"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, outubro 26, 2012

Antônio Luís von Hoonholtz – Parte I

 
Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 25 de outubro de 2012.

Continuando nossas pesquisas sobre as Comissões de Limites Brasil-peruvianas chegamos à magnífica biografia do Barão de Tefé escrita por sua nora, casada com seu filho Álvaro de Tefé. Tetrá de Tefé dedicou ao famoso parente uma rica obra intitulada “Biografia do Almirante Antônio Luís von Hoonholtz” editada pelo Centro de Documentação da Marinha em 1977. Reportaremos o primeiro de dois de seus capítulos que abordam interessantes passagens de Tefé quando este era Chefe da Comissão de Limites Brasileiro-peruviana de 1874.

Capítulo XVII

A Questão dos Limites Entre o Brasil e o Peru

Terminada sua missão no Paraguai, após 4 anos de heroísmos e sacrifícios quase acima do possível, tendo estado exposto 22 vezes em linha de fogo, Onóltz parte de Humaitá rumo à pátria, a 30 de agosto de 1868. Nunca mais aquele viandante das águas tornaria a ver os Rios onde tantas vezes estivera a um passo da morte e tantas vitórias lhe aureolaram a fronte.

Chegado à Corte, de retorno da segunda etapa da campanha, igual em importância no desfecho do Passo do Tebicuari à primeira, reassume incontinenti seu lugar de Chefe da Comissão Hidrográfica no empenho de prosseguir os trabalhos de levantamento de toda a Costa do Império, objetivo intensamente visado por ele havia já 6 anos, desde sua prolongada permanência em Santa Catarina antes da guerra.

Seria, no entanto, em outro plano de combatividade — embora hidrográfico e astronômico — que iria continuar a servir seu País. Plano, aliás, tão altamente dignificador pelas abnegações que iria dele exigir, como a do próprio conflito armado no Sul do continente. Este seria bem ao Norte do Brasil, na longínqua Amazônia, para a demarcação dos limites entre o Brasil e o Peru. Uma Comissão Científica se dá idéia de que para solucioná-la as únicas armas a empunhar serão a pena, o lápis, sextantes, telescópios, cronômetros, balizas etc., torna-se penosíssima quando — ao penetrar em regiões incultas, sertões indevassados e habitados por selvagens ferozes e de clima inóspito — se vê em luta contra todos os elementos sem meios de defesa adequados, principalmente contra as doenças tropicais.

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Antes, porém, de estar assente a nova e ingente Comissão, deu-se um episódio digno de nota: certa manhã achava-se Onóltz à cabeceira de sua jovem esposa (Didila) então adoentada, quando foi avisado que seu amigo Dr. André Rebouças o esperava no vestíbulo para uma comunicação urgente.

Com o ar estabanado que lhe era peculiar (contava Tefé), Rebouças foi logo exclamando ao vê-lo:

—    O Conde d’Eu anuncia sua nomeação para General-em-Chefe do Exército em operações no Paraguai e o desejo que tem de levá-lo em seu Estado-Maior.

Pela primeira vez Onóltz fraqueja, na santa fraqueza do amor e da espera do 1° filho que em breve nasceria. Deve ter-se dado em seu espírito uma substituição de valores, ao contemplar com os olhos da alma uma paisagem interior tão bela que lhe entibiou a vontade. Como se fosse uma decisão libertadora, respondeu meio amuado:

—    Oh! Rebouças, pois não sabes, como o Conde também, que deixei minha mulher 34 dias depois de casado e parti pela segunda vez para o Teatro da Guerra? Agora que acabo de chegar, hei de entrouxar de novo minhas roupas, partir pela terceira vez, servir fora de meu elemento e representar o papel de oficial de cavalaria? Se fosse para novamente entrar em combate, partiria incontinenti. Mas esta é apenas uma honraria e uma distinção...

Um tanto desapontado, Rebouças não o contradisse:

—    É pena — concluiu — Grande pena. A Comissão seria muito promocional. Mas... estou com o tílburi à porta. Volto já ao Palácio Isabel e transmitirei ao Príncipe as tuas razões. Certamente, ele não pensou senão em ter a seu lado um oficial da tua envergadura...

Tílburi: carro de duas rodas e dois assentos (tilbureiro e passageiro), sem boléia, com capota, e tracionado por um só animal. Foi inventado por Gregor Tilbury, na Inglaterra, em 1818, e trazido para o Rio de Janeiro em 1830. (Nota do Autor)

Quando no dia seguinte, Onóltz foi agradecer ao Conde a subida honra do convite, este lhe cortou a palavra:

—    É a mim que compete pedir desculpas. Compreendo sua situação; mas, como desejo ao meu lado um Oficial de Marinha capaz de assessorar-me no que for concernente à Esquadra, peço-lhe que me indique quem pode substituí-lo.

Depois de um instante de reflexão, Onóltz respondeu:

—    Se V. A. levar o Salgado não se arrependerá.

Eis como no lugar que lhe fora reservado, figura o eminente Comandante João Mendes Salgado a cavalo junto do Príncipe General-em-chefe em um quadro a óleo do fim da guerra do Paraguai.

Aliás, mantendo sua promessa, Didila não dissera palavra, nem usou do ardil de lágrimas silenciosas. Deixou o marido em completa liberdade de escolha. A prioridade dada ao amor fez Onóltz ganhar uma partida, que no fundo foi uma perda. (Muito mais tarde, quando Tefé se referia a esse quadro, no qual não figura, repontava em sua voz certo laivo de arrependimento). Por que terá ele agido assim na hora exata da recompensa a tantas lutas? É que em toda existência humana atua repentinamente o impessoal, ou antes o mais forte do que o pessoal, o cósmico, que obedece exclusivamente ao impulso momentâneo, O como? e o por quê? serão sempre um impenetrável arcano.

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Preparava-se Onóltz com empenho para levar a efeito por fim em larga escala os trabalhos hidrográficos da costa brasileira, quando foi inesperadamente nomeado pelo Ministro de Estrangeiros de então, que era ao mesmo tempo Presidente do Conselho — o Visconde de São Vicente — para Chefe da Comissão de Limites entre o Brasil e o Peru.

