"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

terça-feira, dezembro 02, 2008

É PRECISO FAZER A VIAGEM VERTICAL

Site do Azenha - Atualizado em 27 de novembro de 2008 às 12:35 | Publicado em 27 de novembro de 2008 às 11:10

Lendo "O Corte", de Donald Westlake, me ocorreu que vivemos tempos bicudos. Trata-se de um livro de ficção, mas que fala das conseqüências do capitalismo pós-anos 80 -- de Ronald Reagan e Margaret Thatcher e de todos aqueles que, mais ou menos, adotaram o mesmo modelo. Na América Latina, com resultados desastrosos, Carlos Menem, Fernando Henrique Cardoso, Carlos Salinas de Gortari e mais recentemente Lula, que apesar de ter feito concessões aqui ou ali preservou intacto o modelo de colocar o país a serviço do capital financeiro, do agronegócio, das empresas de telefonia, empreiteiras e mineradoras.

O "grande acordo" de que nos fala Paulo Henrique Amorim é isso: um conchavo de bastidores entre o PT e o PSDB em que os dois partidos preservam seus interesses fundamentais na política brasileira -- e, acima de tudo, os de seus financiadores. Os tucanos, como deixou clara a campanha de Gilberto Kassab em São Paulo, já incorporaram à sua plataforma o esqueleto dos programas sociais petistas; o PT, como deixou claro o presidente Lula ao aceitar a privatização dos aeroportos, já incorporou à sua plataforma o essencial aos grandes interesses econômicos em nome dos quais o Brasil é governado.

Mudar para não mudar, como nos ensinou o historiador Leôncio Martins Rodrigues, tem sido a marca definidora da História brasileira.

Mas, voltando ao "O Corte", o livro conta a história de um desempregado que planeja conquistar uma vaga disputadíssima numa empresa e, com esse objetivo, passa a eliminar fisicamente todos os seus concorrentes. Uma forma alegórica de tratar do downsizing, a eliminação de vagas com a qual o capitalismo neoliberal nos brindou pós-80. Essa lógica persiste e não é preciso ir longe para constatá-la: olhe à sua volta. Nas últimas duas décadas a regra tem sido a eliminação de postos de trabalho, o acúmulo de funções, o corte de benefícios, o aumento da jornada através do uso de novas tecnologias (computador, internet e telefonia celular). É a precarização do mundo do trabalho, a disputa selvagem por empregos, o vale-tudo para manter as vagas.

É óbvio que tudo isso tem conseqüências concretas no dia a dia das pessoas. Numa emissora em que trabalhei os chefes eram recompensados generosamente sempre que gastavam menos que o previsto no orçamento. E obtinham isso arrancando o couro dos subordinados, privilegiando os puxa-sacos e "punindo" os que se davam conta das táticas patronais com a pecha de "revoltados" ou "encrenqueiros". É a lógica corporativa do dividir para governar.

Não me assusto, portanto, quando leio estatísticas dando conta de que a depressão e a ansiedade são as doenças do século 21. Sintoma da precarização do mundo do trabalho, dos laços sociais tênues que resultam da competição selvagem entre trabalhadores, da intensificação dos fluxos migratórios de quem busca novas oportunidades e da invasão do universo familiar pelo trabalho (por conta da internet e do celular).

Fazer a "Viagem Vertical" é, portanto, uma estratégia de sobrevivência. Trata-se do nome de outro livro que li recentemente, em que um velho é levado por circunstâncias pessoais a refletir sobre seu papel no mundo. Esse auto-conhecimento é necessário a todos os humanistas que pretendem preservar algo que o capitalismo selvagem pretende esmagar no campo das idéias: a capacidade de empatia social. De se enxergar nos outros, de rejeitar o egoísmo social e de lutar pelo aperfeiçoamento da sociedade. Fazer a viagem vertical, em minha opinião, implica em cultivar a reflexão e o humanismo. E não ceder aos impulsos dos que pretendem continuamente precarizar nossa vida.

Quando eu entrei pela primeira vez em uma redação, nos anos 70, este era o espírito da grande maioria dos jornalistas. Eramos todos pobres ou remediados e, independentemente de posição política, acreditávamos na profissão como instrumento de denúncia social para melhorar o mundo. Hoje, no entanto, a lógica do "eu primeiro" se impôs nas redações. As empresas da mídia corporativa se tornaram instrumentos de propaganda do mundo do trabalho precarizado e do vale-tudo nas relações sociais.

Mas sobrararam os "vãos" da internet para que a gente se junte, ainda que seja apenas para rir da desgraça que vivemos em comum.

PS: No Brasil, o caso do banqueiro Daniel Dantas reflete a mudança de paradigma: quando o jornalismo foi colocado ativamente a serviço do crime organizado.

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