"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, outubro 26, 2007

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

O tempo do perdão e a lógica do inimigo. Artigo de Raimon Panikkar

"Convém ressaltar que os choques de civilização têm, historicamente, a ver com o problema da verdade e de sua posse exclusiva. Não se pode negar que em nome da verdade se tenham cometido crimes pavorosos e encontrado horríveis justificativas", diz o filósofo e teólogo espanhol Raimon Panikkar, no artigo publicado no jornal italiano La Repubblica, 9-10-2007. Nele, Panikkar fala da verdade, do perdão, do homem isolado e afirma que "a solidão do homem contemporâneo é uma doença da alma".

Raimon Panikkar, teólogo católico, filho de pais indianos, é reconhecido internacionalmente por propugnar o diálogo inter-religioso.

Eis o artigo.

Quando é que o cristianismo foi poderoso? Quando era perseguido. Portanto, mesmo nas perseguições uma civilização madura cresce, adquire uma identidade própria. Ter medo do inimigo não é a mesma coisa que não resistir ao inimigo. O Evangelho diz claramente. De que tenho medo? De perder uma identidade que é tão débil que não se mantenha sozinha? Se eu tiver pouca confiança em mim, como ocorre na civilização ocidental, qualquer ventinho me fará pensar que seremos atacados. Toda civilização contém tudo – o amor e o ódio, uma coisa e o seu oposto – e eu devo ter disso uma visão pormenorizada.

Qual é, para sermos concretos, o Estado muçulmano mais populoso do mundo? A Indonésia. E os indonésios não são tão perigosos! O segundo Estado: a Índia e depois o Paquistão. Até agora ainda não encontrei nestas populações nacionalismos e fundamentalismos tão ferozes. Índia e Paquistão se combateram muitas vezes, mas por razões históricas e políticas muito concretas.

Quero dizer que não devemos fazer uma caricatura das outras civilizações, pois, caso contrário, não nos lamentemos se também eles fazem uma simétrica de nós e de nossa civilização. A lógica da distorção não funciona como defesa contra o crime ou contra a desordem. Os últimos fatos que o demonstram são as conseqüências da guerra no Afeganistão e no Iraque. Há um caminho a explorar para não cair nos choques ideologizados de civilização: é o caminho da paz e do perdão. Segundo meu parecer, há uma relação direta entre paz e perdão. Escrevi, bastantes anos atrás, que somente o perdão rompe a lei do carma, do olho por olho e dente por dente. O perdão tem uma dimensão que o torna tão grande e tão difícil: ele é um ato eminentemente religioso. O perdão, se não sair do coração, não é tal. Eu posso não me vingar, mas a ferida continua.

Dito em termos teológicos: o perdão é uma des-criação. Se a criação é fazer do nada uma coisa, o perdão é fazer que aquela coisa volte ao nada. E por isso não necessito de vingança, não necessito de restituição, não necessito de nada. A grande dificuldade consiste em como seja possível traduzir isso em termos políticos. Não tenho uma solução, mas tenho dois comentários. O primeiro comentário é que todos os nossos grandes esforços para solicitar a restituição de um dano sofrido (evitando o perdão) não têm funcionado por quarenta séculos. Quanto ao perdão, realmente ainda não o experimentamos.

O segundo comentário é que o perdão tem um efeito catártico ou purificador tão importante que modifica o outro. O outro se dá conta que fez uma coisa que não ficava bem e que tu lhe retribuíste com um ato unilateral de perdão: por toda a vida ele será feliz e fiel, porque o curaste para sempre com o teu perdão. Mas é preciso ser claro sobre um tema tão delicado. O perdão não é ação-reação. Ele necessita de um tempo de maturação. Para perdoar, é necessário esperar. Saber esperar custa, e nós vivemos numa civilização que gostaria de fazer tudo imediatamente. Há um tempo para o perdão, que não é a reação instantânea à ofensa. Seria quase uma burla ou uma impunidade. O perdão tem um tempo de maturação, é uma decisão que chegará a seu tempo. Se não tiver havido essa maturação interior, eu não estarei disposto a perdoar, porque ainda sinto a ferida, nem o outro estará disposto a reconhecê-lo, porque se sentiria impune. Encontrar este equilíbrio entre tempo e ato de perdoar é importantíssimo. Isso pertence à virtude real da prudência.

É necessário realçar que os choques de civilização têm, historicamente, a ver com o problema da verdade e de sua posse exclusiva. Não se pode negar, de fato, que em nome da verdade tenham sido cometidos crimes pavorosos e sido encontradas horríveis justificações. Nós não somos os donos da verdade. Citando Santo Tomás: “quem encontrou a Verdade é possuído pela verdade, não é seu proprietário”. A verdade se possui. A verdade é relação, é sempre o estar com o outro, se não não é verdade. A verdade absoluta é uma contradição, precisamente porque a verdade é relação.

O grande perigo, e aqui não gostaria de escandalizar ninguém, é o monoteísmo. O monoteísmo pensa que Deus é a Verdade, porque o monoteísmo pensa um Deus isolado, um Deus solitário. Não é assim em todos os monoteísmos, a questão é muito complexa, mas existe este perigo constante: embora eu não possua a verdade, há um Deus que a possui e este Deus a revelou. Não me convence o monoteísmo. Penso que o monoteísmo não seja cristão, porque o cristianismo crê na Trindade.

Mas, também para a mística do Islã há três realidades: o amor, o amante e o amado. Para a Cabala, são três as coisas criadas por Deus: a Tora, a Lei e o povo. A Trindade é muito mais extensa, também nas assim ditas religiões monoteístas, do que se acredita. Embora reconhecendo que em nome da verdade absoluta se cometeram muitíssimos crimes, digo isto: aquela não é a verdade. Uma verdade que eu imagino como absoluta, eximindo-a, portanto, de toda relacionalidade – que é a essência da verdade – por definição não é verdade, nem mesmo aquela que é apresentada como divina. Por conseguinte, desmascarar esta chaga da humanidade é um progresso que é necessário realizar neste momento histórico. O contrário de uma verdade absoluta não é a indiferença, não é afirmar que a verdade não existe. A verdade existe, mas é relativa: a nós, a uma mente, a qualquer coisa.

A este propósito devo dizer imediatamente aos puritanos, não para consolá-los, mas para clarificar, que a relatividade que eu defendo e da qual estou convencido não é o relativismo, onde tudo é igual. A relatividade não é relativismo: a verdade é relativa. Mas, para superar o relativismo, não se deve cair no absolutismo. O remédio seria pior do que a doença. O relativismo não vai bem, mas a relatividade implica não perder a medida humana. Ela não se projeta sobre um ponto ômega infinito.

É a nossa vida que conta e a minha verdade (para sem sincero, direi: a minha convicção e estou plenamente convencido de tudo aquilo que digo) eu não absolutizo, porque pode existir um ponto de vista diverso do meu e uma angulação diferente. Por isso, embora reconhecendo que, em nome da verdade, se cometeram grandes crimes, eu ainda defendo a idéia da verdade como relacionalidade e não como absolutismo. O homem isolado, sozinho – e a solidão do homem contemporâneo é uma doença da alma – não se sustenta, não pode respirar, não existe. Tem necessidade do outro, o outro como portador de uma mensagem. Como diz a tradição muçulmana: “o desconhecido pode ser um anjo”. Devemos ajudar-nos reciprocamente e estar cônscios, precisamente no confronto entre culturas e espiritualidades diversas, que a verdade não é posse pessoal, eu não sou o único ente bom deste mundo, o único que entende o que é a verdade. Temos necessidade de compreender que a verdade, quem sabe, “quando cai do céu sobre a terra se rompe em cem pedaços, um pedacinho à disposição de cada um”.

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

Rocinha é fábrica de marginais, afirma governador do RJ

O governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), defendeu ontem o aborto como método de redução da violência no Estado e disse que a Favela da Rocinha, na zona sul, é uma “fábrica de produzir marginal”. “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”, disse o governador ao site G1. A reportagem é de Natália Zonta e Fabiane Leite e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-10-2007.

Ao ser questionado sobre a afirmação mais tarde, Cabral mostrou irritação e tentou amenizar o discurso. “Hoje no Rio, em áreas mais nobres, como na Tijuca, se encontram taxas de natalidade de países civilizados, onde as pessoas têm consciência. Infelizmente, nas comunidades mais carentes daqui as mulheres não têm orientação do governo sobre planejamento familiar e têm taxas equivalentes aos países mais atrasados da África. Tem tudo a ver com violência”, disse.


Entidades não-governamentais e moradores de favelas acusaram o governador de criminalizar a miséria e de distorcer o discurso do movimento pró-aborto, que defende a interrupção da gravidez como direito da mulher de ter autonomia sobre seu corpo, não como forma de combate à violência.

“Com essas declarações o governo escancara que defende a criminalização da pobreza. Como o Estado não tem política para incorporar o pobre, melhor que nem nasça. A política é de extermínio”, disse Camilla Ribeiro, da ONG Justiça Global. “Para os mais ricos, o Estado se faz protetor; para os mais pobres, predador. Para se justificar, faz uma representação do favelado como o outro, de onde emana todo o mal”, afirmou o professor Rodrigo Torquato da Silva, morador da Rocinha há 36 anos.

Cabral destacou que a idéia de que a legalização do aborto teria relação com a diminuição da criminalidade foi comprovada pelos americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, autores do livro Freakonomics. Num dos tópicos do livro, eles relacionam a legalização do aborto nos Estados Unidos à queda da criminalidade em áreas pobres, embora ressaltem que essa associação suscita um debate ético.

Segundo Adriana Gragnani, do núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero da Universidade de São Paulo, Cabral baseou-se em idéias ultrapassadas, dos anos 60. “Essa tese de diminuir o número de pobres para combater a violência, seja por aborto ou contraceptivos, é antiga. Na verdade você diminui a pobreza elevando o nível de vida da população.”

As declarações de Cabral ocorreram um dia depois de o secretário da Segurança, José Beltrame, dizer que “um tiro em Copacabana é uma coisa e na (favela da) Coréia é outra”. Beltrame afirmou ontem que não iria polemizar mais sobre um assunto.

