"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, novembro 16, 2007

Instituto Humanitas Unisinos - 15/11/07

Califórnia move ação contra Washington para reduzir emissões de CO2

No dia 8 de novembro, a Califórnia moveu uma ação contra o governo federal americano, para forçar Washington a decidir se o Estado da costa oeste tem o direito ou não de impor aos fabricantes de automóveis uma regulação estrita de emissões de gás poluente dos veículos. A reportagem é do Le Monde, 9-11-2007. A tradução é do Cepat.

Se a iniciativa der certo, a Califórnia será o primeiro Estado americano a tomar este tipo de medida restritiva, temida pelos fabricantes americanos. Cerca de 12 outros Estados poderão pisar no calcanhar dessas empresas se a Califórnia obtiver o sinal verde da lei federal.

Um porta-voz do procurador geral de um desses Estados, o de New Jersey, declara: “É hora de a EPA [a Agência federal para a proteção do ambiente] se decidir a agir ou de liberar o caminho”. A ação do Estado da Califórnia visa especificamente a EPA. Ela estava sendo aguardada desde que o governador republicano da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, havia anunciado na primavera sua intenção de mover a ação.

Desde dezembro de 2005, a Califórnia reclama uma emenda à lei federal sobre o ar próprio, a fim de ela incorpore um texto legal californiano instituindo uma regulação das emissões de gás de efeito estufa dos carros e dos caminhos ligeiros. Onze outros Estados adotaram disposições similares visando a lutar contra o aquecimento do clima, e cinco outros estão dispostos a fazer o mesmo.

Em sua ação de 16 páginas, o procurador geral da Califórnia explica: “Quanto mais retardarmos a redução das emissões [de gás de efeito estufa], tanto mais o impacto do aquecimento na Califórnia será caro e prejudicial”. Arnold Schwarzenegger afirma que uma modificação da lei federal é indispensável se a Califórnia quiser atingir seu objetivo de diminuir suas emissões anuais em 25% até 2020, objetivo inscrito na legislação californiana desde 2006.

Instituto Humanitas Unisinos - 15/11/07

Lucro das construtoras dispara

A nova safra de balanços das companhias imobiliárias, que terminou ontem com números grandiosos de lucro, confirma a nova era de euforia no setor. Os crescimentos foram de, no mínimo, dois dígitos. O da Rodobens foi de 1.155%. Algumas empresas saíram do vermelho. Com a queda dos juros, a melhora na renda e a disposição dos bancos em alongar os prazos de financiamentos, o brasileiro passou a comprar imóveis num ritmo há muito tempo não visto, dando uma escala inédita às empresas de capital aberto. A reportagem é de Patrícia Cançado e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 15-11-2007.

O caso da Cyrela, maior companhia imobiliária do País, é emblemático. Ontem, ela divulgou um lucro 187% superior ao do terceiro trimestre de 2006. No acumulado de janeiro a setembro, os ganhos dobraram em relação a 2006 e atingiram R$ 330,7 milhões. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), indicador que mede a capacidade de geração de caixa de uma companhia, cresceu nada menos que 318%.

Nesse setor, o lucro não é a melhor forma de medir o desempenho das empresas. Ao contrário dos bancos ou de uma indústria tradicional, o ciclo do negócio é mais longo. Os ganhos que elas têm hoje também são resultados de lançamentos feitos há dois ou até três anos. Mas o crescimento do lucro não deixa dúvida: o ritmo dos negócios mudou radicalmente.

As empresas estão lançando mais produtos, vendendo mais rápido e com menos custo. “O mercado ganhou uma escala diferente. E o principal facilitador dessa situação é o aumento do financiamento”, diz o gerente de relações com o investidor da Gafisa, Bruno Teixeira. “Muitas empresas que antes faziam lançamentos de R$ 80 milhões, agora, com abertura de capital, chegam a R$ 1 bi.” Cálculos da Cyrela prevêem que os lançamentos podem chegar a R$ 50 bi, 40% a mais que em 2007. Só as empresas listadas na Bolsa podem despejar projetos de mais de R$ 30 bi no próximo ano.

Segundo levantamento feito pelo núcleo de Real Estate da Poli/USP, a capacidade de investimento das empresas ficou oito vezes maior nos últimos dois anos. “Com todo esse dinheiro entrando, é natural que os lucros venham bons. Eles só seriam ruins se o foco das empresas estivesse errado. E parece que esse não é o caso”, afirma o professor da Poli/USP, João da Rocha Lima Jr.

Ainda é cedo para dizer se as empresas continuarão com resultados muito acima da média dos outros setores. A tendência desse negócio é ganhar ainda mais escala. Os financiamentos imobiliários representavam apenas 2% do PIB em 2006. As empresas trabalham com cenário otimista: porcentuais entre 10% e 15% em cinco anos.

Instituto Humanitas Unisinos - 15/11/07

Um retorno ao passado para entender o futuro. Entrevista especial com Gunter Axt

O processo e o contexto histórico brasileiro, platino e mundial são, freqüentemente, analisados à margem da história do Brasil e do Rio Grande do Sul. Ainda que possua um histórico peculiar, todo o processo que envolveu a construção do Estado depende muito desse contexto mais englobado e pouco analisado. Com o intuito de resgatar a história do Estado, entendendo-o globalmente, um grupo de historiadores lançou “História Geral do Rio Grande do Sul” (Porto Alegre: L&PM Editores, 2007). São análises diversas, de diferentes pesquisas, que visam a entender o Rio Grande do Sul como um todo. Um dos períodos de maior destaque e debatido amplamente ainda hoje é a República Velha, tema do terceiro tomo do livro.

Sobre o período e seus contextos, a IHU On-Line conversou, por telefone, com Gunter Axt, que fala das reflexões que podem ser realizadas a partir deste assunto e sobre a importância desse resgate histórico. “A história tem esse dinamismo, as perguntas formuladas sobre o passado partem justamente de impasses e desafios vividos no presente. E é sempre uma riqueza as pessoas consultarem o manancial da pesquisa histórica, porque elas vão encontrar elementos que talvez as ajude a compreender melhor as situações vividas no presente”, contou-nos Axt.

Gunter Axt é graduado e mestre em História, pela UFRGS. Realizou doutorado em Historia Social pela USP. É pós-doutor pela Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Ele é pesquisador associado da USP e diretor da Axt Consultoria Histórica.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que reflexões podemos fazer acerca do Volume IV da obra "História Geral do Rio Grande do Sul", que se propõe a discutir a República Velha?

Gunter Axt – A primeira questão é que nós precisamos saber que o Rio Grande do Sul não precisa ser analisado separadamente. Ele é uma parte do processo histórico brasileiro, bem como do processo histórico platino e do processo histórico mundial. Logo em seguida, é importante considerar os motivos que levaram a passagem do Império para a República do Brasil, e como isso repercutiu no Rio Grande do Sul. Eu diria que uma das coisas fundamentais que garantiu durante o século XIX, portanto durante o Império, a unidade territorial brasileira e aquilo que se convencionou também de chamar de estabilidade institucional brasileira, foi justamente um certo acordo tácido que a elite econômica e dirigente desse país formou na época no sentido de preservar uma unidade jurídica. Isso porque a unidade jurídica era fundamental para que se preservasse o sistema escravista, que era base para a economia e das relações sociais da época. Veja: se uma província do Império tivesse autonomia política e administrativa e legislativa, ela poderia, de forma autônoma e independente, decretar a abolição da escravatura. E os escravos das outras províncias poderiam fugir para lá e automaticamente seriam alforriados. Portanto, esta unidade jurídica era fundamental.

Esse foi o motivo pelo qual o Brasil não teve uma Federação, porque a Federação foi o projeto inicial candente no início do século XIX, haja vista, por exemplo, o que foi proposto na Revolução Pernambucana de 1817 (1). No entanto, se optou por um modelo administrativo centralizado durante o Império, justamente para que tivéssemos unidade jurídica e preservássemos a escravidão. Agora, no momento em que a escravidão é abolida, em 1888, e novas elites econômicas estão surgindo em novas fronteiras econômicas para o país, sobretudo São Paulo e Rio Grande do Sul, o clamor por autonomia federativa ressurge, e o império acaba caindo quase como fruta podre, até porque a necessidade de unidade jurídica se esvaeceu. Então, a República se afirma na esteira de um projeto federativo descentralizador em muitos aspectos. Isso deu aos estados razoável autonomia legislativa e política, mas essa autonomia de fato só valia para os estados mais fortes (leia-se os estados que tinham condições de montar aparatos institucionais militares próprios, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul). Estes três foram os estados fortes durante o período da República Velha. Portanto, o primeiro aspecto importante é: estava mais do que na hora de nós sistematizarmos essa história do Rio Grande do Sul durante esse período, porque o Estado foi, sim, importante para a história brasileira naquele momento.

O segundo aspecto importante, que decorre da remoção da unidade jurídica e da centralização administrativa do Império, é que na esteira dessa remoção foi também abolido o poder moderador. Num país onde o poder infra-estrutural, o poder burocrático, a capacidade do estado intervir na sociedade eram frágeis, e onde a indistinção entre o espaço público e o privado era tradicionalmente muito significativa, aconteciam o clientelismo, a corrupção, as fraudes eleitorais. O poder moderador era justamente o instrumento que mediava o conflito entre as elites. Então, nesse sentido, as elites suportavam o poder moderador em benefício da preservação da unidade jurídica e, portanto, do sistema escravista. No momento em que cai o sistema escravista, e são removidos a unidade jurídica, a centralização e o poder moderador, essa elite se banha em sangue e a nossa República, conseqüentemente, é uma história de sangue. O Rio Grande do Sul talvez tenha sido justamente o torrão brasileiro onde isto tenha ficado mais evidente. A grande guerra civil brasileira foi precisamente a Revolução Federalista (2), de 1893, cuja pacificação se deu em agosto de 1895. Foram mais de dois anos, portanto, de um verdadeiro banho de sangue. Calcula-se que até um por cento da população do Estado, na época, pode ter perecido. Três estados da federação foram conflagrados: Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. A capital federal foi bombardeada, porque a federalista se conectou com a Revolta da Armada e os países vizinhos, sobretudo Uruguai e Argentina, acabaram se envolvendo também nesse processo revolucionário, ou porque os revolucionários se escondiam ou porque eram por esses países que contrabandeavam armas e munições.

