"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

quarta-feira, julho 15, 2009

Eduardo Guimarães: 'aspone' tucana defende ONG e prêmio fajutos

Site do Azenha - Atualizado em 14 de julho de 2009 às 08:15 | Publicado em 14 de julho de 2009 às 08:05

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por Eduardo Guimarães, no Cidadania

Segundo uma “aspone” de José Serra hoje no Painel do Leitor da Folha de São Paulo (vide abaixo), o governador invisível (na mídia) não precisa inflar seu currículo.

Ela mesma (aspone), porém, inflou a premiação fajuta que o tucano recebeu de uma ONG metida em montes de escândalos com dinheiro público e fundada em Curitiba por uma tucana.

A ONG tucana "com sede em Paris" não pode ser comentada com um mínimo de profundidade nem pela Folha nem pela "aspone" serrista, pois os fatos sobre ela (ONG) a desmontam.

Não é surpresa que Serra infle seu currículo com premiações fajutas. Ele já havia se apropriado do programa da aids dos doutores Adib Jatene e Lair Rodrigues e dos genéricos de Jamil Haddad.

Os blogs e sites de "menor repercussão", como diz a "aspone" abaixo, pelo visto não são de repercussão tão pequena. Aliás, como signatário do blog que levantou a bola da premiação fajuta de Serra, sinto-me recompensado pela carta dela.

Enquanto isso, o leitor da Folha fica se remoendo de curiosidade quanto a esse caso. E poderá esperar sentado para saciá-la.

FOLHA DE SÃO PAULO

PAINEL DO LEITOR - 14 DE JULHO DE 2009

"Texto de Ricardo Melo dá curso a boataria que circulou nos últimos dias pela internet, em sites e blogs de menor repercussão. Repete o jornalista que o governador Serra teria atribuído à ONU um prêmio recebido na semana passada, outorgado por uma ONG.

Como consta de todo o material distribuído sobre a homenagem, em momento algum o governador ou sua assessoria disseram diferente: o prêmio é da WFO (World Family Organization), entidade com sede em Paris, filiada à ONU e fundada em 1947. É, ao mesmo tempo, endossado pelo Comitê Econômico e Social (Ecosoc) da ONU.

Durante reunião anual do Ecosoc (entre os dias 6 e 9 últimos) na sede europeia da ONU, em Genebra, o prêmio foi entregue ao governador, como um dos eventos dessa reunião plenária, na presença de jornalistas brasileiros.

Acrescente-se que não é prática do governador ostentar títulos que não tem. Primeiro, porque não seria ético. Segundo, porque seu currículo dispensa maquiagens."

JUNIA NOGUEIRA DE SÁ, coordenadora de Comunicação e Imprensa da Secretaria de Comunicação do Governo de São Paulo (São Paulo, SP)

PS1 do Viomundo: Por que será então a ONU tratou te distribuir a nota esclarecimento abaixo?

ESCLARECIMENTO

A World Family Organization (WFO) não é uma entidade da Organização das Nações Unidas (ONU). Trata-se de uma Organização Não-Governamental (ONG), com sede em Paris, associada ao Conselho Econômico e Social (ECOSOC) da ONU, com status consultivo, e associada ao Departamento de Informação Pública (DPI) da Organização.

As ONGs associadas ao ECOSOC e afiliadas ao DPI não representam a ONU nem podem, em qualquer hipótese, falar em nome da Organização. Seu papel é de colaborar com as Nações Unidas, de forma voluntária, ajudando na divulgação das atividades da Organização e, no caso do ECOSOC, contribuindo com sugestões às atividades do Conselho.

Valéria Schilling
Assessora de Comunicação
Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio)

PS2 do Viomundo: Você fica com a informação da Valéria Schilling, assessora de comunicação das Nações Unidas, ou com a da Júnia Nogueira de Sá, coordenadora de Comunicação da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo? Nós, claro, confiamos na da Valéria.

Obama: visita ao "golfo do petróleo" africano

Site do Azenha - Atualizado e Publicado em 14 de julho de 2009 às 00:11

por Emira Woods, em The Nation

Tradução: Caia Fittipaldi

O presidente Barack Obama visitou a África, em "visita histórica". Mas, filho de economista nascido no Quênia, Obama não visitou a terra de seus antepassados: visitou Gana, o mais novo "Estado petrolífero" da África.

O petróleo foi descoberto em Gana muito recentemente, em 2007. Uma grande bacia, na costa atlântica ocidental, do Marrocos a Angola, que já começa a ser chamada de "o golfo do petróleo" da África. Os países africanos produtores de petróleo, incluindo a rica bacia do Golfo da Guiné, fornecem hoje 24% do petróleo que os EUA importam. A África já superou o Oriente Médio, como fornecedor de petróleo aos EUA. E cada vez mais a África extrai petróleo de bacias submarinas.

Nas áreas profundas do litoral atlântico de Gana, a empresa Kosmos Energy, com sede no Texas, já controla os campos conhecidos como "Jubilee Fields", uma das maiores reservas de petróleo descobertas na África Ocidental na última década, onde se prevê que haja 1,2 bilhões de barris de petróleo. Em maio de 2009, a Kosmos Energy começou a receber propostas de empresas interessadas em partilhar a riqueza das bacias de petróleo. Gigantes da energia global – Chevron Corp, Exxon Mobil, Royal Dutch Shell, China National Offshore Oil Company e a British Petroleum – todas de olhos na África, e todas com sangrenta história na África – circulam sobre o continente como aves de rapina.

Afinal, a data que Kosmos Energy demarcou como prazo final para receber propostas está próximo: 17 de julho, uma semana depois da visita de Obama a Gana.

A cada dia que passa mais interessados no petróleo africano, os EUA trataram de ampliar sua presença militar (e naval) no "Golfo do Petróleo" africano.

Em outubro de 2008, foi oficialmente criado o US Africa Command (Comando Militar dos EUA para a África, AFRICOM). Transplantando o modelo desenvolvido no Oriente Médio, as forças militares dos EUA serão instaladas na África para proteger o petróleo de que os EUA necessitam e, como sempre, para caçar os chamados "terroristas".

O US Africa Command AFRICOM declarou que trabalhará para "ajudar os africanos a ajudarem-se eles mesmos". Para isso, já está em operação uma lista enorme de missões humanitárias (construção de clínicas odontológicas, escolas, cisternas e poços etc.). Isso quanto ao que tem sido divulgado. O que não tem sido divulgado é o trabalho, que também já está sendo iniciado, de treinar e armar milícias locais que possam oferecer 'segurança' às empresas norte-americanas que se estão instalando na África, com a missão de garantir suprimento de petróleo capaz de satisfazer a fissura dos EUA, dependente incurável de combustíveis fósseis.

Ativistas que lutam por justiça social e pelos direitos humanos em Gana já manifestaram grave preocupação com o efeito de propaganda da visita do presidente Obama a Gana. Para muitos, Obama lá estará como uma folha de parreira, para encobrir os planos de ampliar a ocupação militar norte-americana na África. Movimento que não surpreenderá ninguém em Gana, por exemplo, será a transferência da principal base do US Africa Command AFRICOM – hoje instalada em Stuttgart – para nova base militar a ser criada em território africano.

Inúmeros ativistas dos direitos humanos em Gana e em outros países africanos têm exigido que os EUA alterem suas políticas para o continente africano, de modo a considerar os interesses dos vários lados envolvidos, sob relações de respeito mútuo.

O governo Obama conseguirá alterar o rumo já traçado, de políticas externas cada vez mais militarizadas também no caso da África? Conseguirá conter o ímpeto com que o AFRICOM e o exército dos EUA já se dedicam a ampliar a ocupação de territórios africanos?

Mais importante: o governo Obama conseguirá converter sua retórica responsável e interessada na preservação da natureza em todo o planeta, em políticas reais que ponham fim à dependência doentia dos EUA, viciados em petróleo?

Não há como examinar o significado da visita de Obama à África, nem no curto prazo nem em prazo mais longo, sem considerar devidamente essas realidades ocultadas da opinião pública mas, nem por isso, menos determinantes.


