"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música"
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, janeiro 19, 2009

A fábrica do mundo se racha

Instituto Humanitas Unisinos - 19/01/09

A crise forçará milhões de trabalhadores chineses a voltar para seus povoados neste ano. Pequim teme que se produzam os maiores protestos sociais desde 1989.

A reportagem é de José Reinoso, publicada no jornal El País, 14-01-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A enorme praça que dá entrada à estação de trem de Guangzhou, capital da província Guangdong, no sul da China, é um formigueiro às sete da tarde. Centenas de emigrantes descansam no chão, juntos aos fardos nos quais apertam seus pertences. Rostos cansados, olhares perdidos. Os restos de comida e as folhas dos jornais falam de longas horas de espera. Sob o slogan “O processo de abertura e reforma continua”, um telão rompe a noite com imagens de praias paradisíacas e águas azuis. Uma visão muito diferente da realidade desses antigos camponeses, que se viram obrigados a regressar para seus povoados frente à falta de atividades ou o fechamento das fábricas nas quais trabalhavam no delta do rio Perla – o principal centro manufatureiro do país – por causa da crise.

Chen Jian (nome fictício), de 23 anos, chegou à estação há 13 horas. “A fábrica de maletas em que eu trabalhava tinha, há alguns meses, entre cinco mil e seis mil empregados. Eram 10 horas por dia, sete dias por semana. Agora, não há mais de cinco horas, três ou quatro dias, e o salário baixou de cerca de dois mil yuans (220 euros) para 1,3 mil (145 euros). Não nos demitiram, simplesmente reduziram o número de horas, e já não compensa”, assegura esse nativo da província de Sichuan.

A situação se reproduz entre muitos dos viajantes que esperam a saída de seus trens sob o olhar dos policiais. Forçados pela falta de trabalho, decidiram ir para suas casas para passar as festas do Ano Novo chinês, semanas antes do que teriam feito normalmente.

O processo de reforma e abertura lançado por Deng Xiaoping há 30 anos converteu a China na fábrica do mundo. Mas a queda da demanda estrangeira desferiu-lhe um duro golpe. As exportações caíram 2,8% em dezembro, a maior queda em 10 anos. Já retrocederam 2,2% em novembro, a primeira vez que experimentavam uma queda em mais de sete anos. Milhares de empresas anunciaram o fechamento. A crise se somou ao efeito que já tinham as maiores exigências de qualidade, leis trabalhistas e ambientais mais restritas e a valorização do yuan.

O presidente chinês, Hu Jintao, assegurou que o país enfrenta, neste ano, uma situação “muito sombria” no trabalho, e que enfrentar a crise vai ser uma “prova da capacidade do Partido Comunista para governar”. O Banco Mundial prevê que a economia chinesa irá crescer 7,5% em 2009, o valor mais baixo dos últimos 19 anos. O governo prevê 8%. O Fundo Monetário Internacional e o Royal Bank of Scotland prognosticam 5%, a pior cifra desde a revolta de Tiananmen, em 1989.

A desaceleração econômica poderia forçar o fechamento de 20% das fábricas de Guangdong, segundo organizações trabalhistas da província. Alguns economistas calculam que 20 milhões de emigrantes dos 160 milhões que existem no país poderiam ver-se obrigados a regressar aos seus povoados neste ano.

O governo fixou como “prioridade nacional absoluta” manter o crescimento para criar empregos e reagiu com medidas taxativas ante o risco de que a instabilidade social dispare. No começo de novembro, aprovou um plano financeiro no valor de quatro bilhões de yuans (440 milhões de euros) até 2010 para reativar a economia, impulsionar o consumo interno e reduzir a dependência das exportações, que representam 40% do produto interno bruto, e pediu aos empresários que não realizem demissões em massa.

O impacto da crise se nota inclusive na própria capital de Guangdong. Nas lojas da rua Shang Jiu, uma das mais animadas de Guangdong, agitam-se os cartazes anunciando saldos. “A crise piora. A fábrica fechou. Jogo completo de lençóis por 50 yuans [5,5 euros]”, diz um deles. “Casacos de pele. Antes, 1.280 yuans [142 euros]. Agora, 99 [11 euros]. Para pagar os créditos da indústria”, assinala outro. Realidade ou ferramenta publicitária? O fato é que “os clientes não compram”, afirmam os vendedores.

Para provar como a crise mundial está afetando a China, o melhor é viajar para Dongguan, a 60km ao leste de Guangzhou. Todas as estradas que conduzem a Dongguan – que passou de 1,1 milhões de habitantes em 1978 para 8,7 milhões em 2007 – estão ladeadas por fábricas. Algumas são grandes complexos industriais com várias dezenas de milhares de operários. Outras, oficinas familiares. Aqui são produzidos desde componentes eletrônicos até jogos, sapatos ou relógios. Todos esses artigos que, graças a seu baixo preço, inundaram o planeta e permitiram à China converter-se na quarta economia do mundo.