Então, veja que houve realmente uma movimentação muito grande em torno desses processos históricos e a Revolução Federalista não apenas questionava uma parte dos segmentos envolvidos nesse processo revolucionário, como defendia efetivamente a restauração monárquica e questionava o modelo republicano, que foi adotado em 1890 pela Constituição Federal e que estava sendo vazado especialmente na ditadura então instalada do Marechal Floriano Peixoto (3) e de Julio de Castilhos (4), nacional e regional, respectivamente. Porque eram ditaduras de fato. Tanto que Floriano Peixoto governou abaixo de estado de sítio, quase que permanente afrontando os outros poderes. Então, eu acho que é a marca deste início de República Velha, que foi um período de muitos conflitos e de grande instabilidade política, no que pese, à primeira vista, muitos imaginarem que foi um período de instabilidade, à medida que a Constituição foi a mesma, tanto a estadual quando a federal, de 1891 a 1930. Na verdade, as duas passaram por reformas; a estadual em dezembro de 1893, e a federal em 1926. Agora, além dessas reformas constitucionais, a verdade é que foi um período de grande turbulência político-institucional, tanto em nível regional quanto em nível nacional.

IHU On-Line – Qual é a importância dessa retomada da história geral do Estado para o modelo político desenvolvido e vivido hoje?

Gunter Axt – Eu acho que, do ponto de vista editorial, esta série Historia Geral do Rio Grande do Sul nos chega em boa hora porque se publicou muito aqui no Estado, entre o fins dos anos 1970 e meados dos anos 1980 sobre, justamente, a história regional dos mais diversos aspectos: econômicos, político, cultural etc. E, depois disso, houve um desinteresse das editoras pelo assunto. Surpreende-me esse desinteresse porque ele vai justamente na contramão de um crescimento do interesse da população em geral pela identidade regional, pela identidade coletiva e pela história do Estado. Nós vemos isso claramente quando sai algum livro de história e há uma grande procura nas livrarias. Quando se organizam seminários que debatem temas de história, há sempre um público cativo que transcendo os muros das academias. Enfim, o que as pessoas querem é uma linguagem um pouco mais saborosa, não aquela linguagem árida, do ambiente acadêmico. Agora, eu penso que há um grande interesse pelos assuntos relativos à memória e ao patrimônio, mas havia uma inapetência das editoras pelo assunto, o que é uma contradição.

O segundo ponto é que boas partes das pesquisas sobre o período se encontravam dispersas em artigos, publicações diversas, ou até não haviam sido publicadas porque se encontravam em dissertações e teses acadêmicas. O que essa série procurou fazer foi sistematizar, consolidar o estado da arte, no que diz respeito à República Velha no Rio Grande do Sul. Então, eu acho que ela preenche uma função social, cultural e científica de grande relevância neste momento. Eu acho que a história, de um modo geral, é sempre rica porque a boa história é sempre viva, ou seja, aquela história que parte de perguntas formuladas no presente. Essas perguntas somente são formuladas quando um determinado historiador, enfim, se vê diante de um impasse social qualquer. Por exemplo, a questão agrária só será estudada se, em algum momento, se tornar um problema social-político-econômico no presente vivido pelas pessoas. Portanto, a história tem esse dinamismo, as perguntas formuladas sobre o passado partem justamente de impasses e desafios vividos no presente. E é sempre rico as pessoas consultarem o manancial da pesquisa histórica, porque elas vão encontrar elementos que talvez as ajude a compreender melhor as situações vividas no presente.

IHU On-Line – Que tipos de relações de poder entre o Estado e a sociedade se davam durante a República Velha?

Gunter Axt – Essa é uma discussão bastante extensa. Eu te diria que os historiados não estão de acordo a respeito desta resposta. Existem várias tendências que chegam a conclusões diferentes para a República Velha no Rio Grande do Sul. Eu posso te falar da minha posição: eu penso - e concluí isso na minha tese de doutorado defendida em 2001 na Universidade de São Paulo, em torno dos governos Julio de Castilhos, Carlos Barbosa e Borges de Medeiros (5) - que houve uma aliança estratégica de frações da classe dominante. Quais eram essas frações? Sobretudo de pessoas ligadas ao meio financeiro regional, ao meio charqueador regional e ao grande comércio de importação e exportação do Estado. Esses segmentos eram minoritários no interior da classe dominante, que era dominada pelos estancieiros, que acabavam ficando em segundo plano nessa aliança estratégica. Essa aliança estratégica formou aquilo que nós chamamos de bloco histórico, para o qual interessava um modelo político autoritário e centralizador, que era justamente o que propunha a personalidade persecutória e intolerante de Julio de Castilhos, porque se queria impor ao estado inteiro uma certa hegemonia mercantil. Era preciso fazer com que Porto Alegre se transformasse no centro mercantil de todo o Estado.

Na época, cada cidade tinha sua legislação tributária, e isto era uma coisa que precisava ser eliminada para que existisse uma legislação comum amigável ao comércio estadual; esse era um aspecto. O outro aspecto era uma tensão muito forte entre fronteira e os núcleos urbanos litorâneos, sobretudo Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas. Porque as fronteiras estavam muito mais integradas ao que alguns chamavam de comércio livre e outros de contrabando, mas que era, na prática, uma integração com o sistema mercantil hegemonizado por Montevidéu. Essas eram as grandes tensões que estavam postas no momento. Eu acho que esse bloco histórico tinha uma tendência que, no geral, foi muito mais conservadora do que progressista e dificultou o desenvolvimento econômico do Estado em diversos aspectos, contribuindo para que houvesse transferência de recursos e capitais das zonas de colonização ítalo-germânica para os centros urbanos-litorâneas. Isso também contribuiu para que a fronteira entrasse num momento de progressiva importância econômica política. Também acho que foi uma aliança conservadora no sentido que, embora existisse um discurso demagógico em torno da incorporação do proletariado da sociedade vazado na esteira de todo um cabedal de conceitos contistas e positivistas, na prática existia um esforço de desmobilização do sindicato e das associações de classe.

O governo Borges de Medeiros, em 1919, aplicou um duro golpe sobre o movimento trabalhista e operário gaúcho, dissolvendo sindicatos e prendendo lideranças. Além disso, fez sempre todo o possível para dificultar o surgimento de uma associação de classe dos empresários, justamente por entender que essa nova classe capitalista que estava emergindo, sobretudo como um desdobramento de um capital comercial colonial, deveria ficar sub-representada embaixo da asa da associação comercial de Porto Alegre. Essa sub-representação só foi rompida em 1930, justamente na conjuntura da revolução que aconteceu naquele ano. Nós sabemos que empresários como A. J. Renner (6) e Alberto Bins (7) ajudaram a financiar a Revolução de 1930, e o retorno foi justamente a criação da Fiergs (Federação das Industria do Estado do Rio Grande do Sul). Outras entidades de classe e a própria Farsul (Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) poderiam ter sido criadas antes, mas tiveram sua criação dificultada em grande medida pela ação desmobilizadora deste governo, que logicamente não assumia isso em seu discurso.

Nós vemos, hoje em dia, como os governantes dizem uma coisa e fazem outra. Naquela época, era exatamente a mesma coisa. No meu entendimento, muitos dos cientistas políticos que analisaram o período da República Velha na década de 1970 se equivocaram por não entenderem isso. A dificuldade extra que se tem na República Velha no Rio Grande do Sul é que é difícil perceber o discurso desviante. Em primeiro lugar, porque nós vivemos uma ditadura. Assim, a justiça e o Ministério Público não tinham autonomia, o Tribunal de Contas não existia, a Assembléia não era Legislativa, ou seja, não existiam atribuições legislativas, e a imprensa também sofria uma série de restrições. Com esse panorama, a oposição era anatematizada, demonizada. Para além do discurso de oposições, é possível fazer uma análise desse bloco histórico, que é aquela feita por mim. Agora, outros historiadores propõem interpretações diferentes, e o livro que foi publicado contempla todas essas outras interpretações, não abraçando uma ou outra versão. Desse modo, o leitor terá acesso a todas elas. Encontrará, por exemplo, textos de autores que defendem que o Partido Republicano rio-grandense possuía um viés modernizador, uma preocupação com a diversificação da economia, uma aliança estratégica com a zona de colonização ítalo-germânica, enfim, que era um governo progressista. Portanto, exatamente o contrário da interpretação que eu sustento.

IHU On-Line – Como o poder Judiciário, constituído durante a República Velha, influenciava as leis executadas durante este período? E como esse poder se desenvolveu para que em 1932 fosse criada a Justiça Eleitoral?

Gunter Axt – O Poder Judiciário não influenciava nada ou influenciava muito pouco. A primeira coisa em que devemos prestar atenção é que Borges de Medeiros, herdeiro do carisma e da política de Julio de Castilhos, era um desembargador, então a origem dele é o Poder Judiciário. O conceito de poder que o Borges abraçou foi justamente o conceito de um poder sacerdotal que pairasse acima das vontades políticas, que se libertasse do processo eleitoral. É, na verdade, uma espécie de poder ditatorial justificado quase que de forma religiosa, que se libertaria do processo eleitoral e operaria como um mediador esclarecido do conflito entre as elites. Essa era a justificativa que Borges de Medeiros passou a dar para seu poder a partir de 1907. No entanto, a justiça na República Velha no Rio Grande do Sul é diferente de como foi a justiça em São Paulo e no Rio de Janeiro.

