"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

terça-feira, dezembro 22, 2009

Carta para a avó materna de Sean Goldman

por Roberta Palermo 22 Dez à 8:10 pm

Eu preciso desabafar. Estou muito irritada com a carta que ela enviou para o Lula aff. Beijos, Roberta


Prezada Silvana Bianchi, sou brasileira, tenho 40 anos de idade e trabalho muito também. Ao lado do meu marido crio o meu filho Pedro de 7 anos, ensinando-o que filho não é propriedade da mãe. Aprendi isso com a minha mãe, pois ela nunca me afastou do meu pai após se separar dele quando eu ainda tinha 3 anos. Ela também tinha muitas mágoas de uma relação desgastada.

Meu pai faleceu de câncer há 16 anos atrás. Ele fumou muito ao longo de seus 65 anos e o tumor atingiu laringe, faringe traquéia e cordas vocais. Foi muito triste perdê-lo também, mas tive a grande sorte de conviver com ele ao longo de meus 23 anos. Foi com o meu pai que aprendi a gostar tanto de trabalhar, a ser feliz e ver a felicidade em tudo, mesmo nas horas chatas que aparecem nas nossas vidas. Ele me ensinou a andar de bicicleta, eu brincava de casinha nas prateleiras de papel de sua empresa. Foram muitos finais de semana e ferias divertidas com muito sorvete e chocolate. Quando eu voltava para a casa da minha mãe ela demorava meses para desencardir o meu joelho, desembaraçar os nós do meu cabelo e eu tomava vitamina para recuperar o peso. Para a minha mãe, o mais importante era eu ter um pai presente.

Se eu falecer, certamente quem vai terminar de criar o meu filho é o meu marido, quem eu escolhi para ser pai de meu filho. Escolhi com muito critério, pois não podemos achar depois que o pai não tem condições de criar o nosso filho. Certamente o seu marido foi privilegiado por não ser desvalidado como pai, assim como você faz com todos os pais do Brasil em sua carta ao presidente.

Uma criança de 9 anos não tem maturidade para fazer escolhas na vida. Aos 4 anos ele também não pode escolher ficar com o pai. Ou sua filha o consultou? É tão óbvia a alienação parental realizada em seu neto que fica claro que não será permitido que ele fale o óbvio: que não quer ir embora. Certamente ele falaria o mesmo quando a sua filha o trouxe dos Estados Unidos se lhe perguntassem se ele gostaria de nunca mais ver o papai. Por que agora você acha que opinião dele importante? Porque você é mais importante do que o pai? Você não é.

Você não orientou a sua filha a seguir as leis. A apoiou a abandonar o marido que não a fazia feliz, a ficar no Brasil, pedir o divórcio, a guarda de Sean e após sua morte apoiou o padrasto a ter a guarda provisoria. Tudo sempre pensando só em si. Em ter a sua filha, o seu neto, tudo para você. Enquanto o pai, para você, não tem valor algum para o desenvolvimento de um filho. Avós não estão acima da lei. Avós não têm mais direitos do que o pai e a mãe. Nunca! Você já teve a oportunidade de criar os seus filhos. Agora é a vez desse pai criar o filho dele. Você está invadindo um espaço que não lhe pertence.

Lamento muito que a sua vida seja recheada de perdas, mas não menospreze a perda do pai de seu neto. Você não tem o direito de achar que um pai pode ser excluido dessa maneira da vida de uma criança.


Roberta Palermo

Terapeuta Familiar

www.robertapalermo.com.br

2 comentários:

Raquel disse...

Roberta,
Concordo com tudo que você escreveu. Achei um absurdo a carta desta avó. Pai só serve pra reproduzir?
Beijos!

Cristina disse...

Sou professora e trabalho com várias crianças que mostram uma mágoa enorme com pais que não os procuram pq ao se separarem das mães tb o fazem dos filhos ou então já faleceram na batalha do tráfico. Quase todos são criados por avós bem intencionadas mas que não suprem a falta da figura paterna. Ao ver um pai travar uma verdadeira guerra pelo direito de criar seu filho me emociono pq me lembro dos meus alunos. Parabéns pelas suas palavras, realmente desde quando um pai não tem competência para amar e criar um filho? Quando nós mulheres lutamos por direitos iguais a via passou a ser de mão dupla.