www.eurovia.org/spip.php?article67&lang=fr
[7] www.cincodias.com/... as/turquia-inicia-privatizacion-2000-kilometros-autopistas/20110830cdscdiemp_16/
[8]
www.oib.gov.tr/index_eng.htm
[9] http://www.abc.es/agencias/noticia.asp?noticia=677519
[10] comercioexterior.banesto.es/...
Ver também:

  • La policía turca ataca sedes del Partido Comunista
  • Masivas marchas en distintas ciudades turcas exigen la dimisión del Gobierno
  • http://occupygezipics.tumblr.com/
  • Esbozos sobre la Condición de la Clase Obrera en Turquía
  • Líder da oposição clama por eleiçõs antecipadas
    O original encontra-se em http://www.librered.net/?p=27218
  • A rede de controle das corporações transnacionais

    luisnassif, dom, 09/06/2013 - 15:43

    Por ramalhino

    Do site ControVérsia

    O Poder corporativo dos intermediários financeiros

    Pesquisa divulgada recentemente revelou dados assombrosos: corporações formam uma gigantesca estrutura em rede, em que grande parte do controle flui para um núcleo pequeno e fortemente articulado de instituições financeiras, que, por sua vez, exerce um poder muito maior do que se poderia supor com base em sua riqueza
    Ladislau Dowbor

    Controlar de forma organizada uma cadeia produtiva gera naturalmente grande poder econômico, político e cultural. Econômico, em razão do imenso fluxo de recursos – em alguns casos, maior do que o PIB de numerosos países –; político, com a apropriação de grande parte dos aparelhos de Estado; e cultural, por meio da mídia de massa, que cria, através de pesadíssimas campanhas publicitárias, uma cultura de consumo e dinâmicas comportamentais que interessam a esse poder.

    É natural e saudável que tenhamos uma grande preocupação em não inventar conspirações diabólicas e maquinações maldosas. Mas ao vermos que no topo dos principais setores econômicos as atividades se reduziram a poucas empresas extremamente poderosas começamos a entender que se trata, sim, de poder político. Agindo no espaço planetário, na ausência de governo mundial, e diante da fragilidade do sistema multilateral, os controladores desses setores manejam grande poder sem contrapeso significativo algum.

    Pesquisa do ETH (Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica),1 pela primeira vez nessa escala, ilumina essa realidade com dados concretos. A metodologia é muito clara. Foram selecionadas 43 mil corporações do banco de dados Orbis 2007 e estudou-se como se relacionam: peso econômico de cada entidade, rede de conexões, fluxos financeiros e em quais empresas cada uma tem participação acionária que permite o controle indireto. O caráter inovador da pesquisa reside no fato de ter estudado as principais corporações do planeta e expandido a metodologia de forma a traçar um mapa de controles do conjunto dessas empresas, incluindo a escala de poder que às vezes corporações menores detêm ao controlar um pequeno grupo de empresas, que, por sua vez, controla uma série de outras empresas, e assim por diante. Temos então exatamente o que o título da pesquisa apresenta: “a rede do controle corporativo global”.

    Em termos ideológicos, o estudo está acima de qualquer suspeita. Antes de tudo, é importante mencionar que o ETH de Zurique faz parte da nata da pesquisa tecnológica, ocupando geralmente o segundo lugar depois do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Pesquisadores do ETH já receberam 31 prêmios Nobel, a começar por Albert Einstein. A equipe que trabalhou no artigo entende tudo de mapeamento de redes e da arquitetura que delas resulta. E em nenhum momento tira conclusões políticas apressadas: limita-se a expor de maneira muito sistemática o mapa do poder e a apontar suas implicações.

    Impactos no mercado

    O resultado da pesquisa é claro: “A estrutura da rede de controle das corporações transnacionais impacta a competição de mercado mundial e a estabilidade financeira. Até agora, apenas pequenas amostras nacionais foram estudadas e não havia metodologia apropriada para avaliar globalmente o controle. Apresentamos a primeira pesquisa da arquitetura da rede internacional de propriedade, junto com a computação do controle de cada ator global. Descobrimos que as corporações transnacionais formam uma gigantesca estrutura em forma de gravata borboleta (bow-tie) e que uma grande parte do controle flui para um núcleo (core) pequeno e fortemente articulado de instituições financeiras. Esse núcleo pode ser visto como uma ‘superentidade’ (super-entity), o que levanta questões importantes tanto para pesquisadores como para os que traçam políticas”.

