"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

quarta-feira, abril 29, 2009

As dificuldades do modelo federativo

Blog do Luis Nassif - 27/04/09

O
PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do Saneamento, assim como a nova política habitacional, representam uma nova forma de articulação federativa.

Nela, o governo federal entra com recursos, financiamentos, coordenação em âmbito federal. Depois, cabe aos estados a coordenação em âmbito municipal. E aos municípios, fazer a sua parte para se habilitar aos recursos.

É um modelo que segue o SUS (Sistema Único de Saúde), o mais bem sucedido modo de articulação federativa até agora desenvolvido no país.

A dificuldade é a organização da ponta - os municípios. Terão que aprender a montar projetos, fazer licitações, providenciar mudanças urbanas, mobilizar empresas. É um processo de aprendizado recíproco, com pontos que não tem como ser acelerados.

Matéria do Valor mostra que, no caso do PAC do Saneamento, a maior dificuldade tem sido a implementação dos projetos nas grandes metrópolis.

Clique aqui.

Planilha do BC desnuda a política monetária

Blog do Luis Nassif - 27/04/09

Na economia, assim como no jornalismo, há duas formas de notícia: os fatos em si e a ênfase com que é tratado. Pode-se transformar uma compra de paioca em escândalo; ou pode-se transformar um escândalo em algo banal.

Tome-se, por exemplo, o estudo do Banco Central (que sairá no próximo Relatório de Inflação) sobre expectativas do mercado - segundo matéria de Alex Ribeiro, do Valor em Brasília (clique aqui).

O estudo é a melhor comprovação estatística até agora sobre o custo excessivo da política monetária, o abuso na utilização excessiva do câmbio como âncora inflacionária e os vícios da pesquisa Focus (feita com o mercado, a partir da qual o Copom baliza suas decisões).

Um estudo feito pelo Banco Central mostra que as expectativas de inflação também têm um alto grau de persistência - ou seja, quando sobem, demoram bastante para cair (…). O trabalho investiga os determinantes das expectativas de inflação para o período de 12 meses seguintes.

Matematicamente, os cálculos revelam que se num dado mês a expectativa de inflação tiver subido 1%, no mês seguinte será maior em percentual em torno de 0,7%.

(…) Uma das explicações do BC para a rigidez nas expectativas são os custos de reputação que os analistas econômicos incorrem se mudam muito de ideia sobre a evolução da inflação.

Essa cautela comprova a dificuldade dos analistas em avaliarem corretamente as inflexões radicais da economia. E mostra porque em dezembro, com a atividade industrial derretendo, o Banco Central teimava em falar de nível de atividade robusto.

No mesmo estudo, está demonstrado que os analistas demoram para mudar suas projeções de inflação para períodos mais longos, mas são mais rápidos para rever opiniões para a inflação de curto prazo. Ou seja, a inflação esperada para o próximo mês é menos rígida do que a expectativa para o ano. Uma explicação é que, normalmente, as projeções de inflação de curto prazo são feitas com base na coleta de dados mais imediatos, como o desempenho da safra, os reajustes de mensalidades escolares e aumentos da gasolina.

Outra explicação, mais simples ainda, é que em 30 dias seus erros serão lembrados; em um ano, dificilmente. É por isso que até conclusões óbvias decorrentes da crise (como queda do superávit comercial) leva tempo para ser aceita pela pesquisa Focus. É a comprovação cabal de que o sistema é falho, o universo pesquisado é viciado e limitado.

A inflação corrente também tem influência na formação das expectativas de longo prazo (12 meses adiante), mas seu peso é relativamente pequeno. Se, por exemplo, a inflação sobe 1%, as expectativas de inflação aumentam apenas 0,15%. Assim, de acordo com o estudo do BC, apenas uma fração dos soluços da taxa de inflação corrente é incorporada nas expectativas.

A meta de inflação tem um peso mais importante na formação das expectativas do que a inflação corrente. Se, por exemplo, a meta for reduzida em 1%, a expectativa cai em 0,2%. Esse é um sinal, na visão do BC, da credibilidade da política monetária. Quanto mais crível, mais os analistas econômicos usam a meta de inflação como o seu cenário mais provável para a inflação.

A questão básica é que a expectativa do mercado não baliza reajustes da preço da economia real. O BC toma a nuvem por Juno. E em cima de um universo muito mais preocupado em acertar qual a expectativa de inflação com que o BC trabalha, do que analisar o mundo real.

O estudo do BC mostra ainda que a taxa de juros tem um papel importante para controlar as expectativas de inflação. Uma alta de juros de 1% provoca uma redução de 0,07% na expectativa de inflação.

Papel importante é gozação. 1 ponto percentual na Selic significa um custo monumental para o país. E o efeito sobre as expectativas de inflação é 0,07% no ano! Efeito desprezível!

O câmbio também afeta as expectativas de inflação. Uma alta de 10% na cotação do dólar provoca um incremento de 0,07% nas inflação projetada pelos analistas econômicos.

Mais uma vez, efeito desprezível em relação aos benefícios propocionados nas contas externas e no nível de atividade.

terça-feira, abril 28, 2009

E o relatório sobre a escuta?

Blog do Luis Nassif - 27/04/09

De O Globo

De 18.12.2008

Três meses depois, nada se sabe sobre grampo
PF deve encerrar em janeiro investigações sobre escuta no STF, que até hoje não têm provas nem suspeitos

Jailton de Carvalho

BRASÍLIA. Os delegados da Polícia Federal Rômulo Berredo e William Morad deverão encerrar em janeiro as investigações sobre o suposto grampo em telefones do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Até o momento, depois de analisar os depoimentos de mais de 120 pessoas ao longo de três meses de investigação, os dois delegados não têm qualquer indício de autoria ou mesmo da existência do grampo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera o resultado do inquérito para decidir se reconduz o delegado Paulo Lacerda ao comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Comentário

A Polícia Federal não encerra nunca esse inquérito porque, completado, desmascará a armação preparada pela presidência do STF com a revista Veja, em torno da tal “escuta ambiental” que nunca aconteceu.

Se isso não for quebra de decoro, o que seria? O presidente do STF pode participar de armações, fazer prejulgamentos, atacar categorias inteiras - de juízes de primeira instância, procuradores, policiais federais, pode manter uma empresa que se beneficia indiretamente do poder de seu sócio. Como fica?

Por Marco Antonio

A questão nem é essa. Como é que se instaura um inquérito sem qualquer indício de materialidade? Pior, havia desde o início indícios de fraude ( ou afirmação difamatória, já que foi feita a imputação do fato à Abin, textualmente). Afinal de contas, não foi apresentado qualquer áudio à Polícia Federal, embora a revista Veja tenha afirmado ter a gravação. A publicação não podia agasalhar-se sob o manto do sigilo de fonte, em virtude de a apresentação de uma conversa gravada_ e inclusive publicada_ não possibilitar a identificação de fonte alguma. E esse único e simples fato, que é o não surgimento do áudio, permite duas conclusões:

1- A Revista não possui o áudio. Como afirmou que obteve a conversa através de gravação, não por outro meio, e não apresentou provas, a suposição que se deve fazer é a de que a denúncia é falsa. E a confirmação da conversa_ de teor oportunamente desprovido de interesse público_ pelos agentes públicos em questão não serve como corroboração da denúncia. Ambos são suspeitos. O Ministro, por estar declaradamente em guerra contra as investigações policiais ( tanto que rapidamente atribuiu o ” grampo” à Abin). O Senador, um dos mais ferrenhos oposicionistas, e que a todo momento declara seu apoio ao Ministro. A apresentação do áudio era de interesse dos denunciantes, não de quem supostamente tivesse feito a gravação. Logo, a incoerência dos fatos permite a conclusão de que não houve escuta ilegal.

2- Dada a falta de evidência da prática de crime denunciado, com obstaculização da própria denunciante primária, a autoridade policial, devia trabalhar em outras direções, como a possibilidade de motivação política ter gerado a acusação. É o procedimento em todas as investigações. Se alguém denuncia que foi sequestrado, e a polícia não encontra indícios de tal procedimento, começa a trabalhar com outras hipóteses, como desaparecimento, crime forjado, tudo dependendo das circunstâncias. Estranhamente, neste caso não o fez. Pelo contrário, mesmo diante de várias provas de que não houve escutas ilegais ou gravações ambientais no Supremo Tribunal Federal, manteve um inquérito parado, sem providências nem arquivamento. Vislumbra-se aqui uma prática incompatível com as atribuições da PF. Afinal, ou há uma negligência policial ou uma motivação política, como, por exemplo, o enfraquecimento da ABIN visando a levar eventuais intérpretes judiciais a considerar a participação da agência em operações policiais presumivelmente ilegais, com tal precedente.

São as conclusões possíveis. De tudo, porém, resta uma certeza. Não há opositores políticos nessa história. O que, de certa forma, a elucida.

Por João Vergílio

Essa onda recente de denúncias contra parlamentares pode não ter sido explicitamente montada para remendar a credibilidade dos grandes órgãos de imprensa, mas é exatamente esse o papel que ela cumpre. Vale aqui, no nível das reações grupais, o que vale em ponto menor na vida de cada um de nós. Guiamo-nos por uma espécie de instinto, que nos diz o que fazer em situações de perigo antes mesmo que possamos tomar plena consciência dos passos que fomos dando para nos proteger. Ao encher as primeiras páginas com manchetes bombásticas a respeito de pequenas e médias transgressões de nossos parlamentares, tanto os jornalões quanto a revistona colocam-se no papel de zeladores da ética e dos bons costumes. Ao mesmo tempo, fabricam um “outro” encarregado de defini-los (mentirosamente, é claro) por antonomásia.