No Estado, o que nós vemos é um Poder Judiciário com uma autonomia bastante constrangida, tanto que muitos teóricos do governo da época diziam que ele era um órgão auxiliar do governo e em seus relatórios estavam compreendidos os do secretário da justiça. O presidente do tribunal não comandava nenhum tipo de cerimonial e nem mesmo assinava as promoções ou aposentadorias dos juízes. Muito menos, tinha um orçamento próprio. Além disso, o que se vê é que eram razoáveis as chances de os concursos para juízes serem manipulados pelo governo, além de existir todo um ambiente propício à intervenção do governo em assuntos judiciais. Portanto, essa era uma justiça em grande medida atrelada aos designos do governo, especificamente do partido e do governante que estavam no poder. Uma das conquistas da cidadania brasileira é uma justiça, talvez a mais autônoma e independente, da América Latina. Uma outra coisa importante, em relação à justiça eleitoral: as eleições nesse período eram um mar de fraudes e não havia um código eleitoral unificador.

Existiam regras municipais, estaduais e federais. Desse modo, todos os processos eleitorais eram fraudados do início ao fim. Isto criava um quadro muito complicado, porque quem estava no poder permaneceria permanentemente nele, a não ser que fosse retirado dali por algum processo revolucionário ou de conflitos, o que aconteceu em diversos momentos da República Velha brasileira. Os casos de instabilidade institucional e política no Brasil são muitos. O Rio Grande do Sul teve esse banho de sangue inicial, e isto consolidou o Partido Republicano rio-grandense no poder. O que não significa que tenham acontecido outros momentos de instabilidade, sobretudo em municípios como os de Canguçu, Lagoa Vermelha e até mesmo Caxias do Sul. É justamente por isso que se entendeu que ou o país viveria em permanente estado de instabilidade institucional e uma potencialidade de escambar para o banho de sangue, ou ele encontrava uma fórmula redentora. Essa fórmula foi precisamente a Justiça Eleitoral, que veio moralizar o processo e garantir estabilidade ao nosso quadro institucional e a nossa cidadania.

IHU On-Line – As características da política desenvolvida durante a República Velha permanecem na política e na cultura gaúcha hoje?

Gunter Axt – É complicado responder a essa pergunta. Eu acho que algumas sim, outras não. O sistema político da República Velha deixou de existir há muito tempo. Era o sistema coronelista de poder, com algumas especificidades regionais determinadas pelo estado forte centralizado, garantido por uma Brigada Militar bem armada. Esse padrão deixou de existir, assim como o padrão autoritário. Existem, assim, sobrevivências de práticas políticas. O Rio Grande do Sul, nesse aspecto, não é tão diferente assim do restante do Brasil. Nós temos um déficit histórico no esforço de distinção entre espaço público e privado, o que nos empurra para essas situações de corrupção que preenchem com letras garrafais as manchetes dos jornais todas as semanas. Então, na verdade, essa era uma característica corrente na República Velha. De alguma forma, ela ainda persiste na política contemporânea. Por outro lado, eu acho que nós equacionamos relativamente bem o problema eleitoral. Penso que o Brasil avançou muito neste aspecto. A República Velha agregou, também, algumas qualidades ao processo político no Estado.

Em primeiro lugar, houve, entre nós, uma maior sistematização do discurso político, porque, como nós tínhamos uma ditadura de fato na prática, havia uma certa necessidade de justificar isto sociológica e filosoficamente, no sentido de dizer que não era uma ditadura de fato. E esse esforço se fez na época. Isso contribuiu para que, em alguma medida, os gaúchos tivessem mais “antenados” para o debate em torno da ocupação do espaço pública. Eu acho que se trata de uma herança que nós trouxemos da República Velha, o que talvez nos diferencie um pouco do restante do Brasil.

Veja, eu não estou embarcando naquela interpretação corrente que afirma ser a política do Rio Grande do Sul melhor do que no resto do país, ou que o Estado é o mais politizado do Brasil. É uma linha de pensamento com a qual não concordo. Eu acredito que o cidadão gaúcho está mais antenado para um debate em torno da ocupação do espaço público. Trata-se de algo mais civilizado e mais republicano, mas não indica, necessariamente, que temos uma política melhor, tanto é que os escândalos de corrupção também acontecem por aqui. Além disso, o Estado se debate, há vários governos, com uma crise estrutural da qual ele não consegue sair, o que talvez sinalize para uma ausência de projeto de desenvolvimento. Então, eu acredito que a política é eficaz quando ela consegue garantir um projeto de desenvolvimento, com maior distribuição de justiça social e de renda para a população. O estado do Rio Grande do Sul está nessa crise dramática e precisa encontrar caminhos para sair disso.

Notas:

(1) A chamada Revolução Pernambucana eclodiu em 1817 na então Província de Pernambuco. Dentre as suas causas, destacam-se a crise econômica regional, o absolutismo monárquico português e a influência das idéias Iluministas, propagadas pelas sociedades maçônicas.

(2) A Revolução Federalista ocorreu no sul do Brasil, logo após a Proclamação da República. Isto ocorreu devido à instabilidade política gerada pelos federalistas, que pretendiam "libertar o Rio Grande do Sul da tirania de Júlio Prates de Castilhos", então presidente do Estado. Empenharam-se em disputas sangrentas, que acabaram por desencadear a revolução federalista, uma guerra civil que durou de fevereiro de 1893 a agosto de 1895 e foi vencida pelos pica-paus, seguidores de Júlio de Castilhos. A divergência se iniciou por atritos ocorridos entre aqueles que procuravam a autonomia estadual frente ao poder federal e seus opositores. A luta armada durou aproximadamente três anos e atingiu as regiões compreendidas entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

(3) Floriano Vieira Peixoto foi um militar e político brasileiro. Primeiro vice-presidente e segundo presidente do Brasil, presidiu o Brasil de 23 de novembro de 1891 a 15 de novembro de 1894. Seu governo sofreu grande oposição de setores conservadores, como a publicação do Manifesto dos 13 generais. O apelido de "marechal de ferro" era devido à sua atuação enérgica e ditatorial, pois agiu com determinação ao debelar as sucessivas rebeliões que marcaram os primeiros anos da república do Brasil. Entre estas, a Revolta da Armada no Rio de Janeiro, chefiada pelo Almirante Saldanha da Gama, e a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, ambas com apoio estrangeiro.

(4) Julio Prates de Castilhos foi um político brasileiro. Embora formado em Direito, atuou como jornalista e político. Membro do Partido Republicano Riograndense (PRR), dirigiu o jornal A Federação, onde fez propaganda das idéias republicanas. Em 1891, elegeu-se deputado para a Assembléia Constituinte e se opôs a Rui Barbosa, no capítulo que versava sobre a discriminação de rendas, defendendo os pequenos estados da federação. Em 1891, Julio de Castilhos foi eleito presidente do estado do Rio Grande do Sul. No entanto, com a queda de Deodoro da Fonseca, foi deposto naquele mesmo ano. Pouco mais de um ano depois, Julio de Castilhos disputa uma eleição (sem concorrentes) e volta a ocupar o antigo posto. Obteve 26.377 votos e sua posse ocorre em 1893. Neste mesmo ano, contém a Revolução Federalista, de tendência parlamentarista e liderada por Gaspar Silveira Martins.

(5) Antônio Jacob Renner, mais conhecido como A. J. Renner, foi um empresário brasileiro e o fundador da Lojas Renner. Em 1911, aos vinte e sete anos, participou da fundação de uma pequena tecelagem, chamada Frederico Engel & Cia. Um ano depois, passou a produzir capas para chuva, que se tornaram famosas em todo o Estado por serem impermeáveis. A empresa instalou-se inicialmente, num galpão de madeira utilizado para pouso de tropeiros e o capital investido foi pequeno para a época. No final da década de 1920, a empresa era a maior indústria de fiação e tecelagem do Rio Grande do Sul. Passou a produzir, além das capas, roupas masculinas que utilizavam o mesmo tecido.

(6) Alberto Bins foi um industrial, comerciante e político brasileiro. Foi o primeiro porto-alegrense a assumir a prefeitura da capital gaúcha. Sua primeira grande atividade profissional foi como sócio majoritário da empresa E.Berta & Cia., fabricante de cofres, fogões, camas e outros utensílios de ferro. Foi também presidente da Associação Comercial de Porto Alegre, um dos fundadores do Banco Pelotense e do Centro da Indústria Fabril do Rio Grande do Sul. Também participou da fundação da Varig e do Sindicato do Arroz. Com a Revolução de 1930, deflagrada dois anos depois, foi mantido no cargo de prefeito pelo interventor estadual Flores da Cunha. A prefeitura procurou melhorar a prestação de serviços à população, inaugurando ainda em 1928, a primeira estação de tratamento de água da cidade, a Hidráulica Moinhos de Vento. As dificuldades financeiras, entretanto, complicaram a administração. Para salvar a cidade da insolvência, em 1929 o prefeito assinou um acordo com o governo do Estado, repassando a responsabilidade municipal sobre os serviços de higiene, policiamento e instrução pública.

Instituto Humanitas Unisinos - 13/11/07

'Voracidade'. Editorial de Ignácio Ramonet


Houve quem pensou que com a globalização o capitalismo estaria por fim saciado. Engano. Um nova forma de rapinagem acomete o mundo. O comentário é Ignácio Ramonet no editorial do Le Monde Diplomatique de novembro. A tradução é do Cepat.

Eis o editorial.

Ao mesmo tempo em que contra o horror econômico, o discurso crítico – a que durante algum tempo se chamou altermundista – se enreda e de repente se torna inaudível, vai-se instalando um novo capitalismo, ainda mais brutal e conquistador: o de uma nova categoria de fundos de rapinagem, os private equities, fundos de investimento rapaces, com apetites desmesurados e detentores de capitais gigantescos.