Tolhia-lhe um pouco a liberdade de ação o fato de que outro Oficial da Armada tivesse iniciado essa mesma incumbência. Daí certa relutância às instâncias de São Vicente e aos contínuos chamados ao Palácio de São Cristóvão. Não queria dar corpo àquela hesitação mais semelhante a uma premonição de que iria pisar num campo minado. Mas às suas justas ponderações que a Comissão era antes da competência de um engenheiro do que de um Oficial da Armada, respondeu-lhe o Imperador, numa das audiências:

—    Lá, nesse sertão, preciso de um homem de guerra que não se deixe massacrar pelos bárbaros selvagens, e preciso, ao mesmo tempo, de um hidrógrafo para levantar as Cartas dos Rios e de um astrônomo que saiba determinar as coordenadas dos Marcos. A Comissão é sua.

Platão não admite o ego como centro de uma esfera de atividades transcendentes. Já para Kant esta concepção é uma necessidade interior. Por cético que se seja há, geralmente, na vida, um ponto onde a análise emudece e a fé começa. O destino de Onóltz estava traçado. Não era uma autodeterminação; era uma predestinação. Em seu horizonte projetara-se a Amazônia.

Assim, depois dos riscos de uma prolongada guerra, inerentes ao seu “métier”, apontava-lhe o Monarca uma entrada bandeirantista em impenetradas regiões amazônicas de há um século passado! Aliás, com uma frase-luz Cassiano Ricardo dogmatizou:

—    Quando entra no mato a primeira Bandeira, termina a História de Portugal e começa a do Brasil.

    O fragor do bandeirantismo reboa através dos séculos XVI, XVII e XVIII, durante os quais os homens de coragem vivem em função da busca de terras interioranas e das minas de ouro, prata, brilhantes e esmeraldas que — diziam as lendas — elas contêm. Fanatizados pelo mito, lá se iam os bravos mata a dentro, não sem antes fazerem suas invocações:

—    Peço ao Anjo Gabriel e ao Santo de meu nome e ao Anjo de minha guarda que me queiram acompanhar.

Assim, fundindo mitos e crenças no mesmo fascínio, partiam devorados pela fome do ouro, para muitas vezes morrerem de fome. Mas os que resistiam aos perigos, seguiam em frente sua trilha construtiva, desbastando florestas virgens e criando à sua passagem Aldeias e Vilas que seriam as placentas comunicadoras entre aquele presente e as grandes cidades do futuro. À mensagem de Portugal: “Tropa de gente de São Paulo, que vos achais às margens do Tocantins, eu, o Príncipe, (D. Sebastião), vos envio muito saudar”, respondem desafiantes e orgulhosos: “Iremos a pé de São Paulo ao Peru; e isto não é uma fábula”. Realmente, a marcha prosseguiu incontida até as regiões andinas, barragem intransponível que os obriga a estacar.

Mas, o bandeirantismo — perspectiva em profundidade na audaciosa paisagem brasileira —, com seu conteúdo dinâmico para o sentido histórico, já que a distância no Tempo é uma forma de energia, por mostrar-nos de quanto foi capaz o homem em suas realizações, o que impulsiona as novas gerações, o bandeirantismo não morre ali ao sopé dos Andes, durante a centúria de XVIII. Apenas muda de estilo. No século seguinte, o de Onóltz, no país em plena evolução sócio-geográfica, chega a vez de os cientistas serem os bandeirantes das demarcações dos limites ao Norte do Império numa luta com o meio ambiente, tão encarniçada quanto a dos desbravadores primitivos.

Foi com o Peru que o Brasil teve as maiores dificuldades em demarcar seus limites divisórios, máxime (especialmente) em face da histórica questão do domínio lusitano e espanhol no Novo Mundo. Muitas preocupações, atritos diplomáticos e perdas de vidas preciosas já haviam causado a ambos os países os delineamentos das fronteiras sem que nenhum trecho ficasse solidamente demarcado.

Isso porque, até quase quatro séculos após a descoberta do Brasil, nenhum homem civilizado ousara penetrar na região superior do misterioso Rio Javari na Amazônia, o verdadeiro Rio limítrofe com o Peru.

Em 1866, querendo os dois países pôr termo à secular questão, decidiram enviar uma Comissão Mista, chefiada por cientistas de grande valor: Soares Pinto pelo Brasil, D. Manuel Rouaud y Paz Soldan pelo Peru, que deveriam explorar o Rio Javari, por cujo álveo corria a fronteira, até sua principal nascente. Malgrado (a despeito de) cuidadosamente organizada essa Expedição, não puderam, entretanto, os mal-aventurados demarcadores subir o Rio em canoas por mais de oito dias. Subitamente atacados por ambas as margens pelos índios bravios, Mangeronas e Cataquinos, que dominavam toda essa imensa região, a devastação foi tremenda.

Da encarniçada luta, somente um terço dos expedicionários logrou fugir, salvando-se o chefe peruano Paz Soldan, gravemente ferido por 5 flechadas (4 ou 5?), enquanto caíam massacrados o Chefe brasileiro e toda sua escolta, bem como as tripulações indígenas mansas que os seguiam nas canoas, das quais os silvícolas se apoderaram e levaram tudo que continham: armas, roupas, instrumentos científicos e todos os víveres. Por não estarem ervadas as flechas que feriram Paz Soldan, este pode salvar-se amputando uma perna em condições dramáticas.

Algum tempo depois desta Expedição, partiu para o Norte o Comandante José da Costa Azevedo que — diz Lery Santos:

durante cerca de cinco anos exerceu o cargo de demarcador do qual fora exonerado sem nunca ter conseguido estabelecer definitivamente uma só das linhas da fronteira.

Costa Azevedo alcançou apenas o Rio Japurá e lá — segundo seus cálculos — fincou um marco divisório. Como, entretanto, o Peru não se tinha feito representar, não o considerou válido. Daí ter o Imperador insistido em formar outra Comissão chefiada por Onóltz, já então uma sumidade em Hidrografia e Astronomia.

Pelas vias diplomáticas, encarregou-se o Governo do Peru de formar ao mesmo tempo a sua Comissão, que seria chefiada ainda desta vez por quem já estivera na Amazônia: o renomado astrônomo D. Manuel Rouaud y Paz Soldan que, com seus assistentes, viria ter ao Rio para da Corte partirem juntas ambas as Comissões.

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Costa Azevedo, muito envolvido em questões políticas no Partido Liberal, desde que se elegera Deputado quando de sua permanência na Amazônia, mesmo estando no Rio não procurou Onóltz. Por seu lado, este não considerou de bom tom visitá-lo, visto ser notório que o Governo perdera nele a confiança desde que escolhera substituto para a mesma finalidade. Deu-se assim o caso estranhável de partir um Oficial para prosseguir trabalhos encetados por um camarada que nem de vista conhecia, e do qual nenhum apontamento recebera.