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

FMI e Banco Mundial sentem-se incomodados com o Banco do Sul


No momento em que o Banco Mundial e o FMI estão envolvidos em questionamentos sobre a sua eficácia e o seu futuro, a Venezuela apresentou em Washington, sede dessas duas instituições, o Banco do Sul, uma instituição que pretende substituir os organismos financeiros internacionais junto aos governos da América do Sul e saciá-los de créditos fartos e baratos. A reportagem é do El País, 24-10-2007.

O ministro venezuelano de Finanças, Rodrigo Cabezas, disse diante de um grupo de jornalistas que o Banco do Sul é “o primeiro elo de uma nova arquitetura financeira” com a qual se procura por fim a dependência dos países sul-americanos do mercado tradicional de empréstimos e às condições impostas pelo FMI. O passo seguinte, explicou Cabezas, será a criação de um fundo monetário sul-americano ou um fundo de reservas “que administrará 16 bilhões de dólares de reservas globais na região para colocá-las a serviço do desenvolvimento”.

O ministro disse que os oito países que a princípio formarão o Banco do Sul (Venezuela, Brasil, Argentina, Equador, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Colômbia –anunciou a sua participação na semana passada) estão trabalhando intensamente para que a ata de fundação do novo organismo possa ser assinada no dia 03 de novembro em sua sede em Caracas, mesmo reconhecendo que restam pendentes algumas discussões que poderão atrasar essa data. No momento, a instituição se limitará ao âmbito da América do Sul.

As dificuldades maiores se relacionam com os aportes de capital de cada um dos membros, assim como sua capacidade de decisão. Cabezas disse que o aporte inicial “se fará por vontade de cada uma das nações”, ou seja, que ninguém será obrigado a depositar uma quantidade para ser sócio. Em suma o banco pretende iniciar com 7 bilhões de dólares.

O governo do Equador sugeriu que cada um dos membros aporte como mínimo a mesma quantidade com que participa do Banco Mundial e o FMI. O Brasil, que com maior insistência está pedindo rigor no manejo da instituição, prefere alguma forma de obrigatoriedade nos primeiros aportes e que estas não dependem apenas da Venezuela e do próprio Brasil.

O governo venezuelano pretende assim mesmo que a ata de fundação garanta o princípio de um voto para cada país, de forma que todas as decisões se tomem por consenso, sem levar em conta o tamanho de cada economia ou sua contribuição ao capital total. “Se trata de demonstrara que isso não é o banco de Chávez e para Chávez”, disse Rodrigo Cabezas, procurando desmentir as suspeitas de que o Banco do Sul é um instrumento da política exterior do presidente da Venezuela contra os EUA.

Ainda que neste país não se tenha produzido ainda uma reação oficial, alguns funcionários estadunidenses reconheceram em privado sua preocupação com as possibilidades que esta instituição dê a Hugo Chávez a capacidade influir na estabilidade da América Latina por décadas.

Essa mesma preocupação era visível nos organismos de crédito tradicionais, especialmente na instituição mais ameaçada com a nova criação, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Fontes do BID reconheceram que se Caracas está disposta a por dinheiro a fundo perdido nessa iniciativa, o novo banco é perfeitamente viável a curto prazo.

Em que pese o ministro Cabezas assegurar que este projeto “não é contra ninguém”, resulta óbvio que a Venezuela procura aproveita as dificuldades do BID e de seus irmãos maiores, o Banco Mundial e o FMI, grandes protagonistas da economia mundial no passado para adaptar-se a novos tempos. Ainda que os três grandes tenham colocado acento nos últimos anos em atender as necessidades dos países pobres, seus conceitos e condições às vezes resultam incompatíveis com alguns governos que tem assumido o poder na América Latina.

Instituto Humanitas Unisinos - 25/10/07

A Dívida Pública Federal atinge R$ 1,315 trilhão

Em setembro, o estoque da Dívida Pública Federal (DPF) atingiu R$ 1,315 trilhão, acusando um crescimento de R$ 78,97 bilhões nos nove primeiros meses do ano. Esse aumento não foi produzido pelo déficit nominal do Tesouro no período, mas, essencialmente, pela apropriação dos juros, da ordem de R$ 72,5 bilhões, respondendo, portanto, por 91,8% do crescimento do estoque da dívida. A notícia é do jornal O Estado de S. Paulo, 25-10-2007.

O valor dos juros pagos depende de vários fatores, como a taxa cambial e a evolução dos índices de preços, mas, principalmente, da taxa Selic fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que favorece as operações de arbitragem e é em parte responsável pela apreciação da moeda nacional em razão da entrada de capital especulativo.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Resistir Info - Set 07

A sociedade da desinformação

por Jim Kunstler

Uma pergunta que os meus leitores fazem muitas vezes é porque os media ditos "de referência" estão a fazer um trabalho tão mau quanto ao relacionamento entre a emergência energética global e as perturbações nas finanças globais. Mantenho a minha "alergia" a teorias da conspiração. Não existem quadrilhas de figurões da Wall Street conluiadas com tipos de fato cinzento da CIA para intimidar editores com instrumentos de tortura. A cultura americana já se tornou auto-desinformativa.

Como disse muito bem o meu amigo Peter Golden (blog Boardside ): "Quando as pessoas mentem, elas sabem que estão a fazer algo errado. Mas quando elas apenas fantasiam, não funciona a consciência do certo ou do errado. Parece moralmente certo viver num mundo de fantasia – e isto é muito mais pernicioso para o discurso público do que a mentira".

Meus amigos, que em grande parte são ex-hippies, yuppies progressistas, durante seis anos ativeram-se a preces para exorcizar o mau espírito de George W. Bush, mas deixaram de reconhecer um fracasso de liderança mais abrangente em todos os sectores da vida americana e especialmente naqueles onde actua um bocado de ex-hippies-agora-yuppies. A nossa liderança política pode ser deplorável, mas também a nossa liderança nos negócios, na educação, nas artes e especialmente nos media.

A demonstração disto é The New York Times. Nas suas reportagens acerca da situação petrolífera mundial eles engoliram totalmente e acriticamente as notas de relações públicas de Daniel Yergin, do Cambridge Energy Research Group (CERA), um estabelecimento de RP ao serviço da indústria petrolífera. A preguiça [na investigação jornalística] não chega para explicar isto. É má liderança editorial. É um fracasso na formulação das perguntas importantes.

Na sexta-feira os mercados futuros de petróleo fecharam a um dólar de distância de todos os récords de preços elevados (no mesmo dia em que o Índice Industrial Dow Jones caiu 250 pontos). Contudo, a principal manchete de hoje (segunda-feira) na Secção de Negócios do NY Times é "Disney testa a natureza dos brinquedos à procura de tinta com chumbo". Bem, espero que consigamos corrigir isto de modo a que a civilização possa continuar com uma oferta completa de bonecos da Disney debaixo das árvores de Natal – e esqueça por um momento se a Avó será capaz de conduzir até o WalMart em Dezembro, ou se o WalMart será capaz de manter cheios os reservatórios de diesel dos seus camiões, ou se tanto a Avó como o administrador assistente do seu WalMart local estão com atrasos de três meses nos pagamentos das suas hipotecas reajustadas, e já atingiram os limites máximos dos seus cartões de crédito...

Para mim, parece haver uma óbvia correlação entre os fracassos actuais dos mercados financeiros – em particular o sector do crédito – e o fracasso brutal de liderança em toda a administração da vida americana. No final das contas, o crédito depende da legitimidade, e o mesmo se passa com a autoridade. Eles estão ligados em conjunto. Durante anos, ambos estiveram imersos na fantasia ao invés da realidade.

De outra forma, como pode alguém justificar o espantoso desaparecimento dos padrões no empréstimo entre seres humanos, sob o comando de instituições bancárias? Todos os executivos bancários não acordaram uma certa manhã com uma falta de 60 pontos nos seus QI. E nem tão pouco se pode dizer que todos eles acordaram uma manhã com as más intenções de trabalharem com perversidade. Eles simplesmente foram subsumidos numa fantasia: de que não havia diferença material entre tomadores de empréstimos com capacidade comprovada de os reembolsarem e tomadores sem qualquer possibilidade de crédito. E livraram-se dos problemas que se poderiam ter seguido através da liquidação por grosso de pacotes de bons e maus empréstimos a compradores aquiescentes (outros executivos bancários) mais abaixo da linha, os quais por sua vez venderam certificados que representavam estes pacotes a executivos em grupos de pensão e mercados de dinheiro. Isto tornou-se normal. Isto foi justificado em toda a extensão da liderança americana pelo Explicador-Chefe quando disse que era uma coisa boa que tantos americanos quanto possível possuíssem a sua própria casa.

Será que os media americanos deram conta desta cadeia de perigosas fantasias? De modo algum. Ficaram simplesmente hipnotizados pela admirável e sobrenatural ascensão dos preços nominais das casas, e com o fantástico fluxo de cheques de pagamentos vindos dos escritórios dos construtores de casas, assim como com os fabulosos refinanciamentos que enviavam torrentes de rendimento para as lojas de móveis em saldo, com o catálogo da Williams Sonoma [1] e com os salões de cirurgia plástica.

PICO PETROLÍFERO

Tudo isto verifica-se contra o pano de fundo do que tem sido chamado Pico Petrolífero (Peak Oil), o ponto de viragem na produção global de petróleo e, na verdade, o mais alto ponto de todos os tempos no consumo mundial do óleo, o qual agora pode ser datado com precisão (por meio do espelho retrovisor) como tendo atingido o topo absoluto em Julho de 2006 – o momento exacto, por acaso, em que um gigantesco alfinete perfurou as moléculas externas da telenovela que mantinha a bolha imobiliária.

A produção de petróleo (todos os líquidos, incluindo subprodutos do gás natural, areias betuminosas e tudo o mais) agora está mais baixa em mais de um milhão de barris por dia. Até aqui experimentámos isto apenas através dos abalos crescentes nos preços futuros do petróleo. Ao longo deste breve período de tempo, desde o pico absoluto, as perdas de oferta têm sido remetidas para as sociedades mais pobres do mundo, as quais simplesmente retiram-se da competição por abastecimentos de petróleo.