O céu cinza, os imóveis ocres, a contínua sucessão de áreas industriais e os guarda-pós de trabalho pendurados nas sacadas dos prédios de dormitórios anexos às fábricas imprimem um ar triste à região.

Mas muito desses uniformes de trabalho já não balançam no ar. Muitas oficinas deixaram de produzir, e os blocos de dormitórios se elevam sem inquilinos, como gigantes adormecidos. Em outubro, fecharam 700 empresas em Dongguan. O governo de Guangdong pretende aumentar o nível tecnológico das empresas na província, e por isso impulsionou também o deslocamento de algumas companhias para o interior do país. “Esvaziar a jaula para deixar lugar para os novos pássaros”, disse Wan Qingliang, vice-governador da província.

Em uma das ruas da cidade, dorme uma oficina que nem sequer foi inaugurada, surpreendida na contramão pela crise. Sobre as paredes das fábricas vazias repete-se a frase “aluga-se” e números de telefone escritos em cartazes de intenso vermelho. “O empresário que a alugava há mais de três anos desmontou a fábrica há duas semanas por causa da crise. Esperemos que, após as férias do Ano Novo chinês, as pessoas voltem para continuar os negócios”, diz Wang, uma mulher que responde em um desses números.

As fábricas que não fecharam diminuíram a atividades, e seus trabalhadores se veem obrigados a permanecer nos dormitórios ou a perambular ociosos pela cidade, na qual, além das lojas, restaurantes e karaokês, há muito pouco. “Só trabalhamos cinco horas diárias de segunda a sexta. E nas casas, que são de oito a dez pessoas, agora estamos entre quatro ou cinco”, explica Wang Shuang, uma menina magra de 19 anos, enquanto passeia por um mercadinho acompanhada por sua irmã gêmea, Wang Fang.

Apesar de ganhar menos, as duas jovens decidiram aguentar na empresa de componentes eletrônicos, já que, em seu povoado da província de Guizhou, uma das mais pobres da China, há pouco para se fazer. “Depois das festas, nós voltaremos. Aqui é mais desenvolvido”, dizem, enfiadas em jeans justos. “Para esses emigrantes, é muito difícil retomar o trabalho e o estilo de vida que tinham antes de deixar seus povoados”, assegura Yuen Pau Woo, presidente da Fundação Ásia Pacífico do Canadá. “No entanto, o pacote de estímulo fiscal aprovado por Pequim pode criar empregos em outras áreas”.

Desorientados frente a quebra de seu negócio ou a perda do emprego, alguns empresários e trabalhadores acodem a Zhou Qingfang, um adivinho e curandeiro que oferece seus serviços em uma rua de Dongguan. “Perguntam-me qual sócio buscar, o que fazer depois de ficar sem emprego, e eu, em função de seu nome, da data de nascimento ou do seu elemento chinês, lhe sugiro a direção que devem seguir”, diz esse homem de 70 anos, quinta geração familiar de videntes. “Há uns meses, vinham 10 ou 20 pessoas por dia. Agora, são mais de 30”, afirma Zhou.

Uma centena de quilômetros a sudeste, no porto de Shenzhen, na fronteira com Hong Kong, e uma das principais vias de saída das mercadorias da fábrica do mundo, percebe-se claramente a crise. “Desde o começo de setembro, saem muito menos containeres. A atividade caiu mais de 30%”, assegura Zhang Qingshen, empregado de uma das empresas que operam no terminal internacional de Shekou.

“Não vou embora até que me paguem”

O fantasma da greve é uma das maiores preocupações do governo chinês, já que a precariedade do sistema de segurança social converte a falta de trabalho em uma bomba-relógio nesse país de 1,3 bilhões de almas. Para o Partido Comunista Chinês, que buscou, em grande parte, legitimar-se no poder graças ao rápido desenvolvimento econômico, está em jogo também sua própria sobrevivência.

Desde que a crise começou, multiplicaram-se os protestos. É o caso da empresa Jiang Rong, que se dedicava à fabricação de bolsas e maletas. Seu proprietário, taiwanês, desapareceu no dia 15 de dezembro, devendo dois meses e meio de salário aos 300 trabalhadores e três meses de aluguel da fábrica e as contas de água e eletricidade.

Os empregados foram às ruas para pedir às autoridades locais seus salários, mas estas responderam que só pagariam 60%, segundo diz um cartaz colado na porta da fábrica, situada em um bairro poeirento dos arredores de Dongguan. Após reclamar em vão ao Departamento de Trabalho, se dirigiram em manifestação aos escritórios do governo local. Mas foram recebidos a golpes pela polícia. No dia 24 de dezembro, a fábrica deixou de dar refeições, e, depois de 10 dias de protestos, os trabalhadores se resignaram, pegaram o que lhes foi oferecido e foram embora.

Salvo uns quantos. “A três de nós não deram nem sequer 60%”, afirma Dai Houxue, de 30 anos, de Guizhou. “Mas não irei até que paguem o que me devem”.

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