Os nomes destes titãs – The Carlyle Group, Kohlberg Kravis Roberts & Co (KKR), The Blackstone Group, Colony Capital, Apollo Management, Starwood Capital Group, Texas Pacific Group, Wendel, Eurazeo, etc. – continuam sendo pouco conhecidos do grande público. E graças a esta discrição apoderam-se da economia mundial.

Em quatro anos, de 2002 a 2006, o montante dos capitais obtidos por estes fundos de investimento, que coletam o dinheiro dos bancos, dos seguros, dos fundos de pensões, e os investimentos de riquíssimos particulares, passou de 94 bilhões de euros para 358 bilhões… O seu poder de fogo financeiro é fenomenal, ultrapassando 1,1 trilhões de euros. Nada resiste. O ano passado, nos Estados Unidos, os principais private equities investiram cerca de 290 bilhões de euros na aquisição de empresas, e mais de 220 bilhões só no primeiro semestre de 2007, passando assim a controlar 8000 empresas… Atualmente, um em cada quatro assalariados norte-americanos e quase um em cada doze franceses já trabalham para estes mastodontes.

A França tornou-se, aliás, depois do Reino Unido e dos Estados Unidos, o seu primeiro alvo. O ano passado, em território francês, estes fundos apoderaram-se de 400 empresas (por um montante de 10 bilhões de euros) e já gerem ali mais de 1600. Marcas muito conhecidas – Picard, Dim, os restaurantes Quick, Buffalo Grill, Les Pages Jaunes, Allociné ou Afflelou – são agora controladas por private equities, quase todas anglo-saxônicas, que já estão de olhos postos nos gigantes do índice CAC 40.

O fenômeno destes fundos rapaces surgiu há uns quinze anos, mas nos últimos tempos, estimulado pelo crédito barato e graças à criação de instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados, adquirem uma amplitude preocupante. Porque o princípio é simples: um clube de investidores afortunados decide adquirir empresas, que depois gere de forma privada, longe da Bolsa e das suas regras constrangedoras, e sem ter de prestar contas a acionistas minuciosos. A idéia consiste em contornar os próprios princípios da ética do capitalismo, apostando apenas nas leis da selva.

Concretamente, como no-lo explicam dois especialistas, as coisas acontecem assim: "Para adquirir uma sociedade que vale 100, o fundo aplica 30 do seu bolso (percentagem média) e os restantes 70 pede-os emprestados aos bancos, aproveitando as muito baixas taxas de juro do momento. Durante três ou quatro anos reorganiza a empresa com a direção em funções, racionaliza a produção, desenvolve atividades e capta a totalidade ou parte dos lucros para pagar os juros… da sua própria dívida. Depois revende essa mesma empresa por 200, com freqüência a um outro fundo, que irá fazer a mesma coisa. Reembolsados os 70 obtidos a crédito, ficam com 130 no bolso, por um investimento inicial de 30, obtendo assim mais de 300 por cento de taxa de retorno sobre o capital investido em quatro anos. Tem coisa melhor?".

Ao mesmo tempo em que pessoalmente ganham fortunas exponenciais, os dirigentes destes fundos praticam doravante, sem sentimentalismos, os quatro grandes princípios da "racionalização" de empresas: reduzir o emprego, comprimir os salários, aumentar os ritmos de produção e deslocalizar.

São nisso estimulados pelas autoridades públicas, as quais, como em França hoje em dia, sonham "modernizar" o aparelho de produção. E fazem-no em detrimento e para desespero dos sindicatos, que denunciam vigorosamente o pesadelo e o fim do contrato social. Houve quem pensou que com a globalização o capitalismo estaria por fim saciado. Vê-se porém agora que a sua voracidade não tem limites. Até quando?

Instituto Humanitas Unisinos - 13/11/07

Congresso custa R$ 11 mil por minuto, diz Transparência Brasil


Levantamento feito pela ONG Transparência Brasil comparando os orçamentos do Congresso brasileiro com os de outros 11 parlamentos do mundo, demonstrou que o parlamento brasileiro é o terceiro que mais pesa no bolso da população. Só para este ano o orçamento do Congresso foi de R$ 6.068.072.181,00, o que representa um custo de R$ 11.545,04 por minuto. A notícia é do sítio Congresso em Foco, 12-11-2007.

Comparando os gastos do Congresso com a população do país, cada cidadão gasta anualmente R$ 32,49 para manter o Legislativo. Nos outros países considerados na pesquisa – Alemanha, Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, México e Portugal – apenas Itália e França superam esse patamar.

Mas apesar dos italianos gastarem, em média e individualmente, R$ 64,46 com o parlamento e os franceses pagarem R$ 34,00 para manter seus congressistas, ao se considerar o salário da população desses três países, o brasileiro é quem mais sofre financeiramente para manter seus parlamentares. O mandato de cada congressista custa 2.068 salários mínimos.

Além disso, o levantamento mostra que os custos com os 513 deputados e 81 senadores foi quatro vezes maior no Brasil que a média dos gastos com os parlamentares europeus e canadenses. Em tese, se os padrões europeus fossem adotados no Brasil, o mesmo valor gasto hoje no país seria o suficiente para manter 2.556 congressistas.

Nos estados

Além dos gastos com a Câmara e o Senado, a população também arca com as despesas das assembléias legislativas e câmaras de vereadores. Pelo balanço feito pelo Transparência Brasil nas capitais brasileiras, a Assembléia Legislativa mais cara por habitante é a de Roraima (R$ 145,19), e a mais barata, a de São Paulo (R$ 10,63).

Essa diferença se mantém quando consideramos os gastos das capitais com as três esferas – federal, estadual e municipal – de governo. Os cidadãos de Boa Vista, capital de Roraima, pagam R$ 224,82, anualmente, para manter seus deputados, senadores e vereadores. Em São Paulo capital, os custos são de R$ 68,61 por habitante.

Instituto Humanitas Unisinos - 13/11/07

Iedi. Produção industrial crescerá 5,5% em 2007

“Embora a indústria tenha se retraído em setembro vis-à-vis agosto pela série sazonalmente ajustada, as demais bases de comparação apontaram desempenho bastante positivo. Assim, na avaliação do IEDI, o encerramento do terceiro trimestre consolida a perspectiva da produção industrial do país crescer 5,5% em 2007. Mesmo não sendo uma expansão fenomenal (em 2004, o setor evoluiu 8,3%), esse novo patamar deixará para trás as marcas de 2,8% e 3,1% dos dois anos anteriores”. A síntese é da ‘Carta do Iedi' - Novembro de 2007 - nº 285.

A 'Carta" comenta ainda que "no plano internacional, a distância entre as taxas de crescimento da indústria brasileira em relação aos seus congêneres voltou a se ampliar. Em setembro, enquanto a indústria de transformação brasileira cresceu 5,7%, a indústria de transformação da Argentina avançou 8,8% em relação a setembro de 2006. Já as da Índia e Tailândia experimentaram incremento, respectivamente, de 10,4% e 9,3% em agosto na mesma base de comparação".

Instituto Humanitas Unisinos - 13/11/07

Lula suspendeu a venda do direito de explorar petróleo nas novas reservas

É correta a decisão de Lula de suspender a venda do direito de explorar petróleo nas novas e talvez enormes reservas do litoral. “Excluir as novas reservas do próximo leilão de áreas de exploração de petróleo foi uma decisão acertada”, escreve Vinicius Torres Freire, jornalista, no jornal Folha de S. Paulo, 13-11-2007. “Além de não ser conhecido o potencial das reservas – comenta o jornalista - não se conhecem as suas conexões (se se trata de um único imenso campo etc.), não há política para o ritmo de extração de petróleo naquelas áreas e, enfim, as reservas são da União, ponto”.

Segundo ele, “os lobistas que criticaram a decisão oficial recorreram ao clichê vulgar e automático ("quebra de contratos", "incerteza", "ameaça ao investimento privado"). Mas até quem estudou petróleo com o Visconde de Sabugosa, de Monteiro Lobato, poderia argumentar que os investimentos e tecnologia de Petrobras e cia., que gastaram os tubos para descobrir petróleo literalmente no quinto dos infernos, poderiam ser vampirizados por empresas que despenderiam uns trocados para comprar a concessão de explorar petróleo na área vizinha às da estatal”.

E ele continua:

“Se o governo e o império da Petrobras pretendem estatizar todo o negócio, são outros quinhentos (maus quinhentos). Por ora, houve apenas atitude prudente e razoável de repensar as concessões. Mas os lobistas choram uns US$ 4 milhões que as petroleiras interessadas no leilão teriam investido em estudos etc., que alegam desperdiçados agora que o governo suspendeu a concessão das reservas boca-rica. Oh, dó! Dá até vontade de fazer uma vaquinha para compensar Chevron, Repsol, ExxonMobil ou quaisquer que fossem as grandes irmãs interessadas”.

E conclui:

“As viúvas do tucanato e/ou lobistas ainda reclamam do atropelamento da agência reguladora do setor, a ANP, pelo governo. Supondo que tal coisa tivesse ocorrido (e não uma decisão de governo legítima), onde estavam nossos amigos da concorrência, do mercado e da regulação independente quando FHC transformou a Aneel num dois de paus? Foi o que fez ao criar o ministério do apagão, a "junta" que pôs esparadrapo na mãe de todas as lambanças administrativas, o racionamento elétrico. Onde estavam quando o governo FHC politizou a privatização das teles, abjurando a fé em leilões de desestatização, que seriam por si só capazes de dar conta de preço e concorrência justa?”

Instituto Humanitas Unisinos - 13/11/07

Tupi. 'É a segunda maior descoberta do mundo’, constata presidente da Petrobras

O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, disse ontem em Roma que não existem dificuldades para equacionar o financiamento do campo de Tupi, maior descoberta da história da companhia, anunciada na semana passada. Localizada na bacia de Santos, a reserva de Tupi é explorada pela Petrobras em sociedade com a portuguesa Galp e a britânica BG. Embora não fale ainda em cifras, o executivo disse que "dinheiro não é problema" para desenvolver a descoberta. A reportagem é de Pedro Soares e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 13-11-2007.