O que os media "de referência" omitem neste momento é a perspectiva de uma pioria realmente rápida do problema quando as exportações dos países grandes produtores de petróleo caírem a uma taxa mais aguda do que a do declínio da sua produção. Esta ideia foi articulada pelo geólogo de Dallas Jeffrey Brown, em The Oil Drum.com (para uma discussão quanto a isto ir ao blog Energy Intelligence , de Jeff Vail).

Os media "de referência" também fracassam em estabelecer a conexão entre a suprema mercadorias que permite às economias industriais do mundo operarem e a credibilidade de um sector financeiro cuja missão principal é financiar a operação de economias industriais. Na ausência de qualquer perspectiva de crescimento real na economia industrial da América, o sector financeiro inventou um sistema no qual podíamos investir na fabricação de instrumentos de investimento ao invés de investir na actividade produtiva propriamente dita. E assim toda a perícia e todo o tempo daqueles que trabalham no sector financeiro voltou-se para a produção de veículos de dívida comerciáveis baseados em fórmulas abstrusas que quase ninguém podia entender (especialmente aqueles que os compravam e os vendiam).

Toda esta perigosa fantasia ganhou legitimidade porque durante algum tempo parecia compensar. Cidadãos comuns podiam adquirir casas muito maiores e mais bem equipadas do que os seus rendimentos justificavam. E os banqueiros e emitentes das hipotecas obtinham comissões colossais com esta actuação. E os banqueiros em posições mais elevadas na cadeia obtinham bónus nunca vistos com a alavancagem da dívida titularizada de tudo aquilo, e os políticos regozijavam-se ao calor de uma aparente hiper-prosperidade, e o professor Bob Bruegmann, da Universidade de Illinois, declarava que a dispersão suburbana é uma coisa boa, e mesmo The New York Times, se bem que desconcertado quanto a eficácia da recolha de notícias contra a Internet, era capaz de rapar de publicidade suficiente para construir uma desnecessária nova sede em Manhattan, um arranha-céu.

Agora o sonho acabou. O azar moral com base na realidade está a retornar (literalmente) como uma vingança. O certo e o errado estão em vias de importar outra vez e um bocado de pessoas que puseram estas coisas de lado por algum tempo irão sofrer.

10/Setembro/2007
[1] Estabelecimento que vende artigos de cozinha.

O original encontra-se em jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2007/09/the-dis-informa.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, outubro 24, 2007

Le Monde Diplomatique Brasil - Novembro 07

O novo mosaico global,visto por Fiori


Num depoimento especial, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros antecipa o sentido de seu novo livro, que descreve um início de século já marcado por duas grandes reviravoltas, e lança nova contribuição ao debate sobre a “hegemonia norte-americana”

José Luís Fiori

Análise de conjuntura. Co-relação de forças. Estratégia. Tática. Geopolítica. Longas durações históricas. Na nova cultura política do altermundismo – da qual Caderno Brasil sente-se parte –, o uso destes termos, e o debate em torno deles, permanece escasso. É uma pena. Para afirmar a potência da sociedade civil, nada melhor que difundir o uso de instrumentos que auxiliam a enxergar em profundidade o mundo, suas contradições e lógicas, as oportunidades que permitem questioná-las e criar alternativas.

Estará nas livrarias a partir de 24 de outubro Poder Global [1], livro mais recente do cientista político José Luís Fiori. Coletânea de cinqüenta artigos produzidos desde 2001, a obra traz também um prefácio inédito, que condensa, em pouco mais de vinte páginas, pontos teóricos que estão por trás de todas as análises, mas foram sistematizados nos últimos anos. Poder Global mergulha o leitor nos grandes movimentos geopolíticos que já marcam este século, e o estimula a refletir sobre eles. De quebra, ajuda a combater dois raciocínios igualmente esquemáticos: por um lado, a crença num declínio inevitável do papel dos Estados Unidos. Por outro, a idéia de que hegemonia – norte-americana ou de qualquer outra potência — significa poder quase-absoluto.

Em importante aporte teórico, expresso no prefácio, Fiori demonstra que, no chamado “sistema mundial moderno”, a existência de um hegemon não é o mais importante, para a manutenção da ordem política e o funcionamento da economia internacional. O decisivo é a disputa contínua, que leva tanto à concentração de poder quanto... ao seu contrário. Em todos os momentos, a potência hegemônica é obrigada a continuar se expandindo – mas também a gerar e estimular seus próprios concorrentes. Como se não bastasse, o próprio processo de expansão internacional do capital e do poder político fomenta o surgimento de poderes e economias nacionais. O sistema depende, permanentemente, de competição, conflito e, em muitos casos, guerra. Sem eles, entra em colapso.

Além disso, prossegue Fiori, quem enxerga na conjuntura atual apenas um mundo dominado pelos EUA não vê a nova reviravolta dos últimos anos. Apesar de terem recuperado terreno de forma impressionante, nas décadas neoliberais, eles passaram a enfrentar, desde que atolaram no Iraque, dificuldades e adversários em todos os cenários para onde procuram estender seu poder. No Oriente Médio, deparam com a influência crescente do Irã e dos xiitas. Foram incapazes de impor a ALCA à América Latina, onde – ainda mais importante – surgem pela primeira vez iniciativas consistentes de integração regional. Na Europa, a Alemanha busca novamente vôo próprio, projetando-se para o leste e... a Rússia. Sob o governo de Putin, e estimulada por seu poderio militar, esta última procura recuperar rapidamente papel de potência internacional destacada. Na Ásia, há a zona econômica mais dinâmica do planeta, a ascensão da China (que não busca desafiar Washington, mas também não aceita submeter-se) e a afirmação simultânea dos interesses japoneses e coreanos. Em todo o mundo, a crise energética desponta como um acelerador das rivalidades e tensões

Poder Global percorre todos estes movimentos em textos sempre densos, porém claros e fluidos. Sugerir a leitura do livro não significa, é claro, estar de acordo com ele. Fiori não parece considerar muito relevantes nem o surgimento da sociedade civil global, nem os Fóruns Sociais Mundiais (FSMs), nem a emergência de uma nova cultura política pós-capitalista, que já não vê nos Estados o motor das transformações sociais. Num artigo escrito logo após o I FSM, o autor afirmava: “a política só pode ser eficiente onde exista algum poder a ser conquistado, e cujas diretrizes possam ser alteradas”. O novo livro persiste neste ponto de vista, inclusive com textos dedicados à polêmica com autores próximos ao altermundismo, como Toni Negri, Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein.

Nada disso torna a obra menos interessante e necessária. Ao contrário: Poder Global vale também pela capacidade de provocar. Fique com o depoimento especial de Fiori. E aguarde, no Caderno Brasil, a continuação deste debate. (A.M.)

Um mundo hierarquizado, mas
em constante conflito e movimento

Meu livro intitula-se "poder global". expressão não se refere a uma entidade ou a uma instância particular do poder político mundial, nem tampouco à quantidade relativa de poder de algum estado ou organismo multilateral. Expressa um campo de pesquisa e um modo de analisar o funcionamento e as tendências de longo prazo do sistema mundial que se formou a partir século 16, da expansão conquistadora de alguns estados europeus e de suas economias nacionais. O conceito de “poder global” não é sinônimo, nem é equivalente aos conceitos de “hegemonia” e “governança” mundial. Pelo contrário, trata-se de um modo de olhar e analisar o sistema político e econômico mundial, que privilegia o movimento, o conflito e as contradições que movem este sistema, impedindo sua estabilização, e qualquer tipo de “paz perpétua” ou de “governança estável”. Exatamente porque se trata de um “universo” em permanente expansão movido pela competição e pelas lutas entre alguns estados e economias nacionais conquistadores que estão obrigados a se expandir permanentemente para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Por isto, o “sistema mundial moderno”, desde o século 16, e até hoje, foi sempre hierárquico e oligopólico.

Mas atenção, porque ao contrário do que se poderia concluir apressadamente, estas grandes potencias que lideraram e lideram a acumulação do poder e da riqueza dentro deste sistema, foram e seguem sendo complementares e competitivas, a um só tempo, sem que jamais possam se destruir mutuamente sem destruir, ao mesmo tempo, o próprio sistema e sua força propulsora. A competição e a luta ente estes estados apontam na direção da monopolização completa do poder e da riqueza, ou seja, para o nascimento de um “poder global”, mas esta monopolização nunca se realizou nem jamais se realizará deste sistema mundial em que vivemos. Os centros de acumulação de poder e riqueza se deslocam no tempo e no espaço, mas jamais se concentram num só lugar. Se isto acontecesse, o sistema entraria em estado de decomposição anárquica, ou de entropia. Neste sentido, do nosso ponto de vista, não são os “hegemons” que estabilizam este sistema mundial criado pelos europeus; o que ordena e estabiliza este sistema – sempre de forma transitória - é a existência permanente do conflito e da possibilidade de uma nova guerra. Por isto, “no universo em expansão dos “estados-economias nacionais” não há possibilidade lógica de uma paz perpétua, nem tampouco de mercados equilibrados e estáveis”.

Estados Unidos e China: por trás
das tensões, papéis complementares

Eu diria que o ponto de partida e objeto central da minha análise é a indissolubilidade da relação entre, por um lado, o processo de acumulação e internacionalização do capital e, por outro, a força propulsora que empurra o processo de concentração e globalização imperial, do poder político dos estados nacionais ganhadores. O motor que move em conjunto estes dois processos, é o mesmo: a competição e a luta entre estas organizações políticas e econômicas nacionais, que surgiram inicialmente, na Europa, nos século 16 e 17, e que só se universalizaram, como forma de organização territorial do poder e da economia, na segunda metade do Século 20. Mas esta relação ou inter-relação não é apenas sincrônica e “virtuosa” para o mundo do poder e da acumulação do capital. Ela contém dentro de si uma contradição fundamental. Desde sempre, e ainda hoje, o movimento da internacionalização política e econômica reforça, a cada nova etapa, o movimento contrário da nacionalização e fortalecimento dos poderes e capitais nacionais.

