"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

terça-feira, dezembro 02, 2008

O homem que poderia ser rei do Congo

Instituto Humanitas Unisinos - 30/11/08

A África já viu os gostos do líder rebelde do Congo, Laurent Nkunda, antes. A história do revolucionário que se enfurece no interior do país em um avanço rêlâmpago e toma o poder é uma história familiar desde a nativa República Democrática do Congo de Nkunda até as Ilhas Comores. Às vezes, assim como com Paul Kagame na Ruanda ou com Yoweri Museveni na Uganda, os novos líderes são uma melhoria. Mas, em outros casos, como com Robert Mugabe no Zimbábue ou Laurent Kabila, o pai do atual presidente congolês que foi assassinado, eles rapidamente impõem a autocracia e a corrupção que eles inicialmente estavam combatendo.

A reportagem é de Alex Perry, da revista Time, 27-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nkunda ainda está no interior, ao longo da fronteira com a Ruanda, no leste do Congo. Mas o rebelde tutsi dobrou o seu território em poucas semanas semanas, precipitando uma crise humanitária que envolve milhões de refugiados. E com suas forças cercando a capital regional Goma e enfrentando um exército nacional em ruínas e um fraco e isolado presidente, sua ameça para tomar a capital congolesa Kinshasa repentinamente deve começar a ser levada a sério. A decisão de Nkunda a realizar uma reunião e uma entrevista coletiva no dia 22 de novembro em Rutshuru, recentemente capturada por suas forças, foi uma chance de descobrir que tipo de líder ele pode provar ser.

Nkunda chega com duas horas de atraso, percorrendo com pose até parar em frente a uma multidão suada de dois mil em uma Toyota Land Cruiser toda preta, ladeada por guarda-costas uniformizados esportivamente. Assim que Nkunda desembarca, os valentões empurram e chutam repórteres e espectadores, então permanecem com cara de lua e pernas afastadas ao redor do seu homem, armas penduradas sobre seus ombros e apontadas para baixo, dedos indicadores correndo ao longo da guarda – a pose das tropas de elite de Fort Bragg até o sul das Filipinas. Nkunda é um homem que administra sua aparência cuidadosamente, talhando uma aparência alta e levemente dandy em trajes militares, uma boina roxa e óculos dourados, e carregando uma bengala preta coroada com uma cabeça de água prateada. Às vezes, ele é afetado por uma aparência de profeta pregador: um longo e esvoaçante sobretudo preto, um colarinho alto de lã creme e um chapéu de pastor preto com abas largas. Mas para o encontro – talvez a aparição mais pública que ele já tenha feito – Nkunda escolha um novo traje: camuflagem de deserto norte-americana. A sugestão parece ser de que Nkunda é, de coração, um ocidental, um democrata – um bom homem na África.

Comprova-se que o tema do dia é projetar uma razoabilidade urbana. Na conferência à imprensa, Nkunda, 39 anos, pai de seis filhos, diz que está pronto para conversar na hora que o presidente Laurent Kabila escolher. Ele nega que esteja interessado na presidência e fala, ao invés, em uma posição no exército congolês – “onde eu me sinto mais confortável”. Dois dias depois, ele se estende sobre esse tema, declarando que está pronto para integrar suas forças com o exército. Seu sonho, ele diz, não é uma ambição pessoal, mas o de um “grande Congo”, não mais ofuscado por seus vizinhos menores e mais desenvolvidos.

Mas Nkunda tem método – e não há nada nisso que sugira razoabilidade. Foi a sua anterior recusa a se integrar com o exército nacional que, em 2004, deu início ao estágio atual da guerra civil de 15 anos do Congo. Suas forças a recém gastaram os últimos dois meses matando as mesmas tropas as quais ele, agora, diz que quer se juntar. E Nkunda tem uma história de crimes de guerra. A ONU acusa suas forças de executar inimigos e estuprar mulheres e acusou-o de crimes de guerra em setembro de 2005. Este mês, acusou suas forças – agora somando cerca de sete a oito mil homens – de tomar parte no massacre de pelo menos 50 pessoas no dia 05 de novembro em um vilarejo de Kinwanja, a 20 minutos de caminhada pela estrada. Isso pode explicar a tentativa de projetar uma face mais gentil. “Eu acho que Kiwanja foi um grande erro tático”, diz Tatiana Carayannis, especialista sobre Congo no Social Science Research Council em Nova Iorque. Em outras palavras, essa não é uma mudança de direção. Pelo contrário, é uma troca de tática de um líder pragmático em busca de um objetivo único: poder.

Às vezes, Nkunda, que prometeu um “inquérito” sobre as mortes, não pode impedir que suas verdadeiras cores se mostrem. Durante a reunião, ele repreende severamente a multidão por sua covardia. “Se vocês têm medo, então me respeitem”, disse. “Eu não tenho medo. Não comparem vocês comigo. Se vocês têm medo, deixem-me passar. Saiam do meu caminho. Eu não tenho medo”. Havia também uma espécie de propaganda grosseira e orquestrada. Diversos desertores do exército congolês deram testemunho de Nkunda lembrando como eles trocaram de lado depois de se darem conta de que a justiça estava no lado rebelde. Então um ladrão esfarrapado e um ex-miliciano Mai Mai também foram levados à frente da multidão para testificar que seu ex-grupo era culpado por saquear e atacar civis, e não os homens de Nkunda. Se é que seja verdade, tais tentativas brutas de administração de imagem só aumentam a pobre reputação de Nkunda. Perguntado sobre como ele via o um milhão de refugiados e a crise humanitária que a sua campanha ajudou a criar, ele respondeu: “Isso é guerra. Nós estamos lutando. As pessoas estão com medo. Claro”. Perguntado se iria marchar sobre Kinshasa, o líder rebelled respondeu: “Por que não?”. Durante o encontro, ele acrescentou: “Nkunda está aqui hoje para trazer liberdade. O país inteiro vai ser libertado”. Quantas vezes a África já ouviu isso?

`Vai haver uma nova corrida imperialista´

Instituto Humanitas Unisinos - 30/11/08

Em seu novo livro, o cientista político José Luís Fiori contesta a tese de que está no fim a hegemonia americana.

A reportagem e a entrevista é de Cássia Almeida e publicada pelo jornal O Globo, 30-11-2008.

Professor e diretor do Programa de Pós-graduação de Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori contesta a tese de que a crise global, que nasceu no berço americano, signifique o fim ou colapso do poder global dos Estados Unidos ou a crise terminal do capitalismo. No livro que chegou às bancas esta semana, “O mito do colapso do poder americano” (Record), escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano, Fiori volta ao século XIII para mostrar o movimento de formação dos Estados nacionais. Ele prevê “nova corrida imperialista”, com os EUA no papel central, junto com China e Rússia, indo para África e Ásia Central. E diz que acabou a “adolescência assistida da América do Sul”.

Eis a entrevista.

No seu livro, o senhor prevê uma nova corrida imperialista.

É a idéia de uma explosão, que eu exponho pela primeira vez nesse livro.

Minha reflexão teórica me levou a ver a relação da Inglaterra e Estados Unidos, não como uma sucessão de ciclos hegemônicos, e sim como uma continuidade da mesma força expansiva anglo-saxônica, que arranca da Holanda, passa pela Inglaterra e chega aos Estados Unidos. Mesmo que acreditasse no fim da supremacia americana, isso não significaria o fim do capitalismo. Não há nenhum sinal disso. O sistema mundial de hoje, que nasceu na Europa, assemelha-se mais a um universo em expansão contínua do que a uma sucessão de ciclos vitais ou biológicos. Como se este sistema acumulasse energia e se expandisse de forma contínua desde o século XIII e passando momentos de explosão expansiva, como no século XVI, XIX e agora de novo, neste início do século XXI.

E os EUA com Obama?

Frente a uma situação como a que estamos vivendo, não há conversa. É uma crise econômica, profunda, extensa e prolongada. A isso se junta a incerteza do ponto de vista estratégico militar americano depois do fracasso no Oriente Médio.