Chamando esse Outro de ladrão, colocam-se no lugar dos santos guerreiros impolutos que, movidos pelo mais puro idealismo, resolveram arremeter em bloco contra o dragão da maldade. Isso depois de terem protagonizado um dos mais descarados esquemas de acobertamento já postos em funcionamento no Brasil até hoje.

Era uma providência que, se não foi planejada, como creio que não foi, mesmo, era absolutamente necessária. Todas as mentiras contadas ao longo destes últimos meses, todas as omissões e distorções acumuladas nas páginas de nossos principais órgãos de imprensa estão por um fio. A CPI não indiciou ninguém, mas ainda foi possível recorrer à velha e surrada imagem das pizzas para insinuar uma conivênica acobertadora; a sentença dizendo com todas as letras que a colaboração com a Abin fora absolutamente normal pôde passar batida graças ao tom abstruso dos vereditos, incapaz de chamar a atenção dos leitores; inquéritos da própria PF, mesmo conduzidos com uma truculência absolutamente invulgar, envolvendo buscar e apreensões de computadores pertencentes ao filho e à esposa de Protógenes, puderam deslisar para fora do campo de atenção do respeitável público maculados, talvez, pela suspeita de que, no final, tenha vencido um certo “espírito de corpo”. Sequencialmente, cada um desses revezes podia ser absorvido.

Estava cada vez mais difícil, porém, lidar com o efeito do conjunto deles. O discurso da revista Veja ia ficando insustentável até mesmo aos olhos daqueles que se mostraram mais simpáticos, num primeiro momento, à tese gilbertina da República dos Grampos.

Some-se a isto as inevitáveis fraturas na patota, à medida que os assuntos se diversificaram, e os interesses também, e ter-se-á uma daquelas situações de risco iminente a que me referi acima - aquelas em que reagimos sem pensar muito, guiados por uma espécie de sexto sentido para uma posição segura.

Foi quando, trazidas pelas asas de um anjo, surgiram as benditas passagens aéreas. Nada poderia responder com mais exatidão às necessidades do momento. Um gasto legal, mas alegadamente imoral. Eureka! É disto exatamente que precisavam aqueles que foram se apegar aos últimos fiapos da lei para, após um processo tão rigoroso quanto descarado de filtragem e deformação, trombetearem aos quatro ventos que, por mais que o interesse nacional berrasse alto em favor do pobre delegado, não, não pode ser, não, nunca, jamais, de jeito nenhum - dura lex sed lex, no cabelo, só Gumex.

Agora, é esperar. Os grandes lances estão todos nos pés do presidente Lula. Meu palpite é que ele não irá chutar bola nenhuma. Manterá uma distância dos assuntos mais espinhosos que seja suficiente para que seus operadores negociem apoios de todo tipo para as eleições que se avizinham. O exílio de Paulo Lacerda será mantido, e as conversações de José Dirceu também. Talvez tenha que suportar uma ou duas semanas de encheção de saco por conta de algum escandalozinho que repingue no Palácio, mas isso é da vida. Está lá para isso mesmo. O jogo é esse. Faz parte, como dizia o Bambã.

Agronegócio comanda a ecologia

site do Azenha - Atualizado em 27 de abril de 2009 às 19:51 | Publicado em 27 de abril de 2009 às 19:50

Agronegócio comanda a ecologia

abril 26, 2009

por Luciana Abade, no JB

Dos 17 deputados da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara, pelo menos nove tiveram suas eleições financiadas por madeireira e empresas de celulose, fertilizantes ou de agropecuária

Criada para ser palco de discussões e aprovação de projetos que preservem o meio ambiente, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados está, nessa legislatura, dominada por parlamentares ligados direta ou indiretamente ao agronegócio. A relação torna-se mais clara quando analisa-se as doações recebidas pelos deputados nas últimas eleições nacionais. Dos 17 titulares, pelo menos nove foram patrocinados por empresas de celulose, madeireira, fertilizantes ou de agropecuária. Na opinião de ambientalistas, a presença maciça de representantes do agronegócio na comissão enfraquece o discurso ambiental e torna desigual a relação entre ecologistas e ruralistas, que já possuem uma comissão exclusiva na Casa.

Nem o presidente da comissão, Roberto Rocha (PSDB-MA), escapa da relação com o agronegócio. Beneficiado por R$ 40 mil da Ceagro Agro Negócios LTDA na última eleição que o trouxe à Camara, Rocha afirma que não é ruralista e não vê problema em presidir uma comissão ambiental com uma presença forte de agropecuaristas. Garante, ainda, que a comissão não está divida em ambientalistas e ruralistas, mas unida no único propósito de defender o interesse público.

O deputado Leonardo Monteiro (PT-MG) tem em seu currículo a experiência da presidência do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Papel e Celulose. Nas últimas eleições, recebeu R$ 30 mil da Celulose Nipo Brasileira.

Entre os membros da comissão, o deputado Jorge Khoury (DEM-BA) foi quem mais recebeu doações de empresas ligadas a produção de celulose e material da agroindústria, R$ 624 mil.

Na atual formação da comissão, tem lugar, inclusive, para o ex-presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária e Abastecimento da Câmara Marcos Montes (DEM/MG). O democrata recebeu mais de R$ 100 mil de empresas agropecuárias.

Já o deputado Jurandy Loureiro (PSC-ES) foi financiado com R$ 65 mil da Aracruz Celulose. A empresa teve ações embargadas pelo Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por desmatar áreas do córrego Jacutinga, no estado que o deputado representa.

O uso da política como instrumento de defesa de alguns setores produtivos em comissões e secretarias de meio ambiente não é exclusividade do Congresso Nacional. É o que garante a ONG Amigos da Terra.

- O sistema permite esse compromisso velado dos supostos representantes com os setores produtivos - afirma a coordenadora da ONG, Lúcia Ortiz. - É por isso que tantos projetos importantes para o meio ambiente ficam emperrados. Representantes do agronegócio orquestram dentro dos espaços que definem as políticas públicas para favorecerem os seus negócios.

Segundo Lúcia, o Rio Grande do Sul é um exemplo claro dessa prática, uma vez que o atual secretário municipal de Meio Ambiente do estado, Berfran Rosado (PPS), foi patrocinado por empresas de celulose e, quando era deputado estadual, lançou uma frente parlamentar pró-eucalipto.

- Os técnicos da secretaria apresentam projetos sobre os impactos ambientais e têm o seu trabalho desqualificado - denuncia a coordenadora - E os licenciamentos continuam facilitados.

A ambientalista tem uma preocupação especial com o bioma Pampa que sofre uma expansão acelerada de plantação de eucalipto para a exportação de celulose. O Pampa é o segundo bioma brasileiro mais devastado. Já perdeu quase a metade da cobertura original de sua área de 178 mil quilômetros quadrados.

Lúcia afirma ainda que as constantes acusações de políticos de que boa parte das ONGs querem impedir o progresso da indústria de celulose no Brasil em nome dos interesses internacionais não procedem, uma vez que 90% da produção dessas empresas é exportada.

O pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Paulo Barreto, acredita que a presença de representantes do agronegócio na Comissão de Meio Ambiente seria positiva se fosse reconhecido o desafio de preservar o meio ambiente preservando a legislação ambiental, ao contrário das tentativas do Parlamento de derrubar o Código Florestal.

Em nota, a Aracruz Celulose, uma das principais doadoras dos membros da comissão (confira quadro), afirmou que "não exerce atividades político-partidárias, mas apoia partidos e/ou candidatos cujas ideias e propostas sejam consistentes com seus princípios de negócios". E que faz doações para fins de financiamento de campanha político-eleitorais sempre observando os limites previstos em lei. Quanto ao embargo no Espírito Santo, a Aracruz afirma que encaminhou ao Ibama um pedido de desembargo da área, mas não teve manifestação do órgão.

Recentemente, a empresa entrou na lista negra do Bank Track, instituição que monitora a atuação de empresas e seus impactos sobre o meio ambiente. Na lista de acusações, está o desmatamento de florestas, danos ao solo, água e biodiversidade nas regiões onde atua.

Fonte: Jornal do Brasil (Por Luciana Abade)

Publicado por sugestão do Fernando

Dantas será indiciado por vários crimes

site do Azenha - Atualizado e Publicado em 27 de abril de 2009 às 04:34

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090427/not_imp360977,0.php

Segunda-Feira, 27 de Abril de 2009

Dantas deve ser indiciado hoje pela PF

Já condenado por corrupção, banqueiro pode responder por formação de quadrilha

Fausto Macedo

O banqueiro Daniel Dantas deverá ser formalmente indiciado hoje pela Polícia Federal no inquérito Satiagraha.

Não estão definidas ainda todas as tipificações penais que serão imputadas ao controlador do Grupo Opportunity - já condenado a 10 anos de prisão por corrupção ativa -, mas a PF avalia que reuniu indícios suficientes para enquadrá-lo em lavagem de dinheiro, ilícitos financeiros, tráfico de influência, formação de quadrilha e violação a dois artigos da Lei do Colarinho Branco - o artigo 17, que veda empréstimos fraudulentos entre empresas e controladores de um mesmo grupo econômico; e o 22, que proíbe operação de câmbio não autorizada com o fim de promover evasão de divisas.

A PF atribui ao banqueiro o papel de líder de organização criminosa para remessa de valores a paraísos fiscais por meio do Opportunity Fund.

Na véspera do feriado de Páscoa, os federais vasculharam a sede do banco, no Rio, e recolheram 20 malotes de documentos referentes a contratos supostamente ilegais, por meio dos quais Dantas teria feito transferências para o exterior não declaradas à Receita Federal e ao Banco Central.

A PF considera que esses papéis são fundamentais para o indiciamento. Além de Dantas, foram intimados seus principais auxiliares - 12 dirigentes do Opportunity que também serão enquadrados, entre eles Dório Ferman, presidente da instituição financeira. Ferman já depôs, por 6 horas e meia, há três semanas. Agora, foi chamado para o indiciamento.