O artigo original pode ser lido em: http://www.thenation.com/doc/20090720/woods

Cartel de droga lança a maior ofensiva contra o governo mexicano

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09


A Polícia Federal está se aproximando muito e rapidamente da cúpula do cartel mais perigoso do México. Essa honra rara não é ostentada pelo La Família [cartel mexicano] por causa da quantidade de cocaína ou de efedrina que ele é capaz de importar através do porto de Lázaro Cárdenas para depois exportar para os Estados Unidos, nem mesmo por causa das dezenas de plantações de papoula sob seu controle em Michoacán.

A reportagem é de Pablo Ordaz, publicada no jornal El País, 13-07-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O poder do La Família, e por isso a sua periculosidade, se deve ao fato de ele funcionar como um Estado paralelo e como uma religião. A uma ordem de El Chango ou de El Chayo, seus líderes (o primeiro, mais guerreiro; o segundo, mais rezador), um exército de criminosos se arma com rifles de alto poder e com granadas de fragmentação e se lança contra o objetivo marcado pelo seu general ou seu pastor. Na sexta-feira, o objetivo era claro: a Polícia Federal. E o sábado amanheceu com cinco agentes mortos e 18 feridos.

A última batalha começou na sexta-feira. A Polícia Federal prendeu um indivíduo apelidado de La Minsa. Ao aparecer, esse sujeito, de nome Arnoldo Rueda Medina, desempenhava um papel principal na estrutura do La Familia. Em pouco tempo, havia passado de chefe dos criminosos para coordenador de coordenadores, só abaixo de El Chango e de El Chayo. Suas funções, segundo os investigadores, eram a de manter o contato com os provedores internacionais de droga e precursores químicos, assim como a de designar, e portanto de destituir (trabalho este um pouco mais sangrento), os chefes do La Familia em zonas importantes: Guanajuato, Aguascalientes, San Luis Potosí...

O caso é que, ao ser apresentado diante dos meios de comunicação, La Minsa chorou. Sua reação deve ter se devido, segundo os investigadores, ao fato de que, talvez, ele imaginava a ordem que, já nesse momento, El Chango e El Chayo deviam ter dado aos seus criminosos: era preciso resgatá-lo ou matá-lo, não se podia deixar um indivíduo com tanta informação nas mãos da polícia.

A madrugada do sábado foi um inferno. Os meios de comunicação locais já qualificavam a reação do La Família como "a maior ofensiva contra os policiais federais e o Exército na história do crime organizado". Em Michoacán, mas também nos Estados de Guerrero e Guanajuato, comandos de criminosos atacaram instalações policiais e tramaram emboscadas a grupos de soldados. Até um hotel de Lázaro Cárdenas em que, há semanas, as forças federais estão alojadas foi objeto de um ataque. O resultado depois de uma noite de espanto foi de cinco militares mortos (três federais e dois soldados) e outros 18 policiais feridos.

Mesmo que La Minsa siga em poder dos interrogadores e a muitos quilômetros de Michoacán, a ira do La Familia segue fervendo nas zonas onde o seu poder é maior: Apatzingán, Lázaro Cárdenas, Pátzcuaro, Zitácuaro e, obviamente, Morelia, a capital do Estado. Em Gucamayas, município de Lázaro Cárdenas, forças da Polícia Federal e criminosos do La Família continuavam mantendo um duro enfrentamento neste domingo.

A guerra do governo do México contra o La Familia começou há quase um ano. Na meia-noite do dia 15 de setembro de 2008, coincidindo com o grito da Independência, um grupo de criminosos jogou granadas contra a multidão que festejava a data na praça de Morelia. Ainda hoje não se sabe de quem partiu a ordem nem com qual objetivo. Mas sabe-se, sim, o que conseguiram: que o presidente Felipe Calderón desse instruções à Polícia Federal e ao Exército para que pusessem ordem no seu Estado natal.

A ordem não chegou, mas sim a constatação de que existem, no México, outros poderes não legítimos e, às vezes, mais efetivos do que o do próprio Estado. O La Familia é um deles. El Chango e El Chayo controlam os prostíbulos, as máquinas caça-níqueis, a pirataria, a venda de armas e o tráfico de drogas, mas também negócios legais como postos de gasolina, mercados...

Há poucas semanas, os policiais federais detiveram um bom número de prefeitos, fiscais e policiais que estavam nas listas da organização. Agora foi a ver de La Minsa.

A cúpula está cada vez mais próxima, mas, pelo que foi visto nas últimas horas em Michoacán, ainda será preciso muito sangue e muitas balas para se chegar até ela.

Governo golpista recruta dupla ligada aos Clinton

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09

Em busca de reconhecimento internacional e sobretudo de Washington, o presidente interino, Roberto Micheletti, tem contado com a ajuda de assessores americanos próximos ao Partido Democrata tanto para melhorar a imagem do seu governo como nas negociações intermediadas pela Costa Rica.

A reportagem é de Fabiano Maisonnave e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 14-07-2009.

Reportagem publicada ontem pelo jornal "New York Times" revela que Micheletti tem sido assessorado por Bennet Ratcliff, consultor ligado ao governo Bill Clinton (1993-2001), e por Lanny J. Davis, que trabalhou como advogado pessoal do ex-presidente americano e participou da campanha da ex-pré-candidata à Casa Branca e atual secretária de Estado, Hillary Clinton, no ano passado.

Ratcliff integrou a comitiva de Micheletti à Costa Rica, quando houve dois dias de reuniões com representantes do presidente deposto, Manuel Zelaya, intermediadas pelo presidente Óscar Arias, Prêmio Nobel da Paz de 1987.

Ratcliff foi contratado pela União Cívica Democrática (UCD), organização guarda-chuva formada por empresários e políticos que vem atuando para melhorar a imagem de Micheletti no exterior.

É a UCD quem tem organizado e financiado as "marchas pela paz", como são conhecidas as grandes concentrações de apoio a Micheletti em que os simpatizantes são convocados a se vestir de branco.

Um dos principais líderes da UCD é o empresário Juan Ferrera. Em entrevista por telefone, ele se negou a comentar a natureza da assessoria de Ratcliff, mas afirmou que o grande desafio agora é conseguir apoio internacional para dar legitimidade às eleições presidenciais de 29 de novembro.

Assim como Micheletti, Ferrera defende que o retorno de Zelaya a Honduras é inviável. "Nas atuais circunstâncias, seu retorno não ajudaria o país."

Segundo o coordenador da UCD, um bom relacionamento com os EUA é fundamental para a viabilidade de Honduras.

"Os EUA são o sócio comercial mais importante de Honduras, mantêm uma importante cooperação. Além disso, há 1 milhão de hondurenhos morando lá. É uma realidade que nenhum outro país oferece, não vejo como Hugo Chávez pode substituir isso", afirmou.

De acordo com reitora da Universidade Nacional Autônoma de Honduras (Unah), Julieta Castellanos, a grande dificuldade de Micheletti nos EUA é a de que classe política hondurenha tem historicamente fortes ligações com os governos republicanos.

"Embora não de forma oficial, o governo Micheletti tem conseguido, por meio dos aliados republicanos, criar o temor nos EUA da aliança Zelaya-Chávez", afirma Castellanos. "O que a direita aqui quer é maior ingerência americana em Honduras contra Chávez."

Negociações

Em entrevista coletiva ontem de manhã, Micheletti disse que as negociações na Costa Rica poderiam ser retomadas neste sábado.

Na Nicarágua, Zelaya disse que, se não houver acordo para que seja reconduzido ao cargo nesta semana, ele considerará as negociações encerradas. "Estamos dando um ultimato ao regime golpista, de que no próximo encontro nesta semana em San José, Costa Rica, eles devem obedecer às resoluções [da OEA e da ONU, que exigem que ele seja reempossado]. Do contrário, essa mediação será considerada fracassada."

Neogolpismo: o risco da América Latina

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09


"O caso de Honduras é muito transcendental: o futuro da democracia na América LatinaWashington, em Caracas e em Buenos Aires".

Essa é a opinião de Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella e membro do Clube Político Argentino. O artigo foi publicado no jornal Página/12, 13-07-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O golpe de Estado convencional – a usurpação ilegal, violenta, preconcebida e repentina do poder por parte de um grupo liderado pelos militares e composto pelas forças armadas e setores sociais de apoio – foi uma nota central da política latino-americana e do Terceiro Mundo durante o século XX.