    O controle é definido como participação dos atores econômicos nas ações, correspondendo “às oportunidades de ver seus interesses predominarem na estratégia de negócios da empresa”. Quando se desenha o conjunto da teia de participações, chega-se à noção de controle em rede, que, por sua vez, define o montante total de valor econômico sobre o qual um agente tem influência.

    O modelo analisa o rendimento operacional e o valor econômico das corporações e detalha as tomadas mútuas de participação em ações (mutual cross-shareholdings), identificando as unidades mais fortemente conectadas dentro da rede. “Esse tipo de estrutura, até hoje observado apenas em pequenas amostras, tem explicações como: estratégias de proteção contra tomadas de controle (anti-takeover strategies), redução de custos de transação, compartilhamento de riscos, aumento de confiança e de grupos de interesse. Qualquer que seja sua origem, no entanto, fragiliza a competição de mercado... Como resultado, cerca de três quartos da propriedade das firmas no núcleo ficam nas mãos de firmas do próprio núcleo. Em outras palavras, trata-se de um grupo fortemente estruturado (tightly-nit) de corporações que cumulativamente detêm a maior parte das participações umas nas outras.”

    Esse mapeamento leva por sua vez à análise da concentração do controle. À primeira vista, sendo firmas abertas com ações no mercado, imagina-se um grau relativamente distribuído também do poder de controle. O estudo buscou saber “o quão concentrado é esse controle e quem são os que detêm maior controle no topo”. Isso é uma inovação se comparado aos numerosos estudos anteriores que mediram a concentração de riqueza e renda. Segundo os autores, não há estimativas quantitativas anteriores sobre o controle. O cálculo consistiu em identificar a fração de atores no topo que detém mais de 80% do controle de toda a rede. Os resultados são fortes: “Apenas 737 dos principais atores (top-holders) acumulam 80% do controle sobre o valor de todas as empresas transnacionais (ETN). Isso significa que o controle em rede (network control) é distribuído de maneira muito mais desigual do que a riqueza. Em particular, os atores no topo detêm um controle dez vezes maior do que o que poderia se esperar com base em sua riqueza”.

    Controle quase total

    Combinando o poder de controle dos atores no topo (top ranked actors) com suas interconexões, “concluímos que, apesar de sua pequena dimensão, o núcleo detém coletivamente uma ampla fração do controle total da rede. No detalhe, quase dois quintos do controle sobre o valor econômico das ETNs do mundo, por meio de uma teia complicada de relações de propriedade, estão nas mãos de um grupo de 147 ETNs do núcleo, que detém quase pleno controle sobre si mesmo. Os atores do topo dentro do núcleo podem, assim, ser considerados uma “superentidade” na rede global das corporações. Um fato adicional relevante nesse ponto é que três quartos do núcleo são intermediários financeiros”.

    Os números em si são muito impressionantes e estão causando impacto no mundo científico – e inevitavelmente vão repercutir no mundo político. Os dados não só confirmam como agravam as afirmações dos movimentos de protesto que se referem ao 1% que se apropria dos recursos dos outros 99%. Andy Haldane, diretor executivo de estabilidade financeira do Bank of England, em Londres, comenta que o estudo do ETH “nos deu uma visão instigante do melhor dos mundos para as finanças. Uma análise como a da ‘rede que conduz o mundo’ é bem-vinda porque representa um salto para frente. Os ingredientes-chave para o sucesso em outras áreas têm sido uma linguagem comum e o acesso compartilhado de dados. No presente momento, as finanças não dispõem de nenhum dos dois”. Haldane comenta também a enorme escala do problema: “O crescimento em certos mercados e instrumentos financeiros tem ultrapassado de longe a lei de Moore, que previu que o poder dos computadores dobraria a cada oito meses. O estoque de contratos financeiros emitidos (outstanding financial contracts) atinge agora cerca de catorze vezes o PIB anual global”.2

    Algumas implicações são bastante evidentes. Assim, ainda que na avaliação de alguns analistas citados pela revista New Scientistas empresas se compram umas às outras por razões financeiras e não para dominar o mundo, não ver a conexão entre a concentração de poder econômico e o poder político constitui evidente falta de realismo. Quando numerosos países, a partir dos anos Reagan e Thatcher, reduziram os impostos sobre os ricos, lançando as bases do agravamento recente da desigualdade planetária, não havia dúvidas quanto ao poder político por trás das iniciativas. A lei recentemente aprovada nos Estados Unidos liberando o financiamento de campanhas eleitorais por corporações tem implicações igualmente evidentes. O desmantelamento da legislação que obrigava as instituições financeiras a fornecer informações e regulava suas atividades passa a ter origens claras. A substituição dos impostos sobre os ricos e em particular sobre ganhos financeiros especulativos pelo endividamento público como fonte de recursos governamentais tornou-se o eixo da relação público/privado e está na raiz da crise financeira mundial.