As audiências estão marcadas para hoje e amanhã. O procurador da República Rodrigo de Grandis, acusador de Dantas, vai acompanhar os interrogatórios, conduzidos pelo delegado Ricardo Saadi, especialista da PF em investigações de crimes financeiros. Saadi assumiu o comando do inquérito quando o delegado Protógenes Queiroz foi afastado do caso.

Após nove meses de apuração, Saadi está convencido da necessidade do indiciamento do banqueiro. Em novembro, o delegado requereu a prisão preventiva de Dantas. O Ministério Público Federal se manifestou contra a medida. O juiz responsável, Fausto De Sanctis, não decidiu sobre o pedido.

A PF tem pressa em concluir o inquérito. Os Estados Unidos deram até 14 de maio para manter o bloqueio de cerca de US$ 450 milhões de Dantas, depositados em instituições financeiras americanas.

Dantas e sua equipe poderiam pedir à PF que os ouvisse no Rio, onde moram e se localiza a sede da instituição. Mas resolveram depor em São Paulo, decisão tomada após duas longas reuniões realizadas na quinta-feira e no sábado.

Saadi marcou os depoimentos com intervalos curtos, de uma hora entre um e outro. Dantas e os diretores do Opportunity estão dispostos a depor - ao contrário da maioria dos investigados, que invocam o direito de só falar em juízo.

Na reunião de quinta-feira, Dantas comunicou a seus advogados que quer falar à PF. Ele seguiu essa estratégia quando foi interrogado no ano passado por De Sanctis, que o condenou por corrupção e já mandou prendê-lo duas vezes, em julho de 2008 - ordens derrubadas pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

E se esta for a pandemia?

Instituto Humanitas Unisinos - 27/04/09

Juan José Badiola, diretor do Centro de Pesquisa em Encefalopatias Transmissíveis e DoençasEmergentes de Zaragoza, na Espanha, publicou artigo no jornal El País, 26-04-2009, em que comenta a preocupação levantada em razão dos recentes surtos de gripe suína, especialmente no México e nos EUA.

Segundo Badiola, podemos estar "frente a uma epidemia de rápida propagação de um vírus de gripe que contém genes de origem suína, aviária e humana. [...] Essa combinação genética poderia ter dado lugar a um novo vírus de gripe de comportamento imprevisível". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Os recentes casos humanos de gripe suína registrados no México e nos Estados Unidos trouxeram à tona de uma hora para outra a preocupação com a pandemia de gripe aviária que provocou muito impacto no passado entre os cidadãos e autoridades e que foi motivo de interesse dos meios de comunicação de todo o mundo durante meses. Segundo as informações de então, parecia que uma pandemia de gripe era algo iminente e inevitável, e os responsáveis das organizações de saúde internacionais assim o sugeriam. As autoridades de muitos países alertados por elas e pressionados por suas populações se apressaram em se preparar para combater essa ameaça.

O perigo provinha da amostra H5N1 de um vírus da gripe aviária, que chegou a ser familiar para todos, que dizimava as populações avícolas de vários países asiáticos e africanos, que se propagava a distâncias longínquas por meio de aves silvestres migratórias e que também afetava pessoas e outros mamíferos. Muitos cidadãos souberam, para sua surpresa, que existiam vírus gripais que humanos e animais compartilhavam, e, na Espanha, a gripe espanhola voltou à memória coletiva.

Mas a pandemia não se produziu, e agora, de repente e de maneira inesperada, a ameaça reaparece outra vez, neste caso protagonizada por um vírus de gripe suína, o H1N1. A pergunta que muitos se fazem é se realmente existem motivos fundamentados de preocupação ou se estamos novamente frente a um alarme falso. Não é fácil fazer previsões, mas, ainda que muitos dos casos de gripe registrados estejam na categoria de suspeitos e, portanto, ainda não são confirmados, o número elevado deles e o de mortes de adultos jovens indica uma realidade preocupante. Também é preocupante, para a opinião pública, o conjunto de medidas adotadas pelas autoridades mexicanas, com toda probabilidade, mais do que justificadas.

Se finalmente se confirmar que a maioria dos casos de gripe humana registrados no México foram causados pelo mesmo vírus isolado nos casos da Califórnia e do Texas, estaríamos frente a uma epidemia de rápida propagação de um vírus de gripe que contém genes de origem suína, aviária e humana. É sabido que os vírus aviários podem ter um poder patogênico elevado, e que o porco é a espécie em que se costumam produzir recombinações entre vírus de gripe de naturezas e espécies distintas. Essa combinação genética poderia ter dado lugar a um novo vírus de gripe de comportamento imprevisível.

Por isso, é lógico que as autoridades da OMS estão preocupadas, razão pela qual decidiram elevar em um nível o risco de pandemia, e essa preocupação deve ser compartilhada pelo resto dos países. Os europeus, e muito particularmente a Espanha, devem seguir muito de perto o que está acontecendo no México e nos Estados Unidos, países dos quais um número elevado de pessoas vêm e aos quais se dirigem, e têm que adotar as medidas de precaução apropriadas.

Por sorte, a preparação frente à ameaça de pandemia provocada pelo vírus de gripe aviária H5N1 irá permitir que se enfrente essa nova situação em condições mais favoráveis do que as que existiam no passado.

Arrozeiro destrói tudo antes de sair

Instituto Humanitas Unisinos - 27/04/09

O fazendeiro Paulo César Quartiero, maior produtor rural instalado no interior da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, decidiu adotar a política da terra arrasada. Insatisfeito com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a sua saída daquela área até quinta-feira, ele está disposto a não deixar nada em pé. Nenhuma casa, galpão, curral, rede de eletricidade, sistema de irrigação, nada que possa ser utilizado pelos índios, que, na sexta-feira, devem tomar posse das duas fazendas que ele possui naquela área - num total de quase 9 mil hectares. Até o piso das construções está sendo revolvido.

A reportagem é de Roldão Arruda e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 27-04-2009.

Ontem à tarde, na Fazenda Depósito, que fica a cerca de 170 quilômetros da capital, Boa Vista, a movimentação era intensa. De tempo em tempo, carretas enormes e fechadas, apropriadas para o transporte de gado, deixavam a fazenda, levantando nuvens de poeira. Levavam aos poucos o rebanho da raça canchim que Quartiero possui, com quase cinco mil cabeças. Em outra parte, grupos de peões retiravam telhas, portas, esquadrias, estruturas metálicas, enfim, todo o material que pode ser aproveitado em outra obra. Logo atrás deles, vinha uma enorme retroescavadeira, derrubando paredes e revolvendo pisos.

Quartiero é o maior produtor de arroz irrigado de Roraima, com índices de produtividade que se aproximam dos obtidos nos Estados do Sul. Ele também planta soja e cria gado. Mas não possui títulos legais das terras que começou a ocupar no final dos anos 70 - e que agora foram declaradas terras indígenas, na conclusão do processo de demarcação da Raposa Serra do Sol.

Durante quase dez anos, Quartiero, ao lado de outros seis grandes produtores que estão dentro da área indígena, lutaram para reverter o processo e obter autorização legal para continuarem ali. Eles chegaram a bloquear estradas da região e queimar pontes, na tentativa de impedir que a terra fosse entregue aos índios.

O caso acabou no STF, que, no mês passado, determinou a saída de todos os não-indígenas do território da Raposa Serra do Sol - uma área com 1,7 milhão de hectares, dos quais apenas uma pequena faixa é ocupada pelos produtores rurais. Ontem, ao falar sobre a derrota, Quartiero desabafou: "Meu erro foi ter confiado na Justiça, foi ter confiado no Exército, que me disse 'lute que nós apoiaremos', mas não apoiaram".

De acordo com as leis do País, ele não tem direito a nenhuma indenização pelas terras nas quais investiu pesadamente, devendo receber apenas pelas benfeitorias que fez. A avaliação foi feita por órgãos do governo, mas ele contestou o valor e se recusou a receber a primeira parcela, já depositada em juízo. Com a decisão de destruir tudo, não deixando nada para os índios, ele cria uma nova frente de atrito com a Justiça e com o governo.

Quartiero já enfrenta ações na área ambiental. Técnicos da área ambiental que estiveram em sua fazenda o acusam de ter destruído matas ciliares, áreas de preservação permanente, além de ter poluído os rios. As multas chegam a R$ 36 milhões. Ontem, indagado sobre a possibilidade de mais atritos com as autoridades federais, ele disse que preferia não comentar o assunto. Em outro momento, comentando a saída, disse: "Perdemos. Mas vamos sair de cabeça erguida. Quem vai ficar aqui são os fundamentalistas da Igreja Católica (numa referência ao Conselho Indigenista Missionário), a serviço dos interesses internacionais."

Empresas escolheram demitir salários mais altos, indica IBGE

Instituto Humanitas Unisinos - 27/04/09

O aumento na taxa de desocupação ocorrida em março nas seis maiores regiões metropolitanas revelou que as empresas efetuaram demissões principalmente de profissionais com maior nível de escolaridade, com o objetivo de reduzir custos. A taxa de desocupação avançou 0,5 ponto percentual em março, na comparação com fevereiro, chegando a 9% e a um total de 2,082 milhões de desempregados - marcas que não se repetiam desde setembro de 2007. Desse total, 1,215 milhões de trabalhadores desocupados possuíam pelo menos o ensino médio completo. De acordo com relatório divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tal resultado indica que as empresas preferiram dispensar trabalhadores que ocupavam cargos de nível mais elevado como forma de reduzir mais rapidamente os gastos com folha de pagamento.

A reportagem é de Cibelle Bouças e publicada pelo jornal Valor, 27-04-2009.

