"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

terça-feira, novembro 04, 2008

FRAUDE NOS EUA PODE SE REPETIR NO BRASIL

Site do Azenha - Atualizado e Publicado em 03 de novembro de 2008 às 20:19

Acabo de ler dois livros imperdíveis para quem gosta de se informar sobre processos eleitorais:

What went wrong in Ohio, The Conyers Report on the 2004 presidential election

What Happened in Ohio? A documentary record of theft and fraud in the 2004 election

Os dois livros oferecem provas factuais de que o secretário de Estado de Ohio, o republicano Kenneth Blackwell, usou sua autoridade para suprimir votos de eleitores democratas e pode ter agido para garantir a reeleição de George W. Bush em 2004.

Esclareço: nos Estados Unidos as eleições são organizadas em nível estadual. E autoridades estaduais, independentemente de partido, organizam as eleições. Em Ohio, além de secretário estadual Blackwell era também co-presidente da campanha Bush-Cheney 2004. Os livros detalham todas as medidas tomadas pelos republicanos com o objetivo de suprimir o direito de voto de eleitores que potencialmente poderiam favorecer os democratas.

Ohio garantiu a vitória de George W. Bush em 2004 assim como a Flórida garantiu a vitória de George W. Bush em 2000.

O que aconteceu na Flórida, em 2000, é muito parecido com o que aconteceu em Ohio em 2004.

De longe a melhor investigação sobre a fraude na Flórida foi feita pelo jornalista Greg Palast, que trabalha para a BBC.

Curiosamente, nada disso aparece na mídia corporativa. Nem nos Estados Unidos, nem no Brasil. Ou por ignorância, ou por má fé. Talvez uma combinação dos dois.

Para esta terça-feira, Greg Palast prevê o sumiço de seis milhões de votos. Leia aqui.

E nós com isso?

Depois de ter lido sobre a fraude eleitoral no México, sobre o uso de pesquisas eleitorais para tentar sacar Hugo Chávez do poder na Venezuela e sobre a atuação dos republicanos na Flórida e em Ohio acho que nós, brasileiros, deveríamos ficar espertos.

1. A urna eletrônica brasileira é um buraco negro: não emite um comprovante impresso, essencial para auditagem posterior dos resultados.

2. Os juízes das eleições brasileiras são os mesmos que organizam as eleições e são responsáveis pelos resultados. Têm todo o incentivo para dizer que está tudo bem, sempre.

Você acredita que pode contar com uma mídia isenta para investigar e denunciar uma fraude eleitoral no Brasil? Nem eu.

COMO ESSES ESTÚPIDOS CHEGARAM A DOMINAR WASHINGTON

Site do Azenha - Atualizado em 03 de novembro de 2008 às 17:45 | Publicado em 03 de novembro de 2008 às 13:53

Como esses estúpidos selvagens chegaram a dominar Washington

Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Num ponto isso é fácil de responder. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural e dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa.

Como se permitiu que se chegasse a esse ponto? Como a política nos EUA chegou a ser dominada por pessoas que fizeram da ignorância uma virtude? Foi a caridade que permitiu que um parente mais próximo do homem chegasse a gastar dois mandatos como presidente? Como foi possível que Sarah Palin, Dan Quayle e outros estúpidos do gênero chegassem aonde chegaram? Como foi possível que os comícios republicanos em 2008 fossem tomados por gritarias ignorantes insistindo que Barack Obama era um muçulmano e terrorista?

Como muitos deste lado do Atlântico, eu fui por muitos anos encantado com a política americana. Os EUA têm as melhores universidades do mundo e atrai as mentes mais brilhantes. Domina descobertas na ciência e na medicina. Sua riqueza e seu poder dependem da aplicação do conhecimento. Ainda assim, de maneira única dentre as muitas nações desenvolvidas (com a exceção possível da Austrália), o conhecimento é uma desvantagem política grave nos EUA.

Houve exceções ao longo do século passado – Franklin Roosevelt, JF Kennedy e Bill Clinton temperaram seu intelectualismo com um toque de senso comum e sobreviveram -, mas Adlai Stevenson, Al Gore e John Kerry foram respectivamente fulminados por seus oponentes por serem membros de uma elite cerebral (como se isso não fosse uma qualificação para a presidência). Talvez o momento decisivo no colapso da política inteligente tenha sido a resposta de Ronald Reagan a Jimmy Carter, no debate presidencial de 1980. Carter – tropeçando um pouco, usando longas palavras – cuidadosamente enumera os benefícios do sistema nacional de saúde. Reagan sorri e diz: “Lá vem você de novo”. Seu próprio programa de saúde teria apavorado muitos americanos, caso tivesse sido explicado tão cuidadosamente como o fez Carter, mas ele tinha encontrado a fórmula para se prevenir de questões políticas sérias ao fazer com que seus oponentes parecessem intelectuais “engomados” que não mereciam confiança.

Não foi sempre assim. Os pais fundadores da República – Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, James Madison, John Adams, Alexander Hamilton e outros – estavam entre os maiores pensadores de sua época. Eles não sentiam necessidade de tornar isso um segredo. Como o projeto por eles construído degenerou-se em George W. Bush e Sarah Palin?

Num ponto isso é fácil de responder. Políticos ignorantes são eleitos por povos ignorantes. A educação norte-americana, assim como seu sistema de saúde, é notória por seus fracassos. Na nação mais poderosa do planeta, um em cada cinco adultos acredita que o sol gira em torno da terra; só 26% aceitam que a evolução ocorre por seleção natural; dois terços dos jovens adultos são incapazes de encontrar o Iraque num mapa, dois terços dos votantes norte-americanos não são capazes de nomear três organizações governamentais; a competência matemática dos adolescentes de 15 anos nos Estados Unidos está em vigésimo quarto dos vinte e nove países da OECD.

Mas isso só aumenta o mistério: como tantos cidadãos norte-americanos tornaram-se tão estúpidos, e desconfiados da inteligência? Até onde li, o livro de Susan Jacoby, The Age of America Unreason [algo como A Era da des-Razão Americana], fornece uma explicação completa. Ela mostra que a degradação da política norte-americana resulta de uma série de tragédias interligadas.

Um tema é muito familiar e claro: religião – particularmente religião fundamentalista – torna você estúpido. Os EUA é o único país rico em que o fundamentalismo cristão é vasto e crescente.

Jacoby mostra que já houve uma certa lógica nesse anti-racionalismo. Durante as algumas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, por exemplo, os americanos tinham boas razões para rejeitar a teoria da seleção natural e para tratar os intelectuais públicos com suspeita. Desde o começo, a teoria de Darwin foi misturada, nos EUA, com a filosofia brutal – agora conhecida como darwinismo social – do escritor britânico Herbert Spencer. A doutrina de Spencer, promovida na imprensa popular com o financiamento de Andrew Carnegie, John D. Rockefeller e Thomas Edison, sugeria que os milionários estavam no topo da escala estabelecida pela evolução. Ao impedir os desajustados de serem eliminados, a intervenção governamental enfraquecia a nação. A maioria das desigualdades econômicas eram tanto justificáveis como necessárias.

O darwinismo, em outras palavras, tornou-se indistinguível da forma mais bestial do laissez-faire econômico. Muitos cristãos responderam a isso com náusea. É profundamente irônico que a doutrina rejeitada um século atrás por proeminentes fundamentalistas como William Jennings Bryan seja agora determinante para o pensamento da direita cristã. Fundamentalistas modernos rejeitam a ciência darwinista da evolução e aceitam a pseudociência do darwinismo social.

Mas há outras razões, mais poderosas, que explicam o isolamento intelectual dos fundamentalistas. Os EUA são peculiares ao delegarem o controle da educação a autoridades locais. Ensinar nos estados do sul era ser dominado por uma elite aristocrática e ignorante de donos de terras, e um grande abismo educacional foi aberto. “No sul”, escreve Jacoby, “só o que pode ser descrito é que um bloqueio intelectual foi imposto para manter do lado de fora idéias que pudessem ameaçar a ordem social”.

A Convenção Batista do Sul, agora a maior congregação religiosa dos EUA, era para a escravidão e a segregação o que a Igreja Reformada Holandesa (Dutch Reformed Church) era para o apartheid na África do Sul. Ela fez mais do que qualquer força política para manter o sul estúpido. Nos anos 60 tentou disseminar a desagregação estabelecendo um sistema privado de escolas e universidades cristãs. Hoje, um estudante pode ir do jardim da infância até o mais alto grau de estudos sem qualquer exposição ao ensino secular. As crenças batistas do sul também passam imunes ao sistema de escola pública. Uma enquete feita por pesquisadores na Universidade do Texas em 1998 revelou que um em cada quatro professores de biologia das escolas do estado acreditavam que humanos e dinossauros viveram na Terra ao mesmo tempo.