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Munido apenas do Mapa Geográfico da região do Solimões, que compreendia a Linha Geodésica da fronteira Setentrional entre Tabatinga e Apaporis, traçado em grande escala por Costa Azevedo, sem a presença dos demarcadores peruanos, e na qual se lia, em letras garrafais, de um lado: Império do Brasil, e do outro: República do Peru, persuadiu-se Onóltz de que nesse trecho nada mais teria o chefe peruano a fazer senão verificar a exatidão do marco extremo, plantado em frente à Boca do Apaporis. Isto posto, restar-lhes-ia forçar a selvagem barreira humana que desde a passagem de Orellana pela Boca do Javari tapava esse Rio temível, de forma a que nenhum explorador ou flibusteiro conseguira navegar em canoa por mais de três dias sem ser massacrado. Confiante em seu dinamismo e na bravura dos imperiais marinheiros e da marinhagem (pessoal de bordo do navio) que o acompanhavam desde as batalhas do Paraguai, e se porfiavam em obter ordem de partida sob seu comando, não computou Onóltz em mais de um ano sua ausência.

A realidade foi outra: os trabalhos das Expedições Demarcadoras dividiram-se, pela fatalidade, em duas etapas, o que de muito prolongou a estada de Onóltz nas brenhas amazônicas. Foi um contratempo dramático: houve uma primeira etapa 1871-1872 em que a Comissão peruana foi presidida por Paz Soldan, enviado por seu Governo, não apenas por ser uma sumidade em astronomia, como, e principalmente, por já ter estado na Amazônia, em 1866, com a missão Soares Pinto, a qual se malogrou em tão trágico desfecho. E quase três anos depois, em 1874, teve início a segunda etapa, ainda mais penosa e arriscada que a primeira, assumindo a Chefia da Comissão peruana o Capitão-de-Fragata D. Guilherme Black.

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Em 1871, partiram juntas da Corte as Comissões Brasil-peruvianas, no rudimentar e moroso navio Marcílio Dias na rota do longínquo Pará, já que a Flotilha do Amazonas passara a ficar sob o comando de Onóltz. Esperava-o em Belém uma grande surpresa: Juca, o tão querido Juca (o antigo líder da família), que fixara residência em Manaus, lá constituíra seu lar e se fizera eleger Deputado Provincial, foi o primeiro a receber os viajantes.

Ora, tendo sido Carlos nomeado agrimensor da Comissão, iam ver-se os três irmãos reunidos depois de cerca de quinze anos de separação. O encontro foi de grande emoção e juntos escreveram uma carta cheia de amor à D. Joana Cristina (matriarca).

Mesmo sob a égide de um Deputado experiente, as dificuldades para os aprestos indispensáveis ao desempenho da missão de tanto vulto, e as delongas inexplicáveis de Paz Soldan, excessivamente minucioso, sempre à procura de maior segurança, obrigaram-nos a ficar aí muito mais tempo do que supuseram.

A concentração das duas Expedições fora convencionada por motivos técnicos fluviais, para dar-se na desprovida cidade de Tefé, às margens do Rio do mesmo nome.

Necessário é ter-se diante dos olhos o mapa brasileiro para conseguir-se a visão panorâmica das distâncias formidáveis percorridas pelas Comissões até o ponto do ancoradouro. Esses percursos eram, no entanto, apenas a primeira página da saga empolgante que eles iam viver. Embora na azáfama dos preparativos para a partida, Paz Soldan insistia amistosamente, através de cartas, em que adotassem a Linha do Madeira ao Javari, mesmo deslocada para 9°30’ de Latitude Sul. Onóltz, que nunca soube maneirar, e era mesmo o antípoda do maneirista, delicada mas energicamente, repeliu a proposta, a ponto que Paz Soldan não voltou mais ao assunto.

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A 12 de janeiro de 1872, escrevia Paz Soldan:

—    He recibido el oficio de 28 diciembre en el cual tiene U. a probar en pocas palabras las justas razones que tiene el Gobierno Imperial para ordenar-le en el capitulo 5° de instrucciones de colocar el marco de Limites en el Río Javary...

A 17 de abril, voltava à carga:

—    ... al paso que al que suscríbale le ordena el Gobierno colocarlo en la semidistancia del Madeira en los 7°40’ ó sea 2°40” mas al Norte suponiendo que el Río llegue a una Latitud más Austral, pues solo bajo este hipótesis puede haber discusión, porque del contrario la naturaleza cortaba toda disputa. Esta divergencia tiene que aumentar cuando haga (palavra ilegível) solamente del Madeira porque necesita la salida natural de los Departamentos Orientales bañados por los afluentes del Madre de Dios.

    Junto con este oficio tengo el honor de remitir a U. un mapa formado especialmente para estudiar esta cuestión y la memoria científica que manifieste como ha sido formado dicho mapa especificando las autoridades en que me fundo.

    En cuanto a mi puede U. estar seguro que no pondré embargo para llevar a buen termino la demarcación, pues era ello están internados nuestros países y nuestro propio deber.

    No será este pues un obstáculo para surcar el Javary y para presentar medios conciliatorios dejando en último caso que nuestros Gobiernos resuelvan dificultades para cuya no estuviéramos atorgados.

    Reitero a U. la seguridad de mi más alta consideración y aprecio.

    Ass. Manuel Rouaud y Paz Soldan.

(Desses debates, publicados no “Jornal do Commercio” da época, escreveu Euclides da Cunha, em 1907, ao Barão de Tefé:

Acompanhei todo o debate entre V. Exª e o Sr. Manuel Rouaud Y Paz Soldan. A minha veneração por V. Exª baseia-se, portanto, em elementos positivos e eloquentíssimos. O meu juízo no tocante à nobilíssima atitude do Comissário brasileiro 1871-1874 tem este valor: é a primeira voz da justiça incorruptível.