"Pode estar havendo uma reengenharia dos cargos de alta escala. É uma forma mais rápida de cortar custos e também mais populista, já que é muito mais difícil demitir 15 ou 20 do que uma pessoa", avaliou o presidente do Instituto Brasileiro de Relações de Emprego e Salário (Ibret) e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Hélio Zylberstajn. Pelos dados do IBGE, o aumento na taxa de desocupação foi puxada pelo desemprego entre trabalhadores com oito a dez anos de estudo (cuja taxa ficou em 11,3%, ante 10,3% em fevereiro) e entre trabalhadores com mais de 11 anos de estudo (9,2%, ante 8,6% no mês anterior). Entre profissionais com menos de oito anos de estudos, a taxa ficou em 7,1%.

Na avaliação da economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thaís Marzola Zara, o processo de ajustes mais acentuado no setor industrial explica o desemprego mais expressivo nessa categoria de trabalhadores. "A indústria concentra a maior parcela desses profissionais", observou. A taxa de ocupação da indústria teve queda de 1,5% em março (no total o setor emprega 3,4 milhões de trabalhadores).

ambém houve queda de 1% no setor de intermediação financeira (3,2 milhões de pessoas) e de 0,6% no comércio (4 milhões), ambos setores que também exigem maior grau de escolaridade, observou o economista da LCA Consultores, Fábio Romão.

De acordo com Romão, a taxa de ocupação com ajuste sazonal avançou 0,1 ponto percentual de fevereiro a março, para 8,4%. "Para abril a expectativa é que a taxa de desocupação fique em 9,5% e em 8,6% com ajuste sazonal, como resultado desse processo de ajustes no mercado de trabalho", afirmou Romão. Ele associa parte da previsão ao aumento da entrada de pessoas no mercado de trabalho. Em março, o nível de ocupação manteve-se estável em relação a fevereiro, com 21 milhões de pessoas, e muito próximo do verificado em março do ano passado (20,8 milhões).

Na avaliação de Romão, parte desse ajuste também é resultado da decisão das empresas em não efetivar trabalhadores temporários nos níveis observados em 2008. Conforme o levantamento do IBGE, as empresas optaram por manter profissionais com mais tempo de casa. O tempo médio de permanência na empresa em março ficou em 153,8 semanas, 0,5 semana acima da média de fevereiro, mas 14,7 semanas a mais que a média apurada em setembro, antes do aprofundamento da crise econômica global.

Para Zylberstajn, o aumento de contratações no setor público também ajuda a explicar o aumento do tempo médio de serviço.

O supervisor técnico das pesquisas de emprego e desemprego do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Sérgio Mendonça, considerou esse aumento como reflexo da perda de dinamismo no mercado de trabalho: as empresas estão abrindo menos vagas de trabalho, temporárias e efetivas, e o resultado é uma maior estagnação do trabalhador que se mantém empregado. Um dos efeitos, observou, foi o avanço na taxa de desocupação dos jovens de 16 a 24 anos, que atingiu 21,1% em março, ante taxa de 7,2% para pessoas de 24 a 49 anos e de 3,1% para maiores de 50 anos. "Houve uma perda de dinamismo principalmente na geração de postos de trabalho com carteira, que está muito ligado ao desempenho das indústrias. É preciso ficar atento em relação às indústrias. Quando terminar o ajuste na indústria, a taxa tenderá a se estabilizar", afirmou.

Foi apontado pelos economistas como positivo o aumento na renda média - resultado associado sobretudo à inflação mais baixa. Conforme o IBGE, o rendimento médio real habitual dos trabalhadores (R$ 1.321,40) ficou estável ante fevereiro e subiu 5% em relação a março de 2008. A massa de rendimento real efetivo dos ocupados (R$ 27,4 bilhões) teve queda de 0,6% no mês e alta (5,4%) em relação a fevereiro de 2008.

Cálculo realizado pela Rosenberg apontou para os 12 meses até março, expansão de 7,1% na massa real de salários, 0,1 ponto percentual acima do acumulado em 12 meses até fevereiro. A contribuição da renda real, porém, acelerou, respondendo por 4 pontos percentuais no crescimento até março, ante 3,8% nos 12 meses até fevereiro. A LCA tem avaliação semelhante. "O INPC de 12 meses está em 5,9% e chegava a 7,2% em novembro. A inflação em declínio vai contribuir para amenizar o processo de desaceleração na massa de rendimentos que vai ocorrer nos próximos meses", observou Romão, da LCA.

Lula marca data para o real sul-americano

Instituto Humanitas Unisinos - 27/04/09

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já marcou data para anunciar seus planos ambiciosos para o uso do real nas transações da América do Sul. Esses planos avançam além da campanha feita por ele para estender aos sócios sul-americanos o mecanismo de comércio em moeda local, já lançado com a Argentina - embora sem muito sucesso até agora. Na próxima reunião da Unasul, que agrega os países da região, ainda neste semestre, Lula quer apresentar aos parceiros uma proposta que pode ampliar o uso do real nas relações entre os vizinhos.

A reportagem é de Sergio Leo e publicada pelo jornal Valor, 27-04-2009.

O mecanismo ainda não está pronto, e passa por discussões na equipe econômica, onde, jura-se no Palácio do Planalto, já existe concordância do reticente Banco Central. Sem dar detalhes da proposta, os assessores de Lula descrevem uma proposta que se assemelha à linha de swap em dólares aberta pelos EUA ao Brasil e outros países, no ano passado, pela qual os beneficiados por trocar no Federal Reserve suas moedas por dólares, até um limite e por um tempo limitado, que se esgota nesta semana. Mas terá diferenças, ao incorporar mecanismos de compensação de moedas.

Os países sul-americanos serão autorizados a sacar, do BC, uma quantia em reais, que poderão usar para o comércio com o Brasil ou até repassar a outros países no continente (que, por sua vez, poderiam usar a moeda para pagar compromissos no mercado brasileiro). Falta ainda, segundo um graduado assessor de Lula, definir o total que será posto à disposição dos vizinhos. Lula quer que seja uma quantia significativa.

O mecanismo em elaboração difere do sistema de pagamentos em moeda local já adotado com a Argentina porque ele permite o uso do real em outros pagamentos, além de operações comerciais. E permite também aos países beneficiados usar os reais adquiridos para transações com outros países. Além da óbvia vantagem para o Brasil, por permitir a maior circulação da moeda brasileira entre os países do continente, o novo sistema, segundo se argumenta no Planalto, ajudaria aos outros governos da América do Sul a reduzir sua dependência de dólares em transações internacionais na região - em um período de escassez de moeda americana no continente.

O Brasil tem superávits no comércio com todas as nações da América do Sul, à exceção da Bolívia. Os bolivianos tem déficits no comércio com os outros países, e um enorme superávit com o Brasil, graças à venda de gás ao mercado brasileiro. A cessão de dólares aos vizinhos permitira a esses países reduzir seus problemas de balanço de pagamentos em dólar, inclusive na Bolívia, que poderia usar os reais para comprar produtos de outros países andinos, ou da Argentina, por exemplo. Esses são os argumentos que Lula levará à reunião da Unasul, em junho.

Lula conversou sobre o assunto, na semana passada, em Buenos Aires com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Foi um dos principais assuntos levados por ele para a conversa privada com a presidente. O tema também foi abordado ligeiramente durante a reunião dos ministros com os chefes de Estado.

A ampliação do uso do real é um desdobramento natural da série de iniciativas que vem sendo tomada na relação bilateral, na tentativa de, progressivamente, permitir à Argentina menor dependência do dólar, já que o país, desde a decretação da restruturação unilateral de sua dívida, em 2005, tem acesso muito limitado ao mercado de capitais internacional. O Brasil, na visita, ampliou, de US$ 120 milhões para US$ 1,5 bilhão o valor das operações que podem ser firmadas sob amparo do Convênio de Crédito Recíproco (o CCR, espécie de mecanismo de compensação em moedas locais acoplado a um seguro de exportação). Firmou acordo, ainda, para que compromissos como compra e venda de energia elétrica e pagamentos previdenciários possam ser realizados em moeda local, real ou peso.

Não é a única iniciativa no continente, de redução da dependência em relação ao dólar para transações com vizinhos. Atento aos movimentos brasileiros, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reuniu seus associados na Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), pequenos países centro-americanos e do Caribe, além da Bolívia, e com Equador e Paraguai firmou um acordo para um mecanismo de compensação regional a que denominaram "sucre", embrião, segundo o venezuelano, de uma futura moeda regional.

Como muitos dos anúncios de Chávez, o "sucre" tem muito de intenção e pouco de realidade, por enquanto, já que iniciativas de livre trânsito cambial na Venezuela esbarram no rígido controle de pagamentos internacionais feitos pelo governo. Chávez, no fim de semana, recebeu o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e como outros governantes do continente, mostrou interesse no mecanismo de comércio em moeda local entre Brasil e Argentina. A conversa não foi além de perguntas interessadas do venezuelano. Não se sabe como compatibilizar o mecanismo com o controle cambial imposto no país.

A iniciativa brasileira de expandir a circulação do real no continente pode ser interpretada por dois ângulos. Um deles, se adotada a retórica com que o venezuelano Chávez cerca medidas do gênero, pode ser vista como uma medida antiamericana - o que não é - destinada a botar a colherzinha do Brasil na sopa da desconstrução dos Estados Unidos como emissor da moeda de troca mundial.

Outra interpretação, mais do agrado do governo brasileiro, é a de que a crise financeira e de confiança nos mercados mundiais ameaça fortemente as contas externas dos países da região, com quem o Brasil tem uma parcela substancial de seu comércio. Se quiser reduzir as fontes de pressão sobre as políticas comerciais dos parceiros sul-americanos e minimizar seus efeitos sobre as vendas de produtos brasileiros na região, o governo brasileiro tem de buscar mecanismos criativos e menos dependentes do fluxo de dólares para esses países. Lula mandou seus técnicos encontrarem esses mecanismos e conta tê-los em mãos, até junho.