O fim da Guerra Fria, a onda democratizante dos anos 90, o avanço da globalização, a gradual redução das disputas fronteiriças entre países, a crescente interdependência mundial e as promessas da integração econômica regional parecem pressagiar o ocaso do golpismo na periferia.

No entanto, o fantasma golpista segue intacto. Desde 2000 até hoje, foram realizados 24 golpes de Estado, uns exitosos e outros falidos, na África, Ásia e América Latina e o Caribe. Os dois últimos, em 2009, foram produzidos em Madagascar e Honduras.

Com o tempo, foi se gestando um neogolpismo: diferentemente do golpe de Estado tradicional, o "novo golpismo" está encabeçado mais abertamente por civis e conta com o apoio tácito (passivo) ou a cumplicidade explícita (ativa) das Forças Armadas, pretende violar a constituição do Estado com uma violência menos ostensiva, tenta preservar um semblante institucional mínimo (por exemplo, com o Congresso em funcionamento e/ou com a Suprema Corte temporariamente intacta), nem sempre envolve uma grande potência (por exemplo, Estados Unidos) e aspira mais a resolver um impasse social ou político potencialmente ruinoso do que a fundar uma nova ordem.

Na América Latina, existiu uma espécie de "aprendizagem" em matéria de golpismo. Por exemplo, os que ocorreram no Equador – contra Abdalá Bucaram em 1997 e Jamil Mahuad em 2000 – foram ganhando em efetividade e em sofisticação, ao ponto de que os "putchs" cívico-militares foram, a contragosto, tolerados e aceitos na região. Não existiu uma virulência desproporcional, e as sucessões presidenciais se encarregaram de lhes dar aspectos de quase constitucionalidade. Washington e Brasília (especialmente no caso de Mahuad) não questionaram seriamente o que ocorreu, e o Grupo do Rio e a Organização dos Estados Americanos se desentenderam.

Tempos depois, em 2002, produziu-se a fracassada remoção forçada de Hugo Chávez na Venezuela. A região – particularmente Argentina, Brasil e Chile – reagiu de imediato, repudiando o ocorrido e definido-o com o qualificativo de golpe de Estado. A Casa Branca não deplorou o golpe. Além disso, o justificou (assim também fizeram Espanha, Colômbia e o Fundo Monetário Internacional). O governo do presidente George W. Bush agiu como se se tratasse de um "golpe benévolo", isto é, deu as boas-vindas à tentativa de derrubada de um governo eleito democraticamente, já que os golpistas atuavam em consonância com as preferências ideológicas dos Estados Unidos. A coalizão cívico-militar venezuelana terminou consumando um golpe ortodoxo e autoritário que, porém, foi falho: o prisioneiro Hugo Chávez retornou à presidência.

Dois anos mais tarde, em 2004, realizou-se a saída forçada de Jean-Bertrand Aristide no Haiti. Tal como na Venezuela, no exemplo haitiano os golpistas insistiram que Aristide foi quem provocou, com o seu comportamento, a crise institucional que levou à sua remoção do governo: desse modo, justificou-se a destituição do presidente. De fato, produzia-se – da mesma forma que no caso de Chávez, mas desta vez com êxito – uma inversão de valores, pois acabou se responsabilizando a vítima no lugar do vitimado.

A coalizão golpista e Washington aprenderam com um erro prévio no caso venezuelano: em vez de deter Aristide temporariamente, o embaixador dos Estados Unidos colocou o presidente haitiano deposto em um avião e o enviou à República Centro-Africana, onde havia se realizado um golpe de Estado exitoso em 2002 e o golpista François Bozizé fez redigir uma nova Constituição e foi eleito presidente em 2003.

Assim chegamos ao primeiro golpe de Estado exitoso na América Central no século XXI: no dia 28 de junho, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi derrubado. O presidente do Congresso, Roberto Micheletti, assumiu como presidente de fato. Os militares invadiram na residência oficial de Zelaya, o detiveram e o transferiram para a Costa Rica. Os golpistas da poderosa coalizão cívico-militar aprenderam as lições da Venezuela e do Haiti: preservando o funcionamento do Legislativo e do Judiciário, expulsaram do país o presidente constitucional.

No entanto, nessa oportunidade, a rejeição e o repúdio geral foram eloquentes. Todo o hemisfério, suas organizações políticas, as Nações Unidas, a União Europeia, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, ONGs de direitos humanos e governos de diversas orientações ideológicas se manifestaram massiva e unanimemente contra o golpe de Estado.

A coincidência de vozes fortemente críticas é muito alentadora. No entanto, se o golpe for vitorioso – e isso significaria que Zelaya não seria substituído nem sequer temporalmente na presidência –, então a tentação do neogolpismo regional crescerá. Os golpistas então terão aprendido uma nova lição: depor e executar o presidente no governo, simular que a crise era de tal envergadura que não havia outra opção que remover o Executivo, manter formalmente as instituições e esperar até que as políticas antigolpe da comunidade internacional se tornem improdutivas.

O caso de Honduras é muito transcendental: o futuro da democracia na América Latina está em jogo. E todos sabem disso, em Washington, em Caracas e em Buenos Aires. está em jogo. E todos sabem disso, em

Recursos do petróleo do pré-sal vão para um fundo social

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09

O novo marco regulatório para o petróleo irá prever um sistema de partilha de produção entre a União e as empresas ganhadoras das licitações para área do pré-sal e regiões estratégicas. A informação foi dada nesta segunda pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, após reunião ministerial, que contou com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A notícia é da Agência Brasil, 13-06-2009.

Lobão explicou que o sistema de concessão permanecerá para os contratos já firmados. O novo marco regulatório também prevê a criação de uma empresa estatal específica para o setor. Segundo Lobão, todos os recursos oriundos da venda do petróleo serão destinados a um fundo social para a manutenção de educação, saúde e questões sociais. “Os contratos de partilha renderão à União, que destinará os recursos ao fundo social, que será gerido pelo Ministério da Fazenda”, afirmou.

O sistema de partilha de produção prevê que o óleo pertence à União, e as empresas que são contratadas para explorar e produzir o petróleo recebem em troca um pagamento, que pode ser em dinheiro ou com parte da produção. Esse modelo é utilizado em países que são grandes produtores de petróleo, como Nigéria, Líbia e alguns países do Oriente Médio. De acordo com especialistas, a vantagem desse sistema é a garantia de que parte do petróleo produzido permaneça no Brasil.

A criação de uma estatal específica para cuidar da exploração dos novos campos de petróleo foi defendida pelo ministro Lobão desde o início das discussões sobre o óleo descoberto na camada pré-sal. Para ele, essa empresa poderia garantir que os lucros da exploração fiquem totalmente nas mãos do Brasil. A empresa deverá ter uma estrutura enxuta, com poucos funcionários, pois irá cuidar apenas da parte administrativa, valendo-se de outras exploradoras de petróleo como prestadoras de serviços.

Segundo o ministro, os últimos ajustes ainda serão feitos na proposta, que deve ser encaminhada ao presidente Lula em 15 dias. “O presidente vai ouvir algumas pessoas, fazer algumas consultas, e depois encaminhar ao Congresso Nacional, com recomendação de urgência constitucional”, informou o ministro.

O governo discute a criação de um novo marco regulatório para o petróleo há mais de um ano, depois que a Petrobras anunciou a descoberta de novos campos de produção na região do pré-sal. O pré-sal é uma área de cerca de 800 quilômetros de extensão, que vai do litoral do Espírito Santo até Santa Catarina. O óleo está localizado abaixo da camada de sal, a mais de 2 mil metros de profundidade.

Não poderia deixar de fazer um comentário sobre essa notícia. Observando as participações acionárias, 49% estão nas mãos de particulares, uma vez que, por lei a Petrobrás deve manter 51% das ações em seu poder.

Desses 49%, uma parte é negociada na Bolsa de NY, o que garante remessa de lucros da empresa para o exterior.