O entrave, porém, pode surgir se o preço do petróleo baixar muito e tornar a reserva inviável comercialmente. Indagado se uma queda brusca das cotações do barril de petróleo poderia levar a estatal a desistir do projeto, Gabrielli afirmou: "No nosso plano estratégico, o valor usado é de US$ 35 o barril para gerar valor presente líquido positivo".

Segundo o executivo, esse valor é a referência do plano de negócios em vigor neste ano, que sempre é revisto anualmente. Gabrielli disse, no entanto, que ainda não foram feitos cálculos precisos sobre o valor do óleo que torna o projeto viável economicamente.

Os números já conhecidos sobre o campo, porém, são muito altos para o padrão de custos da indústria petrolífera no Brasil. No primeiro poço perfurado, foram gastos US$ 240 milhões. No segundo, o valor baixou para US$ 170 milhões, segundo o executivo. Para Gabrielli, porém, foi um investimento bastante proveitoso. "'É a segunda maior descoberta do mundo, atrás apenas de outra no Cazaquistão. É o dobro da descoberta de Marilm, que é o maior em operação no Brasil atualmente."

Em entrevista à CNN, Gabrielli disse que a produção de Tupi deve começar em 2010 ou 2011. Numa primeira fase, vai produzir 100 mil barris por dia. Para ele, os preços do barril de petróleo devem se manter no atual patamar.

Instituto Humanitas Unisinos - 12/11/07

Pessoas da favela, treinadas na Suíça, pilotam projetos da Nestlé

"Hoje temos pessoas da favela, que passaram por treinamento na Suíça, contratadas para pilotar projetos para o consumidor de baixa renda", afirma Ivan Zurita, presidente da Nestlé, no Brasil, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, 12-11-2007, comentando o crescimento da empresa no Nordeste.

"Durante a reestruturação - constata Zurita - fizemos uma imersão para conhecer o povo brasileiro. Numa das análises, todos os diretores, inclusive eu, fomos para favelas conhecer de perto o consumo das classes C, D e E. Aprendemos, por exemplo, que o fluxo de caixa dessas famílias é diferente. É semanal e o desembolso é de R$ 1. Por isso, criamos a estrutura de vendas porta-a-porta e muitos produtos para esses consumidores. Fizemos sorvete líquido que congela em meia hora, que tem custo menor de distribuição e o consumidor tem custo menor de eletricidade. Tem tablete de chocolate cuja moeda de troca é R$ 1. Adaptamos e criamos produtos. Não adianta pegar o modelo do Carrefour e jogar na favela que não vai funcionar. Hoje temos pessoas da favela, que passaram por treinamento na Suíça, contratadas para pilotar projetos para o consumidor de baixa renda. Temos 97% de penetração nos domicílios brasileiros. O que precisamos fazer para intensificar a relação com o consumidor? Esse tipo de atividade... Não é necessariamente a mais rentável para nós, mas não interessa. Acreditamos que o país e o poder aquisitivo das pessoas vai melhorar".

Instituto Humanitas Unisinos - 12/11/07

Nem tudo o que reluz é verde. Um artigo de Boaventura de Sousa Santos

"É de esperar que as indústrias da ecologia resolvam o problema ambiental quando é certo que a sustentabilidade econômica delas depende da permanente ameaça à sustentabilidade da vida na terra?", pergunta Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 12-11-2007. Segundo ele, é preciso que sejam estabelecidos critérios exigentes de sustentabilidade global; "democratização do acesso à terra e regularização da propriedade camponesa; subordinação do agrocombustível à segurança alimentar; novas lógicas de consumo (se a eficiência do transporte ferroviário é 11 vezes superior à dos transportes rodoviários, por que não investir apenas no primeiro?); alternativas ao mito do desenvolvimento e numa nova solidariedade do Norte para com o Sul".

Eis o artigo.

A questão ambiental entrou finalmente na agenda política, o que não deixa de causar alguma surpresa aos ativistas dos movimentos ecológicos, sobretudo àqueles que militam há mais tempo e se habituaram a ser apodados de utópicos e inimigos do desenvolvimento.

Ao longo das últimas décadas, os movimentos ecológicos foram ganhando credibilidade à medida que a ciência foi demonstrando que os argumentos por eles invocados se traduziam em fatos indesmentíveis -a perda da biodiversidade, as chuvas ácidas, o aquecimento global, as mudanças climáticas, a escassez de água etc.- que, a prazo, poriam em causa a sustentabilidade da vida na terra.

Com isso, ampliaram-se os estratos sociais sensíveis à questão ambiental e a classe política mais esclarecida ou mais oportunista (por vezes disfarçada de sociedade civil, como é o caso de Al Gore) não perdeu a oportunidade de encontrar nessa questão um novo campo de atuação e de legitimação.

Assim se explica o importante relatório sobre a "conta climática" de um economista nada radical, Nicholas Stern, encomendado por um político em declínio, Tony Blair.

Nesse processo foram "esquecidos" muitos dos argumentos dos ambientalistas, nomeadamente aqueles que punham em causa o modelo de desenvolvimento capitalista dominante.

Esse "esquecimento" foi fundamental para a segunda razão do atual boom ambiental: a emergência do ecologismo empresarial, das indústrias da ecologia (não necessariamente ecológicas) e, acima de tudo, dos agrocombustíveis, cujos promotores preferem designar, "et pour cause", como biocombustíveis.

As reservas que os movimentos sociais (ambientalistas e outros) levantam contra esse último fenômeno merecem reflexão, tanto mais que, tal como aconteceu antes, é bem provável que só daqui a muitos anos (tarde demais?) sejam aceitas pela classe política.

A primeira pode formular-se como uma pergunta: é de esperar que as indústrias da ecologia resolvam o problema ambiental quando é certo que a sustentabilidade econômica delas depende da permanente ameaça à sustentabilidade da vida na terra?

A eficiência ambiental dos agrocombustíveis é uma questão em aberto. Sua produção usa fertilizantes, polui os cursos de água e é já hoje uma das causas do desflorestamento, da subida do preço da terra e da emergência de uma nova economia de plantação, neocolonial e global.

A segunda reserva diz respeito ao impacto da expansão dos agrocombustíveis na produção de alimentos. Em setembro, o bushel de trigo atingiu preço recorde na Bolsa de Mercadorias de Chicago. Más colheitas (derivadas das mudanças climáticas), o aumento da procura pela China e a Índia e a produção de agrocombustíveis foram as razões do aumento, e a expectativa é que a subida continue.

O aumento do preço dos alimentos vai afetar desproporcionalmente populações empobrecidas dos países do Sul, pois gastam mais de 80% dos seus parcos rendimentos na alimentação.

Ao decidirem atribuir US$ 7,3 bilhões anuais em subsídios para a produção de agrocombustíveis, os EUA contribuíram para um aumento (que chegou a 400%) do preço do alimento básico dos mexicanos, a tortilla.

Reside aqui a terceira reserva: os agrocombustíveis podem vir a contribuir para a desigualdade entre países ricos e países pobres. Enquanto na União Européia a opção pelos agrocombustíveis corresponde a preocupações ambientais, nos EUA a preocupação é com a diminuição da dependência do petróleo.

Em qualquer dos casos, estamos perante mais uma forma de protecionismo sob a forma de subsídios à agroindústria e, como a produção doméstica não é de nenhum modo suficiente, é, de novo, nos países do Sul que se vão buscar as fontes de energia. Se nada for feito, repetir-se-á a maldição do petróleo: a pobreza das populações em países ricos em recursos energéticos.

O que há a fazer? Critérios exigentes de sustentabilidade global; democratização do acesso à terra e regularização da propriedade camponesa; subordinação do agrocombustível à segurança alimentar; novas lógicas de consumo (se a eficiência do transporte ferroviário é 11 vezes superior à dos transportes rodoviários, por que não investir apenas no primeiro?); alternativas ao mito do desenvolvimento e numa nova solidariedade do Norte para com o Sul.

Nesse domínio, o governo equatoriano acaba de fazer a proposta mais inovadora: renunciar à exploração do petróleo numa vasta reserva ecológica se a comunidade internacional indenizar o país em 50% da perda de rendimentos derivados da renúncia.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Instituto Humanitas Unisinos - 11/11/07

87% dos brasileiros nunca foram ao cinema

Estudo do Ministério da Cultura, segundo informa Gilberto Gil, ministro da Cultura e João Luiz Silva Ferreira, secretário-executivo do Ministério da Cultura, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 11-11-2007, “87% dos brasileiros nunca foram ao cinema, 92% nunca foram aos museus, 78% nunca assistiram a espetáculos de dança”.

Segundo o artigo, “os dados também mostram que a população de baixa renda sacrifica cerca de 4% de seus orçamentos mensais para a cultura, o mesmo percentual destinado pelos mais ricos”..

Instituto Humanitas Unisinos - 11/11/07

Mundo caminha para o terceiro choque energético

Com os preços do petróleo se aproximando da simbólica marca dos US$ 100 por barril, o mundo está caminhando para seu terceiro choque de energia em uma geração. Mas a alta atual é fundamentalmente diferente de passadas crises do petróleo, e suas conseqüências mundiais serão mais amplas e mais duradouras. A reportagem é de Jad Mouawad e publicada pelo jornal New York Times e traduzida pelo jornal Folha de S. Paulo, 11-11-2007.

Da mesma forma que nas crises de energia dos anos 70 e 80, os elevados preços atuais do petróleo vêm causando ansiedade e sofrimento aos consumidores e gerando temores mais amplos quanto ao seu impacto sobre a economia como um todo.

Ao contrário de outros choques do petróleo, causados por súbitas interrupções nas exportações do Oriente Médio, desta vez os preços vêm subindo firmemente à medida que cresce a demanda por gasolina nos países desenvolvidos, centenas de milhões de chineses e indianos ascendem da pobreza à prosperidade e outras economias em desenvolvimento crescem em ritmo escaldante.