A última do Gilmar: decisão ameaça abastecimento de água do DF

Blog do Luis Nassif - 26/abril/2009 12:22

Aproveite para admirar: brevemente aqui, prédios ...

Aproveite para admirar: brevemente aqui, prédios ...

O Conversa Afiada recebeu de navegante amigo noticia extraída do Congresso em Foco.

O Ministro Gilmar Dantas, segundo Ricardo Noblat, é aquele que retirou a credibilidade do Supremo, segundo o Ministro Joaquim Barbosa.

Por essa decisão, se verá que o Supremo Presidente do Supremo pode vir a matar o presidente Lula de sede.

25/04/2009 - 11h16
Gilmar Mendes libera sanção de polêmico projeto de Arruda
Renata Camargo

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, concedeu na noite desta sexta-feira (24) um pedido de suspensão da liminar que impedia que o Plano Diretor de Ordenamento Territorial do Distrito Federal (Pdot) fosse sancionado neste sábado (25) pelo governador do DF, José Roberto Arruda (DEM). O plano, aprovado em dezembro sob forte pressão do setor da construção civil, ameaça o abastecimento de água na região, segundo laudos de órgãos e entidades ambientais.

Segundo Gilmar Mendes, a decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF) de suspender a sanção do Pdot é “precária e proferida mediante juízo não exauriente dos elementos da causa - impede a efetivação de política pública de significativo impacto social e econômico, consubstanciada na instituição de novas regras para o ordenamento territorial do Distrito Federal, com a previsão, inclusive, da regularização de situações que há anos carecem de definição”.

O ministro considerou que a liminar, impetrada a pedido da bancada do PT na Câmara Legislativa do DF, representa violação à ordem pública por obstaculizar, “sem causa legítima”, os serviços do Executivo local. Em sua decisão, Gilmar Mendes disse também que o pedido de suspensão da bancada petista “priva o governador do DF do exercício de competência que lhe fora constitucionalmente outorgado, sem motivo legítimo para tanto”.

Pressão
Na última quarta-feira (22), o desembargador George Lopes concedeu liminar determinando a suspensão da tramitação do Pdot. Sobre o pedido de liminar da bancada do PT, Lopes definiu que o presidente da Câmara Legislativa do DF deveria solicitar a imediata devolução do projeto de lei que cria a plano de ordenamento, suspendendo a tramitação até decisão final da ação.
Segundo a bancada petista, a matéria deveria ser revista pelos deputados estaduais por destoar “dos dispositivos constitucionais e infraconstitucionais que regem a matéria, ante a ausência de transparência no detalhamento dos mapas de zoneamento, havendo, ainda, divergência na demarcação do Setor Catetinho”.

Como mostrou o Congresso em Foco, o plano de ordenamento do DF contém uma série de irregularidades ambientais, que podem levar à escassez de água na região em um prazo de dez anos. O alerta, ignorado pelo governador Arruda, foi feito pelo presidente do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), Gustavo Souto

Maior, órgão responsável pelas políticas, diretrizes e ações ambientais no DF.
O site teve acesso a um documento encaminhado por Souto Maior ao governador, meses antes da aprovação do projeto, em que técnicos consideravam um “risco ambiental”, sobretudo, a construção de um dos setores previstos no plano, o Setor Habitacional Catetinho. O governador Arruda ignorou o laudo e manteve os pontos de divergência no projeto.

A Segurança de SP e o esquema caça-níqueis

Blog do Luis Nassif - 26/04/09

Os problemas de segurança, no governo José Serra, parecem uma novela sem fim. Matéria do Estadão mostra que o ex-Secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, homem de confiança do governador José Serra, afastou delegado que estava trabalhando para denunciar os esquemas.

O depoimento do delegado Roberto Fernandes - que denunciou o esquema - não deixa dúvidas de que a cadeia de proteção chegava até o próprio Secretário de Segurança.

Delegado acusa Marzagão de omissão

(…) Fernandes está há 40 anos na polícia. É delegado de classe especial, o nível mais elevado da carreira, há 20 anos. Trabalhou no antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) com o hoje senador Romeu Tuma (PTB-SP). Ele havia sido nomeado delegado seccional de Marília em 2007. Era então considerado um homem ligado a Marzagão. Em dezembro de 2007, foi exonerado.

As acusações de Fernandes contra integrantes da cúpula da Polícia Civil e contra Marzagão constam do depoimento que o delegado prestou em sigilo, em agosto de 2008, aos promotores do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), de Bauru, que apurava o caso em conjunto com Ministério Público Federal (MPF). Segundo o procurador da República Marcos Salati, o delegado se tornou uma das principais testemunhas da acusação. Suas informações ajudaram na decretação da prisão de 33 dos 52 réus no processo por contrabando, corrupção e formação de quadrilha contra a máfia dos caça-níqueis.

Fernandes conta que estava começando as investigações quando teve de interrompê-las, por causa de sua remoção de Marília, em outubro de 2007. O policial foi primeiramente classificado na subdelegacia-geral, em São Paulo. Ele decidiu tirar 60 dias de licença-prêmio. Foi até Bauru, sede do Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-4), que comandava Marília, Jaú, Lins e outras cidades em que o delegado sabia haver arrecadação de propina da máfia do jogo.

(…) Fernandes, no entanto, contou aos promotores que, um dia depois de entregar os documentos, foi novamente removido. Desta vez, soube pelo Diário Oficial do dia 23 de janeiro de 2008 que devia deixar a subdelegacia-geral, transferido para o Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), onde assumiria a burocrática delegacia de cartas precatórias. Além disso, uma apuração preliminar foi instaurada contra ele, com base em representação de um dos delegados que acusava, o então diretor do Deinter-4, Roberto de Mello Annibal, que integrava a cúpula da polícia.

Comentário

Primeiro, houve a indicação de Lauro Malheiros Neto, como subsecretário de Segurança, para espanto dos advogados e outros membros do sistema criminal paulista. Malheiros praticamente ficou à frente da Secretaria, devido à menor experiência do secretário Ronaldo Marzagão.

Depois, começaram a pipocar denúncias sobre esquemas que estavam sendo organizados na Polícia Civil. Blogs com denúncias foram tirados do ar pelo governo do Estado.

Mais tarde, as reivindicações da Polícia Civil que resultaram em grave crise. A indecisão de Serra em negociar, a falta de jogo de cintura, fizeram com que a temperatura se elevasse gradativamente e explodisse no quebra-pau em frente o Palácio Bandeirantes, entre a Polícia Civil e a Militar.

Assustado com a repercussão do conflito, Serra imediatamente reduziu de 35 para 30 anos o período para o policial se aposentar, jogando a conta para frente. Foi na contramão de toda a discussão sobre responsabilidade fiscal x populismo.

Agora, matéria do Estadão mostra que o delegado que denunciou os esquemas de caixinha da Polícia Civil encaminhava as denúncias para o próprio Secretário Marzagão. Além de não tomar nenhuma providência, Marzagão afastou o delegado da sua base e das investigações.

O ocaso do pensamento neocon

Blog do Luis Nassif - 26/04/09

Por weden

Na matéria do Estadão (Portal) “Audácia marca largada de Obama”, há uma questão que fica de fora: o enterro da cultura neocon.

Aliás, as discussões eminentemente econômicas da crise atual ocultam seriamente o deslocamento dos valores culturais e filosóficos que vêm se dando, com o fim do pensamento único.

A matéria citada acima poderia ganhar o título “Obama, os 100 dias que enterraram a cultura neocon”

Na era neocon (aprofundada por Bush) falar em líderes populares era falar em ditadores sanguinários; usava-se a expressão Eixo do Mal, dividindo o mundo entre bonzinhos e satânicos (os opositores aos EUA, lógico); condenar Guantânamo e os métodos da Guerra do Iraque era coisa de defensores de terroristas.

No Brasil, o neocon fez escola: Veja e seus pitbuls (e seu neomakartismo de difamação de tudo que parecia-lhes de esquerda), Ali Kamel e a negação do racismo, Olavo de Carvalho com seu desdém em relação ao que ele chamava de “queridinhos de ongs” (negros e indígenas), Arnaldo Jabor chamando de atrasados todos que duvidavam do neoliberalismo.

Foi uma época em que até os livros didáticos foram queimados em praça pública (diga-se: no espaço da mídia) se trouxessem uma visão diferenciada. Època também em que qualquer coisa que “cheirasse a politcamente correto” era sarcasticamente rejeitada. Fora os pudores excessivos, é lógico que respeitar o próximo é sempre útil.

Movimentos sociais foram criminalizados, bandidos pobres mereciam única e exclusivamente execução sumária. Investimentos sociais eram vistos como gasto e desperdício.

Mesmo na academia, teóricos críticos foram caçados como bruxas, e seus escritos condenados em páginas de jornais. Falar em Adorno, Gramsci, Habermas era motivo de riso. Relativismo cultural era concessão a incapazes da história, e lembrar os horrores da colonização era rejeitar “o bem que o ocidentalismo nos fez”.

Mas…o neoliberalismo acabou, levando consigo o pensamento econômico único, o governo Bush teve fim melancólico, a política do diálogo foi ressuscitada por Obama, dando fim à opção neocon, e a disputa ideológica está mais equilibrada.

Hoje o que é neocon é que parece atrasado e sem volta. Ainda há focos de resistência no Brasil.

Mas é questão de tempo.

O modelo político de Lula

Blog do Luis Nassif - 26/04/09

Coluna Econômica - 26/04/2009

Nas colunas anteriores, analisei a maneira como se montaram pactos econômicos e políticos no país, nos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso.