Por isto, do nosso ponto de vista, os grandes “surtos” de “globalização” econômica – como os que ocorreram, no fim do século 19 e 20 – provocam sempre, ao mesmo tempo, grandes movimentos de fortalecimento da competição e do conflito entre as nações. Em momentos de aceleração da internacionalização capitalista, a tendência simultânea foi sempre de aprofundamento do conflito entre os interesses comerciais e financeiros das economias nacionais do sistema. Por isto, em algum momento do livro, dizemos que a “globalização econômica” é um traço originário e constitutivo do sistema capitalista, mas não é uma obra exclusiva do capital, nem representa o fim das economias nacionais. Muito pelo contrário, é o resultado da expansão vitoriosa dos “estados-economias nacionais” que conseguiram impor seu poder de comando sobre um território econômico supranacional cada vez mais amplo”. Da mesma forma que o “poder global” não é uma obra exclusiva do poder político, cada vez mais cosmopolita ou multilateral, é sempre o resultado de uma luta entre poderes nacionais conseguem impor transitoriamente ao resto do mundo suas regras e instituições de gestão da guerra e da paz. Vencedores que nunca deixam de seguir expandindo, de forma cada vez mais rápida e permanente, seus recursos de poder econômico e político, mesmo quando pareça que já não tem concorrentes.

No caso das relações contemporâneas entre EUA e China, o que está acontecendo é o que sempre aconteceu nas relações entre as grandes potencias do sistema mundial. Neste momento, a complementaridade econômica entre China e EUA, é cada vez mais importante paras suas duas economias nacionais e para toda a economia mundial. Hoje, já não seria mais possível, pensar numa separação, ou numa tentativa unilateral de destruir ou bloquear o desenvolvimento uma da outra. A relação entre EUA e China transformou-se numa relação virtuosa, e quase num casamento econômico indissolúvel. É ingênuo propor, como alguns analistas norte-americanos, que os EUA bloqueiem o crescimento da China para impedir que se transforme algum dia, numa grande potencia global. Como é absurdo pensar que a China possa utilizar suas reservas em dólar, para jogar contra o próprio dólar, e portanto contra suas próprias reservas. Os chineses têm várias caraterísticas exóticas, do ponto de vista ocidental, mas certamente não são burros, nem têm uma tradição de auto-destruição.

Esta complementaridade econômica não exclui o fato de que os dois se considerem inimigos estratégicos e calculem seus movimentos e iniciativas tecnológico-militares, em função de um confronto militar futuro entre as duas potencias. Como já dissemos, esta dualidade faz parte do sistema e dos seus “jogos” básicos: das trocas e das guerras. É possível que nunca ocorra nenhuma guerra entre os EUA e a China, ela é dispensável. O que é importante para a acumulação do poder e do capital, na China como nos Estados Unidos, é a existência da possibilidade tendencial, de uma ou várias guerras, que funcionam como principio de organização estratégica do próprio desenvolvimento tecnológico e econômico dos dois países, e de todos os demais países que orientem seu cálculo estratégico político e econômico, pela disputa do poder global.

O fim da crença no fim das fronteiras
e num comércio mundial “estável”

Utopias não se enterram. Por definição, elas são eternas, não foram feitas para serem realizadas. Por isto elas permanecem através do séculos, como um desafio e como um objetivo inalcançável, como no caso do sonho liberal com o desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais, e com a possibilidade de uma “paz perpétua” e cosmopolita, que se mantém vivos desde pelo menos o século 17. Um sonho, portanto que acompanhou toda a formação e expansão colonial do sistema político e econômico europeu. Uma coisa diferente é a ideologia da globalização que confunde, intencionalmente, a existência de uma força internacionalizante, dentro do sistema capitalista, com a possibilidade e a defesa do desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais. Uma ideologia que sempre foi esgrimida, através da história, pelas potencias ganhadoras, e que sempre serviu de chave de entrada nas economias mais fracas e periféricas dentro do sistema econômico mundial. O que é fundamental ter claro, de um ponto de vista realista, é que a globalização, definida como um sistema ou ponto de chagada, em que desaparecessem a competição e a luta entre os estados e economias nacionais, onde desaparecessem as fronteiras e as guerras políticas e econômicas, seria a negação do sistema política moderno e a entropia do sistema capitalista, porque significaria o desaparecimento do próprio motor que alimenta a expansão do poder e da riqueza do sistema.

Um sistema que necessita do conflito,
para não entrar em colapso

O importante não é que os Estados Unidos encontram resistência ao exercício de um poder imperial mundial ou global. Isto é perfeitamente natural e esperável. O importante, do ponto de vista da nossa discussão teórica sobre o funcionamento e tendências de transformação do sistema mundial, é que a potência que lidera o processo expansivo do sistema como um todo necessita de concorrentes e adversários para seguir se movendo, para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Na sua ausência, esta potência líder perderia força, e o sistema mundial, como um todo, entraria em estado de desorganização. Por isto, dizemos numa passagem do livro que “dentro do sistema mundial, formado pelos estados nacionais, todo e qualquer “super-poder” ou “potência hegemônica”, estará sempre condenado a expandir seu poder de forma contínua, para manter sua posição relativa dentro do sistema. Esta expansão, ou acumulação de poder, se faz através da competição e da luta com os demais estados, e da preparação permanente da guerra contra algum adversário que deverá existir “a bem do sistema”.

Por isto mesmo, a competição e a luta entre as grandes potencias se reproduz de forma permanente, e nenhum “super-poder” será jamais capaz de estabilizar o sistema mundial, porque ele mesmo precisa da competição e da “guerra virtual crônica”, para poder seguir se expandindo. Por isto, muitas vezes é a própria potência ganhadora que desestrutura sua “situação hegemônica”. Só ela tem condições de se desfazer das regras e instituições que construiu em algum momento – como no caso das Nações Unidas e de Bretton Woods —, toda vez que estas regras e instituições obstaculizem seu caminho expansivo. E, mais do que isto, muitas vezes é o próprio “poder expansivo” ou hegemônico que cria ou inventa os seus competidores e adversários, porque não pode crescer e se expandir sem ter concorrentes, mesmo quando seu poder pareça absoluto e incontestável.

Europa sem rumo claro, e pressionada
pelos movimentos da Alemanha

Os EUA definiram uma estratégia muito clara, desde o fim da Guerra Fria. E neste sentido, considero que existiu um denominador comum entre as administrações Bush e Clinton. A radicalização militarizada desta estratégia imperial, depois de 2001, é que vem enfrentando dificuldades crescentes, sobretudo no Oriente Médio – e neste momento se pode dizer que os EUA estão com sua liderança mundial fragilizada. Mas isto não significa que os EUA tenham perdido seu poder global, ou que estejam vivendo uma “crise hegemônica terminal” como acreditam muitos pensadores importantes do mundo anglo-saxão.

No caso da Europa, entretanto, acredito que de fato não exista no momento uma estratégia política internacional unificada e eficaz. Mas, do meu ponto de vista, esta paralisia ou impotência internacional tem raízes mais profundas e complicadas. Dificuldades que só aumentaram com o fim da Guerra Fria e o aumento do numero dos membros da União Européia (UE) e da OTAN A ausência de um inimigo claro e o excesso de sócios pouco alinhados vêm deixando cada vez mais claro a causa da paralisia estratégica e decisória da UE: ela não dispõe de um poder central unificado e homogêneo, capaz de definir e impor objetivos e prioridades estratégicas ao conjunto dos estados associados. Pelo contrário, está cada vez mais dividida entre os projetos europeus de seus membros mais importantes, a França, a Grã Bretanha e a Alemanha.

São uma divergência e uma competição muito antigas entre estes três países, que só ficaram adormecidas, logo depois da II Guerra Mundial, mas que estão reaparecendo cada vez com mais força, depois do fim da Guerra Fria, graças à reunificação da Alemanha e ao retorno da Rússia ao núcleo central das “grandes potências”. É indisfarçável o temor atual da França e da Grã Bretanha, frente ao fortalecimento da Alemanha, no centro da Europa. E não há dúvida que a reunificação da Alemanha, e o reaparecimento da velha Rússia atingiram fortemente o processo da unificação européia. A Alemanha fortaleceu sua posição como a maior potência demográfica e econômica do continente, e passou a ter uma política externa mais autônoma, centrada nos seus próprios interesses nacionais. Depois da sua reunificação, a Alemanha vem aprofundando a sua Ostpolitik dos anos 60, e vem promovendo uma forte expansão econômico-financeira, na direção da Europa Central e da Rússia. Uma estratégia que recolocou a Alemanha no epicentro da luta pela hegemonia dentro de toda a Europa, e dentro da própria União Européia, ofuscando o papel da França e desafiando o “americanismo” da Grã Bretanha. Se apesar do governo conservador, esta aproximação entre a Alemanha e a Rússia seguir em frente, mesmo que seja apenas no plano econômico, não é improvável que ela traga de volta a velha competição geopolítica dos estados europeus que foram os fundadores do atual sistema mundial. Mas neste caso, o projeto da EU terá chegado ao limite de suas possibilidades, e o mais provável é que comece a recuar em direção a formas menos “envolventes” e “comprometedoras” de integração.

Na Ásia, Rússia e Oriente Médio, sinais de
uma “nova geopolítica das nações”

As mudanças tem sido muito rápidas, nestes últimos 15 anos. Na década de 90, muitos acreditaram na utopia da globalização, do multilateralismo e da paz. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a guerra voltou ao epicentro do sistema, e os Estados Unidos assumiram um projeto explicito de poder global, unipolar e quase-imperial. Seis anos mais tarde, entretanto, o mundo está mudando de direção, uma vez mais: o projeto imperial norte-americano enfrenta dificuldades crescentes, os Estados Unidos perderam capacidade de intervenção unilateral através do mundo, e está se assistindo, por todo lado, um retorno da “geopolítica das nações”, com corrida armamentista, políticas nacionalistas e disputas hegemônicas, em quase todas as regiões geopolíticas do globo.

No leste asiático, a corrida armamentista lembra, cada vez mais, o velho modelo europeu de acumulação de poder e riqueza, que está na origem do atual sistema mundial. É a região de maior dinamismo econômico, dentro do sistema mundial, e, ao mesmo tempo, é onde está em curso a competição mais intensa e explícita, pela hegemonia regional, envolvendo suas velhas potências imperiais – a China, o Japão e a Coréia – mas também a Rússia, e os Estados Unidos. No fim do século 20 e no início do século 21, o crescente envolvimento militar dos Estados Unidos com o Oriente Médio, e com sua “guerra global” ao terrorismo, diminuíram sensivelmente sua capacidade de intervenção direta nos assuntos do leste asiático. E está cada vez mais claro que, se aumentar o distanciamento militar norte-americano da região, haverá um rápido rearmamento japonês, com forte conotação nacionalista. Um quadro que pode complicar-se ainda mais, se a Índia for obrigada a envolver-se nesta disputa hegemônica, por sua própria decisão, ou por conta de uma eventual aliança com os Estados Unidos.