A junção das duas coisas cria uma situação de grande complexidade seja na administração da crise econômica, seja na reorientação da estratégia militar internacional dos EUA.

Os Estados Unidos têm hoje acordo militar com cerca de 130 países e têm mais de 700 bases militares ao redor do mundo. Os EUA não têm mais como recuar dessa posição global. Enfrentarão dificuldades e contradições crescentes, mas não recuarão por sua própria vontade.

Para bem ou para o mal, já não há possibilidade de uma ordem mundial futura, qualquer que seja ela, sem a presença do poder americano, que jamais parará de acumular poder e riqueza, mesmo quando já esteja quilômetros à frente dos seus competidores imediatos

E política externa?

Neste campo muitos depositam expectativas contraditórias no novo governo americano. Mas o programa democrata da sra. Hillary e o de Obama são explicitamente intervencionistas. A sra. Hillary Clinton foi a favor da guerra no Iraque. E no governo de Bill Clinton, os Estados Unidos fizeram cerca de 48 intervenções ao redor do mundo.

E onde deve se dar essa nova onda expansiva?

Esta expansão imperialista se dará na África Central, e em um tempo mais, na América do Sul. Na África, a competição entre as grandes potências gera “zona de fratura” onde tendem a se multiplicar as guerras civis.

A América do Sul virá logo a seguir, por se tratar de um território com imensos recursos energéticos, minerais e hídricos.

Já há sinais disso. Conflitos aqui e lá. Você vê menos porque a América Latina é uma região sabidamente de supremacia americana. Mas a ativação da IV frota americana é um exemplo do aumento da preocupação com o continente. Manifestação indiscutível de que a região está se integrando dentro do sistema mundial de competição entre as nações. Neste sentido, digo que acabou a “adolescência assistida” da América Latina.

Seremos, em breve, os maiores exportadores de alimentos do mundo. E a água é questão essencial.

Com a crise, ficou clara a relação entre estado e capital?

Agora só um cego não vê. Ficou transparente a relação inseparável que sempre existiu entre o príncipe e banqueiro, de que falava Fernando Braudel.

E a Rússia?

Um dos grandes desestabilizadores do sistema mundial nas próximas décadas deverá ser a Rússia, e não a China. A Rússia foi a grande derrotada deste fim do século XX e perdeu cerca de um terço do território do seu velho império.

Daqui para frente, sua estratégia estará sempre voltada para a recuperação total ou parcial de suas perdas. Não há como a política externa da Rússia não estar orientada nos próximos 50 anos pelas perdas que teve nos últimos 15 anos.

No seu livro, o senhor diz que não haverá um duelo final entre China e Estados Unidos.

Não haverá um duelo final e a integração financeira só tende a crescer, numa aliança virtuosíssima. Isso não quer dizer que não vão competir fortemente pelo controle de energia e de alimentos.

O senhor diz que o Brasil não terá uma presença internacional maior.

O Brasil não tem capacidade nem mostra interesse em projetar globalmente o seu poder. Mas, sim, tem poder e capacidade crescente dentro da América do Sul. Neste sentido, deve se prever uma tensão maior entre o Brasil e a nova administração democrata, que tem uma tradição mais intervencionista.

Haverá disputa de interesses de todos os tipos crescentemente, mas não quer dizer que haverá rompimento com os Estados Unidos. O Brasil tem alargado sua presença em vários cenários e instâncias multilaterais. Tem relações com a África, com a Ásia, o G-20. Mas isso é diferente de ter uma capacidade de projeção global de poder que tem a ver, basicamente, com canhão e capital.

O senhor crê numa mudança na engenharia financeira?

Sim, mas sem qualquer tipo de acordo ou regulação multilateral. Como nas décadas de 70 e 80, os EUA vão tentar reorganizar e regular o sistema a partir de si mesmo.

Relação EUA e China. O núcleo da crise

Instituto Humanitas Unisinos - 30/11/08

O colapso do comércio mundial é um dos grandes riscos da atual crise, que exigirá coordenação entre os governos para evitar medidas protecionistas que agravem ainda mais os desequilíbrios globais. Quem afirma é o economista americano Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim. Com experiência de quem já trabalhou em Wall Street, deu aulas na Universidade Columbia e vive há seis anos em Pequim, Pettis ressalta que o núcleo da crise está na relação entre Estados Unidos e China, os dois pólos do que se convencionou chamar de “desequilíbrio global”.

A reportagem e a entrevista é de Cláudia Trevisan e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 30-11-2008.

Durante uma década, os dois países viveram um equilíbrio instável, no qual os americanos consumiam mais que produziam e os chineses produziam mais que consumiam. Os Estados Unidos tinham déficits e a China, superávits crescentes em conta corrente - o indicador que mede o saldo de cada país em suas trocas comerciais e financeiras com o restante do mundo.

Os excessos desse arranjo levaram à crise no sistema bancário americano e à redução forçada do consumo nos Estados Unidos. Agora, segundo Pettis, virá o ajuste na China e nos países superavitários, que terão de reduzir de maneira expressiva a sua produção para se ajustar à demanda decrescente do restante do mundo.

Com sobra de produção e sem os tradicionais compradores, a China poderá tentar direcionar suas exportações para outros países, incluindo o Brasil. O risco é que isso desencadeie uma guerra comercial que leve ao colapso do comércio global, a exemplo do que ocorreu na Grande Depressão, quando as trocas de bens entre países recuaram 70% entre 1929 e 1934.

Eis a entrevista.

Qual é o papel da China na solução da crise mundial?

Os dois principais atores do desequilíbrio global são Estados Unidos e China. Os Estados Unidos porque durante dez anos consumiram muito além do que produziam e a China porque durante dez anos produziu muito além do que consumia. O excesso de produção da China era consumido pelo excesso de demanda americano. Havia certo equilíbrio, mas ele era insustentável. Ele implicava que os Estados Unidos teriam enormes déficits comerciais para sempre e a China teria enormes superávits comerciais para sempre. A questão era qual dos dois seria interrompido primeiro. A parada veio nos Estados Unidos e o excesso de consumo americano está se reduzindo.

Da maneira como o equilíbrio global funciona, se a demanda das famílias americanas cai, tem de haver um ajuste em algum outro lugar. O consumo caiu e agora a produção está muito alta.

O consumo privado nos Estados Unidos não vai aumentar. As famílias precisam poupar mais e consumir menos para quitar suas dívidas. Isso deixa a tarefa para o governo. Mas temos de ser muito cuidadosos porque, se apenas substituirmos as famílias pelo governo no excesso de consumo, não estaremos resolvendo o problema. Vamos apenas adiar o ajuste. Por isso, precisamos que o consumo aumente em outro lugar, e esse lugar é a China.

E o governo?

Se assumirmos que o consumo das famílias americanas vai cair 5% do PIB dos Estados Unidos, isso significa que o consumo na China deve se expandir em 17% do PIB chinês para compensar a queda. É muito, especialmente quando consideramos que o consumo na China gira em torno de 40% do PIB. Nós precisaríamos que o consumo aumentasse entre 30% e 40% para compensar a retração nos Estados Unidos. Isso não vai acontecer.

O sr. espera uma recessão global ainda mais severa?

Sim, vai haver uma desaceleração no mundo e nós temos de lembrar que, em 1930, o pior aconteceu nos países que tinham superávits em conta corrente. Eu acredito que a mesma coisa se repetirá agora.

O que vai acontecer com o excesso de produção?

Há três opções: contrair a produção - e o pior ainda está por vir -, vender mais dentro do país ou exportar. Se a China decide exportar, isso significa que outros países que também têm mais produção que demanda terão de suportar o custo do ajuste e fechar suas fábricas. É por isso que o momento atual é tão delicado. Se os países que têm superávit em conta corrente tentarem superar sua crise com o aumento das exportações, estarão resolvendo seus problemas por meio do agravamento da crise global. E o resto do mundo não vai tolerar isso, o que levaria a uma guerra comercial e a uma contração do comércio mundial. É muito interessante pensar nas décadas de 1920 e 1930 porque é a mesma coisa. Só que naquela época eram os Estados Unidos que produziam em excesso e a Europa que consumia em excesso.