    Fragilidade sistêmica

    Outra conclusão importante diz respeito à fragilidade sistêmica que geramos na economia mundial. Quando há milhões de empresas, há concorrência real – ninguém consegue “fazer” o mercado, ditar os preços e muito menos o uso dos recursos públicos. Esses desequilíbrios se ajustam com inúmeras alterações pontuais, assegurando certa resiliência sistêmica. Com a escalada atual do poder corporativo, as oscilações adquirem outra dimensão. Por exemplo, com os derivativos em crise, boa parte dos capitais especulativos se reorientou para as commodities, levando a fortes aumentos de preços, frequentemente atribuídos de maneira simplista ao aumento da demanda da China por matérias-primas. A volatilidade dos preços do petróleo e dos grãos, em particular, está diretamente conectada a essas estruturas de poder.

    Os autores mostram também as implicações para o controle dos trustes, já que essas políticas operam apenas no plano nacional: “Instituições antitruste ao redor do mundo acompanham de perto estruturas complexas de propriedade dentro de suas fronteiras nacionais. O fato de séries de dados internacionais e métodos de estudo de redes amplas terem se tornado acessíveis apenas recentemente pode explicar como essa descoberta não foi notada durante tanto tempo”. Em termos claros, as corporações atuam no mundo, enquanto as instâncias reguladoras estão fragmentadas em 194 países, sem contar a colaboração dos paraísos fiscais. Gera-se um imenso espaço desgovernado.

    Ponto-chave: os autores chamam a atenção para o efeito do poder do sistema financeiro sobre as outras áreas corporativas. “De acordo com alguns argumentos teóricos, geralmente as instituições financeiras não investem em participações acionárias para exercer controle. No entanto, há também evidência empírica do oposto. Nossos resultados mostram que, globalmente, os atores do topo estão no mínimo em posição de exercer considerável controle, seja formalmente (por exemplo, votando em reuniões de acionistas ou de conselhos de administração) ou por meio de negociações informais.” É o poder dos intermediários, não dos produtores.

    Finalmente, os autores abordam a questão óbvia do clube dos super-ricos: trata-se de “tipos de redes em que mecanismos como ‘ricos ficam mais ricos’ (rich-get-richer) funcionam. O fato de o núcleo estar tão densamente conectado poderia ser visto como uma generalização do fenômeno do clube dos ricos (rich-club phenomenon)”. A presença esmagadora dos grupos europeus e norte-americanos nesse universo reforça também, sem dúvida, as articulações no espírito do “Ocidente desenvolvido”, além de acentuar os desequilíbrios.

    Especulação vs. produção

    O gigantismo é um problema. Trata-se de grupos que controlam recursos em volume muito maior do que sua capacidade de gestão e aplicação racional. Um efeito mais amplo é a tendência de dominação geral dos sistemas especulativos sobre os sistemas produtivos. As empresas efetivamente produtoras de bens e serviços úteis à sociedade teriam todo interesse em contribuir para um sistema mais inteligente de alocação de recursos financeiros, pois são em boa parte vítimas do processo. Nesse sentido, a pesquisa do ETH aponta para uma deformação estrutural do sistema, que em algum momento terá de ser enfrentada.3

    E quanto ao que tanto preocupa as pessoas: a conspiração? A grande realidade que sobressai da pesquisa é que nenhuma conspiração é necessária. Em razão do fato de existir uma articulação em rede e um número tão diminuto de pessoas no topo, não há nada que não se resolva no campo de golfe no fim de semana. Essa rede de contatos pessoais é de enorme relevância. Mas, sobretudo, sempre que os interesses convergem não é necessária nenhuma conspiração para que sejam defendidos solidariamente, como na batalha já mencionada para reduzir os impostos que pagam os muito ricos, para evitar a taxação sobre transações financeiras ou ainda para evitar o controle dos paraísos fiscais. O resultado é essa dupla dinâmica de intervenção organizada para a proteção dos interesses sistêmicos, resultando em corporativismo poderoso e no caos competitivo que trava qualquer organização sistêmica racional. Demasiado fechado e articulado para ser regulado por mecanismos de mercado, poderoso demais para ser regulado por governos eleitos, incapaz de administrar os gigantescos volumes de recursos que controla, o sistema financeiro mundial gira solto, jogando com valores que representam cerca de catorze vezes o PIB mundial.