De qualquer maneira, a grande novidade geopolítica do Leste Asiático e de todo o sistema mundial, e a grande incógnita sobre seu futuro, está ligada à nova expansão global da China. Até o momento, ela tem se mantido fiel ao modelo original da expansão chinesa, do século 15, que foi basicamente diplomática e mercantil, à diferença da expansão bélica e mercantil — e depois capitalista — dos europeus. Do ponto de vista geopolítico, o mais provável é que a China se restrinja à luta pela hegemonia no sudeste asiático, e à sua região próxima do Pacífico, mantendo-se fiel à sua estratégia de não provocar, nem aceitar nenhum tipo de confronto, fora de sua “zona de influência asiática”. Mas se a China seguir o caminho passado de todas as grandes potências que existiram dentro deste sistema mundial “moderno”, será inevitável que, em algum momento, tenha que combinar sua expansão econômica, com uma expansão político-militar global.

Com relação à Rússia, durante a década de 1990, muitos analistas vaticinaram o fim da grande potência, que ingressou no cenário europeu no século 18, com as guerras de conquista de Pedro, o Grande. Em 1994, Henry Kissinger chegou a afirmar, no seu livro Diplomacy [2], que os Estados Unidos e a Europa teriam que enfrentar um problema novo e inesperado: a administração da desmontagem do império russo. Talvez por isso, os Estados Unidos lideraram a expansão imediata das fronteiras da OTAN, tomando posição militar em quase todo o território da Europa Central, já na década de 90.

Mas, ao mesmo tempo, esta expansão apressada da OTAN e da União Européia, e sua intervenção militar nos Balcãs, acabaram tendo um papel decisivo na vitória política de Vladimir Putin, responsável pelo redesenho da política externa e da estratégia militar da Rússia, a partir do ano 2000. A Rússia seguia sendo detentora do segundo maior arsenal atômico do mundo, e exatamente no ano 2000, o governo russo aprovou a nova doutrina militar proposta pelo Conselho de Segurança Nacional, que autorizou a utilização preventiva de armamento nuclear em caso de ataque ao país, mesmo que seja um ataque convencional maciço, e caso fracassem todos os demais esforços para repelir o agressor. Possibilidade que voltou a se colocar, com a insistência norte-americana em instalar seu sistema anti-mísseis na Europa Central. Uma decisão que provocou a retomada do programa russo de modernização de seu sistema balístico e nuclear.

Tudo isto ocorre no momento em que a Rússia obtém ganhos crescentes – econômicos e geopolíticos — com suas fontes energéticas, e no momento também em que retomou, no início de 2007, seu nível de atividade econômica anterior à grande crise dos 90. Uma expansão econômica e militar que já recolocou a Rússia, entre as grandes potências, com uma intervenção crescente nos conflitos da Ásia Central e do Oriente Médio, e com a posição de grande fornecedor de armamento e tecnologia militar para a China, a Índia e o Irã, e vários outros países ao redor do mundo, incluindo recentemente a Argentina e a Venezuela. De tal maneira que, apenas quinze anos depois do fim da União Soviética, todos os sinais indicam uma nova onda de modernização da economia russa estreitamente associada com os desafios militares e os objetivos estratégicos do país, como aconteceu em vários outros momentos da história da Rússia, e da própria União Soviética.

Por fim, é verdade que a intervenção dos EUA no Oriente Médio produziu um efeito bumerangue, que surprendeu os norte-americanos. Seu insucesso corroeu a credibilidade das ameaças de intervenção no Irã, na Coréia do Norte, ou em qualquer outro estado com alguma força militar e apoio internacional. Mas muito mais grave do que isto, foi a inversão da correlação de forças que produziu dentro do próprio Oriente Médio. Uma verdadeira reviravolta, que acabou fortalecendo o eixo de poder xiita dentro de toda a região, agora liderado pelo Irã, que se transformou no grande desafiante da hegemonia norte-americana no Oriente Médio. Com o aumento do poder dos xiitas na região, o Irã exerce hoje uma influência cada vez maior no próprio Iraque, no Líbano, na Palestina e no seio de todos os grupos islâmicos mais resistentes ao poder de Israel e dos Estados Unidos, dentro da região.

Esse aumento da influência iraniana acirrou a competição regional com Israel, mas também com o Egito, Arábia Saudita, Jordânia, e pode ter desdobramentos muito complicados, se desencadear uma corrida atômica na região. Mas alem disto, mais recentemente, a intervenção norte-americana no Iraque, acabou também ressuscitando o “leão adormecido” da Turquia, uma espécie de protetorado militar ou cabeça de ponte americana na região, cujo governo sempre esteve sob tutela das estruturas militares anti-islâmicas. Depois de longas décadas de inatividade reaparece a velha cabeça do império otomano, movido contra os curdos, agora também sob proteção americana. Mesmo que Israel ou os Estados Unidos façam um ataque “cirúrgico” às instalações atômicas do Irã, o quadro tende a ficar cada vez mais complexo, e apesar de que os Estados Unidos venham a manter influência no Oriente Médio, devem perder sua posição arbitral, e daqui para frente terão que conviver com a presença ativa da Rússia, da China e de outros países com interesses nos recursos energéticos do Oriente Médio. E, sobretudo, com o desafio e a competição hegemônica com o Irã, dentro da própria região.

Disputa por fontes (escassas) de energia:
um grande acelerador da competição global

Não existe, na história do sistema mundial, uma convergência necessária entre a dinâmica geopolítica e a acumulação do capital. Mas não há dúvida que a geopolítica e a economia andam quase sempre juntas, quando se trata da competição e da luta por recursos naturais escassos e estratégicos, tanto para os estados como para os capitais privados. Exatamente o que está ocorrendo neste início do século 21. Há um rápido aumento da intensidade da disputa em torno dos territórios e regiões que dispõem dos excedentes energéticos para mover a nova “locomotiva” do crescimento mundial — puxada pelos Estados Unidos e a China, com efeitos imediatos sobre a Índia. Basta olhar para as duas pontas deste novo eixo – Ásia e EUA – e para suas necessidades energéticas atuais e futuras, para visualizar o mapa das disputas e das suas sinergias positivas, através do mundo.

Em conjunto, a China e a Índia detêm um terço da população mundial e vêm crescendo, nas duas últimas décadas, a uma taxa média entre 6% e 10% ao ano. Por isso mesmo, ao fazer seu Mapa do Futuro Global, em 2005, o Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos previu que, se forem mantidas as atuais taxas de crescimento das duas economias nacionais, a China deverá aumentar em 150% o seu consumo energético e a Índia em 100%, até 2020. Mas nenhum dos dois países tem condições de atender suas necessidades através do aumento da produção doméstica, de petróleo ou de gás. A China já foi exportadora de petróleo, mas hoje é o segundo maior importador de óleo do mundo. E essas importações atendem apenas um terço de suas necessidades internas. No caso da Índia, sua dependência do fornecimento externo de petróleo é ainda maior: nestes últimos quinze anos, essa dependência aumentou de 70% para 85% do seu consumo interno. Para complicar ainda mais o quadro da competição econômica e geopolítica na Ásia, o Japão e a Coréia também dependem de suas importações de petróleo e de gás, para sustentar suas econômicas domésticas.

Esta situação de carência coletiva e competitiva é que explica a o fato de todos estes países asiáticos terem se aproximado recentemente do Irã, a despeito da forte oposição dos Estados Unidos. E explica também a ofensiva diplomática e econômica da China e da Índia, na Ásia Central, na África e na América Latina, como também, no Vietnã e na Rússia. Além da participação conjunta da China e da Índia, na disputa com os Estados Unidos e com a Rússia, pelo petróleo do Mar Cáspio, e pelos seus oleodutos alternativos de escoamento. A estratégia de competição e expansão é seguida, também, pelas grandes corporações privadas chinesas e indianas, que já saíram de sua zona tradicional de atuação e hoje operam no Irã, na Rússia e até nos Estados Unidos. Com impactos militares quase imediatos, como diagnostica o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, que atribui a essa disputa energética a recente reestruturação da marinha militar da China e da Índia, e sua presença cada vez maior no Mar da Índia, e no Oriente Médio.

Na outra ponta deste novo eixo dinâmico da economia mundial estão os Estados Unidos. Continuam sendo os maiores consumidores de energia do mundo e, além disto, estão empenhados em diversificar suas fontes de fornecimento, para diminuir sua dependência em relação aos países do Oriente Médio. Hoje, a Arábia Saudita só atende a 16% da demanda interna dos Estados Unidos, que já conseguiram deslocar a maior parte do seu fornecimento de energia para dentro de sua zona imediata de segurança estratégica, situada no México e no Canadá, seguidos pela Venezuela que é seu quarto principal fornecedor de petróleo. Além disto, os Estados Unidos vêm trabalhando ativamente para obter um acordo estratégico de longo prazo com a Rússia e têm avançado de forma agressiva e competitiva sobre os novos territórios petrolíferos situados na África Sub-Sahariana, na Ásia Central, na região do Mar Cáspio. Portanto, os Estados Unidos estão disputando com a China e com a Índia todos os territórios com excedentes energéticos atuais ou potenciais. E esta competição está se transformando num novo triângulo econômico, complementar e competitivo a um só tempo, que está cumprindo uma função organizadora e dinamizadora de várias regiões e economias nacionais, através de todo o mundo, incluindo a América do Sul e a África.

América Latina: novas relações
com os EUA e consigo mesma

O lugar da América Latina na nova geopolítica das nações é muito particular e tem muito a ver com a história da inserção mundial do continente, desde o século 19. A América foi o único continente do sistema mundial, onde nunca existiu uma disputa hegemônica entre os seus próprios estados nacionais. Primeiro, ela foi colônia, e em seguida, “fronteira de expansão” ou “periferia” da economia européia. Mas depois da sua independência, esteve sempre sob a égide anglo-saxônica: da Grã Bretanha, até o fim do século 19, e dos Estados Unidos, até o início do século 21. Por outro lado, nestes quase dois séculos de vida independente, as lutas políticas e territoriais abaixo do Rio Grande nunca atingiram a intensidade, nem tiveram os mesmos efeitos que na Europa. E tampouco se formou na América Latina um sistema integrado e competitivo, de estados e economias nacionais, como viria a ocorrer na Ásia, depois da sua descolonização.

