"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

quarta-feira, outubro 31, 2007

Instituto Humanitas Unisinos - 30/10/07

A economia de mercado é uma fatalidade?

Não é de hoje que o movimento utilitarista e, de maneira mais sólida, o desenvolvimentismo recebem críticas de algumas correntes intelectuais. Embora proponha o crescimento econômico baseado na produção industrial, a política econômica desenvolvimentista também incentiva o consumo e aumenta as desigualdades sociais na sociedade, gerando mais pobreza e discriminação.

No Brasil, o desenvolvimentismo perdurou de 1930, com o governo Getulio Vargas até o conhecido milagre econômico, em 1980. A partir daí, com a crise financeira do País e a implantação da Constituição de 1988, o movimento passou a perder forças. Mas, segundo Prof. Dr. Paulo Henrique Martins, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o governo brasileiro tenta resgatar esse modelo de política economica.

Para ele, o Estado anda no sentido contrário da crítica antiutilitarista. Isso é visível em programas como o PAC, que tenta “fazer renascer o defunto do desenvolvimentismo”, disse o pesquisador. Segundo ele, o governo poderia ter rompido com o sistema desenvolvimentista, e investido em ousadia e processos de descentralização, “reforçando as práticas associativas municipais e locais”. Assim, explica, é evidente a falta de um debate considerável para combater o utilitarismo, que contamina a sociedade contemporânea.

Contrário também ao utilitarismo, Alain Caillé questiona: por que tudo tem que ter uma função ou utilidade, na sociedade contemporânea? A analise do pensador francês não para por aí. Com uma formação acadêmica diversificada que se estende desde a filosofia a política, Caillé percebe a economia de mercado “como uma fatalidade”. Contra esse processo, explica o pesquisador, ele propõe que “se desnaturalise a economia de mercado para que possa vislumbrar a existência de diversas modalidades de organização da vida econômica que não se identificam com aquela mercantil”.

Seguidor das idéias de Caillé, Martins diz que o pensador francês crê na existência de um certo “fetiche na idéia do desenvolvimento, que é a associação da idéia de crescimento com a idéia de ilimitação, desenvolvimento como expansão ilimitada que é extremamente perigosa para o equilíbrio ecosocial”. Assim, o pensador sugere uma discussão sobre a democracia e aconselha repensar a modernização a partir da experiência participativa.

Essa discussão será ampliada pelo Prof. Dr. Paulo Henrique Martins, na palestra Questionando a hegemonia do determinismo econômico: o movimento antiutilitarista – Alain Caillé (1944), no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na próxima quarta-feira, 31-10-2007. O encontro faz parte do Ciclo de Estudos Fundamentos Antropológicos da Economia, e está marcado para às 19h30min, na sala 1G119.

Instituto Humanitas Unisinos - 30/10/07

29 milhões de trabalhadores estão fora da Previdência

A proporção dos trabalhadores sem direito à aposentadoria e aos demais benefícios previdenciários caiu em 2006. Segundo levantamento do Ministério da Previdência Social, a parcela de trabalhadores sem proteção social caiu de 36,5% em 2005 para 35,9% no ano passado, atingindo o menor nível desde 1995. A reportagem é do jornal Valor, 30-10-2007.

Em números absolutos, no entanto, o total de trabalhadores que não contribuem para a Previdência aumentou de 28,81 milhões, em 2005, para 29,03 milhões em 2006. Segundo o ministério, o aumento se deve à entrada de 2 milhões de brasileiros entre 16 e 59 anos no contingente de trabalhadores, que fechou o ano passado em 80,93 milhões de pessoas.

Para o ministro da Previdência, Luiz Marinho, a diminuição no percentual de trabalhadores sem cobertura previdenciária é resultado do desempenho da economia nos últimos anos. "De 2002 para cá, retomamos um processo de cobertura previdenciária e social, acompanhando a retomada do crescimento com distribuição de renda", avalia. Segundo ele, em três ou quatro anos, o país poderá alcançar os níveis registrados em 1992, quando a falta de cobertura atingiu 33,6% dos trabalhadores.

Segundo o ministério, do total de trabalhadores sem cobertura previdenciária, 13,27 milhões (16,4%) ganham menos de um salário mínimo e 15,42 milhões (19,1%) têm rendimento igual ou superior a um salário mínimo.

Instituto Humanitas Unisinos - 30/10/07

A Copa 2014 e a conta

“Está fresco na memória o Pan 2007. Originalmente orçado em R$ 414 milhões, a maioria em recursos oriundos da iniciativa privada, o custo do evento foi multiplicado por nove: R$ 3,7 bilhões, tudo pago pelo contribuinte. A Copa do Mundo é uma competição muito maior do que o Pan. Se não houver controle, os quase R$ 4 bilhões parecerão brincadeira de criança”, escreve o editorial do jornal Folha de S. Paulo, 30-10-2007. Segundo o editorial, “o Brasil já entra no gramado com o pé esquerdo. O relatório da Fifa que o recomenda como sede parece muito mais um "press-release" do que o resultado dos trabalhos de uma comissão que esteve no país. Não são mencionadas cifras de investimentos necessários. Informalmente, fala-se em R$ 400 milhões para o comitê organizador e R$ 1,1 bilhão para a renovação dos estádios. Difícil acreditar”.

Segundo o jornal “a Alemanha gastou mais de R$ 20 bilhões na Copa de 2006. E o presidente Lula, que lidera a caravana de políticos que foi a Zurique celebrar a "conquista" brasileira, já advertiu que não pretende poupar gastos na Copa”.

Instituto Humanitas Unisinos - 29/10/07

‘Os neocon fracassaram”, constata escritor americano

“A cultura não nos protege de nada. Os nazistas são a prova. Podes sentir uma admiração profunda por Beethoven ou Mozart e ler o Fausto, de Goethe, e ser uma merda de ser humano. Não há conexão direta entre cultura com C maiúsculo e tuas opções políticas”, afirma Jonathan Littell, escritor norte-americano que escreve em francês em entrevista ao jornal El País, 27-102-007.

Jonathan Littell acaba de publicar um livro de quase mil páginas sobre um assassino nazista que se converteu no livro do ano na Europa. Com o livro Las benévolas, Jonathan Littell assegura que quis responder a uma questão: a natureza do crime de Estado.

Segundo ele, “quando Deus desaparece, se nos apresenta um dilema. Os valores devem referir-se a algo, devem vir de algum lugar. Num mundo sem Deus, era difícil implantar um sistema ético e moral. As ideologias vieram e quiseram fazê-lo, a substituir Deus, mas também fracassaram tanto é assim que agora não temos nada. E os iPod não vão construí-lo. Nem a venda, nem a compra ou a publicidade. Estes valores que temos como o consumismo, o ganhar dinheiro, não são nada.Nossa sociedade desliza pela memória que lhe fica de ter formado parte dos bons. Vive dos restos”.

Para Jonathan Littell, “os neocon acabaram”. Segundo ele, Bush arrasou com tudo inclusive com os seus. Os “neocon” são pessoas, descreve o escritor, “que buscaram assaltar o poder já com Nixon, Reagan e Bush pai e fracassaram porque ninguém os tomava a sério. Com Bush filho conseguiram se implantar e sua gestão foi um fracasso estrepitoso. Isso já era. Acabou. Fracassaram”.

E ele continua:

Reagan e Bush eram muito de direita, mas não tanto como os Richard Pearl, Cheney ou Rumsfeld e Wolfowitz. Por isso Bush não contou com as pessoas do círculo do seu pai. Bush Jr e Rove conseguiram uma aliança no Partido Republicano entre os ‘neocon’, os fundamentalistas religiosos e os liberais. Inclusive os fundamentalistas e os ‘neocon’ são diferentes. Os primeiros se interessam pelos comportamentos culturais, abortos, moral, e eles não se interessam pela política externa ou se os EUA invadem outros países ou não. Isso interessa aos ‘neocon’ e são eles que fracassaram totalmente. Eles deixaram o país muito pior do que o encontraram. A questão deles, agora, é como sair do Iraque, do Afganistão o quanto antes”.

E conclui:

“As pessoas temem agora os fundamentalistas religiosos. Os ‘neocon’ eram um punhado de universitários que não representavam ninguém. Pelo contrário, os fundamentalistas teceram uma rede de poder, com muito dinheiro. Eles são mais perigosos. Gente que promove exércitos privados e usa armas. Eles sim, são um perigo”.

Instituto Humanitas Unisinos - 29/10/07

‘Não defendo o narcotráfico. Defendo uma planta que é benéfica”, afirma Evo Morales

“Eu não defendo o narcotráfico. Defendo uma planta que na nossa cultura é benéfica pois ela ajuda a suportar a fadiga e a vida a 400 metros de altura. Nós não consumimos cocaína. Este é um problema de vocês. Nós consumimos uma infusão de folhas. Ou seja, as mastigamos, as usamos na medicina de base e, inclusive, fazemos uma torta”, afirma Evo Morales, presidente da Bolívia, em entrevista ao jornal italiano Repubblica, 27-10-2007, falando da folha de coca.

Evo Morales, em visita à Itália, também afirma que “a Venezuela foi o primeiro país a demonstrar toda a sua amizade concreta quando pela primeira vez na Bolívia foi eleito um presidente indígena. Temos uma situação econômica semelhante, ou seja, temos grandes recursos naturais e partilhamos alguns programas sociais como o da assistência sanitária gratuita das missões dos médicos cubanos e a prospectiva do socialismo. Por outro lado, sem a solidariedade do presidente Chávez eu não teria podido nem viajar para a Itália, pois ele me emprestou o avião presidencial para vir até aqui.”.

Instituto Humanitas Unisinos - 29/10/07

Brasil será desafio para nova equipe econômica

Cristina Kirchner ainda não revelou como vai compor a sua equipe econômica e deu poucas pistas sobre o que será seu plano de governo nesta área. A imprensa argentina especula que o atual ministro da Economia, Miguel Peirano, é candidato a permanecer no cargo, já que teria sido escolhido por Cristina, em julho, para substituir a ex-ministra Felisa Miceli, demitida por seu envolvimento com o caso de uma misteriosa bolsa cheia de dinheiro encontrada escondida no banheiro de seu gabinete no Ministério. A reportagem é do jornal Valor, 29-10-2007.

No início do ano, Peirano deu uma entrevista ao jornal "Clarín" em que dizia que, se há dois países com os quais a Argentina tem que se preocupar, estes são China e Brasil. Não foi solicitado pelo jornal que explicasse por que e ele não atendeu a pedidos da reportagem do Valor para esclarecer a dúvida.