Com a queda nas exportações para os Estados Unidos, existe o risco de uma invasão de produtos chineses em países que ainda têm alguma demanda, como o Brasil?

É um risco real. Por isso é muito importante que os líderes globais entendam os riscos e façam de tudo para resolver a crise, o que significa que os países que têm superávit em conta corrente, como a China, vão sofrer, pois o mundo não quer mais seu excesso de produção. É necessária uma resposta coordenada que leve a uma expansão fiscal de todos os países. Mas os países com superávit em conta corrente terão de fazer a maior expansão.

O pacote de US$ 586 bilhões anunciado pela China há três semanas é suficiente para evitar uma forte desaceleração da economia?

Não. O pacote envolve grande quantidade de dinheiro, mas não sabemos os detalhes. De qualquer maneira, há um problema de timing. A demanda americana está se contraindo muito rapidamente. Portanto, a fonte alternativa de demanda deveria se expandir no mesmo ritmo. Isso é muito difícil. Acredito que o próximo ano vai ser bem mais difícil para a China do que muitos esperam.

O encontro do G-20 em Washington deu alguma indicação de que haverá coordenação entre os países para enfrentar a crise?

Não, em parte porque as pessoas não entendem a natureza da crise. Como nos anos 30, vêem o problema como questão nacional. Com isso, muitas soluções não resolvem os problemas globais. Portanto, não são soluções. É muito importante que os líderes olhem a questão como um problema de balanço de pagamentos global e encontrem caminhos para resolver os desequilíbrios.

Um país pode exportar mais e tirar espaço de outros países.

Se os outros países estiverem dispostos a permitir isso, ótimo, encontramos um novo equilíbrio. Mas os outros países não vão permitir. Todo o mundo tem o mesmo plano e o mesmo plano dos países com superávit em conta corrente: “Vamos aumentar as exportações”. Mas, se os países com déficit em conta corrente estão reduzindo os déficits, isso significa que os países com superávit têm de diminuir seus superávits. Esse é o equilíbrio. Se você reduz seu déficit, eu tenho de reduzir meu superávit.

Como vê a situação do Brasil?

Eu sempre me preocupo com o Brasil quando ajustes ocorrem. Nos anos 50, 60 e 70, o Brasil lutou com grande dificuldade para superar sua dependência de commodities e desenvolver uma base manufatureira. A razão pela qual o Brasil fez isso era que a dependência de commodities se mostrou um péssimo negócio. Durante os anos de prosperidade, você tem grande crescimento. Mas, durante as contrações, você tem um colapso. Infelizmente, a enorme alta no preço das commodities nos últimos 10 anos levou muita gente a dizer: sabe de uma coisa, as commodities são um ótimo negócio. Mas o boom nunca dura para sempre. Em algum momento, acaba. Temo que o Brasil tenha de aprender por que o País lutou tanto no passado para se afastar da exportação de commodities. Quando o boom acaba, o ajuste é muito dolorido para os exportadores.

Que lições o mundo pode tirar de crises anteriores?

Coordenação global no estímulo fiscal. É necessária a clareza de que há problemas de excesso de consumo e de excesso de produção. O excesso de consumo está sendo atacado agora. Isso significa que o excesso de produção ainda precisa ser resolvido. Uma vez que o excesso de demanda se ajuste, o excesso de produção também se ajusta, e nós ainda não vimos esse ajuste chegar ao fim.

EUA consomem e devem 10 PIBs do Brasil

Instituto Humanitas Unisinos - 30/11/08

Será que o consumidor que está comprando sem parar neste fim da semana pós- dia de Ação de Graças poderá afastar a economia americana e mundial da recessão? Até a madrugada de ontem (a maioria das grandes lojas abre 24 horas por dia), a onda de compras era violenta e furiosa. Um empregado da Wall Mart morreu pisoteado pela multidão enfurecida, que desde as 4 horas da manhã se aglomerava em filas, à espera da abertura das portas. Outras pessoas ficaram feridas, inclusive mulheres grávidas.

A reportagem é de Alberto Tamer e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 30-11-2008.

Foi uma loucura. Mas as associações que acompanham o mercado de varejo não estavam otimistas. Eles só estão em busca de barganhas, não de produtos de valor, registram. Mesmo assim, observavam o caminhar das filas de gente que esperava horas para economizar uns US$ 50.

NATAL EM NOVEMBRO

Por que isso? As grandes lojas estão oferecendo descontos generosos, bem maiores que o habitual, nestes dias de compras tradicionais. Temendo a crise, anteciparam as vendas de Natal, preferindo ganhar menos agora do que perder mais depois, se o consumidor se retrair, assustado com o desempenho e a incerteza da economia.

CONSOMEM E DEVEM UM PIB

O leitor pode achar exagero a coluna estimar a importância do consumidor americano na recuperação da economia mundial. Não é não.O consumo interno responde por 70% do PIB americano e explica por que eles importam cerca de US$ 2 trilhões por ano.

Eles gastam e devem muito e, até agora, mesmo temerosos, continuam gastando e devendo muito. Vejam os números. São impressionantes. Para alguns, inacreditáveis. Mas são todos de entidades de pesquisa de mercado e comércio respeitáveis.

1. Sabem qual é a dívida atual das famílias americanas, incluindo hipotecas? US$ 13,8 trilhões. Sim, trilhões. Igual ao PIB do país. Dez, sim, dez vezes mais do que o PIB, toda riqueza gerada no Brasil, no ano.

2 . Sabe quanto dessa dívida foi feita com financiamento de compras ou de consumo, incluindo cartões de crédito? Eram US$ 2,5 trilhões até outubro, mas estava aumentando. Deve ter chegado a US$ 3 trilhões. O crédito a médio prazo estagnou, mas continua generoso e a juros baixos nos cartões. Entre 2000 e hoje, os gastos financiados com cartões aumentaram 180%.

3 . Sabem quanto eles gastaram até outubro só para ir ao cinema? US$ 7,6 bilhões.

4 . E para viajar nas férias? Pasmem: US$ 460,2 bilhões.

5. Sabem quanto eles pouparam até agora em relação ao PIB? Nada, zero. Somente nas últimas semanas havia sinais de que, preocupados, estavam poupando um pouquinho, coisa aí da ordem de 0,3%.

Se quiserem mais dados e pormenores, entrem no site time. com (a revista) ou no time.com/mail_of_america.

Entenderam agora por que é importante que o consumidor americano continue comprando?

O ‘DESBOOM’ DOS CARROS

O único setor que realmente preocupa é o relacionado com as dívidas na aquisição de automóveis. As compras, que recuaram assustadoramente, levando a indústria às portas da falência e a pedir socorro urgente ao governo. Aqui, espera-se a intervenção do Tesouro para salvá-las. Além disso, não se trata de dívidas de mais de US$ 11 trilhões como o das hipotecas, e cobráveis sem as repercussões sociais da retomada de imóveis. São poucas as famílias americanas que não têm mais de um carro e com freqüência renovam a “frota” com outro mais potente.

Este fim de semana de compras apressadas serve para projetar o que se espera da recuperação da economia americana nos próximos meses, uma expectativa importante diante da recessão que já se instala.

O QUE RESTA?

Esperar que o consumidor americano siga comprando e consumindo cada vez mais, gastando US$ 13 trilhões por ano. Assim,eles poderão continuar importando dos países que, ameaçados pela recessão, não têm mais para quem vender o excesso do que produzem.

Crise já causa demissões no campo

Instituto Humanitas Unisinos - 30/11/08

O mato começa a despontar em 10 mil hectares da Fazenda Recanto, no município de Itiquira, no sul do Estado de Mato Grosso, a 347 quilômetros da capital, Cuiabá. Essa terra deveria produzir 27 mil toneladas de soja até fevereiro, mas está ociosa e já tem ninhos de quero-quero.

A reportagem é de José Maria Tomazela e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 30-11-2008.

Os irmãos Mattei, que no ano passado cultivaram 40 mil hectares, reduziram em um terço a área de plantio do grão nesta safra. Nesta segunda-feira, a Recanto demite 70 dos 160 funcionários. “Na situação atual, não há como segurar uma folha de pagamento de R$ 180 mil”, diz Sérgio Luis Mattei.