Como conseqüência, os estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionoram durante todo o século 19, como uma espécie de laboratório de experimentação do “imperialismo de livre comércio”. Depois da II Guerra Mundial, e durante a Guerra Fria, os governos sul-americanos alinharam-se ao lado dos Estados Unidos, com exceção de Cuba. Depois da Guerra Fria, durante a década de 1990, a maioria dos governos da região aderiu às políticas e reformas neoliberais, preconizadas pelos Estados Unidos.

Mas agora, no início do século 21, é inegável que está em curso uma mudança na América Latina, e em particular, uma mudança no relacionamento da América do Sul com os Estados Unidos. Sobretudo depois da moratória da Argentina, em 2001, do fracasso do golpe de estado na Venezuela, que contou com a simpatia norte-americana, em 2002, e da rejeição do projeto norte-americano da ALCA, na reunião de Punta del Este, em 2005. Mas há também sinais do aparecimento de uma incipiente disputa dentro da própria América Latina, entre estados e economias nacionais complementares, em alguma medida, mas que são ao mesmo tempo, cada vez mais competitivas. Uma novidade absoluta no nosso continente.

BRICS: um grupo heterogêneo de países,
com agendas dificilmente conciliáveis

Na geopolítica das nações, não há lugar para alianças baseadas apenas em médias estatísticas, semelhanças sociológicas ou analogias históricas. E as coincidências ideológicas só operam com eficácia quando coincidem com as necessidades dos países, do ponto de vista do seu desenvolvimento e segurança. Por isto, a construção de uma agenda comum, entre Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul, deve partir do reconhecimento das diferenças existentes entre suas distintas inserções e interesses, dentro do sistema mundial. São cinco países que ocupam posição de destaque, nas suas respectivas regiões, devido ao tamanho de seu território, de sua população, e de sua economia. Mas são, ao mesmo tempo, cinco países completamente diferentes, do ponto de vista de sua inserção internacional, dos seus interesses geopolíticos, e de sua capacidade de implementação autônoma de decisões estratégicas.

Depois do fim da União Soviética, a Rússia manteve seu arsenal militar e sua cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e foi rapidamente incorporada ao G 8, apesar de sua crise econômica da década de 90. Depois de 2000, o governo de Vladimir Putin, recentralizou o poder interno, retomou o crescimento econômico acelerado e vem perseguindo com tenacidade e rapidez o restabelecimento da Rússia na condição de grande potencia mundial. Por sua vez, a China e a Índia, depois dos anos 90, projetaram-se dentro do sistema mundial como potências econômicas e militares. Têm claras pretensões hegemônicas nas suas respectivas regiões e ocupam hoje uma posição geopolítica e geo-econômica global absolutamente assimétrica, com relação ao Brasil e à África do Sul.

Apesar disto, o Brasil, a África do Sul e a Índia – e mesmo a China, diferente da Russia – ainda ocupam a posição comum dos “países ascendentes”, que sempre reivindicam mudanças nas regras de “gestão” do sistema mundial, e na sua distribuição hierárquica e desigual do poder e da riqueza. Por isto, neste momento, compartilham alguns pontos em comum de uma agenda reformista com relação ao sistema das Nações Unidas e à formação do seu Conselho de Segurança. Da mesma forma como compartem posições multilaterais e liberalizantes, em matéria de comércio internacional, na Rodada de Doha, formando o G20, dentro da Organização Mundial do Comércio.

Mas a partir de agora, dentro desta “nova geopolítica das nações” que vai se desenhando no início do século 21, pode-se prever um distanciamento progressivo da China com relação a qualquer grupo ou aliança que restrinja seus graus de liberdade, uma vez que já vem atuando, em vários contextos, com a postura de quem comparte, e não de quem questiona a atual “gestão” do poder mundial. Daqui para frente, a China deve seguir os passos de todas as grandes potências que fazem, ou já fizeram, parte do “círculo dirigente” do sistema mundial. E mesmo com relação à Índia, os pontos de convergência serão cada vez mais tópicos, porque o Brasil e a África do Sul devem se manter fiéis ao “idealismo pragmático” de sua atual política externa, sem contar com as ferramentas de poder e com os desafios externos indispensáveis ao exercício da realpolitik, como no caso da Rússia, da China e também da Índia.

Por isto, dentro deste grupo, o mais provável é que nos próximos anos o Brasil – assim como a África do Sul – mantenha-se na condição de um “estado relevante” mas não expansivo, dentro do sistema mundial.

Organizações internacionais esvaziadas
e sem perspectiva de recuperação imediata

Quase todas as atuais organizações internacionais – como a ONU e o FMI – foram criadas logo depois da II Guerra Mundial, e correspondiam ao projeto de “governança mundial” regulada e institucionalizada, concebido pelos Estados Unidos e seus principais aliados. O mundo mudou radicalmente de lá para cá, sobretudo depois do fim da Guerra Fria e da recente volta da “geopolítica das nações”. As antigas instituições do pós-guerra não estão propriamente desacreditadas – estão cada vez mais esvaziadas, e o foram pela vontade das principais potências que contribuíram para sua constituição. A principal dificuldade em reverter este quadro não vem da falta de idéias e propostas, mas do fato de que nenhuma potência que esteja em posição dominante ou vitoriosa costuma abrir mão do status quo lhe é favorável – a menos de alguma ameaça radical ou de uma guerra. E nesse caso o estado atual de esvaziamento dessas instituições foi provocado exatamente por essas potências dominantes ou vitoriosas, e em particular, pelo seu hegemon, os Estados Unidos.



[1] O Poder Global e a nova geopolítica das nações. José Luís Fiori, 2007. Boitempo Editorial. São Paulo

[2] Kissinger, H. (1994), Diplomacy, Simon &Schuster, New York

Le Monde Diplomatique Brasil - Novembro 07

Tão bárbaros como Bush

Imagens do pan-arabismo totalitário, uma tendência que nega o passado, a cultura e tolerância árabes – mas cresce em muitas partes do mundo, em outro sinal de que o fundamentalismo é uma das grandes ameaças à humanidade, no século 21

Roberto Cattani

Junto com a onda do fundamentalismo islâmico, surgiu uma onda de pan-arabismo racista e totalitário − e, ao menos num caso, genocida. O sinal mais trágico nesse sentido vem do Darfur, onde, como se sabe, bandos armados de etnia árabe estão perpetrando um verdadeiro genocídio das populações de origem africana. O Darfur é o caso mais terrível: mas denúncias graves de racismo e opressão das minorias não-árabes surgem em muitos outros Países, desde a Somália até a Argélia.

As duas ondas, de fundamentalismo e de racismo pan-árabe, são ligadas, paralelas, sincrônicas, e muitas vezes elas se justificam uma à outra. A implementação forçosa e brutal do Corão e dos preceitos salafistas reforçam e, muitas vezes, justificam a aniquilação cultural, social e espiritual de outros povos e, nos casos mais graves, até a eliminação física.

No caso do Darfur, a matriz racista é claríssima, embora seja misturada com a disputa (econômica) pela posse do território. As tribos árabes nômades do deserto sudanês estão tentando (e conseguindo, graças à inércia e ao descaso internacional) massacrar e expulsar de suas terras as tribos negras de cultivadores, com o apoio − ou no mínimo a complacência − do governo central de Kartum, que barra as iniciativas internacionais de socorro. Há uma tentativa clara de fazer daquela região uma área só árabe. Nenhum governo árabe se manifestou a respeito. Em compensação, o intelectual palestino Khaled al-Kharoub escreveu no jornal Al-Ittihad (Emirados Árabes) um artigo intitulado: “Os árabes e a indiferença racista a respeito da tragédia no Darfur”. “Nenhum árabe”, escreve al-Kharoub “pode se declarar inocente da indiferença racista em relação aos crimes contra a humanidade cometidos no Darfur, nos últimos quatro anos, bem diante dos olhos de árabes e muçulmanos. A maioria de nós contenta-se em repetir o velho chavão da conspiração ocidental ou israelense contra o Sudão”.

Na Somália, os senhores da guerra islamistas estão implementando o wahabismo da forma mais brutal, deturpando a cultura somali e forçando a transformação de um país africano numa “colônia” arabizada sem nenhuma ligação com as raízes da população, onde os árabes são uma pequena minoria.

As belas mulheres somális soterradas sob camadas de tecidos

Vejam o que escreve o jornalista somali Bashir Goth: “Os islamistas estão com um programa grandioso para o nosso país. Arabizar completamente a Somália e a transformar num emirado árabe e islâmico. Os senhores da guerra empregam a força bruta para obrigar as pessoas a adotar costumes e crenças que não são as suas e desumanizá-las. Para ver a o que querem fazer com nosso povo, é só ver como os islamistas tratam as mulheres somális, nossa música e nossas idéias. Esses três elementos constituem a beleza, o espírito e o futuro de qualquer nação. Pois então, as belas mulheres somális, que sempre foram exaltadas por seus turbantes e trajes magníficos, agora estão escondidas debaixo de camadas e camadas de tecidos. Querem mumificá-las, da mesma forma que mumificaram as mulheres árabes. Nossa música se tornou proibida, o cinema e o teatro também, e quem expressa idéias diferentes da interpretação satânica do Corão dos clérigos salafistas é morto ou deve se expatriar. Os campos de refugiados do Quênia estão cheios de somalis que se recusam a ser transformados forçosamente em árabes”.