No caso da China, há um consenso de que é hoje um problema em "escala planetária", como definiu o economista Dante Sica, da consultoria Abeceb.com.

Com relação ao Brasil, embora ambos os governos insistam no discurso do excelente relacionamento bilateral, há pelo menos dois temas que incomodam os argentinos: um é o déficit comercial e o outro é a aquisição pelos brasileiros de importantes empresas locais. A Argentina acumula déficit na balança comercial com o Brasil desde 2004, quando o saldo saiu de US$ 1,8 bilhão negativos para US$ 3,6 bilhões em 2006. Neste ano, o déficit ficou em US$ 2,5 bilhões entre janeiro e agosto.

Uma amostra da atenção que o governo Kirchner dá ao incômodo dos empresários e da opinião pública com o que consideram desvantagens da economia argentina em relação ao Brasil foram duas medidas que atingiram em cheio os brasileiros, tomadas nas últimas três semanas. A primeira obrigou os fundos de pensão privados a trazer de volta US$ 2 bilhões em recursos que estão aplicados em ações na Bovespa. A outra foi o envio ao Congresso de um projeto de lei que altera a distribuição da chamada cota Hilton, dando prioridade à distribuição das cotas aos frigoríficos de capital nacional. Negociada no início dos anos 80, durante a Rodada Uruguai do Gatt, a cota Hilton é uma compensação da UE a alguns países que tinham histórico de venda à região (entre eles Argentina, Brasil e Uruguai), antes de levantar barreiras à importação de carne.

Os exportadores destes países podem vender carne no mercado europeu, livre de barreiras, por um preço de até US$ 14 mil a tonelada, mais que o dobro do que se paga pela carne comum. A cota da Argentina é de 28 mil toneladas, bem acima da brasileira, de 5 mil toneladas. Quando, há dois meses, a brasileira Marfrig comprou a mais importante indústria argentina de carne processada, a Quick Food iniciou-se no país um debate sobre a estrangeirização da Cota Hilton. O projeto do governo afeta os frigoríficos brasileiros que investiram alguns milhões de dólares na compra de frigoríficos argentinos, atraídos exatamente por este benefício. Indústrias americanas do setor também seriam atingidas.

Pode ser que as novas medidas tenham sido tomadas no calor da campanha eleitoral, como forma de ganhar votos para Cristina Kirchner. Mas também pode ser um sinal de que os Kirchner pretendem limitar o avanço empresarial brasileiro no país. Aproveitando a queda do valor dos ativos devido à crise de 2002, indústrias brasileiras começaram a adquirir empresas argentinas. Segundo dados da Agência de Promoção de Investimentos do governo argentino (ProsperAr), os brasileiros já investiram US$ 6,7 bilhões em aquisição de empresas na Argentina no período 2002-2007

Instituto Humanitas Unisinos - 28/10/07

‘A Terra está por atingir um ponto de não retorno’, afirma a ONU. A sexta grande extinção em massa

"A Terra está por atingir um ponto de não retorno”. É alarmante a previsão da Agência da ONU para o meio ambiente – Unep – no 4º Relatório sobre as prospectivas globais da terra “Geo-4” realizado à base dos dados recolhidos por 390 especialistas, nos últimos 20 anos. A reportagem é do jornal Corriere della Sera, 27-10-2007.

Unep, em português, ao Pnuma, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente.

A tese: a humanidade está mudando o clima tão velozmente e está exaurindo os recursos naturais com tal avidez que coloca em risco a própria sobrevivência e a do Planeta.

Nas 572 páginas do documento, os especialistas levantam a hipótese que depois de cinco extinções em massa que se deram nos últimos 450 milhões de anos – a última foi há 65 milhões de anos – “a sexta está em curso e desta vez causada pelo homem”. Os dados são dramáticos.

Um terço dos anfíbios, 23% dos mamíferos e 12% dos pássaros estão em risco, enquanto que, anualmente, um dos 10 maiores rios do mundo não consegue chegar ao mar pois seca antes. O clima está mudando com uma velocidade maior do que nos últimos 500 mil anos. A temperatura média aumentou 0,74 graus no século passado e crescerá de 1,8 a 4 graus até 2100. A partir de 1850, onze dos anos mais quentes foram registrados nos últimos 12 anos.

A situação alcançará proporções catastróficas quando os atuais 6,5 bilhões de habitantes do planeta chegarão a 11 bilhões, em 2050. “A população humana já é tão grande que os recursos necessários para a sua sobrevivência é superior aos que a Terra consegue produzir”, constata Achim Steiner, diretor executivo do Unep - Pnuma.

Apesar dos índices de saúde do ambiente tenham piorado, desde a disponibilidade de água até à quantidade do aumento do gás estufa na atmosfera, a riqueza dos países desenvolvidos cresceu em um terço. O problema são os países em vias de desenvolvimento. Na ponta está a África, onde a produção de alimentos per capita desceu em 12% e os pobres aumentaram de 47%, em 1985, para 59%, em 2000.

Mas além de afrontar a apatia das pessoas, sempre mais conformada com as notícias alarmantes sobre a Terra, o relatório tenta fazer as contas com os países ricos que mais poluem e que são inertes. Entre os quais sobressaem os EUA, precisamente nesta semana em que a Casa Branca admitiu de ter censurado o relatório sobre “as mudanças climáticas e a saúde pública” redigido pelo Cdc de Atlanta. Numa conferência de imprensa o governo Bush voltou a defender a tese de que “as mudanças climáticas poderão trazer benefícios à saúde das pessoas, diminuindo as mortes causadas pelo frio intenso e as doenças infecciosas”.

Instituto Humanitas Unisinos - 28/10/07

Marina vence batalha e cana será proibida na Amazônia e no Pantanal

O zoneamento ambiental da cana-de-açúcar vai proibir o cultivo da planta na Região Amazônica e no Pantanal. O trabalho de zoneamento fica pronto em junho do ano que vem. A decisão, tomada na semana passada, foi o desfecho para o mais recente embate enfrentado pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, depois que o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, admitiu a possibilidade da cultura da cana-de-açúcar nas áreas degradadas da Amazônia. A reportagem é de Lisandra Paraguassú e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28-10-2007.

O veto foi uma decisão pragmática do governo. Ao mesmo tempo em que o aumento da produção de etanol é um dos projetos mais caros ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ameaça de que, pela primeira vez em três anos, o desmatamento na Amazônia pode ter voltado a crescer, assusta a quem tenta vender a idéia do Brasil como um País ecologicamente correto.

A última crise enfrentada pela ministra Marina Silva expôs, mais uma vez, a ambigüidade do governo quanto se trata de desenvolver o País e, ao mesmo tempo, proteger o meio ambiente.

O primeiro embate, ainda em 2003, foi em torno do projeto que definiria como seria feita a liberação do plantio de transgênicos no País: enquanto a área agrícola queria liberar os organismos geneticamente modificados (OGMs), alegando que o Brasil iria ficar para trás na pesquisa e na economia, o Meio Ambiente queria tornar mais dura a legislação e ter o poder de veto. Marina perdeu, mas parcialmente, já que a liberação dos transgênicos ainda é um processo trabalhoso no País e pode, como aconteceu recentemente com o milho, ser barrado com ações na Justiça.

O segundo confronto, em relação à demora do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em conceder licenças ambientais, fez com que boa parte do instituto e vários assessores de Marina perdessem seus cargos. A crise, fomentada pelo próprio presidente Lula - que passou a reclamar em público da demora - levou a uma reestruturação do Ibama, que foi dividido em dois para melhorar a fiscalização e a agilidade.

O fato de algumas commodities, como a soja, terem se valorizado no mercado de grãos faz com que o Brasil volte a enfrentar, pela primeira vez desde o Plano Nacional de Combate ao Desmatamento, em 2005, um mercado internacional aquecido. O panorama que se desenha poderá ser uma prova de fogo para o governo Lula e sua tentativa de manter uma imagem ecologicamente correta.

“A política do governo não é vocacionada para que se faça respeitar a legislação ambiental. É muito mais uma manifestação superficial, nas solenidades. É dirigida muito mais para a destruição”, acusa Sergio Leitão, diretor de políticas públicas da ONG Greenpeace. A ONG viu com preocupação os dados que mostram um aumento no desmatamento desse ano.

A avaliação é que as políticas do governo são muito frágeis para enfrentar o mercado de grãos aquecido. “Nós comemoramos os esforços do governo em aumentar o controle e a fiscalização, mas as iniciativas não são suficientes para tornar permanente a queda no desmatamento. Até agora só enfrentamos um mercado em baixa”, disse Leitão.

Esse é o mesmo temor do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), um dos principais integrantes da Frente Ambientalista da Câmara dos Deputados. Gabeira teme que a pressão pela produção de etanol empurre as plantações de soja para dentro da Amazônia, já que a cana ainda não pode ser plantada naquela região. “O discurso do presidente Lula sempre tem garantido que não vai haver desmatamento por causa da cana-de-açúcar, mas a verdade é que já existe. E a capacidade de controle no Brasil está longe de ser o que deveria.”

Depois do anúncio de Stephanes de que o governo iria até mesmo dar incentivos para a plantação de cana-de-açúcar na Amazônia, a reação de Marina terminou por abafar o caso, e o ministro da Agricultura voltou atrás. Mas, dentro do ministério, ainda há resistências contra o veto à cana na Amazônia. Há setores defendendo que a decisão final seja tomada em definitivo quando o zoneamento terminar.

Uma semana depois das declarações de Stephanes, o Ministério do Meio Ambiente chegou a preparar uma nota a ser assinada pelos dois ministros, declarando que “é decisão do governo não induzir e não permitir a plantação da cana-de-açúcar e a instalação de usinas de álcool em áreas da Amazônia e do Pantanal, por se tratar de ambientes frágeis, com elevados atributos naturais, solos não adaptados e distância dos grandes centros consumidores”. A nota não chegou a ser divulgada.

Instituto Humanitas Unisinos - 27/10/07

‘O Rio exige sacrifícios. Vidas vão ser dizimadas’, afirma secretário de segurança

“O Rio chegou a um ponto que infelizmente exige sacrifícios. Sei que isso é difícil de aceitar, mas, para acabarmos com o poder de fogo dos bandidos, vidas vão ser dizimadas. O quadro é esse”, afirma José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro em entrevista à revista Veja, desta semana. E continua: “Ao longo do tempo, as quadrilhas se fortaleceram a tal ponto que hoje têm a audácia de abanar armas para a polícia. Quando 350 policiais entram numa favela, 25 bandidos resolvem encará-los e fazem um estrago terrível. Recentemente, morreram doze pessoas nos confrontos da Favela da Coréia, na Zona Oeste. Mas, se não tivéssemos agido agora, no ano que vem morreriam 24. E, se esperássemos mais dois anos, seriam 36, e assim sucessivamente. É uma guerra, e numa guerra há feridos e mortos”.