    O caos financeiro planetário, em última instância, tem uma origem bastante clara, de poucos atores. No pânico mundial gerado pela crise, debatem-se as políticas de austeridade, as dívidas públicas, a irresponsabilidade dos governos, deixando na sombra os atores principais: as instituições de intermediação financeira. No início do pânico da crise financeira, em 2008, a publicação Finance & Development, do FMI, estampou na capa, em letras garrafais, a pergunta “Who’s in charge?” [Quem está no comando?], insinuando que ninguém está coordenando nada. Para o bem ou para o mal, a pergunta está respondida.

    Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia, e professor titular da PUC-SP. É autor de A reprodução social e Democracia economômica - um passeio pelas teorias (contato http://dowbor.org).

    1   S. Vitali, J. B. Glattfelder e S. Battiston, “The Network of Global Corporate Control” [A rede do controle corporativo global], ETH Zurique. Disponível em: <www.plosone.org/article/related/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0025995
    ;jsessionid=31396C5427EB79733EE5C27DAFBFCD97.ambra02>.

    2   Andy Haldane, “The Money Forecast” [A previsão do dinheiro], New Scientist, 10 dez. 2012. O fato de esse “mercado de papel” que gira no sistema caóticoe sem regulação atingir esse volume é simplesmente assustador.

    3   Krugman e Wells resumem bem a questão central: o desvio de recursos necessários ao fomento da economia para atividades especulativas. No caso dos Estados Unidos, “a produtividade do país diminuiu após deixar o capital à mercê da falácia financeira, dos pacotes de compensação absurdos e das cotações das Bolsas infectadas pela bolha”. Paul Krugman e Robin Wells, “Por qué las caídas son cada vez mayores” [Por que as quedas são cada vez maiores], Nueva Sociedad, n.236, nov.-dez. 2011.

    Demorou, quem sabe se começa a descobrir essas relações. Se esse tipo de estudo chega-se a encontrar uma relação do setor financeiro com o Banco de Compensações Internacionais (Banco Central dos Bancos Centrais) eu não me assustaria.

    J. Carlos de Assis: Na política econômica de Dilma, nem uma coisa, nem outra

    viomundo - publicado em 9 de junho de 2013 às 12:07

    Manchete da Folha a respeito da política econômica do governo Dilma

    03/06/2013

    A única coisa que salva a política econômica é a ameaça de uma pior

    Ao lado da incapacidade de implementar uma política de investimento público que arrastasse o privado, a política econômica não se livrou da burrice do tripé juros altos, superávit primário elevado e câmbio solto herdada de FHC.

    J. Carlos de Assis, na Carta Maior

    Os ciclos de alta e baixa das economias dependem muitas vezes menos dos homens que das circunstâncias internacionais. Contudo, a crise na qual começa a mergulhar a economia brasileira é uma crise que se explica pela péssima condução da política econômica.

    Mais do que isso, é uma crise de ausência de política econômica em aspectos críticos centrais para o desempenho da economia brasileira num contexto internacional mal aproveitado, no início, e não adequadamente enfrentado agora.

    Não sabemos para onde o mundo vai. E não sabemos para onde o Governo nos quer levar.

    Vivemos nos anos 2002 a 2008, como se fosse eterno, o miniciclo fabuloso das commodities que elevou para níveis inéditos os preços e as quantidades por nós exportadas de matérias primas minerais e agrícolas, puxados pela China.

    Entregamo-nos ao conforto de acumular reservas sem nenhum esforço, pois, obviamente, isso não dependia de genialidade dos condutores da política econômica.

    Mantivemos, com Meirelles, taxas de juros basicas escorchantes, a despeito da confortável situação externa em reservas. 

Quando veio a crise de 2008, fizemos, sim, alguma coisa realmente inteligente: o Tesouro repassou em dois anos ao BNDES algo como 180 bilhões de reais para financiar investimentos em 2009 e 2010.

    Junto veio a desoneração fiscal de produtos duráveis de consumo. Foi apresentada como política anticíclica, e realmente funcionou no caso dos automóveis.

    Acontece que a indústria automobilística se tornou “dependente” da desoneração, e o Governo acabou como refém dela. Como conseqüência, estamos com nossas vias públicas, nas grandes metrópoles, entupidas de carros, sem escoamento e sem alternativa de adequados serviços públicos de transportes.

    O lado do investimento público propriamente dito ficou totalmente relegado a segundo plano, ou bloqueado por razões burocáticas e judiciais. Ao mesmo tempo, insistiu-se na política de geração de superávit primário.