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Afinal, após terem vencido dificuldades de toda ordem, cada Comissão em seus pequenos navios, rumaram ambas para a primeira meta: o Japurá. A Comissão Brasileira já ia desfalcada do imediato, com quem o trato não era ameno, e quanto aos trabalhos astronômicos de que estava incumbido deixaram muito a desejar. Na Foz do afluente Apaporis instalaram os observatórios (Onóltz na margem esquerda; Paz Soldan, na direita), ficando entendido que a média das observações referidas ao meio do Rio, indicaria o ponto Extremo Setentrional da fronteira comum. Ora, como essas coordenadas já haviam sido calculadas pelo seu antecessor Costa Azevedo, o Marco do Rio Japurá tinha de ser procurado entre o mato que cobria a margem direita do Rio, para ser validado pela parte contrária. A verificação era necessária, para que Paz Soldan apusesse sua assinatura na Ata lavrada antes pela Comissão exclusivamente brasileira. Esta circunstância fazia rir o Chefe peruano, que dizia, irônico, ao instalar seus instrumentos:

—    Ahora, colega, prepare-se usted a cambiar el marco algunas millas mas abajo. El Señor Azevedo que lo planto sin la fiscalización de nosotros, ciertamente robo al Perú una facha de territorio, que tendré el gusto de reivindicar.

Iniciadas as observações, e antes de decorridas 24 horas, calculadas as alturas do Sol à tarde e das estrelas durante a noite, achou Onóltz na manhã seguinte tal diferença na carta litografada pelo Governo Imperial, que se absteve de tocar no assunto, para não mostrar-se precipitado. Nos dias seguintes — pelo Sol, Lua, e estrelas — resultados idênticos: grande diferença com as coordenadas fixadas por Costa Azevedo. Coisa inesperada, porém: a posição de seu marco prejudicava o Brasil e não o Peru!

Nessa noite, executados e revistos seus cálculos, foi no escaler “Parazinho” visitar o colega a bordo do peruano “Napo”. Paz Soldan começou monotonamente a falar sobre a próxima exploração dos Rios Içá e Putumaio; sobre as tribos dos Curetus, cujo tuchaua lhes fora oferecer bananas e carás; sobre o calor tórrido, os mosquitos que os devoravam e os impediam de dormir... Qual! O peruano fugia de referir-se às observações astronômicas. Finda a visita, ao despedir-se dele e em presença de seus ajudantes, disse Onóltz a rir-se, parodiando-lhe a frase:

—    ¿Entonces colega, está usted preparado para acompañar el marco algunas millas por el Japurá arriba hasta su posición exacta?

Paz Soldan respondeu que ainda não executara os cálculos e que só depois de mais 8 dias de observações minuciosas, pedir-lhe-ia uma conferência para a confrontação dos trabalhos. Findo o prazo, as divergências entre as médias dos dois Chefes eram insignificantes. Paz Soldan, porém, exigiu mais outros oito dias. E eram longos dias de Sol torturante, de mosquitos venenosos, doenças e lutas contra os agravos da Natureza primitiva.

Durante essa semana, Onóltz corrigiu o levantamento hidrográfico de outra grande extensão do Rio Japurá, feito por Costa Azevedo. Reunida novamente a conferência das duas Comissões, teve Paz Soldan que submeter-se à lógica dos algarismos e concordar, declarando em tom formal:

—    Señor Comisario, si yo hubiera previsto en mi país lo que está sucediendo en este momento, le aseguro que Usted no me tendría aquí a su lado. Jamás he creído en un tal error por parte del Sr. Azevedo.

Com toda a solenidade foi destruído o marco existente e plantado o novo em seu verdadeiro lugar, reivindicando Hoonholtz para o Brasil uma área fertilíssima de centenas e centenas de km2 (405.000 km2, no dizer de Carlos da Silveira Carneiro). Lavraram de tudo o competente Auto em português e espanhol, assinado por ambas as Comissões, mas sem aparência de festa, pois os brasileiros não desejavam melindrar seus colegas peruanos, com quem haviam estreitado laços de amizade e camaradagem.

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É claro — disse Tefé mais tarde em carta — que tendo sido sempre a Astronomia e a Hidrografia as minhas especializações, eu não poderia ficar de braços cruzados na Boca do Apaporis enquanto o Delegado do Peru procedesse à verificação das coordenadas do marco plantado tempos antes por Costa Azevedo. Lancei, pois, mão dos meus instrumentos, e pasmado fiquei ao encontrar o erro, e tão considerável, contra o Brasil. Como agir? Calar-me, tornando-me conivente no crime de lesa-pátria, somente para não melindrar um imperito demarcador? Impossível! Seria trair a confiança em meu saber depositado pelo próprio Imperador.

Fiz o que me cumpria fazer. Dediquei-me de corpo e alma à minha Comissão e ao finalizá-la pude dizer de cabeça erguida: o Comissário cumpriu seu dever.

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Após 18 dias de permanência só nesse ponto, decidiram descer o Japurá. Foram, porém, obrigados a fundear logo ao escurecer para evitarem encalhe ou choque nas madeiras flutuantes que coalhavam o Rio. À noite — consigna Onóltz — refrescara e da mata virgem vinham umas lufadas de vento que espalhavam no ar, impregnando a embarcação, um cheiro delicioso de fava de cumaru misturado a vagens de baunilha.

Assim acalentados os homens da equipagem, em breve, ferraram no sono. Pela madrugada, uma triste surpresa os aguardava. Quase toda a tripulação estava impossibilitada de saltar das macas! Prostrados e ardendo em febre, os homens gemiam, e mesmo gritavam, de dores nos artelhos, aumentadas quando se esforçavam para pôr-se em pé. Indene (ileso), Onóltz foi acordar o médico Dr. Carneiro da Rocha, que a todos ministrou café quente com quinino em pó. A horrível beberagem não aliviou os atacados, nem obstou que outros fossem caindo com o mesmo mal.

Por volta do meio dia aproximou-se o escaler do Napo, trazendo o Secretário Froilan Morales aflito a pedir o médico para atender ao chefe Paz Soldan, que sofria de dores atrozes em sua única perna. A maior parte da guarnição peruana, inclusive a gente da máquina, achava-se também atacada. Uma semana durou a dramática crise. Das 52 pessoas que formavam a guarnição do “Parazinho”, só 3 praças se conservaram imunes: o Prático (caboclo de Manaus), um curumin, seu filho e o cozinheiro negro da Flotilha do Amazonas. Foi o que valeu a ambas as expedições, pois a todos atendiam.

