"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, maio 05, 2014

‘Estratégia’ de Obama contra Rússia ‘pária’

Data de publicação em Tlaxcala: 02/05/2014


Pepe Escobar


Traduzido por Coletivo de tradutores Vila Vudu



O governo de Barack Obama parece amar o som de sanções unilaterais pela manhã. Talvez lhe soem com som de “vitória”.[1] 

Sanções reais, duras à vera, se algum dia vierem a ser aplicadas, serão mais devastadoras para ospoodles da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), não para Moscou. Enquanto isso, os adultos (da energia) continuam no business normal de sempre.[2] 

Não há como compreender a Guerra Fria 2.0, sem um flashback até novembro de 2010, quando Vladimir Putin falou diretamente à indústria/business da Alemanha, propondo uma comunidade econômica de livre mercado, “de Lisboa a Vladisvotok”.[3] 

O interesse alemão nesse relacionamento estratégico chave foi recíproco. Amplificado para outras nações, implica, no longo prazo, uma integração econômica/comercial plena entre União Europeia e Rússia, e, no quadro maior, um passo a mais na direção de Europa-Ásia. O que se traduz em anátema absoluto para a debilitada e viciada em Monopólio hiperpotência/hegemon. 

Para toda a Think-tankelândia dos EUA, que fala e teoriza a perder o fôlego sobre “contenção” de “estado bandido” – o que, só até aí já é de morrer de rir, como se a Rússia fosse a Somália –, a abrangente “estratégia” do governo Obama seria algo sem paralelo no universo. Mas essa obra prima de diplomacia juvenil delinquente resume-se a “ignore Putin”.[4]

Podem chamá-la de escola de diplomacia do “não gosto de você; não falo com você; estou de mal de você; tomara que você morra.” Comé que Talleyrand nunca pensou nisso?! Mas, com conselheiros tão espantosa, inacreditavelmente medíocres feito Ivo Daalder, ex-embaixador à OTAN, não surpreende que Obama não precise de inimigos.







All we need is Lavrov[5]

A histeria das sanções visa a obrigar o presidente Putin a curvar-se aos desejos do hegemon, como parte da “estratégia”; criar um “consenso internacional” para “isolar” a Rússia; e fazer dela “estado pária”. “Estado pária” que não para de fazer meganegócios, como todos veem.[6] 

Pois ainda assim o pensamento desejante-delirante predominante dá voltas em torno de algum ‘estrangulamento’, agora contra a Rússia – como foi insistentemente tentado contra o Irã (ao qual os iranianos resistiram bravamente). Dentro da bolha em que vivem, os ‘teóricos’ desejantes-delirantes dos think-tanks já se autoconvenceram até de que Pequim ‘está conosco’ [com eles], sem se darem conta de que Pequim vê claramente a histeria de sanções + ‘doutrina do ignore-Putin’ como ramo do mesmo “pivoteêmo-nos para a Ásia” –, que é, essencialmente, projeto para conter militarmente a China. 

No final, o Kremlin chegou à mesma conclusão: é inútil conversar com Washington. Afinal a lista de lavanderia do hegemon é sempre a mesma – o Kremlin não recebeu autorização de Washington para apoiar protestos no leste e no sul da Ucrânia; todo mundo tem obrigação de submeter-se aos neofazistas/aliados dos neofascistas mudadores de regime, de Kiev; e a Crimeia tem de ser “devolvida” – à OTAN –, para que a OTAN consiga expulsar Moscou do Mar Negro. 

O mais recente sonho molhado de Washington seria interromper os embarques de gás, pela Gazprom, da Rússia para a União Europeia – ato de sabotagem comercial, que Moscou interpreta como ato de guerra. Enquanto isso, o “Plano A” de Washington/OTAN ainda é induzir o Kremlin a uma “invasão”, de tal modo que Putin possa ser (como de fato já está sendo) pintado como “o novo Hitler” e como ameaça absoluta à União Europeia. 

A isso se resume o coquetel-Martini “contensão/isolamento”, de arrogância, ignorância, impotência e temeridade. Finesse diplomática? Esqueçam Obama. Em termos de verdadeiro diplomata em ação, sintam-se à vontade para assumir que “All we need is Lavrov”.[7]

De volta à Guerra dos Tronos/Game of Thrones[8]


Moscou tem várias vias para retaliar duramente, realmente, contra o hegemon: na Síria; no dossiê nuclear do Irã; na vergonhosa retirada da OTAN, do Afeganistão, pela Rede Norte de Distribuição que passa pela Rússia; no futuro do Afeganistão. 

Se a Casa Branca e o Departamento de Estado dos EUA quisessem realmente prestar atenção ao modo como Putin enquadra o relacionamento entre o Ocidente e a Rússia, o Kremlin já o repetiu várias vezes. A Rússia espera ser respeitada pelos “nossos parceiros ocidentais”, os quais, desde 1991 tratam a Rússia não como “participante independente e ativo nas questões internacionais”, “com interesses nacionais próprios a serem levados em conta e respeitados”, mas como se fosse nação atrasada ou perigosa, a ser descartada e “contida”. 

Os registros históricos mostram claramente que Washington não respeita interesses nacionais de ninguém; a única coisa que conta é que os tais interesses de outros têm de estar subordinados aos interesses de Washington. 

O Kremlin, em resumo, convidou Washington a jogarrealpolitik. Não Monopólio. O governo Obama, no melhor dos casos – e já é muita generosidade –, joga Bingo. Moscou joga xadrez. Movimento ensandecido para gerar caos nas fronteiras oeste da Rússia, e ares de quem ‘ignora’ Putin, não mudarão em nada a defesa, pelo Kremlin, do que entende como interesses nacionais russos. 

Digamos que o ‘projeto’ era tomar a Ucrânia, expulsar Moscou da base em Sevastopol e, assim, do Mediterrâneo leste; e na sequência tomar a Síria, de modo que o Qatar – não Irã-Iraque-Síria – tivesse ‘seu’ quinhão do Oleogasodutostão, via Jordânia e uma Síria governada pelos sunitas, em direção aos mercados da União Europeia. Esse ‘projeto’ está fracassando miseravelmente. 

Mas o jogo das sanções continua (como continuou contra Cuba, Iraque, Irã). A Casa Branca já está cozinhando mais do mesmo. Nenhum adulto na Europa acompanhará o ‘projeto’. Até os poodlesfarejam que o governo Obama não se qualifica, sequer, para jogar Jogos dos Tronos no PlayStation 3. 

Notas


[5] Há ecos aí de “All you need is love”, dos Beatles, lançada em 1967. Perguntado, então, se seria canção de propaganda, Lennon respondeu: “Claro que sim. Sou artista revolucionário. Minha arte é dedicada a fazer mudar” (Mais em http://en.wikipedia.org/wiki/All_You_Need_Is_Love). Ouve-se emhttp://letras.mus.br/the-beatles/207/traducao.html [NTs].
[7] 23/4/2014, Serguey Lavrov, entrevista à TV russa (ing.) traduzida emhttp://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/04/sergey-lavrov-norte-americanos-estao.html





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