"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

quinta-feira, janeiro 14, 2016

A desigualdade social chega a níveis alarmantes

Carta Capital através do Flipboard 06 jan 16

A concentração de riqueza no mundo é hoje semelhante à da Inglaterra de charles Dickens ou da França de Victor Hugo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 05/01/2016 03h23



Noor Khamis/ Reuters/ Latinstock
Os Miseráveis
Há mais gente, menos posses e mais dívidas na base da pirâmide


Em 2013, com O Capital no Século XXI, Thomas Piketty alertou para o crescimento contínuo da desigualdade de riqueza desde a década de 1970, contrária à tendência dos 60 anos anteriores e muito mais acentuada e socialmente relevante que a desigualdade de renda, mais fácil de pesquisar e na qual se concentrava a maioria dos estudos anteriores.
 Na Europa, a parcela detida pelo décimo superior subiu de 60% em 1970 para 64% em 2010 e a do centésimo superior de 21% para 24%. Nos EUA, o décimo superior subiu de 64% para 72% e o centésimo superior de 28% para 34%. Na falta de políticas ativas contra a desigualdade (como, por exemplo, impostos progressivos sobre o capital), esses países retornarão em meados do século XXI a um patamar de desigualdade semelhante àquele do fim do século XIX e início do XX.
Nesse período, o 1% mais rico (“classes dominantes”, na terminologia de Piketty) detinha metade de toda a riqueza, o décimo superior (“classes superiores”, sendo os não incluídos no primeiro 1% referidos como “classes abastadas”) , quase 90%, enquanto o 50% mais pobre (“classes populares” na terminologia do economista) ficava com meros 5%. A nostalgia chama esses tempos e de belle époque, mas poucos, mesmo nos países mais ricos, puderam usufruir de sua beleza.
O ano de 2010 foi também aquele no qual o banco Credit Suisse publicou o seu primeiro Global Wealth Report (Relatório da Riqueza Global). Naquele ano, os 50% mais pobres dos 4,44 bilhões de adultos possuíam pouco menos de 2% dos ativos mundiais estimados em 194,5 trilhões de dólares, “embora a riqueza esteja crescendo rapidamente para alguns membros deste segmento”, acrescentava esperançosamente o relatório. Os 10% superiores possuíam 83% da riqueza mundial e o centésimo superior, 43%. A riqueza média equivalia a 43,8 mil dólares líquidos. Era preciso possuir 4 mil para deixar de pertencer aos 50% mais pobres, 72 mil para chegar aos 10% mais ricos e 588 mil para o centésimo superior.
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Piketty: sem medidas ativas, como imposto sobre o capital, vai piorar ainda mais.
Cinco anos depois, o relatório de 2015, publicado em 13 de outubro, mostra que a concentração de renda mundial alcançou níveis tão críticos quanto o do mundo industrializado antes da Primeira Guerra Mundial. Apesar do relativo otimismo de 2010, a metade mais pobre dos 4,8 bilhões de adultos ficou ainda mais depauperada: agora possui menos de 1% da riqueza planetária estimada em 250,1 trilhões de dólares, enquanto o décimo mais alto controla quase 90% (87,7%, para ser exato) e o centésimo no topo, exatos 50%. A riqueza média líquida subiu para 52,4 mil, um aumento nominal de 19,6% que se reduz a 9,3% se descontados 9,5% de inflação do dólar nos Estados Unidos em cinco anos, mas os níveis de corte passaram para 3,21 mil (27% mais baixo em termos reais), 68,8 mil (13% mais baixo) e 759,9 mil (18% mais alto), respectivamente.
Percebeu-se há algum tempo, em vários países, como a limitada recuperação da economia após a crise de 2008 fluiu para os bolsos dos privilegiados, enquanto as classes média e popular ficaram ainda mais pobres pela estagnação (ou mesmo redução) dos salários reais, o aumento do desemprego e o maior endividamento. Na Espanha, por exemplo, o número de milionários em dólares (pelo critério do Capgemini e Royal Bank of Canada, que ao contrário do Credit Suisse, não inclui residência e bens de consumo) cresceu de 127,1 mil em 2008 para 178 mil em 2014, enquanto a renda per capita caiu de 35,6 mil para 30,3 mil, o desemprego subiu de 11% para 26% e a dívida pública saltou de 39,4% para 99,3% do PIB.
Nos EUA, o 1% mais rico absorveu 95% do crescimento após a crise financeira e o empobrecimento da camada inferior reflete-se até na mortalidade. Em 1960, os 20% de homens com 50 anos mais pobres podiam esperar viver até os 76,6 anos, enquanto, em 2010, esse número caiu para 76,1. No caso das mulheres, a queda foi de 82,3 para 78,3. Enquanto isso, a expectativa de vida para os 20% mais ricos atingiu 88,8 anos para homens e 91,9 para mulheres.
Na União Europeia, a renda combinada dos dez mais ricos, 217 bilhões de euros, superou o valor total das medidas de estímulo de 2008 a 2010, cerca de 200 bilhões. A novidade do relatório está em oferecer, em números, um panorama sintético dos resultados desse processo na escala do planeta.
O efeito do crescimento das dívidas na riqueza líquida foi tão importante que resultou no paradoxo de que agora há entre os 10% mais pobres (inclusive os de patrimônio negativo) mais europeus e norte-americanos do que chineses. Nem todos esses vivem na miséria. Alguns, principalmente nos EUA, são jovens cujo patrimônio foi zerado por crédito educativo, hipoteca ou cartão de crédito, mas têm diploma, um padrão de consumo decente e o sonho de um dia chegar ao topo, mas a precariedade da sua situação ficará evidente se tiverem de enfrentar uma crise ou uma doença inesperada.
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Parte do aumento recente da desigualdade está relacionada à valorização do dólar perante a outras moedas do mundo. Quem não vive nos Estados Unidos ou em países de câmbio fixo ficou, só por isso, mais pobre em dólares. Em muitos países, esse efeito é neutralizado ou amenizado pela queda do custo de vida local em moeda estadunidense. Mas quando se refere às relações internacionais de poder e riqueza, esse empobrecimento é real, como constata qualquer brasileiro ao viajar para o exterior, pagar por serviços de internet ou, se está no topo da escala, ao negociar com bancos como o Credit Suisse.
Para usar a terminologia do banco suíço, o número de adultos na “base da pirâmide” (com menos de 10 mil dólares líquidos) cresceu de 3,038 bilhões (68%) para 3,386 bilhões (71%), sua irrisória fatia no bolo da riqueza mundial caiu de 4,2% para 3% e sua riqueza média, ou melhor, pobreza média, caiu de 2,7 mil para 2,2 mil, um tombo de 26% em termos reais.
A camada do meio (10 mil a 100 mil dólares) diminuiu de 1,045 bilhão (24%) para 1,003 bilhão (21%), sua parcela caiu de 16,5% para 12,5% e sua riqueza média passou de 30,7 mil para 31,2 mil, ilusão monetária sobre uma queda real de 7,2%. Em 2000, 3,6% dessa camada vivia na China, em 2010, pouco menos de um terço e hoje, 36%.
Os não milionários da camada superior (100 mil a 1 milhão de dólares) perderam em termos relativos. Seu contingente passou de 334 milhões (7,5%) para 349 milhões (7,4%) e sua participação na riqueza mundial diminuiu de 43,7% para 39,4%. Em tese, não têm do que se queixar: em termos absolutos, sua riqueza média passou de 254 mil para 282 mil dólares, com leve aumento real de 1,3%.