Enfraquecidos e minados pela estranha febre, partiram, por fim, desse Rio pestífero em direção a Tefé, onde fundearam dois dias depois. O Napo trazia ainda muita gente em estado grave, inclusive o Chefe Paz Soldan. Até então ainda não tinha havido perdas de vidas. O primeiro cuidado de Onóltz foi conseguir um grande armazém para sua guarnição, enquanto se procedia a desinfecção do navio. A Comissão Peruana estava melhor acomodada, porque Paz Soldan, antes da subida ao Japurá, alugara a casa de uma família abastada, em vilegiatura (temporada) no Pará. Ao tomar posse da chave, o Chefe peruano notara que a alcova da sala de visita, onde pretendia dormir, achava-se solidamente trancada. Interpelado, declarou o Procurador do proprietário que nessa peça depositara o dono um objeto sagrado, que não devia ser profanado por olhares curiosos. Paz Soldan não insistiu; no entanto, como no trato era jovial, dizia sempre:

—    Tengo ganas de hacer en estillas esa puerta, para mirar tal objeto tan sagrado... (Tenho vontade de partir em lascas essa porta, para ver um objeto tão sagrado...)

Mas, dormia tranquilo no quarto ao lado. Quando regressou doente, teve de desembarcar carregado em maca de bordo. Ao deitarem-no em sua cama, exclamou consolado:

—    Como me siento bien ahora en esta casa y en mi lecho!

Pelo fato de não haver médico em Tefé, o Dr. Carneiro da Rocha empenhava-se em salvar o doente, e o enfermeiro Paixão, igualmente brasileiro, em prodigalizar-lhe os maiores cuidados, bem como as famílias da localidade esmeravam-se em proporcionar-lhe uma dieta compatível com seu estado melindroso. A febre, no entanto, tomara mau-caráter; e no 3° dia começara o enfermo a delirar, perdendo gradativamente as forças. Subitamente, murmurou uma canção de ninar e tamborilou de mansinho com os dedos na porta da alcova fechada. Foi sua última demarcação de limites. Tocara a linha mortal da existência humana, que os muçulmanos chamam de “agel”. Pela madrugada expirou.

Imediatamente, Hoonholtz declarou ao Secretário Froilan Morales que tomava a si todas as responsabilidades do enterro do insigne peruano. Prevendo grandes dificuldades, dada a penúria do lugar, chamou o Procurador do proprietário da casa alugada por Paz Soldan, para pedir-lhe que se incumbisse de encomendar um caixão de primeira classe, condigno com o grande cientista extinto.

—    Que caso singular! respondeu-lhe o Procurador. Encostado naquela porta fechada, do outro lado, está guardado um rico caixão de defunto, que a esposa do seringalista Pacheco mandou vir de Belém, quando o marido voltou muito mal do Juruá. Mas a família mudou-se para o Pará. Posso, portanto, ceder o caixão em veludo negro recoberto de galões dourados, para que o chefe peruano seja nele enterrado.

Assim, o astrônomo peruano foi sepultado por Hoonholtz no cemitério de Tefé, com todas as honras que lhe eram devidas. Se dei especial enfoque a essa agonia e a esse morto é que, ao ler o relato, senti quanto é mesquinho o conteúdo da vida humana a oscilar entre o ímpeto de sobrevivência e a inexorabilidade da morte. Naquele instante, todo o anelo de domar a Natureza e toda a força de resistência do vencedor de tantas lutas, rolaram pelas nuvens e entraram no horizonte inflexível e eterno.

Admiro a fibra desse homem que, já mutilado, volta às paragens inóspitas e agressivas, para servir sua pátria. Mas que sobreleva ao seu patriotismo o absoluto senso de imparcialidade, revelado nas espinhosas questões do Japurá e do Madeira. Honra ao bravo peruano!

A morte do íntegro Paz Soldan foi um impacto para ambas as Comissões. Além do sentimento pesaroso por tão grande perda, pairou no ar a idéia da suspensão dos trabalhos de demarcação. Por quanto tempo? O Secretário Froilan Morales e o Ajudante Rincon não titubearam: partiram para Iquitos. Ficou, assim, terminada tragicamente a primeira etapa da missão: Hoonholtz-Soldan.

Não havendo ainda telégrafo no Brasil (só inaugurado em 1874), apressou-se Onóltz em remeter pelo correio marítimo um ofício minucioso ao Ministério do Exterior narrando a desastrosa ocorrência e a suspensão dos trabalhos. Pedia, portanto, permissão para recolher-se à Corte, enquanto esperava a formação da nova Comissão Peruana. Aproveitou para comunicar o excelente resultado de seus cálculos e observações e consequente reivindicação para o Brasil da imensa área que na Carta Costa Azevedo era atribuída ao Peru.

Terminou o ofício com a remessa ao Governo de todos os seus trabalhos científicos e solicitando que, apesar de já aceitos pela parte contrária, como se verificava nas Atas das conferências de ambos e no Ato solene do assentamento do marco definitivo, os submetesse à Comissão de lentes de astronomia e cálculo presidida pelo Diretor do Observatório do Castelo, para dar parecer.

Recebido, enfim, no Rio o ofício de Onóltz, foi chamado para determinar sobre seus cálculos e estudos, o respeitável e eminente matemático Dr. Vila Nova Machado. Este mestre, por forma tão lisonjeira se expressou, após minucioso estudo da matéria, que o Gabinete Rio Branco fez ver à Sua Majestade a vantagem da continuidade de Hoonholtz na Amazônia, à testa da Comissão de Limites.

Como seria, porém, justo um incentivo à tão árdua permanência no Norte, mandou o Governo oferecer-lhe a Presidência da Província do Grão-Pará, sem prejuízo de seus vencimentos, enquanto durasse a espera da nova Comissão Peruana.

Essa proposta, chegada 4 meses depois, deixou Onóltz perplexo. Pesou prós e contras, mediu a problemática em que se engolfava a Província, para cuja solução demandava longo prazo; e seu cérebro hiper-dimensionado tomou logo a resolução adequada:

—    Sou um militar; não, um político. Prefiro esperar a nova Comissão na Corte junto de minha família. (A jovem e querida esposa Didila e os filhos que deixara, um com dois anos e o outro com dois meses de nascido).

Outros longos meses de espera decorreram. Chegou então o Decreto que lhe concedia o título de Barão de Tefé, assinado pelo Imperador, referendado por João Alfredo, Ministro do Império do Gabinete do Visconde do Rio Branco, e remetido juntamente com uma carta do Marquês de São Vicente, datada de 11 de junho de 1873 (data da Batalha do Riachuelo), carta da qual extraí os seguintes trechos:

Nunca se conferiu o título de Barão a um Capitão-de-Fragata; e Sua Majestade espera que o brioso herói de Riachuelo não deixe de completar sua obra tão bem começada. Espere, pois aí com paciência, meu amigo, não arrede pé; é mais um sacrifício que faz, mas a pátria lhe agradecerá, como este seu velho amigo e apreciador — Marquês de São Vicente.