Essa tragédia vem sendo assistida pela fetichização americana da auto-educação. Apesar de seu lamento por sua falta de educação formal, a carreira de Abraham Lincoln é repetidamente citada como evidência de que a boa educação fornecida pelo estado não é necessária: tudo de que se precisa para ter sucesso é determinação e individualismo vigoroso. Isso pode ter servido bem para as pessoas quando os genuínos movimentos de auto-educação, como o que se construiu em torno dos Little Blue Books na primeira metade do século XX estiveram em voga. Na era do info-entreternimento (1), esse tipo de coisa é receita para a confusão.

Além da religião fundamentalista, talvez a razão mais potente para o combate dos intelectuais na eleição seja que o intelectualismo tem sido equiparado à subversão. O breve flerte de alguns pensadores com o comunismo há muito tempo atrás tem sido usado para criar uma impressão na mente do público de que todos os intelectuais são comunistas. Quase todo dia homens como Rush Limbaugh e Bill O'Reilly vociferam contra as “elites liberais” que estão destruindo a América.

O espectro das grandes cabeças alienígenas subversivas foi crucial para a eleição de Reagan e de Bush. Uma elite intelectual genuína – como os neocons (alguns deles ex-comunistas) em torno de Bush – deu o tom dos conflitos políticos como uma batalha entre americanos comuns e bem sucedidos e super-educados pinkos (2). Qualquer tentativa de desafiar as idéias da elite intelectual da direita tem sido atacada, com sucesso, como sendo elitismo.

Obama tem muito a oferecer aos EUA, mas nada disso vai parar se ele vencer. Até que os grandes problemas do sistema educacional sejam revertidos ou que o fundamentalismo religioso perca sua força, haverá oportunidade política para que gente como Bush e Palin ostentem sua ignorância.

Publicado originalmente no Guardian, em 28 de outubro de 2008

O artigo também está publicado na página de George Monbiot

(1) Neologismo usado pelo autor (infotainment), que resulta da junção das palavras informação com entreternimento. N.deT.

(2) Pinko é um termo pejorativo criado pela direita norte-americana para designar intelectuais supostamente comunistas ou simpáticos ao comunismo que, contudo, não são militantes partidários. A palavra pinko deriva do nome da cor rosa, em inglês – pink -, que resulta da mistura do vermelho com o branco. Pinko seria uma forma light de comunismo, assumida supostamente por aqueles “intelectuais” que não pretendem ser associados diretamente ao comunismo. Termo aparece pela primeira vez, segundo a Wikipédia, em 1926, no semanário Time. N.deT.

Tradução: Katarina Peixoto

Congo, um milhão de pessoas fogem do horror

Instituto Humanitas Unisinos - 03/11/08

Agora é a fome. Fome de verdade, com o estômago inchado por causa das raízes e ervas engolidas nos últimos dias. Muitos não comem há uma semana. Avançam exaustos: “Só temos água”, dizem. Não sabem nem aonde devem ir. Param quando o corpo cede à fraqueza, à dor, às feridas. Prostram-se no chão. Tombam e dormem.

A reportagem é de Daniele Mastrogiacomo, do jornal italiano La Repubblica, 02-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A noite, no norte do Kivu, região do extremo leste do Congo, é o único momento que a paz triunfa. O céu, envolvido em um manto negro, se ilumina de estrelas. No sul, brilha a água do grande lago. No oeste, assoma-se a cadeia de montanhas de Masisi, o coração dos soldados rebeldes guiados pelo general Laurent Nkunda. Mas a noite significa também frio, umidade, com a água que cobre tudo e todos. Muitos, entre os 20 mil que jazem nas bordas dessa estrada transformada no enésimo campo móvel para refugiados, 20km ao norte de Goma, acabam por não se levantar mais. Os poucos testemunhos que conseguimos obter com o telefone nos contam cenas atrozes. A dor, o horror, o sofrimentos dessas duas últimas semanas anularam todo o sentimento de piedade.

Está em curso uma luta pela sobrevivência: 220 mil pessoas deixaram suas casas em agosto, segundos as estimativas da ONU, levando a um milhão os refugiados de toda a região. Quem morre é deixado no mesmo lugar. Os outros tomam um caminho que não tem nenhuma meta. “As pessoas – nos conta Raffaella Gentilini, coordenador sanitário dos Médicos Sem Fronteiras, uma das pouquíssimas ONGs ainda ativas na região – não sabem aonde ir. Avançam às cegas. Caminham alguns quilômetros, procuram um refúgio onde possam parar por uns dias. Mas vivem na incerteza. Sabem que deverão se deslocar de novo”. Voltando de novo ao norte, depois ainda ao sul, para se encontrar, no fim, no ponto de partida. O front da guerra entre o exército da República Democrática do Congo e os rebeldes do general Laurent Nkunda muda continuamente. Desloca-se do maciço dos Masisi até as fronteiras com Ruanda e Uganda. Até a trégua decretada na quarta-feira passada não oferece garantia alguma. O alto comissariado para os refugiados da ONU continua falando de saques e estupros.

Ninguém é capaz de dizer por obra de quem. A zona foi invadida por milícias desordenadas. Acusar o general Nkunda significa apoiar o governo de Kinshasa. Valorizar uma guerra que muitos países, com os seus passados coloniais, desejariam limitar a um combate étnico entre tutsi e hutu. Apontar o dedo sobre o exército regular congolês quer dizer favorecer a estratégia de Kigali que procura novas terras sobre o oeste. A realidade é mais simples e complexa ao mesmo tempo. O norte do Kivu é uma região rica em matérias-primas. Não tanto ouro e diamante, mas coltan [columbita-tantalita] e cobalto. Servem para produzir celulares, computadores e outros materiais eletrônicos. Há um acordo de nove milhões de dólares entre o governo da RDC e um consórcio de empresas chinesas para a exploração dessas jazidas. Pequim assegurou a extração do 10,6 toneladas de coffer e 626 toneladas de cobalto. Em troca, comprometeu-se a construir um sistema rodoviário que nunca existiu. Mas o norte do Kivu é também uma terra muito fértil. Os agricultores podem obter até três colheitas por ano. Os pastores garantem pastos imensos. Os primeiros são, sobretudo, de etnia hutu; os segundos pertencem aos tutsi. Ter uma vaca ou um pedaço de terra nestas regiões é tudo. Significa alimento, dignidade, respeito, bens, poder. Os limites estabelecidos pelos impérios coloniais de modo artificial e esquemáticos, traçando uma linha reta sobre o mapa geográfico, desorganizaram tradições e equilíbrios que andavam juntos há séculos. A convivência entre as diversas etnias se despedaçou. Alguém fomentou uma rivalidade que nunca existiu. Jogou com as raças, os privilégios, a ignorância e a pobreza. Alimentou ódios e rancores. Até um massacre, preordenado e estudado teoricamente, que provocou um genocídio de um milhão de pessoas.

Tutsi e hutu moderados. O espectro de uma outra matança executada em 1994 pelo general Laurent Nkunda. Esse ex-oficial do exército congolês, ele também tutsi, em 2006, abandonou Kinshasa e fundou o CNDP, o Congresso Nacional para a Defesa do Povo. Esconde-se no leste do país e se coloca na cabeça dos habitantes da zona, todos congoleses, mas tutsis: os banyamulenge. Considera-os seus irmãos, vê-los ameaçados, muitos já foram mortos. Vivem sobre uma terra que agora é invadida pelos interhawne, as milícias dos extremistas hutu responsáveis pelo genocídio ruandês, fugidos de outras fronteiras e amontoados nos campos de refugiados. O presidente Jospeh Kabila, que chegou ao poder muito jovem depois do assassinato de seu pai, Laurent Desirè Kabila, uma figura mítica na longa luta da FrentePatriótica Ruandesa, reage como pode. Mas é inexperiente. O seu governo vacila, o exército se desfaz, corrupto, sem guia e disciplina. Quem comanda de verdade, em Kinshasa, são os políticos e os lobbies dos comerciantes. Kivu não pode ser abandonada. As indústrias eletrônicas estrangeiras pressionam. Desejam aqueles minerais. Em duas ocasiões, entre 1998 e 2003, e depois ainda entre 2004 e 2008, o Congo é agitado por uma guerra. Chega-se a um acordo. Kigali se compromete a deixar entrar novamente na pátria os hutu dos campos de refugiados; Kinshasa, a integrar no seu exército também os congoleses banyamulenge. Mas os acordos ficam no papel. Resistem fatigosamente. Ruanda fecha as suas fronteiras, não confia na entrada dos autores de um genocídio que desconstruiu a história do país. O Congo não é capaz de organizar um verdadeiro exército. Os combates recomeçam. A ONU envia ao lugar o maior contingente dos capacetes azuis: 17 mil homens têm o dever de sustentar os soldados congoleses à deriva e de assistir a população civil. A missão fracassa.

Kivu volta a ser o centro de uma guerra nunca terminada. O mundo parece reagir. Busca recompor um fio de diálogo. No local, a situação permanece dramática. Todos dizem isso. A União Européia, a ONU, a França, a Grã-Bretanha: mesmo ontem, em nome da União Européia, o ministro do Exterior francês, Bernard Kouchner, em missão em Kinshasa com o colega britânico David Miliband, pediu aos governos do Congo e da Ruanda que apliquem os acordos já firmados para resolver a crise.