    Numa situação em que o setor privado parou de investir, mesmo com os estímulos da desoneração, a acumulação de superávits primários tem efeito necessariamente contracionista, já que o Governo está retirando da sociedade, via impostos, mais do que lhe está devolvendo em forma de investimentos e compras.

    Por isso, sobretudo por isso, temos um Pibinho.

    Com a desoneração fiscal e a auto-imposta geração de superávit primário, os ortodoxos presentes no Governo – já que nossa política econômica continua sendo dominada pelo conflito entre ortodoxia e heterodoxia, sendo o ministro Mantega nem uma coisa nem outra – começaram a advertir que o Estado estava quebrado e não podia, ele mesmo, liderar o processo de desenvolvimento com investimentos públicos.

    Decorreu disso a prevalência no espírito de nossa Presidenta da ilusão de que fará desenvolvimento de infraestrutura no Brasil com PPP (Parcerias Público-Privadas).

    Essa ilusão vai passar logo, diante da frustração revelada pelos fatos: o setor privado não quer PPP, que gera obrigações (mesmo a partir de empréstimos a baixo custo); quer simplesmente fazer grandes obras públicas a fundo perdido, receber pelos contratos e pular fora. Foi assim que se fez infraestrutura no Brasil e no mundo, e não será agora que isso vai mudar.

    Como conseqüência, temos 7,5 mil quilômetros de rodovias e ferrovias licitadas na foram de PPP e para as quais não apareceu ganhador. 
O resultado disso tudo é que não temos investimentos adequados em infraestrutura. Certamente que temos uma política de assistência social efetiva e que merece todo o apoio da sociedade.

    Contudo, é uma ilusão pensar que uma política assistencialista, por mais justa que seja, vá sobreviver indefinidamente se a base da estrutura da economia afunda, e com ela as classes médias. Veja a Europa Ocidental: o “consenso” imposto pela Alemanha em torno de políticas de “austeridade” nada mais é que a destruição do Estado de bem estar social nos paises vítimas.

    Ao lado da incapacidade de implementar uma política de investimento público que arrastasse o privado, a política econômica não se livrou da burrice do tripé juros altos, superávit primário elevado e câmbio solto herdada de FHC. Não entendeu que isso só deu certo por conta dos chineses, como observado acima.

    Em conseqüência, deixamos o câmbio valorizar na hora errada, prejudicando a médio e longo prazo nossa indústria de manufaturados e, em especial, a de bens de capital. Agora tudo conspira contra nós: a queda da balança comercial, a inflação que a mídia exagera, o câmbio e até o juro, que voltou a ser o expediente “sujo” para o equilíbrio externo e interno.

    Do ponto de vista ideológico, capitulamos à essência da agenda neoliberal: a Fazenda assumiu o discurso e a prática da desoneração tributária, sem se dar conta de que o Estado mínimo é justamente isso, um meio de os ricos pagarem menos impostos; assumiu também, em conseqüência, a retórica de que é o setor privado, não o Governo, que irá liderar o investimento; confia nos juros para controlar a inflação, com “vergonha” de atacar heterodoxamente pontos essenciais da inflação como a indexação de preços de serviços públicos que ainda contamina a economia, bem como a questão de estoques de produtos agrícolas de largo consumo.

    Da presidenta Dilma, que tem formação econômica, espera-se que intervenha na política econômica para o bem do Brasil e a salvação de nossa juventude. A ideia, posta em circulação por “O Globo”, de que o Governo já deu 2013 como perdido e vai se concentrar no ano eleitoral de 2014 é uma intriga, um insulto à opinião pública.

    Acho que a Presidenta será reeleita mesmo com zero por cento de crescimento do PIB, algo bastante provável, com Mantega na Fazenda e com Tombini no BC.

    É que no momento em que escrevo ouço, de meu escritório, um pronunciamento eleitoral de Aécio Neves pela TV da sala: ele diz que o Governo gasta mais do que arrecada, e que o destino do Brasil, além de cortar gastos públicos, depende de gestão!

    A mesa está pronta. Façam suas apostas!

    J. Carlos de Assis é economista, professor de economia internacional da UEPB e autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus” (ed. Civilização Brasileira).

    PS do Viomundo: Ao trazer a direita para dentro do governo, Dilma Rousseff aprofundou a ambiguidade que paralisa. Nem com os indígenas, nem com os ruralistas. Nem com os gays, nem com os evangélicos. Nem uma coisa, nem outra.