"Esse é o primeiro choque de energia causado por demanda que o mundo já enfrentou", disse Lawrence Goldstein, economista da Fundação de Pesquisa de Política Energética.

As previsões quanto ao preço futuro do petróleo variam amplamente. Alguns analistas consideram que ele pode cair a US$ 75 ou até menos no ano que vem, enquanto uns poucos observadores projetam preços da ordem de US$ 120 por barril.

Virtualmente ninguém diz acreditar em um retorno ao preço praticado há uma década, de US$ 20 por barril, o que significa que os consumidores precisam se preparar para uma era de custos muito mais altos para os combustíveis.

A raiz dessa alta chocante do petróleo -que já ultrapassa os 50% neste ano e atinge os 365% na última década- é um desdobramento positivo: a expansão sem precedentes que a economia mundial está vivendo.

A demanda da China e da Índia deve dobrar nas duas próximas décadas, à medida que essas economias continuam a se expandir e seus cidadãos optam por comprar mais carros e por viver em cidades, em busca de um estilo de vida que os ocidentais vêem como comum.

Mas, à medida que sobem os preços, a economia mundial passa a navegar por águas inexploradas. A alta até o momento não parece estar prejudicando o crescimento, porém muitos economistas se questionam sobre quanto tempo mais essa situação pode durar. "Os preços atuais são muito altos e terminarão prejudicando igualmente a todos, produtores e consumidores", disse Faith Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia.

O preço do barril de petróleo terminou a última sexta-feira cotado a US$ 96,32 na Bolsa de Nova York e durante a semana passada chegou a valer US$ 98,62, antes de recuar. O preço do produto se tornou volátil, e muitos analistas esperam que o marco dos US$ 100 por barril, considerado importante em termos psicológicos, seja superado em algum momento das próximas semanas.

"Os mercados atuais se parecem com a torcida que se levanta para incentivar seu time a atacar nos minutos finais de uma partida de futebol americano", disse Daniel Yergin, historiador do petróleo e presidente da consultoria Cambridge Energy Research Associates. "As pessoas chegam a parecer mais relaxadas quanto ao preço de US$ 100 por barril do que pareciam diante de uma cotação de US$ 60 ou US$ 70."

O petróleo não está distante de seu pico histórico de preços, atingido em abril de 1980, um ano depois da revolução islâmica iraniana. Considerada a inflação, o barril então chegou a ser cotado a US$ 101,70, em dólares atuais.

Pela maior parte do século 20, enquanto promovia a transformação do mundo moderno, o petróleo foi tanto barato quanto abundante. Ao longo dos anos 90, por exemplo, os preços médios do petróleo foram de US$ 20 por barril. Mesmo com os altos preços praticados agora, ele ainda sai mais barato que água mineral importada, que custaria o equivalente a US$ 180 por barril, ou que o leite, cujo barril custaria US$ 150.

Instituto Humanitas Unisinos - 11/11/07

Exploração de megacampo terá alto custo

Especialista calcula que cada plataforma para exploração em áreas ultraprofundas na megarreserva da bacia de Santos custará mais de três vezes o preço atual. O campo, anunciado na última quinta-feira, poderá tornar o Brasil um país exportador de petróleo, segundo o governo, e está localizado em uma profundidade ainda não explorada pela Petrobras. A reportagem é de Raquel Abrantes e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo,11-11-2007.

A última plataforma a entrar em ação, a P-54, custou US$ 900 milhões, mas a exploração e a produção de petróleo e gás natural no campo de Tupi exigem plataformas do tipo FPSO (Floating Production Storage and Offloading), que flutuam, produzem, armazenam e transferem o produto para o navio de transporte.

Cada FPSO custa de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões e pode produzir 100 mil barris por dia, diz o pesquisador da Coppe (a coordenação de programas de pós-graduação da UFRJ) Giuseppe Bacoccoli, que trabalhou 32 anos na área de exploração da Petrobras.

A primeira plataforma deve começar a operar em três ou quatro anos. Dada a extensão da área da reserva, de 800 km, serão necessárias dez plataformas, que devem estar funcionando em sete ou oito anos, com capacidade total para 1 milhão de barris por dia. A nova área pode elevar em mais de 50% as atuais reservas do país (14 bilhões de barris) de acordo com a Petrobras, com volume estimado entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris.

"Acredito que a área pode realmente ter a extensão avaliada e, com a confirmação, passará a ser o maior campo brasileiro, ultrapassando o campo de Marlim Sul (bacia de Campos), abrindo enormes perspectivas para estratégias semelhantes", avalia Bacoccoli.

Antes, contudo, será preciso ultrapassar as dificuldades tecnológicas para a exploração do pré-sal, que são rochas-reservatórios abaixo de uma extensa camada de sal, que abrange do litoral do Espírito Santo até o de Santa Catarina.

Da superfície da água para baixo são 2.000 metros, seguidos de 2.000 metros de sedimentos (argila, areia) e 2.000 metros de sal. Embaixo, está o reservatório rochoso, com petróleo e gás encontrados nos espaços porosos. Antes de furar o poço, o pesquisador explica ser preciso fazer estudos geológicos e sísmicos (espécie de ultra-sonografia do solo).

"A camada de sal varia muito de espessura, porque, a essa profundidade, o sal se comporta de maneira elástica, como se fosse um gel. Isso gera deformação muito grande nas ondas sísmicas, lançadas para enxergar o que há embaixo", diz.

O primeiro enfrentamento é a correção da imagem sísmica, que pode ser feito por uma das companhias internacionais especializadas ou pela Petrobras, para determinar o local da perfuração. O sal está em águas muito profundas, o que exige uma unidade de perfuração flutuante. Segundo o pesquisador, pode ser uma semi-submersível ou um navio-sonda.

O tubo que irá da unidade flutuante até o fundo do mar, chamado riser, tem que agüentar ondas, correntes marítimas e flutuações da base. Por isso, o custo é elevado, e a operação, delicada. O riser vai entrar nos sedimentos e a conexão com o primeiro revestimento no fundo do mar tem uma válvula que fecha caso o tubo quebre ou o navio saia do lugar.

Como o sal é gelatinoso e o poço tem de 200ºC a 300ºC, a alta pressão faz com que o buraco aberto seja tampado de novo. "Em Campos, muitos poços já foram perdidos por causa do sal profundo", conta. Por isso, são usados tubos de aço de altíssima resistência, chamados revestimentos, dentro do poço, para evitar que ele feche.

Depois de 6.000 metros de profundidade, as pressões são muito altas, confinadas, porque o sal é impermeável. É preciso controlar essa pressão para impedir uma explosão, jorrando petróleo. É usado, assim, um fluido de perfuração que exerce pressão sobre o reservatório.

"É um equilíbrio extremamente delicado de pressões. Para companhias dominadoras de tecnologia, como a Petrobras, é possível fazer qualquer coisa, só é preciso saber como. A empresa já sabia de tudo isso e foi avaliando todas as variáveis", diz Bacoccoli.

Instituto Humanitas Unisinos - 10/11/07

Brasil se rearma. Forças Armadas mobilizam 14 mil em guerra simulada

A Região Sul será palco de uma guerra simulada, promovida pelo Ministério da Defesa e denominada Operação Charrua 2007. Definido pelas Forças Armadas como o maior exercício militar combinado da América Latina, o treinamento vai movimentar 14 mil pessoas entre domingo e 21 de novembro nos Estados de Santa Catarina, Paraná e rio Grande do Sul. A reportagem é de Elder Ogliari e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 10-11-2007.

O Exército participará com 8 mil soldados de 3 divisões, 13 brigadas e 80 unidades. A Marinha usará na operação 4 mil homens e mulheres,15 navios, 1 submarino e 13 helicópteros. Já a Aeronáutica porá em ação 1,9 mil militares de 19 unidades e 58 aviões. O exercício poderá ser acompanhado pela internet, no site www.charrua.mil.br.

Na operação, as forças estarão divididas entre dois países fictícios. Um deles, denominado Vermelho, fica no sul do Rio Grande do Sul, e sua missão será tentar tomar uma área em litígio que está sob controle do outro país, chamado de Azul e localizado num território bem maior, que vai do norte do Rio Grande do Sul à divisa do Paraná com São Paulo. As manobras incluem exercícios de ataque e defesa no mar, na costa e no interior do Rio Grande do Sul.

COMANDO

“O grande objetivo é treinar as células de comando e desdobrar o exercício para as tropas”, explicou o general José Elito Carvalho Siqueira, comandante militar do Sul. Ele será o comandante do Teatro de Operações da Charrua 2007. “São ações que concorrem para o fortalecimento da capacidade de dissuasão e, ao mesmo tempo, contribuem para maior visibilidade da presença militar em regiões da fronteira sul do País”, contou.

O general Elito negou que haja ligação entre o exercício e as notícias da compra de armamentos pela Venezuela. Ele contou que a Operação Charrua já é feita há alguns anos e esta edição vinha sendo preparada desde o ano passado. “O treinamento é rotina num Exército que existe há 300 anos. A única maneira de estarmos prontos para o que o Brasil precisa é treinando.”

Instituto Humanitas Unisinos - 10/11/07

Efromovich, da OceanAir, que assume a BRA, tem estaleiro que constrói plataformas de petróleo

Confirmada a integração da BRA à OceanAir, German Efromovich, 57, consolida seu projeto no campo da aviação comercial e, especula-se, logo passaria a ter uma fatia de mercado de cerca de 5% nos vôos aéreos nacionais. A reportagem é de Sílvio Cioffi e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 10-11-2007.

Proprietário dos estaleiros Marítima e Eisa, que atuam construindo plataformas de petróleo, esse boliviano naturalizado brasileiro em 1968 reclamou do "duopólio", cenário em que restariam apenas duas grandes empresas aéreas no Brasil, a TAM e a Gol/Varig.