Compare-se, porém, com o que aconteceu com os milionários: seu número aumentou de 24,2 milhões (0,5%) para 34 milhões (0,7%) e sua riqueza passou de 2,86 milhões para 3,32 milhões, o que significa um aumento real de 6,1%. Sua fatia, já grande, aumentou de 35,6% para 45,2% e passou a ser a maior de todas. A parte do Leão, por qualquer critério. O perfil geográfico desse grupo também se concentrou. Cinco anos atrás, 41% viviam nos EUA, hoje são 46%. Os únicos outros países com ganho perceptível de participação foram o Reino Unido, que ao passar de 5% para 7% tomou o segundo lugar por muito tempo ocupado pelo Japão, a China (de 3% para 4%), a Suíça (de 1% para 2%) e a Suécia (idem). Alguns caíram muito, inclusive Japão (de 10% para 6%), França (de 9% para 5%) e Itália (de 6% para 3%).
O relatório não faz uma estimativa independente do número de bilionários, mas, segundo a revista Forbes, ele aumentou de 1.011 com uma riqueza total de 3,6 trilhões para 1.826 com um valor agregado de 7,05 trilhões. Em 2010, esse grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos depois, açambarca mais que o triplo. Basta juntar num ônibus os 85 mais ricos (com 13,4 bilhões ou mais, incluídos os brasileiros Jorge Paulo Lemann e Joseph Safra), para usar a imagem do Nobel de Economia Joseph Stiglitz, para igualar a metade de baixo da pirâmide, 3,7 bilhões de seres humanos (2,4 bilhões das quais adultos), cujos patrimônios somados igualam os mesmos 2,1 trilhões de dólares.
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O relatório de 2015 do Credit Suisse inclui também pela primeira vez um estudo da “classe média global” com critérios não diretamente comparáveis ao da pirâmide acima. Esta foi definida como possuidora de riqueza líquida de 50 mil a 500 mil dólares nos EUA em meados de 2015 e valores equivalentes em outros países segundo o poder aquisitivo local do dólar conforme a estimativa adotada pela instituição – por exemplo, de 13,7 mil a 137 mil dólares na Índia, 28 mil a 280 mil no Brasil ou na China e 72,9 mil a 729 mil na Suíça, de forma a obliterar o efeito da variação cambial. Em todo o mundo, 664 milhões se encaixam nessa definição, com um patrimônio total de 80,7 trilhões (32% do total mundial), média de 121,5 mil per capita. Acima deles estão 96 milhões, com 150 trilhões (60% do total), 1,56 milhão por proprietário. As duas camadas juntas detêm, portanto, 92% de todos os bens do mundo.
É só nos países ricos que esse conceito de “classe média” se aproxima daquilo que Piketty entende pelo termo, ou seja, aqueles cujas posses estão acima da mediana, mas abaixo dos 10% superiores. Nos menos desiguais (Austrália, Cingapura, Bélgica, Itália e Japão) chega a constituir 60% da população ou mais. Mas no contexto mundial soma só 13,9% da população (com outros 2% no topo) e é na realidade mais comparável às “classes abastadas” de Piketty. Isso é verdade também para quase todos os países pobres e emergentes. Qualificam-se como “classe média” 3% dos indianos, 4% dos argentinos, 8,1% dos brasileiros, 10,7% dos chineses e 17,1% dos mexicanos. No Brasil, em especial, essa “classe média” abrange quase toda a camada conhecida pelos pesquisadores de mercado como A2 (3,6%) e a metade superior da B1 (9,6%), ou seja, é a maior parte do que chamaríamos de “elites”. Acima dela, só a classe dominante no sentido estrito, 0,6% dos brasileiros (a camada A1 conta com 0,5%).
Apesar disso, hoje é a China o país com o maior número de indivíduos na “classe média”: nada menos de 109 milhões, ante 92 milhões nos EUA. Onze outros países têm mais de 10 milhões: Japão, com 62 milhões; França, Itália, Alemanha, Índia, Espanha e Reino Unido, com 20 milhões a 30 milhões; Austrália, Brasil, Canadá e Coreia do Sul, com 10 milhões a 17 milhões.
Que ninguém se engane: essa “classe média” é uma elite em termos planetários, vive com conforto, tem em geral uma educação superior e é muito relevante como consumidora, talvez também como contribuinte. Porém, do ponto de vista do poder econômico e político e do interesse de grupos financeiros internacionais, são os 29,8 milhões de milionários, no mínimo, que contam.  Aqueles com 5 milhões a 10 milhões de dólares são 2,5 milhões e com 10 milhões a 50 milhões, 1,3 milhão, mas o foco visível do interesse do Credit Suisse está nos ultrarricos com mais de 50 milhões, que cresceram de 81 mil em 2010 para 124 mil em 2015 ou 0,0026% dos cidadãos do mundo. Destes, 59 mil vivem nos EUA (48%), 30 mil na Europa (24%), 9,6 mil (9%) na China e Hong Kong e 1,5 mil (1%) no Brasil. A Suíça tem 3,8 mil nessa categoria, mais que a França (3,7 mil).
Esses multimilionários são o equivalente aproximado, quanto ao seu número relativo, à classe senatorial da Roma antiga (600 senadores, mais os filhos adultos, em uma população de 60 milhões) ou à alta nobreza titulada nas grandes monarquias europeias do século XVIII (algumas centenas em populações de dezenas de milhões). Os meros milionários podem ser equiparados à classe curial da antiga Roma (mercadores, conselheiros e funcionários municipais) ou à pequena nobreza não titulada da Europa pré-revolucionária, ambas perto de 1% da população da época.
Conforme Piketty, as grandes novidades do século XX, atribuídas por ele aos choques políticos e econômicos das duas guerras mundiais, foram a redução da participação da classe dominante na riqueza, para cerca de 20% do total em vez dos 50% tradicionais até 1913, e o surgimento de uma  verdadeira classe média, formada por algo como 40% da população e 35% ou 40% da riqueza. Sua parcela é constituída fundamentalmente de residência e bens de consumo e poupanças, representando pouco poder econômico, mas uma razoável segurança. Nas sociedades mais antigas, os 90% inferiores formavam uma massa pouco diferenciada e possuíam 10% ou menos da riqueza social.
O relatório do Credit Suisse mostra uma sociedade global cada vez mais próxima desses padrões antigos e medievais, e mais distantes daqueles atingidos pelos países mais desenvolvidos nos anos do pós-Guerra. Desde o início da era neoliberal, a riqueza acumula-se cada vez mais no topo, enquanto as maiorias empobrecem em termos relativos e até absolutos. As crises mostraram-se, sobretudo, oportunidades de radicalizar esse processo: para conter as falências em massa que agravariam a crise, valores imensos são mobilizados pelos Estados para financiar os poderosos, cuja incompetência é premiada também com cortes de impostos, salários e direitos trabalhistas, enquanto as massas pagam a conta com um salário congelado ou reduzido e impostos mais altos, quando não perdem o emprego e se endividam ainda mais.
O crescimento de alguns países emergentes, principalmente a China, foi o único fator importante a contrariar essa tendência geral, ao incorporar camadas maiores da população à “classe média” mundial (apesar de, no caso chinês, isso também aumentar sua desigualdade interna em relação às massas camponesas). Mas esse fator está em desaceleração, ao passo que as pressões para privilegiar ainda mais os ricos e lhes dar maior liberdade de ação estão em alta em quase toda parte e as crises em formação só tendem a reforçá-las. 
*Reportagem publicada originalmente na edição 873 de CartaCapital, com o título "No mundo de 'Os miseráveis"