Tinha Onóltz então 36 anos de idade.

Muitas vezes indaguei de mim mesma por que o título se referia a Tefé, se a meta precípua era o Javari? Preocupação? Receio de cantar vitória antes do tempo? Mesmo que o feito do Japurá fosse muitíssimo suficiente para o prêmio, seria mais natural o nome desse Rio. Pesquisei o caso. Lancei mão, entre outros livros, da enciclopédia sobre os Municípios brasileiros do Mestre Jurandir Pires Ferreira. O Município de Tefé que, antes de desmembrado, teve mais de 500.000 km2 de extensão territorial, deita raízes muito profundas em nossa História. No século XVII, o jesuíta Samuel Fritz, na defesa de territórios que a Espanha considerava seus, fundou às margens do Solimões, várias aldeias, entre as quais a principal chamou-se Tefé, que é corruptela de Tapibás.

Aliás, todas as tribos dos arredores pertenciam à família linguística dos Aruaques. Na 1° década do século XVIII reivindicaram os portugueses para si as aldeias e mudaram o nome de Tefé para Ega. Por várias vezes espanhóis e lusitanos disputaram essas terras até que estes venceram definitivamente.

Em 1855, voltou a denominação de Tefé, que passou a ser conhecida como a cidade dos demarcadores, pois além de teatro de tantas rivalidades de donos, lá havia passado 9 anos D. Francisco Requeña, na incumbência de situar as terras nos domínios espanhóis. Em vão. Afinal a região acabara por não ser mais nem de um nem de outro lado dos contendores. Era e é bem brasileira, louvado Deus. Refleti melhor: “Cidade dos Demarcadores”. Dei razão ao Imperador, que escolhera pessoalmente o nome. Na verdade, é o título no Brasil que mais estreitamente vincula o feito ao agraciado.

E Onóltz, agora Tefé, permaneceu no Norte do Império, enquanto não mais meses, mas anos se sucederam. Especializado em Astronomia e Hidrografia, continua seu esquema: cálculos e observações. Percorre o Rio Amazonas até além do Pongo de Manseriche no Peru; o Hualaga até os contrafortes da Cordilheira dos Andes; o Rio Negro e o Japurá até as cataratas. Ainda o Apaporis, o Madeira, o Purus, o Jutaí, o Içá e parte do Juruá. Repito: só com os olhos em um mapa, pode-se avaliar a imensidão de tal roteiro. Seus trabalhos de demarcação das fronteiras com o Peru, propriamente ditos se estenderam desde o marco do Japurá (na confluência do Apaporis) à nascente principal do Jaquirana, linha sinuosa passando através de selvas virgens até o Putumaio; daí a Tabatinga; volta a Tefé; e então numa abertura de 2.000 km até a nascente do Javari, que teria início assim estivesse formada a nova Comissão Peruana.

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Entre uma exploração e outra, havia sempre um interregno de repouso, aproveitado por Onóltz e Carlos para passá-los com o Juca Manaus. Foi num desses intervalos de amizade e ternura, que o Juca leu o manuscrito do romance “A Corveta Diana” de autoria do caçula, escrito 10 anos antes em Desterro. Ficou entusiasmado. Considerou a obra de real valor e resolveu fazer uma surpresa ao autor mandando os originais para a tipografia. E exultou com o sucesso imediato que obteve a publicação, pois vários jornais ocuparam-se do livro pondo-o em destaque. O Diário de Pernambuco disse textualmente:

Encetamos hoje a publicação do romance marítimo — “A Corveta Diana” — original brasileiro do distinto Capitão-de-Fragata Antônio Luiz Von Hoonholtz e ultimamente impresso na Província do Amazonas, onde ele se acha na importante Comissão de fixar os Limites entre o Brasil e o Peru.

Esse trabalho literário é a reminiscência de um passado que, se ainda não vai longe, nem por isso deixa de merecer para os amigos as honras de uma memória. Recomendamos a leitura desse romance aos nossos leitores, que ficarão de certo satisfeitos não só pela elegante forma que o Autor lhe deu e pelos conhecimentos que mostrou desse ramo de literatura.

“O Diário” da Bahia, o “Pedro II” do Ceará, o “Despertador” de Santa Catarina, (em Desterro o livro foi teatralizado) e outros jornais emitiram juízo sempre lisonjeiro ao autor, mas dentre eles transcreverei apenas parte das notícias dadas pelo “Jornal do Commercio” do Amazonas e a “Reforma da Corte”. Diz o primeiro:

Uma das feições características da sociedade atual é a indiferença pela literatura; sentimos por isso verdadeiro prazer sempre que o aparecimento de um livro vem despertar-nos e mostrar que, à vertigem do progresso puramente material, escaparam alguns moços que às letras pátrias pagam o devido tributo. E essa agradável impressão produziu em nós a leitura de “A Corveta Diana”, romance marítimo da autoria do Capitão-de-Fragata Antônio Luiz von Hoonholtz. A ansiedade com que se devoram as folhas desse livro até o desfecho imprevisto, prova o interesse que sua leitura inspira; a originalidade e o gosto com que as cenas são descritas, a naturalidade com que elas se sucedem, deleitam e levam a reler-se o livro. Não nos propomos a fazer juízo crítico; o Sr. Hoonholtz tem conceito firmado, e se já era distinto por tantos trabalhos sobre as ciências exatas e suas aplicações, manifesta mais uma face do seu talento. Nosso fim é recomendar aos nossos leitores o romance, que não foi editado para ser vendido; eles que consigam obtê-lo de algum amigo do autor e aplaudirão o bom gosto, e como foi ele apurado na construção e ornamento da sua “Corveta Diana”.

Também se manifesta a “Reforma da Corte” de 7 de junho de 1873 (4 dias antes, portanto de haver sido conferido o baronato a Onóltz):

“A Corveta Diana” é o título de um lindo romance, devido à pena do Sr. Capitão-de-Fragata Antônio Luiz von Hoonholtz, distinto oficial da nossa Armada. É um romance marítimo e o autor faz-nos apreciar lindos e variados quadros da natureza brasileira.