Dando uma olhada no quadro abaixo vemos o modelo de participação societária em diversos poços explorados pela empresa. Quero chamar atenção para o poço BM-S-22 (Azulão) em que a petrobrás só tem particpação de 20% . Bom, se a exploração do prés-sal seguir esse modelo podemos ter a seguinte situação: 49% são particulares, nos restaria 10,2% do poço para os cofres públicos, ou seja, 89,8% da riqueza ficariam em mãos particulares.

Essa é a principal razão pela qual, creio eu, que o ministro Edson Lobão e o presidente Lula defendem a criação de uma estatal que possa destinar 100% (retirando-se é claro os gastos com a terceirização do serviço) para os cofres públicos. Esse é um projeto que deve ser apoiado pelo povo brasileiro.



Obama deporta mais estrangeiros que Bush

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09

O governo do presidente Barack Obama está deportando mais imigrantes ilegais nos EUA este ano do que fez seu antecessor George W. Bush no ano passado.

A notícia é do jornal Valor, 14-07-2009.

A unidade de operações aéreas da agência de controle de imigração (ICE na sigla em inglês) enviou para seus países de origem este ano 4.200 imigrantes ilegais em média por semana. Sob o governo Bush, a média do ano passado foi de 3.700 pessoas por semana.

O aumento no número das deportações coincide com as tentativas do governo Obama de convencer o Congresso americano a aprovar ainda este ano uma ampla reforma nas regras sobre imigração.

Obama tenta obter apoio tanto de parlamentares de seu partido, o Democrata, quanto de oposicionistas do Partido Republicano. Os EUA têm quase 12 milhões de imigrantes ilegais vivendo e trabalhando nas sombras. O presidente apoia a ideia de oferecer àqueles que estejam em uma situação relativamente boa a possibilidade de pagarem uma multa e regularizarem sua condição no país. Essa política seria acompanhada de um aperto nas fiscalizações em empresas atrás de trabalhadores sem documentos e também na intensificação da segurança ao longo da porosa fronteira com o México.

Desde que assumiu a Presidência em janeiro, Obama mudou o foco das ações contra imigração ilegal. Em vez das batidas nos locais de trabalho para deter imigrantes ilegais - política adotada por Bush - o atual governo tem preferido identificar imigrantes que cometeram crimes e que estão em prisões americanas e mandá-los para casa.

"A polícia estava esperando por mim quando eu voltei das compras", disse Juan Sacaria, de 29 anos, um indígena de origem maia que foi condenado na Califórnia por agredir sua mulher. Na sexta-feira passada, ele foi embarcado num voo que saiu de um aeroporto de Phoenix com destino à Cidade da Guatemala. No mesmo voo viajaram outros 11 criminosos que voaram com mãos e pernas presas. Muitos dos deportados naquele voo foram apanhados logo depois de terem cruzado a fronteira ou então em diversas operações policiais durante às quais sua condição de ilegais foi descoberta.

O escritório de operações de detenção e remoção, vinculado ao ICE, deporta imigrantes ilegais para mais de 190 países. A entidade freta uma média de 9 a 10 voos por dia para enviar de volta imigrantes de volta a seus países. A imprensa americana já apelidou o serviço de "ICEAir". A maioria dos aviões ruma para a América do Sul e para a América Central e também para o Caribe.

Críticos dizem que a deportação funciona simplesmente como uma porta giratória. Isso por frequentemente os imigrantes que são expulsos voltam aos EUA e retomam suas vidas. Mas para muitos as ações do ICE são, sim, um meio de dissuasão além de mostrar a outros as consequências de viver no país ilegalmente - particularmente se a pessoa se envolve com crimes. "Se nós as encontramos, se elas têm um histórico de criminalidade e se foram deportadas anteriormente, há grandes chances de elas serem processadas", diz Eduardo Preciado, diretor assistente do programa de detenção e remoção do ICE no Arizona.

Alta do desemprego nos EUA atinge os países dos trabalhadores migrantes

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09

O desemprego americano está produzindo um efeito muito além das fronteiras dos próprios EUA e contribuirá, neste ano, para uma queda maior do que a esperada na quantidade de dinheiro que os trabalhadores migrantes mandam para casa, disse ontem o Banco Mundial.

A reportagem é de Tom Braithwaite e publicada no jornal Financial Times e reproduzida pelo jornal Valor, 14-07-2009.

A instituição financeira internacional disse que os fluxos mundiais de remessas de dinheiro para os países em desenvolvimento deverá cair de 7 % a 10 %, neste ano, mais do que uma estimativa anterior que previa declínio de 5% a 8%. Os fluxos de remessas, no ano passado, cresceram 15%, de US$ 285 bilhões em 2007 para US$ 328 bilhões, superando as estimativas.

Câmbios instáveis e uma intensificação nas políticas de comércio protecionistas poderão estrangular as remessas de dinheiro mais do que esperado, advertiu o Banco Mundial, sendo que o Reino Unido e a Rússia são os países em que é mais forte "o ânimo anti-imigração".

Mas são o desaquecimento econômico mundial e a taxa de desemprego de 9,5% nos EUA (a mais economia do mundo) estão produzindo o impacto mais significativo, fazendo com que os imigrantes que trabalham no país mandem menos dinheiro para suas famílias em toda a América Latina e o Caribe.
No México, as remessas de dinheiro neste ano caíram cerca de 11%, uma queda ao menos em parte atribuída ao desaquecimento no setor de construção civil americano -, tradicionalmente uma considerável fonte de emprego para migrantes mexicanos.

Dilip Ratha, economista sênior do Banco Mundial, disse que os números são "resilientes", apesar do declínio, e mesmo assim deverão suplantar o desempenho dos fluxos de capital privado para os países em desenvolvimento. Mas para ele, a queda "poderá criar substanciais dificuldades para as populações e governos [dos países beneficiários], especialmente aqueles sujeitos a déficits de financiamento externo".
O cenário mundial não é uniforme, tendo as remessas para a China e Filipinas crescido fortemente no ano passado, e as previsões são de que permanecerão em território positivo neste ano, apesar da depressão nas economias desenvolvidas em todo o mundo.

O Banco Mundial, porém, admitiu ser possível estar havendo algumas instâncias de "remessas inversas", casos em que migrantes desempregados que vivem em países desenvolvidos recebem apoio financeiro de suas famílias residentes nos países de origem. Mas o Banco acrescentou que o número desses casos é "muito provavelmente minúsculo e parece em declínio".

A Índia é o maior destinatário de remessas de dinheiro, totalizando estimados US$ 52 bilhões em 2008, seguida pela China com US$ 40,6 bilhões e o México com US$ 26,3 bilhões. Mas como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), o Tadjiquistão continua sendo o país mais dependente de remessas do exterior - elas representaram 46% do PIB em 2007.

O Tadjiquistão e outros países da Ásia Central viram a queda nas remessas da Rússia agravadas pela desvalorização do rublo. Apesar disso, o Banco Mundial ofereceu um registro otimista, destacando que uma recuperação no preço do petróleo poderá aquecer a demanda por trabalhadores migrantes na Rússia.

Na América Latina - apesar da forte queda prevista para este ano - o Banco Mundial disse haver "sinais incipientes de uma emergência do fundo do poço", com uma estabilização do mercado de trabalho para imigrantes nos setores americanos de indústria de transformação e de serviços.

Faltam 3 milhões de empregos na AL

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09

"Nas ruas da América Latina a crise econômica se define sem ambiguidade: desemprego. De fato, em 2009 a região deveria criar mais de 3 milhões de postos de trabalho somente para recuperar os níveis do ano anterior.Mas isto não vai ocorrer", escreve Jean Maninat, diretor regional da Organização Internacional do Trabalho para a América Latina e o Caribe, em artigo publicado no jornal O Globo, 14-07-2009. Segundo ele, "entre 2,8 e 3,9 milhões de pessoas podem somar-se às filas de desemprego, que no ano passado já afetava quase 16 milhões de latino-americanos".

Eis o artigo.

Nas ruas da América Latina a crise econômica se define sem ambiguidade: desemprego. De fato, em 2009 a região deveria criar mais de 3 milhões de postos de trabalho somente para recuperar os níveis do ano anterior.

Mas isto não vai ocorrer.