O governo Lula era para ser uma ruptura com o sistema de alianças consolidado por Fernando Henrique Cardoso. Apesar das relações com o setor industrial - formada nos anos 80 - , o leque de ligações empresariais de Lula e do PT era mínimo. A rigor, os financiamentos de campanha se limitavam a fornecedores municipais.

As bases de apoio iam de centrais sindicais aos movimentos sociais. E, costurando os sistemas de financiamento, os chamados operadores do partido.
***

Desde o primeiro momento, a estratégia de Lula (e de José Dirceu) era manter as bases conquistadas e avançar sobre as bases de apoio de FHC. Através do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) foram convocados sindicatos, grandes empresários, líderes de classe, para discutir o país - embora sem nenhum poder deliberativo.

Mas a estratégia central consistiu em um pacto com o mercado - mantendo o Banco Central como território dele.

***

Na década anterior - até a posse de Lula e primeiros meses de governo - o mercado sempre foi um agente desestabilizador da política. O segundo governo FHC praticamente acabou no primeiro mês, depois da desvalorização do real. Na campanha eleitoral, o terrorismo de mercado foi brandido intensamente, ajudado pela explosão do dólar.

***

Do ponto de vista político, o primeiro governo Lula foi um desastre. As concessões ao mercado praticamente paralisaram a política econômica. A postura sumamente ortodoxa do Banco Central jogou pela janela as oportunidades abertas pela desvalorização do real. E a falta de controle sobre os militantes que ocuparam a máquina resultou no episódio conhecido como “mensalão”, que quase derruba o governo. Em vez dos grandes financiamentos no atacado, como no governo FHC, recorreu-se a um varejo suicida.

***

A reação passou a ocorrer no último ano do primeiro mandato e a partir do segundo mandato. O mercado continuou dominando o BC, mas houve aproximações sucessivas com o setor produtivo, um melhor gerenciamento das ações de governo e a consolidação de políticas sociais relevantes, como a Bolsa Família. Também se tratou de criar os próprios supergrupos aliados, como o episódio da BrOi.

Com essas ações, Lula ocupou o espaço da centro-esquerda, jogando o PSDB para a direita.

***

O ponto central, o divisor de águas, no entanto, foi o avanço do SISBIN (Sistema Brasileiro de Inteligência), pelo então Ministro da Justiça Mário Thomaz Bastos, juntando os setores de repressão ao crime organizado. Àquela altura, pouco antes da grande crise mundial, os estados nacionais começavam a se aparelhar para enfrentar os grandes capitais voláteis que se abrigavam em paraísos fiscais.

As colaborações entre países, os bancos de dados digitais, a possibilidade de rastreamento das contas bancárias, os grampos legais, a ampliação exponencial das informações disponíveis na Internet, tornaram inviável o modelo político e de tomada de poder praticado por todos os partidos e pela mídia. É uma viagem sem retorno.

Mas será tema de uma próxima coluna.

Maierovitch: O objetivo é afastar Barbosa do TSE

Site do Azenha - Atualizado em 26 de abril de 2009 às 18:52 | Publicado em 26 de abril de 2009 às 18:50

Mendes x Barbosa: desencontro longe do fim. Especulações sobre o comando das eleições em 2010

por Wálter Maierovitch

O ministro Mendes continua a entender que o seu par Barbosa não julga a lide, a controvérsia, existente nos autos processuais.

Na sua visão, o ministro Barbosa julga conforme o interesse de um estamento social, para o qual se inclina e protege.

Bastou essa infeliz colação do ministro Mendes para se iniciar uma grande especulação sobre a futura presidência do ministro Barbosa, à frente do Tribunal Superior Eleitoral, na condução das eleições de 2010.

Para o ministro Barbosa, –com todo o acerto–, o presidente do Supremo Tribunal Federal, não é o juiz dos juízes. Não tem poder para censurar qualquer dos seus pares.

Em síntese, o ministro Barbosa julga conforme a sua consciência e o solene compromisso, –quando da sua investidura no cargo–, de seguir a Constituição e as leis.

Nenhum dos dois ministros, –que protagonizaram o lamentável episódio de grande repercussão e que em “post” chamamos de “Barraco Supremo”–, recua um único passo no sentido de admitir erros e excessos. Sobre isso, deixa claro matéria de hoje do jornal Folha de S.Paulo.

A respeito da repercussão do “Supremo Barraco”, ela continua por todos os cantos do país.

Até no You Tube apareceu o “Créu do Barbosão”. Por meio do deboche, ficou claro a conseqüência do transbordamento da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF).

A provocação, com ato de censura, foi iniciada pelo ministro Gilmar Mendes. Até então, havia divergência, ainda que acirrada.

O ministro Mendes não se convence quanto a não poder tecer considerações públicas (em sessões de julgamento) de natureza censória. E é do seu hábito se exceder, inclusive na presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Mendes não tem poder de censura sobre o convencimento de um seu par. Não lhe é permitido formular juízo sobre outro ministro fora da discussão jurídica em questão, isto para não cair no ataque pessoal. Em outras palavras, Gilmar não pode se posicionar,– como fazia o inquisidor Torquemada–, nos ataques ao pensamento alheio e divergente do seu.

Vários dos pares do ministro Mendes no CNJ o consideram prepotente, “dono da verdade” e incapaz de ouvir e refletir sobre posicionamentos contrários aos que sustenta. Como desabafou um conselheiro do CNJ e os jornais ecoaram, o ministro Gilmar nem presta atenção sobre discussões, divergências.

O ministro Barbosa, –no episódio inédito ao qual chamamos em “post” anterior de “Barraco Supremo”–, foi provocado e usou daquilo que em Direito se chama de retorsão imediata.

Só que o ministro Barbosa cometeu, na retorsão, excesso de linguagem, ainda que tenha dito verdades. Ou seja, o ministro Mendes destrói a imagem da Justiça, pois prejulga, fala fora dos autos e se intromete em questões políticas, que não estão na sua alçada: disse até que chamaria o presidente Lula às falas. Fora a exigência de afastamento do delegado Paulo Lacerda, por um “grampo telefônico” até agora sem prova da materialidade: pura invenção, até o momento.

Nos tribunais, o julgamento é colegiado. Prevalece no julgamento a decisão da maioria, conforme regra básica num Estado democrático de direito.

As divergências jurídicas e factuais, debatidas num julgamento, são balizadas pela controvérsia (lide) presente nos autos.

Divergências e considerações fora do tema em debate nos autos processuais implicam em reprovação pessoal, censura própria de mentes autoritárias e que desrespeitam a Justiça.

PANO RÁPIDO. Pelo andar da carruagem, dias piores virão. Já que “tapas e barracos” não representam forma civilizada de solução de contendas, em breve, –e se o ministro Mendes insistir em censurar e continuar com ataques pessoais–, a solução virá num processo (forma civilizada) por danos morais. Felizmente, o ministro Barbosa não é de “afinar” aos poderosos.

Sobre eleições de 2010, a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e mantida a regra de escolha que recai na rotatividade estará afeta ao ministro Barbosa. Só que já começou um guerra surda para mudar a regra e saltar Barbosa. Sintomático, no particular, o apoio do partido Democrata (DEM) a Gilmar Mendes, no episódio do “Barraco Supremo”.

Já se começa a espalhar que Barbosa inclina-se para o lado dos petistas. Ou seja, um ataque infundado à sua isenção. E a meta é inviabilizar a sua escolha à presidência do TSE. Como se percebe, a elite não gosta de independentes como Barbosa, mas de engajados.

Wálter Fanganiello Maierovitch
http://maierovitch.blog.terra.com.br/

Clique aqui para ir ao blog dele

O Líbano, entre Teerã e Washington

Site do Azenha - Atualizado e Publicado em 26 de abril de 2009 às 05:50

O Irã pode oferecer mais, ao Líbano, que os EUA

7-20/4/2009, Franklin Lamb, Counterpunch (de Beirute)

http://www.counterpunch.org/lamb04172009.html

Franklin Lamb pesquisa atualmente no Líbano.

Recebe e-mails em fplamb@sabrashatila.org

Talvez soe incongruente que em 2009 a República Popular Islâmica do Irã apareça como adversário tão poderoso dos EUA na disputa pelos corações e mentes dos libaneses, população altamente sofisticada, com história de ligações com o ocidente que remontam a antes das Cruzadas.

Parece estar acontecendo exatamente isso, à medida que o poder e o prestígio do Iran rapidamente crescem e espalham-se pela região, e aprofundam-se as milenares relações que unem Irã e Líbano, ao mesmo tempo em que se vai diluindo a influência dos norte-americanos.

A extensão de o quanto Washington já "perdeu" o Líbano para o Irã começará a ser cada vez mais evidente, à medida que os restos da herança maldita de Bush, os efeitos sísmicos do massacre de Gaza por Israel e os resultados das próximas eleições no Líbano e no Irã impactem cada vez mais profundamente a região.

O desafio regional que o Líbano enfrenta é construir laços com o poder que está crescendo na região – e que não é nem Egito, nem Israel, nem Arábia Saudita: é o Irã. A civilização de 9 mil anos, convertida à Xia islâmica por intelectuais libaneses em 1501, parece estar estrategicamente aliada ao Líbano, à Turquia, à Síria e à Rússia, em competição com os signatários de Camp David (apesar de Hosni Mubarak dizer o contrário), pelo status de "player" principal.

O Líbano está afastando-se do relacionamento com os EUA depois de anos de colaboração com Israel comprada e forçada pelos EUA. Os libaneses parecem estar começando a perceber, depois da destruição, em julho de 2006, na quinta guerra de Israel contra o Líbano, e depois do massacre de Gaza em dezembro de 2008 (11º ataque de Israel contra a Palestina), que o estado sionista deseja mais terra; que não deseja a paz; e que, dado que Israel já ocupou Washington DC, o futuro do Líbano tem de ser a resistência, não a obediência. Em resumo, muitos no Líbano começam a desejar um aliado confiável, não a continuação da pressão pelos EUA para manter a colaboração com Israel.