Enquanto isso, um milhão de pessoas são trituradas nas batalhas inesperadas. Com vinganças, saques, incêndios. Há 50 mil desabrigados diante de um campo destruído pelas chamas, outros 75 mil acampados em barracas provisórias mais ao sul, 100 mil que vagam entre as florestas e os caminhos. Deslocam-se de qualquer jeito. Freqüentemente sem calçados, uma roupa, uma coberta. Têm fome. Estendem a mão diante das vilas ainda habitadas. Alguém joga algumas bananas. Outros gritam. Agitam facões e bastões. Mantêm-nos a distância. “Há pouca comida”, dizem, “não dá para todos”.

Lições a tirar da crise econômica internacional. Artigo de Ivo Lesbaupin

Instituto Humanitas Unisinos - 03/11/08

Por mais de 30 anos nos fizeram crer que um outro modelo de desenvolvimento ao neoliberal era impossível de ser realizado, que não havia alternativas à economia de mercado. Falavam que o Estado estava falido, que não tinha recursos para a saúde pública, para a educação pública, para as aposentadorias, para gerar emprego. De repente, este Estado que não tem recursos para a sociedade, especialmente para os menos afortunados, este Estado descobre recursos incríveis para salvar as instituições financeiras.

O sociólogo Ivo Lesbaupin reflete em artigo - que recebemos e publicamos na íntegra -, algumas das lições que temos de tirar da maior crise econômica internacional desde a crise de 1929. Ivo Lesbaupin é doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, da França e, atualmente, é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. (UFRJ).

O artigo foi, originalmente, publicado na página www.iserassessoria.org.br

Eis o artigo.

“O desmoronamento de Wall Street é comparável, no âmbito financeiro, ao que representou, no geopolítico, a queda do muro de Berlim. Uma mudança de mundo e um giro copernicano. Quem o afirma é o Nobel de Economia, Paul Samuelson: “Esta débâcle é para o capitalismo o que a queda da URSS foi para o comunismo”. Termina o período aberto em 1981 com a fórmula de Ronald Reagan: “O Estado não é a solução, é o problema.” Durante trinta anos, os fundamentalistas do mercado repetiram que este tinha razão, que a globalização era sinônimo de felicidade, e que o capitalismo financeiro edificava o paraíso terreno para todos. Equivocaram-se.” (Ignácio Ramonet)

A crise econômica que eclodiu com toda a sua força em setembro deste ano é extremamente séria e terá conseqüências sociais graves. A OIT prevê mais 20 milhões de desempregados em 2009. Novamente, quem vai pagar o custo da busca insaciável de lucro de poucos é a população mais pobre, a maioria da humanidade. Se não podemos impedi-la, temos pelo menos de tirar todas as conseqüências do que ela nos ensina e promover mudanças na teoria e na prática.

Nos últimos 30 anos, a idéia neoliberal mais difundida, mais defendida, mais brandida, foi a de que “não há alternativa”. E, de repente, em poucos dias, as alternativas proibidas pelo pensamento neoliberal, de intervenção do Estado na economia, de intervenção do Estado no funcionamento do mercado, são propostas, solicitadas, imploradas por inúmeros neoliberais. Agora se reconhece publicamente, sem qualquer vergonha, que não só há alternativas, como elas são benvindas; caiu a proibição de pensar e de pensar diferente, diferente do pensamento econômico único que nos foi imposto todo este tempo.

Aprendemos, nos últimos 30 anos – ele nos ensinaram, a nós, que representávamos o pensamento ultrapassado, “do tempo das cavernas” – que o Estado estava falido, que não tinha recursos para a saúde pública, para a educação pública, para as aposentadorias, para gerar emprego. De repente, este Estado que não tem recursos para a sociedade, especialmente para os menos afortunados, este Estado descobre recursos incríveis para salvar as instituições financeiras, os bancos, o sistema financeiro: 4 trilhões de dólares nos EUA, 3 trilhões na Europa, 200 bilhões de reais no Brasil. Ninguém pergunta de onde vem este dinheiro, ninguém argumenta que isto vai exigir aumento da carga tributária, ninguém levanta a dúvida sobre se vai gerar inflação. Nenhum dos que têm gritado nos últimos anos exigindo a redução dos gastos públicos (em previdência, saúde, educação, habitação, etc.) argumenta que isto é um gasto excessivo.

Esta crise que estamos vendo e vivendo, ela foi prevista há vários anos por vários economistas e mesmo por vários investidores: eles chamaram a atenção para o risco de que uma economia sem regulação, com o capital girando uma riqueza financeira cada vez mais descolada da produção real, risco de uma crise muito séria, semelhante àquela de 1929 (há cerca de dez anos, Rudiger Dornbusch, economista neoliberal, escreveu um artigo com este título, em advertência; Marcos Arruda nos alertara sobre isso num texto de 1999).

E as aposentadorias? Aprendemos, nos últimos 30 anos, que era inviável o sistema de aposentadorias por repartição – em que todos contribuem, numa solidariedade intergeracional, com uma proporção dos seus salários, para a construção de uma proteção social comum. Aprendemos que o sistema ideal é o sistema de capitalização – o dos fundos de pensão -, em que cada um contribui para um fundo que aplica no mercado e é muito mais seguro, mais garantido que o sistema anterior. E agora? Agora, as aposentadorias aplicadas nos fundos de pensão perderam, nos últimos meses, entre 20% e 40% do seu valor.

Os conselheiros recomendam que os futuros aposentados não retirem suas aposentadorias agora, que esperem alguns meses (ou anos), para evitar perdas. Isto significa que o sistema de fundos de pensão – regulados pelo mercado – não tem qualquer garantia para o cidadão, que ele pode ser e é bem pior que o sistema mais simples em que todos contribuem e cada um sabe o quanto vai receber ao se aposentar. Ora, todas as reformas da previdência feitas pelos países encantados pelo discurso neoliberal (inclusive a do governo FHC e a do governo Lula), visavam exatamente transferir se não toda a aposentadoria, pelo menos parte, para os fundos de pensão. E não é sem razão que estes fundos se tornaram tão grandes e tão influentes em todo o mundo. Para felicidade dos cidadãos estadunidenses, a tentativa de privatizar a Seguridade Social feita pelo Governo Bush há menos de três anos não foi aprovada: hoje, os aposentados estariam todos na bancarrota.

E a regulação? Nos últimos 30 anos, tudo tinha de ser desregulamentado, era preciso reduzir ou eliminar as regras, as normas, este excesso de leis que impede o mercado de se desenvolver plenamente. E agora descobrimos que o que permitiu chegar a este estado de crise foi exatamente a falta de regulação das instituições financeiras, a falta de controle do sistema financeiro. Descobrimos que o “mercado auto-regulado” não existe, que o mercado muitas vezes é irracional, tem comportamento de manada, fica perdido, é altamente ineficiente, capaz de provocar perdas, a nível mundial, de trilhões de dólares. Livre mercado é desastre com certeza. Para salvar a economia do desastre provocado pelo mercado desregulado, foi preciso apelar para o Estado.

Ensinaram-nos que o Estado não podia mais organizar um amplo sistema de proteção social (saúde, previdência, assistência, entre outros), porque não tinha mais recursos para isso ou porque isso seria “paternalismo”. Que era melhor deixar a proteção por conta do “livre mercado”, da iniciativa privada, que faria isso melhor que o poder público. E descobrimos que, entregues à sanha do mercado, a insegurança dos cidadãos se generalizou e a proteção se desvaneceu. Confirmamos que a proteção social só pode ser construída coletivamente, com base na solidariedade social e não no individualismo. Que o abandono da proteção social coletiva produziu exclusão, desespero e violência, na lógica do “cada um por si”, do “homem lobo do homem”, da “lei da selva”.

A idéia neoliberal de que o Estado pode muito pouco para a sociedade serviu apenas para esconder o fato de que o Estado deixou de atender ao conjunto da sociedade para servir apenas aos interesses da elite. Temos de recolocar o Estado a serviço da sociedade e reconstruir um sistema de proteção social pública, parar de desviar recursos das políticas sociais para atender às exigências do capital financeiro (pagamento de juros e da dívida pública).

Aprendemos, em suma, que a ideologia neoliberal era constituída de uma série de dogmas, teses não-provadas, falsas, mas que foram mantidas durante anos graças à colaboração de governos, de muitos intelectuais, e um trabalho incansável da mídia. É impressionante como um conjunto de idéias defendidos e propalados com tanta segurança, com tanta certeza, com tanta arrogância, sejam derrubados em poucos dias, em menos de um mês, no decorrer da primeira grande crise financeira internacional.

No Brasil, nos últimos seis anos o governo Lula e seus defensores nos disseram que não era possível mudar a política econômica por causa de uma correlação de forças desfavorável: o capital financeiro, dominante, não permitiria qualquer mudança fundamental, só secundárias. Qualquer governo, mesmo de esquerda, só poderia mexer em políticas compensatórias, não na política macroeconômica. Era preciso satisfazer os interesses dos banqueiros e dos rentistas, acima de tudo.