Segundo ele, “a violência aqui não é periférica, ela está no seio da sociedade” assim que “quem mora em Copacabana não precisa ir à Rocinha para comprar drogas, pode buscar ali mesmo. Esses mercados usaram a geografia do Rio de Janeiro a seu favor”.

O secretário também analisa como o celular faz parte da logística do traficante e constata que os pobres não são os responsáveis pela violência e são os que mais sofrem com ela.

“No Rio não existe mais o crime famélico. Ninguém mais rouba um celular aqui para trocar por um pedaço de pão. O menino rouba um celular porque a facção criminosa do lugar onde ele mora quer um ou dois aparelhos para usá-los em negócios ilícitos. Uma criança que rouba um celular na rua quer aquilo para quê? Não é para falar com a mãe ou o pai. O celular faz parte da logística do traficante, assim como o carro e o dinheiro obtido em assaltos na saída do banco. Os pobres não são responsáveis pela violência. Eles são, aliás, os que mais sofrem com a ação desses bandidos. É nas favelas que o tráfico impõe a lei do silêncio, exige que as pessoas durmam com os portões abertos, obriga moradores a esconder uma arma em casa ou a abrigar o próprio criminoso lá dentro. O pior é que a permanência dessa situação é favorecida, em parte, por cidadãos comuns, que às vezes nem se dão conta de que seus atos beneficiam os criminosos”.

E o secretário, gaúcho, cita dois exemplos:

“Um cidadão está numa festa cheirando cocaína, chega à rua e vê que seu carro foi roubado. Ele vai à delegacia reclamar, mas não quer saber que roubaram o carro dele para vender as peças e comprar pó. Da mesma forma, não aceito o sujeito que paga propina a um policial. Mas ele prefere pagar 50 reais de propina porque o IPVA, que custa 800 reais, está atrasado. Ou então aquele empresário que se queixa do suborno pago ao agente público para não ser fiscalizado. Ele lucra com a sonegação. No Brasil, e no Rio de Janeiro em particular, a convivência promíscua entre o legal e o ilegal, o formal e o informal, provocou essa situação ambígua. Agora chegamos a um ponto em que precisamos decidir. A sociedade precisa escolher de que lado está. É fundamental acabar com a promiscuidade que torna aceitáveis práticas condenáveis”.

Instituto Humanitas Unisinos - 26/10/07

Brasileiros descobrem 'reservatório' de células-tronco em cordão umbilical

Cientistas brasileiros descobriram uma nova fonte de células-tronco do cordão umbilical humano que poderá alterar a maneira como esse material é tratado nas salas de parto dos hospitais. Muitos serviços já oferecem o congelamento do sangue do cordão, que contém células-tronco hematopoéticas (precursoras das células sanguíneas) e pode ser usado em transplantes de medula para o tratamento de doenças como a leucemia. O cordão umbilical em si é jogado fora. A nova pesquisa, porém, mostra que ele está repleto de células-tronco de outro tipo, chamado mesenquimal, também com grande potencial terapêutico. A reportagem é de Herton Escobar e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-10-2007.

“O recado fundamental é ‘não jogue fora o cordão’”, diz a geneticista Mayana Zatz, que coordenou a pesquisa na Universidade de São Paulo (USP). As células-tronco mesenquimais (CTMs) estão entre as mais versáteis das células-tronco adultas (de origem não embrionária). Podem formar osso, gordura, cartilagem, músculo e até neurônios, segundo alguns trabalhos. Muitos cientistas esperam um dia aproveitar essa plasticidade no tratamento de doenças e lesões - por exemplo, na recuperação de corações enfartados e na reconstrução de tendões e ossos.

As pesquisas, porém, necessitam de uma quantidade grande de células. No organismo adulto, as CTMs são encontradas em vários tecidos, mas principalmente na medula óssea e no tecido adiposo (gordura) - tanto que muito material para estudo é obtido em clínicas de lipoaspiração. As células podem também ser obtidas de pacientes por punção da medula óssea, mas este é um método invasivo e com possíveis complicações.

O cordão umbilical aparece agora como uma opção farta, indolor e de fácil obtenção. Bastam 10 centímetros (o cordão humano tem em média 40 cm) para obter uma grande quantidade de células-tronco mesenquimais, segundo Mariane Secco, primeira autora do trabalho, que fez a pesquisa como parte de seu doutorado no Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.

Os resultados da pesquisa, anunciados ontem, foram publicados na revista Stem Cells, uma das mais prestigiadas da área. Os pesquisadores trabalharam com dez cordões e conseguiram estabelecer linhagens de CTMs a partir de todos eles. Já no caso do sangue de cordão, o rendimento foi muito inferior: das mesmas dez amostras, só uma apresentou células-tronco mesenquimais (o que não invalida seu potencial como fonte de células-tronco hematopoéticas).

Assim como o sangue de cordão é congelado após o parto, afirma Mayana, seria importante guardar também o cordão - ou, mais especificamente, as células-tronco mesenquimais contidas nele. O processo não requer tecnologia avançada e poderia ser praticado em qualquer hospital.

Estudos passados já haviam mostrado a presença de CTMs no tecido do cordão, mas não em número suficiente para justificar o congelamento ou como uma fonte viável para pesquisa. “Estamos falando, literalmente, de aproveitamento de lixo”, afirma Mayana, referindo-se à maneira como o cordão é descartado após o parto. “Estamos jogando fora a fonte mais rica de células-tronco mesenquimais.”

Ela ressalta que ainda são necessárias muitas pesquisas para transformar essas células em ferramentas terapêuticas de fato. O estudo apenas identifica o cordão umbilical como fonte de CTMs. Ainda assim, as perspectivas são grandes. Enquanto as células do sangue podem ser aplicadas apenas no tratamento de doenças sanguíneas, as mesenquimais oferecem um cardápio maior de aplicações. Equipes da USP já estão testando as células em camundongos e cachorros, incluindo vários modelos de distrofias musculares.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

O tempo do perdão e a lógica do inimigo. Artigo de Raimon Panikkar

"Convém ressaltar que os choques de civilização têm, historicamente, a ver com o problema da verdade e de sua posse exclusiva. Não se pode negar que em nome da verdade se tenham cometido crimes pavorosos e encontrado horríveis justificativas", diz o filósofo e teólogo espanhol Raimon Panikkar, no artigo publicado no jornal italiano La Repubblica, 9-10-2007. Nele, Panikkar fala da verdade, do perdão, do homem isolado e afirma que "a solidão do homem contemporâneo é uma doença da alma".

Raimon Panikkar, teólogo católico, filho de pais indianos, é reconhecido internacionalmente por propugnar o diálogo inter-religioso.

Eis o artigo.

Quando é que o cristianismo foi poderoso? Quando era perseguido. Portanto, mesmo nas perseguições uma civilização madura cresce, adquire uma identidade própria. Ter medo do inimigo não é a mesma coisa que não resistir ao inimigo. O Evangelho diz claramente. De que tenho medo? De perder uma identidade que é tão débil que não se mantenha sozinha? Se eu tiver pouca confiança em mim, como ocorre na civilização ocidental, qualquer ventinho me fará pensar que seremos atacados. Toda civilização contém tudo – o amor e o ódio, uma coisa e o seu oposto – e eu devo ter disso uma visão pormenorizada.

Qual é, para sermos concretos, o Estado muçulmano mais populoso do mundo? A Indonésia. E os indonésios não são tão perigosos! O segundo Estado: a Índia e depois o Paquistão. Até agora ainda não encontrei nestas populações nacionalismos e fundamentalismos tão ferozes. Índia e Paquistão se combateram muitas vezes, mas por razões históricas e políticas muito concretas.

Quero dizer que não devemos fazer uma caricatura das outras civilizações, pois, caso contrário, não nos lamentemos se também eles fazem uma simétrica de nós e de nossa civilização. A lógica da distorção não funciona como defesa contra o crime ou contra a desordem. Os últimos fatos que o demonstram são as conseqüências da guerra no Afeganistão e no Iraque. Há um caminho a explorar para não cair nos choques ideologizados de civilização: é o caminho da paz e do perdão. Segundo meu parecer, há uma relação direta entre paz e perdão. Escrevi, bastantes anos atrás, que somente o perdão rompe a lei do carma, do olho por olho e dente por dente. O perdão tem uma dimensão que o torna tão grande e tão difícil: ele é um ato eminentemente religioso. O perdão, se não sair do coração, não é tal. Eu posso não me vingar, mas a ferida continua.

Dito em termos teológicos: o perdão é uma des-criação. Se a criação é fazer do nada uma coisa, o perdão é fazer que aquela coisa volte ao nada. E por isso não necessito de vingança, não necessito de restituição, não necessito de nada. A grande dificuldade consiste em como seja possível traduzir isso em termos políticos. Não tenho uma solução, mas tenho dois comentários. O primeiro comentário é que todos os nossos grandes esforços para solicitar a restituição de um dano sofrido (evitando o perdão) não têm funcionado por quarenta séculos. Quanto ao perdão, realmente ainda não o experimentamos.

O segundo comentário é que o perdão tem um efeito catártico ou purificador tão importante que modifica o outro. O outro se dá conta que fez uma coisa que não ficava bem e que tu lhe retribuíste com um ato unilateral de perdão: por toda a vida ele será feliz e fiel, porque o curaste para sempre com o teu perdão. Mas é preciso ser claro sobre um tema tão delicado. O perdão não é ação-reação. Ele necessita de um tempo de maturação. Para perdoar, é necessário esperar. Saber esperar custa, e nós vivemos numa civilização que gostaria de fazer tudo imediatamente. Há um tempo para o perdão, que não é a reação instantânea à ofensa. Seria quase uma burla ou uma impunidade. O perdão tem um tempo de maturação, é uma decisão que chegará a seu tempo. Se não tiver havido essa maturação interior, eu não estarei disposto a perdoar, porque ainda sinto a ferida, nem o outro estará disposto a reconhecê-lo, porque se sentiria impune. Encontrar este equilíbrio entre tempo e ato de perdoar é importantíssimo. Isso pertence à virtude real da prudência.