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Últimos resultados do Latin NCAP: a Toyota e a Mitsubishi atingiram as cinco estrelas. A Nissan melhorou modelos e junto com a VW e a Hyundai ganharam quatro estrelas

Latin CAP - 15.12.2015

Os últimos resultados do Programa de Avaliação de Veículos Novos para América Latina e o Caribe (Latin NCAP), continuam a mostrar avanços importantes em segurança veicular na América Latina. O Latin NCAP impulsiona a melhoria dos níveis de proteção dos ocupantes adultos e crianças, os quais em muitos países ainda estão abaixo dos padrões mínimos de segurança das Nações Unidas. Os últimos resultados são, também, os últimos modelos testados com o atual protocolo de avaliação, que será ampliado a partir de 2016.
Três modelos, Mitsubishi Montero Sport, Toyota Rav4 e Toyota Hilux atingiram as cinco estrelas para a proteção do ocupante adulto e bons resultados para a proteção infantil. Quatro modelos, o Hyundai Creta, VW Fox, Nissan Versa e o Nissan March ganharam quatro estrelas para o ocupante adulto e resultados díspares para a proteção do ocupante infantil.
Hyundai Creta, fabricada na Índia, atingiu as quatro estrelas para a proteção do ocupante adulto e três estrelas para a proteção infantil. Este é um dos últimos modelos do fabricante que acabou de ser lançado no mercado da América Latina como uma plataforma global. A falta de equipamento padrão como freios ABS, lembrete de cinto de segurança para o passageiro e o fato de o fabricante não ter patrocinado o teste de impacto lateral limitou a qualificação. A configuração do equipamento foi feita pela matriz do fabricante. A falta deste equipamento padrão como versão básica neste modelo decepciona o Latin NCAP, considerando que são importantes para a segurança dos passageiros, junto com o controle eletrônico de estabilidade (ESC) que sua concorrência incluiu, como o Jeep Renegade e o Honda H-RV.
O VW Fox,fabricado no Brasil, recentemente atualizado com um facelift, conseguiu as quatro estrelas em relação à proteção do ocupante adulto e duas estrelas para a proteção infantil. O veículo oferece boa proteção para a cabeça de ambos os passageiros dianteiros. Proporciona, também, boa proteção para o peito do acompanhante e proteção marginal para o peito do motorista. Esse modelo costumava ser produzido no Brasil e era exportado para a Europa. A versão para os mercados da América Latina do Fox não conta com ancoragens ISOFIX, ESC, airbags laterais para a proteção lateral, enquanto a versão que era exportada para Europa contava com esses itens como equipamento opcional. As duas estrelas para o ocupante infantil se devem, em parte, à falta de ancoragens ISOFIX, à falta de cintos de segurança de três pontos em todas as posições e não se poder desconectar o airbag do acompanhante caso seja colocado um Sistema de Retenção Infantil (SRI) voltado para trás.
Mitsubishi Montero Sport, fabricada na Tailândia, recentemente lançada no mercado da América Latina, atingiu as cinco estrelas para o ocupante adulto e três estrelas para o ocupante infantil. O veículo oferece três airbags como equipamento básico que, junto com os cintos de segurança e pretensores, proporcionaram boa proteção aos passageiros. A criança de 18 meses recebeu boa proteção, mas a cabeça da criança de três anos entrou em contato com o banco do motorista
causando uma perda de pontos. O encosto do banco traseiro, por trás do dummy de três anos, se soltou no teste. O veículo oferece ancoragens ISOFIX na segunda fila de bancos e cintos de segurança de três pontos em todas as posições.
O Nissan March, fabricado no Brasil, conseguiu as quatro estrelas no tocante à proteção do ocupante adulto e uma estrela para o ocupante infantil. O modelo está equipado com duplo airbags e pretensores desde a recente mudança de produção. As cabeças dos ocupantes adultos receberam boa proteção e os peitos receberam proteção marginal adequada. A baixa pontuação atingida para a proteção infantil se deve à falta de cintos de três pontos em todas as posições, à falta de possibilidade de desconectar o airbag do acompanhante, à má sinalização de advertência de quando se coloca um sistema de retenção infantil voltado para trás e à falta de ancoragens ISOFIX. A Nissan tinha patrocinado o teste do March em 2011. Nesse momento, o Latin NCAP tinha ressaltado a estrutura instável do March em comparação com a versão europeia chamada Micra, testada pelo Euro NCAP em 2010. O Latin NCAP destaca agora as melhorias que a Nissan fez neste modelo. Como um claro sinal da alteração estratégica que a Nissan está realizando para tornar os veículos mais seguros, depois de melhorar o Tiida Sedã em 2015, a Nissan aperfeiçoou as estruturas do March e Versa e seu equipamento de segurança, bem como seu desempenho. Ambos os modelos foram testados pelo Latin NCAP.
Nissan Versa, fabricado no Brasil, conseguiu as quatro estrelas para a proteção do ocupante adulto e duas estrelas para o ocupante infantil. Este modelo está agora equipado, em todas as versões, com duplo airbags e pretensores. As cabeças foram bem protegidas pelos airbags e os peitos receberam proteção adequada. A baixa pontuação a respeito do ocupante infantil se deve à falta de cintos de segurança de três pontos em todas as posições, à má sinalização de advertência, além de não contar com a possibilidade de desconectar o airbag do acompanhante quando se instala um SRI voltado para trás, e à falta de ancoragens ISOFIX.