E termina, depois de minuciosas apreciações:

Os episódios são narrados com verdade e os caracteres dos personagens bem delineados. O livro é escrito com elegância e amenidade.

Na realidade, Tefé sempre surpreende com a totalidade de dons que possuía. Seu cérebro pertence a um crisol de categorias conceptivas, na desenvoltura que, em quaisquer circunstâncias, aciona seu pensamento. E esse ecletismo foi o que sempre fez o privilégio de sua singular personalidade. Assim, “A Corveta Diana” representou um “intermezo” de prazer intelectual vivido pelos três irmãos, que sem o imaginar se reuniam, os três juntos, pela vez derradeira.

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Chegou por fim a hora da segunda etapa, que seria ainda mais cruciante do que a primeira. A nova Comissão Peruana chegou a Tefé em fins de 1873, chefiada pelo Capitão-de-Fragata D. Guilherme Black. Comentavam que esse oficial vinha cheio de prevenções contra o Império; no entanto, também ele cedeu à evidência dos algarismos, e no Rio Içá concordou em mudar o marco 6 léguas para cima, contra o Peru, visto achar-se convencido de que erradamente fora ali colocado na demarcação provisória. Com a convivência tornou-se grande amigo de Tefé, comprovando mais tarde sua amizade.

Juntos subiram alguns dos Rios já mencionados, sempre numa troca de cálculos e observações, porém muito preocupados com o preparo para a excursão ao Javari. Afinal, terminadas as prontificações para a grande jornada — armas, víveres, medicamentos, roupas e instrumentos científicos — a 17 de janeiro de 1874, peruanos e brasileiros, ao todo 82 pessoas, acomodaram-se, ou melhor: apinharam-se em 8 chalanas de fundo chato, com tolda corrida, guarnição de arame grosso e malhas finas, tática idealizada por Tefé, para preservá-los das flechadas. Assim partiram além do Paralelo Sul.

Desde o início defrontaram provações e privações. As chuvas eram torrenciais. A água penetrava nas chalanas e deteriorava os mantimentos. Derreteu-se o sal. A carne seca, base da alimentação, ficava cada dia mais aguada e insossa. Os biscoitos rançaram. Bananas e carás apodreciam, o café escasseava e o feijão ficou bichado.

Incansavelmente, mantendo-se acima de tão miseráveis condições de vida, Tefé consignava em seu mapa todas as observações astronômicas e meteorológicas: sondagens, velocidade de corrente, os redemoinhos mais perigosos, os bancos de areia, o aspecto das margens e os obstáculos encontrados na subida, isto é: as 176 árvores-pontes derrubadas pelos selvagens, para obstarem a passagem das embarcações, e que eles tinham que cortar com trabalho hercúleo, debaixo de chuva e de repetidos ataques das tribos das margens cada dia mais enfurecidas por verem suas selvas, até então impenetráveis ao homem branco, irem, a pouco e pouco, sendo devassadas.

Cada madrugada o toque de reunir dos índios acordava os expedicionários: era o soar da trocana e da capopemba. A primeira repercute como um tambor monstruoso; e a segunda produz o som longínquo do canhão numa salva prolongada. Mas, na data de 17 de março de 1874 (dois meses depois da partida), o trombeteio começou antes da aurora.

Ouviam-se alternativamente os tambores num fragor ensurdecedor, a cada momento mais próximo, já que repercutem pelo som como meio de comunicação. A primeira maloca que capta o aviso, transmite-o para a vizinha, e assim por diante até chegar a paragens longínquas, com prodigiosa rapidez. Cada som, em código, representa determinada palavra (mensagem) que os tamboreiros interpretam.

Os expedicionários entrevêem ao longe a trocana suspensa por um cipó timbó-titica, assentada sobre duas forquilhas e o fervilhar dos silvícolas ao redor do tambor. Tefé não recua. Por volta das seis horas ordena a partida e designa a chalana Mário, para navegar à frente. Pouco adiante a Mário dá sinal de selvagens à beira do Rio.

Pela primeira vez, em magotes compactos, eles atravessam o Rio, de margem a margem, sobre troncos de árvores e com o maior alarido, para o ataque bifronte. Dispondo a equipagem em posições estratégicas, mas sem perder tempo nem calma, invulnerável ao que se passa ao redor de si, Tefé continua seus trabalhos científicos metro a metro do Rio.

As escaramuças duram até o dia 5 de abril (19 dias) quando uma batalha feroz é travada entre flechas e balas. Em meio a mais renhida peleja, subitamente os índios fogem, abandonando um morto. Era um homem alto e musculoso, mas de pernas finas. Não trazia no corpo nenhuma cicatriz, nem marcas de mordeduras de répteis ou dos malditos mosquitos, que tanto desesperavam os brancos, cujos rostos e mãos viviam inchados e disformes pelas picadas. Para saber se o cadáver pertencia à tribo dos Mangeronas, que havia dizimado a Expedição de 1866, o corpo foi examinado pelos índios mansos Ticunas e Jávaros, que acompanhavam a Expedição como remadores e intérpretes. Nem pela pintura, nem pelas armas encontradas nos terrenos circundantes (15 flechas com pontas de osso e 4 com taquara), puderam fazer a identificação. Aquele trecho, portanto, era dominado por uma tribo, completamente desconhecida. Bem sabiam os expedicionários que muitos outros combates semelhantes os aguardavam, como de fato aconteceu. A cada refrega, os fuzis dominaram as flechas; mas, sempre com a perda de oficiais e muitos homens da equipagem.

Então, depois de mais de 3 meses de navegação lenta, penosa, eivada de perigos, pelo braço principal do Javari, eis que o tenebroso Rio começou paulatinamente a perder o ímpeto; a diminuir devagarzinho de volume, principalmente abaixo do confluente Paissandu. Latitudes e Longitudes eram anotadas. Dilui-se ainda mais o Rio após a bifurcação de outro afluente desconhecido nos mapas, o qual Tefé batizou Rio da Esperança, por que daí em diante, sendo muito menor o volume de água, era mais firme a esperança de atingirem, enfim, a nascente.