É necessário realçar que os choques de civilização têm, historicamente, a ver com o problema da verdade e de sua posse exclusiva. Não se pode negar, de fato, que em nome da verdade tenham sido cometidos crimes pavorosos e sido encontradas horríveis justificações. Nós não somos os donos da verdade. Citando Santo Tomás: “quem encontrou a Verdade é possuído pela verdade, não é seu proprietário”. A verdade se possui. A verdade é relação, é sempre o estar com o outro, se não não é verdade. A verdade absoluta é uma contradição, precisamente porque a verdade é relação.

O grande perigo, e aqui não gostaria de escandalizar ninguém, é o monoteísmo. O monoteísmo pensa que Deus é a Verdade, porque o monoteísmo pensa um Deus isolado, um Deus solitário. Não é assim em todos os monoteísmos, a questão é muito complexa, mas existe este perigo constante: embora eu não possua a verdade, há um Deus que a possui e este Deus a revelou. Não me convence o monoteísmo. Penso que o monoteísmo não seja cristão, porque o cristianismo crê na Trindade.

Mas, também para a mística do Islã há três realidades: o amor, o amante e o amado. Para a Cabala, são três as coisas criadas por Deus: a Tora, a Lei e o povo. A Trindade é muito mais extensa, também nas assim ditas religiões monoteístas, do que se acredita. Embora reconhecendo que em nome da verdade absoluta se cometeram muitíssimos crimes, digo isto: aquela não é a verdade. Uma verdade que eu imagino como absoluta, eximindo-a, portanto, de toda relacionalidade – que é a essência da verdade – por definição não é verdade, nem mesmo aquela que é apresentada como divina. Por conseguinte, desmascarar esta chaga da humanidade é um progresso que é necessário realizar neste momento histórico. O contrário de uma verdade absoluta não é a indiferença, não é afirmar que a verdade não existe. A verdade existe, mas é relativa: a nós, a uma mente, a qualquer coisa.

A este propósito devo dizer imediatamente aos puritanos, não para consolá-los, mas para clarificar, que a relatividade que eu defendo e da qual estou convencido não é o relativismo, onde tudo é igual. A relatividade não é relativismo: a verdade é relativa. Mas, para superar o relativismo, não se deve cair no absolutismo. O remédio seria pior do que a doença. O relativismo não vai bem, mas a relatividade implica não perder a medida humana. Ela não se projeta sobre um ponto ômega infinito.

É a nossa vida que conta e a minha verdade (para sem sincero, direi: a minha convicção e estou plenamente convencido de tudo aquilo que digo) eu não absolutizo, porque pode existir um ponto de vista diverso do meu e uma angulação diferente. Por isso, embora reconhecendo que, em nome da verdade, se cometeram grandes crimes, eu ainda defendo a idéia da verdade como relacionalidade e não como absolutismo. O homem isolado, sozinho – e a solidão do homem contemporâneo é uma doença da alma – não se sustenta, não pode respirar, não existe. Tem necessidade do outro, o outro como portador de uma mensagem. Como diz a tradição muçulmana: “o desconhecido pode ser um anjo”. Devemos ajudar-nos reciprocamente e estar cônscios, precisamente no confronto entre culturas e espiritualidades diversas, que a verdade não é posse pessoal, eu não sou o único ente bom deste mundo, o único que entende o que é a verdade. Temos necessidade de compreender que a verdade, quem sabe, “quando cai do céu sobre a terra se rompe em cem pedaços, um pedacinho à disposição de cada um”.

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

Rocinha é fábrica de marginais, afirma governador do RJ

O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), defendeu ontem o aborto como método de redução da violência no Estado e disse que a Favela da Rocinha, na zona sul, é uma “fábrica de produzir marginal”. “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”, disse o governador ao site G1. A reportagem é de Natália Zonta e Fabiane Leite e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-10-2007.

Ao ser questionado sobre a afirmação mais tarde, Cabral mostrou irritação e tentou amenizar o discurso. “Hoje no Rio, em áreas mais nobres, como na Tijuca, se encontram taxas de natalidade de países civilizados, onde as pessoas têm consciência. Infelizmente, nas comunidades mais carentes daqui as mulheres não têm orientação do governo sobre planejamento familiar e têm taxas equivalentes aos países mais atrasados da África. Tem tudo a ver com violência”, disse.


Entidades não-governamentais e moradores de favelas acusaram o governador de criminalizar a miséria e de distorcer o discurso do movimento pró-aborto, que defende a interrupção da gravidez como direito da mulher de ter autonomia sobre seu corpo, não como forma de combate à violência.

“Com essas declarações o governo escancara que defende a criminalização da pobreza. Como o Estado não tem política para incorporar o pobre, melhor que nem nasça. A política é de extermínio”, disse Camilla Ribeiro, da ONG Justiça Global. “Para os mais ricos, o Estado se faz protetor; para os mais pobres, predador. Para se justificar, faz uma representação do favelado como o outro, de onde emana todo o mal”, afirmou o professor Rodrigo Torquato da Silva, morador da Rocinha há 36 anos.

Cabral destacou que a idéia de que a legalização do aborto teria relação com a diminuição da criminalidade foi comprovada pelos americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, autores do livro Freakonomics. Num dos tópicos do livro, eles relacionam a legalização do aborto nos Estados Unidos à queda da criminalidade em áreas pobres, embora ressaltem que essa associação suscita um debate ético.

Segundo Adriana Gragnani, do núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero da Universidade de São Paulo, Cabral baseou-se em idéias ultrapassadas, dos anos 60. “Essa tese de diminuir o número de pobres para combater a violência, seja por aborto ou contraceptivos, é antiga. Na verdade você diminui a pobreza elevando o nível de vida da população.”

As declarações de Cabral ocorreram um dia depois de o secretário da Segurança, José Beltrame, dizer que “um tiro em Copacabana é uma coisa e na (favela da) Coréia é outra”. Beltrame afirmou ontem que não iria polemizar mais sobre um assunto.

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

FMI e Banco Mundial sentem-se incomodados com o Banco do Sul


No momento em que o Banco Mundial e o FMI estão envolvidos em questionamentos sobre a sua eficácia e o seu futuro, a Venezuela apresentou em Washington, sede dessas duas instituições, o Banco do Sul, uma instituição que pretende substituir os organismos financeiros internacionais junto aos governos da América do Sul e saciá-los de créditos fartos e baratos. A reportagem é do El País, 24-10-2007.

O ministro venezuelano de Finanças, Rodrigo Cabezas, disse diante de um grupo de jornalistas que o Banco do Sul é “o primeiro elo de uma nova arquitetura financeira” com a qual se procura por fim a dependência dos países sul-americanos do mercado tradicional de empréstimos e às condições impostas pelo FMI. O passo seguinte, explicou Cabezas, será a criação de um fundo monetário sul-americano ou um fundo de reservas “que administrará 16 bilhões de dólares de reservas globais na região para colocá-las a serviço do desenvolvimento”.

O ministro disse que os oito países que a princípio formarão o Banco do Sul (Venezuela, Brasil, Argentina, Equador, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Colômbia –anunciou a sua participação na semana passada) estão trabalhando intensamente para que a ata de fundação do novo organismo possa ser assinada no dia 03 de novembro em sua sede em Caracas, mesmo reconhecendo que restam pendentes algumas discussões que poderão atrasar essa data. No momento, a instituição se limitará ao âmbito da América do Sul.

As dificuldades maiores se relacionam com os aportes de capital de cada um dos membros, assim como sua capacidade de decisão. Cabezas disse que o aporte inicial “se fará por vontade de cada uma das nações”, ou seja, que ninguém será obrigado a depositar uma quantidade para ser sócio. Em suma o banco pretende iniciar com 7 bilhões de dólares.

O governo do Equador sugeriu que cada um dos membros aporte como mínimo a mesma quantidade com que participa do Banco Mundial e o FMI. O Brasil, que com maior insistência está pedindo rigor no manejo da instituição, prefere alguma forma de obrigatoriedade nos primeiros aportes e que estas não dependem apenas da Venezuela e do próprio Brasil.

O governo venezuelano pretende assim mesmo que a ata de fundação garanta o princípio de um voto para cada país, de forma que todas as decisões se tomem por consenso, sem levar em conta o tamanho de cada economia ou sua contribuição ao capital total. “Se trata de demonstrara que isso não é o banco de Chávez e para Chávez”, disse Rodrigo Cabezas, procurando desmentir as suspeitas de que o Banco do Sul é um instrumento da política exterior do presidente da Venezuela contra os EUA.

Ainda que neste país não se tenha produzido ainda uma reação oficial, alguns funcionários estadunidenses reconheceram em privado sua preocupação com as possibilidades que esta instituição dê a Hugo Chávez a capacidade influir na estabilidade da América Latina por décadas.

Essa mesma preocupação era visível nos organismos de crédito tradicionais, especialmente na instituição mais ameaçada com a nova criação, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Fontes do BID reconheceram que se Caracas está disposta a por dinheiro a fundo perdido nessa iniciativa, o novo banco é perfeitamente viável a curto prazo.

Em que pese o ministro Cabezas assegurar que este projeto “não é contra ninguém”, resulta óbvio que a Venezuela procura aproveita as dificuldades do BID e de seus irmãos maiores, o Banco Mundial e o FMI, grandes protagonistas da economia mundial no passado para adaptar-se a novos tempos. Ainda que os três grandes tenham colocado acento nos últimos anos em atender as necessidades dos países pobres, seus conceitos e condições às vezes resultam incompatíveis com alguns governos que tem assumido o poder na América Latina.

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

A Dívida Pública Federal atinge R$ 1,315 trilhão

Em setembro, o estoque da Dívida Pública Federal (DPF) atingiu R$ 1,315 trilhão, acusando um crescimento de R$ 78,97 bilhões nos nove primeiros meses do ano. Esse aumento não foi produzido pelo déficit nominal do Tesouro no período, mas, essencialmente, pela apropriação dos juros, da ordem de R$ 72,5 bilhões, respondendo, portanto, por 91,8% do crescimento do estoque da dívida. A notícia é do jornal O Estado de S. Paulo, 25-10-2007.

O valor dos juros pagos depende de vários fatores, como a taxa cambial e a evolução dos índices de preços, mas, principalmente, da taxa Selic fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que favorece as operações de arbitragem e é em parte responsável pela apreciação da moeda nacional em razão da entrada de capital especulativo.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Resistir Info - Set 07

A sociedade da desinformação

por Jim Kunstler

Uma pergunta que os meus leitores fazem muitas vezes é porque os media ditos "de referência" estão a fazer um trabalho tão mau quanto ao relacionamento entre a emergência energética global e as perturbações nas finanças globais. Mantenho a minha "alergia" a teorias da conspiração. Não existem quadrilhas de figurões da Wall Street conluiadas com tipos de fato cinzento da CIA para intimidar editores com instrumentos de tortura. A cultura americana já se tornou auto-desinformativa.