A Toyota Hilux, fabricada na Argentina, atingiu as cinco estrelas para a proteção do ocupante adulto e cinco estrelas para o ocupante infantil. A estrutura do veículo é forte e os três airbags como equipamento básico, junto com os cintos de segurança, oferecem boa proteção no impacto frontal. O carro, também, proporciona boa proteção no impacto lateral. A Hilux conta em seu equipamento básico com três airbags frontais (cabeça e peito do motorista, joelhos do motorista e cabeça e peito do acompanhante), freios ABS em quatro canais, lembrete de cinto de segurança para ambos os passageiros dianteiros. O bom resultado obtido para a proteção infantil se deve aos cintos de segurança de três pontos em todas as posições, ancoragens ISOFIX, possibilidade de desconexão do airbag do acompanhante, e boa sinalização para os consumidores.
O Latin NCAP testou o mesmo modelo fabricado na Tailândia em setembro de 2015. A melhor qualificação para o ocupante infantil ocorreu porque o fabricante decidiu testar a versão fabricada na Argentina com SRI, que não estavam disponíveis no mercado no primeiro teste. Os SRI utilizados para ambos os dummies, neste teste, foram os Takata MIDI 2. Estes SRI oferecem a possibilidade de colocar o dummy de três anos olhando para trás, demonstrando benefícios em relação à proteção.
A Toyota Rav 4, fabricada no Japão, conseguiu as cinco estrelas no tocante à proteção do ocupante adulto e quatro estrelas para a proteção infantil. A estrutura do veículo é forte e os três airbags e cintos de segurança protegem bem os ocupantes no impacto frontal. O carro oferece boa proteção no impacto lateral. A Rav4 conta com três airbags frontais (cabeça e peito do motorista, joelhos do
motorista e a cabeça e peito do acompanhante), freios ABS em quatro canais e lembrete de cinto de segurança para passageiros da frente, como padrão em todas suas versões.
A Hilux e Rav 4 são os primeiros modelos testados pelo Latin NCAP a utilizar a nova geração de SRI, chamada i-Size, que mostram importantes benefícios para a proteção de ambas ocupantes crianças.
María Fernanda Rodríguez, Presidente da Diretoria do Latin NCAP, disse: "Foi observado o processo atravessado pelos fabricantes nos cinco anos de vida do Latin NCAP, posso visualizar com tranquilidade que tipo de carros teremos nos próximos cinco anos. Igualmente me preocupa muito que os esforços deixem em segundo plano as crianças, sendo elas o futuro e os motoristas do amanhã”.
“Acho que os governos têm provas suficientes para confiar em que os fabricantes contam com os elementos necessários para nos oferecer o mesmo nível de segurança proporcionado em outros mercados. Apenas com regulações técnicas é que se democratiza a segurança, gerando uma concorrência justa entre as empresas, e o mais importante protegendo a população. Espero que a GM se some a este processo, já que é uma empresa muito importante, reconhecida e que construiu, por anos, uma imagem muito sólida”.
“Para terminar de forma positiva, parabenizo a Honda, Jeep, Seat, Toyota, Volkswagen, Ford e Mitsubishi por seu esforço, por sua consideração aos consumidores latino-americanos e por trabalhar junto conosco na redução das mortes e lesões graves em veículos, respeitando nossa independência.”
Alejandro Furas, Secretário Geral do Latin NCAP, disse: “Temos o prazer de encerrar este ano com a maioria dos principais fabricantes de veículos mostrando estratégias para conseguir veículos mais seguros, que levam em conta os resultados do Latin NCAP e escutam a voz dos consumidores”.
“A Nissan e a Fiat mostraram uma mudança positiva em 2015. Gostaríamos de ver o Tsuru ser removido da produção, visando ter a confirmação de que a Nissan está comprometida com a estratégia de veículos mais seguros. Infelizmente, a GM ainda não respondeu aos pedidos do Latin NCAP e do Global NCAP, nem modificou sua estratégia depois da publicação do Aveo em novembro”.
“A proteção do ocupante infantil está melhorando muito mais lentamente do que a proteção do ocupante adulto, o Latin NCAP alenta todos os fabricantes e os governos a melhorarem velozmente a segurança infantil na América Latina e no Caribe”.
“Depois de assistir à segunda Conferência de Alto Nível sobre a Segurança Viária em Brasília, o Latin NCAP está muito preocupado pela escassa participação dos governos da América Latina, bem como sua reação ainda mais lenta para entregar veículos mais seguros a todos os cidadãos; a segurança dos veículos deve ser democratizada em nossa região o mais rápido possível.”
O Latin NCAP encerra 2015 com um número recorde de veículos testados (23). O Latin NCAP recebe o apoio da Iniciativa Mundial de Segurança Viária Bloomberg Philanthropies, Global NCAP, Fundação FIA, International Consumers Research & Testing (ICRT) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e seu Fundo Coreano para a Redução da Pobreza.
Acerca do Latin NCAP
O Programa de Avaliação de Carros Novos para América e o Caribe (Latin NCAP) foi lançado em 2010 para desenvolver um sistema regional independente de testes de batida de carros e de qualificação de segurança na região. O Latin NCAP responde a programas de testes de consumidores similares desenvolvidos nos últimos trinta anos na América do Norte, na Europa, na Ásia e na Austrália que demonstraram ser muito eficazes na melhora da segurança dos veículos. Desde 2010, o Latin NCAP vem publicando os resultados de mais de 60 veículos em seis fases de teste.
O Latin NCAP é um membro associado do Global NCAP e apoia o Decênio de Ação das Nações Unidas para a Segurança Viária 2011-2020, especialmente o pilar referido ao veículo do Plano Mundial e a iniciativa Stop the Crash.