O grande desafio das economias latinoamericanas frente à crise é produzir empregos. Trata-se de apagar os rastros mais profundos que esta recessão nos deixa, a que golpeia as pessoas e suas esperanças. Além disso, os postos de trabalho são cruciais para restabelecer o consumo e apoiar o círculo virtuoso da recuperação.

Agora que começaram a ser detectados sinais de que a crise poderia ter chegado ao fundo, ou que, ao menos, tenha amainado, esse desafio é ainda mais urgente: segundo estudos da OIT, as crises afetam de maneira instantânea o emprego, mas, quando a recuperação chega, isto demora muito a notarse nos mercados de trabalho. Poderíamos conviver com esta falta de oportunidades de trabalho por mais cinco anos, com ou sem crise.

Quem busca esses milhões de empregos na região? Já sabemos que um número importante de pessoas perdeu o trabalho devido à crise. Além disso, deve-se levar em conta que a cada ano entre 3 e 4 milhões de pessoas se incorporam aos mercados de trabalho regionais, principalmente jovens, para os quais esta crise traduzse em falta de expectativas.

A turbulência que vivemos agita o mundo dos indicadores. As retificações são frequentes. Em todo o caso, os últimos dados disponíveis nos falam de um crescimento negativo em torno de 1,7 por cento na região latino-americana.

Este é o final de um ciclo positivo de cinco anos de crescimento e de queda no desemprego cuja taxa (urbana) agora poderia subir dos 7,5% registrados em 2008 para algo entre 8,7% e 9,1% em 2009, de acordo com um cálculo realizado conjuntamente pela Cepal e pela OIT.

Isso significa que entre 2,8 e 3,9 milhões de pessoas poderiam somar-se às filas de desemprego, que no ano passado já afetava quase 16 milhões de latino-americanos.

Quando se fala de postos de trabalho, atrás dos números sempre há pessoas.

Neste caso, esses números são um insumo poderoso para justificar que as políticas econômicas desta região coloquem a geração e preservação de postos de trabalho como seu objetivo fundamental. Isso, que parece óbvio, nem sempre é assim. Durante anos os esforços se concentraram em outros indicadores, assumindo que o mercado de trabalho reagiria automaticamente, o que, com frequência, não aconteceu. No momento atual, já não existe espaço para essas experiências.

Enfrentar esta crise laboral é a meta fundamental do Pacto Mundial para o Emprego, aprovada por governos, empregadores e trabalhadores de todo o mundo na reunião anual da OIT em Genebra.

Este pacto é um compromisso de buscar o caminho mais adequado com o objetivo de gerar postos de trabalho, redirecionando investimentos, investindo recursos para estimular a economia real, pondo em prática políticas para que as empresas sejam sustentáveis, protegendo as populações mais vulneráveis, recorrendo ao diálogo social para obter acordos, entre outras recomendações.

Na América Latina existem vários países onde se começou a trilhar este caminho. Mas é fundamental não perder de vista o objetivo de gerar trabalho decente, de converter os planos em ações e não nos desviarmos do caminho. Se não tivermos êxito, os que buscam emprego se sentirão frustrados e decepcionados, o aumento da pobreza será notório, a saída da crise poderá ser imobilizada e tudo isto poderia afetar a governabilidade democrática.

''Nosso modelo não é comunista, mas comunitário'', afirma aymara da Bolívia

Instituto Humanitas Unisinos - 14/07/09

Fernando Huanacuni, uma das principais referências intelectuais dos aymara na Bolívia, sustenta que a base do processo de mudança no país está na retomada de culturas originárias.

A reportagem e a entrevista é de Vinicius Mansur e publicadas pelo jornal Brasil de Fato, 13-07-2009.

O atual processo político boliviano, sem dúvida alguma, está entre os que mais despertam o interesse da esquerda brasileira. O elevado grau de protagonismo dos movimentos populares na política nacional, o simples fato do país ter elegido um presidente indígena, os embates acirrados com uma elite racista – que fazem de um golpe de Estado uma possibilidade plausível –, as lutas internacionais para garantir a soberania sobre seus recursos naturais, a forte presença do componente étnico como motor de mobilização, as mudanças feitas na Constituição de um país que agora se define como Estado Plurinacional, entre outros elementos, atraem os olhares para a Bolívia e a credenciam como um dos principais laboratórios políticos da atualidade.

A originalidade que compõe este processo político, porém, torna difícil a sua compreensão a partir de análises clássicas. É difícil até sistematizar a diversidade de organizações que fazem frente aos grandes capitalistas do país, o que dirá compreender qual o projeto move cada uma delas. Se olharmos só para o movimento indígena, deixando de lado outros movimentos populares, o sindicalismo e a organizações partidárias, veremos uma organização massiva e multifacetada, composta por culturas que nasceram, pelo menos, cinco mil anos antes do pensamento moderno ocidental. (O plurinacionalismo boliviano reconhece 36 povos originários).

Fernando Huanacuni, 43 anos, nasceu nas montanhas de Illimani, ao sul de La Paz. Ele pertence à comunidade Sariri, um grupo de descendentes e não-descendentes de povos originários que se reúne para estudar, viver e difundir a cultura dos povos, que antes da colonização espanhola, habitavam os Andes. Também é diretor de protocolo do Ministério das Relações Exteriores do governo Evo Morales e um dos responsáveis por um programa de TV no canal boliviano RTP, que se dedica a debater a cultura andina e os temas da conjuntura.

Eis a entrevista.

Durante um seminário sobre culturas originárias, você disse que vivemos “tempos de mudança” e que essa mudança não é só política, mas muito maior. Do que você está falando?

O pensamento indígena originário, não só da Bolívia, mas de outros países, como os povos amazônicos do Brasil, tem a mesma explicação, a mesma projeção da história. A vida tem ciclos. Termina a noite, começa o dia. Em um ano, existem épocas secas, épocas de chuva, épocas de frio. Mas esses são ciclos pequenos. Existem ciclos muito maiores, que o indivíduo não se dá conta porque vive somente 80, 90 anos. E os ciclos são de 500, de mil, de quatro mil, de 20 mil, de 40 mil anos. Um sol tem um ciclo de quatro mil anos de história, sendo dois mil anos de ascenso e dois mil anos de descenso. Assim, existem os dias da história e as noites da história. O ascenso é o dia da história, o descenso é a noite da história E, para nós, em 1992 (que no calendário aymara corresponde ao ano 5500), terminou um sol. Então, a história vai voltar a ascender.

Mas como ela vai voltar a ascender?

Nossos avós, de diferentes culturas indígenas, sabiam desses ciclos, do renascimento do sol, por isso começaram a se organizar. Em 1992, diferentes povos se reuniram para poder começar esse novo sol. E as culturas antigas guardaram, sobretudo, valores e princípios, e isso é o que agora está renascendo, porque é necessário, é questão de vida, não somente algo político ou social. Apesar da parte política ser a que mais se vê, a parte espiritual, as oferendas, as cerimônias, é que são a base fundamental de toda a força política, social , jurídica, econômica, educativa.

Mas essa organização alavancada a partir de 1992, esses valores e esses princípios fazem parte hoje da cultura viva desses povos?

Nos anos 1980, quando íamos para o Willkakuti (o ano novo aymara) em Tiwanaku, éramos poucos, mas havia gente. Antes, nos anos 1970, 1950, 1940, 1930, no ano 1900, para você ter uma ideia, somente se tinha festa nas casas, com nossos avós, nada mais. Mas nunca desapareceu essa cerimônia. Em 1992, ganhamos força, e agora tem mais gente. Neste ano, haviam 20 mil pessoas. No México – em Teotihuacan, Tchenltza, Tenochtitlan – e até na Inglaterra fizeram cerimônias como estamos fazendo. No Peru, na Colômbia, de norte ao sul, fizeram suas cerimônias. Somente elas não são amplificadas pelos meios de comunicação. Aqui já estão difundindo um pouco, porque já é mais forte o movimento.

E para que servem as cerimônias?

Para lembrar ao humano que ele tem um coração, que existe o pai Sol, que existe a mãe Terra. Queremos recordar que é muito importante agradecer. Nós não vivemos sós. Eu trabalho, você trabalha, mas não é por isso que existe vida. Existe vida porque existe sol, porque existem ciclos, porque existe chuva, porque existem sementes, porque existem rios, porque existem montanhas, porque existem árvores. Temos que despertar e entender que a vida é uma complementação e reciprocidade do todo, um equilíbrio perfeito. E, se destroçamos uma parte, vamos destruir tudo.