Como disse muito bem o meu amigo Peter Golden (blog Boardside ): "Quando as pessoas mentem, elas sabem que estão a fazer algo errado. Mas quando elas apenas fantasiam, não funciona a consciência do certo ou do errado. Parece moralmente certo viver num mundo de fantasia – e isto é muito mais pernicioso para o discurso público do que a mentira".

Meus amigos, que em grande parte são ex-hippies, yuppies progressistas, durante seis anos ativeram-se a preces para exorcizar o mau espírito de George W. Bush, mas deixaram de reconhecer um fracasso de liderança mais abrangente em todos os sectores da vida americana e especialmente naqueles onde actua um bocado de ex-hippies-agora-yuppies. A nossa liderança política pode ser deplorável, mas também a nossa liderança nos negócios, na educação, nas artes e especialmente nos media.

A demonstração disto é The New York Times. Nas suas reportagens acerca da situação petrolífera mundial eles engoliram totalmente e acriticamente as notas de relações públicas de Daniel Yergin, do Cambridge Energy Research Group (CERA), um estabelecimento de RP ao serviço da indústria petrolífera. A preguiça [na investigação jornalística] não chega para explicar isto. É má liderança editorial. É um fracasso na formulação das perguntas importantes.

Na sexta-feira os mercados futuros de petróleo fecharam a um dólar de distância de todos os récords de preços elevados (no mesmo dia em que o Índice Industrial Dow Jones caiu 250 pontos). Contudo, a principal manchete de hoje (segunda-feira) na Secção de Negócios do NY Times é "Disney testa a natureza dos brinquedos à procura de tinta com chumbo". Bem, espero que consigamos corrigir isto de modo a que a civilização possa continuar com uma oferta completa de bonecos da Disney debaixo das árvores de Natal – e esqueça por um momento se a Avó será capaz de conduzir até o WalMart em Dezembro, ou se o WalMart será capaz de manter cheios os reservatórios de diesel dos seus camiões, ou se tanto a Avó como o administrador assistente do seu WalMart local estão com atrasos de três meses nos pagamentos das suas hipotecas reajustadas, e já atingiram os limites máximos dos seus cartões de crédito...

Para mim, parece haver uma óbvia correlação entre os fracassos actuais dos mercados financeiros – em particular o sector do crédito – e o fracasso brutal de liderança em toda a administração da vida americana. No final das contas, o crédito depende da legitimidade, e o mesmo se passa com a autoridade. Eles estão ligados em conjunto. Durante anos, ambos estiveram imersos na fantasia ao invés da realidade.

De outra forma, como pode alguém justificar o espantoso desaparecimento dos padrões no empréstimo entre seres humanos, sob o comando de instituições bancárias? Todos os executivos bancários não acordaram uma certa manhã com uma falta de 60 pontos nos seus QI. E nem tão pouco se pode dizer que todos eles acordaram uma manhã com as más intenções de trabalharem com perversidade. Eles simplesmente foram subsumidos numa fantasia: de que não havia diferença material entre tomadores de empréstimos com capacidade comprovada de os reembolsarem e tomadores sem qualquer possibilidade de crédito. E livraram-se dos problemas que se poderiam ter seguido através da liquidação por grosso de pacotes de bons e maus empréstimos a compradores aquiescentes (outros executivos bancários) mais abaixo da linha, os quais por sua vez venderam certificados que representavam estes pacotes a executivos em grupos de pensão e mercados de dinheiro. Isto tornou-se normal. Isto foi justificado em toda a extensão da liderança americana pelo Explicador-Chefe quando disse que era uma coisa boa que tantos americanos quanto possível possuíssem a sua própria casa.

Será que os media americanos deram conta desta cadeia de perigosas fantasias? De modo algum. Ficaram simplesmente hipnotizados pela admirável e sobrenatural ascensão dos preços nominais das casas, e com o fantástico fluxo de cheques de pagamentos vindos dos escritórios dos construtores de casas, assim como com os fabulosos refinanciamentos que enviavam torrentes de rendimento para as lojas de móveis em saldo, com o catálogo da Williams Sonoma [1] e com os salões de cirurgia plástica.

PICO PETROLÍFERO

Tudo isto verifica-se contra o pano de fundo do que tem sido chamado Pico Petrolífero (Peak Oil), o ponto de viragem na produção global de petróleo e, na verdade, o mais alto ponto de todos os tempos no consumo mundial do óleo, o qual agora pode ser datado com precisão (por meio do espelho retrovisor) como tendo atingido o topo absoluto em Julho de 2006 – o momento exacto, por acaso, em que um gigantesco alfinete perfurou as moléculas externas da telenovela que mantinha a bolha imobiliária.

A produção de petróleo (todos os líquidos, incluindo subprodutos do gás natural, areias betuminosas e tudo o mais) agora está mais baixa em mais de um milhão de barris por dia. Até aqui experimentámos isto apenas através dos abalos crescentes nos preços futuros do petróleo. Ao longo deste breve período de tempo, desde o pico absoluto, as perdas de oferta têm sido remetidas para as sociedades mais pobres do mundo, as quais simplesmente retiram-se da competição por abastecimentos de petróleo.

O que os media "de referência" omitem neste momento é a perspectiva de uma pioria realmente rápida do problema quando as exportações dos países grandes produtores de petróleo caírem a uma taxa mais aguda do que a do declínio da sua produção. Esta ideia foi articulada pelo geólogo de Dallas Jeffrey Brown, em The Oil Drum.com (para uma discussão quanto a isto ir ao blog Energy Intelligence , de Jeff Vail).

Os media "de referência" também fracassam em estabelecer a conexão entre a suprema mercadorias que permite às economias industriais do mundo operarem e a credibilidade de um sector financeiro cuja missão principal é financiar a operação de economias industriais. Na ausência de qualquer perspectiva de crescimento real na economia industrial da América, o sector financeiro inventou um sistema no qual podíamos investir na fabricação de instrumentos de investimento ao invés de investir na actividade produtiva propriamente dita. E assim toda a perícia e todo o tempo daqueles que trabalham no sector financeiro voltou-se para a produção de veículos de dívida comerciáveis baseados em fórmulas abstrusas que quase ninguém podia entender (especialmente aqueles que os compravam e os vendiam).

Toda esta perigosa fantasia ganhou legitimidade porque durante algum tempo parecia compensar. Cidadãos comuns podiam adquirir casas muito maiores e mais bem equipadas do que os seus rendimentos justificavam. E os banqueiros e emitentes das hipotecas obtinham comissões colossais com esta actuação. E os banqueiros em posições mais elevadas na cadeia obtinham bónus nunca vistos com a alavancagem da dívida titularizada de tudo aquilo, e os políticos regozijavam-se ao calor de uma aparente hiper-prosperidade, e o professor Bob Bruegmann, da Universidade de Illinois, declarava que a dispersão suburbana é uma coisa boa, e mesmo The New York Times, se bem que desconcertado quanto a eficácia da recolha de notícias contra a Internet, era capaz de rapar de publicidade suficiente para construir uma desnecessária nova sede em Manhattan, um arranha-céu.

Agora o sonho acabou. O azar moral com base na realidade está a retornar (literalmente) como uma vingança. O certo e o errado estão em vias de importar outra vez e um bocado de pessoas que puseram estas coisas de lado por algum tempo irão sofrer.

10/Setembro/2007
[1] Estabelecimento que vende artigos de cozinha.

O original encontra-se em jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2007/09/the-dis-informa.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, outubro 24, 2007

Le Monde Diplomatique Brasil - Novembro 07

O novo mosaico global,visto por Fiori


Num depoimento especial, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros antecipa o sentido de seu novo livro, que descreve um início de século já marcado por duas grandes reviravoltas, e lança nova contribuição ao debate sobre a “hegemonia norte-americana”

José Luís Fiori

Análise de conjuntura. Co-relação de forças. Estratégia. Tática. Geopolítica. Longas durações históricas. Na nova cultura política do altermundismo – da qual Caderno Brasil sente-se parte –, o uso destes termos, e o debate em torno deles, permanece escasso. É uma pena. Para afirmar a potência da sociedade civil, nada melhor que difundir o uso de instrumentos que auxiliam a enxergar em profundidade o mundo, suas contradições e lógicas, as oportunidades que permitem questioná-las e criar alternativas.

Estará nas livrarias a partir de 24 de outubro Poder Global [1], livro mais recente do cientista político José Luís Fiori. Coletânea de cinqüenta artigos produzidos desde 2001, a obra traz também um prefácio inédito, que condensa, em pouco mais de vinte páginas, pontos teóricos que estão por trás de todas as análises, mas foram sistematizados nos últimos anos. Poder Global mergulha o leitor nos grandes movimentos geopolíticos que já marcam este século, e o estimula a refletir sobre eles. De quebra, ajuda a combater dois raciocínios igualmente esquemáticos: por um lado, a crença num declínio inevitável do papel dos Estados Unidos. Por outro, a idéia de que hegemonia – norte-americana ou de qualquer outra potência — significa poder quase-absoluto.

Em importante aporte teórico, expresso no prefácio, Fiori demonstra que, no chamado “sistema mundial moderno”, a existência de um hegemon não é o mais importante, para a manutenção da ordem política e o funcionamento da economia internacional. O decisivo é a disputa contínua, que leva tanto à concentração de poder quanto... ao seu contrário. Em todos os momentos, a potência hegemônica é obrigada a continuar se expandindo – mas também a gerar e estimular seus próprios concorrentes. Como se não bastasse, o próprio processo de expansão internacional do capital e do poder político fomenta o surgimento de poderes e economias nacionais. O sistema depende, permanentemente, de competição, conflito e, em muitos casos, guerra. Sem eles, entra em colapso.