Veja aqui todos os resultados.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Divulgação de Livro

Livro Descendo o Rio Negro

Este livro reúne fragmentos de diversas observações ou vivências pessoais minhas e de autores hodiernos ou pretéritos ao longo da calha do Rio Negro, os capítulos são apresentados à medida que se desenrola nossa náutica jornada.
 A história, desde antes da criação da Capitania de São José do Rio Negro, o emprego ritual de “alucinógenos”, o comportamento de personagens polêmicos contemporâneos e pretéritos, lendas, teorias inovadoras esboçadas por visionários pesquisadores e as catastróficas demarcações de terras que geram insegurança a todos os brasileiros são abordadas sem a preocupação de ser “politicamente correto” mas com o intuito de apresentá-las dentro de um contexto científico, apontando seus erros e acertos.
 Convidamos o leitor a se juntar a nós nesta magnífica descida pelas águas de um dos mais belos Rios criados pelo Grande Arquiteto do Universo e nos acompanhe, remada a remada, pelas águas escuras do Negro Caudal. Que se encante com nossa narrativa e os relatos, esmaecidos pelo tempo, de desbravadores, muito mais audazes, que tanto lutaram para estender nossas fronteiras tão cobiçadas ontem e que, hoje, graças aos desmandos dos últimos governos, estão se tornando cada vez mais frágeis.
 
² O livro está a venda por R$ 80,00:

– Em Caxias do Sul, na “Livraria do Maneco”, Rua Marechal Floriano, 879 - Centro;

– Em Porto Alegre, no Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA), Avenida José Bonifácio, 363 - Parque Farroupilha, a partir de 28.09.2015. Os livros serão comercializados na Associação dos Amigos do Casarão da Várzea – AACV ou na Barbearia do Tatu;

– Em Bagé contatar a Rosângela através do telefone (053 9952 6452).

² Pelo Correio cada livro custa R$ 100,00 (despesas de correio incluídas):

– Neste caso o amigo devera fazer contato pelo e-mail hiramrsilva@gmail.com informando que o depósito já foi realizado e o seu endereço residencial.

– Conta Bancária de Hiram Reis e Silva
– Banco do Brasil (001) – Agência: 4848 - 8
– Conta Corrente: 117 889 - X          (X ou 0)
                        – CPF: 415 408 917 - 04





















quinta-feira, outubro 29, 2015

UMA EXPEDIÇÃO DE CAIAQUE PELA LAGOA MIRIM

Hélio Riche Bandeira, Porto Alegre, RS, 31 de maio de 2015.



                                                                                                                                                    A natureza é o único livro
                                                                                                                                                    que oferece um conteúdo valioso
                                                                                                                                                    em todas as suas folhas. 
                                                                                                                                                 (Johann Goethe, pensador alemão)


Conhecer e aventurar-se num local desconhecido, onde a natureza ainda se apresenta soberana e a mão do homem não impera, é algo que qualquer amante da ecologia e de um mundo sustentável e mais harmonioso deseja participar.

Eu e o Cel. Hiram Reis e Silva já havíamos percorrido mais de uma vez a Laguna dos Patos, a maior laguna do Brasil, navegando tanto pela margem leste como pela margem oeste, restava agora conhecer a maior lagoa do Brasil, a Lagoa Mirim. Esta seria uma expedição inédita, desceríamos pela margem oeste, percorrendo as margens no Brasil e no Uruguai e subiríamos pela margem leste, que fica inteiramente em território brasileiro.