Gaúchos descendentes de italianos e agricultores desde o berço, os Matteis não escaparam dos efeitos da crise internacional na agricultura brasileira, que afetaram, sobretudo, Mato Grosso, maior produtor de soja do País. Os 10 mil produtores de grãos têm dívidas de R$ 10,5 bilhões e 70% estão inadimplentes, segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Famato).

Os débitos se arrastam desde a safra de 2003, quando os produtores foram incentivados pelo governo a investir no aumento de produção. Houve uma corrida às compras e a venda de colheitadeiras bateu o recorde nacional. O volume produzido no Estado dobrou de lá para cá, mas os produtores não conseguiram pagar em dia os investimentos. Com a crise internacional, os bancos passaram a executar os débitos e fazer o arresto dos tratores e colheitadeiras.

Desde que expandiram as áreas de produção do sul para o centro-oeste, há 25 anos, é a primeira vez que os Matteis pisam forte no freio. A gota d´água foi a queda no preço do milho, que despencou para R$ 11 a saca durante a semana que passou. Com uma produção de 400 mil sacas ao custo de R$ 17 cada, Sérgio Mattei contabiliza prejuízo de quase R$ 2 milhões.

Ele havia armazenado o milho à espera de uma reação na cotação, mas, na semana passada, foi obrigado a vender 200 mil sacas para fazer caixa. Também precisava do espaço no silo para a soja a ser colhida em janeiro. Cada caminhão que saía carregado da fazenda representava um prejuízo de R$ 3 mil.

“Não tenho outra fonte de renda e vendi para pagar os funcionários”, disse ele. Mesmo ele, um produtor forte e tradicional, está sem crédito. Da frota de 25 colheitadeiras, cinco estão financiadas e duas, com pagamentos em atraso. O agricultor chegou a ser avisado de que poderia ter as máquinas arrestadas, mas conseguiu contornar a situação.

A fazenda é uma das mais produtivas e estruturadas do sul do Estado, com armazéns para 18 mil toneladas, 25 colheitadeiras, frota de tratores e implementos, casas para 100 funcionários, cozinha industrial, refeitório e até uma pista de pouso. Mas o produtor está apreensivo. No preço atual, a soja também vai dar prejuízo. Por isso, ele tentou reduzir o custo de produção usando 30% menos adubo. “Estou pegando dinheiro no mercado para não sujar o nome, mas, se apertar, serei obrigado a vender terra para sair das dívidas.”

O armazenador Evandro Pinheiro, que trabalha com os Matteis há mais de 15 anos, conta que não tem dormido direito. Ele veio do sul com a família, a mulher e dois filhos, e mora na fazenda. “Se o patrão está perdendo dinheiro, a gente perde o sossego.” Embora não esteja na lista de demitidos, ele se preocupa. “Se a soja não der preço, o que vai ser de nós lá na frente?”

Na região de Rondonópolis, a 213 quilômetros de Cuiabá, onde os bancos apreenderam o maior número de máquinas por inadimplência, as terras sem plantio se sucedem ao longo da BR-263. Já não se vêem as filas de caminhões carregados, em comboio, escoando grãos para o Porto de Paranaguá (PR). Na cidade de 190 mil habitantes, o movimento no comércio geral caiu 15%, mas, nas lojas de peças agrícolas e produtos agropecuários, a redução já é de 50%, segundo a Associação Comercial.

O produtor Altair de Souza plantava soja, algodão e milho em 5,2 mil hectares, parte arrendada. Depois de três safras ruins, a partir de 2004, jogou a toalha. “Este ano não plantei nada e passei o risco para outro.” Depois de 25 anos de agricultor, hoje ele vive do arrendamento das terras.

Na Chapada dos Guimarães, a 65 quilômetros da capital, o preço baixo da soja preocupa tanto quanto o ataque de doenças e a instabilidade do tempo. “Passa semanas sem chuva, depois cai um temporal”, conta o gerente, Adelque Cassola, replantando uma área de soja infestada pelo nematóide, mal que ataca a raiz. Ele conta que, por causa crise, o patrão usou semente mais barata. “Agora, estamos replantando com a semente resistente.” Dos 50 empregados, 15 já foram embora, segundo Cassola. “Se não melhorar, vai ter mais demissão.”

A situação dos produtores de algodão é ainda mais crítica, pois a época do plantio chegou e os agricultores não têm crédito. Quando a crise travou os financiamentos, os produtores não tinham comprado os insumos. De uma verba de US$ 500 milhões para o crédito de custeio, tinham sido liberados até a semana passada pouco mais de US$ 20 milhões. Para piorar, o preço atual, de R$ 32 a arroba, não cobre o custo de produção.

O vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), Carlos Augustin, prevê uma queda de 40% na área de plantio, o que deve representar uma perda de R$ 780 milhões no faturamento do setor, que emprega 56 mil trabalhadores. “A queda no número de empregos será proporcional”, assegura.

Especialistas apontam pelo menos cinco causas para os problemas em SC

Instituto Humanitas Unisinos - 30/11/08

Desde que as duas enchentes históricas de 1983 e 1984 atingiram o Vale do Rio Itajaí, causando a morte de 43 pessoas, estudiosos de universidades locais passaram a se preocupar com a vulnerabilidade da região. Na semana passada, nove desses especialistas, professores da Fundação Universidade Regional de Blumenau e da Universidade Estadual de Santa Catarina, se reuniram para discutir as causas principais da enchente deste ano e sugerir providência.

A reportagem é de Bruno Paes Manso, Vitor Hugo Brandalise e Renato Machado e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 30-11-2008.

Segundo Beate Frank, as principais causas da enchente podem ser resumidas em cinco: a quantidade de chuva na região, o local da concentração da chuva, o tipo de rocha do Vale do Itajaí, a forma como vem sendo feita a ocupação desordenada do local e o desmatamento da vegetação local, fatores que são detalhados abaixo. Na ressaca da tragédia, Beate afirma ver com ceticismo a promessa das autoridades em reconstruir a cidade. “Estamos cansados de ver a reconstrução repetindo os mesmos erros do passado. É preciso aprender com os erros. Está na hora de reinventarmos a região e erguer as cidades a partir das lições que tivemos”.

CHUVA

Em quatro dias choveu 500 milímetros, o que significa 500 litros por metro quadrado, mais do que o dobro da enchente de 1984, causada por 200 mm. A média anual na região é de 1.500 mm. A quantidade de chuva, no entanto, não foi o único problema. Historicamente, as enchentes ocorrem a partir do alto do Vale do Itajaí, área de 8 mil quilômetros quadrados, formada por 30 cidades rurais. O sistema de alerta a enchentes, com monitoramento meteorológico e hidrológico, está todo concentrado nessa região. Quando chove no alto do Vale, a Defesa Civil tem pelo menos 24 horas para evitar o pior nas partes mais baixas. Na enchente deste ano, contudo, a chuva se concentrou no médio Vale do Itajaí, na região de Blumenau e no entorno. Não havia sistema de alerta nos rios dessa parte do Vale e não houve como se precaver.

ROCHA

As rochas que formam a encosta do vale são antigas, de 600 milhões a 2,4 bilhões de anos. Na região, não existem mais rochas sãs - são intemperizadas, decompostas ao longo dos anos e, com o tempo, se tornaram porosas e viraram barro. Além disso, esses solos são profundos, com 30 a 40 metros de espessura, sujeitos a se movimentar facilmente, situação que se potencializa por causa da inclinação das encostas, que chega a 70° de declive.

CORTES DOS MORROS

Se a declividade acentuada já não bastasse, as construções se tornam ainda mais vulneráveis por causa dos cortes feitos nas montanhas para a construção das casas. Os assentamentos usam a terraplenagem para deixar o terreno liso e construir imóveis. Esse retalhamento aumenta a instabilidade do solo. Morar em cima ou embaixo das encostas se torna muito arriscado. Na tragédia deste ano, desabaram casas de ricos e de pobres, algumas com mais de 50 anos de existência. Nos vôos aéreos feito pelos professores, o problema da ocupação desenfreada e do desmatamento se tornou evidente. Eles puderam constatar que houve desabamento em áreas sem casas e com matas nativas, o que mostra a vulnerabilidade do solo e a força das águas. Mas a proporção de avalanches foi incomparavelmente maior onde havia loteamentos e desmatamento.