Pouco antes de concretizada a incorporação, Efromovich se dizia conversando com as autoridades do setor para, a partir de ontem, conseguir um acordo em que a OceanAir assumisse a parte aérea dos pacotes da operadora PNX, ligada à BRA.

Mas admitiu que também examinava a hipótese de "fretar os aviões deles e acertar com as empresas de leasing".

"Não estamos aqui para jogar pedra, mas sim para ajudar", disse anteontem Efromovich, com sua proverbial capacidade de negociação. Disse que, atendendo às recomendações da Anac, transportava os passageiros da BRA "não só na volta, mas na ida e no meio também".

Passadas 24 horas, Efromovich ganhou a parada - e recebe do governo federal as rotas e a frota da BRA, que, combalida, parou de voar contando com apenas cinco Boeings-737.

"Temos aviões suficientes para assumir os pacotes da PNX", disse o empresário ao listar sua frota no Brasil: "A OceanAir tem 13 [Fokker-100] Mk28, um Boeing-767, outro Boeing-767 chegando nos próximos dez dias, um Boeing-757 chegando nos próximos dias, cinco Fokker-50 e seis Brasília [da Embraer]."

Apesar de não contar agora com uma frota de última geração, a empresa aérea que Efromovich está engendrando já tem uma musculatura considerável. Além da OceanAir, com 1.400 funcionários, o empresário controla, no setor aéreo, o grupo sul-americano Sinergy, cujo faturamento anual é de US$ 3,7 bilhões - e que engloba a Avianca, companhia aérea colombiana fundada em 1919, a segunda mais antiga do no mundo, mais nova apenas três meses que a holandesa KLM.

Expansão

Antes mesmo de assumir as rotas e a frota da BRA, Efromovich planejava a expansão da OceanAir no Brasil, almejando uma fatia do mercado nacional de 15% até 2010.

No mercado internacional, que para vôos de longa distância depende de aviões maiores e com mais autonomia que o Boeing-737 e o Fokker-100, a OceanAir já estava voando para a Cidade do México desde outubro e deve passar a operar a rota para Luanda (Angola) nos próximos dias, no início de dezembro. A OceanAir também aguarda a autorização para voar a Buenos Aires.

Crítico da legislação que limita em 20% a participação estrangeira nas empresas brasileiras de aviação, Efromovich é bem-visto nos "headquarters" da gigante American Airlines, em Dallas-Forthwort.

Foi lá que, em 2006, o empresário comprou 29 jatos F-100/ Mk28, além de toda a infra-estrutura de manutenção desses aviões e simuladores de vôo.

Instituto Humanitas Unisinos - 09/11/07

Um de cada cinco alemães pede o retorno do Muro de Berlim

Hoje, completam 18 anos desde a derrubada do Muro de Berlim, que separava, desde 1961, a Alemanha em duas. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Forsa revela que um de cada cinco alemães preferiria que o Muro de Berlim ainda estivesse de pé. A reportagem é de Araceli Viceconte para o Clarín, 8-11-2007. A tradução é do Cepat.

Segundo pesquisa publicada pela revista Stern, 21% dos alemães gostaria de voltar a ter aquele muro fronteiriço, símbolo da divisão da Alemanha. Não obstante, mais de 70% dos 1.006 sondados responderam que não desejaria voltar àqueles tempos.

Hoje, 09 de novembro, completam-se 18 anos da queda do Muro de Berlim, construído em 1961 como “muro antifascista” na extinta República Democrática Alemã (RDA). No dia 9 de novembro de 1989, pouco depois que um funcionário do politburo anunciara que os cidadãos da RDA poderiam viajar livremente, uma multidão tomava de assalto as passagens fronteiriças, celebrava e se embebedava. Apenas um ano depois a RDA deixava de existir e se anexava à ocidental República Federal da Alemanha (RFA).

Segundo o cientista político Karl-Rudolf Korte, que mais de 20% dos cidadãos da Alemanha reunificada defendam hoje o Muro responde a um cálculo de “custo-benefício”. “Ao que parece não tiram nenhum proveito particular, ou associam a queda do muro a custos extras, à perda de qualidade ou problemas de imagem para a democracia, como pela cultura do dia-a-dia ultradireita surgida em alguns lugares do leste”, declarou Korte à revista Stern.

Além disso, outra pesquisa confirmava em outubro que a grande maioria dos cidadãos do leste (apesar do alto poder aquisitivo e dos benefícios quase imediatos da reunificação) continua se sentindo “de segunda classe”. 74% dos orientais sondados pela cadeia de televisão N24 se consideram em desvantagem em relação aos ocidentais, ao passo que 73% destes não acreditam que as pessoas do leste sofram desvantagem.

Desde a reunificação, em 1990, o oeste transferiu mais de um bilhão de euros para os novos estados germano-orientais, segundo dados do Instituto de Economia de Kiel. Todos os alemães continuam pagando ainda hoje um “imposto solidário” para apoiar o leste. Com estes fundos, além de fomentar a atividade econômica e entregar generosos subsídios a empresas, cidades inteiras foram reformadas e implantados transportes modernos. Todo o sistema de bem-estar do oeste foi transferido para o leste, desbordando os custos, por exemplo, das caixas de aposentadoria e do seguro-desemprego.

Mas isto não impediu que, para além de vários pólos industriais, como Leipzig ou Jena, em geral o leste da Alemanha continue perdendo população como acontece desde 1989 (10%). O desemprego e os neonazistas que pregam a xenofobia e o anti-semitismo são problemas ainda insolúveis.

Instituto Humanitas Unisinos - 09/11/07

Brasil entra na elite do petróleo e pode se tornar exportador


A confirmação de uma descoberta de grande reserva de petróleo e gás na bacia de Santos eleva o Brasil para a elite mundial dos produtores, na avaliação do governo federal. A notícia é do jornal Folha de S. Paulo, 9-11-2007 em texto de Janaina Lage.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou que os testes já realizados indicam que o país poderá se tornar exportador de petróleo e dispor de volume de óleo similar ao dos dez maiores produtores mundiais. Hoje, o país é o 24º produtor de petróleo e gás.

Segundo a Petrobras, o campo de Tupi, na bacia de Santos, tem um volume estimado de 5 bilhões a 8 bilhões de barris de petróleo e gás natural. O volume pode representar até 60% das reservas atuais, de 14,4 bilhões de barris de óleo equivalente (petróleo e gás).

O anúncio fez com que as ações da Petrobras subissem 14% ontem, elevando seu valor de mercado em US$ 28 bilhões num único dia, chegando a um valor total de US$ 221,9 bilhões, passando gigantes americanas como o Google e o Bank of America, um dos maiores bancos do planeta.

A exploração experimental do campo pode ocorrer a partir de 2010 ou 2011 com 100 mil barris por dia, e a comercial, talvez, em 2014. O anúncio ocorre após a crise no abastecimento de gás ter elevado temores de um apagão energético no país e num momento de forte aumento da demanda global por energia, que levou o barril de petróleo a atingir quase US$ 100,00.

Em razão da descoberta, o governo anunciou a exclusão da 9ª Rodada de Licitações de 41 blocos de exploração vizinhos ao local da grande reserva no leilão do final do mês. A exclusão foi anunciada ontem, após reunião do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), na sede da Petrobras, no Rio, que contou com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sete ministros de Estado.

Lula não participou do anúncio público da confirmação da descoberta. Coube à ministra Dilma Rousseff - apontada como possível candidata do PT à Presidência em 2010- capitalizar a boa notícia e dar o tom nacionalista da cerimônia, ofuscando o ministro interino Nelson Hubner (Minas e Energia).

Rousseff afirmou que a decisão do governo de excluir áreas próximas da reserva tinha como foco a preservação do interesse nacional e negou que a atitude tenha um viés estatizante. Segundo ela, não há motivo para comparar a decisão do governo com as ações de nacionalização de reservas de países vizinhos, como a Bolívia.

Com base na descoberta anunciada ontem e outros testes, existem indicações de que há muito mais petróleo e gás do que se estima atualmente. "Esse campo é uma das indicações mais fortes de que, além dele, existem vários outros campos numa área de 800 quilômetros com 200 quilômetros de largura", afirmou Rousseff. A área vai do litoral do Estado do Espírito Santo até Santa Catarina.


A descoberta pode trazer também ganho tecnológico porque se encontra na chamada camada pré-sal, em profundidades maiores que as vigentes. Para explorá-la, serão necessários mais investimentos e tecnologia. Segundo a Petrobras, o petróleo abaixo da camada de sal é de boa qualidade, óleo leve de maior valor comercial. "O que nós descobrimos é que abaixo da camada de sal havia um volume significativo de petróleo aprisionado", afirmou o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli.
A Petrobras, isolada ou em parcerias, perfurou 15 poços e testou oito deles na área pré-sal, entre 5.000 e 7.000 metros de profundidade.

Instituto Humanitas Unisinos - 08/11/07

Envio de remessas. Setor automobilístico ultrapassa bancos no envio de rendas

Depois de um período de vacas magras, as remessas de lucros e dividendos da indústria automobilística quadruplicaram nos últimos dois anos. As montadoras enviaram US$ 2,091 bilhões para suas matrizes nos 12 meses encerrados em setembro, segundo o Banco Central. Com isso, o setor tomou a liderança entre os que mais mandam rendas ao exterior, ultrapassando os bancos. Outras atividades da economia também multiplicaram o envio de lucros e dividendos, como siderurgia, produtos químicos e eletricidade e gás. A reportagem é de Alex Ribeiro para o Valor Econômico, 8-11-2007.

"O setor automobilístico investiu muito no passado", afirma Olivier Gerard, sócio-diretor da Trevisan Consultores. "Agora, está colhendo os frutos." Os fabricantes de veículos, sozinhos, respondem por 14% das remessas de lucros e dividendos, mostra levantamento do BC com operações a partir de US$ 1 milhão. As remessas são bastante concentradas. Um grupo de sete setores, incluindo veículos, responde por dois terços delas. Outras atividades que se destacam são intermediação financeira (11% das remessas totais), eletricidade e gás (10%), alimentos e bebidas (9%), químicos (8%), siderurgia (8%) e comércio (6%).