A Lagoa Mirim (do tupi mi’ri = pequena) fica separada do mar por uma faixa de terra baixa arenosa e em parte alagada que tem entre 10 e 30 milhas de largura; une-se à Lagoa dos Patos pelo Canal de São Gonçalo. Possui uma área aproximada de 4.500 km², quando se encontra em seu nível médio (1,70 m) acima do nível do mar. 75% dessa área situada em território brasileiro e o restante pertencente à República Oriental do Uruguai. Tem o comprimento aproximado de 108 milhas marítimas (200 km) e sua largura máxima é de 19 milhas (35 km). A profundidade é muito variável, girando a média ao redor de 4 m ao norte e 7 m ao sul da lagoa. A oscilação média de níveis situa-se entre 0,80 m nos meses de janeiro, fevereiro, março, abril e 2,15 m nos meses de julho, agosto, setembro, outubro e novembro. A Lagoa está localizada entre as latitudes sul de 32°11’00’’ e 33°38’00’’e as longitudes oeste de 52°36’00’’ e 53°39’00’’. (EMYGDIO, 1997, p. 8)
 

Para realização de tamanha jornada o caiaque oceânico se apresenta como o meio ideal de transporte, visto que permite atingir com facilidade todos os pontos preteridos possibilitando um maior envolvimento com a natureza, não causa nenhum impacto ambiental, sua capacidade de carga nos compartimentos estanques é bastante grande, possui boa estabilidade, leme direcional e possibilita a navegação com qualquer tempo dentro de certos limites.
A canoagem não busca só o lazer ou a prática esportiva, mas o meio ideal de locomoção, integração e contemplação da natureza. Navegar por rios, lagos ou águas costeiras sem deixar rastros, sem compactar trilhas e sem causar erosão, mostra que a atividade é de baixíssimo impacto. Desta forma, podemos nos aventurar em busca do desconhecido com a consciência mais tranquila. Aliando atividade física ao ambiente natural, nada melhor do que poder entendê-lo, para ajudar a preservá-lo às gerações futuras. É aí que entra em cena a conscientização ecológica. (HILSDORF, 1997, p. 30)

Nessa viagem teríamos o apoio de uma equipe no veleiro Zilda III, de propriedade do Sr. Reynaldo Di Benedetti, auxiliado pelo Cel. Sérgio Pastl e Sr. Norberto Weiberg, experientes navegadores e parceiros nas travessias da Laguna dos Patos, além da alegre companhia de Pedro Sérgio Londero Pastl e Brian Pastl Wechenfelder, netos do Cel. Pastl.
No dia 26 de dezembro, acompanhado do Sr. Norberto, partimos de carro de Porto Alegre para o Clube Veleiro Saldanha da Gama em Pelotas, local de encontro com os demais companheiros. Chegando ao clube acomodamos nossas bagagens e os caiaques no veleiro Zilda III, em razão de que no deslocamento pelo Canal São Gonçalo até o Sangradouro da Lagoa Mirim, local de início da grande remada, iríamos rebocados. Após jantamos e fomos dormir.
Na manhã do dia seguinte, às seis horas, partimos pelo canal São Gonçalo, passando pelos antigos prédios do porto de Pelotas, pela ponte férrea que tem no centro uma parte móvel que sobe apoiada em duas torres para os barcos passarem, na qual tivemos de aguardar por um bom tempo para sua elevação, pelas pontes da BR116 e seguimos rumo à eclusa. O canal, mesmo próximo da cidade, é caracterizado por barrancas baixas cercado de banhados em ambas as margens onde predomina o junco, santa-fé e sarandis e uma rica fauna de aves.
Um pouco antes das nove horas chegamos à barragem que tem a sua eclusa aberta nessa hora. A barragem do São Gonçalo faz parte do projeto binacional Brasil-Uruguai da Lagoa Mirim, que tem como principal finalidade, segundo Emygdio (1997, p. 22), controlar os extremos de níveis da lagoa e seus afluentes, ou seja, as cheias no inverno, que inundam grandes áreas produtivas, e os períodos de estiagem no verão, que dificultam e encarecem o recalque d’água para a irrigação das lavouras de arroz, também controlando a salinização, e favorecendo a navegação.
Após a transposição da barragem seguimos viagem passando pela Ilha das Moças, pela foz do Rio Piratini, que é o maior afluente do São Gonçalo e chegamos à belíssima Ilha Grande com sua vegetação exuberante composta de algumas figueiras centenárias, coronilhas, corticeiras e aguapés floridos, muita capivara nadando ou descansando nas margens e as mais diversas aves como garça, garça-moura, jaçanã, tachã, maçarico, gavião-caramujeiro, martim-pescador, colhereiro, joão-grande, bem-te-vi, biguá, gaivota, quero-quero, trinta-réis, dentre outras.
As aves do Rio Grande do Sul são extremamente variadas e coloridas. Muitos gaúchos acreditam que se alguém quiser observar aves exóticas deverá viajar ao Amazonas ou a alguma outra região remota. Isto provém da falta de conhecimento do que temos no Estado. As 573 espécies de aves que já foram registradas para o Rio Grande do Sul somam a mais de um terço de todas as espécies conhecidas no Brasil. (BELTON, 1993, p. 12)
Fotografamos esse lindo local e seguimos, passando pela Ilha Pequena, indo até a antiga Vila de Santa Izabel do Sul, pequeno distrito de pescadores de Arroio Grande, onde paramos para pegar suprimentos e visitar sua histórica igreja e algumas outras ruínas do século XIX que alojaram o imperador Dom Pedro II numa de suas visitas ao Rio Grande do Sul.
Abastecidos, continuamos nossa viagem até o Arroio Sangradouro, local de pernoite e limite entre a Lagoa Mirim e o Canal São Gonçalo. Desembarcamos os caiaques numa praia na margem oposta ao arroio, montamos a barraca, jantamos no veleiro e fomos dormir cedo, pois no dia seguinte começaria de fato a jornada de caiaque.
 