Além disso, prossegue Fiori, quem enxerga na conjuntura atual apenas um mundo dominado pelos EUA não vê a nova reviravolta dos últimos anos. Apesar de terem recuperado terreno de forma impressionante, nas décadas neoliberais, eles passaram a enfrentar, desde que atolaram no Iraque, dificuldades e adversários em todos os cenários para onde procuram estender seu poder. No Oriente Médio, deparam com a influência crescente do Irã e dos xiitas. Foram incapazes de impor a ALCA à América Latina, onde – ainda mais importante – surgem pela primeira vez iniciativas consistentes de integração regional. Na Europa, a Alemanha busca novamente vôo próprio, projetando-se para o leste e... a Rússia. Sob o governo de Putin, e estimulada por seu poderio militar, esta última procura recuperar rapidamente papel de potência internacional destacada. Na Ásia, há a zona econômica mais dinâmica do planeta, a ascensão da China (que não busca desafiar Washington, mas também não aceita submeter-se) e a afirmação simultânea dos interesses japoneses e coreanos. Em todo o mundo, a crise energética desponta como um acelerador das rivalidades e tensões

Poder Global percorre todos estes movimentos em textos sempre densos, porém claros e fluidos. Sugerir a leitura do livro não significa, é claro, estar de acordo com ele. Fiori não parece considerar muito relevantes nem o surgimento da sociedade civil global, nem os Fóruns Sociais Mundiais (FSMs), nem a emergência de uma nova cultura política pós-capitalista, que já não vê nos Estados o motor das transformações sociais. Num artigo escrito logo após o I FSM, o autor afirmava: “a política só pode ser eficiente onde exista algum poder a ser conquistado, e cujas diretrizes possam ser alteradas”. O novo livro persiste neste ponto de vista, inclusive com textos dedicados à polêmica com autores próximos ao altermundismo, como Toni Negri, Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein.

Nada disso torna a obra menos interessante e necessária. Ao contrário: Poder Global vale também pela capacidade de provocar. Fique com o depoimento especial de Fiori. E aguarde, no Caderno Brasil, a continuação deste debate. (A.M.)

Um mundo hierarquizado, mas
em constante conflito e movimento

Meu livro intitula-se "poder global". expressão não se refere a uma entidade ou a uma instância particular do poder político mundial, nem tampouco à quantidade relativa de poder de algum estado ou organismo multilateral. Expressa um campo de pesquisa e um modo de analisar o funcionamento e as tendências de longo prazo do sistema mundial que se formou a partir século 16, da expansão conquistadora de alguns estados europeus e de suas economias nacionais. O conceito de “poder global” não é sinônimo, nem é equivalente aos conceitos de “hegemonia” e “governança” mundial. Pelo contrário, trata-se de um modo de olhar e analisar o sistema político e econômico mundial, que privilegia o movimento, o conflito e as contradições que movem este sistema, impedindo sua estabilização, e qualquer tipo de “paz perpétua” ou de “governança estável”. Exatamente porque se trata de um “universo” em permanente expansão movido pela competição e pelas lutas entre alguns estados e economias nacionais conquistadores que estão obrigados a se expandir permanentemente para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Por isto, o “sistema mundial moderno”, desde o século 16, e até hoje, foi sempre hierárquico e oligopólico.

Mas atenção, porque ao contrário do que se poderia concluir apressadamente, estas grandes potencias que lideraram e lideram a acumulação do poder e da riqueza dentro deste sistema, foram e seguem sendo complementares e competitivas, a um só tempo, sem que jamais possam se destruir mutuamente sem destruir, ao mesmo tempo, o próprio sistema e sua força propulsora. A competição e a luta ente estes estados apontam na direção da monopolização completa do poder e da riqueza, ou seja, para o nascimento de um “poder global”, mas esta monopolização nunca se realizou nem jamais se realizará deste sistema mundial em que vivemos. Os centros de acumulação de poder e riqueza se deslocam no tempo e no espaço, mas jamais se concentram num só lugar. Se isto acontecesse, o sistema entraria em estado de decomposição anárquica, ou de entropia. Neste sentido, do nosso ponto de vista, não são os “hegemons” que estabilizam este sistema mundial criado pelos europeus; o que ordena e estabiliza este sistema – sempre de forma transitória - é a existência permanente do conflito e da possibilidade de uma nova guerra. Por isto, “no universo em expansão dos “estados-economias nacionais” não há possibilidade lógica de uma paz perpétua, nem tampouco de mercados equilibrados e estáveis”.

Estados Unidos e China: por trás
das tensões, papéis complementares

Eu diria que o ponto de partida e objeto central da minha análise é a indissolubilidade da relação entre, por um lado, o processo de acumulação e internacionalização do capital e, por outro, a força propulsora que empurra o processo de concentração e globalização imperial, do poder político dos estados nacionais ganhadores. O motor que move em conjunto estes dois processos, é o mesmo: a competição e a luta entre estas organizações políticas e econômicas nacionais, que surgiram inicialmente, na Europa, nos século 16 e 17, e que só se universalizaram, como forma de organização territorial do poder e da economia, na segunda metade do Século 20. Mas esta relação ou inter-relação não é apenas sincrônica e “virtuosa” para o mundo do poder e da acumulação do capital. Ela contém dentro de si uma contradição fundamental. Desde sempre, e ainda hoje, o movimento da internacionalização política e econômica reforça, a cada nova etapa, o movimento contrário da nacionalização e fortalecimento dos poderes e capitais nacionais.

Por isto, do nosso ponto de vista, os grandes “surtos” de “globalização” econômica – como os que ocorreram, no fim do século 19 e 20 – provocam sempre, ao mesmo tempo, grandes movimentos de fortalecimento da competição e do conflito entre as nações. Em momentos de aceleração da internacionalização capitalista, a tendência simultânea foi sempre de aprofundamento do conflito entre os interesses comerciais e financeiros das economias nacionais do sistema. Por isto, em algum momento do livro, dizemos que a “globalização econômica” é um traço originário e constitutivo do sistema capitalista, mas não é uma obra exclusiva do capital, nem representa o fim das economias nacionais. Muito pelo contrário, é o resultado da expansão vitoriosa dos “estados-economias nacionais” que conseguiram impor seu poder de comando sobre um território econômico supranacional cada vez mais amplo”. Da mesma forma que o “poder global” não é uma obra exclusiva do poder político, cada vez mais cosmopolita ou multilateral, é sempre o resultado de uma luta entre poderes nacionais conseguem impor transitoriamente ao resto do mundo suas regras e instituições de gestão da guerra e da paz. Vencedores que nunca deixam de seguir expandindo, de forma cada vez mais rápida e permanente, seus recursos de poder econômico e político, mesmo quando pareça que já não tem concorrentes.

No caso das relações contemporâneas entre EUA e China, o que está acontecendo é o que sempre aconteceu nas relações entre as grandes potencias do sistema mundial. Neste momento, a complementaridade econômica entre China e EUA, é cada vez mais importante paras suas duas economias nacionais e para toda a economia mundial. Hoje, já não seria mais possível, pensar numa separação, ou numa tentativa unilateral de destruir ou bloquear o desenvolvimento uma da outra. A relação entre EUA e China transformou-se numa relação virtuosa, e quase num casamento econômico indissolúvel. É ingênuo propor, como alguns analistas norte-americanos, que os EUA bloqueiem o crescimento da China para impedir que se transforme algum dia, numa grande potencia global. Como é absurdo pensar que a China possa utilizar suas reservas em dólar, para jogar contra o próprio dólar, e portanto contra suas próprias reservas. Os chineses têm várias caraterísticas exóticas, do ponto de vista ocidental, mas certamente não são burros, nem têm uma tradição de auto-destruição.

Esta complementaridade econômica não exclui o fato de que os dois se considerem inimigos estratégicos e calculem seus movimentos e iniciativas tecnológico-militares, em função de um confronto militar futuro entre as duas potencias. Como já dissemos, esta dualidade faz parte do sistema e dos seus “jogos” básicos: das trocas e das guerras. É possível que nunca ocorra nenhuma guerra entre os EUA e a China, ela é dispensável. O que é importante para a acumulação do poder e do capital, na China como nos Estados Unidos, é a existência da possibilidade tendencial, de uma ou várias guerras, que funcionam como principio de organização estratégica do próprio desenvolvimento tecnológico e econômico dos dois países, e de todos os demais países que orientem seu cálculo estratégico político e econômico, pela disputa do poder global.

O fim da crença no fim das fronteiras
e num comércio mundial “estável”

Utopias não se enterram. Por definição, elas são eternas, não foram feitas para serem realizadas. Por isto elas permanecem através do séculos, como um desafio e como um objetivo inalcançável, como no caso do sonho liberal com o desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais, e com a possibilidade de uma “paz perpétua” e cosmopolita, que se mantém vivos desde pelo menos o século 17. Um sonho, portanto que acompanhou toda a formação e expansão colonial do sistema político e econômico europeu. Uma coisa diferente é a ideologia da globalização que confunde, intencionalmente, a existência de uma força internacionalizante, dentro do sistema capitalista, com a possibilidade e a defesa do desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais. Uma ideologia que sempre foi esgrimida, através da história, pelas potencias ganhadoras, e que sempre serviu de chave de entrada nas economias mais fracas e periféricas dentro do sistema econômico mundial. O que é fundamental ter claro, de um ponto de vista realista, é que a globalização, definida como um sistema ou ponto de chagada, em que desaparecessem a competição e a luta entre os estados e economias nacionais, onde desaparecessem as fronteiras e as guerras políticas e econômicas, seria a negação do sistema política moderno e a entropia do sistema capitalista, porque significaria o desaparecimento do próprio motor que alimenta a expansão do poder e da riqueza do sistema.

Um sistema que necessita do conflito,
para não entrar em colapso

O importante não é que os Estados Unidos encontram resistência ao exercício de um poder imperial mundial ou global. Isto é perfeitamente natural e esperável. O importante, do ponto de vista da nossa discussão teórica sobre o funcionamento e tendências de transformação do sistema mundial, é que a potência que lidera o processo expansivo do sistema como um todo necessita de concorrentes e adversários para seguir se movendo, para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Na sua ausência, esta potência líder perderia força, e o sistema mundial, como um todo, entraria em estado de desorganização. Por isto, dizemos numa passagem do livro que “dentro do sistema mundial, formado pelos estados nacionais, todo e qualquer “super-poder” ou “potência hegemônica”, estará sempre condenado a expandir seu poder de forma contínua, para manter sua posição relativa dentro do sistema. Esta expansão, ou acumulação de poder, se faz através da competição e da luta com os demais estados, e da preparação permanente da guerra contra algum adversário que deverá existir “a bem do sistema”.

Por isto mesmo, a competição e a luta entre as grandes potencias se reproduz de forma permanente, e nenhum “super-poder” será jamais capaz de estabilizar o sistema mundial, porque ele mesmo precisa da competição e da “guerra virtual crônica”, para poder seguir se expandindo. Por isto, muitas vezes é a própria potência ganhadora que desestrutura sua “situação hegemônica”. Só ela tem condições de se desfazer das regras e instituições que construiu em algum momento – como no caso das Nações Unidas e de Bretton Woods —, toda vez que estas regras e instituições obstaculizem seu caminho expansivo. E, mais do que isto, muitas vezes é o próprio “poder expansivo” ou hegemônico que cria ou inventa os seus competidores e adversários, porque não pode crescer e se expandir sem ter concorrentes, mesmo quando seu poder pareça absoluto e incontestável.