E agora? O presidente da França, Nicolas Sarkosy, que em seu governo vem implementando políticas neoliberais, declara sem hesitação que o laissez-faire acabou. Segundo ele, “a ideologia que culminou na ditadura dos mercados onipotentes e do poder público impotente morreu”. A revista The Economist reconhece, em artigo de capa, que o “capitalismo está acuado”. A correlação de forças, portanto, mudou. Isto não significa que o capitalismo está agonizando, mas que uma certa forma de capitalismo – hegemônica nos últimos trinta anos - foi deslegitimada.

A pergunta é: agora que a correlação de forças mudou, a política econômica no Brasil vai continuar a mesma? mesmo sabendo que é este modelo que está na raiz da grave crise atual?

Vejamos, entre outros dados:

- mais da metade do orçamento do país (53% em 2007) é dedicada ao pagamento dos juros e amortização das dívidas externa e interna – que vai encher os bolsos de muito ricos fora do país e dos muito ricos no Brasil e deixa de ser investida na melhoria das condições de vida e de trabalho da população;

- o Brasil, seguindo as recomendações do FMI, não estabeleceu ainda o controle dos fluxos de capital (adotado pela Malásia em 1998 e, em 2003, pela Argentina – para citar dois exemplos recentes), que permitiria ao país ter uma política econômica autônoma, independente do humor dos mercados; por causa disso, é obrigado a manter os juros altos, de modo a evitar a fuga de capitais;

- a DRU (Desvinculação das Receitas da União) retira recursos das políticas sociais para garantir o superávit primário (prioridade ao pagamento da dívida e dos juros);

- o capital financeiro é privilegiado na política fiscal em detrimento dos trabalhadores brasileiros: como um pequeno exemplo, investidores estrangeiros são isentos de pagar imposto se investirem no país em títulos da dívida pública;

- a Reforma Tributária encaminhada pelo governo e em discussão no Congresso suspende fontes importantes de recursos da Seguridade Social (que, segundo a Constituição, são recursos vinculados), além de deixar intocado o caráter regressivo do sistema tributário brasileiro, gerador de forte desigualdade social – porque faz o pobre pagar mais proporcionalmente que o rico.

A crise de 1929 foi o detonador que permitiu a mudança da política econômica e o surgimento do New Deal – primeiro passo para a introdução do Estado de Bem-Estar social. A crise atual gerou a demanda por uma nova regulação internacional da economia mundial. Este momento é, sem dúvida nenhuma, a grande chance para romper com a desregulamentação e a economia centrada nos interesses do capital financeiro. É o momento certo para a retomada da prioridade nos cidadãos, no trabalho, em reorientar o Estado para investir em políticas públicas, o momento certo para interromper as privatizações (de estradas, aeroportos, etc.), estabelecer um amplo projeto de desenvolvimento – não predatório - do país, capaz de gerar empregos de qualidade.

O capitalismo neoliberal, com suas políticas nacionais e sua globalização, produziu um grau de exclusão social jamais visto, tanto nos países desenvolvidos como nos menos desenvolvidos. Gerou transformações dramáticas no sistema alimentar em todo o mundo, tornando os alimentos mercadorias – meras fontes de lucro para as empresas transnacionais que os controlam – em vez de meios de sustento da humanidade. Contrariamente à propaganda, aumentou a insuficiente e a má alimentação em todo o mundo. É preciso romper com a prioridade concedida ao agronegócio - que produz para lucrar: os alimentos devem voltar a ser produzidos pela agricultura familiar, pela agricultura camponesa. Precisamos urgentemente de uma reforma agrária e de uma nova política para a agricultura.

Este capitalismo está tornando a terra inabitável, ao utilizar um modelo de desenvolvimento predatório, que esgota os recursos naturais – os minerais, inclusive -, na medida em que se baseia no máximo consumo e, portanto, na produção sem limites. Está esgotando a terra, ao impor um tipo de agricultura baseada em sementes transgênicas e em agrotóxicos, capazes de destruir a natureza e envenenar a humanidade. E está esgotando a água, ao submeter a terra a uma exploração sem qualquer controle, visando unicamente o lucro.

Nós temos um país com recursos naturais invejáveis, com terra agricultável em quantidade, com uma imensidão de trabalhadores dispostos a trabalhar – o principal recurso para o desenvolvimento -, com um parque produtivo que foi atingido mas não destruído pelas políticas neoliberais. Somos banhados pelo sol o ano inteiro, temos 13,7% da água doce do mundo e temos ventos: ou seja, poderíamos ter toda a nossa energia “limpa”, energia solar, hídrica, eólica(1) . E, graças à crise, nós temos a confirmação de que nosso país tem muitos recursos para investir, para salvar o povo (e não salvar especuladores e gananciosos).

É preciso parar de pensar e de reagir segundo os parâmetros do modelo neoliberal: juros altos, estrito controle da inflação, livre circulação de capitais, salários controlados – instrumentos próprios para garantir o rendimento dos capitais e que dificultam e impedem o desenvolvimento. Segundo Paul Krugman, contrariamente ao credo hegemônico até agora, o governo precisa gastar, precisa investir – para gerar emprego e melhorar as condições de vida da população.

Segundo Belluzzo, “o governo deve expandir o gasto em investimentos que maximizem efeitos multiplicadores para trás e para frente, na forma de emprego, encomendas às cadeias produtivas e expansão de uso de capacidade instalada. (É preciso) injetar recursos adicionais em projetos e áreas que rapidamente possam irradiar seus efeitos em todo sistema. Trata-se de reverter a dinâmica da desaceleração em curso na economia”. Para Belluzzo, se tomar medidas que bloqueiam o crescimento, numa conjuntura de recessão mundial, o país estará criando as mesmas condições que favoreceram a vitória do nazismo na Alemanha.

Para Fernando Cardim, nós “temos trunfos significativos. Ao contrário de muitos países da periferia do capitalismo, a escala do mercado interno e a existência de uma base industrial ampla e sofisticada dá boa margem de manobra à economia brasileira. Mas é preciso realmente ativar essas potencialidades. Segundo ele, “o país pode e deve reposicionar seus instrumentos de política econômica: a) além de baixar os juros, é preciso dar ao BNDES o capital que for necessário para que o banco possa arrastar o restante dos investidores privados em direção a projetos produtivos. Poucos países do mundo têm um trunfo como o do BNDES, não se pode desperdiçá-lo; b) é necessário promover uma reforma no mercado de capitais para induzir recursos ao setor produtivo; c) é indispensável atrelar a política fiscal firmemente a um plano de investimentos em infra-estrutura".

Reinaldo Gonçalves, num artigo denso, “Crise econômica: radiografia e soluções para o Brasil”, vai elencar as medidas que deveriam ser tomadas se o governo quiser enfrentá-la seriamente, priorizando a grande maioria da sociedade, que são os trabalhadores: entre outras, a redução da taxa de juros, o controle de capitais (entrada e saída), a expansão dos gastos públicos, a redução da carga tributária sobre os trabalhadores.
Dada a magnitude da crise, é mais que nunca o momento de pensar num modelo de desenvolvimento centrado nas necessidades humanas, que garanta a reprodução da natureza, que evite o desperdício, que não esgote os recursos naturais.

Um desenvolvimento que não esteja voltado para a maximização do consumo e, sim, para a vida humana. “Eu acho que o capitalismo é frontalmente incompatível com a ecologia. Qual é a proposta do capitalismo? É explorar, de forma ilimitada, todos os recursos da terra, transformando-os em lucro, em mercadoria. (...) Enquanto perdurar o capitalismo - e hoje ele se globalizou - nós vamos ter crises sistemáticas do sistema da vida, o sistema da sociedade” (Boff, L., 2007). “Pode-se aplicar a “sustentabilidade” para o tipo de desenvolvimento/crescimento moderno cuja lógica se sustenta na pilhagem da Terra e na exploração da força de trabalho?” pergunta Leonardo Boff (Boff, 2004).

“Nosso objetivo é a vida e não a produção: trata-se de melhorar as condições de vida, o viver bem, juntos, e, para isto, trabalhar para obter o que é necessário para atingir este objetivo” (Löwy, 2007). É preciso responder às necessidades sociais. A produção é um meio, não um fim. Nós temos necessidade de água, alimentos, roupas, habitação. Temos necessidade de aprender, de ler, de estudar. Temos necessidade de música, de dança, de esporte, de lazer, de atividades físicas e espirituais (cf. Löwy, 2007 e Arruda, 2006).

O que é necessário para conseguir estes bens? E como obter o que é necessário sem destruir as condições que nos permitem viver na Terra, sem acabar com a água, com os peixes, com os animais, com a terra cultivável, as florestas, etc.? É necessário fazer a crítica da ideologia produtivista do "progresso", assim como a crítica da civilização baseada no automóvel e, por causa disso, obcecada pela produção dos combustíveis (fósseis ou agrocombustíveis) (cf. Löwy, 2007).