Belkacem Lounes, presidente do Congresso Mundial Amazigh [1], denuncia da mesma forma as tentativas de aniquilação do povo e da cultura berberes na Argélia, Tunísia, Marrocos e Líbia, para que se tornem países exclusivamente árabes. “Não há pior colonialismo que o colonialismo interno, como aquele do clã pan-arabista que tenta colonizar os 30 milhões de berberes em todo o Maghreb, e fazê-los esquecer de suas raízes e de sua identidade. Estamos enfrentando o arabismo, isto é, uma ideologia imperialista que recusa qualquer diversidade na África do Norte e representa uma traição e uma ofensa à história, à verdade e à legalidade”, escreveu Lounes. “Até a religião islâmica foi colocada ao serviço desses projetos de arabização e dominação da maioria árabe sobre a minoria berbere. A rainha Amazigh Dihya, no século 14, foi a primeira a entender essa estratégia colonialista árabe. Quando os árabes atacaram seu reino, ela disse para os enviados árabes muçulmanos que pediam sua conversão e rendição: “Estão dizendo que são portadores de uma mensagem divina? Muito bem, deixem-na conosco e voltem de onde vieram.”

Argélia: desprezo aos berberes que lutaram pela independência

O movimento Amazigh (Tafsut n’Imazighen) de resistência surgiu em março de 1980, quando o governo da Argélia proibiu Mouloud Mammeri, escritor, lingüista e ícone cultural da Kabília berbere, de lecionar sobre a antiga poesia berbere na universidade de Tizi Ouzo, “capital” da Kabília. A intervenção de Argel deflagrou uma série de protestos que durou meses, e culminou com a prisão dos principais líderes e ativistas berberes argelinos e a proibição de qualquer atividade ligada à identidade Amazigh.

Lounes lembra, também, que quando os berberes colocaram a questão da identidade argelina, depois da independência do país da colonização francesa, dentro do movimento nacional argelino, os clãs nacionalistas árabes os acusaram imediatamente de querer dividir o movimento e de fazer o jogo dos colonizadores. “Mas eles se transformaram, depois, em colonizadores ainda piores, porque os franceses nunca negaram nosso direito à identidade e à cultura Amazigh”, diz o presidente do Congresso Mundial Amazigh.

Segundo a entidade, há, também, no Marrocos, uma forte repressão de tudo o que não é árabe e uma ingratidão em relação aos berberes que lutaram contra os espanhóis e os franceses, nas lutas de liberação. Na Líbia, o coronel Kaddafi chegou a negar até a existência de berberes no país, suscitando protestos e revolta dos Amazigh, apesar da repressão do exército líbio.

Um racismo árabe que nunca existiu antes, como mostra a História

Em outros países, fundamentalistas ou com forte presença fundamentalista, como Afeganistão e Paquistão, a arabização não passa pela eliminação das minorias — até porque não há maioria árabe — mas pela imposição da mentalidade, dos preceitos e da sub-cultura salafita saudita, por meios dos clérigos e dos militantes wahabitas que foram doutrinados na Arábia Saudita, e que se tornaram mais árabes que os próprios árabes.

Como disse Lounes, a negação das diversidades nos países árabes e a arabização dos países não-árabes são mais um aspecto do totalitarismo no qual se baseia o fundamentalismo islâmico. O salafismo e o taqfirismo, com seu desprezo absoluto pelos valores humanos, pela cultura (própria e dos outros) e pelo passado (verdadeiro, não aquela pureza primitiva que eles fantasiam) são, provavelmente, a razão principal do surgimento desse racismo árabe, que nunca existiu antes, como mostra claramente a história dos povos árabes. Tudo isso, aliás, não é muito distante nem muito diferente do anti-semitismo hiperbólico de extremistas como Sayyd Qutb ou de fascistas religiosos como o presidente iraniano Ahmadinejjad, e na verdade faz parte, de forma mais ampla, do fundamentalismo intolerante e violento que ameaça o mundo nas últimas décadas — seja o de George W. Bush, o das seitas evangélicas ou o do Hamas.



[1] Amazigh é o termo usado pelos próprios berberes para se referir a si mesmos. Na língua berbere, significa ‘aquele que é livre’.

Le Monde Diplomatique Brasil - Setembro 07

O Império enxerga seu declínio

As divergências no interior do stablishment norte-americano tornam-se agudas, num sinal de que a guerra contra o Iraque pode ter revelado as debilidades do exército e, ainda mais grave, devastado a "legitimidade mundial da América"

Philip S. Golub

No centro da elite do poder norte-americano, as conseqüências desastrosas da invasão e ocupação do Iraque provocaram uma crise ainda mais profunda do que a desencadeada pela derrota no Vietnã, há 30 anos. Para cúmulo da ironia, essa crise afeta a coalizão de ultra-nacionalistas e neoconservadores que se formou nos anos 70, exatamente para tentar pôr fim à “síndrome do Vietnã”, restaurar o poder norte-americano e fazer reviver o “anseio de vitória” dos Estados Unidos.

Se ainda não houve protestos em massa populares e organizados, como durante a guerra do Vietnã, é, sem dúvida, em razão de o exército ser composto principalmente de voluntários egressos dos meios sociais mais pobres; bem como pelo fato de essa guerra ser financiada "mal-e-mal" pelos capitais estrangeiros (por quanto tempo mais?). Mas, entre a “elite”, a crise rompeu o establishment de segurança nacional que governa o país desde a Segunda Guerra Mundial.

O desacordo expresso publicamente, por meia dúzia de generais da reserva, acerca da condução da guerra [1] — um fato sem precedentes —, veio se juntar à manifestação recorrente de dissenso entre as agências de informação e o Departamento de Estado, desde 2003. Isso denota uma tendência mais profunda, que atinge importantes setores da elite e as principais instituições do Estado. Mas poucos criticos da guerra são tão diretos quanto o general da reserva William Odom. Ele repete incansavelmente que a invasão do Iraque representa o “mais importante desastre estratégico da história dos Estados Unidos” [2]. Ou quanto o coronel Larry Wilkerson, ex-chefe do estado-maior de Colin Powell, que denuncia um “erro de dimensão histórica” e pede a destituição do chefe de Estado [3]. Ou ainda o ex-diretor do Conselho Nacional de Segurança, Zbigniew Brzezinski, que qualificou a Guerra no Iraque e a ocupação do país de “calamidade histórica, estratégica e moral” [4].

"Bando incompetente, arrogante e corrupto" (um oficial de alta patente, sobre o governo Bush)

Em sua maioria, as críticas da elite feitas publicamente não vão tão longe. Em geral, dirigem-se ao modo como a guerra e a ocupação tiveram início, mais do que à questão fundamental da invasão em si. Mas isso não muda o fato de que a discórdia é profunda e generalizada, com diferentes secretários [ministros] do governo rejeitando o erro e se acusando mutuamente de serem os responsáveis pela “perda do Iraque” [5]. Em privado, antigos dirigentes de alto escalão entregam-se a acessos de raiva impotente, denunciam “cabalas” sombrias e vituperam contra a Casa Branca. Sem a menor ironia, um ex-oficial do Conselho de Segurança Nacional compara os atuais ocupantes da instituição com “a família Corleone”, imortalizada no filme O Poderoso Chefão. “Por conta de um bando incompetente, arrogante e corrupto”, diz outro oficial de alta patente, “estamos perdendo nossa posição dominante no Oriente Médio”. Veterano do Vietnã, um senador republicano afirma: “A Casa Branca quebrou o exército e ultrajou sua honra”.

Nenhum desses críticos institucionais poderia ser de algum modo considerado “santo”: sejam quais forem suas afiliações políticas ou opiniões pessoais, eles foram, ou ainda são, guardiães do poder, gestores do Estado de segurança nacional. Foram, por vezes, atores de intervenções imperialistas abertas ou clandestinas, empreendidas no “Terceiro Mundo” durante e depois da guerra Fria. Foram (ou ainda são) “gestores de sistema” do aparelho burocrático de segurança nacional, que o sociólogo C. Wright Mills foi o primeiro a dissecar e cuja função é produzir e reproduzir o poder.

Conseqüentemente, não podemos distinguir tais “realistas”, enquanto grupo social, do objeto de suas críticas, no que diz respeito à disposição em empregar a força ou ao caráter implacável com que, a história está de prova, perseguiram os objetivos do Estado. A causa de seu descontentamento não pode ser atribuída a convicções divergentes em matéria de ética, normas e valores (ainda que tais diferenças possam motivar alguns indivíduos). A discordância é resultado de uma constatação fria, racional, de que a guerra no Iraque deixou “o exército norte-americano quase arruinado” [6] e comprometeu seriamente, até mesmo de maneira irreparável, “a legitimidade mundial da América” [7] — isto é, sua capacidade de moldar as preferências mundiais e de definir a ordem do dia no planeta. Em suas expressões mais sofisticadas, como no caso de Brzezinski, essa divergência traduz a compreensão do fato de que o poderio não se limita ao poder de coerção e que a legitimidade hegemônica, uma vez perdida, é difícil de ser restabelecida.

Américas, Ásia, Europa, Oriente Médio... Em toda parte, sinais de uma hegemonia em crise

Os sinais de queda da hegemonia norte-americana são visíveis em todos os lugares: na América Latina, onde a influência dos Estados Unidos é a mais baixa em décadas; no leste asiático, onde Washington, de má vontade, teve de negociar com a Coréia do Norte e reconhecer na China um ator indispensável à segurança regional; na Europa, onde o projeto de instalar baterias antimísseis é contestado pela Alemanha e outros países da União Européia; no Golfo Pérsico, onde os aliados de longa data, como a Arábia Saudita, perseguem objetivos regionais autônomos que, somente em parte, coincidem com os dos Estados Unidos; no seio das instituições internacionais, seja a ONU, seja o Banco Mundial (cujo presidente, o norte-americano Paul Wolfowitz, envolvido em um esquema de nepotismo, teve de entregar o cargo, em 30 de junho), onde Washington não tem mais condições de determinar a ordem do dia.

Ao mesmo tempo, as pesquisas de opinião internacionais, realizadas regularmente pelo PEW Research Center de Washington [8], apontam uma atitude sistemática de desafio à política externa norte-americana em nível quase mundial e um desgaste do “soft power”, o fascínio exercido pelos Estados Unidos no mundo. O “sonho norte-americano” afundou, diante da imagem de um leviatã militar que exibe apenas desprezo pela opinião pública internacional e viola as regras que os próprios Estados Unidos instituíram [9]. A opinião mundial pode não pôr fim às guerras, mas pesa de forma mais sutil nas relações internacionais.