MATA ATLÂNTICA E CILIARES

Por causa do declive acentuado das encostas, a ocupação do Vale do Itajaí ocorreu primeiramente nas margens e várzeas dos rios, o que causou o desmatamento de 90% das matas ciliares da região, tipo de vegetação que evita que as águas da chuva provoquem enxurradas. O Código Florestal, de 1965, limita a ocupação da margem dos rios. A legislação não impediu a construção da BR-470, que caiu dentro do rio e rompeu um gasoduto na altura da cidade de Gaspar. Já as encostas do Vale passaram a ser ocupadas ao longo do século passado, depois do adensamento da várzea, e cobertas pela mata atlântica. Trata-se de um tipo de vegetação relativamente abundante se comparada ao restante do País. Mas o desmatamento ocorrido com a ocupação da encosta foi suficiente para aumentar a vulnerabilidade do solo dos morros, já bastante acentuada por causa do tipo de solo local.

PLANO DIRETOR

As cidades do médio Vale do Itajaí fizeram planos diretores. Todas têm. Os municípios, contudo, priorizam a gestão do território. As limitações impostas pela natureza não são reconhecidas. Durante muito tempo, em Blumenau, vereadores eram loteadores. Como resultado, o interesse imobiliário acaba sendo priorizado e atualmente quase a metade da população da região do Vale do Itajaí vive nas encostas dos morros. Na reconstrução, espera-se a discussão de alternativas para um novo tipo de assentamento com menos riscos.

sábado, novembro 29, 2008

Quem Tem o Petróleo

Published Nov 17 2007 by Civic Actions
Archived Nov 17 2007

Who has the oil?

by Aaron Pava

According to William Tamblyn who sent this in:
The SIZE of each country on this map reflects the relative size of its OIL RESERVES.

The COLORS reflect different levels of OIL CONSUMPTION (per country, not per capita -the key is on the left).

The map's sources are identified as the BP Statistical Review Year-End 2004 and the Energy Information Administration.