Se quisermos fazer isso, não basta um discurso anti-neoliberal. É preciso redirecionar a política econômica que nos governou nos últimos vinte anos: colocar o Estado decididamente a serviço da sociedade e não mais da elite mais rica do país – aquela constituída pelos banqueiros e pelos rentistas. É preciso romper com a lógica do livre fluxo de capitais, que torna o país refém dos “mercados”, mercados que, agora foi confirmado, são absolutamente incapazes de se auto-regular e, ao contrário, são capazes de destruir toda a atividade econômica.

É preciso utilizar os recursos existentes – que são imensos, confirmamos também agora – para promover um amplo programa de desenvolvimento do país, com investimento pesado nas políticas públicas de saúde, de educação, de habitação, de transporte coletivo; em projetos de infra-estrutura; de modo a gerar emprego para todos e empregos de qualidade. Isto significa romper com a política de juros altos; romper com a centralidade da política de controle da inflação; significa tornar central a política de geração de empregos.

Significa fazer uma auditoria da dívida pública, liberando recursos para atender às necessidades sociais.
O Estado deve deixar de ser o “organizador da transferência de riqueza e renda” da maioria da população para a camada mais rica – através do superávit primário e do sistema tributário regressivo que temos. O Estado deve promover políticas de distribuição de renda, o que exige uma reforma tributária em direção a um sistema progressivo.

É isto que significa romper com a ideologia neoliberal, com o modelo neoliberal e criar as bases para reorganizar a sociedade, oferecendo-lhe condições de desenvolvimento – um outro modelo de desenvolvimento - e de bem-estar.

É possível? Se, antes da crise, a ideologia neoliberal dizia que não era possível, hoje todos sabem que é possível, sim. Estas são algumas das lições que temos de tirar da maior crise econômica internacional desde a crise de 1929. São os cidadãos, o conjunto dos movimentos sociais e das pastorais, são as organizações da sociedade civil que devem se mobilizar, se organizar e pressionar para que isso se torne realidade.

____________________

Notas.

1 - Quando falamos em energia hídrica, não estamos falando de grandes hidrelétricas, como no tempo dos militares, que destroem o meio-ambiente e prejudicam diretamente as populações locais, mas de pequenas hidrelétricas – que tenham como preocupação principal os habitantes e a ecologia.

Referências bibliográficas.

ARRUDA, Marcos (1999). “Globalização financeira neoliberal: grave enfermidade do capitalismo”. 6 págs. Republicado em www.jubileubrasil.org.br .
________________ (2006). Desenvolvimento: a arte de realizar nossos potenciais. In: Id. Tornar Real o Possível: Economia Solidária, Desenvolvimento e o Futuro do Trabalho. Vozes, Petrópolis, cap. 3.
BOFF, Leonardo (2004). A crise ecológica: a perda da re-ligação. In: Ecologia, Grito da Terra, Grito dos Pobres. Cap. III, Rio de Janeiro, Sextante.
______________ (2007). “Leonardo Boff e a crise do capitalismo”. Entrevista ao jornal O Povo, Fortaleza – Ceará, 07/07/2007.
BELLUZZO, Luiz Gonzaga (2008). “Cortar gasto público? Foi essa receita que empurrou a Alemanha para o nazismo em 1933”. Publicado na Agência Carta Maior: www.cartamaior.com.br , 4 págs., 23/10/2008.
CARDIM, Fernando (2008). "Será preciso repensar um projeto para o país". Entrevista à Agência Carta Maior: www.cartamaior.com.br , 20/10/2008.
CARTA DE MAPUTO (2008). V Conferência Internacional da Via Campesina. Maputo, Moçambique, 22/10/2008.
CARTA de várias entidades sul-americanas para os presidentes da América do Sul. “Ante a crise financeira internacional”. Publicada em www.adital.com.br , 17/10/2008.
GONÇALVES, Pe. Alfredo J. (2008). “No olho da crise”. Meio digital, 4 págs., 28/10/2008.
GONÇALVES, Reinaldo (2008). “Crise econômica: radiografia e soluções para o Brasil”. Meio digital, 29/10/2008, 18 págs.
KRUGMAN, Paul (2008). “Nobel de Economia defende aumento de gastos públicos contra a crise” Entrevista para Alternatives Economiques. Publicada em Sin Permiso, traduzida pela Agência Carta Maior: www.cartamaior.com.br , 22/10/2008.
LÖWY, Michael (2007). “Ecosocialism, democracy and planification”. Artigo publicado em www.europe-solidaire.org , 18 págs.
RAMONET, Ignácio (2008). “O fim de uma era do capitalismo financeiro”. Artigo publicado pela Agência Carta Maior: www.cartamaior.com.br , 16/10/2008.
SEPLA (Sociedade Latino-Americana de Economia Política e Pensamento Crítico). “Salvar os povos, não os bancos”. Publicado em www.resistir.info , 23/10/2008.

domingo, novembro 02, 2008

A Manipulação do Homem através da Linguagem

Alfonso López Quintás
lquintas@filos.ucm.es
(Tradução: Elie Chadarevian)

O grande humanista e cientista Albert Eisntein fez esta severa advertência: "A força desencadeada pelo átomo transformou tudo menos nossa forma de pensar. Por isso caminhamos para uma catástrofe sem igual". Que forma de pensar deveríamos ter mudado para evitar esta hecatombe? Sem dúvida, Einstein se referia ao estilo de pensar objetivista, dominador e possessivo que se esgotou com a primeira guerra mundial e não foi substituído por um modo de pensar, sentir e querer mais adequado à nossa realidade humana.

Os pensadores mais lúcidos têm insistido desde o entre-guerras a mudar o ideal, realizar uma verdadeira metanoia e, mediante uma decidida vontade de servir, superar o afã de poder. Esta mudança foi realizada em círculos restritos, mas não nas pessoas e nos grupos que decidem os rumos da sociedade. Nestes continuou operante um afã descontrolado de domínio, domínio sobre coisas e sobre pessoas.

O domínio e controle sobre os seres pessoais se leva a cabo mediante as técnicas de manipulação. O exercício da manipulação das mentes tem especial gravidade hoje por três razões básicas: 1) Continua orientando a vida para o velho ideal de domínio, que provocou duas hecatombes mundiais e hoje não consegue preencher nosso espírito pois já não podemos crer nele. 2) Impede de se dar uma reviravolta para um novo ideal que seja capaz de levar à plenitude de nossa vida. 3) Incrementa a desordem espiritual de uma sociedade que perdeu o ideal que perseguiu durante séculos e não consegue descobrir um novo que seja mais de acordo com a natureza humana.

Se quisermos colaborar eficazmente a construir uma sociedade melhor, mais solidária e mais justa, devemos identificar os ardis da manipulação e aprender a pensar com todo o rigor. Não é muito difícil. Um pouco de atenção e agudeza crítica nos permitirá desmascarar as prestidigitações de conceitos que se estão cometendo e aprender a fazer justiça à realidade. Esta fidelidade ao real nos proporcionará uma imensa liberdade interior.

Não basta viver num regime democrático para ser livres de verdade. A liberdade deve ser conquistada dia a dia opondo-se àqueles que ardilosamente tentam dominar-nos com os recursos dessa forma de ilusionismo mental que é a manipulação. Esta conquista só é possível se tivermos uma idéia clara a respeito de quatro questões: 1º) O que significa manipular? 2º) Quem manipula? 3º) Para que manipula? 4º) Que tática utiliza para este fim? A análise destes quatro pontos permitir-nos-á discernir se é possível dispor de um antídoto para a manipulação. Estamos a tempo de defender nossa liberdade pessoal e tudo o que ela representa. Façamo-lo decididamente.

A íntegra está em: http://www.hottopos.com/mp2/alfonso.htm

Opep pede implementação de cortes na produção

BBC Brasil - 02/11/08

Poço de petróleo no Bahrain
Corte na produção foi acertado no mês passado
Os países da Opep, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, precisam implementar os cortes de produção acordados se quiserem estabilizar os preços do produto, alertou o presidente do cartel, Chakib Khelil, neste domingo.

Khelil disse que os mercados estão esperando os cortes acertados em Viena, no mês passado, e afirmou que a Arábia Saudita, o maior exportador de petróleo do mundo, tem um papel fundamental para o sucesso da decisão.

"É isso que os mercados esperam agora: ver que realmente há uma redução no mercado e não levar em conta apenas as declarações das diferentes pessoas envolvidas. É o que se vê no mercado que afetará os preços", afirmou Khelil, que também é ministro das Minas e Energia da Argélia.

A decisão do cartel de cortar a produção em 1,5 milhão de barris por dia - o que representa cerca de 5% - foi tomada no dia 24 de outubro, como uma forma de controlar a queda nos preços de petróleo.

A Opep espera que a medida estabilize o preço do barril entre US$ 70 e US$ 80, mas a decisão foi criticada por vários líderes, incluindo o premiê britânico, Gordon Brown, que está fazendo um tour pelo Golfo Pérsico.

Brown voltou a pedir um mercado de petróleo mais estável, neste domingo, falando da necessidade de "uma transição sustentável para uma economia com emissões de carbono reduzidas".