A um dia de viagem desse afluente surgiu outro à margem esquerda (peruana), ao qual Black deu o nome de Rio da La Fortuna. Já as águas do tronco, estão quase desaparecidas; assim, despido da pujança de seu volume de água, mostra-se o temível Rio numa miserável nudez, reduzido a um insignificante Igarapé — como os índios chamam os regatos navegáveis só para pirogas empurradas a braços —, Igarapé que mau grado as chuvas incessantes daquele mês, tinha 0,50 cm de profundidade e 15 m de largura. Diminuiu ainda mais acima de outro inesperado afluente da margem brasileira: por suas águas negras, silenciosas, literalmente cobertas pelas árvores das duas margens, chamou-lhe Tefé − Rio Triste.

Durante a noite, os dois chefes fizeram observações para a Latitude. Carlos von Hoonholtz, irmão de Tefé que o acompanhou em todas as incursões, e agrimensor da Expedição, ficou encarregado de redigir e gravar a inscrição para o monumento da delimitação. Tefé e Black puseram-se em marcha com seus ajudantes e uma escolta de 8 imperiais marinheiros à procura da verdadeira fonte. Levantaram o plano do Igarapé, indicando as direções magnéticas por meio de uma bússola portátil; com o micrômetro de Lugeol mediram a distância de uma curva para outra.

Ao cabo de 8 milhas de caminhada sobre o lodo, com curtos ziguezagues, o Igarapé perdeu-se num Igapó, terreno pantanoso a Leste e a Oeste. A famosa nascente, a matriz do poderoso Javari ali estava em sua insignificância; um pequeno lodaçal escorregadio, cuja água fugia sob os pés dos expedicionários. Tantas lutas, fome, peste, sacrifícios de vidas, para atingirem aquele fio de água antediluviano da lenda dos Cataquinos!

Nesse momento deve Tefé ter ficado com os sentidos bloqueados por uma meditação sem palavras, que é o estado máximo da concentração espiritual. O pensamento relampagueou em seu cérebro. Apagou-se.

Eram 4 horas da tarde. Os exploradores apressaram o passo, para atingir as chalanas antes da noite. Traiçoeiramente, uma flecha zune no ar, raspa o ombro de um marinheiro e se fixa na manga de sua camisa. No mesmo momento, um grupo de índios, que se confundiam com as árvores, expedem uma saraivada de flechas. Em retorno, uma descarga de fuzis. Os selvagens fogem em disparada.

Don Guilherme Black revelara-se digno sucessor de Paz Soldam: bravura e sabedoria aliados ao mais alto grau de senso de imparcialidade e justiça. De comum acordo, as Comissões deliberaram o seguinte:

1°    O Peru nenhum direito possuía à margem direita do Madeira.

2°    A República do Peru no Tratado solene que celebrava com o Império do Brasil estabelecia como limite entre ambos os Países todo o curso do Javari, considerando, portanto, nulo o Artigo 9° do Tratado de Santo Ildefonso, que fixava o Extremo Sul da fronteira do Javari ponto cortado pela Linha Leste-Oeste, tirada a meia distância do Madeira, que é o mesmo paralelo dos 7°4’ dos comissários de 1781. Na Ata da fixação do marco definitivo, à margem direita do Javari (7°6’55”) indicando a nascente do Rio, assinam por parte do Peru, todos os membros da Comissão: Capitão-de-Fragata Guilherme Black, 4 oficiais de Marinha e 1 do Exército. Por parte do Brasil só a assinou Tefé, por haverem morrido os outros membros graduados da Comissão.

Quando a Expedição (que iniciou com 82 elementos) regressou dessa exploração, perigosa mas fecunda, estava reduzida a 55 (27 sobreviventes e 55 mortos) figuras esquálidas, de barbas e cabelos crescidos e roupas esfarrapadas. Com os que já tinham falecido em outros pontos do Amazonas, ao todo, Tefé perdera 50 homens da equipagem, além de 3 ajudantes, o Secretário Dr. Ribeiro da Silva e seu adorado irmão Carlos Guilherme von Hoonholtz, o primogênito da família (55 no total), que após vencida a renhida luta ao regressar do Javari, dois dias apenas antes da chegada, lhe expirara nos braços, morto sem diagnóstico preciso, vitimado talvez pelo beribéri.

Como sabemos, nascera Carlos no navio “Eólo” sobre as águas da Barra do Rio Grande, em 1826, quando seu pai, o Capitão Frederico Guilherme von Hoonholtz ia arriscar a vida em defesa do Brasil, e sua corajosa mãe o seguiu de abarracamento em abarracamento, de campo militarizado em campo militarizado, durante a Guerra da Cisplatina.

Competira-lhe agora a vez de dar sua vida a serviço do Brasil. Voltava seu corpo às águas, as do Javari, que ficaram sendo sua sepultura. Ainda uma vez se afirmava o conceito de Chesterton: “O imprevisto é a única lei da História”.

Gilbert Keith Chesterton: escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista mais conhecido como G. K. Chesterton, nasceu em Londres, no dia 29 de maio de 1874, e faleceu em Beaconsfield, a 14 de junho de 1936. (Nota do Autor)

Após cerca de três intermináveis anos no Alto Amazonas, por entre perigos, pestes, imundícies, inimigos ferozes e mortes, Tefé reivindicara para o Brasil uma extensíssima região não só de terras férteis como de sub-solo prenhe de riquezas. Traçara uma abertura pelo Rio Javari de 2 000 km. de travessia ao forçar a barreira humana formada pelas mais indomáveis tribos selvagens, embrenhadas nas margens desse Rio. Seu feito é uma epopéia. Epopéia seguida com ansiedade pelo Império todo através dos seus diários publicados no “Jornal do Commercio”, embora com o atraso normal em face da distância.

No entanto que amarguras lhe traria dentro em pouco esse nobre feito, do qual voltaria com a saúde abalada, mal podendo andar, mas de consciência tranquila por haver tão bem cumprido a grande missão da qual pessoalmente o revestira o Imperador. Pensando certamente nesse triste regresso a Manaus e na dolorosa surpresa que aí o aguardava, escreverá Tefé um dia muito mais tarde:

—    O que me atemoriza não é na vida ao ar livre (há certa originalidade na colocação das palavras), a fúria do mar proceloso, o bramido das vagas, as águas de um Rio coalhado de sangue, nem o rugir das feras nas selvas. O que me atemoriza é a calmaria que antecede o bote dos invejosos: a calúnia.

-    Livro do Autor

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na Associação dos Amigos do Casarão da Várzea (AACV) – Colégio Militar de Porto Alegre.

Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:


Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil - RS (AHIMTB - RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.
Blog: http://www.desafiandooriomar.blogspot.com

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