O Irã oferece mais dinheiro ao Líbano

A embaixada dos EUA, dia 14/4//2009, depois de revisar as previsões internas para eleições que se consideram em Washington como fatídicas para Israel, anunciou, exatamente às 14h35, que “os EUA entregarão ao exército libanês 12 teleguiados Raven imediatamente” (atenção: antes da eleição).

Apenas três horas depois, às 17h55 do mesmo dia 14/4, a embaixada americana liberou um segundo comunicado à imprensa: “Os EUA entregarão ao ministério do Interior 1,7 milhão de dólares como ajuda para enfrentar novos desafios durante as eleições”. Depois, o comunicado foi emendado: "Para enfrentar responsabilidades eleitorais".

Meia hora depois, a USAID (United States Agency for International Development) e Denise A. Herbol, diretora da Missão no Líbano elaboraram as ideias e resolveram explicaram que o dinheiro dos EUA serviria para oferecer "assistência técnica" durante as eleições. A USAID ainda desempenha papel importante nas eleições no Líbano, como sempre fez desde que lá chegou em 1951.

[Nota histórica sobre a USAID: Dia 18/4 completam-se exatamente 26 anos do 18/4/1983, 13h, quando Bill McIntyre, diretor da USAID, e a jornalista norte-americana Janet Lee Stevens sentaram-se para almoçar. A jornalista havia ido à embaixada dos EUA, à beira-mar, na Paris Avenue, para discutir política norte-americana e a necessidade de ajuda urgente a ser encaminhada a palestinos e xiitas libaneses, arrancados de suas casas no sul do Líbano pela invasão israelense de 1982. Sentaram-se para almoçar na cafeteria da Embaixada. Instantes depois, o bloco central do prédio da embaixada ruiu, efeito de quase uma tonelada de explosivos carregados para dentro da embaixada num caminhão roubado em 1982. Bill e Janet tiveram morte instantânea. Ano passado escrevi longamente sobre ela.]

Michele Sison, embaixadora dos EUA no Líbano, que testemunhou a assinatura do acordo, alterou ainda mais uma vez os termos; disse que o dinheiro ajudaria "na tabulação dos resultados eleitorais.”

Alguns libaneses não acreditaram nas frenéticas explicações para a distribuição de dinheiro, e um apoiador do Hizbóllah e funcionário da embaixada (há alguns, sempre discretíssimos: "Eu adoraria visitar Dahiyeh [bairro onde a maioria são membros do Hizbóllah], mas não se pode ir a lugar algum!”) disse que os 1,7 milhão de dólares "acabariam rolando por aí, no dia das eleições".

O Irã (mais de 90% são xiitas) e o Líbano (cerca de 52% de xiitas) estão cada vez mais interligados mediante milhares de casamentos, profundos valores culturais e religiosos e, também, por laços políticos e econômicos cada vez mais frequentes.

A ajuda dos EUA a Israel já ultrapassou 160 bilhões de dólares ao longo de 40 anos. Dependendo de como seja calculada hoje, são de 8 a 15 milhões por ano. Os libaneses também já percebem que, nas duas últimas décadas, até que se configurou a possibilidade de o Hizbóllah aliado do Irã ganhar a maioria no Parlamento nas eleições que acontecerão dentro de dois meses, a ajuda dos EUA ao Líbano alcançou o máximo de 35 milhões de dólares, num ano bom. Em 2006, a ajuda militar ao Líbano totalizou 410 milhões de dólares; e só armas leves a serem usadas dentro do Líbano, imprestáveis para a defesa do país contra agressões de Israel.

O novo governo libanês muito provavelmente reconhecerá a legitimidade do Hizbóllah como movimento armado, integrando a capacidade militar da Resistência Libanesa ao exército libanês, mediante fórmula que está sendo negociada. Pela primeira vez na história, o Líbano não estará sujeito à ameaça de invasão e ocupação israelenses. E muitos libaneses esperam que o Líbano venha a ter papel importante no retorno à Palestina de cerca de 400 mil refugiados.

O Irã ofereceu ajuda financeira ao Líbano mais de dez vezes superior à ajuda norte-americana nos últimos 25 anos. O Líbano foi praticamente destruído com armamento dos EUA em 2006. Bem feitos os cálculos, a ajuda que o Irã oferece ao Líbano é cerca de 75 vezes maior que a ajuda recebida dos EUA.

O Líbano do século 21 já não se deixa impressionar pela lista de "organizações terroristas", por critérios dos EUA, na qual, por 12 anos, estiveram incluídos o Hizbóllah e, em 2006 e 2008, duas das principais empresas libanesas que trabalham na reconstrução, a Jihad al Bina e a Waad [promessa].

A mídia libanesa e várias ONGs têm perguntado a funcionários dos EUA que visitam o Líbano, o que significaria dizer que "terroristas" trabalham para reconstruir casas, escolas, hospitais, igrejas, mesquitas, bibliotecas e livrarias destruídas por Israel ao longo de mais de 40 anos e sempre com armamento norte-americano.

Outro fator que influencia a atitude dos libaneses a favor do Irã e contra os EUA são as experiências dos familiares dos combatentes que enfrentaram e/ou foram vítimas das muitas agressões israelenses ao Líbano, que se repetem desde dos anos 60. Apesar da relação de amor e ódio entre os libaneses e os 400 mil refugiados palestinos e apesar de o quanto uns tenham maltratado os outros várias vezes, desde a chegada das vítimas da catástrofe da Palestina de 1947-8 (a Nakba), enorme maioria dos libaneses apoiam e defendem o Direito de Retorno dos palestinos – que o Irã também apoia e defende, talvez até mais ativamente que o Líbano. Mas não há dúvida de que Líbano e Irã desejam o que os refugiados palestinos desejam: que os palestinos possam voltar à Palestina, sua terra.

Ao longo do ano passado, todos sentiram o renascimento da solidariedade dos libaneses à causa dos palestinos, que já está sendo abertamente defendida, sobretudo depois do massacre de Gaza. Já há solidariedade regional à resistência de todos contra os terroristas israelenses.

O Irã é visto como aliado mais ativamente solidário que o Líbano, porque a maioria dos muçulmanos libaneses não são religiosos praticantes; mas, como a maioria dos iranianos, os libaneses também respeitam os padrões corânicos de justiça e já se vê que, como o Irã, o Líbano não concordará com o que EUA e Israel exigem hoje: que esqueçamos o Direito de Retorno dos palestinos. Os libaneses reconhecem esse direito – que é internacionalmente reconhecido. E o vêem como ponto central da causa de todos os árabes, de todos os muçulmanos e de todos os homens e mulheres de boa-vontade em todo o mundo.

A posição de Irã e Líbano sobre a Palestina é mais evidente sobretudo entre as novas gerações de libaneses. Essa posição implica reconhecer que o projeto da "indústria do processo de paz", que já se arrasta por mais de 50 anos, foi fraude, conduzida por "negociadores" desonestos e sem qualquer "parceiro da paz" entre os representantes de Israel.

Por isso, tantos desconfiam tanto, hoje, do discurso do governo Obama sobre "a inevitabilidade de dois Estados" e "o imperativo de uma solução justa" – que veem como mais conversa, enquanto Israel continua a roubar terra dos palestinos e a matar mais palestinos.

Os libaneses hoje veem cada vez mais claramente a verdade do que a história lhes ensinou em seu próprio país, com ajuda do Irã: que a ocupação sempre cria resistência cada vez mais forte; e que a força e a determinação dos que resistam à ocupação e que se sacrificam para defender a justiça sempre derrotou e sempre derrotará o poder militar da ocupação. Os libaneses orgulham-se de suas vitórias contra Israel em 2000 e 2006, possibilitadas pela assistência que receberam do Irã; e todos sabem que os EUA forneciam armas e soldados a Israel, na guerra que há mais de 60 anos mata libaneses.

Iranistão no Líbano, ou conspiração xiita (Egito-Jordânia-sauditas)?

Enquanto alguns críticos da Resistência Libanesa fazem piada sobre "Divinas Vitórias" ou "as montanhas da vitória" (das ruínas deixadas no Líbano pelas bombas israelenses), a atual campanha que o Egito move contra o Hizbóllah e Hassan Nasrállah é vista no Líbano como ataque ao Líbano; e é reação contra os laços cada vez mais fortes que ligam o Líbano e o Irã.

A reação dentro do Líbano, que varia conforme a seita, está sendo vista como se o "novo faraó do Egito", Hosni Mubarak, se tivesse posto a blasfemar contra o patriarca maronita libanês, contra o grande aiatolá xiita, contra o iman sunita, contra o líder tribal dos druzos, contra o bispo armênio ou contra Rafiq Hariri, mártir. O Líbano está ofendido. As críticas são consideradas como parte da campanha eleitoral para eleger o grupo 14 de Março, apoiado por EUA e Israel nas próximas eleições.

Depois de descoberto "o complô", e na sequência do mesmo complô, Shimon Peres, um dos principais implementadores das ambições colonialistas sionistas aproveitou e deixou vazar que o Mossad israelense auxiliara a inteligência do Egito; declarou também, sempre rápido, que "é inevitável o confronto entre o leste do Irã sunita e a minoria xiita não árabe que busca tomar o poder. Mais cedo ou mais tarde, o mundo verá que o Irã aspira a controlar todo o Oriente Médio e tem ambições colonialistas."

Poucos libaneses supõem que o Hizbóllah deseje uma república islâmica como a iraniana no Líbano, ou que o Irã tenha algum objetivo semelhante a esse. O slogan "República Islâmica do Líbano" é coisa do início dos anos 80 e tem sido repetidamente rejeitado pelo Hizbóllah.