O ministro da Energia do Catar, Abdullah bin Hamad al-Attiyah, rejeitou as críticas ao corte na produção, dizendo que há muito petróleo que não está sendo vendido por causa da situação econômica internacional.

O PIG QUEBROU A VALE PARA PEGAR O LULA

Conversa Afiada - 02/11/2008 15:33



O PiG usa o Agnelli – para o bem e para o mal

Paulo Henrique Amorim

. O PiG transformou a Vale no que o Governo Lula NÃO é.


. A excelência da Vale e seu presidente, o funcionário contratado Roger Agnelli, eram exemplos do que o Governo Lula NÃO era.

. A Vale era a NÃO-Petrobrás.

. Uma, lenta, inepta, cabide de emprego, “aparelhada” pelo PT, estatal com todos os defeitos que o Roberto Campos identificou no “Petrossauro”.

. A Vale, não.

. Enxuta, profissional, dinâmica, dirigida por um gênio – a Vale, privatizada.

. Roger Agnelli, funcionário de carreira do Bradesco, nomeado presidente com a privatização, foi transformado naquilo que o presidente da Petrobrás NÃO era.

. Privatizante, cosmopolita, erudito, tanto assim que foi ser “colonista” (*) da Folha (da Tarde **).

. Agnelli era a nossa versão do Gianni, o comandante da Fiat.

. Além do mais, também elegante, garboso, como o Gianni.

. Só que, ao contrário do Gianni, o nosso Agnelli é um empregado.

. E como todo executivo que pensa na carreira, Agnelli tratou de ser uma celebridade.

. É impressionante como ele consegue dirigir uma empresa tão fabulosa e, ao mesmo tempo, desincumbir-se das extenuantes responsabilidades que acompanham as estrelas !

. Na verdade, não há nada de excepcional na Vale.

. A Vale faz até hoje no Brasil o que meus antepassados portugueses fizeram quando aqui chegaram: fura o solo e exporta o que encontra.

. Não é uma IBM, uma GE, uma Microsoft, que tenha contribuído para o desenvolvimento com inovação e tecnologia.

. Não troco um agrônomo da Embrapa pelo diploma de economista do Agnelli ...

. A Vale não multiplica.

. Não tem capilaridade.

. Ela não é a construção civil, nem a indústria automobilística.

. E muito menos a Petrobrás, que cuida de atividades estratégicas.

. O que aconteceria se o Brasil não produzisse minério de ferro ?

. Nada.

. O Japão não tem minério de ferro e tem uma indústria siderúrgica robusta ...

. O único fato relevante da biografia recente da Vale - pós Vargas - foi a sua privatização.

. O Governo do Farol de Alexandria ia dar a Vale – a preço de amigo ... - ao Antonio Ermírio de Moraes.

. Na operação ia entrar – como entrou, com Daniel Dantas, nas teles – a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil.

. Aí, de uma hora para outra, Ricardo Sérgio de Oliveira, que foi diretor de “fundos” de campanhas de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, e controlava a Previ, mudou de lado.

. Mudou de lado.

. Mudou de lado, como mudou, no limite da “irresponsabilidade”, na privatização das teles.

. Para quem tem memória curta, Ricardo Sérgio é protagonista daquele momento “Péricles de Atenas” do Governo Fernando Henrique, durante o êxtase privatizante: “isso vai dar m...”

. No caso da Vale, Ricardo Sérgio mudou de lado por convicções ideológicas, presume-se.

. Na revista VEJA, uma entrevista de Benjamin Steinbruch revestiu a conversão a alguns valores supra-ideológicos ...

. O José Serra e o Fernando Henrique Cardoso devem saber que valores são esses ...

. E a Vale foi cair nas mãos de um conglomerado de que constam a mesma Previ – portanto, a Vale é, ainda, em boa parte, estatizada ... - e o Bradesco.

. O endeusamento da Vale e do Agnelli chocou-se, porém, com outra prioridade do PiG: derrubar o presidente Lula.

. Na verdade, neste momento, a estratégia do PiG não é mais derrubar o presidente Lula, porque ele já se derrubou.

. Depois da prisão de Daniel Dantas e do Golpe do “Estado de Direita” do Supremo Presidente Gilmar Mendes, o Presidente Lula, o que tem medo, caiu para dentro.

. Hoje, a estratégia do PiG “evoluiu” para aumentar, multiplicar a crise econômica, de tal forma que o Presidente Lula chegue um cadáver ambulante à eleição de 2010, e José Serra, desde sempre presidente eleito, assuma em paz.

. No momento, o negócio do PiG é o “quanto pior melhor”.

. Então, foi a sopa no mel, quando a Vale, por causa da crise, teve que enfrentar alguns dissabores.

. O PiG transformou isso na catástrofe total, irremediável, completa, o fim dos tempos: agora o Lula será tragado pelo fogo dos infernos !

. Tróia caiu !

. Heitor, o herói de pés ligeiros, estava mortalmente ferido !

. Disse o Estadão, no sábado, em manchete jubilosa, na primeira página: “Crise faz Vale cortar a produção e dar férias”.

. A Folha, com incontido regozijo, bradou de fora a fora, na primeira página: “Crise faz Vale diminuir produção” !!!

. E o Globo ? Percebia-se o sorriso maquiavélico do redator por trás daquela manchete da primeira página, como se dissesse, “caiu o último bastião do Governo Lula”: “Vale reduz produção em cinco países e dá férias”.

. O PiG derreteu a Vale.

. O Agnelli se assustou.

. Como ficam os acionistas ?

. Como ficam os bancos ?

. Como ficam os fornecedores ?

. A Vale vai quebrar ?

. Calma, não é bem assim, meus queridos colegas do PiG.

. A Vale não acabou, AINDA, como diria a Miriam Leitão.

. E, hoje, com data de 31/10/2008 (por que só saiu nos jornais de 2 de novembro ?) todos os jornais do PiG publicam uma “nota de esclarecimento” da Vale.

. Diz a nota tardia: a Vale dará férias e fará ajustes na produção para se adequar aos pedidos dos clientes (quem mandou acreditar que a China ia crescer eternamente a 20% ao ano ?).

. A Vale vai evitar estocar menos os produtos de qualidade inferior e de maior custo (e por que os produz ? e por que já não os estoca menos, desde ante da crise ?).

. A Vale vai fazer paradas de manutenção (o que deveria fazer, rotineiramente).

. Apesar do “quanto pior melhor” do PiG, a Vale não vai cortar um centavo do plano de investimentos anunciado.

. Ou seja, a Vale vai ser obrigada, com a retração da demanda chinesa, a se tornar mais eficiente.

. Como acionista da Vale, não pretendo vender minhas ações.

. Outra coisa: a Vale é responsável por 7% do saldo comercial brasileira.

. Com a variação cambial, se a Vale não exportar um grama de minério de ferro, não vai fazer a menor diferença ...

. O PiG usou a Vale contra o Presidente Lula, para desmoralizá-lo.

. E agora usa a Vale, de novo, contra o Presidente Lula, para tornar pior o que não é tão pior assim.


(*) Se refere à “colônia”, dá a idéia de pessoa “colonizada”, submetida ao pensamento hegemônico que se originou na Metrópole e se fortaleceu nos epígonos coloniais. Epígonos esses que, na maioria dos casos, não têm a menor idéia de como a Metrópole funciona, mas a “copiam” como se a ela pertencessem.

ONU tenta recuperar credibilidade no Congo

Instituto Humanitas Unisinos - 02/11/08

Na entrada do complexo da ONU em Goma, um cartaz lembra aos cerca de 17 mil soldados que compõem a força internacional de estabilização da República Democrática do Congo: é proibido pagar por qualquer serviço sexual; é proibido oferecer ajuda humanitária em troca de sexo; é proibido freqüentar casas de prostituição.

A reportagem é de Fábio Zanini e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 02-11-2008.

Os mandamentos são uma tentativa da Monuc, a maior missão de paz da ONU no mundo, de recuperar algo de sua credibilidade após uma sucessão de escândalos.

Na mais recente onda de violência, os capacetes azuis foram incapazes de oferecer segurança à população.

Como resultado, na última segunda-feira centenas de moradores de Goma atacaram com pedras prédios das Nações Unidas em Goma. Duas pessoas foram mortas e dezenas ficaram feridas quando os capacetes azuis reagiram utilizando armas de fogo.

Os escândalos da ONU não são somente de abuso sexual de congolesas. Em abril, a emissora britânica de rádio e TV BBC acusou soldados indianos e paquistaneses da missão de trocar armas por ouro e marfim com grupos rebeldes.

Ao longo dos últimos cinco anos, pelo menos 70 militares foram enviados de volta a seus países de origem.

A Monuc, sigla em francês para Missão das Nações Unidas para o Congo, é um exemplo da chamada "síndrome do veículo branco", um fenômeno que costuma ocorrer em áreas instáveis e miseráveis que são repentinamente tomadas pela parafernália da organização. A referência é à cor dos caminhões, jipes e Land Rovers que servem aos militares e civis operando sob a bandeira azul celeste da ONU.