Aqui, nós dizemos Pachamama,ou Madre Tierra. Em outras partes, os indígenas dizem Madre Selva, Madre Agua. Então, identifica-se que nós não somos seres humanos e natureza, mas parte da natureza, não somos superiores. Essa forma de pensar existe da cultura antiga. O renascimento do tempo está nos convidando para que voltemos a essa antiga forma de pensar. Não podemos fazer mais danos à mãe Terra, essa é a primeira mensagem. Todos os povos indígenas originários, desde o Alasca, estão saindo em defesa da vida. Estamos convidando todos os Estados a dar um giro em suas políticas, seus decretos, suas Constituições. Até agora, somente as Constituições de Equador e Bolívia sabem que existe a mãe Terra, enquanto todas as outras Constituições só falam em direitos humanos. E isso não é viável, porque a vida não é só humana.

Muitos discursos de governo na Bolívia falam em descolonização, especialmente aqueles ligados às políticas culturais. Essa descolonização significa resgatar a cultura antiga?

Temos que ver o que trouxe a colonização. O processo de colonização individualizou o pensamento, nos dessensibilizou. Já não se sente sequer pelo outro, pelo humano, quanto menos pelos animais, pelas montanhas. Se um tem comida, não importa se os demais têm. O processo de descolonização agora tem que sensibilizar, tem que nos naturalizar e nos fazer voltar ao conceito comunitário. Para as pessoas de pensamento ocidental, o sol é simplesmente um astro, nada mais. Para nós, é o pai Sol, nos referimos a ele com respeito, porque sua energia dá a vida. Quando a mãe Terra se desperta, nós damos alimento a ela, porque ela não é somente um objeto inerte, mas um ser que vive. Então, temos que despertar as pessoas. Estamos ilhados em nossas casas e apartamentos nas cidades, desintegrados. Temos que conectar outra vez o que a colonização desconectou.

Minha avó não falava espanhol, falava aymara. Na verdade, pacha-aru, a língua da vida. Falava com os animais, com o vento, entendia suas distintas formas de soprar. Minha mãe segue falando, eu só sei um pouco. Bom, você deve ter visto pelos meios de comunicação que, no episódio do Tsunami, os animais de lá se retiraram para o centro da ilha dois dias antes da tragédia. adiantou a tragédia para eles? CNN? Animal Planet? Não, pacha-aru. E os seres humanos o que fizeram? Colocaram bronzeador e foram para a praia.

E hoje, qual relação os países de culturas colonizadas da América Latina devem estabelecer com os países de culturas colonizadoras, de origem europeia?

Primeiro, eu diria que os latinoamericanos têm que se encontrar com os indígenas, para depois poder dialogar com a Europa. O seu pensamento não está relacionado com o movimento indígena, tornaram o movimento indígena invisível porque pensavam que ele era inferior. Eles simplesmente imitaram a Europa. Dizem América Latina, percebe? Para nós, somos Abya Yala, assim chamamos nosso continente há milhares de anos. E te digo mais: temos mais diálogos com os europeus do que com os latinoamericanos.

Por que isso acontece?

Porque os latinoamericanos querem ser como os suíços, os alemães, os ingleses, os italianos, seguem no processo de colonização. O indígena amazônico ainda briga com os garimpeiros. Estes destroem florestas, destruíram arvores mãe, árvores pai, árvores de milhares de anos, as cortaram para mandar para o mundo ocidental. Para nós, são as avós, os avôs, é vida, são nossos mestres. O indígena chorou muito e segue chorando porque desequilibraram tudo. E os europeus estão mais preocupados. O europeu se deu conta da poluição. Já chegaram ao extremo de seu capitalismo, do desenvolvimento da modernidade, já foram ao abismo e sabem que essa não é a resposta. Esse modelo o deixou doente e estão buscando alternativas, por isso procuram os indígenas com maior força. Vieram buscar aqui nossos arquitetos, não os que são formados em universidades, mas os que trabalham no campo, para aprender a fazer adobe (casas construídas de barro). Os europeus sabem que nessas casas ficam menos doentes. Mas, um dia, quando a modernidade já não puder dar as respostas, os latinoamericanos vão se dar conta que a resposta estava ao seu lado, só não queriam nos escutar porque pensam que não somos muito inteligentes.

Para além do movimento indígena, você não vê na América Latina um processo conjunto de descolonização?

Agora está havendo uma confusão entre socialistas e povos indígenas. Quando Evo MoralesChávez disse que era seu irmão indígena, com seu discurso do socialismo do século XXI, com seu pensamento de esquerda, que é ocidental. Mas, na Venezuela, recém estão descobrindo os povos indígenas. Muitos estão pensando que o movimento boliviano é socialista, mas é um movimento indígena. Nosso modelo não é comunista, mas comunitário. ascendeu,

Mas o partido organizado pelo presidente se chama Movimento ao Socialismo (MAS).

Sim, mas o nome MAS foi comprado, nada mais. Ele estava registrado na Corte Nacional Eleitoral e foi emprestado para o Evo poder se candidatar, foi algo circunstancial, percebe? Nós pensamos que o socialismo, o comunismo e o capitalismo são iguais. Porque só pensam no humano, são individualistas, são homogeneizadores e materialistas. Você não vai ver um comunista fazendo cerimônias, não vai vê-lo honrando seus ancestrais, não vai vê-lo cuidando da lhaminha. Ou melhor, vai cuidar da lhama porque é um bom negócio para vender.

Existem marxistas que mantêm crenças. No Brasil, por exemplo, existem marxistas que mantêm sua religiosidade cristã. Você pode dizer que o cristianismo é ocidental também, mas existem marxistas que mantêm crenças de origem africana. Você não vê sintonias com os marxistas?

Partimos de premissas. Quando falamos de comunidade, não falamos só de humanos. Comunidade é tudo: animais, plantas, pedras. E não para vender. Por exemplo, no governo boliviano, existem marxistas. Bom, nosso país tem uma reserva muito grande de lítio e sua exploração é alvo de muitas especulações. O lítio pode deixar a Bolívia poderosa. Mas o mundo indígena não quer explorar o lítio. O marxista quer, tem somente um pensamento material. Nós preferimos não explorar porque é importante para o equilíbrio da vida. Mas o marxista não pensa assim. Para mudar o sentido de um rio, o marxista vai colocar tratores e pronto. O indígena vai dizer “não, calma, espera, vamos pedir permissão para os nossos ancestrais e vejamos se é bom”. O marxista vai dizer “claro que é bom, aqui vamos produzir”. Ele não vê importância no espiritual, não o sente. Por isso ainda não está entendendo.

E dentro dessas premissas, o que fazer com a vida nas cidades?

Essa resposta tem que se buscar na Europa. Eles estão buscando alternativas. Mas, o movimento indígena não é só do campo, é uma forma de vida e um convite a viver com respeito. As montanhas estão degelando. Vai faltar água. E isso vai afetar a todos, brancos, mestiços, indígenas etc. Por isso, necessitamos de novas formas de política, porque as atuais não nos permitem resolver. E isso é incumbência de todo mundo. O ocidente tem buscado respostas e o povo indígena as está dando: para que todos tenhamos alimentos, temos que produzir com os ciclos da natureza, não somente com elementos químicos, ou de maneira anormal ou antinatural. Os povos originários estão avisando que as mudanças da história são também mudanças de ciclos naturais. Por isso, devemos aproveitar este momento e voltar ao paradigma comunitário e ao seu modelo pedagógico, jurídico, de governo. Aqui, por exemplo, nas comunidades, não há eleições. Nós não queremos a democracia, como agora se conhece, porque ganha o que faz mais campanha, o que tem mais dinheiro, o que tem mais poder de influência nos meios de comunicação. Aqui, um é a autoridade em um ano, no ano seguinte é outro, no seguinte outro, ninguém pode repetir. Todos têm que participar e todos têm que se desenvolver como autoridade. Porque se alguém se mantém, algo vai falhar na sua mente e tudo vai se desequilibrar. Então, para que descanse, se passa para o outro.