Foi evento circunstancial de propaganda, da época em que o Hizbóllah recrutava quadros, em disputa contra Amal e outros 30 grupos -- nas palavras de um recrutador do Hizbóllah no vale do Bekaa, perto de Nabysheet, e que ajudou a construir o Hizbóllah há 26 anos. Alguns políticos anti-Irã ainda tentam requentar o velho slogan, mesmo que poucos libaneses lhes deem ouvidos.

Muitos libaneses, que querem manter boas relações com EUA e com o Irã, entendem que diferentes governos dos EUA perderam muitas oportunidades para construir diálogo produtivo com o Irã por conta das agendas dos EUA, foram sempre inflexíveis em favor de Israel.

Já ninguém duvida de que o Irã já "venceu" a questão de construir capacidades nucleares; que terá os reatores que quiser ter; e que, se decidir ter bomba atômica, também terá.

Os libaneses gostaram da ideia de que o governo Obama abandonaria para sempre a exigência do governo Bush de impor, como condição para conversações de paz com os EUA, que o Irã desistisse de seu programa nuclear.

Os libaneses tampouco aceitam o espetáculo de nove países que, todos, têm bombas atômicas, tentarem impedir que o Irã use a energia nuclear para fins pacíficos... ao mesmo tempo em que nenhum daqueles países fala em acabar com seus próprios arsenais nucleares. Os libaneses também sabem dos muitos relatórios da inteligência dos EUA que já informaram que o Irã não trabalha para construir armas nucleares. Também sabem que, no governo Obama, o orçamento militar aumentou. Também sabem que os EUA gastam (também na produção e armazenamento de bombas atômicas) muito mais que todos os países do mundo, somados.

Segundo editorial de um diário de Beirute,

“Se a comunidade internacional tenciona seriamente manter o Oriente Médio livre de armas nucleares, o Conselho de Segurança da ONU pode começar por exigir o desativamento de todo o arsenal militar já instalado no Oriente Médio [quer dizer: em Israel], como condição para proibir que outros países produzam armas atômicas. A menos que trabalhe nessa direção, quem pode levar a sério a proposta de desarmamento do governo Obama? O Irã já propôs a criação de uma área desnuclearizada no Oriente Médio. A iniciativa iraniana foi ignorada, apesar de contar com o apoio de todas as nações da região, exceto Israel."

Dada a evidência de que o "desarmamento" proposto por Obama não acontecerá em futuro próximo, muitos libaneses já apoiam a iniciativa iraniana de construir poder de contenção, como meio para tentar impedir que Israel inicie uma sexta guerra contra o Líbano.

Professor de ciência política da Universidade do Líbano, que participou da exposição "Jerusalém, Centro da Cultura Árabe", integrada à exposição de cultura palestina organizada em Beirute pela UNESCO, inaugurada dia 12/3/2009, explicou:

"O Iran e a Resistência Muçulmano-cristã Libanesa impedirão que Israel ocupe o Líbano. As promessas de apoio dos EUA, de que defenderão a soberania do Líbano com algumas armas visam apenas a seduzir seus amigos, com vistas às próximas eleições. Observem, para ter certeza, o que farão os EUA, se a oposição vencer as eleições de 7/6/2009.

Os EUA não são confiáveis. O Irã é aliado do Líbano há centenas de anos. Nem todos concordam com todas as diferentes interpretações do Islam, mas todos são islâmicos e é mais fácil construir diálogos entre grupos islâmicos do que entre qualquer grupo islâmico e os EUA.”


Os esforços de EUA e Israel para demonizar o Irã na opinião pública libanesa, tentando apresentar os iranianos como fundamentalistas islâmicos fascistas, falharam.

Apenas 46% dos libaneses, conforme pesquisa recente feita pelo "Pew Charitable Trusts Global Values Project", concordaram com a frase "A religião é muito importante para mim", contra 90% da população muçulmana que declarou que respeita as ideias dos cristãos.

Sentimentos desse tipo são prova da tolerância religiosa no Líbano, e de que os libaneses sabem conviver com a diversidade; também explicam por que tantos libaneses não-religiosos apoiam o Hizbóllah (que é movimento político religioso). O apoio político não depende da religião e é resultado do apoio que os libaneses dão aos amplos programas de assistência social oferecidos gratuitamente pelo Hizbóllah e que nada têm a ver com algum puritanismo khomeinista.

A insistente repetição da propaganda do lobby israelense, de que o Irã terá bomba atômica "em poucos meses" e que isso implicaria ameaça mortal ao Líbano, faz rir os libaneses. Todos sabem que Israel tem entre 250-400 bombas nucleares. Golda Meir até ameaçou usá-las. A ameaça serviu para obrigar o então presidente Nixon a entregar quantidades massivas de armas a Israel, que saíram dos depósitos da base aérea Clark, nas Filipinas, durante a Guerra do Ramadam, em outubro de 1973.

"Será a confissão de Bibi, no Pessah?"

“O maior de todos os perigos, para Israel e para toda a humanidade, está na possibilidade de surgir um governo radical armado com bombas atômicas" –Netanyahu discursou para seu recém-formado gabinete, mês passado. Tentava falar do Irã. A frase de Netanyahu é hoje piada, no Líbano: o que ele disse aplica-se perfeitamente a Israel, único regime radical armado com bombas atômicas que há hoje no mundo. "Será a confissão de Bibi, no Pessah?" – ouviu-se num programa humorístico, da televisão libanesa, essa semana.

O discurso de culto messiânico apocalíptico de Netanyahu, contra o Irã, é a mesma toada e vem da mesma Israel que, nos anos 80, tentava enfraquecer o Iraque; contra nação que, em 500 anos, jamais invadiu países vizinhos e viveu em paz, valorizando mais a estabilidade que aventuras militares colonialistas, enquanto Israel não faz outra coisa além de atacar todas as fronteiras que a cercam e invadir terra alheia, há 60 anos.

Dennis Ross, fantoche que fala pelo lobby israelense-norte-americano, que efetivamente promovia interesses israelenses, não interesses norte-americanos durante os governos Clinton e Bush (hoje, inexplicavelmente, solicitou acesso ao arquivo do Irã [da inteligência dos EUA]), só fala do risco de Israel ser aniquilada por um Irã "nuclear". Sua única preocupação é que um Irã nuclear, com poder de contenção na região, ponha fim à dominação israelense, e que os governos do Irã e do Líbano, trabalhando coordenadamente, forcem concessões territoriais significativas (inclusive a volta de Israel para trás da fronteira demarcada em 1967) e avanço dramático na paz em todo o Oriente Médio.

Algo bem próximo disso já apareceu em fala de Netanyahu, quando disse recentemente a Jeffrey Goldberg, da [revista] Atlantic que “um Irã armado com bombas atômicas provocaria alteração sísmica no equilíbrio de poder em nossa área". O embaixador libanês dos Direitos Humanos, Ali Khalil, concorda: “O Irã só é ameaça para o sionismo – como o Hizbóllah e todos quantos lutam na crescente resistência palestina e na resistência internacional contra o terrorismo de Israel.”

Na opinião dos libaneses, como observou semana passada o embaixador russo, Sergei Kislyak, o Irã não representa nenhum tipo de ameaça nem para os EUA nem para o Líbano.

O lobby israelense não está completamente satisfeito com Obama. O discurso de posse de Obama, de que seu governo aprofundaria relações com estados rivais e que "estenderia a mão [a quem] abrisse o punho cerrado" foi recebido com olhares gelados, pelo lobby israelense.

Quando, apenas duas semanas depois da posse, Obama disse aos líderes reunidos na Turquia que"queremos que o Irã assuma o lugar que lhe cabe na comunidade de nações, politicamente e economicamente" e acrescentou que os EUA apoiarão "os direitos do Irã ao uso de energia nuclear para fins pacíficos, sob supervisão rigorosa", o discurso foi interpretado como muito distante dos limites fixados pelo lobby israelense. Que fim teriam levado as palavras ameaçadoras de Hilary, que falara de cercar o Irã com armas nucleares dos EUA?

O Líbano não tem interesse em escolher entre Teerã e Washington

Com os atuais recursos naturais já conhecidos (estão sendo prospectados poços de gás e petróleo no oceano) o Líbano continua a trabalhar para desenvolver as indústrias do turismo e bancária, segundo, em linhas gerais, o modelo suíço. Muitos, no Líbano e no Irã esperam para saber o que haverá de verdade nas palavras do governo Obama.

Um dos principais líderes religiosos libaneses, o Aiatolá Mohammad Hussein Fadlallah, respeitadíssimo no Líbano, no Irã e em todo o Oriente Médio, disse aos fiéis, nas orações da manhã na última 6ª-feira, que “ouvimos belas palavras do novo governo dos EUA. Mediante diálogo e discussão honesta e discutindo livremente todas as preocupações dos dois lados, poderemos resolver nossos desentendimentos e construir melhores condições de vida para nosso povo”.

O Líbano resistirá à pressão dos EUA para conter as relações cada dia mais amplas com o Irã, como resiste à herança dos anos Bush, segundo a qual "ou conosco ou contra nós". A ampla maioria dos libaneses prefere ter boas relações com ambos, Teerã e Washington e nada disso mudará, seja qual for o resultado das urnas no próximo 7/6.

Se se analisam os fatos com seriedade, é o governo Obama quem tem de optar por construir relações normais com o Oriente Médio e boa parte do mundo, respondendo assim à mudança de ventos na opinião pública nos EUA, em relação aos crimes que Israel comete e ao apoio que os EUA sempre deram à expansão sionista. Depende dos EUA. A escolha que fizerem determinará o futuro da presença e do status dos EUA em todo o Oriente Médio.