Dólares

Significa que há o risco de o trabalho humanitário ser ofuscado por efeitos colaterais para a população local. Os dólares dos salários pagos pela missão de paz costumam trazer aumento repentino no consumo de álcool, prostituição e inflação de produtos e serviços.

Na cidade de Goma, a economia é totalmente dolarizada, reflexo da presença da Monuc já há seis anos. O franco congolês tornou-se secundário.

Um croissant de chocolate custa US$ 1, quase nada para estrangeiros, mas muito para a população congolesa que sobrevive com uma renda menor do que esse valor por dia.

O único bar e restaurante digno do nome e o solitário supermercado atendem à clientela internacional cercados por favelas, ruas com esgoto a céu aberto e buraqueira generalizada no que passa por asfalto.

A Monuc ocupa praticamente todo o aeroporto da cidade, com alojamentos e mais alojamentos para militares se enfileirando junto ao muro de proteção, divididos pelos 13 países que compõem a missão. Uma área cercada abriga o Urubatt (batalhão uruguaio), outra o Indiabatt e assim por diante. Aviões e helicópteros brancos tomam os hangares.

Nos últimos meses, a organização tem iniciado um arrojado esforço de relações públicas, pedindo desculpas na emissora de rádio que administra, buscando responsáveis e prometendo mudanças. O "código de conduta sexual" é um exemplo.

"Nós realmente sentimos muito que indivíduos tenham cometido atos que prejudicam tanto o nosso trabalho e a nossa imagem. Esta missão é uma amostra do conjunto da população mundial, e isso acaba se traduzindo em alguns comportamentos deploráveis de alguns", afirma Sylvie Van Den Wildenberg, porta-voz da missão da ONU.

Evo suspende ações da DEA na Bolívia

Instituto Humanitas Unisinos - 02/11/08

O presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou ontem a “suspensão indefinida” das operações da agência antidrogas dos EUA (DEA) em seu país, acusando seus funcionários de “espionagem” e de tentar “desestabilizar” seu governo.

A notícia é dos jornais O Estado de S. Paulo e Página/12, 02-11-2008.

“Quero comunicar a vocês uma decisão pessoal. A partir de hoje está suspensa qualquer atividade da DEA (na Bolívia)”, afirmou Evo, num quartel da região cocaleira de Chapare, no centro do país, onde participou de um ato para a divulgação dos resultados das campanhas de erradicação da coca na região. “Existem agentes da DEA que trabalham com espionagem política, financiando grupos delinqüentes para que atentem contra a vida das autoridades - para não dizer do presidente”, justificou o líder boliviano.

O governo boliviano acusa a agência americana de fomentar um “golpe civil” em seu país. Segundo Evo, a DEA estaria por trás de alguns protestos organizados pela oposição regional em setembro, como o bloqueio de aeroportos para impedir que autoridades de La Paz visitassem cidades no leste da Bolívia.

Evo chegou a citar o nome de um agente dos EUA que trabalha em Santa Cruz e, segundo ele, teria viajado para as cidades de Trinidad e Riberalta para “financiar os civis” envolvidos nas manifestações.

Em Washington, o porta-voz da DEA, Garrison Courtney, disse que a decisão cria uma “situação indesejada”, mas a agência encontrará outras formas de combater o tráfico de drogas na região. Recentemente, os EUA decidiram não renovar um acordo de preferências tarifárias com a Bolívia alegando a falta de cooperação de La Paz no combate ao tráfico.

Em setembro, logo depois da intensificação dos protestos da oposição em quatro departamentos (Estados), o governo Evo expulsou o embaixador americano em La Paz, Philip Goldberg, acusando-o de tentar interferir em assuntos internos.

30% das maiores cidades do país elegem milionários

Instituto Humanitas Unisinos - 02/11/08

Quase 30% dos prefeitos eleitos nas cem principais cidades do país têm patrimônio superior a R$ 1 milhão. Levantamento feito nos 99 municípios com mais eleitores e em Palmas (TO), única capital que não está entre as maiores cidades, mostra que 28 prefeitos eleitos são milionários.

A reportagem é de Felipe Bächtold e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 02-11-2008.

O patrimônio médio dos candidatos vitoriosos é de R$ 1,7 milhão. Se recebessem o salário do prefeito de São Paulo -R$ 12.384-, precisariam ficar mais de 11 anos no cargo para acumular essa quantia.
Entre os eleitos, o mais rico é Marcio Lacerda (PSB), que em 2009 vai assumir a Prefeitura de Belo Horizonte e declarou ter mais de R$ 55 milhões. Apenas o patrimônio dele corresponde a um terço da soma dos bens de todos os cem prefeitos eleitos - R$ 172 milhões. Lacerda, 62, prosperou a partir dos anos 70 com empresas no setor de telecomunicações.

O partido com mais membros entre os mais ricos é o PSDB, com sete, seguido pelo PDT, com seis. Os dados foram coletados nos registros de candidaturas entregues ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Segundo colocado entre os eleitos mais ricos, o prefeito de Foz do Iguaçu (PR), Paulo Mac Donald Ghisi (PDT), diz ter ficado surpreso com sua colocação no ranking. Engenheiro e dono de uma construtora, declarou ter R$ 11,8 milhões.

Mac Donald, 60, diz ter bancado metade dos gastos da campanha deste ano do próprio bolso. "Os empresários estão preocupados com a política e estão participando com mais intensidade", afirma.
Ele diz que entrou na política por "responsabilidade social" e para "resolver" crises que a cidade atravessava.

Dois candidatos que se elegeram declararam não ter bem nenhum: Veneziano Rego (PMDB), de Campina Grande (PB), e Sérgio Ribeiro (PT), de Carapicuíba (SP). Por meio de sua assessoria, Rego, 38, disse que morou por muitos anos com um irmão e que não acumulou patrimônio. Ribeiro não foi encontrado ontem.

O ex-ministro Luiz Marinho (PT), prefeito eleito de São Bernardo do Campo (SP), está entre os cinco menores patrimônios nos cem municípios: declarou ter R$ 32.508.

A proporção de prefeitos milionários nas maiores cidades fica próxima da de deputados federais com patrimônios elevados. Em 2006, a Folha mostrou que 32% dos eleitos para a Câmara possuía mais de R$ 1 milhão. A média de patrimônio dos deputados, no entanto, é superior: R$ 2,5 milhões.

Zona Franca de Manaus. As primeiras férias antecipadas em 30 anos

Instituto Humanitas Unisinos - 02/11/08

O fantasma da crise econômica que assombra o mundo e o Brasil já chegou a Manaus, cidade cuja economia gravita em torno da Zona Franca, um pólo industrial com 500 empresas que empregam 103 mil pessoas. A partir de agosto, as apreensões com a turbulência internacional começaram a chegar à economia local e em outubro se consolidaram, assustando a população.

A reportagem é de Gustavo Paul e publicada pelo jornal O Globo, 02-11-2008.

Pela primeira vez em 30 anos, 16 empresas marcaram férias coletivas para outubro, deixando 15 mil pessoas em casa.

Como num castelo de cartas, a paralisação começou nas grandes montadoras de motocicletas, espraiouse para os fornecedores de peças, reduziu as corridas de táxi e assustou os comerciantes. Nas pontas mais extremas da cadeia, trouxe prejuízo aos vendedores de sanduíche que vivem da movimentação nas portas das fábricas, e levou a prefeitura a fechar a torneira dos gastos públicos. Os fabricantes de produtos eletroeletrônicos, dependentes de importações para montar seus produtos e preocupados com a oscilação do dólar, reduziram contratações.

As férias coletivas do setor de duas rodas terminam neste fim de semana. Segundo o diretor de Relações Institucionais da Honda, Paulo Takeuschi, a parada foi preventiva, e os dez dias foram suficientes para evitar a formação de um estoque anormal nas revendedoras de todo o país. As montadoras foram atropeladas pela súbita falta de crédito no mercado brasileiro e pelas mudanças das regras de consórcio, que tornaram ainda mais difícil vender o produto no mercado interno.

A Honda, que produz uma motocicleta a cada 18 segundos, cortou 40 mil das 110 mil unidades que entrega mensalmente e não abrirá mão das férias coletivas de dezembro.

— O próximo passo é aguardar como a economia vai se comportar. Mas os investimentos planejados estão mantidos — diz Takeuschi.

A negativa das empresas de que irão promover demissões para se adequar à crise não foi suficiente para acalmar os trabalhadores. Teme-se que novas férias coletivas sejam anunciadas, esticando a tradicional parada de Natal em mais dez dias.

Além disso, dados do sindicato dos metalúrgicos apontam que as demissões este ano estão 12% maiores do que no mesmo período do ano passado. Só em setembro, as homologações cresceram 19%. Neste contexto de crise, as dispensas assumem tons mais dramáticos.

O metalúrgico Edvaldo da Costa Silva Filho, de 23 anos, casado e pai de um menino de 1 ano, foi surpreendido pelo comunicado de que seria um dos 2.358 empregados da Yamaha — 55% do quadro total — a entrar em férias forçadas. Apesar da decisão, a Yamaha garante que os investimentos serão mantidos.