Europa sem rumo claro, e pressionada
pelos movimentos da Alemanha

Os EUA definiram uma estratégia muito clara, desde o fim da Guerra Fria. E neste sentido, considero que existiu um denominador comum entre as administrações Bush e Clinton. A radicalização militarizada desta estratégia imperial, depois de 2001, é que vem enfrentando dificuldades crescentes, sobretudo no Oriente Médio – e neste momento se pode dizer que os EUA estão com sua liderança mundial fragilizada. Mas isto não significa que os EUA tenham perdido seu poder global, ou que estejam vivendo uma “crise hegemônica terminal” como acreditam muitos pensadores importantes do mundo anglo-saxão.

No caso da Europa, entretanto, acredito que de fato não exista no momento uma estratégia política internacional unificada e eficaz. Mas, do meu ponto de vista, esta paralisia ou impotência internacional tem raízes mais profundas e complicadas. Dificuldades que só aumentaram com o fim da Guerra Fria e o aumento do numero dos membros da União Européia (UE) e da OTAN A ausência de um inimigo claro e o excesso de sócios pouco alinhados vêm deixando cada vez mais claro a causa da paralisia estratégica e decisória da UE: ela não dispõe de um poder central unificado e homogêneo, capaz de definir e impor objetivos e prioridades estratégicas ao conjunto dos estados associados. Pelo contrário, está cada vez mais dividida entre os projetos europeus de seus membros mais importantes, a França, a Grã Bretanha e a Alemanha.

São uma divergência e uma competição muito antigas entre estes três países, que só ficaram adormecidas, logo depois da II Guerra Mundial, mas que estão reaparecendo cada vez com mais força, depois do fim da Guerra Fria, graças à reunificação da Alemanha e ao retorno da Rússia ao núcleo central das “grandes potências”. É indisfarçável o temor atual da França e da Grã Bretanha, frente ao fortalecimento da Alemanha, no centro da Europa. E não há dúvida que a reunificação da Alemanha, e o reaparecimento da velha Rússia atingiram fortemente o processo da unificação européia. A Alemanha fortaleceu sua posição como a maior potência demográfica e econômica do continente, e passou a ter uma política externa mais autônoma, centrada nos seus próprios interesses nacionais. Depois da sua reunificação, a Alemanha vem aprofundando a sua Ostpolitik dos anos 60, e vem promovendo uma forte expansão econômico-financeira, na direção da Europa Central e da Rússia. Uma estratégia que recolocou a Alemanha no epicentro da luta pela hegemonia dentro de toda a Europa, e dentro da própria União Européia, ofuscando o papel da França e desafiando o “americanismo” da Grã Bretanha. Se apesar do governo conservador, esta aproximação entre a Alemanha e a Rússia seguir em frente, mesmo que seja apenas no plano econômico, não é improvável que ela traga de volta a velha competição geopolítica dos estados europeus que foram os fundadores do atual sistema mundial. Mas neste caso, o projeto da EU terá chegado ao limite de suas possibilidades, e o mais provável é que comece a recuar em direção a formas menos “envolventes” e “comprometedoras” de integração.

Na Ásia, Rússia e Oriente Médio, sinais de
uma “nova geopolítica das nações”

As mudanças tem sido muito rápidas, nestes últimos 15 anos. Na década de 90, muitos acreditaram na utopia da globalização, do multilateralismo e da paz. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a guerra voltou ao epicentro do sistema, e os Estados Unidos assumiram um projeto explicito de poder global, unipolar e quase-imperial. Seis anos mais tarde, entretanto, o mundo está mudando de direção, uma vez mais: o projeto imperial norte-americano enfrenta dificuldades crescentes, os Estados Unidos perderam capacidade de intervenção unilateral através do mundo, e está se assistindo, por todo lado, um retorno da “geopolítica das nações”, com corrida armamentista, políticas nacionalistas e disputas hegemônicas, em quase todas as regiões geopolíticas do globo.

No leste asiático, a corrida armamentista lembra, cada vez mais, o velho modelo europeu de acumulação de poder e riqueza, que está na origem do atual sistema mundial. É a região de maior dinamismo econômico, dentro do sistema mundial, e, ao mesmo tempo, é onde está em curso a competição mais intensa e explícita, pela hegemonia regional, envolvendo suas velhas potências imperiais – a China, o Japão e a Coréia – mas também a Rússia, e os Estados Unidos. No fim do século 20 e no início do século 21, o crescente envolvimento militar dos Estados Unidos com o Oriente Médio, e com sua “guerra global” ao terrorismo, diminuíram sensivelmente sua capacidade de intervenção direta nos assuntos do leste asiático. E está cada vez mais claro que, se aumentar o distanciamento militar norte-americano da região, haverá um rápido rearmamento japonês, com forte conotação nacionalista. Um quadro que pode complicar-se ainda mais, se a Índia for obrigada a envolver-se nesta disputa hegemônica, por sua própria decisão, ou por conta de uma eventual aliança com os Estados Unidos.

De qualquer maneira, a grande novidade geopolítica do Leste Asiático e de todo o sistema mundial, e a grande incógnita sobre seu futuro, está ligada à nova expansão global da China. Até o momento, ela tem se mantido fiel ao modelo original da expansão chinesa, do século 15, que foi basicamente diplomática e mercantil, à diferença da expansão bélica e mercantil — e depois capitalista — dos europeus. Do ponto de vista geopolítico, o mais provável é que a China se restrinja à luta pela hegemonia no sudeste asiático, e à sua região próxima do Pacífico, mantendo-se fiel à sua estratégia de não provocar, nem aceitar nenhum tipo de confronto, fora de sua “zona de influência asiática”. Mas se a China seguir o caminho passado de todas as grandes potências que existiram dentro deste sistema mundial “moderno”, será inevitável que, em algum momento, tenha que combinar sua expansão econômica, com uma expansão político-militar global.

Com relação à Rússia, durante a década de 1990, muitos analistas vaticinaram o fim da grande potência, que ingressou no cenário europeu no século 18, com as guerras de conquista de Pedro, o Grande. Em 1994, Henry Kissinger chegou a afirmar, no seu livro Diplomacy [2], que os Estados Unidos e a Europa teriam que enfrentar um problema novo e inesperado: a administração da desmontagem do império russo. Talvez por isso, os Estados Unidos lideraram a expansão imediata das fronteiras da OTAN, tomando posição militar em quase todo o território da Europa Central, já na década de 90.

Mas, ao mesmo tempo, esta expansão apressada da OTAN e da União Européia, e sua intervenção militar nos Balcãs, acabaram tendo um papel decisivo na vitória política de Vladimir Putin, responsável pelo redesenho da política externa e da estratégia militar da Rússia, a partir do ano 2000. A Rússia seguia sendo detentora do segundo maior arsenal atômico do mundo, e exatamente no ano 2000, o governo russo aprovou a nova doutrina militar proposta pelo Conselho de Segurança Nacional, que autorizou a utilização preventiva de armamento nuclear em caso de ataque ao país, mesmo que seja um ataque convencional maciço, e caso fracassem todos os demais esforços para repelir o agressor. Possibilidade que voltou a se colocar, com a insistência norte-americana em instalar seu sistema anti-mísseis na Europa Central. Uma decisão que provocou a retomada do programa russo de modernização de seu sistema balístico e nuclear.

Tudo isto ocorre no momento em que a Rússia obtém ganhos crescentes – econômicos e geopolíticos — com suas fontes energéticas, e no momento também em que retomou, no início de 2007, seu nível de atividade econômica anterior à grande crise dos 90. Uma expansão econômica e militar que já recolocou a Rússia, entre as grandes potências, com uma intervenção crescente nos conflitos da Ásia Central e do Oriente Médio, e com a posição de grande fornecedor de armamento e tecnologia militar para a China, a Índia e o Irã, e vários outros países ao redor do mundo, incluindo recentemente a Argentina e a Venezuela. De tal maneira que, apenas quinze anos depois do fim da União Soviética, todos os sinais indicam uma nova onda de modernização da economia russa estreitamente associada com os desafios militares e os objetivos estratégicos do país, como aconteceu em vários outros momentos da história da Rússia, e da própria União Soviética.

Por fim, é verdade que a intervenção dos EUA no Oriente Médio produziu um efeito bumerangue, que surprendeu os norte-americanos. Seu insucesso corroeu a credibilidade das ameaças de intervenção no Irã, na Coréia do Norte, ou em qualquer outro estado com alguma força militar e apoio internacional. Mas muito mais grave do que isto, foi a inversão da correlação de forças que produziu dentro do próprio Oriente Médio. Uma verdadeira reviravolta, que acabou fortalecendo o eixo de poder xiita dentro de toda a região, agora liderado pelo Irã, que se transformou no grande desafiante da hegemonia norte-americana no Oriente Médio. Com o aumento do poder dos xiitas na região, o Irã exerce hoje uma influência cada vez maior no próprio Iraque, no Líbano, na Palestina e no seio de todos os grupos islâmicos mais resistentes ao poder de Israel e dos Estados Unidos, dentro da região.

Esse aumento da influência iraniana acirrou a competição regional com Israel, mas também com o Egito, Arábia Saudita, Jordânia, e pode ter desdobramentos muito complicados, se desencadear uma corrida atômica na região. Mas alem disto, mais recentemente, a intervenção norte-americana no Iraque, acabou também ressuscitando o “leão adormecido” da Turquia, uma espécie de protetorado militar ou cabeça de ponte americana na região, cujo governo sempre esteve sob tutela das estruturas militares anti-islâmicas. Depois de longas décadas de inatividade reaparece a velha cabeça do império otomano, movido contra os curdos, agora também sob proteção americana. Mesmo que Israel ou os Estados Unidos façam um ataque “cirúrgico” às instalações atômicas do Irã, o quadro tende a ficar cada vez mais complexo, e apesar de que os Estados Unidos venham a manter influência no Oriente Médio, devem perder sua posição arbitral, e daqui para frente terão que conviver com a presença ativa da Rússia, da China e de outros países com interesses nos recursos energéticos do Oriente Médio. E, sobretudo, com o desafio e a competição hegemônica com o Irã, dentro da própria região.