Limitar, em parte, esse desgaste seria talvez possível sob a condução de outros dirigentes e em circunstâncias totalmente novas. É, no entanto, difícil imaginar como um novo consenso interno poderia ser restabelecido no curto prazo. Foram necessários muitos anos para reconstruir o exército, após submetê-lo a duras provas na Guerra do Vietnã, bem como repensar as doutrinas e definir um novo consenso das elites, quando não popular, sobre o uso da força. Depois do Iraque, não será fácil mobilizar o sentimento nacionalista para empreender novas aventuras no exterior. Da mesma forma, não se pode esperar um retorno ao status quo anterior da política mundial.

Em xeque, idéias sobre o papel internacional dos EUA que animaram o país desde os anos 1940

A invasão e a ocupação do Iraque não são as únicas causas das tendências mundiais evocadas acima. A guerra somente acentuou um momento em que forças centrífugas maiores já estavam em ação: o desgaste e o posterior desmoronamento do “Consenso de Washington” e o aumento da influência de novos centros gravitacionais econômicos — sobretudo na Ásia —, já bem estabelecidos quando George W. Bush tomou a decisão calamitosa de invadir o Iraque. A história avança, enquanto os Estados Unidos permanecem atolados em um conflito que absorve todas as energias do país.

Aos olhos das elites no poder, essa configuração é profundamente preocupante. Desde a metade do século 20, os dirigentes norte-americanos passaram a achar que tinham a responsabilidade histórica singular de dirigir e governar o sistema internacional. Ocupando o topo do mundo desde a década de 1940, eles partiam do princípio que, a exemplo da Grã-Bretanha no século 19, os Estados Unidos estavam destinados a agir como hegemon — Estado dominante detentor da vontade e dos meios de estabelecer e manter a ordem internacional, bem como de assegurar a paz e uma economia mundial liberal aberta e em expansão. Na interpretação seletiva que fizeram da história, foi a incapacidade da Grã-Bretanha de manter esse papel, e a reticência simultânea dos Estados Unidos em assumir sua responsabilidade (o “isolacionismo”), que propiciaram o ciclo guerra mundial-depressão-guerra mundial, durante a primeira metade do século 20.

Essa hipótese, profundamente arraigada nas mentes, tem por corolário um argumento circular: uma vez que a ordem requer um centro dominante, manter tal ordem (ou evitar o caos) requer perpetuar a hegemonia. Esse sistema de pensamento, que os pesquisadores norte-americanos na década de 70 definiram como “teoria da estabilidade hegemônica”, pauta a política externa dos Estados Unidos desde que o país emergiu da Segunda Guerra Mundial como centro ocidental do sistema mundial.

As elites política e econômica norte-americanas entreviam, desde 1940, uma “grande revolução no equilíbrio do poder”. Washington iria se “tornar o herdeiro universal e administrador do patrimônio econômico e político do Império britânico. O cetro [passaria] para as mãos dos Estados Unidos” [10]. Um ano mais tarde, Henry R. Luce anunciava a chegada do famoso “século norte-americano”. “Esse primeiro século em que a América será uma potência dominante no mundo”, escrevia ele, significava que o povo norte-americano deveria “aceitar sem reserva [seu] dever e [sua] perspectiva de futuro como a nação mais poderosa e vital, e exercer sobre o mundo o pleno impacto de [sua] influência pelos meios que [lhe] parecessem apropriados” [11]. Em meados dos anos 40, os contornos do “século norte-americano” já se desenhavam claramente: predomínio econômico reforçado por uma supremacia estratégica baseada em uma rede planetária de bases militares estendendo-se do Ártico à Cidade do Cabo; do Atlântico ao Pacífico.

Presidindo a construção do Estado de segurança nacional, os dirigentes do pós-guerra estavam tomados — para retomar a expressão do historiador William Appleman Williams — de “visões de onipotência” [12]. Os Estados Unidos beneficiavam-se de enormes vantagens econômicas e de um avanço tecnológico considerável e detiveram por um curto período o monopólio atômico. O impasse coreano (1953) e os programas soviéticos de armas e mísseis nucleares certamente abalaram a confiança dos EUA, mas foram a derrota no Vietnã, e as turbulências sociais que acompanharam a guerra no plano interno, que revelaram os limites do poderio.

Inevitável paralelo com o início do declínio britânico, também marcado por uma guerra desastrosa

O “realismo em uma era de declínio” preconizado por Henry Kissinger e Richard Nixon, era somente uma forma de admitir, a contragosto, que o tipo de hegemonia global exercido havia mais de 20 anos não poderia durar para sempre. Mas o Vietnã e a era Nixon marcaram uma virada mais paradoxal. Eles prepararam a reação dos anos 80: a “revolução conservadora” e os esforços conjuntos para restabelecer e renovar o Estado de segurança nacional e o poderio mundial norte-americano. Quando a União Soviética desmoronou, alguns anos mais tarde, as ilusões de onipotência ressurgiram. Os triunfalistas conservadores voltaram a sonhar com uma “primazia” internacional de longa duração. O Iraque era uma experiência estratégica, destinada a inaugurar o “segundo século norte-americano”. A experiência deu errado, assim como a política externa estadunidense.

As analogias históricas nunca são perfeitas, mas o exemplo da Grã-Bretanha e da prolongada derrocada do império pode lançar uma luz sobre o momento histórico atual. No crepúsculo do século 19, raros eram os dirigentes britânicos que podiam imaginar seu fim. Quando foi celebrado o Diamond Jubilee da rainha Vitória, em 1897, a Grã-Bretanha estava à frente de um império transoceânico formal, que englobava um quarto dos territórios do mundo e 300 milhões de súditos — ou mais do dobro, se incluirmos a China, colônia virtual de 430 milhões de habitantes. A City londrina era o centro de um império comercial e financeiro ainda mais vasto, cuja teia abarcava o mundo inteiro. Portanto, não é nada surpreendente que uma importante parte da elite britânica pensasse, apesar do receio suscitado pela concorrência manufatureira norte-americana e alemã, que a Grã-Bretanha recebera “como presente do todo-poderoso um arrendamento do universo por toda a eternidade”.

O Jubilee devia ser “o último raio de sol de uma confiança total na capacidade britânica de governar” [13]. A segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902) [14], empreendida na África do Sul para preservar a rota das Índias e reforçar o “elo mais fraco da corrente imperial”, foi um enorme desperdício humano e financeiro. Além disso, ela revelou as atrocidades da política da terra arrasada, a uma opinião pública inglesa cada vez menos dócil. “A guerra sul-africana foi, para a potência imperial britânica, a provação mais importante desde a Rebelião Indiana, e a guerra mais vasta e mais onerosa empreendida pela Grã-Bretanha entre a derrota de Napoleão e a Primeira Guerra Mundial” [15].

Apenas doze anos depois, teve início a Primeira Guerra Mundial, levando os seus protagonistas europeus à derrocada e ao esgotamento. O longo fim da era britânica havia começado. Mas o Império não somente resistiu à crise imediata como perdurou por décadas, ultrapassando a Segunda Guerra Mundial, antes de ver um fim sem glória, pela mão dos norte-americanos, em Suez, em 1956. No entanto, um século mais tarde, a nostalgia da grandeza persiste, como vemos nas desventuras mesopotâmicas do primeiro-ministro Tony Blair. Os últimos resquícios imperiais ainda não foram extintos.

Para a elite no poder dos Estados Unidos, manter-se no topo do mundo há mais de meio século é considerado um fato natural. A hegemonia, como o ar que respiramos, tornou-se um modo de ser, um estilo de vida, um estado de espírito. Os críticos institucionais “realistas” são, certamente, mais prudentes do que aqueles a quem criticam. Mas eles não dispõem, ainda, de um quadro conceitual onde as relações internacionais sejam baseadas em outra coisa que não a força, o confronto ou a predominância estratégica.

A crise atual e o impacto crescente dos problemas mundiais, sem solução no âmbito nacional, originarão, talvez, novos impulsos em matéria de cooperação e interdependência. Em todo caso, é preciso esperar. Mas é provável que a política norte-americana permaneça imprevisível: como mostram todas as experiências pós-coloniais, desfazer um império pode ser uma processo longo e traumático.



[1] Ver “Retired Generals Speak Out to Oppose Rumsfeld”, The Wall Street Journal, 14 abr. 2006.

[2] Associated Press, 5 out. 2005. O general Odom estava à frente da National Security Agency (NSA) na gestão de Ronald Reagan.

[3] Citado em “Breaking Ranks”, The Washington Post, 19 jan. 2006.

[4] Declaração diante da Comissão de Relações Exteriores do Senado, 1 fev. 2007.

[5] O ex-diretor da CIA George Tenet, em seu livro At the Center of the Storm, responsabiliza a Casa Branca pelos erros estratégicos cometidos no Iraque e afirma que nunca houve um “debate sério” sobre a questão de saber se esse país representava uma ameaça iminente ou se não seria melhor simplesmente reforçar as sanções e descartar a guerra. Trata-se do último desentendimento público opondo a CIA à Casa Branca desde, pelo menos, 2003.

[6] Para citar o ex-secretário de Estado Colin Powell durante o programa televisivo “Face the Nation”, na CBS, em 17 dez. 2006.

[7] Zbigniew Brzezinski, declaração diante da Comissão de Relações Exteriores do Senado, 1º de fevereiro 2007.

[8] Ver: The Pew Research Center for the People and the Press.

[9] Ver: PEW Global Attitudes Project

[10] Discurso do presidente do conselho da National Industrial Conference no congresso anual da Investment Bankers Association, 10 dez. 1940. Citado em James J. Martin, Revisionist Viewpoints, Ralph Myles Publisher, Colorado Springs, 1971.

[11] Henry R. Luce, “The American Century”, Life Magazine, 1941, artigo reeditado no Diplomatic History, primavera 1999, vol. 23, n. 2.

[12] William Appleman Williams, The Tragedy of American Diplomacy. Nova York: Delta Books, 1962.

[13] Citado em Elisabeth Monroe, Britain’s Moment in the Middle East, 1914-1956. Londres: Chatto & Windus, 1963.

[14] Tanto o segundo quanto o primeiro conflito (1880-1881) opunham os britânicos e os colonos de origem neozelandesa (bôeres).

[15] C. Saunders e I. R. Smith, “Southern Africa, 1795-1901”, in The Oxford History of the British Empire, vol. , The Nineteenth Century.