— Teve crise de choro, alguns adiantaram logo para comprar o rancho do mês (cesta básica). O encarregado do setor fez uma reunião para garantir que ninguém vai tomar as contas (ser demitido) — diz o operário.

Edvaldo viu de duas formas a cara feia da crise. Para complementar seu salário, administra uma lan house próxima à sua casa. Desde setembro, o movimento caiu cerca de 25%, obrigando-o a dispensar um dos três ajudantes.

— Nunca tinha visto uma queda de movimento assim. Depois da crise, o pessoal está vindo menos.
Encomendas recuam até 20%

Os sindicalistas já montaram estratégias para o caso de serem necessárias mesmo demissões. O plano, que conta com o apoio do sindicato patronal, é a suspensão de contrato de trabalho, uma prática prevista em lei pela qual se mantêm os trabalhadores em casa recebendo, mas sem trabalhar, e assim os custos das empresas são reduzidos.

— O pior é ter demissões.Temos de encontrar alternativas, e nisso trabalhadores e patrões estão juntos — diz Valdemir Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos.

Se parte das empresas depende de linhas de crédito para vender, outra parcela viu os pedidos dos grandes magazines brasileiros caírem cerca de 20% nesses meses. O presidente do Centro das Indústrias do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro, diretor da fabricante de relógios Technos, admite que os empresários estão preocupados em não repassar o aumento do dólar a seus preços. O próximo passo poderá ser redução da lucratividade ou de custos.

Como em um trem-fantasma, a parte ruim ainda está por vir, e é o que mais preocupa os empresários. Enquanto os últimos três janeiros foram excepcionais, com nível de pedidos e produção acima do normal, não se espera o mesmo em 2009.

— Não há preocupação com 2008. As compras de Natal, financiadas pelo 13o. e pelo dinheiro das férias de fim de ano, estão garantidas. O ano de 2009, porém, é uma incógnita.

Por isso, o comércio local exibe otimismo. O setor espera contratar este ano até seis mil trabalhadores temporários para desovar os estoques e garantir receita para 2009.

O presidente do Clube dos Diretores Lojistas, Azury Benzion, afirma que não existem preocupações a curto prazo, mas admite que nenhum comerciante está relaxado.

Planos de expansão estão sendo postergados e o crédito nas lojas está mais seletivo:

— O comércio é um carro que vinha em alta velocidade, e o motor apagou de repente. O carro continua andando assim mesmo e só não sabemos se o motor vai pegar de novo ou se o carro vai parar.

'Bancos estão ganhando com a crise'

Instituto Humanitas Unisinos - 02/11/08

“É hora de o BC reagir fortemente, pressionando os grandes bancos. Quando falo em grandes bancos incluo o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a emprestarem a custos razoáveis. O Banco do Brasil está cheio de dinheiro, a Caixa Econômica Federal está cheia de dinheiro, grandes bancos particulares estão cheios de dinheiro e o mercado, não só a indústria, está com muita dificuldade de obter crédito, sejam empresas grandes ou pequenas”. A sugestão é de Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), dizendo que a sua “paciência está esgotada”, em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, 02-11-2008.

Durante as inúmeras reuniões com os dirigentes do Banco Central (BC) nas últimas semanas, Skaf ouviu insistentemente que era preciso paciência para que as medidas adotadas pela autoridade monetária surtissem efeito no restabelecimento do fluxo de crédito para as empresas. “Só que a paciência agora se esgotou, porque a situação está se agravando.” O que falta, na opinião de Skaf, para que a crise de crédito seja debelada é o BC punir os grandes bancos privados e públicos que estão “dormindo em cima do dinheiro e estão ganhando com a crise”.

Perguntado se “os bancos estão em situação melhor na crise?”, ele responde:

- Nesse momento eu diria que os grandes bancos só estão ganhando.

A fragilidade das duas maiores economias da América Latina

Instituto Humanitas Unisinos - 02/11/08

Assim como a crise financeira atingiu dimensões planetárias, também ganharam as mesmas dimensões os programas de socorro aos países com problemas. Um grupo de 300 banqueiros, reunidos no Instituto para Finanças Internacionais, pressionou para que fossem tomadas medidas combinadas entre o Fed e o FMI para dar liquidez ao mercado internacional de dólar, a fim de impedir que os problemas do sistema financeiro dos Estados Unidos e da Europa se espalhassem, prejudicando economias emergentes. Algumas economias mais frágeis, como as do Leste Europeu e a da Islândia, estão recebendo empréstimos em caráter de emergência do FMI, num novo programa que é considerado um dos maiores da história.

O comentário é de Merval Pereira e publicado pelo jornal O Globo, 02-11-2008.

Já o programa de swap cambial do Fed foi concebido para países ameaçados de inadimplência corporativa à medida que os investidores estrangeiros vão embora. Esses países, entre eles Brasil, México e Coréia do Sul, dependem de capital estrangeiro para financiar o comércio e os investimentos.

O economista Claudio Loser, do Centro de Estudos Diálogo Interamericano, de Washington, foi quem melhor resumiu a situação: tanto no Brasil quanto no México, o câmbio se desvalorizou cerca de 40%, um choque muito forte que indica uma debilidade maior do que a prevista, devido à forte vinculação com o mercado de capitais.

Mas foi essa “vinculação forte” com os mercados internacionais que permitiu que nos últimos cinco anos tenha havido, na definição de Ken Rogoff, professor de Harvard, “o mais forte ciclo de expansão da economia mundial, do comércio internacional e da liquidez global da história moderna”.

Um exemplo simples de como esse “cassino”, como o Presidente Lula qualifica o mercado financeiro, ajudou o fortalecimento da economia brasileira. Entre 72 setores da economia, as instituições financeiras foram responsáveis por nada menos que 28% do aumento de arrecadação este ano. Se a elas somarmos o setor de seguros, outra atividade do setor, chega a 1/3 a contribuição do setor no aumento da arrecadação.

O governo Lula movia o “cassino” ao combinar câmbio valorizado e os maiores juros do mundo, mas cobrava um pedágio, arrecadando Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, IOF e contribuições.

Enquanto todos esperavam que a “marolinha” viria do lado bancário, está cada vez mais claro que, no Brasil, ao contrário do resto do mundo, o que está sofrendo mais é o setor real, com o que a equipe econômica não contava.

No Congresso em Brasília não se fala outra coisa, pois a elite parlamentar é composta em grande parte por empresários.

Pelas notícias que chegam a cada dia, os problemas vão do etanol, passando por criação e abate de aves e suínos, até o complexo automobilístico e também o eletrônico: a completa ausência de crédito está provocando paralisia quase absoluta de atividades.

Um exemplo básico das dificuldades peculiares ao Brasil: pintos estão morrendo porque não entregaram rações nas granjas, caso de que não se ouviu falar na Europa ou nos Estados Unidos, e nem mesmo em países vizinhos com maiores dificuldades, com a Argentina.

Uma leitura atenta do noticiário, principalmente nos jornais americanos e ingleses, mostra uma faceta da crise que tem sido mascarada pelas declarações de autoridades brasileiras. O programa de troca de moedas, mais do que um prêmio à boa gestão macroeconômica desses países, como destacou o presidente do Banco Central Henrique Meirelles, ressalta a fragilidade das duas grandes economias da América Latina, segundo analistas.

Um desses, Steve Hanke, especialista em mercados emergentes do Cato Institute de Washington e professor da Universidade Johns Hopkins, diz que a decisão do Fed mostra que as moedas “são o calcanhar de Aquiles destes países” e “nunca serão sustentáveis a longo prazo”.

O grande investidor George Soros, em artigo no Financial Times, sugeriu que os bancos centrais dos países do centro deveriam criar grandes linhas para swaps com os bancos centrais dos países periféricos qualificados, assim como os países dotados de fortes reservas cambiais, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, China e Japão, deveriam estabelecer um fundo suplementar de desembolso mais flexível.

Essa “receita” está sendo seguida pelo FMI, que em seus programas atuais está utilizando métodos mais flexíveis e praticamente automáticos, sem tanta dependência das famosas “condicionalidades” que engessavam as economias que recebiam a ajuda do Fundo, criando problemas políticos para os clientes-governos.

George Soros também defendeu no mesmo artigo mais crédito de curto e de longo prazo para permitir que os países com posições fiscais sólidas pratiquem políticas de investimento público anticíclico, na mesma direção que está seguindo o governo brasileiro, que já anunciou que reduzirá o superávit primário para financiar obras do PAC. Para Soros, “apenas o estímulo à demanda interna permitirá eliminar o espectro de uma depressão mundial”.

Ele prevê que poderá fracassar a Cúpula sobre Mercados Financeiros e Economia Mundial, reunião convocada pelo presidente dos Estados Unidos, George Bush, para o próximo dia 15, com os membros do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) e mais nações emergentes como Arábia Saudita, África do Sul, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, México, Rússia e Turquia, se os Estados Unidos não derem o exemplo na proteção aos países periféricos contra uma tempestade que se originou em sua economia.

Por enquanto, no entanto, os Estados Unidos estão cuidando apenas dos interesses de suas corporações espalhadas pelo mundo.