Rio Purus

Por Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 30 de junho de 2009

“É que o grande rio, malgrado a sua monotonia soberana, evoca em tanta maneira o maravilhoso, que empolga por igual o cronista ingênuo, o aventureiro romântico e o sábio precavido.” (Professor Frederico Hartt)

Meu companheiro de viagem, na nossa descida de caiaque pelo Solimões, não entendeu porque eu planejara navegar pelo Rio Purus, abandonando o leito do Solimões. Se meu amigo desfolhasse as páginas amareladas da história deste heróico e misterioso manancial, certamente chegaria à conclusão de que não poderíamos, absolutamente, passar ao largo da foz do ‘Rio da Trindade’. Eu precisava absorver um pouco daquele ser místico, precisava submergir nos quatro séculos passados de tantos desafios em que os ‘desbravadores’ tentaram descobrir seus segredos, conhecer sua história. Precisava sentir nas águas de hoje o colossal ‘Lago Pebas’ de priscas eras.

- Rio Purus

“Realmente, o Purus, um dos mais tortuosos cursos d’água que se registram, é também dos que mais variam de leito. Divaga, consoante o dizer dos modernos geógrafos”. (Euclides da Cunha)

Nasce nas colinas do Arco Fitzcarrald, Serra da Contamana (região de Ucayali), no Peru, há aproximadamente 500m de altitude e percorre cerca de 3.300 km até sua foz no Solimões. Com características de rio de baixada, de águas barrentas, rica em sedimentos andinos, é classificado como rio de água branca. Possui um traçado muito sinuoso, cheio de curvas bem fechadas, e drena uma área de aproximadamente 376.000,00 km². Deste total, 73% se encontra no Estado do Amazonas, 21% no Estado do Acre, 5,5% no Peru e 0,5% na Bolívia.

O rio Purus entra no Brasil pelo estado do Acre, no município de Santa Rosa do Purus, passando pelo município de Manoel Urbano, entrando no estado do Amazonas pelo município de Boca do Acre onde recebe as águas do Rio Acre e segue pelo estado do Amazonas até desaguar no rio Solimões.

- Lendário Purus

Envolto em mistérios e fantásticas lendas, muitas delas motivadas pelos temores dos antigos desbravadores europeus, outras tantas pelos nativos, seus antigos habitantes e guardiões, o Purus vem cativando a memória ancestral dos povos através dos séculos sem perder seu encanto e seu carisma carregado de fantasias que o alimentam desde seu berço nos contrafortes andinos até a foz no Solimões.

- Frei Gaspar de Carvajal

“A ilha que existe fronteira à boca do Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se ‘Ilha da Consciência’; e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juruá. É uma preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam ao paraíso diabólico dos seringais, abdica às melhores qualidades nativas e fulmina-se a si próprio, a rir, com aquela ironia formidável”. (Euclides da Cunha)

Gaspar de Carvajal, em 03 de junho de 1542, relatou no seu manuscrito intitulado ‘Relación del descubrimiento del famoso río grande de las Amazonas’ a passagem de Orellana pela foz do Rio Purus e as aldeias à jusante de sua foz no Solimões: “... viemos a encontrar com outro rio mais caudaloso e maior, pelo braço direito; era tão grande que na entrada havia três ilhas, razão pela qual o denominamos Rio da Trindade (Purus); além disso, na junção dos dois rios, havia muitos e populosos povoados na bela terra de Omágua, e por serem muitas as aldeias e tão grandes e com muita gente, o Capitão não quis aportar. (...)

Havia nesse povoado, uma casa de diversões, dentro da qual encontramos louças dos mais variados feitios: havia vasos e cântaros enormes, de mais de vinte e cinco arrobas, e outras vasilhas pequenas como pratos, tigelas e castiçais, de uma louça da melhor que já se viu no mundo, mesmo a de Málaga não se iguala a ela, porque é toda vitrificada e esmaltada com todas as cores, tão vivas que espantavam, apresentando, além disso, desenhos e figuras tão compassadas, que naturalmente eles trabalhavam e desenhavam como os romanos. Os índios nos disseram que o que havia ali na terra a dentro era de ouro e que nos levariam até lá, pois era perto. Nessa casa achamos ainda dois ídolos tecidos de palha trançada de vários modos, que chegavam a espantar, tendo a estatura de gigantes e, na parte musculosa do braço, umas rodas com forma de bracelete, assim como na coxa, próximo dos joelhos. Tinham enormes orelhas furadas, como os índios de Cuzco, só que eram maiores. Este tipo de gente reside terra a dentro e possui a riqueza já contada e é para sua recordação que os ídolos ficam ali.”

- Padre Cristobal de Acuña

Acuña, em 1639, menciona no Capítulo LXIII - O Rio dos Gigantes, de sua crônica ‘Novo descobrimento do rio das Amazonas’: “Dez léguas adiante do referido sítio tem fim a província dos Yoriman, e transcorridas outras duas léguas, desemboca na margem sul um famoso rio que os índios chamam de Cuchiguará. Tal rio é navegável, ainda que em certas partes tenha algumas pedras. Tem muito pescado, grande quantidade de tartarugas, abundância de milho e mandioca e tudo o que for necessário para facilitar sua exploração. Está povoado por várias nações que, começando por sua boca e prosseguindo rio acima, são as seguintes: Cuchiguará, que tomam seu nome do rio, Cumayari, Guaquiari, Cuyariyayana, Curucuru, Quatausi, Mutuani e por fim e remate de todos, estão os Curigueré. De acordo com informações de pessoas que os viram e que se ofereciam a levar-nos a suas terras, são eles gigantes de dezesseis palmos de altura, muito valentes, andam nus e trazem grandes pátenas de ouro nas orelhas e narizes. Para chegar a suas aldeias são necessários dois meses contínuos de viagem desde a boca do Cuchiguará”.

- Guillaume d’Isle

D’Isle, geógrafo da Academia Real de Ciências de Paris, em 1703, fez um hipotético esboço cartográfico do Purus (mapa do ‘Rio do Omopalens’) que segundo ele nascia nos cerros andinos, acima da cidade de La Paz. D’Isle anexou, ao esboço, um comentário sobre os povos que nele habitavam: ‘mutuanis, dos quais se diz serem gigantes ricos em ouro, habitantes a dois meses de caminho da embocadura do rio’.

- Carl Friedrich Phillipp von Martius

O naturalista Martius, nas sua ‘Viagem pelo Brasil’, em 1817/1820, escreve que: ‘Acerca do Purus, calam-se todas as mais recentes notícias’. Sobre os nativos que habitavam suas margens afirma que “todos ainda em estado de absoluta selvageria e conhecidos por sua perfídia. Eles colhem aqui abundantes plantas medicinais, o cacau e a salsaparrilha, e permutam com as expedições que frequentam o rio, onde as duas partes contratantes se apresentam de armas na mão” e conclui: “Ninguém se aventura ainda a fundar missões no Purus”.

- Antonio Ladislau Monteiro Baena

Militar, geógrafo e historiador português chegou ao Pará em 1803. Como oficial do Exército Brasileiro atuou na repressão à Cabanagem chegando a alcançar o posto de Major de Artilharia. Escreveu o ‘Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará’ que se constitui numa verdadeira enciclopédia, feita com pesquisa de campo, arquivos das paróquias, cartórios e Câmaras Municipais. Na sua obra, encontramos dados demográficos sobre economia, finanças públicas, descrição sobre a administração pública e judiciária da Província, além de informações sobre a flora e a fauna e os diferentes ecossistemas da região. Baena afirma no seu ‘Ensaio’ que o Purus é um “rio opulento de cacau, salsaparrilha, óleo, tartarugas, peixe-boi: as sezões invadem os que intentam colher estas e outras mais produções suas. Ele é de água branca, as margens em grande são campinas de umas serras ao norte de Cuzco, antiga capital dos infortunosos incas”.

- Expedições oficiais

“O Purus é um enjeitado. Precisamos incorporá-lo ao nosso progresso, do qual ele será, ao cabo, um dos maiores fatores, porque é pelo seu leito desmedido em fora que se traça, nestes dias, uma das mais arrojadas linhas da nossa expansão histórica”. (Euclides da Cunha)


A partir de 1852, João Batista Tenreiro Aranha, presidente da província do Amazonas, desmembrada do Grão-Pará, nesse ano, passou a organizar diversas expedições de exploração, procurando estabelecer uma comunicação com a Bolívia pelo Juruá e pelo Purus.