Creative Commons License

~~~~~~~~~~~~~~~ Editorial Notes ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

The image is displayed full-size so you can appreciate its impact. At a glance it makes clear many geopolitical issues.

"CivicActions provides strategic Internet consulting, technology planning ... Our services empower distributed networks to protect the environment, advance peace..."

Aaron Pava is co-founder of CivicActions.

-BA

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Original article available here

terça-feira, novembro 25, 2008

Igreja Ortodoxa propõe criação de milícias populares para manter a ordem no país

darussia.blogspot.com - 20/11/08




Vsevolod Tchaplin (na foto), vice-presidente da Secção Internacional da Igreja Ortodoxa Russa, defendeu hoje a criação de milícias populares ortodoxas para manter a ordem no país.
“Há muitas pessoas e grupos que hoje escravizam a vida da rua, do bairro, da cidade pequena, da vila. As milícias ortodoxas poderão impôr a ordem no seus locais de residência e, através disso, impôr a ordem em toda a Rússia”, declarou o sacerdote em declarações à rádio Radonej.
“Se o povo chamar a si parcialmente isso, a ordem será imposta mais rapidamente. Hoje, a Rússia necessita muito disso”, sublinhou.
Esta proposta foi mal recebida pelas organizações de defesa dos direitos humanos.
“Criar semelhantes milícias significa reconhecer que os órgãos de segurança renunciam a manter a ordem nas ruas”, declarou Lev Ponomariov, dirigente da organização Pelos Direitos Humanos, à agência Interfax.
Segundo ele, “é preocupante que as conversas sobre a criação de mílicias ortodoxas não provoquem a reacção dos órgãos do poder”.
“Nesse caso será melhor criar milícias populares budistas. Elas são mais pacíficas e muito simpáticas”, ironizou Svetlana Gannuchkina, dirigente do comité Acção Cívica.
A proposta da Igreja Ortodoxa foi bem recebida pela organização nacionalista Movimento contra Imigração Clandestina.
“É iniciativa é boa, mas porque não? Não tem sentido aumentar infinitamente os quadros da polícia”, sublinhou Alexandre Belov, dirigente desse movimento xenófobo.
Porém, Belov considera que, tendo em conta o pouco número de russos que frequentam os templos ortodoxos, a Igreja Ortodoxa Russa terá dificuldades em reunir milícias.
“Duvido, mas a proposta é boa em si”, concluiu.

Rússia quer modernizar Forças Armadas

darussia.blogspot.com - 20/11/08



A Rússia pretende modernizar as suas Forças Armadas em 80-100 pc até ao ano 2020, anunciou o general Nikolai Makarov, chefe do EMGFA da Rússia.
“Nos próximos três ou cinco anos, planeamos equipar as Forças Armadas com novos modelos de armamentos e material bélico em cerca de 30 pc e, no período de 2018 a 2020, teremos elevado esse indicador até 80-100 pc”, declarou o general às agências russas.
Segundo ele, “esse índice atinge actualmente 20 pc paras as unidades em disponibilidade permanente, ou seja, as que estão prontas a realizar operações militares a todo o momento. Ele é de 80 pc nas unidades com efectivos reduzidos”.
Após reconhecer que o controlo nas Forças Armadas russas é obsoleto e não garante a tomada de decisões rápidas, Nikolai Makarov anunciou a supressão de dois níveis de controlo: o de regimentos e o de divisões.
“Ambas as guerras na Tchetchénia e o conflito de Agosto passado no Cáucaso demonstram que este sistema de controlo criado na década de 60 (exército, divisão, regimento e batalhão) é demasiado complexo e pesado”, considerou.
O general sublinhou também que vai ser fortemente reduzido o aparelho do Ministério da Defesa, considerando-o hipertrofiado.
“As funções e as tarefas que deveriam desempenhar estão diluídas e ficam por cumprir”, constatou.
Nikolai Makarov comunicou que a formação das bases militares russas na Abkházia e Ossétia do Sul, com 3.700 efectivos em cada uma, já terminou, acrescentando que o pessoal já se encontra no local e se dedica activamente à instalação das bases, processo que terminará até finais de 2010.
Na Abkházia, os militares russos instalaram-se em Gudauta e, na Ossétia do Sul, em Djaba e em Tzkhinvali.

Dantas trabalha para receber novo HC de Gilmar

Conversa Afiada - 20/novembro/2008 15:36

Advogado tenta ganhar tempo até o recesso do Judiciário, em dezembro: novo pedido de HC iria parar nas mãos de Mendes

Nélio Machado pensa que só ele é esperrrrrrrrto!

Nélio Machado pensa que só ele é esperrrrrrrrto!

Paulo Henrique Amorim

. Nélio Machado, advogado de Daniel Dantas e da famiglia Castor de Andrade, fez ao corajoso Juiz Dr Fausto De Sanctis vários pedidos para adiar a decisão sobre Dantas.

. Ele quer que De Sanctis mande ouvir Paulo Lacerda, Protógenes Queiroz, Santos Dumont, Conan Doyle, Dante Alighieri, Ronald Reagan, Chacrinha, Barbosa (de Barbosa, Augusto e Clarel), Almirante, a maior patente do rádio, Dercy Gonçalves, Jack, o Estripador, Danusa Leão, Ary Barroso, João Canabrava, Cara de Cavalo e, finalmente, Winston Churchill – autorizado a depor enquanto fuma charuto.

. Só depois disso, o Juiz De Sanctis – que, de resto, já deveria ter dado ordem de prisão a Nélio, por “desacato à autoridade” - poderia decidir.

. Por que essa chicana ?

. Por que essa manobrazinha de malandro carioca metido a esperrrrrrrrrrrrrrto ?

. O Globo explica, na pág. 9, do primeiro caderno: “Há a possibilidade de a decisão sair às vésperas do recesso do Judiciário, que começa em 1º. de dezembro. Nesse caso, se houver condenação, recursos da defesa perante o Supremo Tribunal Federal (STF) iriam de novo para as mãos do presidente, Gilmar Mendes, responsável por recursos emergenciais. Gilmar já concedeu dois habeas corpus a Dantas e tem criticado De Sanctis.”

. Dirá o amigo leitor: mas, se Dantas for condenado, terá sido condenado em Primeira Instância e o pedido de HC não pode ir direto ao Supremo.

. Ora direis ouvir estrelas, caro leitor.

. No Brasil, com Mendes, tudo pode.

. E os HCs de Dantas, antes, não foram decisões de Primeira Instância, e não foi o Supremo Presidente Gilmar Mendes que, em 48 horas, deu os dois HCs ?

. Com Dantas e Mendes, a Lei não pode ser obstáculo ao uso do arbítrio.

Garibaldi devolve MP. Lula não vai mandar no pré-sal

Conversa Afiada - 20/novembro/2008 14:29

O Supremo manda no Legislativo e o Legislativo, agora, com essa decisão, manda no Executivo. E Dantas manda neles todos.

Até o Garibaldi diz ao Lula que ele não manda mais

Até o Garibaldi diz ao Lula que ele não manda mais

“Senado desafia Governo.

Num inusitado desafio ao presidente Lula, o presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB – RN) cumpriu ontem sua ameaça de devolver ao Palácio do Planalto, sem votação, a Medida Provisória 4546, que renovou o certificado de entidades filantrópicas suspeitas de irregularidades. Esta é a segunda vez na História que o Senado toma uma atitude como esta.”

O dólar e o tiro no pé

Blog do Luis Nassif - 20/11/08


A falta de precisão é um dos problemas centrais do jornalismo brasileiro. Mas quando se mexe com fatores delicados – como em uma crise em que o fator expectativa é fundamental – essa imprecisão alimenta desastres.

Não se deve minimizar a crise, mas há maneiras de trabalhar com ela.

Analisar a questão do dólar no caderno de Economia, com análises técnicas, é uma coisa. Quando se coloca em manchete informações sobre “fuga de dólar”, sem que esteja de fato ocorrendo, ajuda-se apenas a assustar o leitor e a colocar mais lenha na fogueira.

O conceito de fuga de dólares se aplica a saídas maciças da moeda. Foi o que ocorreu em novembro e dezembro de 1998, quando quase US$ 50 bi de reservas se evaporaram. Ou em 2002. O que está acontecendo hoje em dia é uma saída mais acentuada de dólares, mas nada que se equipare a uma fuga.

A Folha soltou uma manchete irresponsável de primeira página: “Fuga de dólar cresce”.

Os dados em questão foram um déficit de US$ 833 milhões na conta financeira nas duas primeiras semanas de novembro, que está muito longe de ser caracterizado como fuga. A própria matéria é tecnicamente bem feita. Mas a busca de manchetes a qualquer preço é um risco, que deveria ser melhor avaliado pelos jornais.

Quanto muito, pelo fato de que papel é dólar. E manchetes assim são tiros no pé.

O fantasma de Eros

Blog do Luis Nassif - 20/11/08

Não entendi a confusão que Estadão e Folha estão fazendo sobre a sentença do juiz Fausto De Sanctis no julgamento de Daniel Dantas.

Ontem, a Folha Online cometeu a primeira imprecisão, ao informar erroneamente que a defesa tinha pedido novo interrogatório do delegado Protógenes, provocando o adiamento da sentença. Na verdade, ontem encerrou-se o prazo para a apresentação das peças finais da defesa. Depois disso, o juiz tem mais dez dias para dar sua sentença.

A defesa, de fato, pediu. De Sanctis pode ou não aceitar o pedido da defesa, mas os dez dias estão mantidos. Se recusasse o pedido, certamente os advogados de Dantas impetrariam mais um habeas corpus. Se ocorrer algum atraso será por conta de uma das trinta liminares que foram impetradas pelo Nélio Machado.

Uma em particular preocupa: a que está nas mãos do Ministro Eros Grau, no Supremo Tribunal Federal. Depois de Gilmar, Eros é o Ministro com atuação menos transparente nesse processo.

Em seu voto, no julgamento do habeas corpus de Gilmar Mendes, chegou a acusar o juiz de “bandido”, em uma linguagem incompatível com a de um Ministro do Supremo. Pior, acusou o juiz valendo-se de dados incorretos, demonstrando uma falta de precisão e uma parcialidade indesulpáveis para um Ministro do Supremo.