Disputa por fontes (escassas) de energia:
um grande acelerador da competição global

Não existe, na história do sistema mundial, uma convergência necessária entre a dinâmica geopolítica e a acumulação do capital. Mas não há dúvida que a geopolítica e a economia andam quase sempre juntas, quando se trata da competição e da luta por recursos naturais escassos e estratégicos, tanto para os estados como para os capitais privados. Exatamente o que está ocorrendo neste início do século 21. Há um rápido aumento da intensidade da disputa em torno dos territórios e regiões que dispõem dos excedentes energéticos para mover a nova “locomotiva” do crescimento mundial — puxada pelos Estados Unidos e a China, com efeitos imediatos sobre a Índia. Basta olhar para as duas pontas deste novo eixo – Ásia e EUA – e para suas necessidades energéticas atuais e futuras, para visualizar o mapa das disputas e das suas sinergias positivas, através do mundo.

Em conjunto, a China e a Índia detêm um terço da população mundial e vêm crescendo, nas duas últimas décadas, a uma taxa média entre 6% e 10% ao ano. Por isso mesmo, ao fazer seu Mapa do Futuro Global, em 2005, o Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos previu que, se forem mantidas as atuais taxas de crescimento das duas economias nacionais, a China deverá aumentar em 150% o seu consumo energético e a Índia em 100%, até 2020. Mas nenhum dos dois países tem condições de atender suas necessidades através do aumento da produção doméstica, de petróleo ou de gás. A China já foi exportadora de petróleo, mas hoje é o segundo maior importador de óleo do mundo. E essas importações atendem apenas um terço de suas necessidades internas. No caso da Índia, sua dependência do fornecimento externo de petróleo é ainda maior: nestes últimos quinze anos, essa dependência aumentou de 70% para 85% do seu consumo interno. Para complicar ainda mais o quadro da competição econômica e geopolítica na Ásia, o Japão e a Coréia também dependem de suas importações de petróleo e de gás, para sustentar suas econômicas domésticas.

Esta situação de carência coletiva e competitiva é que explica a o fato de todos estes países asiáticos terem se aproximado recentemente do Irã, a despeito da forte oposição dos Estados Unidos. E explica também a ofensiva diplomática e econômica da China e da Índia, na Ásia Central, na África e na América Latina, como também, no Vietnã e na Rússia. Além da participação conjunta da China e da Índia, na disputa com os Estados Unidos e com a Rússia, pelo petróleo do Mar Cáspio, e pelos seus oleodutos alternativos de escoamento. A estratégia de competição e expansão é seguida, também, pelas grandes corporações privadas chinesas e indianas, que já saíram de sua zona tradicional de atuação e hoje operam no Irã, na Rússia e até nos Estados Unidos. Com impactos militares quase imediatos, como diagnostica o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, que atribui a essa disputa energética a recente reestruturação da marinha militar da China e da Índia, e sua presença cada vez maior no Mar da Índia, e no Oriente Médio.

Na outra ponta deste novo eixo dinâmico da economia mundial estão os Estados Unidos. Continuam sendo os maiores consumidores de energia do mundo e, além disto, estão empenhados em diversificar suas fontes de fornecimento, para diminuir sua dependência em relação aos países do Oriente Médio. Hoje, a Arábia Saudita só atende a 16% da demanda interna dos Estados Unidos, que já conseguiram deslocar a maior parte do seu fornecimento de energia para dentro de sua zona imediata de segurança estratégica, situada no México e no Canadá, seguidos pela Venezuela que é seu quarto principal fornecedor de petróleo. Além disto, os Estados Unidos vêm trabalhando ativamente para obter um acordo estratégico de longo prazo com a Rússia e têm avançado de forma agressiva e competitiva sobre os novos territórios petrolíferos situados na África Sub-Sahariana, na Ásia Central, na região do Mar Cáspio. Portanto, os Estados Unidos estão disputando com a China e com a Índia todos os territórios com excedentes energéticos atuais ou potenciais. E esta competição está se transformando num novo triângulo econômico, complementar e competitivo a um só tempo, que está cumprindo uma função organizadora e dinamizadora de várias regiões e economias nacionais, através de todo o mundo, incluindo a América do Sul e a África.

América Latina: novas relações
com os EUA e consigo mesma

O lugar da América Latina na nova geopolítica das nações é muito particular e tem muito a ver com a história da inserção mundial do continente, desde o século 19. A América foi o único continente do sistema mundial, onde nunca existiu uma disputa hegemônica entre os seus próprios estados nacionais. Primeiro, ela foi colônia, e em seguida, “fronteira de expansão” ou “periferia” da economia européia. Mas depois da sua independência, esteve sempre sob a égide anglo-saxônica: da Grã Bretanha, até o fim do século 19, e dos Estados Unidos, até o início do século 21. Por outro lado, nestes quase dois séculos de vida independente, as lutas políticas e territoriais abaixo do Rio Grande nunca atingiram a intensidade, nem tiveram os mesmos efeitos que na Europa. E tampouco se formou na América Latina um sistema integrado e competitivo, de estados e economias nacionais, como viria a ocorrer na Ásia, depois da sua descolonização.

Como conseqüência, os estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionoram durante todo o século 19, como uma espécie de laboratório de experimentação do “imperialismo de livre comércio”. Depois da II Guerra Mundial, e durante a Guerra Fria, os governos sul-americanos alinharam-se ao lado dos Estados Unidos, com exceção de Cuba. Depois da Guerra Fria, durante a década de 1990, a maioria dos governos da região aderiu às políticas e reformas neoliberais, preconizadas pelos Estados Unidos.

Mas agora, no início do século 21, é inegável que está em curso uma mudança na América Latina, e em particular, uma mudança no relacionamento da América do Sul com os Estados Unidos. Sobretudo depois da moratória da Argentina, em 2001, do fracasso do golpe de estado na Venezuela, que contou com a simpatia norte-americana, em 2002, e da rejeição do projeto norte-americano da ALCA, na reunião de Punta del Este, em 2005. Mas há também sinais do aparecimento de uma incipiente disputa dentro da própria América Latina, entre estados e economias nacionais complementares, em alguma medida, mas que são ao mesmo tempo, cada vez mais competitivas. Uma novidade absoluta no nosso continente.

BRICS: um grupo heterogêneo de países,
com agendas dificilmente conciliáveis

Na geopolítica das nações, não há lugar para alianças baseadas apenas em médias estatísticas, semelhanças sociológicas ou analogias históricas. E as coincidências ideológicas só operam com eficácia quando coincidem com as necessidades dos países, do ponto de vista do seu desenvolvimento e segurança. Por isto, a construção de uma agenda comum, entre Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul, deve partir do reconhecimento das diferenças existentes entre suas distintas inserções e interesses, dentro do sistema mundial. São cinco países que ocupam posição de destaque, nas suas respectivas regiões, devido ao tamanho de seu território, de sua população, e de sua economia. Mas são, ao mesmo tempo, cinco países completamente diferentes, do ponto de vista de sua inserção internacional, dos seus interesses geopolíticos, e de sua capacidade de implementação autônoma de decisões estratégicas.

Depois do fim da União Soviética, a Rússia manteve seu arsenal militar e sua cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e foi rapidamente incorporada ao G 8, apesar de sua crise econômica da década de 90. Depois de 2000, o governo de Vladimir Putin, recentralizou o poder interno, retomou o crescimento econômico acelerado e vem perseguindo com tenacidade e rapidez o restabelecimento da Rússia na condição de grande potencia mundial. Por sua vez, a China e a Índia, depois dos anos 90, projetaram-se dentro do sistema mundial como potências econômicas e militares. Têm claras pretensões hegemônicas nas suas respectivas regiões e ocupam hoje uma posição geopolítica e geo-econômica global absolutamente assimétrica, com relação ao Brasil e à África do Sul.

Apesar disto, o Brasil, a África do Sul e a Índia – e mesmo a China, diferente da Russia – ainda ocupam a posição comum dos “países ascendentes”, que sempre reivindicam mudanças nas regras de “gestão” do sistema mundial, e na sua distribuição hierárquica e desigual do poder e da riqueza. Por isto, neste momento, compartilham alguns pontos em comum de uma agenda reformista com relação ao sistema das Nações Unidas e à formação do seu Conselho de Segurança. Da mesma forma como compartem posições multilaterais e liberalizantes, em matéria de comércio internacional, na Rodada de Doha, formando o G20, dentro da Organização Mundial do Comércio.

Mas a partir de agora, dentro desta “nova geopolítica das nações” que vai se desenhando no início do século 21, pode-se prever um distanciamento progressivo da China com relação a qualquer grupo ou aliança que restrinja seus graus de liberdade, uma vez que já vem atuando, em vários contextos, com a postura de quem comparte, e não de quem questiona a atual “gestão” do poder mundial. Daqui para frente, a China deve seguir os passos de todas as grandes potências que fazem, ou já fizeram, parte do “círculo dirigente” do sistema mundial. E mesmo com relação à Índia, os pontos de convergência serão cada vez mais tópicos, porque o Brasil e a África do Sul devem se manter fiéis ao “idealismo pragmático” de sua atual política externa, sem contar com as ferramentas de poder e com os desafios externos indispensáveis ao exercício da realpolitik, como no caso da Rússia, da China e também da Índia.

Por isto, dentro deste grupo, o mais provável é que nos próximos anos o Brasil – assim como a África do Sul – mantenha-se na condição de um “estado relevante” mas não expansivo, dentro do sistema mundial.

Organizações internacionais esvaziadas
e sem perspectiva de recuperação imediata

Quase todas as atuais organizações internacionais – como a ONU e o FMI – foram criadas logo depois da II Guerra Mundial, e correspondiam ao projeto de “governança mundial” regulada e institucionalizada, concebido pelos Estados Unidos e seus principais aliados. O mundo mudou radicalmente de lá para cá, sobretudo depois do fim da Guerra Fria e da recente volta da “geopolítica das nações”. As antigas instituições do pós-guerra não estão propriamente desacreditadas – estão cada vez mais esvaziadas, e o foram pela vontade das principais potências que contribuíram para sua constituição. A principal dificuldade em reverter este quadro não vem da falta de idéias e propostas, mas do fato de que nenhuma potência que esteja em posição dominante ou vitoriosa costuma abrir mão do status quo lhe é favorável – a menos de alguma ameaça radical ou de uma guerra. E nesse caso o estado atual de esvaziamento dessas instituições foi provocado exatamente por essas potências dominantes ou vitoriosas, e em particular, pelo seu hegemon, os Estados Unidos.



[1] O Poder Global e a nova geopolítica das nações. José Luís Fiori, 2007. Boitempo Editorial. São Paulo

[2] Kissinger, H. (1994), Diplomacy, Simon &Schuster, New York