                Do Arroio Sangradouro ao Farol da Ponta Alegre
1ª ETAPA: ARROIO SANGRADOURO – FAROL DA PONTA ALEGRE
28/12/2014
Local
Distâncias (Km)
Paradas
Arroio Sangradouro (prainha em frente) (32°08’44’’S 52°37’27’’W)
0,00


Ponta com praia (32°09’48’’S 52°40’21’’W)
5,15
5,15

Ponta Luís dos Pobres (32°13’13’’S 52°44’23’’W)
9,34
14,49

Mata próximo Arroio Chasqueiro (32°14’29’’S 52°46’44’’W)
4,33
18,82
Arroio Chasqueiro (32°16’05’’S 52°47’05’’W)
3,16
21,98

Pontal da Praia do Pontal (32°20’05’’S 52°48’03’’W)
7,60
29,58

Arroio Grande (32°20’43’’S 52°47’22’’W)
1,66
31,24
Ponta Alegre (32°22’23’’S 52°43’23’’W)
7,12
38,36
Farol da Ponta Alegre (32°24’59’’S 52°45’20’’W)
6,39
44,75
 


 Na manhã do dia 28 de dezembro às seis horas e trinta minutos, com o sol começando a raiar no horizonte, nos encontrávamos prontos para iniciar a grande travessia. Tivemos que fazer uma saída apressada, sem tomar café nem arrumar direito as coisas de viagem para conseguir fugir dos mosquitos, que nesta região são terríveis, e até falamos brincando que esse local se denominava “Sangradouro” em decorrênciado sangue que os mosquitos nos tiravam e não por ser o único ponto que a Lagoa Mirim sangra em direção a Laguna dos Patos.

O vento estava fraco a moderado e vindo do quadrante oeste, ou seja, teríamos de remar contra. Despedimo-nos da equipe do veleiro que faria uma rota diferente da nossa e partimos rumo à Ponta Luís dos Pobres, local formado por uma área de banhado com predomínio de sarandis submersos e sem praias para desembarque, fato constatado talvez pelo nível da lagoa se encontrar muito alto para essa época do ano. Seguimos então para uma mata próxima ao Arroio Chasqueiro composta por uma belíssima vegetação nativa, onde se destacavam figueiras, grandes cactos e muita bromélia. Neste local fizemos nossa primeira parada para descanso e lanche.
Após fotografar este refúgio silvestre partimos em direção ao Arroio Grande, local de encontro com o veleiro. O vento havia aumentado vindo agora do quadrante sul tornando nossa remada mais lenta e penosa. Seguíamos próximos da margem, uma grande capivara mergulhou na frente de nossos caiaques, cruzamos o Arroio Chasqueiro, o Pontal da Praia do Pontal e entramos na foz do Arroio Grande, que de acordo com Emygdio (1997, p. 93) nasce na serra de São João do Herval, próximo da cidade, a uma altitude aproximada de 280 metros e depois de percorrer 36,7 milhas deságua nesse ponto onde o veleiro já nos aguardava com uma deliciosa refeição servida pelo Cel. Pastl.
Bem alimentados e agora sem o vento para atrapalhar seguimos viagem passando por diversas ilhas de sarandis submersos e, após um pouco mais de sete quilômetros, alcançamos a Ponta Alegre numa praia de areia fina e clara, local da terceira parada do dia. Na ponta, onde um pirupiru passeava e um martim-pescador descansava em um galho, se visualizava a margem leste do outro lado da Lagoa Mirim. Após contornar a Ponta Alegre rumamos direção sudoeste, sempre próximo da margem, passando por diversos bandos de talha-mares, biguás, gaivotas e trinta-réis até chegarmos ao Farol da Ponta Alegre, local de pernoite.
O belo, imponente e histórico Farol, construído na primeira década do século XX e que orientou a navegação noturna até por volta dos anos cinquenta é, conforme Emygdio (1997, p. 98), o “símbolo” da Lagoa Mirim, pois mesmo desativado serve como ponto de referência, principalmente para os barcos que navegam do sul para o norte, que o avistam a uma distância de oito milhas.
Desembarcamos em frente ao farol e fomos conhecê-lo de perto. Subimos sua centenária escadaria para admirar o belo visual panorâmico lá de cima, de onde avistamos umas emas percorrendo os campos. A ema, segundo Belton (1993, p. 22), também conhecida por nhandu ou, impropriamente, avestruz, é a maior ave do continente americano e sua plumagem é cinzenta no dorso, esbranquiçada no ventre e negra na base do pescoço. Depois montamos acampamento em um local protegido por capim santa-fé e pequenos cômoros de areia por onde passeava um graxaim, lanchamos e fomos dormir.



                    Do Farol da Ponta Alegre ao Rio Jaguarão
2ª ETAPA: FAROL DA PONTA ALEGRE – RIO JAGUARÃO
29/12/2014
Local
Distâncias (Km)
Paradas
Farol da Ponta Alegre (32°24’59’’S 52°45’20’’W)
0,00


Canal de irrigação (32°27’08’’S 52°49’47’’W)
8,26
8,26

Canal de irrigação (32°27’31’’S 52°52’44’’W)
4,77
13,03
Canal de irrigação (32°28’00’’S 52°55’02’’W)
3,73
16,76

Arroio Bretanha (32°29’17’’S 52°58’08’’W)
5,47
22,23
Arroio Arrombados (32°32’27’’S 52°59’57’’W)
6,64
28,87
Ponta Negra (canal de irrigação) (32°36’11’’S 53°00’45’’W)
7,61
36,48
Arroio Juncal (32°38’32’’S 53°05’13’’W)
8,36
44,84
Ponta do Juncal (32°39’07’’S 53°05’16’’W)
1,35
46,19

Rio Jaguarão (foz) (32°39’13’’S 53°10’38’’W)
8,62
54,81
Casa de bombas em canal de irrigação (32°38’15’’S 53°11’51’’W)
2,70
57,51

Canal errado (32°37’19’’S 53°13’30’’W)
3,24
60,75
Casa de bombas em canal de irrigação (32°38’15’’S 53°11’51’’W)
3,22
63,97
 
 