O pedido de informações sobre a prisão de Dantas foi formulado ao juiz De Sanctis no dia 20 de junho, sexta-feira. O juiz despachou no dia 23; no dia 26 as informações foram enviadas via fax ao STF; no dia 7 de julho o STF juntou as informações.

No seu voto como relator, Eros acusou o juiz de ter demorado 30 dias para dar informações, além de “acusá-lo” de ter errado seu nome em um ofício – como se o juiz fosse responsável por cada erro de datilografia dos funcionários de sua vara.

Eros também acusou o juiz de não ter informado que havia interceptação e busca no apartamento de Dantas. De Sanctis explicou, várias vezes, que ficou entre a cruz e a caldeirinha. Se passasse as informações, feriria o sigilo funcional; se não passasse, poderia ser acusado de desobediência. Preferiu não passar as informações, a colocar em risco a operação.

Os destinos da Satiagraha, agora, estão nas mãos de três pessoas.

Uma, o deputado Raul Jungmann, alvo de uma ação que está trancada no Supremo.

Outra, o Ministro Eros Grau, alvo de uma ação que está parada no Tribunal de Justiça, depois de ter sido condenado em 1a Instância na Sétima Vara da Fazenda Pública.

O terceiro, o juiz De Sanctis, acusado de "bandido" na linguagem insólita de um Ministro do Supremo.

Do Estadão

Gravação isenta juiz de briga com STF

Felipe Recondo

A gravação integral das três horas de reunião da Polícia Federal após a Operação Satiagraha revela que o juiz Fausto Martin De Sanctis não quis afrontar o Supremo Tribunal Federal (STF) ao mandar prender pela segunda vez o banqueiro Daniel Dantas. Ao contrário, a decretação da prisão preventiva, tomada como um desrespeito pelo presidente do STF, Gilmar Mendes, foi resultado de uma verdadeira operação de guerra montada por agentes da PF na tentativa de convencer De Sanctis de que havia provas suficientes contra Dantas. (...)

Satigraha e os podres poderes

Blog do Luis Nassif - 20/11/08

Coluna Econômica - 20/11/2008

O caso Satiagraha é um marco na história institucional brasileira, talvez a maior prova de que o país caminha para a maturidade institucional.

Não pelas instituições em si. O caso revelou, de forma dramática, como um banqueiro que enveredou pelo caminho do crime, conseguiu cooptar vários setores relevantes da institucionalidade política brasileira.

***

A prova de maturidade não está no Supremo Tribunal Federal, depois de uma votação vergonhosa do habeas corpus de seu presidente Gilmar Mendes – na qual a maioria absoluta dos Ministros demonstrou sequer ter estudado o caso que competia a eles analisar.

Essa geração de Ministros conseguiu algo impensável: colocar o STF na relação das instituições sob suspeição da opinião pública.

***

De sua parte, o Legislativo teve comportamento igualmente suspeito. A atuação da CPI dos Grampos, protegendo ostensivamente os criminosos e pressionando os investigadores, não apenas manchou a reputação de seus membros – deputado Marcelo Itagiba, Raul Jungmann e Nelson Pelegrino, cada qual de um partido, todos servindo à mesma causa – mas da instituição como um todo.

***

Não escapou a cobertura da mídia, especialmente o estilo grosseiro, impiedoso e manipulador da revista Veja.

No início, a defesa intransigente de Daniel Dantas, por parte da revista Veja, tinha como álibi um suposto anti-lulismo. Quando Lula engrossou as críticas contra a atuação da Polícia Federal, desmontou o álibi da revista.

O que inspirava sua cobertura não era o anti-lulismo, mas a defesa intransigente de Daniel Dantas

***

Graças à tenacidade de três ou quatro pessoas, a farsa da campanha contra a Satiagraha está sendo desmontada. Haverá ressaca no dia seguinte, quando cada poder envolvido tiver que acertar contas com seus fantasmas e com a mancha da suspeição.

Tudo foi isso foi possível porque, hoje em dia, existe uma opinião pública com amplo discernimento para impedir toda forma de poder abusivo – até o da mídia.

BOB FERNANDES: DANTAS SERÁ CONDENADO

Site do Azenha - Atualizado em 20 de novembro de 2008 às 13:43 | Publicado em 20 de novembro de 2008 às 13:42

Como Dantas será condenado pelo juiz De Sanctis

Bob Fernandes, no TERRA MAGAZINE

"PF VIVEU GUERRA E ESPIONAGEM PARA PRENDER DANTAS"
Quarta-feira, 9 de julho, 14h47.

"INSULTOS, HUMILHAÇÃO, AMEAÇAS: O RACHA NA PF"
Quinta-feira, 17 de julho, 9h28.

"GRAVAÇÃO EXPÕE FRATURA NA CÚPULA DA PF"
Sexta-feira, 18 de julho, 8h27.

Desde julho, nos dias acima assinalados, os internautas de Terra Magazine conhecem, leram descrições com detalhes, ouviram o que desde ontem, 18 de novembro (quatro meses depois) está nas páginas, telejornais, internet e emissoras de rádio: trechos do confronto entre o delegado Protógenes Queiroz e delegados da cúpula da Polícia Federal, no rastro da operação Satiagraha.

Na manhã da sexta-feira, 18 de julho, como se pode ouvir aqui, publicamos reportagem e áudio do embate entre Protógenes e Paulo de Tarso Teixeira, o Diretor de Combate a Crimes Financeiros.

Da mesma forma, às 14h37 da quinta-feira 6 de novembro, 4 horas antes do Supremo Tribunal Federal votar pela manutenção do habeas corpus e da liberdade de Daniel Dantas, os internautas leram aqui as seguintes manchete e texto:

"CRÔNICA DE UMA LIBERDADE ANUNCIADA: DANIEL DANTAS SEGUIRÁ LIVRE, POR DECISÃO DO STF"
Quinta-feira, 6 de novembro, 14h37.

Nesta tarde da quarta-feira 19 de novembro, em meio à barafunda de velhíssimas e novas notícias, versões e contra-versões, no dia em que o juiz Fausto De Sanctis ouve o banqueiro Daniel Dantas na 6.ª Vara Federal em São Paulo, Terra Magazine informa aos internautas do Terra:

DANIEL DANTAS CONDENADO PELO JUIZ DE SANCTIS.

» Opine aqui sobre a operação Satiagraha da Polícia Federal

Como o juiz ouve Dantas nesta quinta-feira, 19, por certo ainda deve ter dúvidas quanto à extensão da sentença e, decisivo, se na sentença delibera pela prisão cautelar do financista.

O arcabouço legal brasileiro permite algumas reflexões acerca da pena a ser imposta: uma pena igual ou inferior a 8 anos significaria regime semi-aberto. Pela inexistência de vagas do gênero, o semi-aberto termina sendo aberto. Condenação igual ou inferior a 4 anos implica em regime aberto. Como não há Casa de Albergado, nesse caso Daniel Dantas cumpriria pena onde mora, à Avenida Viera Souto, Rio de Janeiro. Donde...

Por outro lado, Dantas é réu primário e, assim, uma pena alta, tipo 12 anos, soaria como excessiva e facilitaria a defesa; não que a defesa já não tenha lá seus próprios e poderosos caminhos. E não se pode descartar que a defesa ainda tente um último atalho jurídico antes que o juiz faça valer sua sentença.

Ainda, é possível imaginar, deve restar outra dúvida na cabeça do pressionadíssimo juiz: decretar ou não decretar na sentença a prisão cautelar de Daniel Dantas?

Decretada a prisão, será inevitável por parte da defesa um novo pedido de habeas corpus para Daniel Dantas.

Algumas observações antes que o lépido advogado Nélio Machado anexe também estas informações como "prova-de-vazamento-do-estado-jurídico-policial" etcetera.

(A propósito, o solerte causídico Nélio Machado nada mais faz do que atender com eficiência a um preceito constitucional, o da ampla defesa para um acusado. Se o cliente lhe paga R$ 25 milhões, como se escreve aqui e ali, é apenas um detalhe, certamente fruto de seus múltiplos talentos.)

Bem, vamos à outra observação; lógica, nada mais que lógica: o juiz Fausto De Sanctis conhece o processo profundamente, sabe das provas em minúcias, uma vez que foi ele quem autorizou as seqüências de escutas telefônicas e telemáticas legais.

Escutas autorizadas legalmente. Repita-se antes que venham as manchetes.

Como o juiz optou por não candidatar-se agora a uma vaga de desembargador no Tribunal Regional Federal para, assim, poder permanecer na 6ª Vara e, lá, julgar os resultados da Satiagraha, Daniel Dantas & Cia, até mesmo a mãe Dinah adivinharia os seus motivos.

O seu grande motivo: mostrar que é isento ao ler as alegações finais e não deixar nem uma vírgula sem resposta. Depois das vírgulas, certamente, o ponto final: A condenação de Daniel Dantas. Com ou sem prisão cautelar.

A se levar em conta o que tem dito a defesa, as alegações finais não terão o poder de desmentir o que se apurou na investigação quanto à corrupção consumada de autoridade policial; ainda que o contrário seja sugerido em laudatório acrítico plantado em porções da mídia pelas bocas da própria defesa.

Da mesma forma as alegações finais não têm, ao que se conhece, como derrubar as outras alegações finais, as do Ministério Público, que mostram detalhadamente como ocorreu a corrupção.

À parte manchetes e títulos fortes, e o vazamento de última hora dos embates internos na Polícia Federal, o que se tem, segundo quem entende do riscado jurídico, são leguleios da defesa: cata-se o pêlo no ovo para tornar o debate sobre o pêlo mais importante do que o ovo.

Quanto ao neo-vazamento de fitas da PF que vocalizam a história já contada em julho, talvez o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), tão atento ao caso, possa dar alguma contribuição.

O que se sabe, e isso é uma informação, é que essa última goteira tinha um objetivo às vésperas da sentença de De Sanctis: mostrar que o Supremo havia sido grampeado. Até o momento, nem o mais fervoroso adepto da tese encontrou tal indício no áudio da PF vazado. Mas, creiam, era, é esse o objetivo.