A indústria automobilística investiu pesado na década de 1990, e, durante anos, teve retornos abaixo do esperado. De 1996 a 2000, os ingressos de capitais das empresas automobilística somaram US$ 4,3 bilhões. Foi o setor industrial com maior fluxo de investimentos diretos no período. De 2001 a 2006, entraram US$ 6,3 bilhões.

Nessa onda de investimentos, foram abertas 22 fábricas e se estabeleceram no país montadoras como Renault, Peugeot, Toyota e Honda. Empresas que já tinham presença no Brasil ampliaram e modernizaram suas unidades e anunciaram a construção de fábricas, como as instalações da Ford da Bahia. "O retorno sobre esse investimento é demorado", diz Gerard.

Um estudo do BC mostra que, nessa época de vacas magras, entre 1997 e 2004, as remessas de lucros e dividendos da indústria automobilística equivaleram a apenas 2% do estoque de investimentos diretos do setor. O percentual foi bem mais baixo do que, por exemplo, o do setor de fabricação de produtos alimentícios, com 8%, e de siderurgia e de produção de minerais não-metálicos, ambos com 6%.

Os investimentos dos anos 1990 aumentaram a capacidade de produção de 2 milhões para 3,5 milhões de veículos. Mas, durante anos, a indústria operou com alta capacidade ociosa. Foi só a partir de 2004 que a produção alcançou de forma consistente o patamar dos 2 milhões. A expectativa é que a produção cheguem perto do limite da capacidade em 2008, com 3,2 milhões de automóveis. Junto com a produção, aumentaram as remessas - US$ 498 milhões em 2005 e, no ano seguinte, US$ 1,3 bilhão. Neste ano, foram US$ 2 bilhões, nos 12 meses encerrados em setembro.

Se a indústria automobilística se tornou a campeã de remessas, o setor de telecomunicações está no outro extremo - entre os setores que remetem pouco, relativamente aos capitais investidos. O censo de capitais estrangeiros mostra que, em 2000, o setor de telecomunicações detinha o maior estoque de investimentos no país entre os vários setores, com US$ 18,761 bilhões, ou 18,2% dos capitais estrangeiros. De 2001 para cá, também foi o que mais investiu, com US$ 17,215 bilhões.

As remessas do setor de telecomunicações, porém, não acompanharam o avanço dos investimentos - têm-se mantido estáveis na casa dos US$ 500 milhões desde 2005. "As empresas investem muito para acompanhar as mudanças tecnológicas", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luis Afonso Lima, que também é economista-chefe da Telefônica.

As instituições financeiras, com remessas de US$ 1,673 bilhão nos 12 meses encerrados em setembro, são o segundo setor da economia que mais remete lucros, com um crescimento de 40% nos fluxos em dois anos. Dois fatores explicam as fortes remessas dos bancos. Um deles são os maciços investimentos diretos feitos no passado recente. Entre 1996 e 2001, foram aplicados US$ 15,921 bilhões, o que faz o setor de bancos o segundo com maior ingresso de investimentos diretos no período, atrás apenas das telecomunicações. Outro fator são os altos lucros do setor bancário.

O setor de energia elétrica e distribuição de gás é o terceiro que mais remete lucros e dividendos. Os fluxos mais que quadruplicaram entre 2005 e os 12 meses encerrados em setembro, passando de US$ US$ 337 milhões para US$ 1,4 bilhão. A exemplo da indústria de veículos, é um setor que investiu pesados nos anos 1990.

Os dados do BC mostram que, de 1996 a 2000, o setor de energia elétrica recebeu US$ 13,3 bilhões em investimentos, fluxo menor apenas que os de telecomunicações e de bancos. De 2001 a 2006, foi o setor entre os serviços que mais recebeu investimentos, com US$ 8,707 bilhões.

Entre 1999 e 2002, porém, o setor de energia elétrica, sobretudo distribuição, sofreu fortes perdas, devido à desvalorização do real e do racionamento de energia elétrica. A situação começou a melhorar em 2003 e, dois anos depois, praticamente todas as distribuidoras de energia elétrica tiveram lucros.

O setor de siderurgia remeteu US$ 1,9 bilhão nos 12 meses encerrados em setembro, um aumento de 73% em relação aos US$ 692 milhões ocorridos em 2005. Os lucros, puxados pela alta no preço do aço, ajudam a explicar as remessas. No primeiro semestre, as 27 empresas com capital aberto do setor metalúrgico lucraram R$ 5,2 bilhões, mais do que o lucro ocorrido em todo o ano de 2003, de R$ 4,6 bilhões. Também tiveram crescimento expressivo nas remessas de lucros e dividendos o comércio (alta de 39%) e de produção de alimentos e bebidas (26%) desde 2005.

Instituto Humanitas Unisinos - 07/11/07

Brasil se rearma. General vê 70% dos blindados do Exército 'indisponíveis'

O comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, defendeu ontem a necessidade de reequipamento da Força e advertiu: “Hoje não estamos à altura do Brasil.” Para ele, o País é uma potência regional e precisa ter poder dissuasório, para evitar qualquer aventura. A reportagem é de Tânia Monteiro e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 7-11-2007.

O general defendeu recursos da ordem de R$ 6,7 bilhões para reaparelhamento do Exército nos próximos 14 anos. Ele se recusou a classificar os equipamentos da Força como sucateados, mas reconheceu que estão desgastados. Hoje, 70% dos blindados estão indisponíveis e 78% dos 1.500 blindados têm mais de 34 anos de uso.

“O Brasil precisa ter capacidade de dissuasão. É essa capacidade que precisa ser restabelecida”, declarou o comandante, após participar da abertura da Conferência dos Exércitos Americanos, em Brasília, com a participação de 22 países.

Peri evitou fazer comparações com a Venezuela de Hugo Chávez ou criticar a corrida armamentista que o país pode provocar na região. “O reaparelhamento da Venezuela não é preocupante”, disse.

Indagado se não via com preocupação o fato de a Venezuela ajudar a Bolívia a se armar, respondeu: “É uma questão da Bolívia e da Venezuela. O Brasil é que tem de estar com suas Forças Armadas, seu Exército, à altura da sua importância. O Brasil é uma potência regional.”

Ele defendeu o reaparelhamento freqüente. Na sua opinião, isso evitaria a mobilização por busca de verbas e ajudaria a manter a modernidade das Forças Armadas.

Instituto Humanitas Unisinos - 07/11/07

Engenheira agrônoma é presa no Paraná. Funcionária do Instituto Ambiental, ela denunciou esquema de corrupção

"Bons tempos, aqueles em que a corrupção se contentava entre nós com a simples impunidade. Ela agora aprendeu a revidar. E, pelo menos no Paraná, acaba de trancar na cadeia a engenheira agrônoma Elma Nery de Lima Romanó, que até agora só é suspeita de denunciá-la”. O comentário é de Marcos Sá Corrêa, jornalista e editor do site O Eco, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 7-11-2007.

Eis o artigo.

Romanó foi presa há duas semanas, como chefe de uma quadrilha que vendia licenças para o corte ilegal de araucárias em Ponta Grossa. A máfia comercializava papéis falsos entre empresas madeireiras e proprietários de terras. Era uma fábrica de desmatamento. Funcionava, havia anos, no escritório local do Instituto Ambiental do Paraná. Sua tabela de propinas ia de R$ 10 a R$ 30 mil reais. Arrombou no município 27 mil metros quadrados de clareiras. Condenou 36 mil pés de araucária, árvore que é símbolo do Estado em vários sentidos, inclusive o de seu fracasso em conservar a espécie nativa que botou na bandeira. Rendeu, em madeira, R$ 8 milhões.

Desmontá-la custou oito meses de investigações. Custaria menos se o governo estadual tomasse as providências pedidas há dois anos pela funcionária do Instituto Ambiental do Paraná, que ele mesmo mandou a Ponta Grossa para desratizar o escritório regional. Essa funcionária era Alma Romanó.

Ela assumiu o cargo 2004.Vinha do Ministério Público estadual. Tinha fama de incorruptível e quase 30 anos de serviço. Em 2006, recebeu da Câmara de Vereadores o título de cidadã honorária ponta-grossense. Chefe do escritório, fez sindicâncias contra fiscais, empresários, fazendeiros, ONGs e policiais militares como traficantes de autorizações frias.

Suas denúncias subiam às esferas competentes e lá ficavam. No ano passado, farta de esperar pela resposta dos superiores, relatou, em carta ao governador Roberto Requião, o caso de Ponta Grossa. Requião leu a carta no “Escola de Governo”, seu programa radiofônico das manhãs de terça-feira. No ar, mandou sua administração acabar com aquilo. Nada aconteceu.

Em junho, Romanó demitiu-se. Transferiu-se à Ferroeste, a estatal dos trens paranaenses. No novo emprego, entrou em crise depressiva. Tirou duas licenças médicas. Estava num hospital nos arredores de Curitiba, com cateter de soro no braço, ao ser presa, no dia 23.

O seu foi um dos nove mandados de prisão que resultaram da Operação Florestal Negra, a devassa policial da quadrilha de Ponta Grossa. Dos oito detidos, três indicados já estão soltos. Dois são donos de madeireiras. O terceiro é engenheiro florestal.

Mas o pedido de habeas-corpus para Romanó foi indeferido pelo Tribunal de Justiça. O advogado de defesa diz que ela foi “vítima do esquema que denunciou”. Ambientalistas paranaenses lançaram um protesto, pondo a mão no fogo por sua inocência. Como patrono de uma campanha para preservação das araucárias no Paraná, o veterinário Clóvis Borges, da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem, garante que ela caiu numa arapuca. Seja como for, Romanó já é um sinal de que o Brasil anda meio esquisito.