No dia 29 acordamos cedo, o céu apresentava algumas nuvens e o vento estava fraco, perfeito para uma boa remada, desmontamos a barraca, arrumamos as tralhas, fizemos um lanche e às seis horas começamos nossa viagem.
O primeiro trecho a ser percorrido era uma costa quase reta, composta por uma praia interminável formada por pequenas dunas de areia e gramíneas, tornando a paisagem um tanto monótona. A distração ficava por conta da observação de grandes bandos de aves, principalmente trinta-réis, pirupirus, gaivotas, irerês e outras marrecas, batuíras e biguás concentrados principalmente nas entradas de canais. Assim remamos por treze quilômetros até um canal de irrigação próximo de uma pequena mata de eucaliptos, onde paramos para um breve descanso.
Após comermos umas barras de cereal e nos hidratarmos seguimos em direção ao Arroio Bretanha, o qual segundo Emygdio (1997, p. 133), nasce num lugar denominado Porteiras, percorre um trajeto de aproximadamente vinte e oito milhas e divide os municípios de Jaguarão e Arroio Grande. Um pouco antes da sua foz avistamos uma camionete com duas pessoas pescando na praia, que por curiosidade eram os primeiros seres humanos avistados em dois dias de remada.
Chegando à boca do Arroio Bretanha, que tem como ponto de referência uma grande casa branca de alvenaria localizada na margem sul e que funciona como estação de recalque d’água, fizemos nossa segunda parada. Fotografamos o local e prosseguimos a jornada passando por uma mata de eucaliptos e, aproximadamente um quilometro após, por uma plantação de pinus. O pinus conforme já havíamos descrito em nossas viagens anteriores é um vilão que não obedece aos limites de matas e cercas, se prolifera através do vento e invade os santuários ecológicos juntos das lagoas, modificando assim sua bela flora e fauna.
Um pouco tristes pela constatação da invasora vegetal prosseguimos até o Arroio Arrombados, onde paramos para nos refrescar, pois o calor havia aumentado bastante. Na margem sul do arroio havia uma pequena mata nativa, formada principalmente por grandes salsos, onde um carcará descansava à sombra de uma árvore e junto da foz de água límpida, diversas aves nadavam tranquilamente. Após um breve descanso neste belo local continuamos nossa jornada em direção à Ponta Negra.

 

Bem sobre a Ponta Negra tem um vasto bosque de eucaliptos, formado por uma espécie que tem a folha mais escura. Então quem passa navegando longe, enxerga um grande bosque preto que imagina a Ponta ser Negra devido a esse bosque. Acontece que o eucalipto (Eucalyptus Robusta) ainda não havia saído da Austrália, seu país de origem, e esta ponta já tinha o nome de Negra, devido as grandes ondas que aqui se formam. (EMYGDIO, 1997, p. 130)



Junto à ponta paramos próximos a um canal de irrigação para novamente nos refrescarmos nas águas da lagoa e assim suavizar o intenso calor. Nesta praia, a areia branca e fina contrastava com diversos blocos de sedimentos negros e, de um ponto mais elevado, podia se avistar ao longe os altos cômoros de areia da Ponta do Juncal, localizada um pouco mais de um quilômetro do arroio de mesmo nome.
O céu continuava apenas com algumas nuvens a leste no horizonte e o vento fraco deixava a lagoa quase sem ondas, não dificultando o desempenho da remada. Assim rumamos para sudoeste por mais de oito quilômetros até a foz do Arroio Juncal, local da quinta parada do dia.
A grande boca do arroio medindo aproximadamente trezentos metros, com água bastante transparente, e a Ponta do Juncal com suas altas dunas de areia branca, entrecortadas por mata nativa, formam um belo cenário. Em terra, caminhamos e fotografamos esse encantador local e depois partimos contornando a ponta e seguindo rumo oeste, numa linha reta de um pouco menos de nove quilômetros, em direção à foz do Rio Jaguarão.
O calor continuava como sendo o único contratempo do dia. Prosseguimos a remada numa velocidade de sete quilômetros e meio por hora e, na boca do Rio Jaguarão, passamos por um centenário marco de fronteira desembarcando a seguir, numa praia de areia na margem leste.



O Rio Jaguarão nasce na Coxilha da Arvorezinha ou Arbolito, como se referiam os antigos, a 5,3 milhas ao norte da pequena localidade do Seival, situada na RS 89, que liga Bagé a Pinheiro Machado. Percorre uma distância de 107 milhas, aproximadamente, até a sua desembocadura na Lagoa Mirim. Próximo do Seival, na cabeceira do Arroio Candiota, afluente da margem esquerda, deu-se o memorável combate do Seival, a 10 de setembro de 1836, onde 430 republicanos, comandados por Antônio de Souza Neto, derrotaram 560 imperiais. (EMYGDIO, 1997, p. 138/139)

 

Caminhando próximo dos marcos históricos que dividem o Brasil do Uruguai, recebemos a notícia que teríamos que subir pelo rio até a cidade de Jaguarão para nos reencontrar com o grupo do veleiro. O combinado inicial era de esperarmos nossos amigos na foz, para seguir na manhã do dia seguinte pela Lagoa Mirim, mas devido a um contratempo o veleiro teve que permanecer em Jaguarão por mais um dia. Assim resolvemos adiantar viagem e procurar local para acampamento alguns quilômetros rio acima. Passamos por uma casa de bombas abandonada e prosseguimos sem perceber que havíamos entrado em um canal errado. Remamos por mais de três quilômetros quando a passagem desse canal ficou bloqueada por uma densa vegetação aquática e percebemos o nosso erro. Como já era tarde e estávamos cansados, retornamos até a casa de bombas e lá montamos acampamento após ter percorrido aproximadamente sessenta e quatro quilômetros nesse quente dia.



Referências Bibliográficas
BELTON, William. Aves silvestres do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, 1993.
EMYGDIO, Décio Vaz. Lagoa Mirim – um paraíso ecológico. Pelotas: Editora Livraria Mundial, 1997.
HILSDORF, Luis Vitor. Canoagem, aventura e ecologia, fluindo com a natureza. São Paulo: EPIL, 1997.
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO E MONITORAMENTO AMBIENTAL – NEMA. Taim, banhado de vida. Rio Grande: NEMA, 2004.
RUAS, Tabajara e ACHUTTI, Luiz Eduardo. Uma aventura no sul do Brasil. Porto Alegre: Grupo Ipiranga, 2000.