- João Rodrigues Cametá

Cametá, em 1852, diretor de índios, organizou a primeira exploração do Purus, realizando uma expedição que durou 53 dias de navegação em canoa até o Sepatini de onde retornou em decorrência da vazante do rio.

- Serafim Salgado

“Realmente nesse afanoso derruir de barrancas, para torcer-se em seus incontáveis meandros, o Purus entope-se com as raízes e troncos das árvores que o marginam”. (Euclides da Cunha)

Ainda em 1852, presidente da Província, organizou uma segunda penetração, objetivando descobrir uma comunicação fluvial que se dizia existir entre as bacias do Purus e do Madeira com o propósito de facilitar a comunicação e transporte com a Bolívia. Salgado subiu o curso do rio até a nona maloca dos índios Cocamas, provavelmente pouco além da confluência da boca do Aquiri (Acre) de onde retornou, depois de percorrer 2.250 milhas, tendo em vista que a partir daí o rio se tornava muito estreito e obstruído.

- Manoel Urbano da Encarnação

Em 1861, Manoel Urbano, o preto, Diretor dos Índios do Purus, nomeado para esse cargo desde 1853, cumprindo ordens do presidente Manoel Clementino Carneiro da Cunha, subiu o rio e penetrou o Ituxi retornando ao Purus, num percurso de 2.800 milhas, tentando achar uma rota para a Bolívia por terra ou água. Entrou no rio Aquiri (Acre) penetrando nas terras do atual estado do Acre, retrocedeu ao Purus e entrou no Mucuim, afluente da margem direita, enveredou, via terrestre, por quilômetros de matas alcançando o rio Madeira e retornando, novamente, ao Purus. No seu percurso, contatou diversos povos indígenas, entre os quais os Manchineri, relatando que estes nativos, bastante evoluídos, plantavam, fiavam e teciam o algodão, confeccionando roupas e redes semelhantes àquelas usadas pelos bolivianos que desciam o rio Madeira.

Manoel Urbano, em 1865, novamente, subiu o rio, tentando descobrir no rio Ituxi o enlace entre o Purus e o Madeira. Subiu o Mucuim passando ao salto do Teotônio, no Madeira. Navegou durante quinze dias e empreendeu uma marcha terrestre por dois dias atravessando o divisor de águas entre a bacia dos dois rios. Tentou estender ao Ituxi as mesmas operações de reconhecimento, mas a falta de víveres obrigou-o a retornar.

- João Martins da Silva Coutinho

Em 1862, procurando obter informações mais precisas sobre o Purus, o governo amazonense resolveu organizar uma expedição comandada por uma ‘pessoa possuidora de conhecimentos capazes de realizar uma verificação científica e mais profícua’ da região. A expedição comandada pelo engenheiro João Martins da Silva Coutinho acompanhado por Manoel Urbano da Encarnação, na função de prático, contou, também, com a colaboração do botânico alemão Gustav Wallis encarregado de realizar levantamentos hidrográficos, geológicos, da flora e dos povos indígenas, destacando os ‘meios mais eficazes para vinculá-los à civilização’. Cabia à expedição, ainda, encontrar a passagem do Purus ao Juruá descoberta anteriormente por Manuel Urbano. A expedição subiu apenas até Hiutanaã, sem alcançar o varadouro, mas produziu informações importantes sobre o Purus.

- William Chandless

William Chandless, em 1864, foi enviado pela Royal Geographical Society of London para examinar o que havia de concreto entre esta histórica conexão entre os rios Purus e Madeira. Com equipamentos apropriados Chandless fez várias medições da extensão dos rios e marcou várias coordenadas, chegando a ilustrar o seu trabalho com um mapa do rio, provando a navegabilidade do Purus e concluindo que ele não nascia nos Andes, não sendo o Madre de Dios a sua fonte. O geógrafo inglês também descreveu o relevo, o clima, a hidrografia, a vegetação, a fauna, a vazante e os costumes de alguns povos indígenas. Avançou mais que as expedições anteriores, mas também não conseguiu encontrar uma passagem para a Bolívia. Chandless adentrou o rio Juruá, e teve sua viagem interrompida, em 1867, em decorrência de um ataque dos índios ‘Nawa’ 346 milhas acima da boca do Tarauacá, no local posteriormente denominado seringal Ouro Preto, pouco acima da foz do Riozinho da Liberdade.

Luiz Agassiz, em 1866, no seu livro ‘Viagem ao Brasil (1865-18660)’, comenta no Capítulo XIII – História Física do Amazonas, sob o título Fósseis crustáceos: “Além dos fósseis de que já falei, tive recentemente outra prova da existência da greda na parte meridional da bacia amazônica. Em seu regresso de longa viagem ao Rio Purus, o Sr. William Chandless presenteou-me com uma coleção de restos fósseis do mais alto interesse, pertencentes incontestavelmente ao período cretáceo. Ele mesmo os recolheu no rio Aquiri (Acre), afluente do Purus”.

- Asrael D. Piper

O explorador norte-americano, a serviço do governo boliviano, chegou na Bolívia em 1868, subiu o Purus, em 1871, e estabeleceu um barracão entre os Manchineri da Bolívia, com o propósito de povoá-lo sem ultrapassar a área percorrida por Chandless. Transportou nas suas viagens levas de nordestinos. Em 1880, o povoamento iniciado por Piper ultrapassava a foz do rio Iaco, atingindo a foz do rio Chandless em 1883 e do Santa Rosa em 1884.

- Coronel Antônio Rodrigues Pereira Labre

Labre, em 1871, fundou um povoado que mais tarde se chamaria São Luiz de Lábrea e que viria a se tornar parte do Território do Acre. Foi o primeiro desbravador a viajar de barco de Lábrea ao rio Acre, via Madeira e Beni.

- Capitão Hoefner

Em 1872, Barrington Brown e William Lidstone percorreram o Baixo-Purus, até Huitanaã, embarcados na lancha Guajará, sob o comando do Capitão Hoefner.

- Tenente Augusto José de Souza Soares

Em 1875, uma expedição comandada pelo primeiro Tenente da Armada Augusto José de Souza Soares tinha como missão encontrar a comunicação entre o Madre de Dios e o Purus. Embora Chandless já houvesse afirmado que não existia essa passagem, a dúvida permanecia. O Tenente partiu com a missão de ultrapassar a região já desbravada por Chandless, devendo explorar as nascentes do Iaco e de outros afluentes do Purus. Coletou diversas informações sobre a região, mas não achou a pretendida ligação com a Bolívia.

- O encontro dos ícones

Em outubro de 1905, embarcam no vapor Rio Branco, que estava ancorado na ‘Boca do Acre’, confluência do rio Acre com o Purus, dois ícones da nacionalidade brasileira, Plácido de Castro e Euclides da Cunha. Plácido de Castro tinha comandado o vitorioso Movimento Revolucionário Acreano, que resultou na incorporação das terras bolivianas ao Brasil. Euclides da Cunha chefiara a ‘Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus’, cuja missão era mapear o rio Purus, desde a foz, no Solimões, até suas cabeceiras, definindo as fronteiras do país com a Bolívia e o Peru.

A viagem da Boca do Acre a Manaus durou uma semana e neste período aconteceu o encontro histórico. Euclides da Cunha solicitou a Plácido de Castro que redigisse um histórico da campanha, desde 1902, que culminou com a conquista do Acre. Plácido escreveu os apontamentos a lápis na própria caderneta de Euclides, e manteve longas conversas com o escritor, relatando, além da campanha pela anexação, a dinâmica da extração da borracha, seu ciclo produtivo e a vida nos seringais.

Fontes:

CASTELLO BRANCO, José Moreira Brandão - O Juruá Federal: Território do Acre - Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - Brasil - Rio de Janeiro - Imprensa Nacional, 1930.

TOCANTINS, Leandro - Formação histórica do Acre - Brasil - Rio de Janeiro - Civilização Brasileira, 1979.