Como, perguntará o internauta, é possível bancar essa manchete?:

DANIEL DANTAS CONDENADO PELO JUIZ DE SANCTIS.

Resposta. Da mesma forma que foi possível dizer 4 horas antes do STF decidir:

"CRÔNICA DE UMA LIBERDADE ANUNCIADA: DANIEL DANTAS SEGUIRÁ LIVRE, POR DECISÃO DO STF"
Quinta-feira, 6 de novembro, 14h37.

É a lógica desse processo, de um lado e de outro.

Da mesma forma, lógica, não é difícil antever o que se dará quando o processo subir, quando for julgado além da 6ª Vara Federal.

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

Site do Azenha - Atualizado em 20 de novembro de 2008 às 20:28 | Publicado em 20 de novembro de 2008 às 13:30

Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

‘G-20: O novo consenso de Washington está chegando’. Comunicado da Attac

Instituto Humanitas Unisinos - 20/11/08

O resultado da reunião do G-20 em Washington em 15 de novembro de 2008 é indecente. A declaração aprovada pelos governos é um modelo do gênero “reafirmamos os princípios do neoliberalismo". Nem um único dogma que presidiu a financeirização da economia global e que levou à crise foi contestado. A afirmação é da ATTAC sobre o encontro do G-20 em nota postada em seu sítio, 18-11-2008. A tradução é do Cepat.

Eis o comunicado.

Ao mesmo tempo em que a livre e absoluta circulação de capitais, as inovações financeiras e a falta de freios dos derivativos são amplamente reconhecidas como fatores de instabilidade permanente, o G20 quer encorajar "o desenvolvimento do comércio de produtos e serviços financeiros” e assegurar que as instituições financeiras possam “administrar volumes crescentes de produtos derivativos”.

Abusando do termo “regulação” a cada página, o G20 não afirma nenhuma medida verdadeiramente efetiva contra os paraísos fiscais e não diz uma palavra sobre o sigilo bancário, bem ao contrário do que muitos chefes de Estado e Governo vinham afirmando desejar.

Caindo em contradição, o G20 afirma a necessidade de evitar a recessão, ao mesmo tempo em que apela para a “manutenção de um quadro político que conduza a sustentabilidade fiscal”, ou seja, aconselha o rigor fiscal.

Não é espantoso que o balanço de trinta anos de políticas neoliberais não tenha sido afastado definitivamente do horizonte? O aumento considerável desigualdade, a diminuição dos ganhos dos trabalhadores, bem como a implementação de programas de ajuste estrutural no Sul, é totalmente ignorada pelo G20. Porém, o programa chamado "valor acionista", corolário da deterioração da condição salarial, é causa de profundo entusiasmo.

Nos anos 1980 e 1990, as políticas neoliberais foram canonizadas sob o nome "Consenso de Washington". Hoje podemos dizer que está em curso um novo consenso de Washington, reformulado para dar a aparência de novidade, mas que não passa de uma simples cópia dos preceitos que levou o mundo à beira da catástrofe. Anistiar as dívidas dos bancos não representa qualquer problema para os defensores do capitalismo, enquanto a dívida dos países do Sul ainda está para se tornar uma prioridade.

A União Européia já manifestou a sua voz original, neste concerto. Em uníssono a outras grandes potências, que se engajam obstinadamente nas reformas estruturais no mercado de trabalho, o Conselho de Ministros das Finanças (Ecofin), em 7 de outubro, anunciou reformas que portam as sementes do agravamento da situação de muitos, preparando assim as condições para uma nova crise antes mesmo que essa seja interrompida. A "refundação do capitalismo", cara ao presidente francês, que é também o presidente da UE, não passa de uma “roupagem” que faz avançar para um novo caos social.

Após o belo espetáculo protagonizado por banqueiros e especuladores, criadores da crise, os principais governantes presentes no G20 reafirmaram a sua fé cega nos benefícios do mercado rei e as virtudes da busca de rentabilidade a todo o custo. O preço a ser pago será o da impossibilidade de redução da pobreza e da desigualdade e da incapacidade de colocar a sociedade numa trajetória de desenvolvimento um caminho que respeite o meio ambiente.

Junto ao todo o movimento altermundialização, a Attac propõe incluir os cidadãos no centro dos processos de tomada de decisão. Enquanto o G20 definiu um novo encontro para abril de 2009, a Attac se engaja nas mobilizações sociais para exigir o fim do neoliberalismo, exigindo a tributação geral das operações financeiras, colocando o setor financeiro sob controle público e por uma nova partilha da riqueza produzida. Isso é possível e indispensável que aconteça o quanto antes.

Attac França,
Montreuil, 18 de novembro de 2008.

Vale começa a demitir

Instituto Humanitas Unisinos - 20/11/08

Depois de colocar 2.300 funcionários em férias coletivas, a Vale, que tem 56 mil empregados, começa a demitir. Cerca de 400 pessoas foram desligadas da empresa só nos últimos dez dias, e até ontem a companhia continuava a mandar gente embora. As unidades mais afetadas estão sendo as de cobre, no Pará; a ferrovia de Minas; e a pelotizadora do Espírito Santo.

A informação é de Mônica Bergamo, jornalista, publicada no jornal Folha de S. Paulo, 20-11-2008.

Diferentemente do que ocorreu no caso das férias coletivas, a Vale não pretende anunciar formalmente que está fazendo cortes nem tem uma meta para o enxugamento de pessoal. Cada gestor está estudando a sua unidade e elegendo as "gorduras" que podem ser eliminadas para melhorar a produtividade.

A intensidade e duração do inverno da Vale será ditada pela China, que absorve 30% do minério da empresa e simplesmente parou de comprar. Vai depender do tamanho do estoque que eles têm.

Terceira mega-crise, em dez anos. Indústria calçadista fecha fábricas e demite em massa no RS

Instituto Humanitas Unisinos - 20/11/08

A indústria calçadista gaúcha passa pela sua terceira mega-crise em dez anos. Em apenas dois dias, dois dos maiores grupos calçadistas gaúchos fecharam fábricas no RS.

A informação é da página eletrônica de Políbio Braga, jornalista, 20-11-2008.

Na terça-feira, a Dakota fechou sua fábrica em Bom Princípio.

Nesta quarta-feira, a Azaléia fechou sua fábrica em Portão.

Vítimas de racismo perdem 57,7% das ações

Instituto Humanitas Unisinos - 20/11/08

Em meio às comemorações de hoje pelo Dia da Consciência Negra, os números mostram que a Justiça ainda caminha em descompasso com a legislação anti-racista no Brasil. O avanço do arcabouço legal, estimulado pela Constituição de 1988, não é capaz de garantir a punição para a maior parte dos infratores, segundo levantamento inédito do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser). Análise feita entre 1o. de janeiro de 2005 e 31 de dezembro de 2006 mostra que as vítimas venceram 32,9% dos processos, enquanto os réus saíram vitoriosos em 57,7% dos casos, nos julgamentos em segunda instância que tratam de racismo.

A reportagem é de Maiá Menezes e publicada pelo jornal O Globo, 20-11-2008.

— Advogados, juízes, todos são brasileiros, absorveram valores da sociedade, que lida mal com o racismo. Precisamos de mais profissionais preparados para encaminhar os casos. É preciso haver mais julgamentos com base na lei do que com base na opinião pessoal. Os operadores do Direito tendem a minimizar o problema. Classificam injúria racial e crime contra a honra e não racismo propriamente dito, o que é uma figura penal menos grave e facilita a vida do acusado. Manipulam o texto da lei para não aplicála — afirma o advogado Hédio Silva Junior, ex-secretário de Justiça de São Paulo.

Há interpretações conservadoras, diz professor

A análise do Laeser foi feita em torno de 85 ações, distribuídas em 13 estados. Do total analisado, 69,4% ocorreram no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais.

Na primeira instância, 40% dos processos julgados foram considerados improcedentes, enquanto 49,4% dos casos foram considerados procedentes.

As decisões em segunda instância podem ainda ser reformadas pelos tribunais superiores.

— Cobrimos todos os casos identificados, o que nos revelou indícios de uma interpretação mais conservadora dos tribunais.

Sinaliza um comportamento mais conservador — afirma o economista Marcelo Paixão, coordenador do levantamento.

Desde a Constituição de 1988, o racismo é considerado crime inafiançável. Alterações em 1989 e em 1997 à chamada Lei Caó, em homenagem ao autor do texto, o então deputado federal Carlos Alberto Caó, tornaram as punições mais rígidas: as penalidades passaram de um a seis meses para um a cinco anos de reclusão.

O advogado Hédio Silva Junior, que está concluindo pesquisa mostrando que aumentaram também as ações penas motivadas por questões raciais, argumenta que um ponto precisa ser equacionado na legislação: a discriminação racial deveria se tornar agravante para outros crimes, como o homicídio.

— Há homicídios motivados por questão racial. Pelo fato de o cidadão ser negro, desvalorizase a vida. Esse tipo de crime com componente racial não é punido pela legislação, porque o racismo não tem previsão de ser agravante — afirma o advogado.

O levantamento do Laeser mostrou a síntese de indicadores que revelam a evolução da desigualdade racial no país. Ao analisar o número absoluto de homicídios, constata-se que, 2005, atingiu 15,2 mil brancos e 27,5 mil pretos e pardos. O índice de cobertura de jovens de 15 a 17 anos nas escolas era, em 2008, de 85,1% entre os brancos e de 79,6% entre os negros. Entre os trabalhadores com carteira assinada, 36,8% eram brancos e 28,5%, negros.